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Um olhar sobre a personagem Rita Baiana na obra O Cortiço, de Aluísio de Azevedo

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SANTOS, Maria da Conceição dos [1], RODRIGUES, Ana Paula [2]

SANTOS, Maria da Conceição dos. RODRIGUES, Ana Paula. Um olhar sobre a personagem Rita Baiana na obra O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 10, Vol. 11, pp. 19-28. Outubro de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/literatura/rita-baiana

RESUMO

Buscamos nesta pesquisa abarcar descrições do universo feminino da personagem Rita Baiana na obra O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. Escolhemos esse romance brasileiro como corpus da pesquisa, destacando essa personagem como a essência das discussões. Embora seja uma obra fictícia, o romance mostra de forma evidente a expressão da realidade e da condição social do universo feminino no século XIX. Na obra, percebemos a personagem Rita Baiana como uma mulher marcante, sensual, impulsiva, corajosa e dona de suas vontades. É nessa perspectiva que adentraremos nesse universo de Rita Baiana, personagem de característica peculiar que tenta mudar sua realidade social. O presente estudo está organizado da seguinte forma: primeiramente, apresenta uma introdução, que faz uma breve reflexão sobre a condição feminina no século XIX; seguidos pelos objetivos que se almeja alcançar, a justificativa do estudo e o procedimento metodológico utilizado.

Palavras-Chave: Romance brasileiro, século XIX, Rita Baiana.

1. INTRODUÇÃO

Ao relacionar os estudos sobre a condição social da mulher no século XIX, perante o contexto social em que vivia, abrimos também uma vertente para refletir acerca do seu papel social na sociedade do século XXI. Nessa perspectiva, tentaremos neste estudo abarcar concepções do universo feminino, traçando um recorte da trajetória histórico-cultural da mulher, em face dos desafios percorridos por ela ao longo dos tempos.

Embasados nestas considerações, escolhemos o romance brasileiro O Cortiço, de Aluísio Azevedo, como nosso corpus do trabalho. Embora obra fictícia, mostra de forma autêntica a expressão da realidade da condição social do universo feminino no século XIX, tendo como protagonista principal personagem que, com suas características singulares tenta mudar sua realidade social.

Seguindo o estilo do Naturalismo[3] o autor faz de sua narrativa um modelo vivo de fatos marcantes da sociedade, evidenciando minuciosamente o cenário da realidade do cotidiano dos personagens. Bosi (2006) afirma que:

Só em O Cortiço Aluísio atinou de fato com a fórmula que se ajustava ao seu talento: desistindo de montar um enredo em função de pessoas, ateve-se à sequenciação de descrições muito precisas onde cenas coletivas de tipos psicologicamente primários fazem no conjunto do cortiço a personagem mais convincente do nosso romance naturalista (BOSI, 2006, p. 190).

No contexto de sua obra, Azevedo além de retratar descrições do cotidiano do começo da urbanização do Rio de Janeiro, apresenta um conjunto de personagens femininas representadas do melhor ao pior que a mulher possa ser. Visando essa perspectiva, a nossa pesquisa se deterá nas questões relacionadas à mulher na sociedade, destacando o século XIX por este ser o período das maiores transformações históricas e culturais, e época em que o romance foi publicado.

É nesta perspectiva que a presente pesquisa objetivou analisar a condição feminina na obra O Cortiço, representada na prosa aluisiana, descrevendo-a e comparando-a, numa abordagem envolvendo séculos distintos: XIX e XXI, tendo como referência a personagem Rita Baiana.

O nosso propósito é refletir sobre a condição da mulher no texto de Azevedo, discutindo a personagem Rita Baiana, comparando a condição feminina imposta pela sociedade da época. Nesse sentido, nos focamos em adentrar no universo feminino dessa personagem, tentando mostrar a condição social da mulher do século XIX, que comumente tinha características singulares: submissão, subordinação doméstica, cuidadora dos filhos, mas também observamos que uma dessas mulheres ousou em seu comportamento, destacando-se em seus feitos, não se importando com os costumes adotados socialmente.

Este estudo sobre o romance abordado, tem como base teórica os textos de Afrânio Coutinho (2007), Alfredo Bosi (2006), Maria Helena Mazarbal Paulino (2008), Mary Del Priore (1997), Sandra Fedullo Colombo e Simone de Beauvoir (1990). Autores que através de suas postulações tiveram significativa importância ao fornecerem suporte para as discussões e reflexões elencadas neste estudo.

