As Relações entre Antropologia e Psicanálise: Freud e Wundt uma colaboração Inesperada

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As Relações entre Antropologia e Psicanálise: Freud e Wundt uma colaboração Inesperada
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SANTOS, Alan Ferreira dos [1]

SANTOS, Alan Ferreira dos- As relações entre antropologia e Psicanálise: Freud e Wundt uma colaboração inesperada. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 1. Vol. 6, pp. 5- 14, agosto 2016. ISSN: 2448-0959

RESUMO.

As relações entre antropologia e psicanálise, vem sendo discutida algum tempo no meio acadêmico, principalmente pelo fato da variedade epistemológica em ambas disciplinas. O presente artigo é uma pesquisa bibliográfica de cunho qualitativo. Teve-se o intuito de compreender como Freud reelaborou os conceitos da psicologia experimental Wundtiana, tendo em vista que tal elaboração forneceu a base de uma antropologia psicanalítica, nessa perspectiva focamos, em como disciplinas tão díspares possibilitou algo singular, como tais relações. Concluiu-se que tal relação só foi possível pelo fato, de ambas ciências (psicanálise) e (psicologia experimental) estudarem semelhante objeto, e que apesar dos pressupostos serem distintos, estes não impossibilitaram as investigações sobre o mesmo fenômeno, mas pelo ao contrário, possibilitaram o refinamento teórico e a produção de ferramentas investigativas.

Palavras chave: Etnopsicanálise. Antropologia. Psicanálise.

INTRODUÇÃO

As relações entre Antropologia e Psicanálise, se dão desde do século XIX com o seu criador Sigmund Freud (1856-1839) que desde de suas cartas a Fliess (1887-1902) esboça um procedimento antropológico que segundo Laplantine (1994) desemboca em textos como Totem e tabu (1913), O futuro de uma ilusão (1927), Mal-estar na civilização e (1929) Moisés e o monoteísmo (1938). O intercambio entre áreas tem o ponto de partida, segundo o autor quando o fundador da psicanálise compreende os neuróticos e o os primitivos entendendo que a vida social de nossos antepassados é dominada pelo respeito ao totem, e a vida psíquica das crianças e dos neuróticos, pelo temor de transgredir o tabu, então existe uma estreita relação entre os “primitivos”, os neuróticos e as crianças e, por refração, entre o campo antropológico e o campo psicanalítico (LAPLANTINE, 1998).

Com isso, assimilando os aspectos dos povos agrafos com relação a lei e a sociedade civil, compreende que a mesma configuração que rege a vida primitiva, rege a vida civilizada, principalmente ao que concerne aos neuróticos e as crianças. Matar o totem (o pai) e desposar as mulheres pertencentes ao totem concentra toda ambivalência afetiva das sociedades arcaicas e dos processos psíquicos infantis. E, principalmente, esses são os dois crimes de Édipo! Então, a relação neuróticos-primitivos-crianças pode funcionar (LAPLANTINE, 1998).

Nesse sentido, Freud produz uma correspondência sutil e ao mesmo tempo perspicaz de alargamento da psicanálise, não se restringindo apenas ao campo do psicopatológico, mas o complexificando indo em direção ao cerne da constituição humana, que é exatamente, o que é o ser humano em suas correlações tanto em sociedades primitivas, quanto em civilizadas, o que tem de comum entre elas, o que favorece a patologia e qual a sua função dentro das relações sociais. Para escrever Totem e tabu, Freud explora um considerável material emprestado da história das religiões, da magia, das cerimônias arcaicas, mas inicialmente, e sobretudo, daquilo que, na época, desponta como o mais fascinante domínio da antropologia: o totemismo. Mas Freud não se limita a acumular e reagrupar documentos. Sua exigência é a de um fundamento, que permitiria unir a psicologia da criança, os processos psicopatológicos e a vida social dos “primitivos”. Freud Compreende que o objetivo da psicanálise é a universalidade da explicação proposta.

