Cuidados de enfermagem ao paciente colostomizado: revisão de literatura

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

SOUZA, Letícia Rodrigues Goulart de [1], PORFIRIO, Regiane Baptista Martins [2]

SOUZA, Letícia Rodrigues Goulart de. PORFIRIO, Regiane Baptista Martins.  Cuidados de enfermagem ao paciente colostomizado: revisão de literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 03, Vol. 01, pp. 87-103. Março de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/paciente-colostomizado

RESUMO

O convívio com o estoma exige da pessoa colostomizada a adoção de inúmeras medidas de adaptação e reajuste às atividades diárias. A mudança brusca na estrutura corporal e a convivência com a bolsa coletora gera o surgimento de sentimentos conflituosos, preocupações e dificuldades para lidar com esta nova condição. Neste sentido, o artigo tem como objetivo identificar os cuidados de enfermagem ao paciente colostomizado, levantando-se a questão: qual o papel da equipe de enfermagem frente ao paciente colostomizado e quais cuidados podem ser realizados? O artigo teve como referencial a análise de artigos científicos publicados de 2009 a 2019, com prática de enfermagem em relação aos cuidados assistenciais a pacientes com ostomias intestinais. Concluiu-se que a consulta e acompanhamento de enfermagem têm papel essencial no desenvolvimento do plano de cuidado ao paciente, com ações que visam superar dificuldades e minimizam os transtornos decorrentes do estoma. Sendo as atividades “envolver a família ou pessoa significativa nos cuidados” e “orientações para o autocuidado” as mais citadas no estudo.

Palavras-chave: Ostomia; colostomia; cuidado de enfermagem; rede familiar; autoimagem.

1. INTRODUÇÃO

O ostoma ou estoma representa uma abertura originada de um processo cirúrgico, que permite a conexão de um órgão com o meio externo. O estoma intestinal consiste na exteriorização do intestino, formando um novo trajeto e local para a eliminação de secreções, que se depositam em uma bolsa coletora. Esse processo pode ser temporário ou definitivo, conforme as condições e causas de sua confecção, podendo ser classificado em colostomia ou ileostomia, mediante sua localização (BARTLE et al., 2013).

Santana (2010) destaca que a mudança brusca na estrutura corporal e a convivência com a bolsa coletora gera o surgimento de sentimentos conflituosos, preocupações e dificuldades para lidar com esta nova condição. Batista (2011) evidencia que a depressão, solidão, pensamentos suicidas, sentimentos de estigma, alteração da autoimagem assim como as funções psicológicas estão entrelaçadas no cotidiano daqueles que vivenciam o processo de ser portador de colostomia.

Nesses momentos de maior vulnerabilidade a assistência dos profissionais de saúde contribui quanto à insegurança e medos do portador, facilitando a transição para uma condição de vida mais favorável (SOUZA et al., 2015).

Tendo em vista o alto número de pacientes ostomizados e as mudanças que o processo trás na vida do paciente, levantou-se a questão: qual o papel da equipe de enfermagem frente ao paciente colostomizado e quais cuidados podem ser realizados?

Assim sendo, este estudo tem como objetivo identificar, na literatura, as intervenções que podem ser realizadas na assistência de enfermagem ao colostomizado, além de conscientizar a importância do papel dos enfermeiros no acompanhamento desses pacientes.

2. METODOLOGIA

Trata-se de um estudo descritivo, elaborado por meio de revisão de literatura, com estratégia nos descritores: cuidados de enfermagem, ostomia, colostomia, rede familiar e, autoimagem. Os critérios de inclusão foram: artigos publicados na íntegra nos idiomas português e inglês, no período de 2009 a 2019, que apresente a temática referente aos cuidados assistenciais a pacientes portadores de ostomias. Foram excluídos estudos incompletos e artigos que não citassem o profissional de enfermagem nos cuidados ao paciente.

