O Papel da Emoção e Controle pelo Medo na Formação Identitária

0
624
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
Classificar o Artigo!
ARTIGO EM PDF

PINHO, Luiz Fernando Sempionato Vieira [1]

PINHO, Luiz Fernando Sempionato Vieira. O Papel da Emoção e Controle pelo Medo na Formação Identitária. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 04, pp. 57-68, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

O desenvolvimento da criança foi discutido por importantes estudiosos, tais como Piaget, Walon, Vygotsky, entre outros, no entanto, esse artigo discutirá sobre o desenvolvimento e consequente formação da identidade, a partir de mecanismos de controle subjetivos relacionados à emoção.

O caráter subjetivo da emoção e, sobretudo do medo tem caráter cultural, ou seja, ontogenético, muito embora, os aspectos filogenéticos que a emoção e o medo desencadeiam não podem ser ignorados. O medo, então, é importante aliado no controle de nossos comportamentos, moldando nossa identidade desde a fase infantil até a adulta. O desenvolvimento da criança, então, está intimamente ligado a esse mecanismo de controle, proibitivo e coercitivo, acompanhando-a desde os primeiros dias de vida. Dessa forma, a emoção e em particular o medo, acompanhará o indivíduo mesmo durante a fase adulta fazendo parte da metamorfose identitária de cada um de nós.

Palavras-chaves: Emoção, Medo, Desenvolvimento, Criança, Metamorfose Identitária.

Introdução

A história do homem começa bem antes de seu nascimento. Estudos mostram que mesmo durante a gestação já há uma interação entre o meio ambiente, a mãe e o feto. Dessa forma, podemos inferir que acontecimentos do dia a dia da mãe e daqueles que a cercam têm maior ou menor grau de afetação no feto. Sentir tristeza, raiva, medo, ansiedade, enfim, qualquer que seja a emoção, de alguma forma afetará aquele ser em formação. Ao nascer, não será diferente, as experiências positivas ou negativas impactarão no engendramento do pensamento simbólico e na subjetividade da criança. O papel das emoções é tão predominante, que tornar-se-á impossível cercear um sujeito de experienciá-las ao longo da vida. Cada fase da criança desde seu nascimento vem marcada pelas mais diversas maneiras de afetamento emocional. Assim, ao nascer o bebê já sofre a emoção de estar num ambiente desconhecido, que a temperatura já não é a mesma quando estava no interior da barriga da mãe, em que terá de lutar pela sua sobrevivência, pela alimentação, enfrentando o sofrimento físico da dor, do estar só, do medo, do abandono, da perda daqueles que o cercam e uma infinidade de emoções durante sua história de vida. Essas serão algumas das experiências de emoção logo no início da vida da criança. Isolar a criança numa tentativa de cerceá-la das emoções da vida teria impactos profundos no seu desenvolvimento psíquico, e mesmo que tal tentativa fosse levada com extremo critério, o fato de isola-la já lhe provocaria dor e sofrimento. Embora nasçamos fazendo parte da espécie humana, é através do complexo processo das relações com os outros que nos humanizamos, nos tornamos humanos. Assim, estudar a emoção e a forma que nos apropriamos dela para nos relacionarmos com o outro, torna-se mister a compreensão deste complexo processo de troca entre o indivíduo no papel de criança, do adolescente, do adulto, ou qualquer que seja essa fase.

A emoção e suas interfaces

A emoção não pode ser posta apenas como um conceito da psicologia, pois vai além dos limites da individualidade do sujeito. É também um fenômeno de dimensão sócia histórica vivenciada por todos, e não apenas no contexto psíquico e mental. Em qualquer ponto que nos debrucemos, que foquemos, vamos perceber que a emoção está presente. Não está apenas num adeus, em um encontro ou mesmo reencontro, numa perda, no luto, ou então, numa circunstância de grande alegria e prazer.

