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A eternização da cidade de Manaus na crônica hatouniana

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

CINTRA, Fernanda Reis [1]

CINTRA, Fernanda Reis. A eternização da cidade de Manaus na crônica hatouniana. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 09, Ed. 09, Vol. 01, pp. 103-126. Setembro de 2024. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/cronica-hatouniana, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/literatura/cronica-hatouniana

RESUMO

Este estudo teve como objetivo identificar como o escritor Milton Hatoum utiliza a crônica literária como meio para eternizar a cidade de Manaus presente em suas recordações. Foram selecionadas para análise, vinte e cinco crônicas do livro Um solitário à espreita (Hatoum, 2013), a partir das quais foram catalogados os espaços e termos mencionados pelo autor. Para essa discussão, apoiamo-nos nos conceitos de escrita como meio de eternização e suporte da memória (Assmann, 2011), reflexões sobre a poética do espaço (Bachelard, 1978) e a crônica como recorte da memória (Hatoum, 2013), além do aporte de diferentes autores sobre a definição da crônica enquanto gênero literário e sua estreita relação com o espaço urbano.

Palavras-chave: Um solitário à espreita, Manaus, Crônica, Memória, Suporte.

1. INTRODUÇÃO

Iniciamos a leitura de Um solitário à espreita (2013), do escritor amazonense Milton Hatoum, com uma nota do autor. Nela, o cronista nos explica a estrutura do volume, as possíveis nomenclaturas que o leitor pode utilizar para classificar os textos que compõem a obra e faz uma linha do tempo de sua produção cronística em diferentes periódicos do Brasil até aquele momento (fim dos anos de 1970 até o ano de 2013).

A partir da leitura de uma expressão mencionada por Hatoum em sua nota, despertei-me para a ideia de utilizar a obra como base do artigo de conclusão da disciplina de Literatura, Memória e Cultura, do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Amazonas (PPGL/UFAM)[2]. Ao esclarecer que os textos selecionados “podem ser lidos como crônicas, contos ou breves recortes da memória” (p. 4, grifo nosso), o escritor nos proporciona uma boa ilustração da fala de Aleida Assmann sobre a escrita como meio (medium) de eternização e suporte da memória (2011), tema sobre o qual nos aplicaremos neste artigo.

Ler os recortes da memória de infância e juventude de Hatoum faz com que queiramos nos transportar em alguns momentos para aquela cidade natal recordada de forma tão afetuosa. Como manaura, identifiquei a maioria dos espaços que participam das lembranças do autor. Entretanto, a visão de Hatoum em relação a cidade é única, pois também incorpora suas experiências pessoais enquanto morador. Alguns dos espaços citados por ele já não existem mais, ou foram abandonados com o passar dos anos. Como bem assinala o escritor em uma das crônicas do volume, um dos graves problemas de Manaus é o apagamento da memória urbana, que ao seu ver, parece irreversível (Hatoum, 2013, p. 141).

Por muito tempo a crônica foi considerada pela crítica como um gênero literário menor, por não ser, nas palavras de Candido (1992a, p. 13), “uma literatura feita para durar”. Entretanto, para o teórico, a efemeridade da crônica é um aspecto positivo, pois a aproxima da nossa realidade. Martins (2010) também observa que o tema da crônica é o cotidiano “e/com suas relações humanas” (p. 107) e a cidade é um mote comum para ela (p. 110).

Dos 96 textos selecionados para a publicação, 26 mencionavam a cidade de Manaus. O texto “Dilema” (Hatoum, 2013, p. 236-237) foi excluído da análise por apresentar características mais próximas do gênero conto do que do gênero crônica[3]. Após o fichamento dos textos, foi possível observar como Hatoum identifica a necessidade de nomear os espaços da cidade de Manaus para eternizá-la em sua escrita. Também se utiliza de apostos em vários trechos da sua narrativa, para enfatizar a importância que o espaço possui dentro do evento recordado. Além dos espaços propriamente ditos, foram considerados alguns termos relacionados que ajudam a compor a ilustração da cidade, utilizados pelo autor, sobretudo, na descrição dos problemas estruturais de Manaus.

2. A ESCRITA COMO MEIO DE ETERNIZAÇÃO E SUPORTE DA MEMÓRIA

Em Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural, Aleida Assmann (2011, p. 24) dedica uma parte de sua obra para falar sobre as mídias, “que flanqueiam a memória cultural como suportes materiais dela, e que interagem com a memória individual de cada um”. A escrita é, segundo a autora, a principal metáfora da memória e, apesar de seus 2500 anos de existência, vê-se atualmente “rendida pela megatropia da rede eletrônica”. Além disso, ela se desenvolve sempre mais na direção de estabelecer ligações e armazena coisas diferentes e de maneira diferente que outras mídias, visto que a mesma acompanha a língua (Ibid. p. 24-25).

De acordo com Assmann (2011), os antigos egípcios já enalteciam a escrita como meio mais seguro da memória. Enquanto suas construções e monumentos jaziam em ruínas, seus textos ainda eram copiados, lidos e estudados: “Um papiro do século XIII de nossa era compara a força preservadora de túmulos e livros e chega, com isso, ao resultado de que a escrita é uma das armas mais eficientes contra a segunda morte social, o esquecimento” (p. 195).