A revisão foi ampliada por meio de outras fontes como o site oficial da ABRASO  (Associação Brasileira de Ostomizados), UOAA (United Ostomy Associations of America) e dos instrumentos de trabalho do enfermeiro como a Classificação Internacional das  Práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva (CIPESC®) e Ligações NANDA, NIC-NOC  que fornece as ligações existentes entre as três linguagens padronizadas reconhecidas  pela American Nurses Association: NANDA-I, Classificação dos Resultados de  Enfermagem (NOC) e Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC). Por se tratar de estudo bibliográfico não foi necessária a aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

No total foram encontrados 102 artigos, sendo 47 no Medline; 43 na Lilacs e 12 na Scielo, respectivamente. Quanto aos temas, 38 artigos referiam-se aos cuidados de enfermagem, 25 sobre autoimagem, 23 relacionado a rede familiar, 10 a respeito de colostomia e 6 sobre ostomia. Ao aplicar os critérios de inclusão e exclusão previamente estabelecidos, a amostra final constituiu-se de 21 publicações, porém, 8 estudos apresentaram duplicidade no banco de dados. Dessa forma, foram selecionados para esse estudo 13 artigos, conforme quadro 1, apresentadas por título, autor, periódico e tema.

Quadro 1 – Artigos levantados na pesquisa 2009-2019

Título Autor Periódico Tema
O significado de ser colostomizado e participar de um programa de atendimento ao ostomizado. Santana JCB, Dutra BS, Tameirão MA, Silva PF, Moura IC, Campos ACV. Cogitare Enferm. 2010 Out/Dez; 15(4): 631-8. Lilacs. Relata a inclusão de colostomizado em um programa visado para atender e considerar as novas necessidades do indivíduo no meio em que é inserido.
Experiências cotidianas de pessoas colostomizadas por câncer: enfoque existencial. Violin MR, Sales CA. Revista Eletrônica De Enfermagem, 12(2), 278-86. 2010-Portugues. Scielo. Aborda os processos e experiências da pessoa colostomizada por malignidades, com enfoque existencial e pessoal.
Estudos sobre o cuidado à família do cliente hospitalizado: contribuições para enfermagem. Valadares GV, Paiva RS. Rev. Rene. Fortaleza, v. 11, n.  3, p. 180-188, jul./set.2010. 2010-Portugues. Lilacs. Descreve os cuidados de enfermagem prestados junto a família e pessoas próximas do colostomizado.
Autoimagem de clientes com colostomia em relação à bolsa coletora. Batista MRFF, Rocha FCV, Silva DMG, Júnior FJGS. Rev Bras Enferm, Brasília 2011 nov-dez; 64(6): 1043-7. 2011-Portugues. Medline. Desenvolve sobre a nova autoimagem de colostomizados em relação ao uso da bolsa coletora e suas atribuições ao cotidiano.
Vivência do paciente estomizado: uma contribuição para a assistência de enfermagem. Nascimento CMS, Trindade GLB, Luz MHBA, Santiago RF. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, 2011 Jul-Set; 20(3): 557-64. 2011- Portugues. Scielo. Evidência a assistência de enfermagem no modo de vida do colostomizado
As repercussões de viver com uma colostomia temporária nos corpos: individual, social e político. Souza PCM, Costa VRM, Maruyama SAT, Costa ALRC, Rodrigues AEC, Navarro JP. Revista Eletrônica De Enfermagem, 13(1), 50-9.  2011. 2011-Portugues. Scielo. Refere-se ao impacto e influências nas áreas da vida e em um corpo com colostomia temporária.
The influence of time on the quality of life of patients with intestinal stoma. Salles VJA, Becker CPP, Faria GMR. J Coloproctol (rio j). 2014; 34 (2): 73-75. 2014-Inglês. Medline. Aborda a influência na qualidade de vida de um paciente com estoma.
Construção e validação de uma escala de adaptação a ostomia de eliminação. Souza CF, Santos C, Graça LCC. Revista de Enfermagem Referência – IV – n.° 4 – 2015. Portugues. Scielo. Relata a adaptação de um paciente frente a ostomia de eliminação.
Ligações NANDA – NOC – NIC:  condições clínicas, suporte ao raciocínio e assistência de qualidade. Johnson M, Moorhead S, Bulechek G, Butcher H, Maas M, Swanson E. Rio de Janeiro, Elsevier. 3ª ed. 2012. 2016-Portugues. Elsevier. Expõe diagnósticos de enfermagem, intervenções e resultados esperados pelas ações e contribuições da enfermagem.
Adaptação social do paciente colostomizado: desafios na assistência de enfermagem. Ribeiro RVL, Oliveira AC, Viana LVM, Pinto AP, Carvalho ML, Elias CMV. R. Interd. v. 9, n. 2, p. 216- 222, abr. mai. jun. 2016. 2016-Portugues. Lilacs. Retrata a adaptação social perante os novos desafios e incumbências na vida do colostomizado e a influência dos cuidados da enfermagem.
Apoio emocional realizado por enfermeiro ao paciente ostomizado. Souza MT, Moraes A, Balbino C, Silvino Z, Tavares C, Passos J. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, ESPECIAL 4 (OUT.,2016). 2016-Portugues. Scielo. Transparece a ação do enfermeiro e apoio emocional ao paciente portador de ostomia permanente e temporária.
Classificação Internacional das Práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva – CIPESC®. Albuquerque L, Cubas M. Associação Brasileira de Enfermagem, 2017. 2017-Portugues. ABEn. Expõe diagnósticos e cuidados de enfermagem na saúde coletiva.
Caracterização dos ileostomizados atendidos em um serviço de referência de ostomizados. Queiroz CG, Freitas LS, Medeiros LP, Melo MDM, Andrade RS, Costa IKF. Enfermería Global, Nº 46, Abril 2017. 2017-Portugues. Scielo. Remete ao serviço de referência de atendimento a ostomizados em tipificação ileostomias.

