Fatores que influenciam na decisão de escolha da via de parto: Revisão integrativa da literatura

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/decisao-de-escolha
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CONTEÚDO

REVISÃO INTEGRATIVA

SILVA, Jefferson Ricardo da [1], SOUZA, Danila Pimentel de [2], MELO, Pollianne Correia de [3], LIMA, Thaís Santos de [4], RODRIGUES, Patricia Maria da Silva [5], SANTOS, Jirliane Martins dos [6], VIEIRA, Maraysa Jéssyca de Oliveira [7], SILVA, Andrey Ferreira da [8]

SILVA, Jefferson Ricardo da. Et al. Fatores que influenciam na decisão de escolha da via de parto: Revisão integrativa da literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 18, pp. 61-76. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/decisao-de-escolha, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/decisao-de-escolha

RESUMO

Introdução: Durante o período gestacional a mulher passa por uma gama de sentimentos envolvendo seus medos, dúvidas e anseios sobre a escolha da via de parto ideal. Além dos sentimentos presentes nessa fase, diversos fatores podem influenciar a mulher durante a sua decisão pela escolha da via de parto. Objetivo: Identificar os fatores que influenciam a decisão da gestante na escolha da via de parto. Metodologia: Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada no período de março a julho de 2020, utilizando-se para busca e seleção dos estudos as bases de dados LILACS, SciELO e BDENF, artigos em português, inglês e espanhol no período de junho de 2015 a junho de 2020, através das palavras-chave: “Parto Normal”, “Cesárea” e “Gestantes”, de acordo com o DeCS. Resultados: Encontrou-se 14 artigos que apontam seis fatores que comumente influenciam a gestante na decisão de escolha da via de parto, sendo eles: Medo de sentir dor no parto, falta de informação sobre as vias de parto, experiência anterior, informações nas mídias sociais, influência familiar e médica. Conclusão: Constatou-se, neste estudo, que as gestantes apresentam preferência pelo parto normal, porém, ao estarem expostas aos fatores: medo, convívio familiar/social, experiência anterior, falta de informações, interferência médica  e a as mídias digitais, acabam por escolher  a cesariana, o que acarreta em um aumento significativo no número de procedimentos desnecessários em escala mundial.

Palavras-Chave: Parto Normal, cesárea, gestantes, tomada de decisões.

1. INTRODUÇÃO

O processo de gestar e parir é uma vivência única que marca a vida da mulher em um processo de transição para um status de mãe, envolvendo valores sociais, culturais, afetivos e emocionais. Durante o período gestacional a mulher passa por uma gama de sentimentos envolvendo seus medos, dúvidas e anseios sobre o parto ideal. Além dos sentimentos presentes nessa fase, diversos fatores podem influenciar a mulher durante a sua decisão pela escolha da via de parto (PINHEIRO; BITTAR, 2012).

As concepções sobre parto e nascimento sofreram mudanças significativas no decorrer dos séculos. O avanço científico e tecnológico na assistência prestada à parturiente, influenciou diretamente na visão acerca do parto natural e do cenário parturitivo, deixando o parto de ser visto como um evento fisiológico, para um acontecimento tecnocrático, que necessita de sucessivas intervenções médicas e cirúrgicas. Com o deslocamento do parto e nascimento para o cenário hospitalar, aumentou-se vertiginosamente o número de operações cesarianas. Sendo tal procedimento caracterizado como uma opção, em casos especiais (SANTANA; LAHM; SANTOS, 2015; COPELLI et al., 2015).

Nessa perspectiva, o que deveria ser visto como uma intervenção para a proteção da saúde da gestante e do bebê em necessidades especiais, passou a ser caracterizado como um fator de risco de morbimortalidade materna e perinatal e, considerado como uma epidemia mundial. Diante disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS), frente ao excesso desenfreado de cesáreas realizadas no mundo, estabeleceu o documento internacional sobre as práticas recomendadas de assistência hospitalar ao parto, concretizando como uma de suas diretrizes uma taxa ideal de até 15% de cesáreas (FILHO; RISSIN, 2018).