Mas a escrita não é somente um meio de eternização: ela é também um suporte da memória. É, ao mesmo tempo, “medium e metáfora da memória” (Assmann, 2011, p. 199). De acordo com Assmann (2011, p. 199), a escrita é a mais antiga e ao mesmo tempo mais atual metáfora da memória. Entretanto, ela também foi vista “como antagonista e destruidora da memória” pois, ao eternizá-la de forma melhor e com mais facilidade, passou a promover sua apatia.

Recordando Platão, Assmann (2011, p. 200) pondera que a escrita, na função de armazenamento, pode superar a memória, mas nunca poderá assumir a função de recordação. “A parte energética, produtiva e indisponível da memória, que Platão associou ao conceito de anamnesis, sequer pode ser tangenciada pelo medium da escrita, que dirá substituída por ele”. A escrita pode oferecer apenas um “simulacro de sabedoria” e um “apoio pobre e material”. “As promessas da escrita são, portanto, ilusórias: ela pode apenas fazer recordar aquele que sabe, nunca ensinar a quem não sabe” (Idem).

De acordo com Assmann (2011), a visão de Platão foi refutada por Richard de Bury em Philobiblon (1345). Para ele, a escrita significa visibilidade e sensibilidade. Já o Soneto 77 de Shakespeare tratou sobre a “força memorativa das letras” de forma pragmática (Assman, 2011, p. 201), concedendo-lhe à escrita um papel bem maior que o de um mero auxiliar. Ela não é um medium técnico de anotação, mas um medium de autocomunicação (Ibid., p. 205). É só na externação que o indivíduo encontra diferentes formas de encontro consigo mesmo e autoformação. Sendo assim, a escrita na verdade possibilita “um diálogo interno que perpassa longos intervalos de tempo” (Idem).

Em uma das crônicas de Um solitário à espreita, Hatoum (2013, p. 169-170) teoriza sobre a memória:

Mas há incongruência e dúvida em tudo, pois a memória não recupera o passado com exatidão: lembra e deslembra, diz e desdiz, afirma para negar ou contrariar. A memória é o lugar da hesitação e da ambiguidade: o móvel da imaginação. O movimento é sinuoso, construído por quadros que formam microcosmos, mas que se remetem a outros quadros e se relacionam com o todo. Uma técnica de montagem, arquitetura que lembra a de Vidas secas.

Sendo a escrita uma estratégia do escritor para eternizar suas recordações e apoiando-nos nas palavras de Hatoum (2013), que classifica a suas próprias crônicas como recortes da memória, passaremos a definição e compreensão desse gênero literário e a identificação das estratégias que Hatoum utiliza para eternizar a cidade de Manaus em suas narrativas.

3. A CRÔNICA LITERÁRIA

Podemos dizer que a crônica, como texto literário, é um gênero híbrido. Configurando-se no âmbito do jornalismo, a crônica no Brasil passou logo a flertar com a literatura, no momento em que escritores importantes da nossa sociedade passaram a utilizá-la para registrar os acontecimentos de sua época (Cavalcanti e Gomes, 2021, p. 20). Tendo como objetivo inicial “informar os leitores sobre acontecimentos do dia ou da semana”, a crônica brasileira rapidamente passou a ganhar contornos específicos, pois apenas no jornalismo brasileiro “a crônica é tida como um texto breve, relacionado à atualidade”, enquanto que no cenário internacional, mantêm-se associada à ideia de “relato cronológico dos fatos” (Idem).

Antônio Candido (1992a, p. 13) define a crônica como um gênero menor, mas não considera que tal classificação a desmereça. Pelo contrário, ele dá “Graças a Deus”, pois sendo um gênero menor, a crônica se torna um texto mais próximo do leitor.

Por meio dos assuntos, da composição aparentemente solta, do ar de coisa sem necessidade que costuma assumir, ela se ajusta à sensibilidade de todo o dia. Principalmente, porque elabora uma linguagem que fala de perto ao nosso modo de ser mais natural. Na sua despretensão, humaniza; e esta humanização lhe permite, como compensação sorrateira, recuperar com a outra mão uma certa profundidade de significado e um certo acabamento de forma, que de repente podem fazer dela uma inesperada embora discreta candidata à perfeição (Ibid., p. 13-14).

Apesar de Um solitário à espreita ser um livro de crônicas (como destaca a capa da publicação), Hatoum (2013, p. 4) respeita a efemeridade do gênero e passa ao leitor o poder de classificá-la como lhe convier, indicando-lhe algumas possibilidades: crônicas, contos ou breves recortes da memória. Em Sete Crônicas de Milton Hatoum (Hatoum, 2020), que reúne sete publicações da coletânea de 2013, o escritor retoma essas ponderações pois, segundo ele, “é difícil definir com precisão um gênero literário tão maleável como a crônica” (Hatoum, 2020, p. 7). A efemeridade/maleabilidade do gênero é explicada por Candido (1992a, p. 14):

Isto acontece porque não tem pretensões a durar, uma vez que é filha do jornal e da era da máquina, onde tudo acaba tão depressa. Ela não foi feita originalmente para o livro, mas para essa publicação efêmera que se compra num dia e no dia seguinte é usada para embrulhar um par de sapatos ou forrar o chão da cozinha.

Entretanto, Candido pondera que a crônica pode ter uma durabilidade muito maior quando sai do jornal e passa a formar parte de um livro:

Por isso mesmo consegue quase sem querer transformar a literatura em algo íntimo com relação à vida de cada um, e quando passa do jornal ao livro, nós verificamos meio espantados que a sua durabilidade pode ser maior do que ela própria pensava (Candido, 1992a, p. 14-15).

