Adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da Cidade Do Natal

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ARTIGO ORIGINAL

SOBRINHO, Alberto Vieira [1], ROCHA, Ana Amélia Varela Da Silva Sobral [2],DESIDÉRIO, Bárbara Monique Alves [3] , MEDEIROS, Maria Daniele Barbosa De [4], MORAIS, Wilma Carla Dantas Dos Santos [5] , MOREIRA, Ana Augusta De Souza [6]

SOBRINHO, Alberto Vieira. Et al. Adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da Cidade Do Natal. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 11, Vol. 06, pp. 113-126. Novembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/transportes-coletivos-publicos

RESUMO

O artigo objetiva investigar fenômeno do adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal, mediante análise dos relatórios dos casos de adoecimento psíquico, no âmbito ocupacional, notificados por órgãos públicos de saúde. Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental, quantitativa e explicativa. Foram analisados relatórios e tabelas do Sistema de Informações de Agravos de Notificação, disponibilizados pelo Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador, que referenciam o adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal; e evidenciaram que os motoristas de ônibus são a categoria profissional que apresenta maior índice de adoecimento psíquico dentre outras categorias diversas. Ao final dessa pesquisa concluiu-se que o adoecimento psíquico dos motoristas de ônibus, incluindo o desenvolvimento de transtornos mentais, se dá pelo alto grau de estresse devido à violência decorrente da falta de segurança pública e pela alta incidência de assaltos aos transportes coletivos; engarrafamento e acidentes de trânsito; fiscalização e pressão por meta/hora a que estão submetidos; ruídos e estressores como multiplicidade de tarefas delegadas à sua função.

Palavras-chave: Saúde Ocupacional, adoecimento psíquico, psicologia do trabalho, motoristas de ônibus.

1. INTRODUÇÃO

Em meados de 1817 surgem os primeiros transportes coletivos no Brasil, bondes e auto-ônibus que eram conduzidos pelo motorneiro, que dirigia o veículo, e o condutor, que cobrava as passagens e auxiliava o motorneiro com relação às paradas, à velocidade do veículo, aos itinerários e horários. Com o passar do tempo, os bondes foram extintos e com a evolução do auto-ônibus, esse transporte foi denominado ônibus, palavra que deriva do latim omnibus que significa “para todos”. O motorneiro passou a se chamar motorista e o condutor, cobrador.

O tema que iremos discorrer abordará o universo dos motoristas de transportes coletivos urbanos, os problemas enfrentados pela categoria mediante uma rotina cansativa e estressante que, em muitas vezes, os levam ao adoecimento físico e psíquico.

O motorista possui um papel de extrema importância no serviço de transporte público, pois está em contato direto com os clientes (passageiros), no qual devem agir de acordo com uma norma de relacionamento interpessoal e proceder de acordo com os princípios éticos e técnicos exigidos pela empresa.

Segundo a Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho (1994), a profissão de motorista de ônibus é aquela em que o profissional dirige veículos de acordo com as regras e normas estabelecidas no trânsito, com a finalidade de transportar passageiros dentro de uma localidade.

O exercício da função dos motoristas de transportes urbanos no Brasil possui características marcantes como: condições de trabalho inadequadas, violência urbana e a própria rotina desgastante; características tais que levam ao adoecimento ocupacional, sendo a maior parte desses adoecimentos de origem psicossomática, corroborando assim para o surgimento de diversos problemas de saúde, dentre eles mais de duzentas doenças psíquicas, conforme dados do Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (2011).

A saúde do trabalhador vem se caracterizando como um campo de estudo prioritário para a área da saúde mental no Brasil devido o alto índice da ocorrência desses de transtornos mentais e do comportamento de cunho ocupacional, conforme dados oficiais e não oficiais.

Os estudos que relacionam a saúde mental e o trabalhador são de extrema relevância, uma vez que, por meio deles, pode-se prevenir, reduzir e alicerçar novas ideias sobre os problemas decorrentes do trabalho tanto em nível individual como coletivo.

Como psicólogos em formação, optamos por direcionar nosso olhar para o adoecimento psíquico desses profissionais, visto a importância de tais profissionais para a sociedade e o alto índice de doenças com as quais são acometidos.