Fonte: elaboração das autoras

Nos estudos selecionados foram destacados 25 cuidados que os profissionais de enfermagem podem aderir no acompanhamento do paciente colostomizado. O cuidado em destaque foi: “envolver a família ou pessoa significativa nos cuidados” com 76,92%, conforme quadro 2.

Quadro 2 – Cuidados de enfermagem aplicados ao paciente colostomizado

Cuidados de enfermagem aplicado ao paciente colostomizado N %
Envolver família/pessoa significativa nos cuidados 10 76,9
Explicar os riscos à saúde devido às más condições de higiene pessoal e domiciliar e estimular o autocuidado 9 69,2
Orientar sobre cuidados com o estoma e bolsa coletora 8 61,5
Orientação sexual 7 53,8
Informar sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico 6 46,2
Apoio familiar 5 38,5
Apoio emocional 5 38,5
Estimular a participação em grupos de autoajuda 5 38,5
Acolher o usuário conforme suas necessidades 5 38,5
Orientação antecipada 4 30,8
Disponibilizar as informações através de recursos didáticos e repasse, favorecendo a compreensão pelo paciente 4 30,8
Incentivar a socialização através de atividades físicas e de lazer 4 30,8
Apoio espiritual 4 30,8
Orientar a adaptação da dieta ao modo de vida do paciente 4 30,8
Promover orientação a cuidadores do paciente 3 23,1
Encaminhar para atendimento psicológico e favorecer o suporte psicológico para enfrentamento da doença 3 23,1
Identificar habilidades de enfrentamento e tomada de decisão à situação atual 3 23,1
Orientar o controle do uso de medicação 2 15,4
Encorajar a verbalização de sentimentos, percepções e medos 2 15,4
Aconselhamento 1 7,69
Solicitar visita da equipe para reforçar as orientações recebidas 1 7,69
Estabelecer relação de confiança com a paciente 1 7,69
Investigar possibilidade de negligência 1 7,69
Encaminhar para programa de atendimento ao ostomizado 1 7,69
Orientar quanto ao vestuário 1 7,69

Fonte: elaboração das autoras

Já as atividades “aconselhamento”, “solicitar visita da equipe para reforçar as orientações recebidas”, “estabelecer relação de confiança com a paciente”, “investigar possibilidade de negligência”, “encaminhar para programa de atendimento ao ostomizado” e “orientar quanto ao vestuário” foram as menos citadas, com 7,69%.Fonte: elaboração das autoras

O quadro 3 apresenta os possíveis diagnósticos e intervenções de enfermagem aos portadores de ostomias, referenciando o responsável pelo cuidado proposto. Os diagnósticos foram baseados na Classificação Internacional das Práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva (CIPESC®). Ao todo foram levantados 9 diagnósticos.