2. MULHER E O SÉCULO XIX

Ao longo do percurso histórico é relevante destacar que desde a mais antiga civilização humana o domínio masculino exerceu amplo espaço de grandeza diante da sociedade. Sempre se demonstrou como superior em sua espécie. Esse comportamento masculino de soberania sobre seus dependentes reserva para a mulher um modelo de submissão e dependência, papel esse designado por um regime patriarcal que não lhe dava voz e nem ação para pronunciar-se diante da sociedade, devido essa função ser destinada exclusivamente aos homens. Dessa forma, a condição social da mulher assemelhava-se a uma vida de restrição, sendo ela na maioria das vezes retratada como um ser apenas para procriar e educar os filhos.

Contextualizando, Beauvoir (1990, p. 14) afirma que “a humanidade é masculina, e o homem define a mulher não em si, mas relativamente a ele; ela não é considerada um ser autônomo”. Com base nessa afirmação, percebemos que na história da humanidade o homem e a mulher nunca compartilharam juntos um mundo em igualdades de condições sociais. Pois a mulher não exercer o livre arbítrio, por exemplo, sugere somente ao homem o direito de decisão e poderio nas relações de domínio e poder. Com isso, compreendemos o fortalecimento do modelo patriarcal vigente no século XIX.

O sistema do patriarcalismo representa exatamente essa asserção de que o domínio que o primeiro sexo, o homem, possuía em relação ao segundo sexo, a mulher, demonstrava que a humanidade pertencia apenas aos homens, mostrando-se a figura masculina como um ser de superioridade. Tendo em suas mãos o poder de controlar a sociedade, os homens eram os donos do conhecimento, do governo e de seu lar. Para as mulheres sobrava serem confinadas aos trabalhos domésticos e ser uma boa esposa. Vejamos o que diz Beauvoir (1990, p.19): “no momento em que as mulheres começam a tomar parte da elaboração do mundo, esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens”.

Sabemos que a mulher tem lutado muito para ganhar o seu espaço e demonstrar o que realmente quer. Ocorreram muitas transformações durante todo o percurso histórico no universo feminino. Segundo Paulino (2008, p. 30):

Sua liberdade permanecia condicionada à observância das regras que, por sua vez, buscavam atender aos preconceitos do cristianismo trazido pelo europeu colonizador e dominante da época, que se aplicavam à família e ao lugar da mulher na família, na sociedade matrimonial e no seu meio social.

O século XX se caracterizou pela luta da mulher contra o poder masculino, em que movimentos feministas se mobilizaram a fim de buscar uma saída em prol da liberdade tão sonhada para as mulheres. Neste período também observamos a presença da mulher na política com direito a votar, com acesso às universidades, podendo ser solteira sem ferir sua dignidade quanto ser humano. Dentro desse contexto de mudanças e movimentos sociais, ainda hoje, em pleno século XXI, a mulher não para de lutar por seus direitos. Segundo Colombo et al. (2008, p. 4) “a década de 1970 trouxe conquistas nos direitos civis das minorias”.

Atualmente, nota-se que apesar da presença feminina começar a garantir um espaço para reivindicar por seus ideais, numa busca de uma voz igualitária entre os sexos na sociedade do século XXI, este ainda é um mundo que sofre pela forte pressão exercida pelo universo masculino. A visão que se fazia da mulher era desprezível, a sociedade não a via como um ser humano capaz de pensar, agir e muito menos desempenhar ocupações que eram preenchidas apenas pelos homens. No entanto, observa-se que esse tipo de comportamento discriminado em relação à mulher, ainda se perpetua no mundo contemporâneo, porém com certo nível de tolerância, devido a muitas conquistas já alcançadas pelas mulheres.

3. UMA IMAGEM DIFERENTE DE MULHER E PERSONAGEM: RITA BAIANA

A mulata Rita Baiana, na obra O Cortiço, representa uma personagem irreverente, decidida, independente. Porém como Bertoleza, desejava se relacionar com um homem de raça superior à sua, enveredando o quanto questões ligadas ao preconceito racial estavam presentes nas páginas do romance O Cortiço. De certa forma, consideramos essa personagem como figura decisiva e imagem diferente de mulher em meio às condições sociais que eram vivenciadas no século XIX, no sentido de que, mesmo diante das dificuldades e modelo social que imperava no século XIX, Rita Baiana teve a ousadia de dar um grito de alerta em busca da liberdade de expressão no contexto social de que fazia parte. Tais condições eram notórias em seu comportamento; observamos algumas características tais como:

Mas, ninguém como a Rita; só ela, só aquele demônio, tinha o mágico segredo daqueles movimentos de cobra amaldiçoada; aqueles requebros que não podiam ser sem o cheiro que a mulata soltava de si e sem aquela voz doce, quebrada, harmoniosa, arrogante, meiga e suplicante (AZEVEDO, 2009, p. 48).