Com isso inaugura-se um novo método de pesquisa, onde encontra-se na área clínica material relevante ao esclarecimento de conteúdos culturais, como explicação para os mitos, as magias, religiões e a arte. Nesse sentido a metodologia Freudiana inclui em seu próprio embasamento as contribuição da antropologia. É uma metodologia que pode ser qualificada uma metodologia das correspondências e que, no campo das ciências humanas, é verdadeiramente pioneira. A ligação depreendida em Totem e tabu entre o tabu e a neurose obsessiva servirá de detector e de modelo epistemológico ao estabelecimento de toda uma série de outras relações: a neurose e a magia, a histeria e a obra de arte, a paranoia e a filosofia. Ou seja, o que Freud compreende por meio dos sintomas e dos mais individuais e subjetivos discursos de seus clientes remete-o aquilo que descobre, por outros caminhos, na história, na mitologia, na literatura, na religião, nos ritos, nos costumes e nas crenças. Em resumo, existem correspondências entre os processos que estão operando no psiquismo, que podem ser apreendidas a partir do procedimento  do clínico, e os materiais culturais recolhidos pelo etnólogo (LAPLANTINE, 1998).

FREUD E WUNDT

Temos de entender a concepção de Freud na criação de sua obra, para entendermos o desenvolvimento posterior, que desembocará nas relações com outras ciências, principalmente a antropologia e sociologia, lembrando que o mesmo nunca fez distinções de linhas de pensamento, sempre se atendo ao que fosse um fato concreto, os retomando e reformulando de modo a produzir um novo conhecimento. Enriquez (2005) descreve como Freud tinha interesse na junção da psicologia e a ciências sociais:

[…] ele sublinhava a originalidade da abordagem psicanalítica (a exploração dos processos inconscientes e individuais com a finalidade de tratamento das neuroses) e as contribuições que esta nova perspectiva científica (e que renovam a própria concepção de ciência) poderiam oferecer às ciências sociais; com o inconsciente desempenhando um papel quase sempre primordial e, de todo modo, importante na totalidade das condutas humanas. Mais tarde, em seus textos ditos antropológicos ou sociológicos, de “Totem e tabu” (1913[1912-13]/1996) a “Moisés e o monoteísmo” (1939[1934-38]/1996), ele se empenhará em distinguir as origens e as transformações do laço social.(ENRIQUEZ, 2005, p. 154).

No livro da “Psicologia das massas e análise do eu” (1921) Freud diz:

Algo mais está invariavelmente envolvido na vida mental do indivíduo, como um modelo, um objeto, um auxiliar, um oponente, de maneira que, desde o começo, a psicologia individual, nesse sentido ampliado, mas inteiramente justificável das palavras, é, ao mesmo tempo, também psicologia social. (FREUD, 1996/1921, p.81).

Nessa via, nos parece que, para entender o ser humano, é uma impossibilidade se não entendermos o grupo. O que é denotado também pelo psicólogo Siegmund Heinz Foulkes (1898-1976) que dirá que o sujeito é “o elo de uma longa corrente” (1978, p.156).

Vimos até aqui, que ocorre uma inclusão de perspectiva no pensamento Freudiano, se há a necessidade de sair do sujeito para compreende-lo numa dinâmica, ocorre como corolário a descentralização de uma concepção naturalista, citando Foucault:

[…] A importância histórica de Freud vem, sem dúvida, da impureza mesma de seus conceitos: foi no interior do sistema freudiano que se produziu essa reviravolta da psicologia; foi no decorrer da reflexão freudiana que a análise causal transformou-se em gênese das significações, que a evolução cede seu lugar à história, e que o apelo à natureza é substituído pela exigência de analisar o meio cultural. (FOUCAULT, 1999, p.129-30).

