Atividade Física e Ambiente de Aprendizado em estudantes de medicina da Amazônia

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/atividade-fisica
Atividade Física e Ambiente de Aprendizado em estudantes de medicina da Amazônia
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ARTIGO ORIGINAL

SANTOS, Bráulio Erison França dos [1], BENEVIDES, Pedro Henrique Silva [2], SOUZA, Icaro Reis [3], MOREIRA, Vanessa Santos [4] AQUINO, Victor Alexandre Nascimento de [5], BUCAR, Ruy Arudá Ferreira [6], PADUA, Mathias Antunes Vilas Boas de [7]

PADUA, Mathias Antunes Vilas Boas de SANTOS, Bráulio Erison França dos. Et al. Atividade Física e Ambiente de Aprendizado em estudantes de medicina da Amazônia. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 01, Vol. 05, pp. 188-201 Janeiro de 2019. ISSN:2448-0959

RESUMO

Objetivou-se conhecer o perfil sociodemográfico dos acadêmicos de Medicina da Universidade Federal do Amapá, avaliar seu nível de Atividade Física e a interação deste com a Percepção do Ambiente Acadêmico. Foi realizado estudo longitudinal prospectivo, observacional, não controlado com abordagem quantitativa e qualitativa. Amostra de 209 alunos do primeiro ao sexto ano, correspondendo a 86% dos estudantes de Medicina da Universidade Federal do Amapá. Utilizou-se de um questionário sociodemográfico para conhecer o perfil dos alunos, o questionário Baecke para avaliação da atividade física habitual e o questionário DREEM para avaliação do ambiente acadêmico. Estes foram respondidos por meio da plataforma online “Surveymonkey enterprise”. Com isso os estudantes foram classificados em grupos quanto ao sexo, faixa etária, procedência e ano de graduação. Em relação a cada um desses grupos foi analisado o nível de atividade física e a percepção do ambiente acadêmico. Os estudantes obtiveram um escore total de 7,71 no questionário Baecke. Sendo que 47,59% destes considerou o ambiente acadêmico como tendo muitos problemas. Assim, apesar de não haver correlação estatística direta (p>0,05) existe uma tendência a quanto maior o nível de atividade física melhor a percepção do ambiente acadêmico. É necessário a continuidade de estudos e a observação de outros fatores nessa interação.

Palavras-chave: Atividade física, estudantes de medicina, DREEM, Baecke.

INTRODUÇÃO

A atividade física (AF) é definida como qualquer movimento corporal produzido pela musculatura esquelética que requeira gasto de energia acima dos níveis de repouso (FREIRE et al., 2014). A mesma pode ser subdividida, segundo Nasser, em quatro contextos principais: o trabalho, as atividades domésticas, o transporte e as atividades de lazer, sendo esta última promotora de benefícios para a saúde e contribuinte para o aumento do nível de AF na vida adulta (NASSER et al., 2016).

A AF é um importante elemento na promoção da saúde e qualidade de vida da população. Além disso, é um fator protetor, sendo seus benefícios associados à redução de doenças crônicas e à diminuição do risco de morte prematura por doenças cardiovasculares(POLISSENI; RIBEIRO, 2014). A inatividade física, consequentemente, é reconhecidamente causadora de agravos à saúde, sendo hoje tida como um problema de saúde pública tão importante quanto o tabagismo, alcoolismo, diabetes e hipertensão arterial (LEE et al., 2012) e estando relacionada com níveis elevados de ansiedade, (STUBBS et al., 2017).

Apesar de os benefícios da AF serem cada vez mais conhecidos, o sedentarismo tem crescido bastante (TURI et al., 2017). Em relação aos acadêmicos observa-se a ocorrência global de baixos índices de atividade adequada ou até mesmo inatividade (HAASE et al., 2004).

Os estudantes de medicina também apresentam índices de AF abaixo do adequado. Surge então uma relação dicotômica, em que os alunos sabem da importância da AF e a recomendam aos pacientes e apenas uma minoria pratica de forma adequada. Um aspecto digno de nota é o fato de a inatividade do estudante, ou médico, aparecer como um fator que dificulta a adesão dos pacientes a tais recomendações (LACKINGER; DORNER, 2015).

