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Inovação em cosméticos labiais: integrando óleos da biodiversidade brasileira em fórmulas veganas

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CONTEÚDO

ARQUIVO ORIGINAL

GONÇALVES, Karla Mara [1], POLONINI, Hudson Caetano [2], ALMEIDA, Priscila Aparecida de [3], CASARIM, Marcos dos Reis [4], RAPOSO, Nádia [5]

GONÇALVES, Karla Mara et al. Inovação em cosméticos labiais: integrando óleos da biodiversidade brasileira em fórmulas veganas. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 01, pp. 97-144. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/cosmeticos-labiais, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/cosmeticos-labiais

RESUMO

Recentemente, a indústria cosmética tem se transformado com a incorporação de práticas éticas e sustentáveis, impulsionada por consumidores que exigem produtos capazes de preservar o meio ambiente enquanto promovem benefícios à saúde. No campo dos cuidados labiais, essa tendência se reflete na preferência por formulações que utilizam ingredientes de origem vegana e biodegradáveis, permitindo que as empresas reduzam seus impactos ambientais e atendam às expectativas de um público cada vez mais informado e exigente. Neste contexto, o estudo desenvolveu uma linha vegana de cosméticos labiais, composta por esfoliante labial, lip balm e gloss, utilizando o Canabinnoid Active System (CBA), um ingrediente derivado de óleos vegetais da biodiversidade brasileira. Esta alternativa ao uso de Canabidiol (CBD) – atualmente proibido em cosméticos no Brasil – busca unir os benefícios dos fitocanabinoides à conformidade legal e à aceitação comercial. A criação da linha contemplou as seguintes etapas: desenvolvimento farmacotécnico, avaliação organoléptica, testes de estabilidade (preliminar e acelerada), além dos controles de qualidade físico-químico e microbiológico, complementados por ensaios in vitro de desempenho. Os resultados mostraram que os produtos mantiveram características organolépticas consistentes, sem desvios visuais de qualidade. As avaliações de estabilidade demonstraram a resistência dos cosméticos ao estresse térmico, sem indicar instabilidade física ou química significativa. Os ensaios de controle de qualidade ratificaram a uniformidade de massa, a adequação do pH, bem como os parâmetros de viscosidade e densidade, além de comprovar a eficácia do sistema conservante utilizado. O esfoliante labial apresentou 62,9% de teor de água e pH 5,0, enquanto o gloss exibiu viscosidade de 1279,6 milipascal/segundo e densidade de 0,884 g/mL. O lip balm evidenciou excelente desempenho em termos de oclusividade e espalhabilidade, embora uma capacidade limitada de fotoproteção de 1,17. Em suma, a linha de cosméticos desenvolvida configura-se como uma alternativa promissora e eficaz para o cuidado dos lábios, aliando desempenho e responsabilidade ambiental. Ademais, a utilização de ingredientes oriundos da biodiversidade brasileira ressalta o potencial inovador e sustentável das formulações, em consonância com as tendências atuais de consumo consciente e beleza sustentável.

Palavras-chaves: Cosmética sustentável, Ingredientes veganos, Canabinnoid Active System (CBA), Fitocanabinoides, Desenvolvimento farmacotécnico.

1. INTRODUÇÃO

Sempre em busca de inovações, a indústria cosmética não se limita a atender as exigências dos consumidores, mas também se empenha em adotar práticas éticas e sustentáveis. Em um cenário atual onde a sustentabilidade, a comprovação da eficácia e o bem-estar figuram entre as principais preocupações dos consumidores, as marcas têm se desafiado a integrar esses valores em seus processos de desenvolvimento (Jindal; Kwek; Mcdougall, 2020).

Em 2023, o portal Euromonitor destacou que mais de 60% dos consumidores se empenharam em adotar um estilo de vida mais sustentável, buscando impactar positivamente o meio ambiente. Paralelamente, há uma crescente expectativa em relação ao comprometimento das empresas e governos com a utilização responsável dos recursos naturais disponíveis, comprovando seus compromissos ecológicos (Euromonitor, 2023).

Com a crescente conscientização ambiental e sustentabilidade, os cosméticos com formulações sem, ou com pouca água em sua composição (waterless), emergem como uma alternativa promissora para a indústria (ABIHPEC, 2021). Em paralelo à crescente preocupação dos consumidores sobre o bem-estar animal, destaca-se o aumento da demanda por produtos veganos. O mercado global de cosméticos veganos prevê uma taxa de crescimento de 6,3% e, um aumento de valor de US$ 16,9 bilhões em 2023 para US$ 25,9 bilhões até o final de 2030 (Persistence Market Research, 2024). Além disso, a comprovação da eficácia tornou-se um critério decisivo para os consumidores, com 85% afirmando estar dispostos a investir mais em produtos de beleza que apresentem benefícios comprovados (Euromonitor, 2023; Jindal; Kwek; Mcdougall, 2020).

A busca por produtos eficazes para o cuidado labial tem impulsionado um interesse crescente por ingredientes de origem natural e vegana, e a biodiversidade exclusiva do Brasil oferece uma vasta gama desses componentes, que muitas vezes são subutilizados pela indústria cosmética. Os cuidados labiais, embora fundamentais para a saúde e estética, ainda representam um campo pouco explorado, com quantidade limitada de estudos científicos, apesar do crescente interesse do mercado. A previsão de um crescimento expressivo no mercado global de produtos labiais (32,5% entre 2020 e 2025) evidencia a importância desse estudo (Mendonça, 2022).

A manutenção dos lábios saudáveis vai além da estética, desempenhando um papel crucial na saúde global. O ressecamento excessivo pode causar fissuras e rachaduras labiais, gerando desconforto e dor, além de comprometer a integridade e função barreira (Kotnala et al., 2019). Lamber os lábios, uma prática comum para aliviar o ressecamento, pode agravar a situação, levando a dermatite de contato, queilose actínica (QA) e outras infecções, devido às enzimas digestivas presentes na saliva (Fonseca; Jacob; Sindle, 2020; Greenberg; Schlosser; Mirowski, 2017). A QA, potencialmente maligna, pode evoluir para um carcinoma de células escamosas de lábio, sendo a exposição crônica à radiação ultravioleta (RUV) do sol o principal fator etiológico (Câmara et al., 2016; Sarmento et al., 2014).

Intervenções simples na rotina diária como esfoliação, hidratação constante e proteção contra a RUV podem ser estratégias simples no controle dos sintomas relacionados ao ressecamento labial (Fonseca; Jacob; Sindle, 2020).

Nesse contexto, os cosméticos labiais surgem como aliados importantes e a utilização de ingredientes como óleos vegetais e fitocanabinoides – compostos químicos presentes em plantas que interagem com o sistema endocanabinoide – têm demonstrado potencial para hidratar, proteger e regenerar os lábios. O sistema endocanabinoide, composto por receptores CB1 e CB2, desempenha um papel essencial na regulação das funções neurais e inflamatórias da pele (Sharma et al., 2016). O receptor CB2, localizado predominantemente na epiderme e derme, é ativado por ligantes endógenos e exógenos, como os fitocanabinoides, destacando-se o Canabidiol (CBD) – componente ainda não permitido em produtos cosméticos no Brasil. Como alternativa ao CBD, o (Canabinnoid Active System) (CBA) – um complexo patenteado de óleos da biodiversidade brasileira – componente principal das formulações desse trabalho – apresenta potenciais atividades anti-inflamatória e cicatrizante (Tóth et al., 2019), além de estimular a produção de β-endorfinas (Choi; Nardo, 2018; Martins; Marto, 2023), peptídeos relacionados a funções imunológicas que promovem analgesia, auxiliam na reepitelização e recuperação da pele danificada, modulam o estresse cutâneo e proporcionam bem-estar e conforto (Landén; Li; Ståhle, 2016).

O desafio de encontrar alternativas eficazes que atendam a todos esses critérios sem comprometer a qualidade ou a segurança dos cosméticos, permanece especialmente quando se trata de cosméticos labiais. Para enfrentar essa limitação, este trabalho propôs o desenvolvimento de três cosméticos labiais veganos com óleos da biodiversidade brasileira – esfoliante labial, (lip balm) e (gloss), e a realização de testes que demonstrem sua segurança, qualidade, estabilidade, reprodutibilidade e desempenho.

Os objetivos específicos deste estudo incluem: desenvolver farmacotecnicamente os cosméticos labiais veganos; avaliar suas características organolépticas (cor, odor e aspecto); realizar testes de controle de qualidade físico-químico e microbiológico; fazer análises de estabilidade (preliminar e acelerada), além de e avaliar o desempenho in vitro das formulações – avaliação da oclusividade dos produtos e da eficácia fotoprotetora estimada do lip balm.

Assim, esta pesquisa busca ampliar a disponibilidade de produtos cosméticos labiais formulados com óleos provenientes da biodiversidade brasileira, promovendo benefícios à saúde e à estética, e atendendo às crescentes demandas dos consumidores.