Jorge de Sá (1985, p. 83) assinala que quando a crônica é publicada em livro, precisamos observar o novo contexto e “suas prováveis significações novas”, enquanto o linguista Marcuschi (2007) afirma que com a mudança de suporte, haveria também a mudança de gênero. Acerca das falas anteriormente mencionadas, Martins (2010, p. 110) defende que a confusão possa estar na não diferenciação entre esfera social e suporte, “pois um gênero se define na sua interação, embora muitas vezes o formato dê pistas, mas sua função e seu sentido não estão no texto, estão na interação”. Ao delegar ao leitor a autoridade de decidir se está lendo uma crônica ou um conto, Hatoum (2013) explana rapidamente sobre a possibilidade de mudança de gênero de suas narrativas, como defende Marcuschi (2007). No entanto, é ao chamá-las de recortes da memória, que o autor nos apresenta o novo contexto e a significação nova que ele gostaria de dar às suas obras: a crônica como suporte para a memória.

De acordo com Eduardo Portella (1958, p. 85), a crônica literária brasileira “sempre tem procurado ser uma crônica urbana”, a “cidade feita letra”. O teórico destaca um “apego provinciano” dos cronistas por suas metrópoles, que é também um dos seus segredos, pois “[…] é em nome desse apego que ele protesta diante das deformações do progresso, que ele aplaude o que a cidade possui de automaticamente seu. E, desta maneira, luta para transcender com ela” (Ibid., p. 85).

Milton Hatoum é um homem que já conheceu e morou em muitos lugares. Essas experiências fazem parte da sua construção como sujeito e se refletem em suas obras. As cidades (e seus espaços relacionados) são expressamente nominadas na maioria de seus textos, como se o autor quisesse transformá-las em personagens. Lendo a crônica hatouniana desde a perspectiva do recorte da memória, percebemos que Manaus é um componente importante para a memória afetiva do escritor. Um espaço que ele almeja eternizar através da escrita.

4. MANAUS: ESPAÇOS REMEMORADOS EM UM SOLITÁRIO À ESPREITA

Milton Assi Hatoum, escritor, tradutor e professor, nasceu na cidade de Manaus, no ano de 1952. Filho de um libanês e uma amazonense, optou por transportar para suas obras um pouco de suas experiências pessoais e aspectos do contexto sociocultural da Amazônia e do Oriente (Milton Hatoum, 2023). Além do reconhecimento nacional e internacional como romancista, Hatoum possui uma vasta produção como cronista, colaborando com diferentes impressos no país desde o final dos anos 1970 (Hatoum, 2013, p. 4).

Para a edição de Um solitário à espreita (Hatoum, 2013), o escritor selecionou e reescreveu noventa e seis textos, publicados em periódicos entre os anos de 2003 e 2013. Muitos deles remetem à sua infância e adolescência em Manaus, outros à sua fase adulta, às vezes como morador, outras como visitante. Há também textos que não possuem Manaus como espaço narrativo, mas que evocam a cidade quando o presente se reconecta com o passado, seja por um objeto encontrado, seja por um nome mencionado.

Vinte e cinco crônicas contemplaram o escopo desta discussão. O fichamento dos textos e a classificação dos termos possibilitou a delimitação das seguintes categorias de espaços recordados: a) Ruas, avenidas, praças e bairros; b) Cinemas, clubes, teatros e estádios; c) Centros educativos; d) Centros hospitalares; e) Outros espaços (para os espaços que não possuíam quantitativo para agrupamento) e f) Termos relacionados (para espaços não identificados e outros termos relacionados à cidade de Manaus).

4.1 RUAS, AVENIDAS, PRAÇAS E BAIRROS

Figura 1 – Vista aérea do Parque da Matriz. Década de 60. Foto: Hamilton Salgado

Fonte: Duarte, 2009, p. 25.

O espaço praça possui grande importância nas memórias do autor. Em todas as crônicas em que o termo aparece, o local foi apontado nominalmente, indicando a importância que o autor atribui aos lugares em que a narrativa se desenvolve. Ao todo, seis praças foram mencionadas, algumas delas em vários textos: praça da Matriz, praça da Saúde, praça da Saudade, praça São Sebastião/largo São Sebastião, praça Balbi e praça Dom Pedro II.

Em “Um inseto sentimental”, “Escorpiões, suicidas e políticos” e “Um jovem, o velho e um livro”, é possível perceber que a menção do espaço é fundamental para a composição da memória afetiva do escritor sobre os fatos narrados:

Minha mãe me abraça numa manhã de 1960: nós dois aninhados no banco da praça da Matriz, aonde me levara para ver o aviário e conversar com os pássaros (Hatoum, 2013, p. 6, grifo nosso).

Ranulfo não era nosso tio, mas os meninos do largo São Sebastião passaram a chamá-lo tio Ran quando ele se mudou para o centro de Manaus (Hatoum, 2013, p. 92, grifo nosso).

Eu o conheci em 1964, quando ele sentava num banco da praça Balbi, contava histórias, gracejava com as garças e trocava olhares com os jacaretingas no laguinho, inertes troncos apodrecidos (Hatoum, 2013, p. 168, grifo nosso).

