Esquisse do Cenário Epidemiológico da Doença de Chagas no Brasil

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BRASILEIRO, Maykon Ramos

BRASILEIRO, Maykon Ramos. Esquisse do Cenário Epidemiológico da Doença de Chagas no Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 05. Ano 02, Vol. 01. pp 34-40, Julho de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Através dos dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de informação de Agravos de Notificação – SINAN foram identificados os casos positivos notificados do período de Janeiro de 2001 a Dezembro de 2014 com o objetivo de obter a descrição quantitativa de casos por Unidade Federativa (UF) e Região do país. A análise dos dados resultou no maior número de casos da Região Nordeste, com um percentual de 42,5% dos casos, sob um total de 3.827 casos notificados no Brasil num período de 14 anos. Foi possível visualizar um avanço no combate à doença de Chagas no país, com diminuição significativa no número de casos anuais das regiões, exceto a região Norte que apresentou aumento da incidência anual de casos.

Palavras-Chave: Doença de Chagas, Tripanossomíase Americana, Trypanossoma cruzi, Zoonose Parasitária.

INTRODUÇÃO

Carlos Chagas em uma missão de controle ao surto da malária em operários da estrada de Ferro Central do Brasil em 1907, tomou conhecimento de um inseto hematófago, vulgarmente chamado de “barbeiro”, o mesmo foi descrito como vetor do protozoário Trypanossoma cruzi (CHAGAS, 1908). Desde então estudos assolam ao descobrimento dos aspectos infecto-contamines, controle, modo de vida e outras espécies de vetores e parasitos causadores da Doença de Chagas.

O causador da Doença de Chagas, protozoário flagelado T. cruzi pertence à ordem Kinetoplastida, família Trypanosomatidae. Ao contrário de outras doenças transmitidas por vetores hematófagos, a transmissão não se dá pela inoculação do agente junto a saliva e sim pela picada, seguida da defecação no ato ou posterior a hematofagia, tais fezes contém as formas infectantes do parasito, que penetram tanto em feridas e mucosas, como também pelo próprio orifício da picada do vetor (GALVÃO, 2014).

A doença de Chagas aguda (DCA) ou tripanossomíase americana é uma antropozoonose exclusiva das Américas, representa o quarto maior impacto social entre as doenças infecciosas e parasitárias da América Latina (SHMUNIS, 2000). A transmissão vetorial depende de três fatores básicos, sendo a presença de T. cruzi, triatomíneos domiciliados e hospedeiros mamíferos no ambiente domiciliar (DIAS, 2001). Esta forma de infecção, denominada clássica, acomete 80% das infecções, estando diretamente ligada ao fator humano e condições socioeconômicas (DIAS, 2001).

Outra via de infecção ocorre mediante transfusão de sangue, transplacentária e transplante de órgãos, ambos com participe de um paciente infectado, podendo ocorrer também pela ingestão acidental de triatomíneos ou fezes do inseto infectado (GALVÃO, 2014).

Vetor

O “barbeiro”, é um artrópode da classe Insecta, ordem Hemiptera, família Reduviidae e subfamília Triatominae que se alimenta exclusivamente de vertebrados homeotérmicos, sendo chamados hematófagos (SUCEN, 2015). Abrigam-se geralmente em local muito próximo à fonte de alimento e podem ser encontrados na mata em ninhos de pássaros, toca de animais, casca de tronco de árvore, montes de lenha e embaixo de pedras, apresentam vida média entre um a dois anos, com evolução de ovo, ninfa e adulto. Apresentam grande capacidade de reprodução e, dependendo da espécie, intensa resistência ao jejum (VERONESI, 1991).

Ciclo de vida

Ovos: A fêmea copula uma só vez e transcorridos cerca de 20 a 30 dias começa a postura. Cada fêmea ovipõe cerca de 200 ovos. A eclosão dos ovos ocorre em média 25 dias após a postura (BENENSON, 1992; VERONESI, 1991).

Ninfas: Os ovos eclodem em ninfas, que procuram alimento de 2 ou 3 dias depois de nascidos. Após sua primeira refeição a ninfa sofrerá perda de sua pele. O “barbeiro” passa ao todo por 5 mudas até atingir o estádio adulto (BENENSON, 1992).

Adultos: O adulto vive alguns meses, podendo alcançar um ano ou mais. As fêmeas efetuam a primeira postura com cerca de 2 meses. Após a postura, tendem a migrar e formar novas colônias. O ciclo de vida dura em média de 1 a 2 anos (BENENSON, 1992).

Distribuição ecológica dos triatomíneos

São conhecidas 118 espécies de triatomíneos e, 105 são do Novo Mundo, ambos os vetores em potencial para o T. cruzi (VERONESI, 1991), sendo este o vetor mais importante no nordeste do Brasil, frequentemente encontrado em habitats silvestres e peridomiciliares, onde é fortemente associado com abrigo de cabras, galinhas e por ecótopos rochosos, e no meio domiciliar possui aves e humanos como principal fonte alimentar (SUCEN, 2015).

Clínica e diagnóstico

A forma aguda da doença ocorre geralmente em crianças, com presença de manifestações crônicas tardias. As manifestações clínicas são raras, sendo caracterizada por febre de intensidade variável, mal-estar, linfadenopatia e hepatoesplenomegalia (REY, 1999).