2. MÉTODOS

2.1 DESENVOLVIMENTO FARMACOTÉCNICO

Após estabelecer os requisitos técnicos para cada formulação, como esfoliação, hidratação, proteção e reparação dos lábios, realizou-se uma seleção criteriosa dos ingredientes, com o intuito de desenvolver formulações labiais que atendam aos padrões de qualidade, segurança e eficácia. A composição qualitativa e quantitativa de cada formulação (esfoliante labial, lip balm e gloss) estão expostos nas Tabelas 01, 02 e 03 respectivamente.

Tabela 01 – Composição da formulação do esfoliante labial

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). q.s.p. – quantidade suficiente para.

Tabela 02 – Composição da formulação do lip balm

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). q.s.p. – quantidade suficiente para.

Tabela 03 – Composição da formulação do gloss labial

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). q.s.p. – quantidade suficiente para.

Preparo das formulações:

Para o esfoliante labial, após pesagem dos ingredientes, as partículas esfoliantes foram tamisadas (malha 42 mm) para assegurar uniformidade. A manteiga foi aquecida até a total fusão (30 – 35 ºC) e ambos foram incorporados ao veículo, seguido pelos demais ingredientes. Ao final do processo, o pH da mistura foi verificado usando fita de pH (Macherey-Nagel, pH-fix 0-14).

Para preparar o lip balm, as ceras e manteigas foram fundidas em ordem decrescente de ponto de fusão, reduzindo a temperatura a cada adição. Quando restavam apenas os óleos, ésteres e ingredientes adjuvantes, a fonte de calor foi desligada para preservar os componentes, que foram então adicionados um a um, homogeneizando com um bastão de vidro após cada adição. Ao final, a mistura foi manualmente vertida nas embalagens (sticks) previamente aquecidas a 40 °C para evitar fissuras e rachaduras. As formulações foram deixadas em repouso para cristalizar e solidificar em temperatura ambiente (20-25 °C) por 24 horas.

Para o preparo da formulação do gloss, fundiu-se a manteiga e adicionou-se o veículo e os óleos, que foram devidamente homogeneizados. Em um recipiente auxiliar (béquer de vidro), o corante (red pH color) e o solvente (triglicérides dos ácidos cáprico caprílico), foram adicionados e submetidos a aquecimento, em temperatura acima de 100 °C até completa solubilização do corante. Após o resfriamento desse sistema a aproximadamente 40 °C, a mistura foi adicionada ao recipiente principal e após homogeneização completa, os demais ingredientes foram acrescentados.

2.2 ESTABILIDADE FÍSICO-QUÍMICA

2.2.1 ESTABILIDADE PRELIMINAR

Foram realizados os testes de centrifugação (Brasil, 2004) e de estresse térmico (Baby et al., 2008) para as formulações do esfoliante labial e do gloss. No teste de centrifugação, massas de 1,3 g das formulações foram pesadas e transferidas para microtubos de 1,5 mL, que foram centrifugados a 3.000 Rotações Por Minuto (rpm) por 30 minutos. Para o teste do estresse térmico, foram pesados 2,5 g de cada fórmula em frascos de vidro (headspace), deixando parte do frasco vazia para permitir trocas gasosas e uma melhor visualização das características de cada forma farmacêutica. Em seguida, as formulações foram submetidas a aquecimento em estufa a 40 °C e 50 °C, mantendo-as por 30 minutos em cada temperatura. O pH do esfoliante labial foi avaliado antes e após ambos os testes, utilizando fita de pH (Macherey-Nagel, pH-fix 0-14). As características organolépticas foram analisadas antes e após as condições de estresse.

2.2.2 ESTABILIDADE ACELERADA

O ensaio foi conduzido conforme preconizado pela ANVISA (Brasil, 2004). Cerca de 3,0 g das amostras do esfoliante labial e do gloss foram pesados em frascos de vidro headspace transparentes e com tampa, onde, pelo menos, um terço do frasco foi mantido vazio para permitir as avaliações necessárias e possíveis trocas gasosas. Para o lip balm, as formulações foram mantidas na sua embalagem original mantendo a bala totalmente aparente. O teste foi realizado durante 90 dias, nas seguintes condições: (I) temperatura ambiente situada entre 20 e 25 °C, com exposição à luz visível e ao abrigo da luz solar, (II) resfriamento em geladeira a 5 ± 2,0 °C e (III) aquecimento em estufa a 45 ± 2,0 °C. As amostras armazenadas em temperatura ambiente foram estabelecidas como amostras de referência. As análises foram realizadas no tempo zero, 24 horas e aos 7°, 15°, 30°, 60° e 90° dias de ensaio. Os parâmetros adotados para a avaliação do comportamento das amostras foram: pH do esfoliante labial, utilizando fita de pH (Macherey-Nagel, pH-fix 0-14) e avaliação das características organolépticas.

2.3 CONTROLE DE QUALIDADE FÍSICO-QUÍMICO

2.3.1 CARACTERÍSTICAS ORGANOLÉPTICAS (ESFOLIANTE LABIAL, LIP BALM E GLOSS)

Foram analisados a cor, o odor e o aspecto das formulações após 24 horas (Brasil, 2008). A cor e o aspecto foram analisados visualmente, e o odor foi definido pela percepção dos avaliadores. Com relação ao aspecto, buscou-se identificar qualquer tipo de desvio de qualidade, como quebras, falta de homogeneidade, separação de fases, presença indesejável de marcas, depressões, bolhas e esfarelamento.

2.3.2 PESO MÉDIO (ESFOLIANTE LABIAL, LIP BALM E GLOSS)

Para o cálculo do peso médio, foram produzidas quantidades suficientes para a obtenção de 10 unidades de cada formulação. Após o procedimento de preparo de cada fórmula, iniciou-se o processo de envase. Primeiramente, cada embalagem vazia e sem tampa foi colocada na balança semi-analílica de precisão e acionado o botão “tara”, em seguida, a respectiva formulação foi envasada conforme capacidade de cada embalagem e os valores registrados. A partir dos dados obtidos, foram calculados a média, o desvio padrão e o coeficiente de variação, conforme metodologia da Farmacopeia Brasileira (Brasil, 2019)

2.3.3 pH (ESFOLIANTE LABIAL)

A aferição do pH foi realizada com auxílio de um bastão de vidro, aplicando uma pequena quantidade da amostra sobre a fita de pH (Macherey-Nagel, pH-fix 0-14). Após retirar o excesso de produto, comparou-se a coloração dos dezesseis campos da fita para a obtenção do pH da formulação.

2.3.4 VISCOSIDADE (ESFOLIANTE LABIAL E GLOSS)

Para a determinação da viscosidade, utilizou-se o viscosímetro rotativo do tipo Brookfield® (Quimis, Q860M21) conforme preconizado pela ANVISA (Brasil, 2008). O rotor foi escolhido com base nas informações do manual do equipamento para obter leituras que se aproximam da escala de 50%, correspondente ao desempenho ideal do fio de torção “espiral”. O rotor foi inserido diretamente em 100 mL de cada amostra, evitando bolhas, e a leitura foi realizada após o nivelamento adequado, diretamente no (display) do painel do equipamento. Para o gloss, o rotor escolhido foi o 4 a 47 rpm. Para o esfoliante labial, não foi possível determinar a viscosidade utilizando este equipamento, pois a faixa de viscosidade excedeu sua capacidade.

2.3.5 DENSIDADE (ESFOLIANTE LABIAL E GLOSS)

Empregou-se a metodologia de densidade relativa, descrita na Farmacopeia Brasileira (Brasil, 2019) em temperatura de 20 °C. Um picnômetro de metal de 5 mL vazio e seco, previamente calibrado, foi pesado e seu peso anotado. A calibração consistiu na determinação da massa do picnômetro vazio e da massa de seu conteúdo com água, recentemente destilada e fervida, a 20 °C. Em seguida, o picnômetro foi preenchido completamente com a amostra, evitando-se a formação de bolhas de ar e seu peso foi novamente anotado. O peso da amostra foi obtido através da diferença de massa do picnômetro cheio e vazio.

2.3.6 DETERMINAÇÃO DE ÁGUA (ESFOLIANTE LABIAL E GLOSS)

O teor de água nas amostras foi determinado usando o Método de Karl Fischer (titulação volumétrica direta) da Farmacopeia Brasileira (Brasil, 2019). Tal técnica envolveu a reação química entre o iodo contido na solução de Karl Fischer e a água presente nas amostras. Para o procedimento, cada amostra foi previamente preparada, utilizando o solvente adequado. Essa solução foi então titulada com o reagente padronizado de Karl Fischer que contém iodo, uma base e um indicador. A reação entre o iodo e a água na amostra ocorreu, gerando um sinal que indica o ponto final da titulação (eletrométrico). A quantidade de solução de Karl Fischer consumida durante a titulação é proporcional à quantidade de água na amostra.