Frente à cultura cesarista arraigada na sociedade e, por conseguinte,  ao baixo índice de parto natural praticado nos serviços de saúde, por decisão médica ou da gestante, tornou-se perceptível a preocupação da OMS sobre os altos índices de cesarianas praticadas sem indicação clínica em escala mundial, tornando-se imperioso interferir neste panorama, sendo assim, a partir do ano de 2018 foi efetuado pela OMS um estudo a respeito das taxas de cesáreas realizadas em todos os países, estabelecendo recomendações para redução do número de cesáreas sem indicação. Diante dos dados coletados no estudo, constatou-se que os índices de cesáreas na Europa atingiam uma taxa de 25% e nos Estados Unidos da América (EUA) 32%.  Quando comparado aos dados do Brasil em 2016, evidenciou-se que entre todos os países do mundo, o Brasil apresenta o segundo maior índice de cesariana, com a taxa de 55%, permanecendo atrás apenas da República Dominicana, que atingiu uma marca de 56% (WHO, 2018).

No Brasil, especificamente nas capitais da região Nordeste, de acordo com o registro de Procedimentos Hospitalares no SUS nos anos de 2016 a 2019 a taxa de cesárea mostrou-se acima dos valores recomendados pela OMS. Em relação aos partos normais registrados nas capitais da região Nordeste, observou-se que quatro capitais se destacaram, sendo elas: São Luís (76,3%), Recife (75,9%), Aracaju (74%) e Salvador (72,8%). Quando comparado com o número total de cesarianas registradas, três capitais tiveram os índices mais altos: Fortaleza (49,6%), Maceió (48,7%) e Teresina (43,5%) (Ministério da Saúde, 2020).

Apesar das proporções desiguais do parto normal e cesáreo em todo o mundo, salienta-se que a escolha pela via de parto pela gestante deve ser consciente e orientada e pode ser influenciada por fatores distintos, além da própria preferência e do quadro clínico apresentado pela mulher durante o período gestacional (FIGUEIREDO, 2010).

Visto a problemática em tela esta revisão teve como intuito responder ao seguinte questionamento: Quais os fatores que influenciam a decisão da gestante na escolha da via de parto? Desse modo, o presente estudo objetivou: identificar os fatores que influenciam a decisão da gestante na escolha da via de parto.

2. METODOLOGIA

Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, que permite buscar dados científicos produzidos, selecionar e analisar o conhecimento de pesquisas disponíveis sobre determinado tema em âmbito científico, compreendendo de maneira significativa o fenômeno analisado (CECILIO; OLIVEIRA, 2017). Segundo Souza, Silva e Carvalho (2010, p.104) os seguintes passos do método da revisão integrativa da literatura foram seguidos: 1 – escolha da temática a ser buscada; 2 – elaboração da pergunta de pesquisa; 3 – escolha da base de dados; 4 – escolha dos descritores; 5 – elaboração dos critérios de inclusão e exclusão; 6 – busca nas bases de dados; e 7 – Análise dos dados.

A escolha da temática deste estudo se baseia na identificação dos fatores que influenciam ou que podem influenciar as gestantes na escolha da via de parto. Diante disso, este estudo busca responder: Quais os fatores que influenciam a decisão da gestante na escolha da via de parto? A pesquisa ocorreu no período de março a julho de 2020, por meio da revisão de estudos indexados nas bases de dados: Literatura Latino-americana e do Caribe em Ciências da Saúde (LILACS), Scientific Electronic Library Online (SciELO) e na Base de dados em Enfermagem (BDENF).

Para realização da busca e seleção dos estudos, foram utilizados os seguintes Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “Parto Normal”, “Cesárea” e “Gestantes”. Durante a pesquisa, foram combinados os operadores booleanos “AND” e “OR”, com a intenção de que no mínimo um termo fosse encontrado na pesquisa. Os critérios de inclusão dos estudos foram: artigos em português, inglês e espanhol disponíveis na integra e gratuitos, publicados no período de junho de 2015 a junho de 2020. Foram excluídos: teses, dissertações e artigos duplicados.

Nesta busca, foram inicialmente encontrados 76 artigos científicos na base de dados LILACS, 85 na base de dados SciELO e 34 na base de dados BDENF, totalizando 195 artigos filtrados e potencialmente relevantes, destes estudos 16 foram excluídos por serem duplicados, resultando em 179 artigos para leitura exploratória dos títulos e resumos. Após leitura exploratória dos títulos e resumos, 146 artigos foram excluídos por não responderem a temática proposta e, então, selecionados 33 artigos que se enquadravam com os critérios de inclusão e que potencialmente respondia à questão deste estudo e, em seguida foram lidos integralmente. Após leitura analítica destes artigos, 14 foram selecionados como objeto de estudo, por apresentarem aspectos que respondiam à questão norteadora desta revisão (Figura 1).

