A depressão na perspectiva da psicanálise

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ARTIGO ORIGINAL

FERREIRA, Florência Cavalcante de Sousa [1]

FERREIRA, Florência Cavalcante de Sousa. A depressão na perspectiva da psicanálise. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 12, Vol. 02, pp. 106-117. Dezembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/psicanalise

RESUMO

O presente artigo busca discutir os aspectos históricos e os pressupostos teóricos da depressão, tendo como objetivo: compreender o fenômeno depressivo a partir de uma perspectiva psicanalítica. Esta pesquisa é uma análise bibliográfica, de variável qualitativa e elaborada a partir da análise de estudos publicados sobre o tema no período entre 2010 e 2020. A coleta de dados foi realizada a partir da pergunta norteadora: como a depressão é abordada pela psicanálise? Em seguida, foram pesquisadas diversas fontes, como, por exemplo: livros, capítulos de livros, artigos científicos, publicações em revistas e periódicos na base de dados da Scielo, Periódicos da CAPES e BVS. Após a coleta de dados, foi feita a seleção de estudos, a leitura analítica e a redação final do texto. O estudo demonstrou que, a psicanálise aborda a depressão como um fenômeno psicossocial, considerando a forma como o sujeito opera frente as situações coletivas como objeto central para a compreensão do transtorno. Portanto, por se tratar de um tema que requer atualização constante, mais pesquisas sobre a depressão se tornam necessárias para otimizar as discussões em torno do assunto.

Palavras-chave: Depressão, melancolia, psicanálise, Freud, Lacan.

1. INTRODUÇÃO

Atualmente a depressão tem se tornado um fenômeno bastante significativo dentro do contexto das psicopatologias e ganhando espaço nas discussões acadêmicas e nas pesquisas de especialistas no assunto. Esse destaque mostra o quanto a depressão está presente na sociedade atual, inclusive na linguagem do senso comum.

Segundo Campos (2016), a depressão encontra-se na pauta do dia, tanto nas discussões feitas por profissionais da área da saúde, quanto por pessoas com pouco ou sem nenhum conhecimento teórico que se aventuram na realização de diagnósticos sobre o transtorno.

Entretanto, apesar da disseminação de diagnósticos, por vezes equivocados, o crescente aumento de incidência dos estados depressivos mostram sua importância dentro da prática analítica. Neste sentido, Abras (2011) afirma que, um relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2009, mostra que a depressão está entre as quatro doenças contemporâneas mais frequentes.

Essa situação deixa evidente o risco de uma disseminação dessa patologia, o que provocaria o surgimento de uma verdadeira legião de deprimidos, uma espécie de “zumbis pós-modernos”, vivendo a base de tratamento constante e incapacitados física e mentalmente para realizar suas atividades diárias, ou seja, impossibilitados de exercer sua própria cidadania.

O cenário atual apresenta um ser humano cada veza mais conectado e atrelado aos bens de consumo imediato. O progresso tecnológico promoveu a interação virtual, porém, provocou o isolamento social. O bem-estar parece sempre distante de nossa realidade, algo fora do alcance da sociedade que vive numa realidade imagética, numa constante ilusão.

Podemos dizer que, a depressão está atrelada a essa configuração social e está se tornando um dos mais importantes transtornos contemporâneos. Portanto, a ansiedade é um fenômeno psicossocial, resultado de uma sociedade cada vez mais imediatista, narcisista e consumista.

De acordo com Abras (2011), o deprimido acusa os problemas da sociedade atual, que trata o sofrimento como algo semelhante ao fracasso e descarta as dimensões simbólicas da vida humana. O esvaziamento da subjetividade, faz com que o ser humano seja reduzido a corpo biológico, Assim, as dores, as frustações e o sofrimentos são tratados por meio de medicamentos, banalizando o diagnóstico de depressão.

Neste sentido, Campos (2016) afirma que, atualmente, os maiores prescritores de medicamentos antidepressivos do mundo são os neurologistas, clínicos gerais e psiquiatras. Esse panorama mostra que, os psiquiatras não têm mais o monopólio do diagnóstico de da terapêutica.

Em função dessa mudança de estado, a psicanálise dá ênfase a constituição do sujeito, tendo a linguagem como uma ferramenta fundamental para a interpretação dos fenômenos subjetivos. Logo, se faz necessário compreender como a psicanálise aborda o fenômeno da depressão, uma vez que os psicanalistas não compartilham a da visão biológica da subjetividade e não acreditam na felicidade adquirida por meio de medicamentos.