Outras vezes, a praça surge como parte do contexto sociocultural da época, como podemos perceber em “História de dois encontros”:

Na década de 1960, os jovenzinhos de famílias ricas de Manaus gostavam de frequentar aos domingos o “mingau dançante”. Reuniam-se na praça da Saúde, onde tomavam sorvete antes de entrar no clube mais grã-fino da cidade (Hatoum, 2013, p. 31, grifo nosso).

Ainda que a praça apareça apenas como parte do espaço narrativo, o fato de ser referenciada lhe atribui quase que uma característica de personagem figurante, como na já citada “História de dois encontros”, na crônica “Um artista de Shanghai” e na crônica “O magistrado e um coração frágil” (as duas últimas, histórias de pessoas próximas à Hatoum, recontadas em forma de crônica pelo escritor):

Em abril, quando visitava a cidade, encontrei-o por acaso na praça da Saudade. Na tarde dessa quinta-feira nublada e úmida ele se dirigia para o tribunal (Hatoum, 2013, p. 31, grifo nosso).

Quando eu ia completar treze anos, aconteceu uma tragédia. Minha mãe foi me apanhar na Escola Normal. Quando atravessamos a praça São Sebastião, paramos no lugar onde o chinês trabalhava (Hatoum, 2013, p. 40, grifo nosso).

Aí ele tirou uma fotografia do bolso da camisa e mostrou-a ao meu marido. Eu pude ver a foto do casal sob o caramanchão da praça da Saudade. Uma moreninha muito linda (Hatoum, 2013, p. 214, grifo nosso).

A moça chorou. Disse que era a outra amante do assassino e que não queria vê-lo preso. Já escurecia quando ele saltou do bonde e viu o Chevrolet Belair estacionar nos arredores da praça Pedro ii; ela se aproximou furtivamente do carro, ouviu os dois discutirem e viu o homem esfaquear a amante rival (Hatoum, 2013, p. 215, grifo nosso).

Embora os espaços rua e avenida não recebam a mesma notoriedade que o espaço praça, encontramos nos textos “Dança da espera” e “Marcas secas da cidade” expressões da memória afetiva do autor em relação a esses lugares. No primeiro, o escritor amplia essa memória para aqueles com quem compartilhou seus primeiros anos de vida, enquanto que no segundo, a avenida citada é parte da composição de sua identidade infantil:

Nossa vizinha raramente saía de casa. Quando saía era um acontecimento na Joaquim Nabuco, a avenida da nossa infância e juventude (Hatoum, 2013, p. 14, grifo nosso).

[…] sei que a voz flauteava nomes de frutas e a mesma voz dizia “E aí, mano”, me oferecendo cachos de pitombas, sem mesmo receber dinheiro, como se eu ainda fosse aquela criança na janela da casa da avenida Joaquim Nabuco 457, e ele um avô da natureza. (Hatoum, 2013, p. 53).

Em “Uma fábula” e “Leitores de Porto Alegre e uma bailarina no ar” a menção aos espaços serve como contextualização para a narrativa:

Em 1956, quando completei quatro anos de idade, nossa família deixou um sobrado antigo na Joaquim Nabuco e se mudou para uma casa com traços modernistas na avenida Getúlio Vargas, também no centro de Manaus (Hatoum, 2013, p. 48, grifo nosso).

Esses livros de capa amarela atravessavam o Brasil e chegavam às livrarias da rua Henrique Martins, no centro de Manaus; depois entravam no quarto que eu dividia com um dos meus tios. (Hatoum, 2013, p. 180, grifo nosso).

O espaço bairro foi recordado pelo autor quase que majoritariamente de forma negativa. O bairro Alvorada é citado diretamente em “Viagem ao interior paulista” e indiretamente em “Elegia a um felino”. Nos textos a precariedade estrutural e a violência são enfatizados pelo autor:

Alvorada é também o nome de um bairro pobre de Manaus, um bairro que eu havia esquecido e agora reaparecia na minha memória, com suas casas de madeira amontoadas à beira de um igarapé sujo. Nas tardes de sábado eu dava uma carona para Eliandra, a faxineira do edifício onde eu morava. Entrava no bairro, um labirinto de ruas estreitas e esburacadas, e deixava Eliandra perto de uma escada íngreme, que ela subia até alcançar uma rua de terra no alto de um barranco (Hatoum, 2013, p. 131-132, grifo nosso).

Antes de ir embora para São Paulo, pedi à zeladora que cuidasse de ti. Pensei: daqui a dois meses volto para Manaus e trago de volta Leon e meus livros. Ainda hesitei, temendo algum acidente, alguma bala perdida no bairro pobre onde ele ia morar (Hatoum, 2013, p. 194, grifo nosso).

4.2 CINEMAS, CLUBES, TEATROS E ESTÁDIOS

Figura 2 – Vista da fachada principal do Cine Guarany. Década de 70. Foto: Nonato Oliveira

Fonte: Duarte, 2009, p. 256.

Os espaços cinema, clube, teatro e estádio remetem a várias memórias afetivas do escritor. A forma como Hatoum (2013) escreve sobre esses espaços é tão entusiasmante que quase nos estimula a conhecê-los ou revisitá-los. Infelizmente, alguns deles já não existem mais na cidade. Como exemplos dessa escrita saudosista, trechos das crônicas “Segredos da marquesa”, “No jardim de delícias”, “Um enterro e outros carnavais” e “Estádios novos, miséria antiga”:

Aos sábados, brincávamos e merendávamos no quintal da casa da Marquesa; às vezes nos levava para assistir a um filme no cine Guarany, o antigo teatro Alcazar. Éramos oito ou dez crianças na matinê de sábado, nossa noite de sonho e fantasia no meio da tarde. Depois da sessão, tomávamos tacacá na barraca de d. Vitória, ali na calçada do cine Odeon, uma das maravilhas de Manaus (Hatoum, 2013, p. 11, grifo nosso).