Um fator que pode ser considerado é a influência socioeconômica e cultural. Estudo europeu, abrangendo participantes de 23 países, demonstrou grande variação do sedentarismo nos momentos de lazer. Os dados apresentavam variações que iam entre 23% de inatividade em países desenvolvidos, como os Estados Unidos, e chegavam a 44% em países em desenvolvimento (HAASE et al., 2004). Outros trabalhos realizados também demonstram esse fato(LACKINGER; DORNER, 2015).

Trabalhos colombianos mostraram baixos níveis de AF. Um deles apresentou dados de que 40,9% dos estudantes não tinham uma prática regular de AF, fazendo pouco ou nenhum exercício(VERELA et al., 2011). Em outro, os dados demonstravam que 54,8% dos estudantes apresentavam baixos níveis de AF (GARCÍA PUELLO; HERAZO BELTRÁN; TUESCA MOLINA, 2015).

Ao analisar a prática de exercícios físicos entre acadêmicos no Brasil é possível observar certa semelhança com os dados internacionais. Os estudantes de Medicina apresentam maior prevalência de sintomas de ansiedade e depressão quando comparados com a população geral (VASCONCELOS et al., 2015). Sendo a AF componente de grande relevância para a manutenção de um bom estado geral de saúde e sendo este um dos fatores correlacionados com a prevalência de transtornos depressivos, a inatividade física torna-se mais um fator que contribui de forma ímpar na prevalência de sintomas de ansiedade e depressão em estudantes de Medicina(STUBBS et al., 2017).

Outro fator importante a ser considerado é o tempo gasto com as atividades físicas durante os anos da graduação. Estudos brasileiros demonstram que há uma queda acentuada nesse tempo, a cada ano, sobretudo no internato (os 2 últimos anos), período em que as atividades práticas tomam ainda mais tempo. Pesquisa realizada com
estudantes de Medicina de uma faculdade de Minas Gerais, habituados a praticar AF demonstrou a diminuição gradativa do tempo (em minutos) gasto com exercícios. Entre o primeiro e o último ano da graduação, o tempo usado diminuiu para menos que a metade do inicial, em todos os níveis de exercício (leve, moderado e intenso) (FIGUEIREDO et al., 2009).

Uma outra observação diz respeito a alterações do nível de AF ao longo do tempo. Estudo feito com alunos do terceiro ano de Medicina da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo observou dois grupos distintos, com diferença de 10 anos entre o primeiro e segundo. Observou-se, comparando os dois grupos, uma redução acentuada do nível de AF recomendado (queda de 27,4%). O segundo grupo, pesquisado em 2011, apresentou um número de estudantes com atividade inadequada que se aproxima ao encontrado em outros trabalhos nacionais, com 52,2% dos participantes não atingindo a recomendação de atividades físicas(RADDI et al., 2014).

O sedentarismo pode ter diversas repercussões. Uma delas pode ser a percepção do ambiente acadêmico, que pode ser compreendido como um conjunto de elementos materiais e afetivos que circunda o educando e é um dos principais determinantes do aprendizado(DE ALMEIDA TRONCON, 2014). Ao adentrar na faculdade, o estudante tem diante de si novas perspectivas educacionais, novos métodos de aprendizagem e novos anseios.

Dentre as diversas formas de avaliação do ambiente educacional está o uso de questionários validados, como o DREEM (Dundee Ready Education Environment Measure), que avalia a percepção dos estudantes acerca de diferentes aspectos do ambiente acadêmico. Estudo realizado com estudantes de Medicina do leste da Índia concluiu que além da participação dos estudantes no desenvolvimento do currículo acadêmico e provisão de medidas que garantam a segurança, medidas como inclusão de formas de alívio de estresse e incentivo à atividades extracurriculares, onde entraria a AF, podem ajudar a melhorar a PAA por parte dos estudantes (SENGUPTA; SHARMA; DAS, 2017).

Estudo realizado com estudantes de Medicina do Chile e da Espanha evidenciou uma piora da PAA no decorrer da graduação. Os autores atribuíram a esta piora fatores como dificuldade na transição do ensino básico para o ensino clínico e na escassez de tempo dos estudantes para cumprir com todos os compromissos acadêmicos (DÍAZ-VÉLIZ et al., 2016).