Portanto, a pesquisa se justifica, pois busca contribuir para compreensão da depressão a partir da perspectiva da psicanálise, destacando os aspectos históricos e contextuais, assim como, os pressupostos teóricos que incidem na construção da discussão sobre o assunto no contexto da sociedade contemporânea.

Diante do exposto, surge a seguinte questão: Como a psicanálise aborda a depressão? Com o intuito de discutir essa questão, a presente pesquisa tem como objetivo geral: compreender a depressão a partir de uma perspectiva psicanalítica. Em relação aos objetivos específicos, podemos citar: analisar os aspectos históricos da depressão; relacionar as transformações da sociedade contemporânea ao surgimento dos fenômenos psicossociais; discutir os pressupostos teóricos da psicanálise em relação a depressão.

A presente pesquisa trata-se de uma análise bibliográfica e de variável qualitativa, elaborada a partir da análise de estudos publicados sobre o tema no período entre 2010 e 2020. Nos capítulos seguintes, buscou-se discutir assuntos importantes para a contextualização do tema abordado, entre eles: os aspectos históricos e contextuais da depressão, os pressupostos teóricos da psicanálise na abordagem à depressão. Por fim, as considerações finais com a discussão sobre os resultados da análise bibliográfica.

2. DEPRESSÃO: UM OLHAR PSICANALÍTICO PARA O FENÔMENO

2.1 ASPECTOS HISTÓRICOS E CONTEXTUAIS

A tristeza faz parte da natureza humana!

A humanidade não caminha sem sua própria tristeza, associada à sua condição efêmera de ser vivo. Podemos dizer que, a depressão acompanha a existência do ser humano por toda sua vida. Dessa maneira, a depressão é um fenômeno psicossocial que peregrina com o homem desde os tempos mais remotos e não se tratar de uma exclusividade da sociedade contemporânea.

Carvalho e Assis (2016), afirmam que, a tristeza é a própria dor do ser, sem motivo ou acepção e sem probabilidade de compreensão. Um dor que vem do nada, simplesmente pelo fato de existir. Dor da vida em si. Muitos especialistas já tentaram descrever e até mesmo amenizar sua forma de ação no sujeito, dando-lhe outras definições, como por exemplo: sombras sem fim, aperto no peito, tempestade e etc.

Vale destacar que, segundo Julien (2013), a sociedade contemporânea é aversa a qualquer tipo de tristeza, pois parece demonstrar uma característica de fraqueza do sujeito. Entretanto, na Grécia antiga, por exemplo, a melancolia era vista como uma característica de pessoas inteligentes que, por não suportar os males da sociedade da época, se afogava em sentimentos tristes.

Já no período da Idade Média, quaisquer sentimentos ligados à tristeza, como o sofrimento e o desespero, eram fortemente condenados pela Igreja Católica, que pregava que os crentes deveriam ser felizes por saberem do amor e da misericórdia divina. Se Deus amava os seus filhos e lhes prometia o paraíso quando finda a vida, só havia espaço para tristeza se esta fosse fruto de inspiração divina. (JULIEN, 2013, p. 60)

A esperança promovida pela fé traduzida pelos dogmas da Igreja, trazia uma espécie de conforto espiritual ao crente, que por sua vez, não podia fraquejar diante das circunstâncias da vida, por mais angustiantes que fossem. Caso contrário, seria um sinal de fraqueza ou dúvida de fé, como fora citado pela autora.

Entretanto, a partir do Renascimento, “a melancolia foi novamente pensada como uma particularidade de pessoas cultas e reflexivas. Era tema das artes e da literatura, comparecendo em peças de teatro, poesias, pinturas, romances etc. (JULIEN, 2013, p. 61).

De acordo com a autora, a tristeza deixou de ser um sentimento da moda entre os sujeitos da elite pensante no início do século XVIII e voltou a ser combatida. Dessa vez, não foi a crença e os dogmas da Igreja que travou uma batalha com a tristeza. Pelo contrário, coube ao racionalismo cartesiano pregar a promessa de felicidade humana a partir da valorização da individualidade do sujeito.

Julien (2013), corrobora que, no final do século XVIII a tristeza retornou ao protagonismo com o Romantismo, pois se tratava de um sentimento que representava a beleza e, sobretudo, a nobreza do ser humano. Nesse período, a melancolia passou a ser observada e estudada pela categoria médica da psiquiatria. Posteriormente, o termo foi rebatizado pelos especialistas da época como depressão.