2.3.7 PONTO DE FUSÃO (LIP BALM)

Uma pequena amostra da formulação foi colocada em uma lâmina de vidro e levada sobre a placa de aquecimento do aparelho digital de ponto de fusão (Microquímica, MQAPF-302). Como o ponto de fusão era desconhecido, inicialmente aqueceu-se o aparelho rapidamente (taxa de aquecimento 10 ºC/minuto) como uma forma de triagem para se obter uma noção de qual seria a faixa de ponto de fusão. Em seguida, outra pequena quantidade de amostra foi levada novamente ao aparelho que foi aquecido rapidamente até cerca de 10 ºC abaixo da temperatura onde a amostra iniciou a fusão durante a triagem. Assim sendo, a taxa de aquecimento foi reduzida para 1 ºC/minuto para a observação mais precisa da faixa de início e fim da fusão da formulação. Os dados obtidos foram registrados e foi realizado cálculo da média da triplicata analisada.

2.3.8 ESPALHABILIDADE (LIP BALM)

Este teste foi realizado em triplicata de acordo com o método proposto por Fernandes e colaboradores (2013) com adaptações. Uma alíquota da formulação (0,036 g) do lip balm foi aplicada, em temperatura ambiente, em uma placa vidro (50 x 50 mm) e espalhada repetidamente, com auxílio de uma dedeira de látex. Dessa forma, observou-se visualmente as características da película formada como: uniformidade, presença de fragmentos, opacidade da película e, ainda, a dificuldade da espalhabilidade.

2.3.9 COLORIMETRIA (LIP BALM)

Utilizando espectrocolorímetro previamente calibrado com os padrões de claro e escuro, as amostras do lip balm foram lidas três vezes em diferentes pontos da placa para cada triplicata, totalizando nove leituras para cada amostra (Fernandes et al., 2013). No preparo das amostras, cada bala foi aquecida até completa fusão e transferida para três embalagens de plástico com diâmetro de 3 cm.

2.3.10 PONTO DE GOTA (LIP BALM)

A formulação foi aquecida até completa fusão, então o bulbo de um termômetro foi mergulhado na mistura e retirado rapidamente, formando uma película fina e sólida ao seu redor. Em seguida, este termômetro, com a película da amostra já solidificada, foi colocado dentro de um tubo de ensaio, que por sua vez foi colocado dentro de um sistema de banho de água. Esse banho de água foi aquecido em placa de cerâmica aquecedora, de modo controlado, e colocado sob agitação magnética até que houvesse o desprendimento da primeira gota da formulação do bulbo do termômetro. A temperatura marcada neste momento foi considerada o ponto de gota (Sarruf, 2013).

2.3.11 TESTE DO AQUECIMENTO (LIP BALM)

Três protótipos do lip balm foram colocados horizontalmente em um suporte com a total exposição da bala, em estufa a 55 ± 1,0 °C durante 24 horas. Uma folha de papel foi posicionada embaixo desse aparato, a fim de facilitar a visualização do possível gotejamento das formulações. Após esse período, os protótipos foram retirados da estufa para a observação da ocorrência ou não de gotejamento ou deformação das balas. Aguardou-se atingir a temperatura ambiente para observação das características físicas das balas (Sarruf, 2013).

2.3.12 DETERMINAÇÃO DA ATIVIDADE DE ÁGUA

A atividade de água foi medida diretamente no equipamento Aqualab 4TE, com temperatura controlada de 25 ± 0,5 ºC. O equipamento digital foi previamente calibrado e mantido ligado por 15 minutos antes de efetuar as medições, a fim de se obter uma leitura mais precisa (Ramos; Mancini; Mendes, 2014). Após a preparação das amostras, estas foram levadas ao suporte apropriado do equipamento, certificando a sua homogeneidade e quantidade adequada. Foi realizada a leitura em triplicata de cada amostra, dentro da faixa de precisão do equipamento (±0,003). O valor de atividade de água calculado de cada triplicata foi a média dos três valores obtidos. Cada medida demorou, entre 3 a 15 minutos para ser determinada pelo equipamento, dependendo do teor de umidade, sendo mais rápido para as amostras com maiores teores de umidade.

2.4 CONTROLE DE QUALIDADE MICROBIOLÓGICO

Os métodos empregados para os ensaios microbiológicos basearam-se nos protocolos da Farmacopeia Brasileira, seguindo análises qualitativas para detectar Escherichia coli ATCC 25922, Pseudomonas aeruginosa ATCC 27853, Staphylococcus aureus ATCC 25923 e análises quantitativas para a contagem de micro-organismos mesófilos (Brasil, 2019).

2.4.1 ANÁLISE QUANTITATIVA DE MICRO-ORGANISMOS MESÓFILOS

Para a análise quantitativa de micro-organismos mesófilos, foi empregada metodologia que visa quantificar bactérias mesofílicas e fungos. Inicialmente, cada amostra (1 g) foi diluída em proporção 1:10 (m/v) em caldo caseína-soja. Este passo inicial de diluição serviu para facilitar a recuperação e o crescimento subsequente dos micro-organismos presentes na amostra.

Posteriormente, as amostras diluídas foram semeadas em dois tipos de meios de cultura específicos: ágar caseína-soja e ágar Sabouraud-dextrose. O ágar caseína-soja foi utilizado para a incubação de bactérias, enquanto o ágar Sabouraud-dextrose foi selecionado para o cultivo de fungos, refletindo a necessidade de criar condições ótimas para o crescimento de diferentes grupos de micro-organismos.

As placas contendo ágar caseína-soja foram incubadas a uma temperatura de 32,5 ± 2,5 ºC, e o período de incubação se estendeu por um máximo de cinco dias. Este ambiente e tempo foram ideais para permitir o desenvolvimento adequado de colônias bacterianas. Paralelamente, as placas com ágar Sabouraud-dextrose foram mantidas a uma temperatura mais baixa de 22,5 ± 2,5 ºC, com um período de incubação que pôde chegar a sete dias, condições estas favoráveis para o crescimento fúngico.

Após os respectivos períodos de incubação, procedeu-se à contagem das colônias desenvolvidas em cada meio. Este processo envolveu a identificação e quantificação de colônias visíveis, permitindo determinar a carga microbiana de bactérias aeróbias viáveis e fungos presentes nas amostras. A contagem das colônias foi um indicador crucial da qualidade microbiológica do produto, fornecendo dados essenciais para avaliações de segurança e conformidade com os padrões microbiológicos exigidos para produtos cosméticos.

2.4.2 ANÁLISE QUALITATIVA DE MICRO-ORGANISMOS PATÓGENOS

Este método avalia a presença ou ausência de patógenos específicos através do uso de meios de cultura seletivos e etapas de pré-enriquecimento destinadas a recuperar os micro-organismos presentes nas amostras. Cada amostra foi preparada em diluição de 1:10 (v/v), com no mínimo 1 g de cada produto.

Pesquisa de Escherichia coli: Aproximadamente 1 mL de cada amostra pré-enriquecida foi inoculado em caldo MacConkey e incubado a 43 ± 1 °C por 24 a 48 horas. Após, uma pequena quantidade do caldo de cultura incubado foi transferida para uma placa de ágar MacConkey usando uma alça de inoculação estéril. A amostra foi cuidadosamente espalhada sobre a superfície do ágar para facilitar o crescimento isolado de colônias. Isso permite que as bactérias que podem ter crescido em conglomerado no caldo se separem em unidades únicas ou colônias isoladas no ágar. A placa de ágar foi então incubada a uma temperatura mais baixa de 32,5 ± 2,5 °C por 18 a 72 horas. A temperatura mais baixa é usada para otimizar o crescimento e a diferenciação de colônias de E. coli e outras enterobactérias. O ágar MacConkey contém indicadores que reagem com os metabólitos produzidos por enterobactérias como E. coli, que tipicamente fermenta a lactose presente no meio, produzindo ácido que, por sua vez, muda a cor do indicador no ágar. Como resultado, colônias de E. coli aparecem vermelhas no ágar MacConkey, um indicativo da possível presença deste micro-organismo.

Pesquisa de Pseudomonas aeroginosa: Primeiramente 1 mL de cada amostra foi inoculado diretamente nas placas contendo ágar cetrimida, um meio de cultura altamente seletivo que favorece o crescimento de P. aeruginosa enquanto suprime outros micro-organismos. Após a inoculação, as placas foram incubadas a uma temperatura controlada de 32,5 ± 2,5 °C. O período de incubação variou entre 18 e 72 horas, tempo necessário para permitir o desenvolvimento adequado de colônias visíveis. A presença de colônias caracteristicamente verdes e pigmentadas nesta fase do processo é indicativa da presença de P. aeruginosa.

Pesquisa de Staphylococcus aureus: Inicialmente, cada amostra, quantificada em 1 mL, foi devidamente homogeneizada para assegurar a dispersão uniforme dos micro-organismos presentes. Posteriormente, as amostras homogeneizadas foram transferidas para placas contendo ágar sal-manitol, um meio de cultura seletivo que favorece o crescimento de S. aureus devido à sua alta concentração de sal, que inibe outros micro-organismos, e ao manitol, que é fermentado pelo S. aureus. Após a transferência, as placas foram incubadas a uma temperatura de 32,5 ± 2,5 °C, por um período que variou entre 18 e 72 horas, período necessário para permitir o desenvolvimento adequado das colônias. Durante a incubação, S. aureus metaboliza o manitol presente no meio, produzindo ácido que, em reação com o indicador de pH do meio, resulta em uma mudança de cor ao redor das colônias. Assim, a presença de colônias amarelas ou brancas cercadas por um halo amarelo é indicativa da possível presença de S. aureus.