A emoção está impregnada em coisas, pessoas, momentos, rituais, enfim, em tudo que nos rodeia. Seja na música, numa escultura, numa tela, na dança, na escrita, ou qualquer expressão de arte, há sempre uma emoção em que o artista busca tocar-nos, após ser ele tocado em momento anterior, durante o processo criativo e em sua expressão artística. É preciso para o artista expor, expulsar aquilo que o emocionou, transformando algo subjetivo em concreto para o outro.

A emoção não se restringe a arte, está presente no cotidiano das relações de indivíduos que de certa forma, buscam expor suas emoções de alguma maneira também, mesmo que não seja pelo processo artístico. É comum percebermos as expressões emocionais do outro sem muita preocupação em termos de significado. Ficamos felizes porque o outro está feliz, e talvez, como a velocidade dos acontecimentos e das emoções seja tão rápida, mal podemos refletir sobre elas e já estamos envolvidos novamente com uma emoção de igual sentido ou totalmente inversa. Ficamos então, no plano da superficialidade da emoção do outro, muitas vezes prejulgando-a de forma equivocada, precipitada ou mesmo enviesada.

(…) cada emoção contém uma multiplicidade de sentidos (positivos e negativos), os quais, para serem compreendidos, precisam ser inseridos na totalidade psicossocial de cada indivíduo. Não basta definir as emoções que as pessoas sentem, é preciso conhecer o motivo que as originaram e as direcionaram, para conhecer a implicação do sujeito com a situação que os emociona. (SAWAIA, 2011 p. 111)

Se para o indivíduo adulto lidar com a complexidade das mais variadas emoções já não é simples, que dirá para a criança. Sair de um ambiente com relativa segurança e conforto para um mundo cheio de obstáculos de todo tipo, certamente é um dos maiores, senão o maior desafio do homem. As lutas travadas do ponto de vista biológico e social da criança têm extrema relevância em seu desenvolvimento. Inúmeros autores se debruçaram sobre a compreensão do desenvolvimento da criança, como Piaget, Walon, Lúria, Vygotsky, entre outros. Tendo este último, psicólogo russo, papel fundamental no estudo do desenvolvimento infantil.

Vygotsky não negava as influências filogenéticas, hormonais, pois essas são mediadas por variáveis sociais, e consequentes respostas do meio ambiente, em que cada sujeito tem uma percepção, do que está ao seu redor, cujo efeito desencadeia um conjunto de complexas reações hormonais. Seus estudos sobre a emoção partiram das discussões acerca do pensamento e da linguagem, uma vez que as expressões emocionais vêm através de signos, como a palavra e o gesto.

Vygotsky dá vazão à problemática do desenvolvimento ontogenético, da triangulação biológico-histórico-cultural e da questão pensamento-linguagem, além de temas que subjazem a essas temáticas centrais, como a constituição e o desenvolvimento das funções psicológicas superiores, como imaginação, memória, atenção, abstração e emoção. (MACHADO, 2011, p. 648)

Vygotsky trouxe à discussão tanto a visão naturalista e biológica quanto a emoção do ponto de vista social, sendo que para esse autor as emoções devem ser vistas como funções psicológicas superiores, ou seja, oriundas da cultura, e, portanto, desenvolvidas, ou modificadas, transformadas ao longo da vida de cada indivíduo.

Dessa maneira, as emoções são formadas e transformadas a partir de determinadas condições sócio históricas na qual o homem está inserido. A teoria Histórico-Cultural de Vygotsky entende que a realidade provoca mudanças no homem e ele nela, numa complexa relação de ações e reações, ou seja, ao mesmo tempo em que essa realidade age sobre o indivíduo, este reage a ela.

Para Smirnov (1969 apud MACHADO, 2011, p. 651) “a maneira de reagir do homem ante as coisas, os acontecimentos e as pessoas é definida por emoções e sentimentos”.