Em face do exposto, é possível observar a magia que Rita Baiana conseguia despertar nos homens que a rodeava, devido à sua sensualidade e extravagância a que ela se permitia no contexto social em que vivia, mesmo sendo proibido e vista com maus olhos diante da sociedade patriarcal que imperava no século XIX. Desatenta aos costumes puritanos, Rita Baiana despertava nos machos a sede do desejo incontrolável de possuí-la, como bem observamos através da citação acima mencionada, termos como “movimentos de cobra”, dizem das curvas insinuantes da mulata, bem como o termo “requebros”.

Logo que chegou ao cortiço, depois de um longo período fora, Rita Baiana foi presença marcante e não precisou de muitos predicados para chamar a atenção dos moradores do cortiço. Em sua singularidade, Azevedo definiu-a com o encanto que só uma mulher embargada em sensualidade sabia ser:

No seu farto cabelo, crespo e reluzente puxado sobre a nuca, havia um molho de manjericão e um pedaço de baunilha espetado por um gancho. E toda ela respirava o asseio das brasileiras e um odor sensual de trevos e plantas aromáticas. Irrequieta, saracoteando o atrevido e rijo quadril baiano, respondia para a direita e para a esquerda, pondo à mostra um fio de dentes claros e brilhantes que enriqueciam a sua fisionomia com um realce fascinador (AZEVEDO, 2009, p. 58).

E dentro dessa descrição feita pelo narrador, observamos o toque da sensualidade e provocação que a mulata irradiava por onde passava. Rita Baiana tinha o poder de enfeitiçar loucamente os homens que passavam na sua vida. Esse tipo de comportamento era severamente proibido pelas mulheres daquela época, que geralmente se mantinham em casa, voltadas aos afazeres domésticos, caso fossem solteiras. Precisavam estar em constante vigilância pela sua família, pois os pais não desejavam ter uma filha “perdida” ou “falada” na sociedade em que viviam. Caso fossem casadas, o peso das responsabilidades domésticas era mais árduo. Além do serviço doméstico como cozinhar, cuidar da casa, roupa e filhos, eram confinadas a ficar em casa; só podiam sair à rua se fossem na companhia do marido. À mulher eram facultadas severas obrigações: cuidar do serviço doméstico, além de outras coisas tais como: praticar a arte da pintura, costuras ou bordar em tecidos, ou seja, era necessário estar sempre ocupada com alguma coisa. Segundo Araújo (1997, p. 73), “a mulher podia ser mãe, irmã, filha, religiosa, mas de modo algum amante”.

Rita Baiana rompeu com esses paradigmas, não se enquadrava nestes modelos femininos que a sociedade patriarcal delineava. Caracterizada por forte personalidade, Rita Baiana, mesmo tendo um amante, não se deu por satisfeita, e seduziu Jerônimo, que era casado. Sabendo do seu poder de sedução, a mulata se aproveitava dessa condição, para atrair os homens. Na vida boêmia que levava, entre noitadas de farras e bebidas, exprimia ainda mais esses artifícios através da dança, a ponto de arrancar suspiros e gemidos dos machos que a espreitavam costumeiramente. Nessas oportunidades, Jerônimo já estava “sentindo ir-se-lhe toda alma pelos olhos enamorados”, à espera de uma oportunidade para laçar a irreverente mulata (AZEVEDO, 2009, p. 78).

Em sua obra O Cortiço, Azevedo soube explorar atributos peculiares de Rita Baiana, de forma que, a percebemos em alguns episódios como uma mulher boa, generosa, que ajudava quem necessitasse de ajuda. Essa personalidade foi revelada quando ela acolheu em sua casa uma amiga que estava em desavença com o marido. Em outro momento, lá estava à mulata faceira cuidando da enfermidade de Jerônimo. Nesses momentos, Rita Baiana se aproveitava para provocar cada vez mais o pobre português, que já estava caído de amores. Assim, percebemos Rita Baiana como uma mulher fervorosa e sensual, porém dotada de sentimentos e cuidados com seu próximo. Contudo, dotada de uma personalidade marcante, dona de sua própria vontade, se destaca no cortiço devido ao seu pensamento se diferenciar da grande maioria das mulheres. Assim pensava Rita Baiana:

– Casar? Protestou a Rita. Nessa não cai a filha de meu pai! Casar? Livre! Para quê? Para arranjar cativeiro? Um marido é pior que o diabo, pensa logo que a gente é escrava! Nada! Qual! Deus te livre! Não há como viver cada um senhor e dono do que é seu! (AZEVEDO, 2009, p. 61).