Pensar a rotina desses profissionais nos permite olhar essa categoria de um modo mais amplo, analisando cuidadosamente os fatores desencadeantes de seu adoecimento.

2. CONTEXTO GERAL DA PROFISSÃO: MOTORISTAS DE ÔNIBUS URBANOS

O desenvolvimento urbano no Brasil, caracterizado por ocupações irregulares do solo, regulamentações precárias e crescimento desenfreado de cidades, suscitou sérias demandas nos transportes. Apesar do aumento do uso de automóveis por pessoas de classes sociais mais elevadas, uma parcela significativa da população ainda necessita do transporte público urbano para sua locomoção e para efetivação de suas atividades sociais e profissionais.

Devido o crescente número de veículos em circulação no país, as condições do trânsito na cidade se tornam continuamente exacerbadas, levando o Brasil a ser um dos países campeões mundiais de acidente de trânsito, como reprodução deficitária geral da fiscalização sobre as condições dos veículos, sobre o comportamento dos usuários, desorganização do trânsito e impunidade dos infratores.

Os motoristas de ônibus e micro-ônibus são, proporcionalmente, os campeões de multas de trânsito em Natal. Segundo estatística do Departamento Estadual de Trânsito, para cada grupo de 100 ônibus e micro-ônibus são registradas 98,79 multas por ano (TRIBUNA DO NORTE, 2002).

Esses profissionais desempenham o seu trabalho em um ambiente de trabalho denominado “macro” que é o trânsito e um “micro” que é o ônibus, sendo alvos de constantes pressões ambientais. Segundo Hoffmann (2000), as pressões ambientais têm origens externas e internas, sendo as externas referentes ao trânsito, às normas, semáforo, congestionamentos e acidentes; e as pressões internas relacionadas às condições ergonômicas do veículo – precariedade mecânica – além dos ruídos, o calor do motor e as vibrações, e ainda tendo que atender as normas da empresa na qual trabalha, esses profissionais trabalham sob alta rigidez de fiscalização no cumprimento de horários, o que gera ainda mais pressão.

Essas condições de trabalho envolvem fatores que são ligados à psicossomática do estresse diante do adoecimento psíquico e físico, a qual diagnostica diversas patogenias, uma vez que processos psíquicos repercutem diretamente no adoecimento físico, pois ambos possuem uma relação de dependência. Se tratando de profissões que demandam um elevado desgaste físico, psíquico e cognitivo, a categoria de motoristas de transporte coletivo está entre as mais desgastantes, estressantes e adoecedoras.

Pesquisas como as de Battiston, et al. (2006); Mendes (1987); Souza e Silva (1998); Zanelato e Oliveira (2004), apontam que o motorista de ônibus se destaca como profissão dentre as mais estressantes.

3. O ADOECER: REFLEXOS FÍSICOS E PSÍQUICOS

O estresse é o nascedouro de importantes alterações e transtornos bioquímicos no organismo. Segundo Tortora (2005), altos níveis de estresse no sangue acarretam o que chamamos de quebra do equilíbrio homeostático, fenômeno fisiológico de extrema importância para o organismo, que mantém as condições do meio interno dentro de uma faixa de variação normal, e que se altera temporariamente e provoca ação desacerbada do sistema nervoso central em momentos geradores de tensão.

Os transtornos/doenças que possuem caráter ocupacional em relação aos motoristas de transportes coletivos podem ser verificados a partir de uma visão panorâmica da relação entre a Classificação Nacional de Atividades Econômicas versão 2.0 (CNAE 2.0), o Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário (NTEP) e o código da Classificação Internacional de Doenças (CID-10).

A criação desse estudo estatístico chamado Nexo Técnico Epidemiológico Previdenciário se tornou necessária devido a significante estatística na associação entre o código da CID-10 e o da CNAE.

A Classificação Internacional de Doenças é o conjunto de um código alfanumérico composto por uma letra e até quatro caracteres numéricos Cada letra identifica um capítulo da CID-10 que se refere a uma classe de doenças e os números subdividem essas classes. Um exemplo, segundo o Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (2006), seria o Capítulo V identificado pela letra F que identifica um transtorno mental ou de comportamento.