Problemas estruturais e de comunicação entre discentes e docentes, alta competitividade acadêmica e exigência por profissionais capacitados pode coagir os estudantes. Isso pode muitas vezes comprometer a saúde física e mental. Estudantes de Medicina, por exemplo, apresentam maior prevalência de sintomas de ansiedade e depressão do que a população geral. Em um estudo com 175 alunos do curso de Medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP), a prevalência de depressão foi de 45,7%, evidenciando-se associação entre maiores índices de depressão com uma pior percepção do ambiente acadêmico (PAA)(OLIVEIRA et al., 2016).

Com isso, e devido à escassez de dados referentes à região Norte, este trabalho visa identificar e avaliar o nível de AF dos acadêmicos de Medicina da UNIFAP durante o curso, e a implicação desta na PAA podendo proporcionar futuramente a elaboração de medidas que contribuam para uma prática mais adequada de AF.

METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como longitudinal prospectivo, observacional, não controlado e com abordagem quantitativa. A população deste estudo constituiu-se de acadêmicos de medicina da UNIFAP, do primeiro ao sexto ano. Os critérios de inclusão foram: ser acadêmico de Medicina da UNIFAP e concordar em participar do estudo. O critério de exclusão foi: não concordar com o estudo. A UNIFAP, por meio do seu Comitê de Ética em Pesquisa, concedeu aprovação para o estudo no dia 01/06/2016 (número de protocolo do Certificado de Apresentação para Apreciação Ética: 56187216.6.0000.0003).

A pesquisa foi realizada na UNIFAP, campus Marco Zero, localizado na Rodovia Juscelino Kubitschek, KM-02, Jardim Marco Zero e nos hospitais usados durante as atividades práticas do curso (Hospital das Clínicas Alberto Lima, Hospital da Mulher Mãe Luzia, Hospital de Emergências de Macapá) com os acadêmicos devidamente matriculados da primeira a sexta séries de graduação do curso de Medicina.

 Foram utilizados o questionário Baecke, validado para avaliação da atividade física habitual (AFH), o DREEM, utilizado para avaliar a PAA, além de um questionário sociodemográfico elaborado de acordo com as necessidades da pesquisa.

O questionário Baecke avalia a AF dos últimos 12 meses por meio de quatro escores: atividade física ocupacional (AFO); exercício físico no lazer (EFL); atividade física de lazer e de locomoção (ALL) e o escore total (ET) que representa a soma destes. É organizado em forma de escala likert com cinco opções de resposta e foi aplicado na forma auto-respondida. O escore de AFO é composto por oito questões, o de EFL por quatro e o ALL também por quatro. Cada escore pode ter variação de 1 a 5 pontos, sendo uma variável quantitativa adimensional (GARCIA et al., 2013).

A interpretação do questionário Baecke foi feita avaliando os quatro escores (AFO, EFL, ALL e ET). Cada uma dessas partes foi avaliada individualmente e seus resultados compõem a avaliação do nível de AF dos estudantes analisados. Essa análise foi feita de acordo com as delimitações para análise propostas no próprio questionário.

A avaliação da AFH foi feita de acordo com o grau de intensidade da ocupação, sendo 1 para ofícios com baixo gasto energético, 3 para médio gasto e 5 para alto gasto.

A análise do EFL avaliou 3 pontos importantes, que tiveram atribuições de valores diferentes de acordo com a resposta do participante. Sendo eles:

I – Intensidade = 0,76 para modalidades com baixo gasto energético, 1,26 para modalidades com gasto intermediário e 1,76 para modalidades com alto gasto.

II – Tempo em horas por semana = 0,5 para menos de uma, 1,5 entre maior que uma hora e menor que duas horas, 2,5 para maior que duas horas e menor que três horas, 3,5 para maior que três e até quatro horas por semana e 4,5 para maior que quatro horas por semana.

III – Proporção de meses por ano = 0,04 para menor que um mês, 0,17 entre um a três meses, 0,42 entre quatro a seis meses, 0,67 entre sete a nove meses e 0,92 para maior que nove meses.

O questionário DREEM foi utilizado para conhecer a percepção do ambiente de ensino pelos acadêmicos de medicina da UNIFAP. É composto por 50 afirmações relacionadas ao ambiente educacional. Os participantes da pesquisa fizeram a avaliação de cada afirmação através da escala Likert da seguinte forma: 4- concordo totalmente, 3- concordo, 2- indiferente, 1- discordo e 0- discordo plenamente. Os dados foram avaliados por um somatório simples da pontuação obtida. Para cada pontuação foi atribuída uma representação do ambiente. Pontuação de 0 a 50 representa um ambiente muito pobre; 50 a 100, ambiente com muitos problemas; 101 a 150, ambiente mais positivo que negativo e de 151 a 200, ambiente excelente.