A toalha era irrelevante; o binóculo, cúmplice secreto de viagens sentimentais de um jovem voyeur, trouxe ao alcance das minhas mãos um par de pernas perfeitas, ombros dourados, seios arredondados e firmes, que eu só tinha visto em filmes no Éden, que era o outro lugar do pecado (Hatoum, 2013, p. 68, grifo nosso).

No fim daquela tarde triste – sol ralo filtrado por nuvens densas e escuras –, lembrei dos bailes carnavalescos nos clubes e blocos de rua. Antes do primeiro grito de Carnaval, a folia começava na tarde em que centenas de pessoas iam recepcionar a Camélia no aeroporto de Ponta Pelada, onde a multidão cantava a marchinha Ó jardineira, por que estás tão triste, mas o que foi que te aconteceu? E depois a caravana acompanhava a Camélia gigantesca até o Olympico Clube (Hatoum, 2013, p. 17, grifo nosso).

A arquibancada do Parque Amazonense era um treme-treme, o esqueleto de madeira podia desabar antes do primeiro gol, mesmo assim eu não perdia uma partida do clássico Rio Negro 3 [sic] Nacional. Quando chovia ou ventava, mangas maduras caíam na arquibancada e eram disputadas pelos torcedores. Como não havia drenagem no campo, a chuva torrencial transformava o gramado num parque aquático, o jogo era cancelado e aproveitávamos para brincar na piscina formada pela natureza. O Parque, situado num bairro humilde e arborizado de Manaus, era um dos destinos de quem gostava de futebol (Hatoum, 2013, p. 157, grifo nosso).

Para além do aspecto saudosista, “Estádios novos, miséria antiga” é uma denúncia do autor contra o governo amazonense em relação ao descaso com um dos patrimônios arquitetônicos da cidade: a obra premiada estádio Vivaldo Lima, que foi demolida para abrir espaço para que outro estádio fosse construído para a Copa de 2014, o que Hatoum (2013), que também é formado em Arquitetura, considerou uma obra onerosa e desnecessária para a capital:

No final dos anos 1960 foi construído o estádio Vivaldo Lima, vulgo Tartarugão, projetado por Severiano Mário Porto. Formado no Rio, esse arquiteto mineiro se mudou em 1966 para Manaus, onde viveu por mais trinta anos. O projeto do Vivaldo Lima ganhou o Prêmio Nacional de Arquitetura; outros projetos de Severiano foram premiados no Brasil e na Argentina. (p. 157, grifo nosso).

Para os jogos da Copa do Mundo em 2014, o Tartarugão poderia ser restaurado e tornar-se um estádio perfeitamente adaptado aos torcedores amazonenses. Mas de nada adiantou o olhar visionário de Severiano Porto. O estádio foi demolido para dar lugar a uma obra gigantesca, caríssima, faraônica, com capacidade para 47 mil torcedores. (p. 157, grifo nosso).

Destruir um patrimônio da arquitetura amazônica é um lance de extrema crueldade e ignorância. […] Afora o superfaturamento e a demolição da obra premiada, há outra questão, demasiadamente humana: Manaus é uma das metrópoles brasileiras mais carentes de infraestrutura. Os serviços públicos são péssimos, na zona leste da cidade proliferam habitações precárias (eufemismo de favelas), a violência atinge níveis alarmantes. Depois da Copa, o novo estádio será um monumento vazio, ou um desperdício monumental. Quem paga a fatura (ou a superfatura) são os mais pobres, que necessitam de serviços públicos eficientes, e não de obras grandiosas (p. 157-158, grifo nosso).

Em “Nove segundos”, Hatoum (2013) exalta outro grande símbolo arquitetônico da cidade: o Teatro Amazonas.

Lembro que naquela noite de inverno parisiense, eu e minha amiga Évelyne paramos de traduzir textos maçantes e formos ver o filme de Werner Herzog. Os artigos na imprensa diziam que nesse filme havia cenas de Manaus e de seu maior símbolo arquitetônico: o Teatro Amazonas, palco de tantas óperas e operetas durante o fausto da borracha (p. 79, grifo nosso).

4.3 CENTROS EDUCATIVOS

Figura 3 – Vista aérea do Colégio Amazonense Dom Pedro II. Foto: Durango Duarte

Fonte: Duarte, 2009, p. 166.

Em “Uma fábula”, Hatoum menciona a instituição onde cursou seus estudos iniciais: o grupo escolar Barão do Rio Branco (p. 48). Entretanto, é o Ginásio Pedro II, onde o escritor cursou o ginasial, a instituição que mais se repete em suas crônicas:

Ao meio-dia, quando eu chegava do Ginásio Pedro II, ia visitar minha amiga e encontrava a Marquesa na sala, lendo uma revista francesa, ouvindo Bach ou Villa-Lobos (Crônica “Segredos da marquesa”. Hatoum, 2013, p. 11, grifo nosso).

Estudávamos na mesma sala do Pedro II, onde concluímos o curso ginasial. Depois eu saí de Manaus e passei muito tempo sem vê-lo (Crônica “História de dois encontros”. Hatoum, 2013, p. 31, grifo nosso).