Pesquisa de coliformes totais: Para a pesquisa de coliformes totais, foi utilizada uma técnica microbiológica que começa com a incubação de 1 mL de amostra em caldo nutritivo a uma temperatura constante de 32,5 ºC ± 2,5 ºC, durante um período que varia de 20 a 72 horas. Esse intervalo permite a proliferação suficiente de coliformes, se estiverem presentes na amostra, facilitando sua subsequente detecção. Após a incubação, alíquotas de 1 mL do caldo enriquecido foram cuidadosamente estriadas em meio Agar MacConkey. Este meio é especialmente formulado para o crescimento de bactérias Gram-negativas, como os coliformes, e contém indicadores que respondem à fermentação da lactose, característica desse grupo de micro-organismos. A estriação é realizada para permitir o isolamento de colônias individuais, o que é essencial para uma avaliação precisa. As placas de Agar MacConkey foram então incubadas a uma temperatura de 32,5 ºC ± 2,5 ºC, por um período adicional de 24 a 48 horas. Durante este tempo, os coliformes presentes metabolizam a lactose, levando à produção de ácido que resulta na mudança de cor do meio ao redor das colônias. As colônias que se desenvolvem com uma coloração vermelho-tijolo são indicativas da presença de coliformes totais.

2.5 AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO IN VITRO DAS FORMULAÇÕES

2.5.1 AVALIAÇÃO IN VITRO DA EFICÁCIA FOTOPROTETORA ESTIMADA (FPS E FPUVA) DO LIP BALM

Para realização do experimento, seguindo a ISO (2021) – Organização Internacional de Padronização – utilizou-se três placas de vidro (50 x 50 mm). Em cada placa, aplicou-se o produto testado (lip balm), em quantidade de aproximadamente 1,3 mg cm2 (quantidade real aplicada: 32,5 mg), espalhando-o manualmente com a ponta do dedo coberto com dedeira pré-saturada com a amostra, até se obter um filme visualmente uniforme. As placas com o produto foram deixadas em repouso, protegidas da exposição à luz em câmara escura à temperatura ambiente (≈ 20 ºC) por 15 minutos.

Em espectrofotômetro de transmitância difusa (UV-2000S, Labsphere, EUA), determinou-se o espectro de absorbância do produto na faixa de 290-400 nm, em intervalos de 1 nm, utilizando uma placa coberta com 15 mL de glicerina como branco. Foram obtidos no mínimo três espectros do produto, em pontos diferentes da placa. Com este espectro, calculou-se o fator de proteção solar in vitro inicial (FPS in vitro).

Posteriormente, as três placas de vidro com a amostra foram expostas a uma dose controlada de RUV (Suntest CPS+, Atlas, EUA), de modo a submeter o produto a condições próximas às do uso real. As amostras foram expostas à radiação nas faixas do UVA, UVB e visível. Com o intuito de se obter o Fator de Proteção contra a Radiação UVA (FPUVA). A temperatura da câmara de irradiação foi monitorada durante todo o processo, para garantir que ficasse abaixo de 40 °C. Após a irradiação das amostras, a absorbância de cada uma das três placas foi novamente determinada, obtendo-se três espectros de cada placa com os quais foi determinado o FPUVA final do lip balm. Adicionalmente, o comprimento de onda crítico (λc) foi determinado a partir dos espectros de absorbância. O comprimento de onda crítico é outra medida da capacidade de proteção UVA do produto, definido como o menor comprimento de onda em que a absorção do produto é igual a 90% da absorção total.

Finalmente, a razão UVA/UVB foi calculada. A situação ideal referente à proteção nos comprimentos de onda da região UVA é que se atinja um valor de fator de proteção semelhante ao FPS, de modo que se obtenha uma razão FPS/FPUVA ≈ 1,0.

2.5.2 AVALIAÇÃO DA OCLUSIVIDADE (ESFOLIANTE LABIAL, LIP BALM E GLOSS)

Para o teste da oclusividade foi realizada uma adaptação do método utilizado por Giovanini e colaboradores (2019). A determinação do efeito oclusivo das formulações foi realizada utilizando copos de plástico de 180 mL, com diâmetro de 7,2 centímetros e preenchidos com 135 mL de água destilada. Em seguida, uma massa de cada formulação-teste (13,3 mg/cm2) foi pesada em balança analítica e espalhada homogeneamente com auxílio de uma dedeira de látex, em um papel de filtro, que posteriormente foi utilizado para cobrir os copos.

Esse sistema foi montado em triplicata para cada formulação proposta, e em simplicata para o branco (nenhuma amostra foi aplicada). Cada sistema (copo com água, papel filtro e amostra) foi previamente pesado e posteriormente levado à estufa (40 ºC ± 2,0 °C). Transcorridas 6, 24 e 48 horas, suas massas foram pesadas novamente e o fator de oclusão para cada produto foi calculado.

3. RESULTADOS

Foram desenvolvidos três cosméticos labiais: esfoliante labial, lip balm e gloss (Figura 01):

Figura 01 – Cosméticos desenvolvidos para cuidado dos lábios

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). Legenda: À esquerda (A), estão os três cosméticos labiais em suas respectivas embalagens, enquanto à direita (B) encontra-se o (mockup) dos produtos.

Durante a avaliação de estabilidade preliminar, os cosméticos submetidos aos ensaios de centrifugação (Figura 02) e estresse térmico (Figura 03) conservaram inalteradas suas características organolépticas. Além disso, o esfoliante labial manteve um pH constante de 5,0, evidenciando estabilidade e, consequentemente, garantindo sua aprovação.

Figura 02 – Teste de centrifugação

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Figura 03 – Teste do estresse térmico

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Para a avaliação da estabilidade acelerada, as amostras mantidas em temperatura ambiente (20 a 25 °C) foram utilizadas como padrão de referência neste estudo. Os perfis de estabilidade do esfoliante labial, lip balm e gloss estão detalhados nas Tabelas 04, 05 e 06, respectivamente, enquanto as Figuras 04, 05 e 06 ilustram as características visuais de cada amostra.

A avaliação do aspecto foi realizada por inspeção visual, com o objetivo de verificar se houve modificações macroscópicas em relação ao padrão, classificando da seguinte maneira: (I) normal, sem alteração; (II) levemente separado, levemente precipitado ou levemente turvo; e (III) separado, precipitado ou turvo. A cor foi descrita visualmente e o odor foi analisado conforme as categorias: (I) normal, sem alteração; (II) levemente modificado; (III) modificado e (IV) intensamente modificado (Brasil, 2004).

Tabela 04 – Avaliações do esfoliante labial obtidas no teste de estabilidade acelerada

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). Legenda: N=normal, sem alteração; LA= levemente alterado.

Figura 04 – Teste de estabilidade acelerada (esfoliante labial)

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Tabela 05 – Avaliações do lip balm obtidas no teste de estabilidade acelerada

Fonte: Elaborada pela autora (2024). Legenda: N=normal, sem alteração.

Figura 05 – Teste de estabilidade acelerada (lip balm)

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Tabela 06 – Avaliações do gloss obtidas no teste de estabilidade acelerada

Fonte: Elaborada pela autora (2024). Legenda: N=normal, sem alteração; LA= levemente alterado.

Figura 06 – Teste de estabilidade acelerada (gloss labial)

Fonte: Elaborado pela autora (2024).

Os resultados apresentados na Tabela 04 e na Figura 04, indicam que o esfoliante labial manteve sua aparência e aroma normais, sem alterações detectáveis, independentemente das condições de armazenamento e variações térmicas ao longo do período de avaliação. No entanto, constatou-se uma leve alteração de cor nas amostras mantidas na estufa após 24 horas, caracterizada por um discreto escurecimento com um tom ligeiramente mais próximo ao marrom arroxeado, resultado das partículas presentes na composição. Essa coloração se manteve constante durante o restante do período de teste. Após detectar essa sutil alteração na cor, a formulação foi acondicionada em sua embalagem final (bisnaga plástica Soft Lips 10g) e mantida em monitoramento em todas as faixas de temperatura ao longo do teste, evidenciando uma diminuição na intensidade da mudança de cor na amostra armazenada na estufa quando comparada à referência. Assim, recomenda-se que o esfoliante labial seja guardado em recipiente fechado, protegido da luz e armazenado em temperatura ambiente controlada (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023). Quanto ao pH, não houve alterações significativas nas condições experimentais testadas, mantendo-se constante (pH=5,0), o que indica boa preservação da formulação.

Com base nos resultados da triagem apresentados na Tabela 05 e na Figura 05, o lip balm demonstrou estabilidade diante dos parâmetros avaliados de caracterização organoléptica, mantendo suas características e integridade ao longo de todo o período de avaliação.