O questionário sociodemográfico possui 18 perguntas (abertas e fechadas) e foi desenvolvido para satisfazer um dos objetivos da pesquisa, a saber, o de caracterizar os estudantes de medicina quanto a gênero, estado civil, procedência, prática de AF, sua expectativa quanto às alterações desta durante o transcorrer da graduação, a interferência da metodologia ativa na prática de exercícios físicos, consumo de bebida alcoólica e hábito tabagista.

A coleta de dados ocorreu entre os meses de setembro a dezembro de 2016, por meio do software online, “Surveymonkey enterprise” e por questionários impressos entregues pelos pesquisadores aos graduandos, sendo que tais questionários foram incluídos nesta plataforma, onde cada estudante recebeu um link (intransferível e pessoal) para acesso dos mesmos em seu endereço eletrônico. Os dados pessoais foram disponibilizados apenas aos pesquisadores. Os instrumentos de coleta usados nesta pesquisa apresentaram a característica de poderem ser autoaplicáveis, o que  permitiu o uso de ferramentas eletrônicas.

RESULTADOS

Responderam aos questionários 209 alunos, o que correspondeu a 86% dos estudantes de Medicina da UNIFAP, sendo 50,48% do sexo masculino e 49,52% do feminino. Em relação à faixa etária, 54,55% tinham entre 21 e 25 anos, 24,44% entre 18 e 20 anos, 17,70% entre 26 e 30 anos e 4,31% acima de 30 anos. Destes, 57,21% moravam em outro estado do país antes de iniciar a faculdade. 39,42% moravam em Macapá e 3,36% em outra cidade do Amapá.

Com relação à análise dos índices de AF pelos acadêmicos, com a utilização do questionário Baecke foi percebido que o sexo masculino mostrou resultados maiores para a prática de AF com ET de 8,02 (AFO 2,54, EFL 2,85, ALL 2,59).  O sexo feminino obteve melhores resultados apenas na AFO com valor de 2,61 (EFL 2,61, ALL 2,36, ET de 2,50). A faixa etária que obteve maior nível de AF foi acima de 30
anos com ET de 8,14. Os participantes entre 18 e 20 anos tiveram a pontuação mais baixa, com uma média de 7,31. Entre os 21 e 25 anos o ET foi de 7,86 e entre os 26 e 30 anos foi de 7,69. A análise entre turmas está demonstrada no gráfico 1.

Gráfico 1: Pontuação das turmas no questionário Baecke de AFH nos escores AFO, EFL, ALL e no ET.

https://lh6.googleusercontent.com/pp8dXHLaHo1uAsX7WFVLLI3cbYe3tt7kamo4nxce78y66EJFYGY8PMKxrzicWbr37IzUx2Y5P7LHdhM4lPvw3DeCOYvRCQWk8fo4rpc7v8QiSzrf7iAK8SYPLfUxh-R2bzr0Kk34
Fonte: (Santos, BEF. 2018)

Em relação à expectativa quanto à prática de AF, 87,80% dos alunos referiram a expectativa de realizar AF nos 12 meses seguintes à coleta, 2,44% relataram não ter expectativa de realizar atividades físicas e 9,76% afirmaram que ainda não tinham pensado sobre isso.

Quanto ao ambiente acadêmico, analisando o público total do estudo, 3,36% consideraram o ambiente excelente, 39,90% como mais positivo que negativo, 47,59% como com muitos problemas e 8,17% como muito pobre.

Ao se levar em consideração a faixa etária, os participantes entre 21-25 anos foram os que tiveram melhor PAA, sendo que 6,84% consideram o ambiente excelente, 49,02% o percebem como mais positivo que negativo, 50,87% veem como com muitos problemas e 7,98% como muito pobre. Os participantes entre 26 e 30 anos foram os que apresentaram uma percepção pior sobre o ambiente. 8,10% percebem o ambiente como muito pobre, 48,64% como com muitos problemas e 43,24% avaliam o ambiente como mais positivo que negativo. Nessa faixa etária nenhum participante vê o ambiente como sendo excelente. De acordo com a procedência dos estudantes é percebido que aqueles que já residiam em Macapá antes de ingressarem no curso de medicina são os que possuem a melhor PAA, sendo que 43,90% destes consideram o ambiente como mais positivo do que negativo. Entre os alunos que são oriundos de outros estados do país, 47,05% consideram o ambiente como possuindo muitos problemas. A análise do PAA por turmas está demonstrada no gráfico 2.