Dessa forma a psicanálise, sai de um campo natural, daquilo que Freud havia criado no  “Projeto para uma psicologia científica”, isto é, naquilo que ele queria fazer “[…] estruturar uma psicologia que seja uma ciência natural” (FREUD, 1996/1895, p.395). Indo em direção a um novo modo de se pensar o psiquismo e a realidade social, fornecendo propriedades práticas a outras ciências, inclusive a antropologia, Schaden diz:

Antes da psicanálise, não havia trabalhos sistemáticos sobre a situação social e fenômenos psíquicos dos imaturos em sociedades primitivas. Com o advento dessa teoria e o concomitante estabelecimento de uma compreensão mais satisfatória da relatividade cultural sobre a base do configuracionismo, começam os antropólogos, sobretudo nos·Estados Unidos, a observar os processos de educação infantil em diferentes sociedades tribais. Essa inovação vinha de encontro a uma necessidade sempre sentida pela Antropologia norte-americana: a de firmar o seu status pela colaboração em alguma tarefa de ordem prática. Compreende-se, pois, que, uma vez encontrada, para a psicanálise, a ponte de ligação entre o psíquico-individual e o sociocultural ou seja , de um – lado, as experiências infantis padronizadas e, do outro, um tipo correspondente de personalidade -, não tardasse a surgir, como lembra Erasmus, a transposição de uma Psicologia terapêutica para o plano da terapêutica social. Era a primeira vez que se oferecia ao antropólogo oportunidade para ,abandonar a torre de marfim e apresentar-se com intuitos de aplicação. São propósitos manifestos, por exemplo, nas contribuições de Margaret Mead, notável propugnadora da Antropologia aplicada nos Estados Unidos. Tal é a orientação prática aí desenvolvida que·Linton chega a proclamar em 1940 que a Psicologia e a Antropologia têm por finalidade comum ”o controle e a direção consciente da existência humana.’ (SCHADEN, 1956, p.147).

Freud fez diversas contribuições no sentido de constituir uma teoria, Monique Augras (1995) revela que o autor mais produziu do que emprestou de outros antropólogos, fazendo algo sui generis na área. O valor esta exatamente em constituir algo novo, permitindo o intercambio de diversas áreas. Na atualidade vemos polarizações no campo do saber, com diversas disciplinas cada vez mais, numa completa isonomia. Quem poderia imaginar nos tempos de hoje, uma relação entre psicologia experimental e psicanálise? Pois bem, o que nos parece é que Freud rondava por todos os campos do saber e que para constituir sua relação com a antropologia se utilizou até disto, isto é, da psicologia experimental de Wundt (1832-1920), afirmativas como esta “a psicanálise é uma parte da psicologia” (FREUD, 1996[1927], p.286) e que Wundt seria a “primeira ponte ligando a psicologia experimental à psicanálise” (FREUD, 1996[1914], p.39) são variadas quando Freud faz a exposição do início da psicanálise e suas relações, diz até que, sua ciência seria a “liga” entre a psiquiatria e os ramos da ciências mentais (FREUD, 1996[1926], p. 307) , segundo Augras:

Freud publicou a série de quatro ensaios, que depois reuniu sob esse título, na revista Imago, estimulado – segundo diz – pelos trabalhos da “escola de Zurique” (leia-se Jung) e pela obra de Wundt. (AUGRAS, 1995, p.4).

O pai da psicanálise faz algumas adequações dos conceitos experimentais à psicanálise, objetivando obter uma maior precisão, mas percebe uma dicotomia em sua época  tentando supera-la:

Wundt quer explicar a psicologia social pela psicologia individual (não analítica), e Jung pretende fazer o contrário, aplicando material derivado da psicologia social aos problemas da psicologia individual. Freud tenciona oferecer aos antropólogos um caminho para superar dissensões, por meio de uma hipótese psicanalítica que permita unificar as informações contraditórias e até mesmo abrir novos rumos de compreensão do homem. (ibid, p.5).