Quadro 3 – Diagnósticos e intervenções de enfermagem baseados na Classificação Internacional das Práticas de Enfermagem em Saúde Coletiva (CIPESC®)

Diagnósticos de Enfermagem Intervenção
3.6 Ingestão alimentar Comer frutas e legumes
Evitar alimentos gordurosos e frituras
Orientar a adaptação da dieta ao modo de vida do paciente
9.3 Higiene corporal alterada Explicar os riscos à saúde devido às más condições de higiene pessoal e domiciliar
Investigar possibilidade de negligência
Orientar hábitos de higiene corporal
Promover orientação aos cuidadores do paciente
Relacionar possíveis patologias com a higiene alterada
10.1 Trauma na pele Avaliar a situação do trauma
Manter ferida limpa conforme orientado
Orientar sobre cuidados com o trauma
Programar visita domiciliar
Retornar no dia e horário agendado
A.4 Ansiedade Acolher o usuário conforme suas necessidades
Determinar a capacidade de tomada de decisão do paciente
Envolver família/pessoa significativa nos cuidados
Estabelecer relação de confiança com a paciente
Incentivar a socialização através de atividades físicas e de lazer
Orientar quanto a técnicas de relaxamento
A.5 Negação Buscar compreender a perspectiva apresentada
Discutir sobre experiências atuais
Encorajar a verbalização de sentimentos, percepções e medos
Encorajar o diálogo
Identificar habilidades de enfrentamento à situação atual
Informar sobre diagnóstico, tratamento e prognóstico
Oferecer apoio durante a fase de negação
Orientar quanto terapêutica medicamentosa
Usar abordagem calma e segura
C.3 Conhecimento Insuficiente Disponibilizar as informações através de recursos didáticos
Selecionar as informações e repasse de forma clara, favorecendo a compreensão pelo paciente/família
Solicitar visita da equipe para reforçar as orientações recebidas
F.1 Autoestima prejudicada Acolher a usuária conforme suas necessidades
Estimular a autoestima da paciente
Encaminhar para atendimento psicológico
Estimular atividade física e de lazer
Favorecer o suporte psicológico para enfrentamento da doença
Identificar rede de apoio familiar e comunitário
G.2 Adaptação/Enfrentamento inadequado Encorajar a identificação de pontos fortes e capacidades  
Refletir seu papel na família e sociedade
H.1 Imagem corporal alterada Encaminhar para atendimento psicológico
Estimular atividade física e de lazer
Estimular a participação em grupos de autoajuda
Estimular o autocuidado corporal
Estimular o controle da ingestão alimentar
Orientar o controle do uso de medicação
Relacionar os fatores desencadeantes das mudanças corporais

Fonte: elaboração das autoras

Quadro 4 – Diagnósticos de Enfermagem NANDA, Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC) e Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC)

Diagnóstico de Enfermagem  Resultados Esperados  Intervenções Principais Intervenções Sugeridas
Constipação 1615 Autocuidado da ostomia:  ações pessoais para manter a ostomia para a eliminação Controle intestinal Controle hídrico
Reposição rápida de líquidos
Controle da nutrição
Cuidados da pele: tratamentos tópicos
Cuidados com ostomias Supervisão da pele
Ensino: indivíduo
Ensino: habilidades psicomotoras
Cuidados com lesões
Desesperança 2000 Qualidade de vida:  alcance da percepção positiva das atuais circunstâncias de vida Promoção da esperança Melhora do enfrentamento
Apoio emocional
Apoio familiar
Controle do humor
Melhora do papel
Esclarecimento de valores Melhora da autopercepção
Melhora da socialização
Grupo de apoio
Melhora do sistema de apoio
Apoio espiritual
Distúrbio da imagem corporal 1308 Adaptação à deficiência física: resposta adaptativa a um desafio funcional importante decorrente de deficiência física Melhora da autoestima Orientação antecipada
Redução da ansiedade
Aconselhamento
Apoio emocional
Melhora da imagem corporal Melhora da socialização
Grupo de apoio
Melhora do sistema de apoio
Ensino: processo da doença
Ensino: procedimento/ tratamento
1200 Imagem corporal:  percepção da própria aparência e funções do corpo Melhora da imagem corporal Cuidados com ostomias

Fonte: elaboração das autoras

No quadro 4 foi descrito os possíveis diagnósticos, resultados esperados e intervenções ao paciente ostomizado, de acordo com os Diagnósticos de Enfermagem da NANDA, Classificação das Intervenções de Enfermagem (NIC) e Classificação dos Resultados de Enfermagem (NOC). Ao todo foram agrupados 3 diagnósticos, seguidos de seus resultados esperados, intervenções principais e intervenções sugeridas, respectivamente.