Gráfico 2: Percepção do ambiente acadêmico entre as turmas de medicina da UNIFAP, em relação a classificação do questionário DREEM

https://lh5.googleusercontent.com/IN3-cxuJaShkfguIhZzJ9s_uKw3B57j7ELhBx1MlbkImqMLm7u_fkKg7HTLeHOSvkXA8ZAzrGZUXbyFzwYG1k1PDtMN5rx5QBGyAKPCns_ONbmqIU1h53GHU8sCYCldw2anuqVSr
Fonte: (Santos, BEF. 2018)

DISCUSSÃO

Comparando a prática de AF de acordo com o sexo dos alunos, os homens apresentaram, nesta pesquisa, índices melhores em comparação com as mulheres. Estudos em populações semelhantes já demonstraram essa diferença (CASTRO JÚNIOR et al., 2012)(MARCONDELLI; COSTA; SCHMITZ, 2008),(SALLES-COSTA et al., 2003).

A quantidade de AF entre os acadêmicos sofre variações de acordo com o ano da graduação em o aluno que se encontra. Em outros estudos essa variação não ocorre (CASTRO JÚNIOR et al., 2012). Este fato não pode ser explicado apenas pelas diferenças na carga horária de cada etapa da graduação. Ao contrário do que era esperado, a turma com melhores índices de AF foi justamente a que tem a maior carga horária do curso. O terceiro ano do curso possui carga horária acadêmica de 1170 horas anuais, enquanto o quinto ano possui 1680 horas anuais, sendo que o terceiro ano possui os índices mais baixos de AF com escore total de 7,13 e o quinto ano do curso é o que possui índices mais elevados de AF, com escore total de 10,52. Ou seja, pode não haver correlação entre a prática de AF diária desses estudantes com sua carga horária na universidade. Porém, pode haver relação com o método de ensino, visto que nos primeiros quatro anos de curso, onde são realizadas as sessões tutoriais e todo o ambiente acadêmico é pautado na aprendizagem baseada em problemas, houve menores práticas de AF, com ET médio de 7,24, do que quando comparamos com o internato médico, onde os alunos possuem na maioria do tempo vivências hospitalares, com uma média de escore total de 9,21.

Alguns estudos demonstraram haver uma diminuição gradual da AF durante o passar dos anos (FONTES; VIANNA, 2009), o que é oposto aos resultados encontrados neste estudo, em que os alunos dos dois últimos anos da graduação obtiveram os melhores índices de AF.

Com relação ao ambiente acadêmico, o questionário DREEM oferece relevantes informações sobre a percepção dos estudantes. Ao observar sob uma ótica geral, abrangendo todos os alunos, a maioria (47,59%) considerou o ambiente como sendo muito problemático. Além disso, 8,17% consideraram o ambiente como sendo muito pobre, 39,90% consideraram o ambiente como sendo mais positivo que negativo e 3,36% como sendo excelente. Esses dados  mostram que a maior parte dos alunos do Curso de Medicina da UNIFAP enxergam o ambiente acadêmico como tendo muitos problemas e apenas 3,36% o consideram como excelente.

Ao se analisar as turmas, é possível perceber uma grande variação. O 3º ano foi a turma com a pior percepção em relação ao ambiente, sendo que 76,47% dos alunos consideraram o ambiente como tendo muitos problemas. Em oposição a isso, as turmas do internato médico (5º e 6º ano) apresentaram melhor visão sobre o ambiente acadêmico, sendo que, no 5º ano, 15% dos alunos consideraram o ambiente excelente e 45% como mais positivo do que negativo. Uma explicação possível é a diferença na metodologia utilizada para o ensino dos estudantes do primeiro ao quarto ano quando comparada com a utilizada para os estudantes do internato médico.

A PAA também sofre alteração quando analisamos a origem dos estudantes. Alunos que já moravam em Macapá antes de iniciar o curso de medicina possuem uma percepção melhor do ambiente: 43,90% consideram o ambiente mais positivo que negativo. Em contraposição a isso, os alunos de outros estados do país possuem pior PAA, sendo que 47,05% consideraram o ambiente como possuindo muitos problemas. Isso pode ser devido a fatores de estresse que podem interferir em como o estudante percebe o ambiente acadêmico.