No que diz respeito ao gloss labial (Tabela 06; Figura 06), não foram observadas diferenças no odor e aspecto da formulação ao longo do teste de estabilidade. No entanto, a partir do 7º e do 15º dia, as amostras armazenadas na geladeira e em temperatura ambiente, respectivamente, mostraram uma decantação do pigmento de efeito. Este fenômeno, entretanto, não compromete a estabilidade do produto, uma vez que esse pigmento (Boromagic Cristal) não desempenha papel relevante nos resultados de eficácia e segurança. Algumas alternativas para contornar essa questão poderiam incluir a remoção do pigmento da formulação ou até mesmo a redução de sua concentração. Porém, quando envasado na embalagem final (Beauty Gloss 7g), o pigmento de efeito permaneceu uniformemente disperso, indicando que tanto a formulação quanto a embalagem de acondicionamento são adequadas.

No controle de qualidade físico-químico, no que diz respeito às características organolépticas, a análise visual e olfativa dos produtos cosméticos revelou características específicas para cada formulação. O esfoliante labial exibiu uma emulsão brilhante e homogênea, com partículas esfoliantes uniformes de açaí e murumuru, resultando em uma tonalidade roxa e odor característico. O aspecto se mostrou adequado, com boa consistência, ausência de separação de fases ou grumos. O lip balm, por sua vez, apresentou uma coloração levemente amarelada, textura lisa e brilhante, com destaque para o aroma de morango. O aspecto da formulação, foi considerado adequado uma vez que, conforme citado por Ferreira, Brandão e Polinini (2023), estava homogêneo (na superfície e na profundidade) e sem nenhum desvio visual da qualidade como: fissuras (normalmente decorrentes de resfriamento repentino ou do processo de envase inadequado), presença de bolhas de ar, aglomeração ou sedimentação dos ingredientes aditivados e eflorescências esbranquiçadas, estas geralmente resultantes de más condições de resfriamento e de cristalização dos ingredientes na superfície. O gloss demonstrou uma coloração transparente, com pigmento de efeito disperso de forma homogênea, viscosidade moderada, sensorial pegajoso e odor característico de morango, mantendo uma aparência adequada e livre de imperfeições como arenosidade, grumos ou separação de fases. O corante adicionado se mostrou totalmente incorporado na formulação.

Para o peso médio, de acordo com os valores encontrados para os três produtos, verificou-se que nenhuma das 10 amostras apresentou valor inferior ao rotulado, sendo as massas respectivamente 10 g, 4,5 g e 7 g para o esfoliante labial, lip balm e gloss. Verificou-se que as unidades de um mesmo lote de produção apresentaram uniformidade de massa. O peso individual ficou compreendido dentro dos limites de ± 5 % do peso médio.

A avaliação do valor de pH do esfoliante labial foi realizada em triplicata, e o valor do pH foi igual a 5,0. O gloss labial apresentou viscosidade igual a 1279,6 millipascal/segundo (mPa·s-1) à temperatura de 212 °C e a viscosidade do esfoliante labial estava fora da faixa operacional do equipamento. A densidade do esfoliante labial e do gloss foram respectivamente 1,002 (g/mL) e 0,884 (g/mL). O esfoliante labial exibiu um teor de umidade mais elevado (62,9%), enquanto o gloss labial teve uma porcentagem menor (0,96%). A faixa de ponto de fusão do lip balm ficou entre 57 e 68 °C.

Nos testes do lip balm, relacionado à espalhabilidade, pode-se observar o mesmo comportamento nas triplicatas: formação de uma película oclusiva uniforme ao longo das placas, sem resquícios de fragmentos após a aplicação. A película formada se mostrou translúcida e brilhosa com bom deslize e facilidade de espalhamento. Portanto, a escolha e concentração dos ingredientes da formulação se mostrou apropriada, onde as ceras e manteigas conferiram dureza adequada, e os ésteres e óleos proporcionaram brilho e untuosidade, além de auxiliar no deslizamento do produto durante a aplicação (Tagliari; Stulzer, 2007). As leituras colorimétricas revelaram valores muito próximos entre si, demonstrando homogeneidade da formulação. A temperatura média encontrada para o ponto de gota do lip balm foi 65,3 ± 1,16°C. No teste do aquecimento, não ocorreu alterações nas amostras do lip balm após 24 horas de aquecimento à 55 ± 1,0 °C. O papel posicionado logo abaixo da bala não apresentou mancha, demonstrando que não ocorreu nenhum gotejamento. Também não foram percebidas deformações nas amostras, podendo assim concluir que a formulação proposta resistiu a altas temperaturas.

Na determinação da atividade de água, as formulações – esfoliante labial, lip balm e gloss, demonstraram uma atividade de água a 25°C ± 0,5 ºC equivalente a 0,996 ± 0,10, 0,679 ± 0,44 e 0,726 ± 0,96, respectivamente.

No controle de qualidade microbiológico, foi realizada pesquisa e identificação de micro-organismos patogênicos seguindo a resolução nº 752/2022 da ANVISA (Brasil, 2022). As três formulações desenvolvidas se enquadram na classificação tipo I – produtos que entram em contato com mucosas. Com base nos dados obtidos, todas as amostras se encontram dentro dos limites aceitáveis para a contagem de mesófilos e não foram detectados micro-organismos patogênicos, evidenciando a eficácia do sistema conservante utilizado.

A avaliação in vitro da eficácia fotoprotetora do lip balm (Tabela 07), demonstrou que a formulação proposta não se enquadra em nenhum dos parâmetros analisados.

Tabela 07 – Resultados da avaliação in vitro fotoprotetora do lip balm

Fonte: Elaborada pelos autores (2024). Legenda: *Resultados expressos como a média de 27 determinações (3 placas x 9 leituras cada). FPS = fator de proteção solar; FPUVA = fator de proteção solar frente à radiação ultravioleta A; λcrítico = comprimento de onda crítico; Razão UVA/UVB = razão entre as radiações ultravioletas A e B.

Na avaliação da oclusividade, o esfoliante labial demostrou um baixo fator de oclusividade, sendo aproximadamente 6% em 6 horas, 7% em 24 horas e 5% em 48 horas. O lip balm e o gloss apresentaram um desempenho oclusivo superior, com o lip balm mantendo valores consistentes em torno de 82% em todos os períodos analisados (6, 24 e 48 horas), e o gloss mostrando resultados aproximados de 86%, 80% e 75%, respectivamente, para os mesmos intervalos de tempo.

4. DISCUSSÃO

Para garantir efetividade ao longo de sua vida útil, os cosméticos devem passar por etapas fundamentais de pesquisa: criação e desenvolvimento farmacotécnico da formulação, controle de qualidade e testes de estabilidade (Brasil, 2004, 2008; Ferreira; Brandão; Polonini, 2023; Isaac et al., 2008).

O desenvolvimento racional de uma formulação cosmética deve ser embasado por estudos prévios minuciosos, que não apenas assegure a seleção dos ingredientes mais adequados em concentrações apropriadas, mas também avalie possíveis incompatibilidades entre os princípios ativos, o veículo e os ingredientes adjuvantes. Possíveis incompatibilidades, decorrentes de interações físicas e químicas, podem afetar a estabilidade, segurança e eficácia do produto final, tornando essencial a análise criteriosa da sua composição (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023).

O desenvolvimento das formulações labiais – esfoliante labial, lip balm e gloss, contou com ingredientes estratégicos. A seguir apresenta-se as principais propriedades e diferenciais desses componentes, que justificam cada escolha:

A seleção do óleo vegetal (CBA) – composto patenteado a base dos óleos de copaíba e maracujá, principal ingrediente dessa pesquisa – foi embasada em estudos laboratoriais que evidenciaram seus potenciais benefícios anti-inflamatórios e cicatrizantes. Tais propriedades terapêuticas, características dos fitocanabinoides, são particularmente relevantes quando se trata de cuidados com os lábios (Clariant, 2022).

O potencial inovador dos fitocanabinoides tem sido cada vez mais explorado, como demonstrado em uma pesquisa recente conduzida por Ferreira e Rodrigues (2024), que analisou patentes relacionadas a cosméticos derivados da Cannabis sativa. No estudo, foram identificadas 33 patentes (2013-2023) abrangendo formulações voltadas para cuidados com a pele, cabelo, maquiagem e unhas, sendo a China o país com maior número de depósitos (48%). Os produtos voltados para cuidados com a pele representaram a maioria das patentes (82%), destacando-se pelas suas propriedades anti-inflamatórias, capacidade de reparação da barreira cutânea e alívio do prurido. Uma das invenções analisadas revelou um aumento significativo na expressão das proteínas como AQP-3, FLG, Caspase-14, diretamente relacionadas à manutenção da barreira da pele. Além disso, foram descritas potenciais ações antioxidantes, analgésicas, bactericidas e despigmentantes. No que diz respeito aos cuidados labiais, apenas duas patentes foram registradas: a primeira descreve um batom contendo extrato de Cannabis sativa, desenvolvido para promover hidratação, reparação e prevenção de reações alérgicas; já a segunda patente apresenta um gel reparador e hidratante labial formulado com extrato das folhas da Cannabis sativa, com propriedades cicatrizantes, hidratantes e reparadoras, além de estimular o sistema imunológico e favorecer o desenvolvimento de fibroblastos (Ferreira; Rodrigues, 2024).