A equivalência sobre os termos não é consenso na comunidade psicanalítica. Entretanto, é importante destacar que a psicanálise considera a depressão como uma manifestação atenuada da melancolia, sendo a primeira uma patologia presente nas estruturas neuróticas e a segunda uma patologia ligada às psicoses ou às neuroses narcísicas (JULIEN, 2013).

Independente da maneira como é definido o termo, sempre vai haver discordância. Porém, é importante observar que, quando houver um sintoma de depressão/melancolia devemos ficar atentos às mudanças que podem acontecer no sujeito acometido.

No início do século XX, a expressão “melancolia” passa a ser mais empregada do que depressão, devido à obra de Freud intitulada “Luto de melancolia”. Mesmo assim: “Freud admite a fragilidade do conceito de melancolia, o qual não tinha sido, até então, determinado, nem sequer na psiquiatria descritiva” (CARVALHO; ASSIS, 2016, p. 155).

Atualmente, a melancolia cede espaço para depressão, termo introduzido pela psiquiatria, o qual implica “diminuição”, “redução”. A expressão aplica-se a um estado de doença, diferentemente da melancolia, que seria uma forma de marcar a tristeza. Como a tristeza, agora vista como depressão, entra em cena no contexto do mal-estar contemporâneo? (CARVALHO; ASSIS, 2016, p. 155)

A depressão é um mal-estar contemporâneo devido a castração simbólica, sendo a contemporaneidade um terreno fértil para as surpresas e imprevisibilidades, onde os valores que orientam o mundo já não são mais estáticos e as coordenadas que constituem o sujeito estão viradas de ponta cabeça pelas transformações sociais.

Assim, “as novas modalidades do mal-estar começaram já a indicar suas diferenças nos anos de 1970 e 1980, e todos os seus signos, a partir dos anos 90, apresentaram-se com muita intensidade” (CARVALHO; ASSIS, 2016, p. 156).

Segundo os autores, os sofrimentos psíquicos ligados anteriormente aos imperativos das pulsões e as interdições morais, passam a se apresentar como dor no registro do corpo, da ação e das intensidades, como por exemplo, estresse e pânico, hiperatividade e violência, tristeza e depressão, respectivamente.

A sociedade contemporânea, marcada pelo individualismo, o culto à imagem e o excesso de ações, impede que o sujeito vivencie suas experiências de maneira tranquila e provoca um vazio existencial que contribui para o desenvolvimento de transtornos depressivos (CARVALHO; ASSIS, 2016).

Desse modo, o sujeito se queixa cada vez mais do vazio e sua existência parece que não faz sentido. Diante do vazio existencial, o sujeito pode desenvolver patologias psiquiátricas, por isso, a depressão se tornou um dos maiores males da sociedade atual.

Atualmente, “não há mais tempo para refletir, relembrar, rememorar, assim como também não há mais espaço para a dor, o sofrimento e a angústia. O indivíduo é convidado o tempo todo a reagir rapidamente às experiências de perda […]” (MENDES; VIANA; BARA, 2014, p. 427).

Portanto, para compreender a depressão a partir da perspectiva da psicanálise, é necessário discutir seus aspectos históricos de maneira contextualizada, considerando que, na contemporaneidade, o aumento dos diagnósticos sinaliza para o adoecimento psíquico da sociedade, fazendo com que a depressão se torne um mal-estar do século XXI.

2.2 PRESSUPOSTOSTEÓRICOS E METODOLÓGICOS

Segundo Campos (2016) e Ferreira-Lemos (2011), a psicanálise parte de um paradigma que tem como base, a subjetividade do sujeito, resgatando a dimensão do sofrimento como expressão dos processos particulares. Isso quer dizer que os sintomas são tratados como produtos de uma configuração do aparelho psíquico.

Podemos dizer que a psicanálise tem uma abordagem direta na condição patológica através de seu método, com o intuito de compreender o objeto por meio de uma perspectiva existencial e humanista.