Analisando a relação da prática de AF e sua interação com a PAA, é visto que as turmas com melhores desempenhos no questionário DREEM foram aquelas com maiores índices de AF no questionário de AFH, no Baecke. Além disso, as turmas com índices mais baixos no questionário Baecke (2° e 3° anos) foram as que apresentaram pior percepção sobre o ambiente acadêmico. Diversos fatores podem interferir na PAA, dentre eles o estresse e os transtornos do humor. Estudo com a mesma população da atual pesquisa demonstra altos níveis de depressão nos acadêmicos de Medicina da UNIFAP e evidencia ainda uma relação direta entre presença de critérios para depressão e percepção negativa do ambiente acadêmico (SANTOS DE OLIVEIRA et al., [s.d.]). A AF é sabidamente um fator relacionado à regulação do humor e ajuste do estresse (SOUSA et al., 2010). É possível que a prática de AF não atue de forma direta sobre a percepção do ambiente, mas que em conjunto com outros fatores (principalmente voltados à qualidade de vida) seja responsável por uma visão mais positiva sobre o ambiente. Apesar de não haver correlação estatística direta (p>0,05), é possível observar que existe uma tendência de que quanto maior a AF melhor a PAA. Isso pode ocorrer devido tanto a prática de AF poder ser realizada de forma coletiva, podendo ser um fator de integração do acadêmico neste novo grupo quanto ao fato de que práticas de AF auxiliam na redução do estresse (SOUSA et al., 2010). Esses podem ser fatores que justifiquem a melhor PAA por quem pratica AF.

CONCLUSÃO

Em relação à prática de AF percebeu-se que existem alterações desta de acordo com o ano de graduação em que o aluno se encontra. Observou-se ainda que situações ligadas à universidade, como necessidade de estudos fora do ambiente acadêmico, dificuldades de se organizar para acompanhar todo o conteúdo necessário e fatores
socioeconômicos podem ter influência na prática cotidiana de AF destes estudantes.

Sobre o ambiente acadêmico, os estudantes, em sua maioria, o consideraram como possuindo muitos problemas. Essa avaliação sofre alterações ao se observar separadamente grupos específicos dentro da pesquisa, sendo que a análise por turmas foi a que gerou maiores diferenças de resultados. Alunos que não moravam em Macapá antes do início da graduação também tem uma percepção mais negativa do ambiente quando comparados aos que já moravam na cidade.

Com a análise pôde-se perceber que a turma do terceiro ano de medicina foi a que obteve índices mais baixos de AF e também foi a que apresentou resultados mais negativos na avaliação do ambiente acadêmico. Em contraposição a isso, as turmas do quinto e sexto anos tiveram maiores taxas de AF e foram as turmas com melhores percepções do ambiente acadêmico. Assim, foi visto que existe uma tendência de as avaliações mais positivas do ambiente acadêmico estarem relacionadas aos acadêmicos que realizam maiores índices de AF.

Faz-se necessário dar prosseguimento a esse estudo de forma longitudinal, para que assim seja possível analisar as diferenças ocorridas entre os mesmos acadêmicos durante a graduação. E, dessa forma, identificar as mudanças em relação ao padrão de AF e a relação com a  PAA de um mesmo estudante.

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[1] Graduação em Medicina pela Universidade do Estado do Pará , Mestrado em Ciências da Saúde área de Epidemiologia e Saúde Pública e Título de Especialista em Medicina Legal e Perícia Médica. Especialista em Metodologias Ativas pelo Hospital Sírio-Libanês, especialista em Docência na Saúde pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Atualmente é médico do Hospital de Clínicas Dr. Alberto Lima (HCAL), perito médico da Justiça do Trabalho (TRT/AP) e professor do colegiado de medicina da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Tem experiência nas áreas de Clínica Médica, Medicina Ocupacional e Perícia Médica.

[2] Acadêmico do 11° período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[3] Graduação em medicina pela Universidade Federal do Amapá.

[4] Acadêmico do 9° período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[5] Acadêmico do 11° período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[6] Acadêmico do 11° período do curso de medicina da Universidade Federal do Amapá.

[7] Acadêmico do 11° período do curso de medicina da Faculdade de Medicina de Atenas.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Janeiro, 2019

Como publicar Artigo Científico

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