O homem se torna humano por intermédio também do seu desenvolvimento emocional, sendo que ao longo da história de cada um modificam-se os significados e os sentidos das emoções e sentimentos. Diante do impacto emocional, cada indivíduo relaciona a emoção à cognição, cujo processo se desenrola a partir da internalização dos aspectos culturais aprendidos. Cada emoção vivenciada é comparada a um conjunto de valores aprendidos através de seus pares, em que pensamento e linguagem permitem elaborar a experiência vivida e a partir daí se colocar diante do outro. É atribuído sentido e significado a tudo que está ao seu redor, e de acordo com a emoção vivida, a criança dá contornos graduais ao seu desenvolvimento. Assim, emoções positivas ou negativas vão ter sempre a sua devida importância, cujo significado e sentido vão depender de como lidamos com elas.

“Vygotsky fala mais acerca da inseparabilidade da capacidade humana de criar significado (de envolver-se em atividade revolucionária) com base na fala e no pensamento”. (NEWNAN & HOLZMAN, 2002, p.66)

Assim, pensar e falar se constroem simultaneamente através dos significados e não de forma isolada, como causa e efeito. Pensar e falar como ato fisiológico tão somente, não nos torna humanos, mas antes de tudo, a humanização está na capacidade de criar, de dar significado às coisas, relacionar-se com o outro, trocar experiências a partir da vivência de cada um, transmitindo sua percepção sobre as coisas e acontecimentos que se interligam à medida que damos importância ao fato.

Para Vygotsky (apud SAWAIA, p. 105) “a emoção e o sentimento não são entidades absolutas ou lógicas do nosso psiquismo, mas significados no viver cotidiano, que afetam nosso sistema psicológico pela mediação das intersubjetividades”.

Esse processo só pode ser constituído através do contato entre os sujeitos que afetam, e se modificam através deste, e esse resultado é guardado na mente da criança por intermédio de imagens, ideias e emoções. A criança desde a tenra idade em contato com seus familiares e indivíduos mais próximos compreende o mundo que o cerca a partir da compreensão que estes têm. Dessa forma, se um adulto tem uma percepção negativa, cuja emoção está sempre permeada de mágoas, raivas, ódio, certamente transmitirá essa percepção para a criança de alguma maneira. A criança interiorizará a forma como esse adulto compreende as coisas, o sentido e o significado que este tem de determinadas situações e pessoas. Uma mãe, por exemplo, pode transmitir à criança sua percepção sobre o papel de pai, mesmo que essa mãe, na realidade queira se referir à decepção que teve do papel de esposo. O impacto da emoção pode ser tão forte que a mãe não diferencia o papel de pai e de esposo, direcionando a mágoa, a raiva, o ódio, por exemplo, para a figura presente ou ausente em casa, que para a criança é só a paternal.

O filósofo Espinosa dedicou-se a reflexão e compreensão do homem a partir dos afetos, cuja contribuição de sua obra chegou até Vygotsky. O homem Espinosano é envolvido constantemente por afetos que podem aumentar sua potência de agir ou diminui-la.

“Por afetos, entendo as afecções do corpo pelas quais a potência de agir desse corpo é aumentada ou diminuída, secundada ou reprimida e ao mesmo tempo as ideias dessas afecções”. (ESPINOSA, 1957, p. 144 apud SAWAIA, p. 103).

Todos nós temos uma potência natural de agir, de existir, de lutar pela preservação, por ser um fenômeno natural, essa é uma característica de todos os seres vivos. Com a criança não é diferente, sua relação com aqueles que a cerca, familiares mais próximos ou outros indivíduos, cada um com papel fundamental de acordo com a fase dela.  Em cada fase da criança, o adulto tem uma importância. Certamente os pais, ou aqueles que têm esse papel, principalmente no início têm extrema relevância em seu desenvolvimento. Se inferirmos que a criança vem com um potencial, também deduzimos que este pode ser minimizado, diminuído, ou então, maximizado, aumentado, de acordo com as vivências emocionais que a afeta.

Para Espinosa (apud CHAUI, 2011, p. 84 e 85) essa potência é denominada de conatus que “é uma força interna para existir e conservar-se na existência, o conatus é uma força interna positiva ou afirmativa, intrinsecamente indestrutível, pois, nenhum ser busca a autodestruição”.