No fim da manhã eu descia a escada do Ginásio Amazonense, enrolava a manga comprida da camisa suada, afrouxava a gravata e caminhava fardado e faminto na direção do banco sombreado por um flamboyant. (Crônica “Um jovem, o velho e um livro”. Hatoum, 2013, p. 169, grifo nosso).

Na crônica “O magistrado e um coração frágil” é mencionada a Universidade Livre de Manaus, que deu origem a Universidade Federal do Amazonas:

Eu e meu marido Simplício pertencíamos a uma família de magistrados da cidade. Meu avô fundou a faculdade de direito da Universidade Livre de Manaus; meu pai foi diretor e meu marido professor de direito civil dessa faculdade (Hatoum, 2013, p. 214, grifo nosso).

Assim como o fez em relação ao estádio Vivaldo Lima, Hatoum (2013) utilizou mais uma vez a crônica como veículo de denúncia contra o governo amazonense em “Crianças desta terra”. Ao escrever sobre uma de suas visitas à cidade natal, o escritor relatou a falta de ventilação e a ausência de bibliotecas nas escolas, o vandalismo em suas fachadas e a despreocupação com a construção de creches. Problemas que, como aponta o autor, não impediam a perpetuação de certos políticos no poder:

Vi escolas mal ventiladas, sem biblioteca, cujas fachadas feias tinham sido apedrejadas por vândalos. Nenhuma creche. E, mesmo assim, ele era reeleito e idolatrado… (Hatoum, 2013, p. 68, grifo nosso).

4.4 CENTROS HOSPITALARES

Figura 4 – Fachada da Fundação de Medicina Tropical Dr. Heitor Vieira Dourado (FMT-HVD). Foto: Divulgação/Secom

Fonte: Portal Marcos Santos, 2021.

Em “Um médico visionário”, Hatoum (2013) utiliza a crônica como forma de enaltecer as contribuições do médico Heitor Vieira Dourado ao Estado do Amazonas e contextualiza a criação de um dos maiores centros de ensino e pesquisa na área de infectologia do Norte: a Fundação de Medicina Tropical do Amazonas:

Esse jovem paraense adotou Manaus como sua cidade amazônica e em 1970, já professor de infectologia da recém-criada Faculdade de Medicina, fundou com o professor e também médico Carlos Borborema a Clínica de Doenças Tropicais. Com apenas oito leitos, essa clínica ocupou um anexo que seria destinado à lavanderia do hospital universitário Getúlio Vargas. (Hatoum, 2013, p. 59, grifo nosso).

Há médicos que transformam uma lavanderia num hospital de referência. A modesta Clínica de Doenças Tropicais – atual Fundação de Medicina Tropical do Amazonas – tornou-se um grande complexo hospitalar, onde também funcionam consultórios médicos, laboratório de análises clínicas, serviços de hemoterapia, radiodiagnóstico e ultrassonografia (Hatoum, 2013, p. 59-60, grifo nosso).

A criação do hospital foi, conforme palavras do escritor, visionária. Sem ele “a população amazonense estaria ainda mais desamparada, muito mais vulnerável a malária, leishmaniose, hepatite e tantas outras doenças que proliferam na capital e em cidades do interior” (Hatoum, 2013, p. 60), consequências do desmatamento descontrolado provocado pelo aumento da densidade demográfica da cidade nas décadas seguintes.

4.5 OUTROS ESPAÇOS

Figura 5 – Arco de entrada do cemitério São João Batista. Foto: Thiago Duarte

Fonte: Duarte, 2009, p. 148.

Outros espaços que não se enquadravam nos critérios anteriores foram identificados nas crônicas selecionadas nesta análise. Alguns deles se configuraram como o espaço da narrativa, outros são apenas espaços citados nos relatos:

a) O aeroporto Ponta Pelada, em “Um enterro e outros carnavais” (Hatoum, 2013, p.17);

b) O Mercado Municipal Adolpho Lisboa, também em “Um enterro e outros carnavais” (Ibid., p.17);

c) O cemitério São João Batista, também em “Um enterro e outros carnavais” (Ibid., p.17);

d) O Polo Industrial de Manaus, em “História de dois encontros” (Ibid., p. 32) e “Um médico visionário” (Ibid., p. 60);

e) Os balneários, em “Lembrança do primeiro medo” (Ibid., p. 43) e em “Escorpiões, suicidas e políticos” (Ibid., p. 92);

f) O Manaus Harbour/Porto de Manaus, em “Capítulo das águas” (Ibid., p. 57) e “A beleza de Buenos Aires” (Ibid., p. 116) – nesse último, Hatoum critica o fato de vários portos brasileiros estarem de costas para o rio, como é o caso do Porto de Manaus;

g) O Seringal Mirim, em “Escorpiões, suicidas e políticos” (Ibid., p. 92).

4.6 TERMOS RELACIONADOS

Figura 6 – Vista aérea das palafitas do igarapé de São Raimundo, década de 1970. Acervo: Eduardo Braga

Fonte: Duarte, s.d.