A sinergia do óleo vegetal (CBA), Phytosqualan® e manteiga de murumuru, nutre, repara e protege, sendo ideal para a pele delicada dos lábios. O Phytosqualan® atua na restauração da porção lipídica da pele, promovendo emoliência e umectância, além de prevenira perda de água transepidermal (Alianza, 2023a). Dessa forma, destaca-se como um ingrediente altamente relevante em formulações para o cuidado labial, contribuindo não apenas com a hidratação, mas também com a proteção e manutenção da barreira cutânea. A manteiga de murumuru, por sua vez, é rica em vitaminas A e E, conferindo-lhe propriedades antioxidantes, além de conter minerais como cálcio, fósforo e ferro. Sua baixa acidez aliada à alta concentração de ácidos graxos saturados, como ácido láurico (C12:0) e mirístico (C14:0), que juntos representam cerca de 70% de sua composição, proporciona uma textura diferenciada e excelente miscibilidade com óleos que derretem em baixas temperaturas. O ácido láurico, além de facilitar a penetração de ativos na pele, é precursor da monolaurina, um monoglicerídeo conhecido por suas propriedades antimicrobianas – inibindo o crescimento de Listeria monocytogenes, Helicobacter pylori, Staphylococcus aureus e Streptococcus agalactiae; antifúngicas, com ação contra a Candida albicans e Giardia lamblia, e antivirais, sendo capaz de inibir a replicação de Measles virus, Herpes simplex, vírus da influenza, pneumovírus e vírus da rubéola. Quando aplicada sobre a pele dos lábios, a manteiga de murumuru forma um filme protetor que auxilia na manutenção da barreira lipídica, sendo rapidamente absorvida e proporcionando hidratação, nutrição e proteção (Carvalho et al., 2023; Feitosa et al., 2021; Sovitá, 2023a).

Na formulação do esfoliante labial, ao adotar a Base Second Skin® (Biotec, 2023) como veículo, obteve-se um produto diferenciado e seguro para cuidado dos lábios, capaz de sustentar os insumos ativos, oferecendo um sensorial agradável e promovendo não só uma esfoliação eficiente, mas também hidratação e regeneração labial. A união do scrub de açaí e de murumuru conferiu esfoliação suave, com baixa abrasividade (Clariant, 2022; Sovitá, 2023b), atuandono rejuvenescimento natural da pele a partir da estimulação física dos tecidos epiteliais e da circulação sanguínea, removendo impurezas e células mortas, possuindo, assim, um alto poder regenerativo com uma esfoliação leve e diferencial emoliente (Feitosa et al., 2021; Leite et al., 2024).

Quanto aos ingredientes adjuvantes das formulações, a utilização de antioxidantes é recomendada, principalmente em formulações que contenham óleos, ceras ou outras matérias graxas, para prevenir possível rancificação. Dentre os antioxidantes mais usados, destacamos o Butil-Hidroxitolueno (BHT) e o Butil-Hidroxianisol (BHA), ambos adequados para emulsões e formulações anidras (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023; Liu; Mabury, 2020), porém nas formulações desenvolvidas, optou-se por não incorporar esses componentes devido a evidências científicas que apontam o BHA e o BHT como potenciais agentes alergênicos e carcinogênicos, além de provocarem toxicidade hepática e interferirem na função hormonal. Destaca-se também o possível impacto ambiental desses ingredientes, principalmente em doses elevadas (Kahl; Kappus, 1993; Khan; Alam, 2019; Liu; Mabury, 2020; Mizobuchi; Ishidoh; Kamemura, 2022; Okereke et al., 2015; Wang; Balagula; Osterwalder, 2010). Dito isto, optou-se pela vitamina E (oleosa), um agente antioxidante capaz de prevenir processos de degradação por oxidação dos óleos e gorduras. Além disso, quando aplicada topicamente, a vitamina E demonstra propriedades umectantes e anti-inflamatórias (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023; Kahl; Kappus, 1993). Portanto, este ingrediente não só contribui para a estabilidade da formulação, mas também oferece ações benéficas para a pele dos lábios.

O Optiphen™ sistema conservante de amplo espectro utilizado, é formulado com fenoxietanol em uma base emoliente (Caprylyl Glycol), combinação que oferece proteção otimizada de amplo espectro contra o crescimento microbiano, em extensa faixa de pH e excelente perfil de toxicidade. É estável a temperaturas elevadas (até 80 °C) e aplicável em uma grande variedade de cosméticos, sendo bem incorporado em formulações aquosas, sistemas anidros e emulsões (Fagron, 2023). O Optiphen™ também se mostra como um bom substituto aos parabenos, um sistema conservante clássico e por vezes controverso, devido à possibilidade de induzir a dermatite de contato, possuir atividade anti-androgênica, entre outros fatores (Lundov et al., 2009; Matwiejczuk; Galicka; Brzóska, 2020).

Os atributos de sabor, textura e aroma desempenham papéis significativos na aceitação de uma preparação cosmética destinada aos lábios. Lidar com o sabor residual de certos ingredientes, como ceras e manteigas, pode representar um desafio particular. Portanto, é crucial buscar uma combinação equilibrada de flavorizantes, realçadores de sabor e edulcorantes para alcançar a harmonia desejada.

Como características ideais dos bastões, destaca-se a facilidade de espalhamento sem untuosidade excessiva, uniformidade, estabilidade, ausência de manchas, esfarelamento ou rachaduras (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023). Os óleos e ésteres aprimoraram as propriedades de espalhamento e deslizamento do lip balm, além de proporcionar brilho e balancear a consistência da preparação. Ésteres de diferentes estruturas e pesos moleculares foram utilizados, criando um sensorial em cascata de suavidade em função do tempo, promovendo uma absorção do produto de maneira mais homogênea e agradável ao usuário e influenciando em alguns fatores como: maciez, lubricidade, brilhoe suavidade.

As ceras desempenham um papel essencial na estruturação de bastões cosméticos, garantindo sua estabilidade no estado sólido mesmo em temperaturas mais elevadas. No entanto, as ceras naturais enfrentam diversas restrições relacionadas à disponibilidade e produção, que variam conforme a localização e as condições ambientais. Fatores como extrativismo irregular, impactos ambientais, limitações socioeconômicas e regulamentações legislativas podem comprometer o fornecimento dessas matérias-primas, resultando em escassez e variações em suas especificações. Essas instabilidades representam desafios para os formuladores durante o desenvolvimento de produtos cosméticos. Diante dessas limitações, buscou-se uma alternativa viável, optando-se pelas Ceras Éster, que não estão sujeitas a essas variáveis. A linha de Ceras Éster MeghCare, desenvolvida por meio de tecnologia sustentável, utiliza matérias-primas renováveis de origem vegetal. Essas ceras foram formuladas para substituir, com eficácia, as propriedades das ceras naturais em cosméticos, incluindo as de abelha, carnaúba e candelila (Focus Química, 2023).

As Ceras Éster são compostas por uma mistura de ésteres de alto peso molecular de origem vegetal, obtidos a partir de ácidos graxos e álcoois graxos. Devido a sua composição e balanceamento químico semelhante às ceras naturais e sintéticas, apresentam um comportamento similar, mas conferem maior dureza às formulações cosméticas, tornando-as uma alternativa eficiente e estável para diversas aplicações. A MeghCare SEW 400 é substituta para as ceras de candelila natural e sintética, a MeghCare SEW 120 substitui a cera de carnaúba natural e a MeghCare SEW 200, a cera de abelha natural, porém com característica vegana, um atributo fundamental para o desenvolvimento dos produtos dessa pesquisa (Focus Química, 2023).

Na formulação do gloss, a Base Shine Gloss foi utilizada como veículo por possuir alta viscosidade, o que auxilia na redução da sedimentação dos pigmentos. Além disso, seu caráter graxo conferiu emoliência e brilho intenso (Alianza, 2023b). Para potencializar o efeito óptico, utilizou-se o Boromagic Cristal como pigmento de efeito.  Composto por lamelas revestidas com dióxido de titânio e/ou óxidos de ferro, esse pigmento intensifica o brilho, a transparência e a refletividade (Alianza, 2023c). Por fim, incorporou-se o red pH color (Alianza, 2023d), um corante vermelho que quando adicionado à formulação, fica praticamente incolor e ao entrar em contato com os lábios, se dissolve na água da pele e, sob influência do pH local e da umidade, revela-se a uma cor levemente rosada de fixação prolongada e efeito natural. Essa reação faz com que a cor se adapte individualmente a cada pessoa, resultando em uma tonalidade única e personalizada.