Neste sentido:

A depressão é uma configuração psicopatológica que traz questionamentos para a psicanálise por dois motivos. O primeiro é que a depressão, de fato, assumiu características patológicas mais marcadas nas últimas décadas, sendo uma das formas contemporâneas de adoecimento psíquico que estão fora dos quadros mais clássicos da psicopatologia psicanalítica. O outro fator é que, historicamente, o afeto depressivo ocupou um lugar marginal ao longo do desenvolvimento da teoria psicanalítica, a começar por seu fundador. (CAMPOS, 2016, p. 34)

Percebe-se que, que os questionamentos levantados pelo autor estão relacionados ao fato de que, a princípio, a depressão não assumiu um papel de destaque no desenvolvimento da teoria psicanalítica, entretanto, vem se tornando uma das formas de adoecimento psíquico mais marcadas nos últimos anos.

Campos (2016, p. 34) corrobora que, “é só no texto Luto e Melancolia, que Freud dará um tratamento específico ao tema da depressão/melancolia”, o que podemos perceber é que desde o início de seus trabalhos Freud distingue a melancolia da depressão (MENDES; VIANA; BARA, 2014, p. 427).

Conforme os estudos analisados, diferente dos manuais psiquiátricos atuais que compreendem tanto a depressão quanto a melancolia como fenômenos inerentes aos sujeitos, Freud não reuniu os fenômenos depressivos à melancolia, apesar de identificá-los nas diversas estruturas.

Desse modo, “em oposição à psiquiatria, a depressão não deve ser caracterizada enquanto estrutura psíquica, mas, sim, como um estado próprio à constituição do aparelho psíquico, que caracteriza o humano” (FERREIRA; GONÇALVES; MENDES, 2014, p. 05). É importante destacar que a depressão pode se manifestar em qualquer estrutura.

Mendes; Viana e Bara (2014, p. 428) relatam que, o termo melancolia “desapareceu do Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, 4a edição, da Associação psiquiátrica americana e da Classificação de transtornos mentais e de comportamento da CID-10, da Organização Mundial de Saúde”.

Para os autores, essa dissolução acabou esvaziando a discussão e trouxe sérias consequências no âmbito teórico e clínico, devido ao desaparecimento dos traços característicos da dinâmica psíquica dos sujeitos melancólicos. A melancolia fora velada nos manuais psiquiátricos, provocando problemas na elaboração de diretrizes de tratamento dos pacientes.

Desse modo, se torna necessário fazer uma breve análise teórica sobre os termos separadamente, com o intuito de elucidar os aspectos mais relevante de cada um, proporcionando uma compreensão mais detalhada sobre o assunto discutido nesta pesquisa.

A melancolia “é uma patologia narcísica diferente da depressão. A falta de interesse pelo mundo exterior representa um dos sintomas principais tanto da depressão quanto da melancolia” (MENDES; VIANA; BARA, 2014, p. 428), entretanto, é importante destacar que, no fenômeno depressivo, o desinteresse pelo mundo externo ocorre em decorrência de um evento real e traumático.

De acordo com Campos (2016, p. 34), dentro da abordagem psicanalítica desenvolvida por Freud, “a melancolia permanecerá como a única das neuroses narcísicas, diferenciada, por um lado das neuroses e, por outro, das psicoses”. Podemos perceber que, na melancolia o eixo central da definição da psicopatologia é a problemática narcisista.

Ferreira, Gonçalves e Mendes (2014),afirmam que, na melancolia a sensação de perda ocorre no nível do ideal. Desse modo, não é possível perceber claramente o que foi perdido, mesmo que haja uma perda real. O objeto passa a ser uma perda simbólica e produz uma patologia, como, desânimo profundo, falta de interesse pelo mundo externo, perda da vontade de realizar atividades e etc.

Através dos autores citados, podemos constatar que, um conflito entre o Eu e o super eu predomina na melancolia, considerada uma patologia narcísica e que se caracteriza por uma falha da constituição do Eu, podendo ocorrer uma destruição do Eu por meio de impulsos destrutivos predominantes.

Já a depressão “não consta entre os quadros clínicos clássicos da psicanálise e nunca ocupou um lugar de destaque entre seus temas. Freud fala em estados depressivos” (MENDES; VIANA; BARA, 2014, p. 428). Isso significa que o fenômeno depressivo pode se manifestar em qualquer estrutura clínica.

Dessa maneira:

Os sintomas podem ser uma satisfação de algum desejo sexual ou medidas para impedir tal satisfação, buscando a conciliação entre as duas forças que entraram em conflito: a libido insatisfeita, que representa o que foi recalcado, e a força repressora, que compartilhou de sua origem. (FERREIRA; GONÇALVES; MENDES, 2014, p. 05)

De acordo com os autores citados, a depressão ocorre quando o sujeito evita situações, principalmente, diante ao seu desejo, o que provoca a negação e consequentemente, a determinação inconsciente da castração que varia em razão das contingências.