Alguns termos foram utilizados para ilustrar diferentes aspectos do espaço urbano manauara. Em “Segredos da marquesa”, vemos a presença do vocábulo palafitas. A palafita é uma forma de construção comum em vários pontos da cidade, visto que vários bairros possuem igarapés ou se localizam às margens do Rio Negro:

A Marquesa convidava crianças humildes para brincar com a sua filha: crianças que moravam em palafitas na beira dos igarapés próximos do nosso bairro. Esse gesto generoso irritava certas mães, que proibiam os “indiozinhos” de conviver com seus filhos, mas não podiam viver sem as mãos serviçais das mães desses mesmos curimins e cunhantãs (Hatoum, 2013, p. 11, grifo nosso).

Seguem outros termos classificados nessa categoria:

a) Igarapés, em “Segredos da marquesa” (Ibid., p. 11) e “Tio Adam em noites distantes” (Ibid., p. 66);

b) Becos, em “Tio Adam em noites distantes” (Ibid., p. 66);

c) Apagão/Blecaute, em Tio “Adam em noites distantes” (Ibid., p. 66);

d) Sol, em “Um enterro e outros carnavais” (“penam sob o sol”, Ibid., p. 18), “Tio Adam em noites distantes” (“sol pecaminoso”, Ibid., p. 66);

e) Casebres/barracos, em “Crianças desta terra” (Ibid., p. 68), “Um médico visionário” (Ibid., p. 60) e “Morar, não ilhar e prender” (Ibid., p. 161);

f) Ruas esburacadas, em “Crianças desta terra” (“crateras de aspecto lunar”, Ibid., p. 68) e “Adeus aos quintais e à memória urbana” (Ibid., p. 141);

g) Áreas desmatadas, em “Um médico visionário” (Ibid., p. 60), “Crianças desta terra” (Ibid., p. 68) e “Adeus aos quintais e à memória urbana” (“não há árvores”, Ibid., p. 141);

h) Árvores, em “Um enterro e outros carnavais” (“mangueiras quietas”, “mangueiras centenárias”, Ibid., p. 18), “Escorpiões, suicidas e políticos” (“uma mata de seringueiras, jatobás e palmeiras”, Ibid., p. 92) e “Adeus aos quintais e à memória urbana” (“mangueiras centenárias”, Ibid., p. 141);

i) O adjetivo “pacata” (cidade pacata, mas nem tanto) em relação à Manaus dos anos 1960, em “Um enterro e outros carnavais” (Ibid., p. 17);

j) O adjetivo “cosmopolita” (porto cosmopolita), também em “Um enterro e outros carnavais” (Ibid., p. 17).

No livro A personagem de ficção, Antônio Candido (1992b, p. 17) comenta que “mesmo uma cidade realmente existente se torna ficção no contexto fictício, já que representa determinado papel no mundo imaginário”. Em grande parte das crônicas analisadas percebemos que Hatoum personifica sua cidade natal para torná-la uma espécie de companheira e testemunha de suas experiências de infância e juventude. Mas essa não é a Manaus real; é apenas a Manaus que o autor quer eternizar a partir de suas recordações. Recordações que podem ser incongruentes pois, retomando a fala que utilizamos no início desta discussão, a memória não recupera o passado com exatidão (Hatoum, 2013, p. 170).

Em um artigo sobre os aspectos de narrar presentes na crônica de Um solitário à espreita, Araújo (2018, p. 252) comenta que o espaço utilizado como cenário nas narrativas é configurado de forma poética e que as memórias de muitas personagens misturam melancolia, afetos e questões políticas vivenciadas ou não pelo autor. Conectando a fala da autora à fala de Candido (1992b), é possível afirmar que Manaus, enquanto personagem hatouniana, também se apresenta ora de forma melancólica, ora de forma afetuosa nos textos narrados. Em outros momentos, ela é a vítima silenciada de um (des)governo que lhe permitiu crescer de forma desordenada, mas que tenta ganhar voz através da escrita de um de seus cúmplices.

Em A poética do espaço, Bachelard (1978, p. 200) assevera que “todo espaço verdadeiramente habitado traz a essência da noção de casa”. Partindo dessa mesma premissa, Araújo (2018, p. 252) conclui que cada cenário das crônicas de Hatoum é uma casa “por onde o olhar do narrador passeia”. Após leitura e fichamento das obras, concluímos que vários espaços da cidade de Manaus (principalmente a praça) superaram o conceito “casa” e atingiram o conceito “lar”, considerando o impacto afetivo maior que essa última carrega em relação à primeira.

Assim, abordando as imagens da casa com o cuidado de não romper a solidariedade da memória e da imaginação, esperamos fazer sentir toda a elasticidade psicológica de uma imagem que nos comove a graus de profundidade insuspeitos. Pelos poemas, talvez mais do que pelas lembranças, tocamos o fundo poético do espaço da casa (Bachelard, 1978, p. 201).

Concluímos nossa análise estendendo a colocação feita por Bachelard em relação aos poemas para as crônicas literárias. Embora possua uma escrita mais simples e descompromissada, a crônica _ e em especial a crônica de Hatoum_ possui aquele toque poético que nos faz retornar ao passado e visitar, mesmo que virtualmente, esses espaços que só existem na subjetividade de quem os descreve.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da memória revisitamos frequentemente os espaços que compõem nossa história enquanto sujeitos individuais e coletivos. Entretanto, ela é muitas vezes falha. Com o passar do tempo, algumas lembranças se perdem pelo caminho, ao passo que outras são reconstruídas através da imaginação, convertendo a memória nesse “lugar de hesitação e ambiguidade”, como bem define Hatoum (2013).