A avaliação da estabilidade de uma formulação cosmética é um aspecto fundamental para determinar por quanto tempo o produto mantém suas propriedades físicas, químicas e microbiológicas dentro dos limites estabelecidos pelas normativas vigentes. Essa análise garante que o produto preserve sua eficácia, segurança e qualidade ao longo de sua vida útil. A investigação da estabilidade desempenha um papel crucial não só no apoio ao desenvolvimento do produto, mas também na seleção apropriada de materiais de embalagem para a formulação proposta. Além disso, permite estimar o prazo de validade do produto e monitorar sua estabilidade organoléptica, físico-química e microbiológica, fornecendo dados essenciais para garantir a confiabilidade e segurança dos cosméticos (Brasil, 2004).

A estabilidade físico-química é categorizada em preliminar e acelerada. A estabilidade preliminar é feita na fase inicial do desenvolvimento, empregando condições extremas de temperatura para acelerar possíveis interações entre os componentes. O objetivo desse teste é identificar eventuais sinais de instabilidade com base nas características específicas de cada tipo de produto. No entanto, por se tratar de uma fase inicial, não estima a vida útil do cosmético, mas facilita a seleção das formulações mais adequadas para testes posteriores. Os produtos desenvolvidos nesse trabalho demonstraram estabilidade ao longo do ensaio, tornando desnecessária a reformulação (Brasil, 2004).

O teste de estabilidade acelerada é um estudo preditivo que forneceu informações sobre as os cosméticos labiais desenvolvidos, seu tempo de vida útil e sua compatibilidade com suas respectivas embalagens. Este teste utiliza condições menos extremas quando comparado ao teste de estabilidade preliminar, e serviu para auxiliar na determinação da estabilidade da formulação durante o desenvolvimento. Além disso, também poderia ser aplicável em situações de alterações na composição, no processo de fabricação, na embalagem ou para validar equipamentos (Brasil, 2004).

As propriedades organolépticas são cruciais para a aceitação do produto pelo consumidor, visando assegurar que quaisquer mudanças que ocorram não sejam detectadas pelos sentidos e não comprometam a qualidade ou segurança do produto. Alterações nessas características geralmente resultam de processos de desestabilização da formulação (Figueiredo; Martini; Michelin, 2014; Isaac et al., 2008). Em produtos cosméticos, o valor do pH deve ser o mais próximo possível do pH natural da região que será aplicado. Produtos labiais devem ter seu pH entre 4,0 e 6,5 para ser compatível com o pH fisiológico dos lábios (Desnita; Anastasia; Putri, 2022), portanto a formulação do esfoliante labial está na faixa de compatibilidade para produtos labiais e em conformidade com esse aspecto avaliado.

Durante o desenvolvimento de um protetor labial contendo vitamina E, Martins (2015) utilizou o pH como um dos parâmetros físico-químicos a ser avaliado durante os estudos de estabilidade acelerada – ressaltando que a diminuição do pH ocorrida pode ser relacionada com a oxidação dos componentes lipídicos da formulação. Tal avaliação também foi realizada por Desnita, Anastasia e Putri (2022), que desenvolveram um hidratante labial a base de óleo de oliva com pH em torno de 4,5, dentro da faixa considerada compatível para os lábios e mantido estável durante o estudo realizado.

O maior desafio no desenvolvimento de uma formulação em bastão, como o lip balm, é encontrar o balanço ideal entre os ingredientes, de modo que o produto adquira características de desempenho e estabilidade adequados. A literatura cita que nesse tipo de formulação é desejável que o ponto de fusão esteja na faixa de 65 a 75 ºC, permitindo que durante a aplicação do produto nos lábios o contato seja macio e sem a sensação de atrito, e ainda que resistam à temperatura ambiente elevada, consigam amolecer ao entrar em contato com os lábios (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023; Giovanini et al., 2019; Gouvêa, 1993). Logo, a formulação do lip balm proposta está dentro da faixa considerada ideal, uma vez que se encontra completamente fundida em 68 °C, conforme avaliação no teste de ponto de fusão e ponto de gota. Sendo assim, ao optar por ceras com diferentes pontos de fusão e balancear suas concentrações, obteve-se tais características ideais, garantindo rigidez, dureza e um bom deslizamento durante a utilização do produto nos lábios. Cabe ainda ressaltar que a escolha e concentração dos demais itens da formulação se mostrou apropriada, onde os ésteres e óleos proporcionaram brilho e untuosidade, além de auxiliar no deslizamento do produto durante a aplicação, conforme demonstrado no teste de espalhabilidade (Tagliari; Stulzer, 2007). Vale destacar que a formação de um filme oclusivo e homogêneo nos lábios garante a proteção do tecido contra as adversidades ambientais (Ferreira; Brandão; Polonini, 2023).

O teste do aquecimento teve como objetivo observar como a formulação do lip balm reage ao ser exposta a altas temperaturas, visto que em algumas situações do dia a dia do consumidor essa condição pode ocorrer, por exemplo, em dias de verão e até mesmo ao serem guardados em bolsas. Dessa forma, é importante que a formulação resista a essas variações de temperatura para ser aprovada. Este teste também serviu como mecanismo de triagem durante o desenvolvimento de uma nova formulação, uma vez que a reprovação nesse experimento indica uma necessidade de reformulação do produto (Tagliari; Stulzer, 2007).

Relacionado ao teor de água das formulações, nota-se que o esfoliante labial exibiu um teor de umidade mais elevado (62,9%), enquanto o gloss labial teve uma porcentagem menor (0,96%). Esse resultado foi congruente com as expectativas, considerando a análise dos ingredientes de cada formulação. O esfoliante labial, sendo uma emulsão, é composto majoritariamente por água, enquanto o gloss, que contém uma alta proporção de ingredientes anidros, tem uma quantidade mínima de água em sua composição.

Os cosméticos que possuem uma maior quantidade de água em sua composição, como emulsões, são os mais suscetíveis à contaminação microbiológica. Portanto, é imprescindível a utilização de sistemas conservantes adequados e validados. Além disso, a presença de umidade pode propiciar o surgimento de reações de hidrólise e degradação dos ingredientes da formulação (ABIHPEC, 2015; Brasil, 2008; Ferreira; Brandão; Polonini, 2023; Isaac et al., 2008; Santana, 2023).

Nos cosméticos a água pode estar presente de duas formas: água ligada, que interage com componentes da formulação e não está disponível para reações químicas ou biológicas, e água livre, que pode participar dessas interações. A Atividade de Água (Aw) é um parâmetro que indica a quantidade de água disponível para reações de degradação, quanto maior a Aw, maior a disponibilidade de água livre para interações químicas e biológicas, o que pode influenciar em processos como crescimento microbiano e estabilidade de cosméticos (ISO, 2017; Ramos; Mancini; Mendes, 2014).

De acordo com a Farmacopeia dos Estados Unidos, uma preparação é denominada aquosa quando sua atividade de água é igual ou maior que 0,6 (USP, 2023). Sendo assim, mesmo sem a adição de água nas formulações do lip balm (Aw = 0,679) e do gloss (Aw = 0,726), pode-se afirmar que as três formulações desenvolvidas se enquadram nessa categoria. Logo, como a atividade de água pode ser um fator determinante para o crescimento microbiano, foi necessário adicionar um sistema conservante nessas preparações.

Em produtos cosméticos, o crescimento microbiano está diretamente relacionado à disponibilidade de água livre nas formulações. De modo geral, as bactérias necessitam de uma maior disponibilidade de água para se proliferarem, seguidas pelas leveduras, e por último pelos fungos filamentosos (LUIZ, 2010). Geralmente, o crescimento bacteriano é restrito a uma Aw acima de 0,90, enquanto algumas leveduras e fungos podem crescer em níveis mais baixos, com um limite mínimo de 0,60 (ABIHPEC, 2015; ISO, 2017).

O crescimento e metabolismo dos micro-organismos não são determinados pelo conteúdo total de umidade, mas sim pela disponibilidade de água livre na formulação. Por esse motivo, a medição da atividade de água é mais assertiva no desenvolvimento de cosméticos, permitindo reduzir a necessidade de testes microbiológicos, a concentração dos conservantes e, consequentemente, o custo dos produtos (ISO, 2017).

Há um investimento crescente no desenvolvimento de formulações com menor teor de conservantes, uma vez que esses componentes são frequentemente associados a reações adversas (Lundov et al., 2009). Sendo assim, a redução da atividade de água desponta como uma estratégia eficaz, envolvendo a adição de substâncias capazes de se ligar à água, como polióis, aminoácidos, hidrolisados de proteínas e hidrocoloides (Varvaresou et al., 2009). Porém, é essencial analisar detalhadamente cada formulação, pois a relação entre a atividade de água e os micro-organismos é complexa, envolvendo uma interação multifacetada de diversos fatores, como pH e temperatura. (Laroche; Fine; Gervais, 2005).