Ideias antípodas se tornavam um problema a ser resolvido e não negado, não obstante, no presente, se torna um caos produzir conhecimento, sem que as diversas abordagens imiscua o próprio produzir. A cada instante nasce uma nova “ciência”, ou um “olhar antropológico”. É muito comum nos tempos atuais tal polarização, o “saber” de antes, que poderia ser elaborado por diversas áreas com coerência epistemológica, tomando emprestado de diversos campos, hoje é impensável. Temos cada indivíduo-pesquisador com uma nova ciência ou descoberta metodológica, mas isto não se restringe apenas à psicologia ou antropologia, é de todas áreas (dentro das humanas).

O processo de conhecimento, no sentido de uma ciência rigorosa, nos parece ultrapassado de acordo com o discurso atual, que diz: A ciência é “relativa”, a realidade está na “percepção do sujeito” e a verdade é o “fenômeno ocorrido”, assim as grandes estruturas de pensamento se perdem. A ciência psicanalítica só pôde se estabelecer em meados do século XX, exatamente pelas descobertas dos determinantes psíquicos, a patologia denominada de histeria, é menos encontrada hoje do que antes, mas o seu funcionamento psíquico é o mesmo, a lógica da libido, as instancias psíquicas, a catexia objetal e outros mecanismos psicológicos são vigentes, pois os mesmos, são constituintes vida biológica e psíquica do seres humanos.

Aquilo que Wundt produzia à seu modo e que denominou de psicologia experimental, hoje chamamos de psicobiologia, é interessante como Freud intercalou concepções, não apenas suas, mas também de seus alunos, como Carl G. Jung (1875-1961), Ferenczi (1873-1933), Melanie Klein (1882-1960) e outros “Freud incorpora grande número de referências tiradas da jovem geração dos psicanalistas seus discípulos, tais como Ferenczi, Alexander, Reik, M. Klein” (AUGRAS, 1995, p.1).

Vejamos, por exemplo o modo pelo qual Freud reelaborou o conceito de projeção:

[…] o conceito de projeção, que para Wundt era necessariamente ligado a sentimentos negativos de medo e de perigo, e que Freud amplia para afirmar-lhe a ambivalência. A característica do tabu é precisamente designar um objeto como sendo, ao mesmo tempo, temido e desejável. Partindo de Wundt, Freud opõe-se a certas concepções do mestre de Leipzig, para logo depois, em vigorosa síntese, recuperar o conceito de projeção, estabelecendo a analogia entre o processo social e os mecanismos de defesa individual. Introduzindo o desejo como elemento formador do tabu, Freud, no entanto, dá outra dimensão à projeção wundtiana, com a incorporação da motivação sexual. (ibid, p.6).

Freud desenvolve um conceito reelaborando-o, a partir de um já existente, o contraste é nítido, Wundt um psicólogo experimental e Freud um “subjetivista” igual é denominado pela crítica atual, embora ambos sendo de campos diferentes, isto não era empecilho para novas descobertas. É importante ressaltar que, o que havia de comum entre ambos era o objeto de pesquisa, ou seja, os “processos mentais”.

No entanto, que nem dito por Augras (1995) sabe-se hoje, que na época houve um reacionarismo tremendo dentro da antropologia e psicanálise, por conta das inferências propostas, mas que tempo depois, foi aceito de modo substancial por maior parte dos intelectuais “É curioso observar quantos esforços foram feitos, tanto por antropólogos quanto por psicanalistas, para, ao mesmo tempo, considerar Totem e tabu mera fábula, e resgatar contudo todas as suas proposições” (AUGRAS, p.4).

Mesmo assim temos dificuldades com modelos universais, que nem dito antes, sobre as diferentes abordagens, ainda hoje se torna difícil de dialogar com os outros saberes, pois “Ocorre, no entanto, que a maioria dos antropólogos contemporâneos duvida da existência de modelos genéricos e intemporais” (AUGRAS, p.4).