Figura 1. Fluxograma de apresentação das etapas da Revisão Integrativa.

Fonte: Elaborado pelos autores, 2020.

3. RESULTADOS

Com base nos dados coletados nos estudos presentes no (Quadro 1), observou-se que 6 fatores apresentaram-se como os mais prevalentes como fator de influência na decisão de escolha da via de parto da gestante, sendo: Medo de sentir dor no parto, falta de informação sobre as vias de parto, experiência anterior, busca de informações na internet, influência da família e médica. Os principais fatores de influência estão descritos no (Quadro 2).

Quadro 1. Matriz de síntese: apresentação das características dos artigos que constituem a revisão integrativa (N=14), Maceió-AL, Brasil, 2020.

Artigo

Periódico de Publicação

(ano)

 Título Autores Objetivo
Artigo 1

RECIIS – Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde

2015

A influência da web na tomada de decisão da grávida: rastreio pré-natal e tipo de parto FERRAZ, Marta; ALMEIDA, Ana Margarida; MATIAS, Alexandra. Compreender se uma utilizadora frequente da internet para buscas genéricas também o é para a procura de informação concreta sobre a gravidez/puerpério.
Artigo 2

Revista Gaúcha de Enfermagem

2015

Preferência e fatores associados ao tipo de parto entre puérperas de uma maternidade pública VALE, Luana Dantas et al. Identificar os fatores obstétricos e socioeconômicos que influenciam a preferência pelo tipo de parto.
Artigo 3

Revista Gaúcha de Enfermagem

2015

Escolha do tipo de parto: fatores relatados por puérperas NASCIMENTO, Raquel Ramos Pinto et al. Conhecer os fatores relatados por puérperas que concorreram na escolha do tipo de parto.
Artigo 4

Revista de Enfermagem do Centro Oeste Mineiro

2016

Fatores que influenciam na indicação da via de parto MATÃO, Maria Eliane Liégio, et al. Conhecer os fatores que influência na escolha da via de parto na perspectiva de gestantes, puérperas e médicos obstetras.
Artigo 5

Revista de Enfermagem da UFSM

2016

Preparo e percepções de gestantes sobre as vias de parto SANTOS, Cleidiane Lopes et al. Conhecer o preparo e as percepções de gestantes sobre as vias de parto.
Artigo 6

Revista de Pesquisa: Cuidado é Fundamental Online

2017

Fatores que influenciam a escolha do tipo de parto na percepção das puérperas FEITOSA, Rúbia Mara Maia, et al. Compreender, a partir da percepção das puérperas, os fatores que influenciam na escolha ao tipo de parto.
Artigo 7

Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil

2017

Fatores associados ao tipo de parto em hospitais públicos e privados no Brasil GUIMARÃES, Raphael Mendonça et al. Estimar a prevalência de cesáreas e fatores associados ao tipo de parto no Brasil.
Artigo 8

CuidArte Enfermagem

2017

Preferência de via de parto e experiência prévia de dores em puérperas atendidas em uma maternidade MAZONI, Simone Roque et al. Verificar a preferência de via de parto e a experiência prévia de dores de puérperas atendidas em uma maternidade.
Artigo 9

Revista Brasileira de Enfermagem

2018

Cada parto é uma história: processo de escolha da via de parto OLIVEIRA, Virgínia Junqueira; PENNA, Claudia Maria Mattos. Analisar os discursos sobre escolha da via de parto na perspectiva de mulheres e profissionais de saúde de uma rede pública.
Artigo 10

Escola Anna Nery

2018

Via de parto preferida por puérperas e suas motivações KOTTWITZ, Fernanda et al. Conhecer a via de parto preferida pelas puérperas e suas motivações.
Artigo 11

Revista Baiana de Enfermagem

2018

Aspectos que influenciam a tomada de decisão da mulher sobre o tipo de parto MARTINS, Andressa Paula de Castro et al. Conhecer os aspectos que influenciam na tomada de decisão sobre o tipo de parto, por gestantes no terceiro trimestre de gestação.
Artigo 12