Em face da citação, percebemos que Rita Baiana explorava suas potencialidades de mulher combatente aos costumes das mulheres do cortiço, sem a necessidade de rebaixar sua condição de independência e escolhas que fazia em sua vida cotidiana. No entanto, os pensamentos inquietantes assolaram a crioula, ao contato mais íntimo ao cuidar de Jerônimo. Viu-se atraída e preferiu o europeu de raça superior à sua, fascinada com a tranquilidade de animal bom e forte que emanava do português. Quando seu sangue boêmio e arredio falava mais alto, Rita Baiana varava as noites na farra, sem se preocupar com os falatórios e fuxicos do dia seguinte. Rita Baiana, com coragem e determinação, assumiu o romance proibido, provocando um duelo sangrento com a esposa de seu amante. Destemida e dotada de personalidade inquietante, a mulata soube vencer a rival.

Podemos observar ainda, em O Cortiço, Rita Baiana manifestar comportamento de mulher submissa ao poderio masculino, porém sem perder sua característica de mulher sensual e carinhosa. Ao receber convite de Jerônimo para coabitarem juntos, não se contêm, cede aos desejos do homenzarrão hercúleo, de músculos de touro. Assim Rita Baiana dizia: “sim, sim, meu cativeiro! […] eu quero ir contigo; quero ser tua mulata, o bem do teu coração! Tu és os meus feitiços!” (AZEVEDO, 2009, p. 178).

Neste estágio da trama, a condição social de Rita Baiana enfocava dois aspectos: como mulher irreverente, corajosa, sensual e sem pudores, enfrentando o modelo social imposto por uma sociedade moldada pela força masculina. Sob outro aspecto, como uma mulher comum que desejava apenas ser amada, mesmo afirmando que não pretendia se meter em contendas com o seu homem, pois “o homem, se quisesse voltar para junto da mulher, que voltasse! Ela não o prenderia, porque amor não era obrigado!” (AZEVEDO, 2009, p. 211) ou dizendo que não desejava casar nunca. Rita Baiana desejava ardentemente ter uma companhia na velhice.

Vemos em Rita Baiana uma construção de mulher superior, se comparada às demais da obra. Rita, mulher, pobre e negra, assume essas identidades sem maiores problemas ou pudores. Não esconde a sua cor, a sua negritude, não disfarça a sua condição social e econômica. Apenas um senão: também sonha com um homem de raça que acreditava ser maior e melhor do que a sua: a raça branca. E aí, talvez resida mesmo com problema de ordem metodológica dos romances naturalistas – a crença das diferenças de raças. E pior: a crença de que junto à pobreza e negritude haja uma etnia menos prestigiada socialmente.

Problema à parte, na obra O Cortiço, percebemos Rita Baiana explorar os dotes de sua própria negritude, de sua raça, ou seja, ela é naturalmente sensual, cheia de requebros e nuances nos quadris, debate e vence pela dança, por sua malevolência. Rita explora ao extremo o seu poder de conquista e sexualidade, é livre para não ficar com um homem só, para desejar, inclusive, um homem casado e vencer a sua legítima esposa numa luta. Rita é mulher, negra e pobre, personagem de um romance do século XIX, plena época da ditadura patriarcal entre as relações familiares e sociais, que se insurge contra tudo e todos.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por meio deste estudo foi possível adentrar e conhecer o universo feminino da personagem Rita Baiana, na obra O Cortiço, de Aluísio de Azevedo. E, a partir dele refletir acerca do papel social da mulher na sociedade do século XIX. O trabalho ainda possibilitou um melhor entendimento da condição social e os vários papéis que a mulher desempenha na contemporaneidade.

Na trajetória histórico-cultural da construção social da mulher, observamos que muitos foram os desafios e lutas em busca de formas de emancipação ao longo dos tempos. O estado de dependência vivido pela mulher durante muito tempo a manteve em cárcere de submissão, exposta a sofrer diariamente humilhação, vista como um ser insignificante, sem autonomia de ter seus direitos respeitados e reivindicados.

Na obra O Cortiço, percebemos uma personagem marcante, impulsiva e corajosa, dotada de carisma e grande sensibilidade: Rita Baiana, mulher sensível que nutria em seus íntimos o desejo de casar, declarava que não desejava casar, no entanto, ao receber convite de Jerônimo, aceitou sem vacilar, caindo de amores, se submetendo ao domínio masculino. Observamos esta condição peculiar à personagem: de alguma forma, se tornara sujeita ao domínio masculino.