Tal impasse não impede que novas conceituações e reformulações sejam feitas e que principalmente a exploração e pesquisa empírica seja atualizada, mas sem perder o essencial, que é a generalização encontrada nos objetos singulares.

CONSIDERAÇÕES FINAIS.

Ao considerar as relações entre antropologia e psicanálise, o que não é tarefa fácil, até mesmo por conta dos diversos autores que se encontra no campo hoje, é importante compreender que esta relação se constituiu de modo abrangente, a própria obra de Freud tem inúmeras referencias, por que o conhecimento se constitui desse modo, a partir das assertivas anteriores, se faz afirmativas posteriores, o que é importante tanto para privilegiar aqueles que já fizeram as descobertas e até mesmo, para impedir a produção desnecessária de algo que já existe.

O que se pretendeu demonstrar é como Freud dialogou com um outro campo da psicologia, que é a experimental, onde conceitos de “estímulos” foram alterados para “[…] “formação reativa” pois ele tem consciência de opor-se na realidade a ambas as correntes” (AUGRAS, 1995, p. 4).

Além disso, percebemos que o conceito de projeção foi reelaborado, obtendo um novo sentido e incorporando novas descobertas com relação a constituição do ser humano. Tal relação “simbiótica” e fecunda, deveria ser resgatada até mesmo para entendermos o que se passa no campo da antropologia, que se altera o padrão de conhecer de “análise do fenômeno” como um meio de descobrir outros, para “um olhar sobre o fenômeno”, nesse sentido não se extrai conteúdo do material coletado, mas apenas “olha-se” para ele, ou seja, se descreve o objeto. O que complica mais ainda, pois confunde-se “descrição” com “teoria”, desembocando na “crise de paradigmas explicativos”. Isto é evidente, de modo que segundo Husserl (1859-1938):

[…] pensava que esse esquema que distingue ciência descritiva e ciência explicativa-teórica – precisado por Brentano e Dilthey no que se refere à psicologia – não encontra aplicação efetiva. Pois, partindo da crítica do prejulgamento naturalista e fisicista que era a base de toda psicologia de seu tempo, Husserl apontou para o conceito de experiência, que abrange os aspectos anímicos e somáticos do vivido humano. E, quanto à natureza da interpretação, ponderou que a distinção entre disciplinas descritivas e explicativas torna-as dicotômicas, não levando em conta o fundamento ôntico que as une. (Husserl 1976[1954], p. 250-1 apud RAFFAELLI, 2002, p. 4).

Outro pensamento explícito sobre a temática, se encontra em Claude Lévi-Strauss (1908-2009:

[…] para observar, é preciso estar de fora. Pode-se – e é uma opção – preferir (mas isso é possível?) fundir-se na comunidade com a qual partilhamos a existência, identificar-se com ela. O conhecimento está do lado de lá. Então o conhecimento só nasce do distanciamento entre sujeito e objeto? É um aspecto. Num segundo momento, nos empenharemos em juntá-los. Não existiria conhecimento possível se não distinguíssemos os dois momentos; mas a originalidade da pesquisa etnográfica consiste nesse incessante vaivém. (STRAUSS, 2005, p. 218).

Portanto, mesmo havendo dissidência no campo do saber, que por um lado é importante, igual foi demonstrado anteriormente (Freud reconstruindo conceitos de outros autores e produzindo novos) por outro acaba, tornando-se infrutífero, pelo fato de que, quando estabelecemos não os fatos gerais como ciência (e estes sendo constituintes de uma teoria), abrimos espaços para especulações sem embasamento etnográfico geral e que este daria numa etnologia e por fim na antropologia. Quando não feito, infundimos na operação do singular ao universal ou seja, utilizamos um caso e generalizamos e não ao contrário que seria o apropriado, como de fato fez Freud:

Ouvimos com frequência a afirmação de que as ciências devem ser estruturadas em conceitos básicos claros e bem definidos. De fato, nenhuma ciência, nem mesmo a mais exata, começa com tais definições. O verdadeiro início da atividade científica consiste antes na descrição dos fenômenos, passando então a seu agrupamento, sua classificação e sua correlação. (FREUD, 1996/1915, p. 137).