Revista de Enfermagem UFPE

2018

Parto normal ou cesárea na adolescência: de quem é a decisão? MATOS, Greice Carvalho et al. Averiguar a participação da mulher na tomada de decisão durante os partos recorrentes na adolescência.
Artigo 13

Saúde em Debate

2019

Perfil das gestantes de alto risco e a cogestão da decisão sobre a via de parto entre médico e gestante FERNANDES, Juliana Azevedo; CAMPOS, Gastão Wagner de Souza; FRANCISCO, Priscila Maria Stolses Bergamo. Verificar e discutir aspectos relacionados ao cuidado compartilhado na decisão da via de parto durante o pré-natal especializado.
Artigo 14

Revista Brasileira de Enfermagem

2020

Fatores associados ao parto normal e cesárea em maternidades públicas e privadas: estudo transversal SILVA, Thales Philipe Rodrigues da et al. Investigar os fatores associados à via de nascimento em mulheres gestantes do município de Belo Horizonte.

Fonte: Elaborado pelos autores, 2020.

Quadro 2. Matriz síntese: Fatores que influenciam na decisão da escolha da via de parto, de acordo com os artigos incluídos na revisão integrativa (N=14), Maceió- AL, Brasil, 2020.

 Artigo Fatores de Influência
Artigo 1 Utilização da internet; Influência médica; Influência profissional; Influência da família/amigos.
Artigo 2 Melhor recuperação pós-parto; Medo de sentir dor no parto; Ocorrência de lesões vaginais; Influência profissional; Influência da família; Orientação sobre os riscos e benefícios dos tipos de parto no pré-natal.
Artigo 3 Influência da família; Experiência anterior; Informações via internet; Orientação sobre o tipo de parto no pré-natal.
Artigo 4 Influência da família e da sociedade; Medos e receios no parto; Condição socioeconômica.
Artigo 5 Medo de sentir dor no parto; Influência social; Experiência anterior; Melhor recuperação pós-parto; Orientação sobre a via de parto no pré-natal.
Artigo 6 Fatores socioculturais atribuindo para a formação de mitos, crenças e opiniões; Medo de sentir dor no parto; Falta de informações durante o pré-natal; Falta do direito de escolha; Influência profissional; Casualidade; Complicações na gestação.
Artigo 7 Falta de atenção humanizada no parto; Influência profissional.
Artigo 8 Experiência anterior; Medo de sentir dor no parto; Fatores pessoais, culturais e sociais; Melhor recuperação pós-parto; Anseio de complicações no parto; Influência médica; Ausência de informação sobre os tipos de parto no pré-natal.
Artigo 9 Medo de sentir dor no parto; Influência médica.
Artigo 10 Medo de sentir dor no parto; Melhor recuperação pós-parto; Experiência anterior; Parto mais seguro.
Artigo 11 Melhor recuperação pós-parto; Influência médica; Ausência de informações sobre o tipo de parto; Medo de sentir dor no parto; Falta de conhecimento sobre os seus direitos; Experiência anterior; Influência social; Ausência de atendimento humanizado.
Artigo 12 Fatores culturais, pessoais e sociais; Influência das mídias digitais; Insegurança e medo de sentir dor no parto; Falta de conhecimento sobre os tipos de parto; Ausência de orientação no pré-natal.
Artigo 13 Decisão médica; Decisão compartilhada entre médico e gestante.
Artigo 14 Financiamento no setor privado; Ser primigesta; Idade mais elevada; Ausência de acompanhante no parto.

Fonte: Elaborado pelos autores, 2020.

4. DISCUSSÃO

A mulher ao descobrir a gravidez passa por uma gama de sentimentos que podem ser expressos por várias emoções consideradas positivas e negativas durante a sua fase gestacional, como surpresa, felicidade e medos. Visto que o planejamento de uma gestação pode não acontecer em muitos casos, e a surpresa ao saber a gravidez pode resultar em emoções negativas envolvendo insegurança, arrependimentos, culpa e solidão, no qual muitas vezes podem ser desencadeados pela ausência de apoio do companheiro, do seio familiar e julgamentos advindos da sociedade (LEITE et al., 2014; GOMES, et al., 2015).