Neste sentido, Ferreira, Gonçalves e Mendes (2014, p. 06) corroboram que, a utilização freudiana do termo depressão “se restringe a duas definições: uma se refere à noção mecanicista da depressão como uma queda, um decréscimo numa função psíquica qualquer, queda atribuída a uma insuficiência libidinal”.

Além disso, os autores citam que, “a outra definição está relacionada a um estado de sofrimento psíquico. A psicanálise pós-freudiana, por outro lado, utiliza bastante este termo, mas nem sempre com o rigor necessário” (FERREIRA; GONÇALVES; MENDES, 2014, p. 06).

Ainda se tratando de depressão, na psicanálise pós-freudiana, principalmente, na tradição lacaniana, a depressão está mencionada nas questões melancólicas, “compreendida em sua referência ao estágio do espelho e ao narcisismo, mais especificamente na queda da posição de objeto do desejo materno, via metáfora paterna” (CAMPOS, 2016, p. 18).

De acordo com Campos (2016), Lacan definiu a depressão como uma covardia moral. Desse modo, o fenômeno depressivo não passaria de um sintoma que pode se encontrar em diversas estruturas, como identificado por Freud e citado anteriormente por Mendes; Viana e Bara (2014). Nessa perspectiva, o fenômeno depressivo seria um movimento de recusa ao desejo.

Contudo, essa perspectiva estrutural sobre a melancolia e sobre a depressão diz respeito à teoria lacaniana clássica, calcada no campo do significante e na articulação simbólico-imaginária, em que a subjetividade é entendida em termos de saídas estruturantes à castração simbólica. Além disso, a teoria lacaniana avançou, em seu último momento, para o campo do gozo, em que se ressalta o registro do Real, com destaque para marcas anteriores ao campo da linguagem e articuladas à negatividade do objeto. (CAMPOS, 2016, p. 18)

Podemos constatar que, no processo de construção teórica sobre a depressão, os percursos das tradições psicanalistas convergem em alguns aspectos, como por exemplo, a compreensão da problemática do fenômeno depressivo.

Entretanto, apesar dessa convergência, as vertentes majoritárias do campo da psicanálise encaminham a teorização para um espectro especial: a relação entre a problemática depressiva e a constituição da subjetividade e do desejo (CAMPOS, 2016; TILVITZ; SILVA, 2018).

Num sentido mais amplo, Mendes; Viana e Bara (2014, p. 428) relatam que, “para Freud a depressão está vinculada a um afeto, sintoma ou estado que envolve tristeza, desgosto, inibição e angústia. Já a melancolia está associada a um estado inconsciente de impossibilidade de elaboração do luto, uma neurose narcísica”.

Ao analisar a diferença entre melancolia e depressão retomamos à discussão feita por Carvalho e Assis (2016) no capítulo anterior de que a tristeza é inerente à natureza humana diante de sua condição efêmera de ser vivo. Esse conflito acontece devido aos elementos diferenciadores entre os fenômenos. Desse modo, a discussão deve ser ampliada.

Portanto, com base em estudos psicanalíticos, a depressão pode ser vista como um sintoma de representação deformada de conteúdos psíquicos, diante da impossibilidade de simbolizá-los. Dessa maneira, o sujeito readapta a expressão desses sintomas e os reconfigura simbolicamente, forjando uma satisfação.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa constatou que, a psicanálise aborda o fenômeno depressivo como um substituto de uma satisfação pulsional que foi reprimida, considerando a subjetividade do sujeito e tratando cada caso de maneira particular, com o intuito de conduzir o tratamento.

Segundo os estudos analisados, a depressão está associada à condição efêmera do ser humano e acompanha toda a existência da sociedade, desde os primórdios até os dias atuais. Por se tratar de um fenômeno psicossocial, a depressão se tornou um mal-estar da contemporaneidade.

Na Grécia antiga, a melancolia era vista como algo positivo, pois era uma característica de pessoas inteligentes que se afogavam em sentimentos triste devido a consciência da realidade tenebrosa da sociedade. Entretanto, na Idade Média, qualquer sentimento de tristeza era condenado pela Igreja, pois os crentes deveriam ser alegres devido a esperança de salvação.