O processo é progressivo, indo do menor ao maior, neste caso teríamos de ter, diversas pesquisas singulares que formaria um material etnográfico, encontrando as semelhanças o (essencial), poderíamos desenvolver uma conclusão e portanto uma teoria, tendo esta a capacidade de ser então, generalizada, já que foi comprovado a priori sua validade científica por meio dos objetos singulares, que contém generalidades em si:

Só depois de uma investigação mais completa do campo de observação, somos capazes de formular seus conceitos científicos básicos com exatidão progressivamente maior, modificando-os de forma a se tornarem úteis e coerentes numa vasta área. Então, na realidade, talvez tenha chegado o momento de confiná-los em definições. O avanço do conhecimento, contudo, não tolera qualquer rigidez, inclusive em se tratando de definições. (FREUD, 1996/1915, p. 137).

Freud quer desvendar o que tem por de trás do aparente, pois este alem de mostrar, esconde “A psicanálise não quer outra coisa que descobrir correlações, levando aquilo que é patente ao que é escondido” (FREUD, 1996/1913, p. 138).

No mais, poderíamos dizer que a legitimidade do campo antropológico se perde quando ocorre a proliferação de conhecimentos sem uma restrita metodologia de pesquisa, e que o resgate das parcerias antigas como Freud e Wundt como modelo metodológico se faz um imperativo, não para copiá-los, pois o objeto de pesquisa de ambos se alterou ao passar de 100 anos, mas o seu modo de fazer ciência, privilegiando não o status da pesquisa singular de “um olhar” ou “representação do objeto” mas sim a validade científica da descoberta em termos gerais, talvez isto seja uma possibilidade de solução de nosso contratempo.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.

AUGRAS, Monique. As fontes explícitas da obra antropológica de Freud. Arquivos Brasileiros de Psicologia, v. 34, n. 2, p. 3-15, 1995.

ENRIQUEZ, Eugène. Psicanálise e ciências sociais. Ágora (Rio de Janeiro), v. 8, n. 2, p. 153-174, 2005.

FREUD, S. Projeto Para Uma Psicologia Científica. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1895/1996).

FREUD, S. Totem e tabu. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1913/1996).

FREUD, S. A História do Movimento Psicanalítico. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1914/1996).

FREUD, S. A pulsão e seus destinos. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1915/1996).

FREUD, S. Psicologia de Grupo e Análise do Eu. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1921/1996).

FREUD, S. Psicanálise. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1926/1996).

FREUD, S. Pós-Escrito – A Questão da Análise Leiga. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro: Imago, (1927/1996).

FOUCAULT, M. Problematização do sujeito: psicologia, psiquiatria e psicanálise. (V.Ribeiro, Trad.). Rio de Janeiro: Forense Universitária, (1999).

FOULKES, Siegmund Heinz. Therapeutic group analysis. Karnac Books, 1978.

LAPLANTINE, François. Aprender etnopsiquiatria. Editora brasiliense, 1998.

LÉVI-STRAUSS, Claude; ERIBON, Didier. De perto e de longe. Nova Fronteira, 1990.

RAFFAELLI, Rafael. Vínculos entre psicanálise e fenomenologia. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar em Ciências Humanas, v. 3, n. 28, p. 2-14, 2002.

SCHADEN, Egon. A Antropologia em face da Psicanálise. Revista de Antropologia, v. 4, n. 2, p. 143-150, 1956.

[1] SANTOS, Alan Ferreira dos – Graduando em psicologia pela Universidade Paulista. Email: autor@nucleodoconhecimento.com.br

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