É possível perceber os sentimentos de preocupação através da fala de uma gestante a seguir:

Fiquei preocupada, porque eu não sabia como ele iria reagir [pai da criança], ao mesmo o tempo a minha família: se ele iria me acolher ou a minha família? Eu queria o acolhimento de alguma pessoa no momento. (Agoniada) (LEITE et al., 2014, p.119).

Na fase de descoberta da gravidez nota-se o surgimento inicial de fatores relacionados principalmente a aceitação da gestante, da família e do companheiro no decorrer da gestação.

Diante de uma gama de sentimentos iniciais, a gestante inicia sua busca por informações sobre a sua saúde e a saúde do bebê, estabelecendo relações sobre as características ideias para o parto. Em consequência disso, a gestante busca por informações externas, englobando a vivência de familiares, experiências anteriores relacionada ao tipo de parto, nas consultas de pré-natal ou até mesmo por pesquisas na internet, visto que as mesmas ainda possuem poucas informações sobre os benefícios e malefícios dos tipos de parto, caracterizado principalmente pelas primíparas ou gestantes adolescentes (SANTANA; LAHM; SANTOS, 2015; FERRAZ; ALMEIDA; MATIAS, 2015).

Segundo Nascimento et al. (2015) as gestantes mesmo obtendo poucas informações a respeito do parto, destacam uma preferência pelo parto natural como um fator de escolha própria, porém, a existência do medo de sentir dor ou ocorrer problemas no momento do parto, acaba desencadeando a escolha pela cesariana. Além disso, a falta de informações e de acompanhante no momento do parto pode acarretar a ocorrência de influência médica na decisão de escolha, limitando sua autonomia no momento do parto (FERNANDES; CAMPOS; FRANCISCO, 2019). Como é retratado a decisão médica pela fala de seis gestantes a seguir.

A decisão de cesárea foi do médico […]. Esperava não ter complicação no parto. Queria que tivesse sido normal […]. Pelo bem dela (neném) me submeti à cesárea. Meu marido e minha mãe falaram que, por ela, valia tudo (P1, P2, P3, P6, P11, P17) (NASCIMENTO et al., 2015, p.122)

A ocorrência do aumento de cesáreas sem indicação, motivadas por médicos pode estar associado ao incentivo de remuneração ao parto, estabelecido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM), no qual a remuneração seria um incentivo para  acompanhamento do pré-natal e o estabelecimento do parto normal, porém, essa situação é totalmente contraria quando é chegada a hora do parto, principalmente nos casos de gestantes que possuem convênio com setor privado, que apresentam idade elevada ou são primigestas (FREITAS et al., 2015).

Diante disso, é imprescindível que a gestante tenha acesso a todas as informações necessárias referente às complicações associadas durante o período gestacional, além de todas as informações relacionadas ao parto normal e à cesariana, e principalmente os serviços de saúde que estão disponíveis para assisti-las em casos de dúvidas e que possam tranquilizar seus medos e anseios, assim, tornando-as seguras e confiantes neste período. Caso contrário, o período gestacional pode ser influenciado negativamente, interferindo na confiança e na saúde mental da gestante (GUIMARÃES et al., 2018).

Assim, ressalta-se a importância do acompanhamento do pré-natal na atenção primária como um instrumento de grande relevância para uma assistência qualificada, visto que a efetivação do pré-natal com início precoce pode auxiliar na identificação e prevenção de possíveis agravos que podem surgir na gestação, além do repasse de informações e orientações sobre as mudanças corporais no decorrer da gestação e dos riscos e benefícios do parto normal e cesáreo.

Nessa perspectiva, o engajamento entre profissional e gestante na fase do pré-natal pode fortalecer a sua autonomia e na escolha da via de parto desejada, através de um ambiente acolhedor e humanizado. No que diz respeito ao fornecimento de informações nesta etapa, a gestante pode se preparar para o momento do parto por meio de estratégias e técnicas que possam proporcionar conforto, alívio e segurança caso a gestante planeje o parto normal. Dessa maneira, a gestante pode sentir-se mais preparada e informada sobre o exercício de sua autonomia na escolha do parto na ausência de indicações reais para cesariana, preservando sua preferência em relação aos fatores que podem influenciar na sua decisão (GUEDES et al., 2016).