No final do século XVIII, após um longo período marcado por reviravoltas e mudanças no sentido do termo, a melancolia finalmente passou a ser estudada pela psiquiatria, vindo a ser renomeada tempos depois por “depressão”.

Na primeira metade do século XX, o termo melancolia passa a ser mais empregada do que depressão, por conta da obra de Freud, “Luto de melancolia”. Atualmente, a melancolia cedeu espaço para a depressão, que entra em cena no panorama da sociedade atual e passa ser considerada um mal-estar contemporâneo.

A pesquisa constatou também que, os pressupostos teóricos da depressão parte de um paradigma que tem como base a subjetividade do sujeito. A psicanálise aborda a depressão a partir da causa patológica, tendo como objetivo, compreender o fenômeno a partir de uma perspectiva humanista e existencial.

Os sintomas da depressão podem estar associados a uma satisfação de algum desejo não realizado e ocorre quando o sujeito tenta evitar situações diante de seu desejo que representa o foi recalcado, provocando a negação e a determinação da castração.

Na psicanálise pós-freudiana de Lacan, por exemplo, a depressão está referida nas questões da melancolia, que é compreendida referencialmente ao narcisismo. Lacan foi bastante incisivo ao definir a depressão como uma covardia moral do sujeito, sendo o fenômeno depressivo um movimento de recusa ao desejo.

Portanto, a pesquisa atingiu seus objetivos, pois trouxe uma discussão a respeito dos aspectos históricos da depressão, relacionando as transformações da sociedade contemporânea ao surgimento dos fenômenos psicossociais. Assim como, discutiu os pressupostos teóricos da psicanálise em relação a depressão.

Em suma, podemos dizer que, a depressão é um estado de vazio e de ausência do sujeito, análogo a um objeto parado no tempo e no espaço. É uma condição de organização narcísica em determinação a própria vontade castrada pelo recalque de situações anteriores.

A depressão é, assim, um estado de vazio, de ausência, correspondendo a um tempo parado expondo o lugar e espaço, o fundo em relação ao qual ecoa o tempo da psique e permitindo dizer que ela define-se por uma posição econômica que concerne a uma organização narcísica do vazio segundo uma determinação própria para a inalterabilidade tópica da psique.

REFERÊNCIAS

ABRAS, Rosa Maria Gouvêa. “A vida se engole a seco”: reflexões sobre a depressão na contemporaneidade. Estudos de Psicanálise, Belo Horizonte: n. 35, p. 109-114, 2011.

CAMPOS, Érico Bruno Viana. Uma perspectiva psicanalítica sobre as depressões na atualidade. Estudos Interdisciplinares em Psicologia, Londrina: v. 7, n. 2, p. 22-44, dez. 2016.

CARVALHO, Daura Cândida Pereira; ASSIS, Maria de Fátima Pessoa de. A depressão na clínica psicanalítica: ressonâncias da atualidade. Perspectivas em Psicologia, Uberlândia: vol. 20, n. 2, p. 153- 71, jul. 2016.

FERREIRA-LEMOS, Patrícia do Prado. Sujeito na psicanálise: o ato de resposta à ordem social. In: SPINK, Mary Jane Paris; FIGUEIREDO, Pedro; BRASILINO, Jullyane. (orgs.) Psicologia social e pessoalidade [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais; ABRAPSO, 2011, p. 89-108.

FERREIRA, Rayanne Cordeiro; GONÇALVES, Charlisson Mendes; MENDES, Patrícia Guedes. Depressão: do transtorno ao sintoma. Psicologia.pt – O portal dos psicólogos. 2014.Disponível em: <https://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0828.pdf>. Acesso em: 27 de out. 2020.

JULIEN, Maria Claudia Gomes. Depressão pós-parto: Um olhar psicanalítico. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica)Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC. São Paulo: PUC, 2013, 129 p.

MENDES, Elzilaine Domingues; VIANA, Terezinha de Camargo; BARA, Olivier. Melancolia e Depressão: Um Estudo Psicanalítico. Psicologia: Teoria e Pesquisa, vol. 30, n. 4, p. 423-431, 2014.

TILVITZ, Aline Inêz; SILVA, Jerto Cardoso da. Melancolia, depressão e amor: um ensaio em psicanálise. Boletim Entre SIS, Santa Cruz do Sul, v. 3, n. 1, p. 22-34, jan./jun. 2018.

[1] Pós-graduada em planejamento Educacional, graduada em Pedagogia.

Envaido: Novembro, 2020.

Aprovado: Dezembro, 2020.

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