Em meio às desgraças e sofrimentos que a personagem vivia, buscou alternativa a fim de mudar a situação em que se encontrava, desejava ser livre, não queria, a princípio, casar-se. No entanto, corajosamente optou por abrigar-se com um homem, segundo sua concepção: forte, branco, carinhoso. Mas depois de certo tempo, tornou-se ébrio e desequilibrado financeiramente. Ou seja, personagem feminina que, mesmo tentando mudar arduamente a situação de sua vida, continuou a contragosto submissa ao sistema social de que fazia parte.

Podemos concluir que a personagem não se enquadrava aos padrões que a sociedade patriarcal delineava para a mulher na sociedade burguesa: submissa, cuidadora dos filhos e subordinada aos ditames impostos pelos homens. Então, Rita Baiana, em seus feitos, não deixou a desejar: mulher corajosa que através de atitudes inovadoras mudou o curso de sua história.

Na obra O Cortiço, algumas personagens não tiveram final feliz, contudo, em seus comportamentos conseguiram construir significados novos, propondo aos leitores que a mulher não é o sexo frágil, mas é dotada de cérebro, razão e, acima de tudo, sentimentos.

Na sociedade contemporânea, percebemos a mulher como um ser que constrói significados novos para sua vida, todos os dias, passo a passo. A mulher moderna escolhe não se trancafiar em casa, fugindo de ser objeto de manipulação masculina. A mulher contemporânea vive um momento exploratório de conduta, para assim melhor fazer suas escolhas e tomar decisões acertadas em sua vida. A mulher moderna estaria totalmente livre do domínio masculino? Acreditamos que não. Ainda há um pedaço de caminho a seguir. A personagem feminina de O Cortiço aponta tal perspectiva para o leitor. Ainda há muito para se conquistar. Mas a nossa personagem nos diz que é possível mudar, alterar-se a própria rota, ou “destino”.

Assistimos, ainda, inertes situações de desigualdades sociais entres os sexos, especialmente quando exprimem preconceitos raciais. Podemos considerar a mulher com certa liberdade de expressão na sociedade atual. Algumas manifestações sobre a evolução da mulher na sociedade contemporânea se fazem presentes através das mídias informativas, por exemplo, onde a mulher tem assumindo vários papéis: mãe, empresária, artesã, viúva, solteira, casada, divorciada. Não importa a sua condição social, o que ela deseja é ser respeitada, compreendida, amada e livre das amarras do passado que deteve o controle de sua vida durante muito tempo. Passado o tempo da barbárie, configurado pelo século XIX, acreditamos que a mulher contemporânea deseja assumir o lugar de protagonista e não de coadjuvante em sua vida.

5. REFERÊNCIAS

ARAÚJO, Emanuel. A arte da sedução: sexualidade feminina da colônia. In: DEL PRIORE, Mary (org.). História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997.

AZEVEDO, Aluísio. O Cortiço. Santa Catarina: Avenida, 2009.

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo I: Fatos e Mitos. São Paulo: Círculo do Livro, 1990.

BOSI, Alfredo. História Concisa da Literatura Brasileira. 44. ed. São Paulo: Cultrix, 2006.

COUTINHO, Afrânio. Introdução à Literatura no Brasil. 19. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2007.

DEL PRIORE, Mary. História das mulheres no Brasil. 2. ed. São Paulo: Contexto, 1997.

PAULINO, Maria Helena Marzabal. Mulheres e amor na era na internet. In: MEIRELLES, Valéria (org). Mulher do século XXI. Editora: Roca, 2008.

3. O Cortiço é uma obra que surge no período literário conhecido por Naturalismo, em que “[…] a arte deve conformar-se com a natureza, utilizando-se dos métodos científicos de observação e experimentação no tratamento dos fatos e das personagens.” (COUTINHO, 2007, p. 188).

[1] Pós-graduação: Língua Portuguesa e Literatura Brasileira; Pós-graduação: LIBRAS; Graduação: Letras Portuguesas.

[2] Doutora em Educação (2012); Mestre em Meio Ambiente e Sustentabilidade (2005); Especialista em Marketing (2005), Especialista em Tutoria em EAD (2016), Especialista em Docência do Ensino Superior (2016); graduada em Educação Física (2002) e Graduada em Administração (2016).

Enviado: Março, 2019.

Aprovado: Outubro, 2019.

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