Com a compreensão dos seus direitos e as informações necessárias sobre as vias de parto, o número exorbitante do número de cesáreas e de violências obstétricas referentes as agressões verbais, físicas e psicológicas no trabalho de parto poderia ser reduzido, estabelecendo prioridade para o parto normal e humanizado como primeira escolha nos serviços de saúde, excetuando-se os quadros de gestação de risco, gerando menos riscos e traumas psicológicos para as primigestas no parto e pós-parto, além da sua rápida recuperação (ZANARDO et al., 2017).

Por outro lado, as políticas públicas devem ser mais rígidas a respeito das taxas inversas das vias de parto, e os profissionais que atuam no acompanhamento do pré-natal devem além de realizar os controles de bem-estar materno-fetal, sanar todas as dúvidas para desmitificar o pensando de mulheres que possuem melhores condições socioeconômicas, envolvendo o parto cesáreo como um produto de consumo que pode está disponível no momento desejado, simplesmente para satisfazer seu desejo de não sentir incômodos presentes no trabalho de parto (GUIMARÃES et al., 2017).

Dessa forma, o parto na vida de uma mulher será um momento único, positivo e feliz, que é o que se espera dessa vivência, e poderá influenciar positivamente na sua relação com o bebê, no pós-parto e a longo prazo na decisão de escolha acerca da via de parto em futuras gestações, ou até mesmo influenciar outras mulheres que possam a vir buscar respaldo de informações sobre experiência de parto.

5. CONCLUSÃO

Evidenciou-se, neste estudo, que as gestantes apresentam preferência na escolha do parto normal, porém, estão expostas a fatores que podem predispor influências na escolha da via de parto antes, durante e após a gestação, a citar: o  medo, convívio familiar/social, experiência anterior, falta de informações, indicação médica ou até mesmo a utilização das mídias digitais, acarretando na escolha da cesariana, e consequentemente no aumento significativo no número de procedimentos desnecessários em escala mundial, gerando preocupações no que diz respeito aos índices de cesarianas além dos limites preconizados pela OMS.

Observou-se também que o repasse de informações e orientações durante o pré-natal na rede básica de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS), pode minimizar o aumento de cesáreas sem indicação clínica, uma vez que suas dúvidas, medos e anseios podem ser minimizados no tocante as suas inseguranças a respeito do parto normal, gerando, assim, confiança e autonomia para escolha do parto, tornando-as protagonistas de uma experiência única na sua vida, frente aos impasses ocasionados por influências internas e externas do seu seio familiar.

É relevante frisar, que além do investimento e controle por parte das instituições gestoras e do estímulo à divulgação e esclarecimento sobre os benefícios, riscos e tudo que tange o parto normal e a cesariana. É imperioso que os profissionais e os serviços que atendem as parturientes ofereçam assistência qualificada, baseada em evidências cientificas e humanizada – que respeite a autonomia e o protagonismo da mulher – para que a parturiente e seu(sua) acompanhante tenham uma vivência positiva de trabalho de parto, parto e nascimento, a partir de um parto normal (livre de intervenções desnecessárias) e não de um parto vaginal (que considera apenas a passagem do feto pela vagina) mas que perde o sentido da normalidade, visto a cascata de intervenções e a desassistência imposta.

Espera-se que este estudo possa contribuir com novas pesquisas referentes a essa temática em âmbito acadêmico e científico, com ênfase na assistência qualificada no pré-natal, parto e nascimento e na atuação por parte dos profissionais de saúde, gestores e sociedade na mudança da cultura cesarista, da retomada do protagonismo da mulher, da fisiologia do parto e da compreensão de que esse processo é único, transformador e familiar, que pode repercuti positiva e negativamente na vida da mulher e da sua família, portanto deve ser escolhido de forma livre e consciente.

REFERÊNCIAS

CECILIO, Hellen Pollyanna Mantelo; OLIVEIRA, Denize Cristina. Modelos de revisão integrativa: discussão na pesquisa em Enfermagem. Atas CIAIQ2017, v.2, p. 764-772, 2017.

COPELLI, F. H. S. et al. Fatores determinantes para a preferência da mulher pela cesariana. Texto & Contexto – Enfermagem, Florianópolis, v.24, n.2, p.336-343, Apr./June 2015.