A CNAE 4921-3/01 se refere ao “Transporte rodoviário coletivo de passageiros, com itinerário fixo, municipal” e a partir da relação entre essa CNAE e a Classificação Internacional de Doenças versão 10 (CID 10), foi elaborada a tabela abaixo que, de forma reduzida, apresenta as doenças ocupacionais mais genéricas, e a quantidade de subclasses envolvidas, com as quais os trabalhadores de empresas classificadas na CNAE 4921 podem ser acometidos e que, conforme o Manual NTEP e FAP (SESI, 2011), possuem nexo epidemiológico com as funções exercidas, configurando essas doenças como ocupacionais.

Tabela 1 – Relação das doenças que possuem nexo epidemiológico com a CNAE 4921

CID 10 CLASSE DA DOENÇA DOENÇAS
A15 – A19 Tuberculose 42
E10 – E14 Diabetes mellitus 55
F10-F19 Transtornos mentais e comportamentais devidos ao uso de substância psicoativa 110
F20-F29 Esquizofrenia, transtornos esquizotípicos e transtornos delirantes 31
F30-F39 Transtornos do humor [afetivos] 42
F40-F48 Transtornos neuróticos, transtornos relacionados com o estresse e transtornos somatoformes 49
G40 – G47 Transtornos episódicos e paroxísticos 57
H53-H54 Distúrbios visuais e cegueira 19
I05-I09 Doenças Cardíacas Reumáticas Crônicas 31
I10-I15 Doenças hipertensivas 18
I20-I25 Doenças isquêmicas do coração 41
I30-I52 Outras formas de doença do coração 134
I60-I69 Doenças cerebrovasculares 74
I80-I89 Doenças das veias, dos vasos linfáticos e dos gânglios linfáticos, não classificadas em outra parte 57
J40-J47 Doenças crônicas das vias aéreas inferiores 24
K35-K38 Doenças do apêndice 17
K40-K46 Hérnia 34
M00-M25 Artropatias 197
M40-M54 Dorsopatias 95
S00-S09 Ferimentos na cabeça 88
S20-S29 Lesões do tórax 72
S30-S39 Traumatismos do abdome, do dorso, da coluna lombar e da pelve 86
S40-S49 Lesões do ombro e do braço 63
S50-S59 Traumatismos do cotovelo e antebraço 64
S70-S79 Lesões do quadril e da coxa 56
S80-S89 Lesões do joelho e da perna 67
S90-S99 Lesões do tornozelo e do pé 67
TOTAL DE DOENÇAS RELACIONADAS A CNAE 4921 1690

Fonte: Próprios autores

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 30% dos trabalhadores ocupados são acometidos pelos chamados transtornos mentais menores e cerca de 5 a 10% sofrem com transtornos mentais graves.

As psicopatologias são originadas por fatores biológicos, ambientais e socioculturais, portanto não podem ser tratadas apenas com medicalização, visto que para compreender as psicopatologias se faz necessário conhecer o indivíduo, o contexto em que está inserido, as relações de trabalho, suas necessidades, estudar a interface “patologia e trabalho”, e com isso corroborar com o desenvolvimento deste processo, abrangendo a visão sobre a saúde mental no âmbito ocupacional.

Segundo Rozestraten (1988), o trânsito deveria ser um espaço social humanitário, tendo como princípio o respeito às normas e regras estabelecidas.

A violência urbana é considerada um dos fatores de alta complexidade no trabalho dos motoristas de ônibus, visto que esses profissionais exercem sua atividade no contexto urbano e, devido a isto, estão expostos a violência e aos riscos de seu trabalho por tempo prolongado. Os assaltos durante a jornada de trabalho dos motoristas podem tornar-se um fator prejudicial à saúde mental dos rodoviários que pode caracterizar-se como um “estressor traumático extremo”, podendo desencadear um transtorno de estresse pós-traumático.

O transtorno de estresse pós-traumático compõe o grupo dos chamados transtornos de ansiedade. A característica central desse transtorno é a manifestação de sintomas específicos após o contato direto ou indireto com um “estressor traumático extremo. (DSM IV, 2002, p. 448)

Diante de todos esses fatores sabemos que ser motorista de ônibus na cidade de Natal é uma tarefa que requer grandes desafios, principalmente sabendo que a tendência de toda essa problemática do trânsito é aumentar, e a situação desses profissionais tende a ficar cada vez mais complicada devido o aumento das suas responsabilidades, principalmente nas empresas que os colocam diante de mais uma função, a de cobrar pelas passagens, tornando ainda mais estressante exercer uma dupla função.