Algumas pessoas, numa tentativa de perpetuar a memória recorrem à escrita. Alguns deles, como é o caso de Hatoum, o fazem de maneira ainda mais singular, agregando-lhe uma mirada poética. E se a crônica surge como um gênero efêmero para comentar os assuntos cotidianos nas páginas dos jornais, ao passar para o livro ela ganha uma significação nova. No caso de Um solitário à espreita, a crônica se converte em recortes da memória do escritor.

Em grande parte das crônicas analisadas percebemos a personificação da cidade de Manaus, que se torna quase que uma personagem-confidente do autor, uma participante dos momentos mais importantes de sua infância e juventude. E é por Manaus fazer parte de forma tão intensa da história de vida de Hatoum que o autor a toma como uma dos seus, passando da nostalgia à crítica, numa tentativa de socorrer essa cidade desprotegida que cresce de forma desordenada, como criança pequena, filha de pais descuidados.

Infelizmente, muitos dos espaços citados por Hatoum em suas crônicas já não existem mais ou foram abandonados. Outros ainda persistem, mas já não possuem a beleza que enxergamos durante a leitura das crônicas que compõem a obra analisada. Ainda assim, essa Manaus do passado continuará a existir, eternizada pela escrita desse escritor cosmopolita, cuja essência pertence à Terra dos Barés.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARAÚJO, Valéria M. de. Tramas da crônica: um solitário à espreita, de Milton Hatoum. In: Revista Decifrar, [S. l.], v. 6, n. 11, p. 247–255, 2018. Disponível em: //www.periodicos.ufam.edu.br/index.php/Decifrar/article/view/4078. Acesso em: 20 set. 2023.

ASSMANN, Aleida. Espaços da recordação: formas e transformações da memória cultural. Tradução: Paulo Soethe. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2011.

BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. In: Os pensadores. São Paulo: Abril S.A. Cultural e Industrial, 1978.

CANDIDO, Antônio et al. A crônica: o gênero, sua fixação e suas transformações no Brasil. Campinas, SP: Editora da Unicamp; Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1992a.

CANDIDO, Antônio et al. A personagem de ficção. Coleção Debates. 2ª ed. São Paulo: Editora Perspectiva, 1992b.

CAVALCANTI, C. M. B.; GOMES, V. S. Crônica: uma tradição discursiva entre o jornalismo e a literatura. Encontros de Vista, [S. l.], v. 16, n. 2, p. 19–35, 2021. Disponível em: <https://www.journals.ufrpe.br/index.php/encontrosdevista/article/view/4661>. Acesso em: ago. 2023.

DUARTE, Durango. Manaus: entre o passado e o presente. v. 1, Manaus: Editora Mídia Ponto Comm, 2009. Disponível em: <https://idd.org.br/livros-durango-duarte/manaus-entre-o-passado-e-o-presente.pdf>. Acesso em: 27 set. 2023.

_______. Manaus antiga. s.d. Pinterest: usuário Pinterest. Disponível em: < https://br.pinterest.com/pin/293085888241877113/>. Acesso em: 27 set. 2023.

HATOUM, Milton. Um solitário à espreita: Crônicas. São Paulo: Companhia das Letras, Selo Companhia de Bolso, 2013. Formato eBook Kindle.

______. Sete crônicas de Milton Hatoum. Belo Horizonte, MG: Páginas Editora, 2020. Formato eBook Kindle.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais: definição e funcionalidade. In: DIONÍSIO, Ângela P. (org.). Gêneros Textuais & Ensino. 5ª ed. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007.

MARTINS, Priscila Rosa. Revisitando a crônica brasileira: a condição do cronista. In: Estação Literária. Londrina: Vagão. Vol. 6. p. 107-114, dez. 2010. Disponível em: <https://www.uel.br/pos/letras/EL/vagao/EL6Art12.pdf>. Acesso em: 10 set. 2023.

MILTON HATOUM. In: WIKIPÉDIA, a enciclopédia livre. Flórida: Wikimedia Foundation, 2023. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Milton_Hatoum&oldid=66305182>. Acesso em: 09 set. 2023.

PORTAL MARCOS SANTOS. Fundação de Medicina Tropical completa 47 anos. Portal Marcos Santos. Data da publicação: 31 mar. 2021. Disponível em: < https://www.portalmarcossantos.com.br/2021/03/31/fundacao-de-medicina-tropical-completa-47-anos/>. Acesso em 27 set. 2023.

PORTELLA, Eduardo. A cidade e a letra. In: _____. Dimensões I. Rio de Janeiro: José Olympo, 1958.

SÁ, Jorge de. A crônica. 2ª ed. São Paulo: Ática, 1985.

APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ

2. Disciplina ministrada pelo professor Pós-Doutor Norival Bottos Jr. no período de 2023/1.

3. Apoiada na autonomia que Hatoum concede aos leitores para classificar seus textos (Hatoum, 2013, p. 4).

[1] Estudante de pós-graduação em Letras, nível mestrado, pela Universidade Federal do Amazonas (PPGL/UFAM); Especialista nas áreas de metodologia do ensino de língua espanhola e língua portuguesa (UNIASSELVI). Graduação em Letras com habilitação em língua espanhola (UFAM). ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1023-4295. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7897833640966736.

Material recebido: 09 de abril de 2024.

Material aprovado pelos pares: 02 de julho de 2024.

Material editado aprovado pelos autores: 01 de setembro de 2024.

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Fernanda Reis Cintra

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