A criança em desenvolvimento tem uma potência que a direciona em busca de seu crescimento. Assim, a relação com o outro, em busca do outro, é de fundamental importância para determinar, influenciar como esta verá o mundo ao seu redor. O tratamento que a ela é dirigido, a forma como lhe é explicado as coisas, o sentido e significado que lhe é transferido, pode aumentar ou diminuir essa potência que Espinosa denomina de “Conatus.”

O filosofo do século XVII Espinosa (apud CHAUI, 2011) via o homem como corpo e mente como uma coisa só, cuja sua essência é desejo e afecção. É a relação afetiva do seu corpo e sua mente com o mundo.

Estamos em relação com tudo que nos rodeia e que por sua vez atua sobre nós. Para ele, o ser vivo tem uma potência intrínseca que o dirige para a autopreservação. A criança, então, está a todo tempo em busca de saciar seu desejo, experienciar as afecções, e certamente o fará sempre, o que diferenciará uma criança da outra, é sua potência de agir, tornando cada emoção uma particularidade do indivíduo.

Para Espinosa (apud CHAUI, 2011) a potência de agir uns nos outros pode ocorrer de forma ativa ou passiva. Ativa quando causas adequadas, em que percebemos claramente os efeitos dela sobre nós. Passivas quando causas inadequadas fazem com que não percebamos com clareza seus efeitos.

No corpo o Conatus é apetite, já na mente o Conatus é desejo, percepção ou consciência deste apetite. Assim, a essência do homem é desejo.

As afecções aumentam ou diminuem essa potência de agir, ou então, favorecem ou coíbem-na. O indivíduo é visto pela sua intensidade para existir, ou seja, pela força maior ou menor. No corpo, isto significa a força para afetar outros corpos e ser afetado por eles. No caso da mente, essa força está relacionada ao pensar.

Quanto a variação da intensidade do desejo do corpo e da mente Espinosa (apud CHAUI, 2011) dividiu em três afetos primários.

  • Alegria, é o aumento da força e da intensidade. A alegria acompanhada de causa externa é amor.
  • Tristeza, é a diminuição desta força e desta intensidade. Tristeza acompanhada de causa externa é ódio.
  • Desejo que é o sentimento que nos direciona ao agir e a existir. O desejo que nasce da alegria é mais forte do que o desejo que nasce da tristeza. Desejo é alegre quando se chama de contentamento e quando triste de frustração.

É amplo o tema emoção e possui inúmeras vertentes para discussão, uma vez que ela está presente no indivíduo desde os primeiros momentos da vida e são diversas suas categorizações. Ódio, mágoa, raiva, ansiedade, sentimento de abandono, frustração, ciúmes, ou então, afetos positivos, como alegria, amor, prazer, entre outros, fazem parte do repertório a qual desde o nascimento o indivíduo está exposto. No entanto, uma categoria está presente não importa a cultura e a sociedade. O medo é uma emoção construída de forma cultural no repertório dos indivíduos e transmitida à criança, em todas as épocas e locais, embora haja mecanismos fisiológicos. Mesmo que atrelemos o medo a um papel biológico, necessário à sobrevivência, este é muito mais presente do ponto de vista, ontogenético, ou seja, cultural e social.

O medo

Do ponto de vista do universo particular, ou seja, do mundo da vida, o indivíduo vivencia experiências de enfrentamento do medo desde seu nascimento, durante a infância e no decorrer do desenvolvimento humano, o que irá influenciar na sua identidade.

“Interiorizamos aquilo que os outros nos atribuem de tal forma que se torna algo nosso, a tendência é nós nos predicarmos coisas que os outros nos atribuem” (CIAMPA, 1987, p. 131).