Queiroz (2017) descreve que na ileostomia é exteriorizado uma porção do intestino delgado, o íleo, impossibilitando o processo digestório para os demais segmentos do sistema. Já na colostomia, é exteriorizado uma alça do intestino grosso.

A colostomia é classificada segundo sua localidade, já que o intestino grosso é dividido em quatro partes: cólon ascendente, cólon transverso, cólon descendente e cólon sigmóide (RIBEIRO et al., 2016).

Esse processo cirúrgico pode ser necessário devido a defeitos congênitos, câncer, doença inflamatória intestinal, diverticulite, trauma abdominal ou pélvico grave resultante de acidentes, incontinência e outras condições médicas. As alterações causadas pela colostomia não estão restritas a fisiologia gastrintestinal, afetam também a vida profissional, social, afetiva e a autoestima (SALLES et al., 2014).

Atualmente, não existem dados atualizados com o número aproximado de colostomizados no Brasil. Os últimos registros da Organização Mundial de Saúde (OMS) apresentaram que a prevalência de ostomizados no mundo pode chegar a 0,1% da população, sendo que, no Brasil, cerca de 100 mil pessoas já realizaram uma ostomia.  De acordo com a Associação Brasileira dos Ostomizados (ABRASO), em 2019 apenas 35 mil pessoas recebem atendimento através de programas estaduais e municipais. O número de atendimentos particulares é de aproximadamente 8 mil e, a maioria, 57 mil ostomizados, não está incluída em nenhum desses sistemas de atendimento, ou seja, não tem acesso à equipamentos indispensáveis à sua reabilitação como, por exemplo, a bolsa coletora.

Os pressupostos que perpassam a análise e interpretação dos resultados encontrados nesse estudo estavam relacionados com pacientes submetidos à colostomia e que têm sua perspectiva de vida alterada, tanto de ordem física quanto social e emocional, quando eles enfrentam diversas barreiras relacionados às mudanças bruscas de seu corpo.

Ribeiro (2016) aponta que a incapacidade de controle das eliminações intestinais leva o paciente a uma série de sentimentos que envolvem a não aceitação da sua nova condição de vida, resultando em autoestima diminuída, sexualidade comprometida e, muitas vezes, em isolamento social, afetando diretamente na sua qualidade de vida.

Além disso, o ser colostomizado deve lidar com as mudanças em seus hábitos alimentares e de higiene devido ao cuidado que a bolsa coletora exige (NASCIMENTO et al., 2011).

O mal-estar emocional, comumente, está relacionado à falta de orientação sobre como manusear a bolsa e acerca do autocuidado, além da escassez de apoio emocional, sendo este um dos aspectos que mais contribuem para uma adequada adaptação do ostomizado (SOUZA et al., 2016).

É por meio da consulta de enfermagem que se tem um acompanhamento direto do paciente, prevenindo complicações relacionadas ao ostoma, e ajudando-o a enfrentar as dificuldades de qualquer ordem ocasionadas pelas mudanças ocorridas após o ostoma (NASCIMENTO et al., 2011).

Essas intervenções consideram as necessidades biopsicossociais do indivíduo de forma singular, proporcionando melhor adaptação à condição do ostomizado, estimulando o enfrentamento da condição atual, potencializando seu autocuidado de forma qualitativa (RIBEIRO et al., 2016).

Além de todo o cuidado direcionado ao paciente, o enfermeiro pode buscar o apoio da família, pois é nela que se encontra suporte quando um de seus membros sente-se fragilizado e necessitando de ajuda, buscando compreender a situação, a revolta, as angústias e os anseios do paciente. Além disso, entende-se que a família pode agir como uma peça-chave no processo saúde-doença do paciente hospitalizado, uma vez que ela se traduz como principal fonte de informação e vínculo afetivo, ajudando-o a enfrentar o provável sentimento de solidão que permeia esse período (VALADARES et al., 2010).