4. OBJETIVOS

4.1 OBJETIVO GERAL

Investigar os fatores que provocam o adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal.

4.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS

  • Identificar os fatores presentes no contexto ocupacional que ocasionam o adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal;
  • Conhecer a rotina de trabalho dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal;
  • Analisar como se dá a relação entre as condições ambientais de trabalho e as psicopatologias ocupacionais que acometem os motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal.

5. METODOLOGIA DA PESQUISA

A pesquisa realizada classifica-se como quantitativa. Segundo Kauark; Manhães e Medeiros (2010, p. 26 e 27), pesquisa quantitativa “[…] considera o que pode ser quantificável, o que significa traduzir em números opiniões e informações para classificá-las e analisá-las. Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas […]”. Analisaremos os relatórios dos casos de adoecimento psíquico, no âmbito ocupacional, notificados por órgãos públicos de saúde.

A pesquisa configura-se como explicativa, pois possui um maior grau de complexidade acerca do conhecimento de como se dá o adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal; explicando assim os fatores desencadeadores de tal adoecimento.

Quanto ao tipo, a pesquisa se caracteriza como pesquisa bibliográfica e documental, pois utilizamos como fontes de pesquisa, materiais impressos e fontes documentais. Segundo Gil (2002, p. 46) “[…] na pesquisa bibliográfica as fontes são constituídas, sobretudo, por material impresso localizado nas bibliotecas, na pesquisa documental, as fontes são mais diversificadas e dispersas.” Nossas fontes bibliográficas são artigos de cunho científico relacionados ao tema e as fontes documentais são baseadas em relatórios e tabelas do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizados pelo Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), que referenciam o adoecimento psíquico dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal.

A coleta dos dados da pesquisa bibliográfica foi realizada em ambiente virtual através de plataformas acadêmicas de artigos científicos, como a Biblioteca Virtual em Saúde – BVS que se trata de uma fonte, encontrada nas bases de pesquisa da Universidade Potiguar, que disponibiliza gratuitamente informação científica em saúde de base de dados bibliográficos nacionais e internacionais; a Scientific Electronic Library Online – Scielo, também encontrada nas bases de pesquisa da Universidade Potiguar, é uma biblioteca eletrônica de periódicos científicos; e a página de pesquisa Google Acadêmico que é uma base de dados eletrônica de acesso público e gratuito de artigos acadêmicos, além de livros e manuais disponíveis em biblioteca física da Universidade Potiguar. A pesquisa documental baseou-se em relatórios e tabelas do Sistema de Informações de Agravos de Notificação (SINAN), que relacionado à saúde dos trabalhadores, são disponibilizados pelo Centro Estadual de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST), que referenciam todo paciente atendido e todos os casos de adoecimento relacionados ao contexto ocupacional, tanto físico quanto psíquico, do qual compilamos e analisamos os dados apenas que se referem à problemática dos motoristas de transportes coletivos públicos urbanos da cidade do Natal.

6. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS DADOS

Os dados obtidos a partir do Relatório dos Casos de Doenças Ocupacionais registrados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), disponibilizados pelo Centro de Referência Especializado em Saúde do Trabalhador – Regional Natal/RN (CEREST-RN), serão apresentados em forma de gráfico e discutidos posteriormente.

Segundo dados do Relatório, de Janeiro a Junho de 2014, 52 trabalhadores divididos em 23 categorias profissionais foram diagnosticados com algum tipo de transtorno mental, dentre eles a categoria de motorista de ônibus urbano apresenta a maior incidência, com 29% (ou 15) dos casos notificados, seguido de cobrador de transportes coletivos (exceto trem) com 17% (ou 9) e de vigilante e caixa de banco, ambos com 6% (ou 3) cada; conforme mostra o Gráfico 1.

Gráfico 1 – Casos de transtorno mental notificados pelo CEREST – Janeiro a Junho de 2014

Fonte: Próprios autores

No Gráfico 2, no período entre Janeiro a Junho de 2015, os dados do SINAN apresentam 63 trabalhadores divididos em 21 categorias profissionais que foram diagnosticados com algum tipo de transtorno mental, dentre eles a categoria de motorista de ônibus urbano apresenta a maior incidência, com 43% (ou 27) dos casos notificados, seguido de cobrador de transportes coletivos (exceto trem) com 13% (ou 8), de caixa de banco com 6% (ou 4) e vigilante com 5% (ou 3).