FERNANDES, J. A.; CAMPOS, G. W. S.; FRANCISCO, P. M. S. B. Perfil das gestantes de alto risco e a cogestão da decisão sobre a via de parto entre médico e gestante. Saúde em Debate, Rio de Janeiro, v. 43, n. 121, p. 406-416, abr./jun. 2019.

FERRAZ, M.; ALMEIDA, A. M.; MATIAS, A. A influência da web na tomada de decisão da grávida: rastreio pré-natal e tipo de parto. Revista Eletrônica de Comunicação Informação & Inovação em Saúde, v. 9, n. 4, p. 1-13, out./dez. 2015.

FIGUEIREDO, Nathália Stela Visoná. Fatores culturais determinantes da escolha da via de parto por gestantes. HU Revista, Juiz de Fora, v.36, n.4, p.296-306, out./dez. 2010.

FILHO, Malaquias Batista; RISSIN, Anete. A OMS e a epidemia de cesarianas. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, v.18, n.1, p. 5-6, Jan./Mar. 2018.

FREITAS, Paulo Fontoura et al. O parecer do Conselho Federal de Medicina, o incentivo à remuneração ao parto e as taxas de cesariana no Brasil. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 31, n. 9, p. 1839-1855, set. 2015.

GOMES, Aline Grill et al. Expectativas e sentimentos de gestantes solteiras em relação aos seus bebês. Temas em Psicologia, Ribeirão Preto, v. 23, n. 2, p. 399-411, jun. 2015.

GUEDES, Gerline Wanderley et al. CONHECIMENTOS DE GESTANTES QUANTO AOS BENEFÍCIOS DO PARTO NORMAL NA CONSULTA PRÉ-NATAL. Revista de Enfermagem UFPE On Line, Recife, v. 10, n. 10, p. 3860-3867, out. 2016.

GUIMARÃES, Raphael Mendonça et al. Fatores associados ao parto cesárea nos sistemas público e privado de atenção à saúde. Revista Brasileira de Saúde Materno Infantil, Recife, v.17, n.3, p. 581-590, July./Sept. 2017.

GUIMARÃES, Wilderi Sidney Gonçalves et al. Acesso e qualidade da atenção pré-natal na Estratégia Saúde da Família: infraestrutura, cuidado e gestão. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, v. 34, n. 5, p. 1-13, 2018.

LEITE, Mirlane Gondim et al. Sentimentos advindos da maternidade: revelações de um grupo de gestantes. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 19, n. 1, p. 115-124, jan./mar. 2014.

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MOTHER, David et al. Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses: The PRISMA Statement.  PLoS Medicine, v.6, n.7, p.1-6, July. 2009.

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PINHEIRO, Bruna Cardoso; BITTAR, Cléria Maria Lobo. Percepções, expectativas e conhecimentos sobre o parto normal: relatos de experiência de parturientes e dos profissionais de saúde. Aletheia. Canoas, v.1, n.37, p.212-227, jan./abr. 2012.

SANTANA, Fernando Alves; LAHM, Janaína Verônica; SANTOS, Reginaldo Passoni dos. Fatores que influenciam a gestante na escolha do tipo de parto. Revista da Faculdade de Ciências Médicas de Sorocaba, [S.l.], v. 17, n. 3, p.123-127, set. 2015.

SOUZA, Marcela Tavares; SILVA, Michelly Dias; CARVALHO, Rachel. Revisão integrativa: o que é e como fazer. Einstein, São Paulo, v.8, n.1, p.102-106, Jan/Mar. 2010.

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ZANARDO, Gabriela Lemos de Pinho et al. VIOLÊNCIA OBSTÉTRICA NO BRASIL: UMA REVISÃO NARRATIVA. Psicologia & Sociedade, v. 29, p. 1-11, 2017.

[1] Graduando em Enfermagem.

[2] Graduanda em Enfermagem.

[3] Graduanda em Enfermagem.

[4] Graduanda em Enfermagem.

[5] Mestra em Enfermagem. Especialista em Obstetrícia.

[6] Mestre em Enfermagem.

[7] Mestrado em Enfermagem. Residência de Enfermagem em Obstetrícia.

[8] Orientador. Doutor em Enfermagem.

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

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