Muitos ainda se lembram das cantigas de ninar de décadas atrás que embalavam as noites antes que as crianças dormissem. Acalmar a criança ávida por desejos, desafios, descobertas e curiosidades não era tarefa fácil. Não que hoje seja, mas os pais atualmente têm um grande aliado para saciar a curiosidade e o desejo do descobrir, a tecnologia. Logicamente, que o mundo da tecnologia, computadores, tablets, celulares, redes sociais não acalmam, mas de certa forma respondem a muitas coisas. Naquela época, os pais, avós usavam como estratégia, cantigas, cuja letra, embora tivessem o intuito de adormecerem os pequenos, promovia medo, sentimento de abandono, de estar só para enfrentamentos desconhecidos e fantasiosos. Senão vejamos trechos de algumas destas cantigas que aparentemente poderiam ser consideradas inocentes e afetuosas.

Nana Neném
Nana neném que a cuca vem pegar,
Papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar
Desce gatinho de cima do telhado
Pra ver se a criança dorme um sono sossegado.

Boi da Cara Preta
Boi, boi, boi, boi da cara preta,
pega este menino que tem medo de careta…

A criança, então, cercada de desafios, do desconhecido, vai desde os primeiros momentos, despontando para um universo onde é preciso enfrentar seus medos, o que necessariamente, não significa obstáculo vencido. Entre as vitórias e as derrotas, com ou sem auxílio de outros pares, nos vemos diante de grandes monstros e fantasmas, muitos dos quais não passam de pura fantasia, mas certamente, real aos olhos infantis. Além disso, os pares adultos usam do medo para modificar, manter ou criar comportamentos na criança. O medo é uma emoção para controle quase sempre, ou mesmo punição.

Então, não é incomum verificar que o adulto crie medos na criança desde a tenra idade, como “bicho papão”, mula sem cabeça, bonecos monstros, homem do saco, loira do banheiro, e outras figuras do imaginário infantil, exacerbadas pelo adulto que de alguma forma quer criar uma situação de controle, governar as emoções, para então, deixá-la sob o signo da servidão.

O medo, então, é o grande vilão do comportamento humano desde cedo, é ele uma das categorias da emoção que permitem a criação de papéis, valores e atitudes diante das mais variadas circunstâncias da vida e mesmo mais tarde, sem a utilização de figuras amedrontadoras, influência o indivíduo adulto em seu cotidiano. Medo da perda do trabalho, da punição das leis, nas relações afetivas que exacerbam o ciúme, e em inúmeras outras circunstâncias. Assim, o medo continua presente na vida adulta, logicamente com outras figuras mais reais, mas que ainda fazem parte do imaginário do indivíduo.

Como citado acima, passado a fase infantil em que o imaginário é mais frágil, o adulto ainda permanece impondo o medo no outro e a si próprio. É o medo de magoar a mãe, o pai, aborrecidos com alguma atitude do filho (a), e através da manipulação emocional, da chantagem, controla e governa o comportamento nas relações. A maturidade do indivíduo não elimina essa emoção primitiva, apenas transferimos nossos medos de figuras do imaginário infantil e da chantagem emocional familiar para outras formas de medo, tão complexas e fortes como as outras.

É o medo de ficar fora do grupo a que pertencemos, medo de perder o objeto amado (a), medo do fracasso escolar, medo da perda do trabalho, e outros mais que vão certamente nos colocar diante de uma postura de servidão perante aquele que nos impõe medo, ou que nos garanta aparente segurança.

O medo, então, ao longo da vida é uma das categorias que vão delimitar nossa forma de ver e reagir diante das coisas, criando os contornos da identidade. É uma das categorias mais relevantes que vai acompanhar nossos desejos e paixões, e consequentemente, nos levar à servidão ou à emancipação.

No contexto sócio histórico a emoção, e, sobretudo, o medo, tem papel importante na identidade, tornando-se muitas vezes alavanca para uma metamorfose identitária.

Ciampa (1998, p.88), entende que a constituição identitária é dinâmica e vê a “identidade humana como metamorfose, ou seja, o processo permanente de formação e transformação do sujeito humano, que se dá dentro de condições materiais e históricas dadas”.

As emoções são usadas culturalmente, cujo emaranhado de variáveis são aproveitados com o intuito de governar o homem. Nossa sociedade valoriza um conjunto de afetos, tais como; ambição, competição, agressividade, proatividade, entre outras categorias de emoção, cujo sentido é de buscar algo exterior que satisfaça nossos desejos e paixões.