Cosméticos como o esfoliante labial (Aw = 0,996), são muito suscetíveis à contaminação microbiológica, enquanto outros apresentam menor risco de contaminação microbiana. Para esses produtos de baixa susceptibilidade, pode não ser necessário cumprir todos os parâmetros de controle microbiológico estabelecidos na resolução nº 752/2022 (Brasil, 2022) e até mesmo a adição de um conservante. Para que isso ocorra, é necessário apresentar justificativas técnicas baseadas na ISO (2017), além de embasamento científico. Combinar fatores como: teor alcoólico da formulação ≥ 20%; pH ≥ 10 ou pH ≤ 3,0; Aw ≤ 0,75; embalagem final em monodose e temperatura de envase ≥ 65 °C podem caracterizar baixo risco microbiológico e levar à isenção de alguns testes no desenvolvimento cosmético. Neste estudo, o esfoliante labial e o gloss não atenderam nenhum desses requisitos. Embora o lip balm cumpra dois critérios (Aw ≤ 0,75 e temperatura de envase ≥ 65 °C), foi incluído o conservante Optiphen™, por se tratar de um produto aplicado diretamente nos lábios, podendo assim aumentar o risco de contaminação microbiológica.

A seleção do sistema conservante de um cosmético, deve levar em consideração a composição da formulação, o tipo de produto e seu uso. A contaminação microbiana, pode alterar as propriedades físico-químicas, levando à deterioração e inativação dos componentes da formulação, podendo comprometer sua estabilidade e eficácia. Cabe salientar que é fundamental utilizar o conservante nas concentrações adequadas visando proteger os usuários contra possíveis efeitos tóxicos. Para cosméticos labiais, é especialmente relevante considerando a delicada estrutura da pele dos lábios, a ausência de hidratação natural e sensibilidade (Penna et al., 2009; Pinto; Kaneko; Ohara, 2000; Serna et al., 2021).

A escolha do Optiphen™ a 1% como sistema conservante das formulações labiais desenvolvidas, baseou-se na resolução nº 528/2021 (Brasil, 2021), que apresenta a lista de conservantes permitidos em cosméticos nas suas respectivas dosagens. O Optiphen™ atendeu aos critérios de cada formulação, com amplo espectro de ação, compatibilidade em diferentes faixas de pH, além de ser vegano, seguro e possuir estabilidade em altas temperaturas (até 80 °C), sendo também solúvel em emulsões e sistemas anidros (Fagron, 2023).

O controle de qualidade microbiológico é crucial para garantir a segurança dos cosméticos que entram em contato com mucosas ou áreas do corpo suscetíveis à infecções.  A presença de coliformes, por exemplo, é um indicador de contaminação fecal ou de falhas nas práticas de fabricação. Além disso, a verificação da ausência de Pseudomonas aeruginosa e Staphylococcus aureus é essencial para assegurar a qualidade e segurança desses produtos (Brasil, 2008).

Estudos demonstram que diversos cosméticos podem apresentar contaminação microbiana acima dos limites permitidos pela legislação brasileira, tanto antes quanto após o uso. Um estudo que investigou a presença bacteriana em produtos labiais comercializados revelou que 41,7% estavam contaminados por Staphylococcus aureus e 58,3% por Staphylococcus epidermidis. Entre as bactérias patógenas comumente encontradas destacou-se: S. aureus, E. coli, P. aeruginosa e Salmonella sp (Costa et al., 2023). Logo, medidas rigorosas de monitoramento microbiológico são cruciais para minimizar os riscos associados à contaminação de cosméticos labiais e proteger a saúde dos consumidores.

Relacionado ao potencial fotoprotetor, existe um crescente interesse global no desenvolvimento de novas moléculas de origem natural, como o óleo vegetal (CBA), que sejam fotoestáveis e sustentáveis, a fim de serem integradas em protetores solares. Nesse sentido, uma série de estudos vem sendo conduzida para explorar a possibilidade de formular fotoprotetores utilizando ingredientes provenientes da rica biodiversidade brasileira. A maioria, entretanto, não alcança resultados satisfatórios (como o caso deste estudo) a ponto de terem a possibilidade de gerar um produto inovador (Guaratini et al., 2009; Polonini et al., 2011; Violante et al., 2009).

O potencial fotoprotetor foi avaliado em várias espécies da biodiversidade brasileira: demonstraram Macrosiphonia velame, Lafoensia pacari, Oxalis hirsutíssima (Violante et al., 2009) Malpighia glabra (Sousa et al., 2009), Guazuma ulmifolia, Maytenus ilicifolia, Stryphnodendron adstringens, Trichilia catiguá (Munhoz et al., 2012) e Carapa guianensis (Ferrari et al., 2007) não mostraram atividade fotoprotetora significativa. Outras espécies como Hamamelis virginiana, Rhamnus purshiana, Cinnamomum zeylanicum (Ramos et al., 1996), Lantana aff. fucata Lindl, Solidago microglossa DC, Stachytarpheta gesnerioides Cham (Polonini et al., 2011) e Lippia sericea (Polonini; Brandão; Raposo, 2014) conferiram potencial frente à fotoproteção isoladamente ou em sinergia quando associadas à filtros orgânicos e/ou inorgânicos.

Cosméticos com alta capacidade oclusiva pode criar uma película protetora que evita a perda de água transepidérmica. A capacidade oclusiva de um cosmético é determinada por diversos fatores como o tamanho das partículas presentes na formulação e sua concentração lipídica.  Óleos vegetais ricos em ácidos poli-insaturados são exemplos de agentes formadores de filmes (Teeranachaideekul et al., 2008; Wissing; Müller, 2002).

Os valores de oclusividade apresentados nas formulações do lip balm e do gloss foram superiores aos encontrados por Giovanini e colaboradores (2019), na sua formulação multifuncional, que apresentou índices de oclusividade de 80%, 75% e 71% nos tempos de 6, 24 e 48 horas, respectivamente. Através de uma análise comparativa (qualitativa e quantitativa) pode-se justificar o desempenho superior do lip balm e do gloss quanto à oclusividade. Esse resultado pode estar relacionado à maior concentração de ceras, aliada à presença da manteiga de murumuru, de ésteres emolientes e dos óleos de coco e CBA, que contém maior concentração de ácidos poli-insaturados, se comparado ao óleo de rícino utilizado na formulação de Giovanini e colaboradores (2019). Além disso, o equilíbrio e a otimização na proporção dos ingredientes também podem ter contribuído para esse desempenho.

5. CONCLUSÃO

Com base nos resultados obtidos, conclui-se que foi possível desenvolver uma linha de cosméticos labiais (esfoliante labial, lip balm e gloss) com ingredientes veganos e óleos vegetais extraídos da biodiversidade brasileira. A análise organoléptica, os testes de controle de qualidade físico-químico e microbiológico, bem como a  avaliação da estabilidade, demonstraram conformidade com as normas regulatórias vigentes, assegurando segurança, estabilidade e consistência das formulações, reforçando seu potencial para aplicação no mercado cosmético.

A avaliação do desempenho in vitro das formulações revelou resultados relevantes, especialmente no que se refere à sua capacidade oclusiva, destacando os resultados do lip balm e do gloss. Em relação à eficácia fotoprotetora estimada in vitro, o lip balm não obteve resultados favoráveis, configurando uma limitação deste estudo. Sendo assim, recomenda-se realizar novos estudos que explorem essa questão de forma mais aprofundada, visto a importância da fotoproteção nos cuidados labiais.

Além disso, ao investigar o potencial dos óleos da biodiversidade brasileira, em especial os com possível ação no sistema endocanabinoide, como o óleo vegetal (CBA), este estudo amplia o conhecimento sobre as propriedades e benefícios desse ingrediente para o cuidado labial. Logo, espera-se que os resultados dessa pesquisa abram novas perspectivas para futuros trabalhos.

Além de atingir os objetivos propostos, este trabalho oferece uma contribuição significativa para o campo dos cosméticos labiais. Espera-se que os resultados obtidos inspirem novas iniciativas envolvendo estudos clínicos para avaliar o óleo vegetal (CBA) e outros óleos da biodiversidade nacional em formulações para cuidados labiais, assim como ensaios de irritabilidade e/ou toxicidade dos cosméticos desenvolvidos.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial ChatGPT, versão GPT-4-turbo utilizada exclusivamente para aprimorar a redação de algumas seções do texto, garantindo maior clareza, coesão e adequação ao rigor acadêmico exigido. No entanto, enfatizo que todas as etapas fundamentais da pesquisa foram realizadas de maneira autoral, incluindo a busca e seleção das referências, análise crítica da literatura, classificação da qualidade dos artigos e elaboração das interpretações e conclusões. Os autores asseguram que o uso da IA foi conduzido de acordo com as diretrizes éticas estabelecidas pelo Committee on Publication Ethics (COPE), respeitando a integridade científica e evitando qualquer forma de plágio ou deturpação dos resultados.

[1] Especialização. Graduação. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0362-7389. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3249976934184988.

[2] Doutorado. Mestrado. Graduação. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-2119-3660. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1006439357220532.

[3] Mestrado. Graduação. ORCID: https://orcid.org/0009-0007-2070-0601. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2207502442973850.

[4] Estudante de Farmácia. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-6607-0532. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/6933601413023603.

[5] Orientadora. Doutorado. Mestrado. Graduação. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-5271-1048. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4958736937529401.

Material recebido: 21 de maio de 2024.

Material aprovado pelos pares: 17 de janeiro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 05 de maio de 2025.

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Karla Mara Gonçalves

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