Para tanto, o profissional de enfermagem necessita reconhecer que a família se constitui numa unidade de cuidado e de ajuda ao paciente. Faz-se necessário que esse profissional identifique as fragilidades e potencialidades dessa rede familiar, antes de sua inserção no cuidado (SOUZA et al., 2011).

Nesse sentido, o processo de atendimento em saúde ao paciente com ostomia  deve incluir, além delas, a atenção ao familiar/cuidador, orientando-os por meio de  informações claras e precisas a respeito do ostoma, pele periostomal e sistema coletor  (aplicação, higiene, manipulação e troca) e outras ações de cuidar, já que a convivência  com o ostoma exige do portador a adoção de inúmeras medidas de adaptação e  ajuste às atividades diárias, incluindo o aprendizado das ações de  autocuidado (VIOLIN et al., 2010).

É necessário que os profissionais de saúde, sobretudo os enfermeiros, com sua visão humanista e ampliada dos impactos de um ostoma na vida do paciente, desenvolvam uma comunicação eficaz e escuta ativa. Desse modo as dúvidas, as inseguranças, as incertezas, os medos relacionados à aquisição e manuseio de bolsas, cuidados com ostoma e pele periostoma e gerenciamento da vida com ostoma podem ser esclarecidos, facilitando o processo de reabilitação e socialização, pois conviver com uma ostomia temporária, assim como na condição permanente, pode levar à depressão e ao isolamento social (SOUZA et al., 2011).

No período que antecede a cirurgia para a realização da ostomia, é necessário que os profissionais de saúde envolvidos preparem os pacientes para esse processo. Deste modo, é de grande importância orientar sobre o procedimento a ser realizado não somente ao paciente, mas também a sua família, as possíveis complicações e oferecer apoio emocional para ambos.

Na fase posterior ao processo cirúrgico, é fundamental encaminhar o paciente ao serviço de atendimento ao ostomizado, após a desospitalização. A interação com pacientes na mesma situação poderá prover ao indivíduo seguimento adequado ao tratamento e melhor aceitação da sua nova condição de vida (BATISTA et al., 2011).

Para isso, é imperativo que esses profissionais busquem boa formação e especialização sobre a temática desse estudo para a qualificação da assistência, que deve estar pautada no respeito e comunicação terapêutica, envolvendo os aspectos biológicos, sociais e psicológicos do paciente, bem como de toda sua família (RIBEIRO et al., 2016).

Dessa forma, a enfermagem assume um papel essencial na promoção do cuidado aos ostomizados, através do conhecimento e apoio necessário para que desenvolvam suas potencialidades, sua autonomia, execute novamente suas atividades cotidianas das quais se afastaram pelas limitações impostas por essa condição (SOUZA et al., 2011).

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo visou questionar sobre o papel da equipe de enfermagem frente ao paciente colostomizado e os cuidados que podem ser realizados. No que diz respeito ao papel da equipe de enfermagem, é importante ressaltar que nos momentos de maior vulnerabilidade a assistência dos profissionais da saúde corrobora com a gestão do indivíduo quanto à insegurança e medos, devendo ser intensificada, no sentido de facilitar sua transição em sua nova condição de vida da forma mais satisfatória possível. Por conseguinte, as intervenções da equipe de enfermagem contribuem para boa adaptação do ostomizado, além da melhora da qualidade de vida biológica, psicológica e social. Sendo o enfermeiro o profissional mais capacitado para executar os cuidados com pacientes ostomizados devido sua habilidade de observar o ser em toda sua singularidade. Constatando as atividades “envolver a família ou pessoa significativa nos cuidados” e “orientações para o autocuidado” as mais citadas no estudo.

Faz-se necessário que o enfermeiro esteja sempre atualizado quanto ao assunto, sendo possível utilizar seu conhecimento no desenvolvimento de estratégias de intervenção que minimizam os transtornos decorrentes do estoma e de capacitar outros profissionais envolvidos na assistência ao paciente.