O diagnóstico na fase aguda é estabelecido pela demonstração do parasito através de pesquisa no sangue, por cultura ou por imunodiagnóstico (REY, 1999).

Controle 

Devido ao ciclo de transmissão da infecção, as medidas de controle são dirigidas em geral ao combate do vetor através do controle químico e biológico (SUCEN, 2015), e ao controle de qualidade do sangue transfundido através da fiscalização das unidades de hemoterapia no controle de qualidade do sangue a ser transfundido, através da triagem sorológica de todos os doadores de sangue, com, pelo menos, duas técnicas de sensibilidade (SUCEN, 2015; FUNASA, 2015).

O objetivo principal foi expor a situação epidemiológica da Doença de Chagas do Brasil no período de 2001 a 2014, decorrendo na quantificação dos casos confirmados nas regiões e identificação das regiões com maior percentual de casos.

MATERIAIS E MÉTODOS

A pesquisa foi realizada isenta da aprovação da Câmara de Ética em Experimentação Animal (CEUA), pois não aferiu uso de animais e sim de uma plataforma do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de informação de Agravos de Notificação – SINAN online que permite a coleta de informações tabuladas e revisadas.

Com a coleta dos dados na plataforma, foi possível identificar a quantidade de casos totais em cada ano e cada unidade federativa (UF), assim apresentando o percentual de casos da doença no determinado período.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

As regiões brasileiras mais afetadas pela doença foram Nordeste (42,5%) e Norte (41,3%), conforme demonstrado na Tabela 1. Em relação à incidência de casos, observa-se que no período de 2001 a 2007 a região Nordeste apresentou o maior número de casos do país, posteriormente no período de 2005 a 2014 houve diminuição expressiva no número de casos da região o que sugere um impacto positivo de medidas de controle e conscientização, supostamente adotadas pelos órgãos de saúde pública.

TABELA 1 – Número de casos confirmados para DCA no Brasil – 2001-2014

Ano/Região Norte Nordeste Sudeste Sul Centro-Oeste Total/Ano
2001 5 37 7 12 0 61
2002 38 114 36 48 10 246
2003 49 436 33 46 15 579
2004 38 264 42 58 17 419
2005 52 426 57 78 16 629
2006 132 299 44 45 24 544
2007 151 3 0 0 1 155
2008 96 8 0 0 0 104
2009 214 5 0 0 1 220
2010 104 10 0 1 15 130
2011 166 16 0 0 8 190
2012 186 2 0 1 0 189
2013 157 2 2 1 1 163
2014 192 3 1 1 1 198
Total de Casos
 (%)
1580
(41.3%)
1625
(42.5%)
222
(5.8%)
291
(7.6%)
109
(2.8%)
3827
(100%)
Média de casos 113/ano 116/ano 16/ano 21/ano 8/ano 273/ano

Fonte: Dados do Ministério da Saúde/SVS – Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN. Nota: Dados trabalhados pelo autor.

Doença de Chagas é uma das principais afecções tropicais, sua transmissão é relativamente simples, possuindo ampla variedade de vetores e hospedeiros mamíferos (GALVÃO, 2014). Sabendo que os vetores estão incluídos no meio peridomiciliar, ocupando áreas de atividade humana, isto preenche os três requisitos descritos por Dias (2001) frente a linha de infecção e transmissão.

Visto que, supostamente, medidas de prevenção e controle adotadas na região Nordeste durante o período de 2005 a 2014 surtiram efeito significativo em relação à quantidade de casos, torna-se coerente à realização de pesquisas epidemiológicas com ênfase tanto na descrição quantitativa de casos, quanto para o acompanhamento da evolução a regressão da doença no país.

CONCLUSÃO

Observou-se alta incidência no número de casos da região Norte brasileira em relação às outras regiões, o que lhe aferiu a segunda colocação no total de casos do país. Em contrapartida, houve significativo controle na incidência de casos nas demais regiões do país no decorrer dos anos, principalmente na região Nordeste. Isto sugere que medidas de controle e conscientização aplicadas à população são essenciais para a prevenção e combate da doença.

REFERÊNCIAS 

DIAS JCP, VINHAES MC, SILVEIRA AC, SCHOFIELD CJ, CARDOSO B, et al. Pesquisas prioritárias dobre doença de Chagas na Amazônia: agenda de curto-médio prazo. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 2001.

GALVÃO, C. Vetores da doença de chagas no Brasil. Sociedade Brasileira de Zoologia, Curitiba, Brasil, 2014.

MINISTÉRIO DA SAÚDE/SVS – Doença de Chagas aguda: casos confirmados notificados no sistema de informação de agravos de notificação – SINAN – BRASIL, 2014. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sinanwin/cnv/chagasbr.def. Acesso em: 20 de Novembro de 2016.

PROGRAMA R. versão 3.3.1. Copyright (C) 2016 The R Foundation for Statistical Compuing.

SCHMUNIS, G.A. La reforma del sector salud, descentralización, prevención y control de enfermedades transmitidas por vectores. Cadernos de Saúde Pública, 2000.

VALENTE AS, VALENTE VC. Situação da doença de Chagas na Amazônia. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical, 1993.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. Control of Chagas Disease. Second report of the WHO Expert Committee. WHO Technical Report Series No. 905, Geneva, 2002.

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