O homem tem um potencial de agir e a percepção de que há potências maiores, gerando medo. Se o homem tivesse uma consciência mais abrangente, não estaria sujeito às forças de controle do medo. Essa dinâmica faz com que o medo e a esperança de alcançar o que se deseja leve à servidão muitas vezes, pois o homem na busca de superar o medo se sujeita àquele que apresente as maiores garantias de que tal desafio será superado, embora toda causa se mantenha no efeito em boa parte das vezes, permanecendo o processo de dependência como um círculo vicioso.

Nesta condição de subserviência para com o outro garantidor da emoção governada, o governado se posta de forma servidora por determinado tempo, muito embora o medo possa também levar à emancipação através de revoltas sociais ilustradas por inúmeros acontecimentos em que o povo se rebela contra o sistema institucional.

O medo possui variações, e o que se manifesta em cada um pode ser diferente. Pode ser um medo ruim, quando nos inferioriza, nos maltrata, nos humilha, nos excluí. Mas pode ser bom, quando nos potencializa para a ação e enfrentamento das dificuldades, do sofrimento por algo que nos é relevante. Assim, o medo dá lugar à potência também a fim de superar aquilo que nos faz sofrer, significando a diferença entre o aprisionamento e escravidão, e a emancipação.

“Para Espinosa, liberdade e felicidade são atividades de um corpo e de uma mente aptos para o múltiplo simultâneo (multiplicidade simultânea de afecções corporais, multiplicidade simultânea de afetos e ideias)”. (CHAUI, 2011, p.170)

A liberdade, assim, é a expressão da potência de agir que todos os indivíduos têm, a busca pela autopreservação. O conatus, então, é a potência que a criança tem para as descobertas e para embrenhar-se nos desafios, em que o medo pode levar à servidão humana, ou então, à sua emancipação.

Considerações finais

A fantasia faz parte do imaginário infantil, e aquelas que têm a sorte de desfrutar das mais variadas formas de ser criança, certamente chegará à fase adulta com o sentimento, a emoção da saudade. Em meio às descobertas, das brincadeiras e do desejo de continuar acordado para brincar, do contato com os pais e outros membros da família, ser criança, significa em boa parte dos indivíduos, um dos melhores momentos da vida. Parece que a humanidade tende a dicotomizar tudo. Bom e mau, belo e feio, honesto e desonesto, inteligente e não inteligente, certo e errado, Deus e o diabo, céu e inferno, sim e não, são apenas alguns dos exemplos que podemos citar, como caminhos que a sociedade e a cultura nos impõem. Parece que não nos é dado, muitas escolhas na vida, apenas dois caminhos, em que um leva-nos a ser feliz, aceito, amado, reconhecido, e o outro, a lugares, cuja emoção, é de dor e sofrimento.

O medo de que possamos ir por caminho inadequado naquele contexto sócio cultural, muitas vezes fazem os pais estremecerem, julgarem-se, ou serem julgados como fracassados na educação de seus filhos. Assim, como não podem estar presentes vinte quatro horas ao lado filho (a), se faz necessário criar um mecanismo de controle quando estiverem ausentes. Podemos estender isso, para todas as instâncias da vida em sociedade, desde coisas mais simples, como não jogar lixo na rua, até mesmo, ideologias mais complexas como trabalhar mesmo que seu gestor não esteja presente, ou que este trabalho não nos faça feliz, ou mesmo que fiquemos ao lado de alguém o resto da vida, mesmo que não a amemos.

Se não estamos presentes para observar o que se faz, é preciso criar no imaginário, algo que impeça, mesmo que pelo medo, o outro de experienciar o que deseja. Assim, mesmo quando essas crianças crescem, ainda permanece em seu imaginário a ideia aprendida quando criança, de que deixar o sapato virado, levará sua mãe à morte. Já adultos muitos ainda desviram o sapato, não porque querem preservá-los, ou dar uma simetria e organização ao ambiente, mas porque, não querem ser responsáveis pela morte da mãe. Essa ideia fixa na mente do adulto é tão forte que este tem que desvirar o sapato, mesmo que sua mãe já tenha morrido. O impacto que o medo tem no desenvolvimento humano é tão relevante, que boa parte dos indivíduos estará aprisionada pelo tempo que permanecer vivo, não importa quão fantasioso tudo isso seja.