REFERÊNCIAS

BARTLE, Corner et al. Addressing common stoma complications. Nursing & Residential Care, publicação online, v.15, n.3, p.130-133, março. 2013. Disponível em: http://connection.ebscohost.com/c/articles/85693635/addressing-common-stoma complication%20s. Acesso em 20/07/2019.

BATISTA, Maria et al. Autoimagem de clientes com colostomia em relação à bolsa coletora. Rev Bras Enferm, Brasília, v.64, n.6, p.1043-1047, novembro. 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reben/v64n6/v64n6a09.pdf. Acesso em 08/08/2019.

NASCIMENTO, Conceição et al. Vivência do paciente estomizado: uma contribuição para a assistência de enfermagem. Texto Contexto Enferm, Florianópolis, v.20, n.3, p. 557-564, julho. 2011. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/tce/v20n3/18.pdf. Acesso em 20/07/2019.

QUEIROZ, Cintia et al. Caracterização dos ileostomizados atendidos em um serviço de referência de ostomizados. Rev Enfermería Global, publicação online, n.46, p.13-27, abril. 2017. Disponível em: https://scielo.isciii.es/pdf/eg/v16n46/pt_1695-6141-eg-16-46-00001.pdf. Acesso em 27/09/2019.

RIBEIRO, Raíssa et al. Adaptação social do paciente colostomizado: desafios na assistência de enfermagem. Rev Interdisciplinar, publicação online, v.9, n.2, p.216-222, abril. 2016.  Disponível em: https://revistainterdisciplinar.uninovafapi.edu.br/index.php/revinter/article/view/1128 /pdf_329. Acesso em 25/09/2019.

SALLES, Valdemir et al. The influence of time on the quality of life of patients with intestinal stoma. Journal of Coloproctology, publicação online, v.34, n.2, p.73-75, abril. 2014. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2237936314000252?via%3Dihub. Acesso em 15/07/2019.

SANTANA, Júlio et al. O significado de ser colostomizado e participar de um programa de atendimento ao ostomizado.  Cogitare Enferm, publicação online, v.15, n.4, p.631-638, outubro. 2010. Disponível em: https://revistas.ufpr.br/cogitare/article/view/20358/13519. Acesso em 21/07/2019.

SOUZA, Clementina et al. Construção e validação de uma escala de adaptação a ostomia de eliminação. Revista de Enfermagem Referência, publicação online, v.4, n.4, p.21-30, janeiro. 2015. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/ref/vserIVn4/serIVn4a03.pdf. Acesso em 05/08/2019.

SOUZA, Marilei et al. Apoio emocional realizado por enfermeiro ao paciente ostomizado. Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental, publicação online, v.4, p.49-56, outubro. 2016. Disponível em: http://www.scielo.mec.pt/pdf/rpesm/nspe4/nspe4a08.pdf. Acesso em 22/07/2019.

SOUZA, Pollyane et al. As repercussões de viver com uma colostomia temporária nos corpos: individual, social e político. Rev. Eletr. Enf, publicação online, v.13, n.1, p.10-11, janeiro. 2011. Disponível em: http://dx.doi.org/10.5216/ree.v13i1.7928. Acesso em 21/07/2019.

VALADARES, Glaucia et al. Estudos sobre o cuidado à família do cliente hospitalizado: contribuições para enfermagem. Rev. Rene, Fortaleza, v.11, n.3, p.180-188, julho. 2010. Disponível em: http://www.periodicos.ufc.br/rene/article/view/4625/3458. Acesso em 21/07/2019.

VIOLIN, Mara Rúbia et al. Experiências cotidianas de pessoas colostomizadas por câncer: enfoque existencial. Rev. Eletr. Enf, publicação online, v.12, n.2, p. 278-286, julho. 2010. Disponível em: https://revistas.ufg.br/fen/article/view/5590. Acesso em 21/07/2019.

[1] Pós-graduada em Enfermagem em Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Central de Material e Esterilização pela Santa Casa de São de Paulo, graduada em Enfermagem pela Universidade Anhembi Morumbi. ORCID: 0000-0003-2571-9727.

[2] Orientadora. ORCID: 0000-0001-6703-9741.

Enviado: Julho, 2021.

Aprovado: Março, 2022.

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