Gráfico 2 – Casos de transtorno mental notificados pelo CEREST – Janeiro a Junho de 2015

Fonte: Próprios autores

No Gráfico 3, verificamos que, no período entre Janeiro a Junho de 2014, 19 motoristas de ônibus urbanos foram atendidos pelo CEREST, 79% (ou 15) deles foram diagnosticados com transtorno mental, 16% (ou 3) diagnosticados com LER/DORT, 5% (ou 1) foi vítima de acidente grave e nenhuma outra doença foi citada.

Gráfico 3 – Doenças notificadas pelo CEREST – Janeiro a Junho de 2014

Fonte: Próprios autores

No Gráfico 4, no período entre Janeiro a Junho de 2015, foram 27 motoristas de ônibus urbanos atendidos pelo CEREST e 100% dos casos foram diagnosticados com transtorno mental.

Gráfico 4 – Doenças notificadas pelo CEREST – Janeiro a Junho de 2015

Fonte: Próprios autores

Os gráficos apresentam um número significativo de casos de transtorno mental registrados de Janeiro a Junho de 2014 e no mesmo período de 2015, pelo SINAN, entre os motoristas de ônibus urbano, e a partir desses dados e do diálogo com o Presidente do Sindicato dos Rodoviários do Rio Grande do Norte, o Sr. Halley Deivisson, que citou a violência, decorrente da falta de segurança pública, e a grande incidência de assaltos aos transportes coletivos como as maiores causas do adoecimento psíquico dos motoristas de ônibus urbano, fica clara a extrema relação entre o contexto ocupacional de insalubridade psíquica e a falta de segurança pública. Podemos perceber que outras categorias profissionais também são acometidas de algum tipo de transtorno mental, porém, a maior incidência se dá em motoristas e cobradores dos transportes coletivos urbanos. Também verificamos que os profissionais de transportes coletivos também são acometidos de outros adoecimentos, porém, os transtornos mentais são mais recorrentes. Tais aspectos reforçam que o adoecimento psíquico da categoria de motoristas de ônibus urbanos é causado principalmente pelo contexto em que ele está inserido, em especial em nível micro, ou seja, no próprio transporte coletivo.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como demonstrado no decorrer das pesquisas bibliográficas e documentais, é notório que ser motorista de ônibus na cidade do Natal requer inúmeros esforços, tendo em vista que seu contexto ocupacional está exposto a diversos agentes estressores, como a multiplicidade de tarefas delegadas à sua função; a alta vulnerabilidade à violência, a acidentes, a ruídos e a adoecimentos físicos e psíquicos.

Após os apanhados da pesquisa e sua análise, concluímos que motorista de ônibus é uma profissão que comparada às demais categorias profissionais, destaca-se como a mais adoecedora psiquicamente, por envolver fatores que são ligados à psicossomática do estresse diante do adoecimento psíquico e físico, a qual diagnostica diversas patologias, uma vez que processos psíquicos repercutem diretamente no adoecimento físico, pois ambos possuem uma relação de interdependência.

A partir de um olhar mais atento e humanizado em observar sua realidade, percebemos a necessidade de um acompanhamento terapêutico para que o profissional possa criar mecanismos de enfrentamento que amenizem o estresse no seu cotidiano, contribuindo assim para prevenção e promoção da sua saúde psíquica.

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[1] Graduação em Psicologia pela Universidade Potiguar – Fevereiro/2018.

[2] Graduação em Psicologia pela Universidade Potiguar – Fevereiro/2018.

[3] Pós-graduação em Neuropsicologia pela Universidade Potiguar – Junho 2020. Graduação em Psicologia pela Universidade Potiguar – Fevereiro/2018. Formação em Terapia Cognitivo-comportamental pela Camboim & Petrucci – Junho/2018.

[4] Graduação em Psicologia pela Universidade Potiguar – Fevereiro/2018.

[5] Graduação em Psicologia pela Universidade Potiguar – Fevereiro/2018.

[6] Orientadora. Mestre em Administração.

Enviado: Outubro, 2020.

Aprovado: Novembro, 2020.

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