Não há outra saída, senão, romper com as correntes de ideologia engendradas pela sociedade, no tocante, à forma de controlar o outro e a si mesmo. As instituições governamentais, religiosas e familiares, ainda não despertaram, propositalmente ou não, para uma maneira de levar consciência aos membros da sociedade, e ainda permanece o signo do controle pelo medo e através da servidão, da emoção pautada no sofrimento e da dor. Ainda veremos, assim se espera, indivíduos que escolham caminhos, cuja opção seja consciente, e não como mais um perigoso vilão que provoca arrepios e nos congela para a emancipação e alteridade.

O espelho e os sonhos são coisas semelhantes, é como a imagem do homem diante de si próprio.

Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos.

As palavras proferidas pelo coração não têm língua que as articule, retém-nas um nó na garganta e só nos olhos é que se podem ler.

José Saramago

Referências

CHAUI, Marilena. Desejo, paixão e ação na ética de Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

CHAUI, Marilena. Experiência do Pensamento: ensaios sobre a obra de Merleau Ponty. São Paulo: Martins Fontes, 2002.

CIAMPA, A da C. “Políticas de Identidade e Identidades Políticas” in DUNKER & PASSOS (Org.), Uma Psicologia que se Interroga – Ensaios. São Paulo: Edicon, 2002.

CIAMPA, A da C. Identidade humana como metamorfose: a questão da família e do trabalho e a crise de sentido no mundo moderno. Interações, São Paulo, vol. III (nr6), pp 87-101, jul. /dez.1998.

CIAMPA, A da C. A estória do Severino e a História da Severina. São Paulo: Brasiliense, 2005 (1ª ed. 1987).

CIAMPA, A. da Costa; ARDANS, Omar; SATOW, Suely. “Parar para pensar… e depois fazer! ” Revista Psicologia & Sociedade, São Paulo, vol. 8, nr1, jan. /jun., 1996.

CIAMPA, A.C. Identidade. In Psicologia social: o homem em movimento. (Org.) Silvia T.M. Lane e Wanderley Codo. São Paulo: Brasiliense, 8ª. Ed., 1989.

DELUMEAU, Jean. História do medo no ocidente 1300-1800 uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

MACHADO, Letícia V.; FACCI, Marilda G.D.; BARROCO, Sonia M. S. Teoria das emoções em Vygotsky. Maringá, Psicologia em Estudo, v. 16, nr.4, pág. 647 – 657, out-dez, 2011.

NEWMAN, Fred; HOLZMAN, Louis. Lev Vygotsky – cientista revolucionário. São Paulo: Ed. Loyola, 2002.

SAWAIA, Bader B. Da consciência à potência de ação: um movimento possível do sujeito revolucionário na psicologia social laneana. In Medrado, B e Galindo, W. Psicologia social e seus movimentos. PE/Ed.Un., 2011. (35/51)

SAWAIA, Bader B. O sofrimento ético como categoria de análise da dialética exclusão inclusão. In: Bader Burihan Sawaia (Org.).  As artimanhas da exclusão: análise psicossocial e ética da desigualdade social. Petrópolis: Editora Vozes, 2ª. Ed., 2001.

SMITH, Adam. Teoria dos sentimentos morais. São Paulo. Ed. Martins Fontes, 1999.

VYGOTSKY, L.S.A Formação da Mente. São Paulo. Editora Martins Fontes, 1984.

VYGOTSKY, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo. Editora Martins Fonte. 1993

WALTON, Stuart. Uma história das emoções. Rio de Janeiro. Editora Record, 2007.

[1] Doutor em Psicologia Social pela PUC-SP e professor do Centro Universitário Paulistano – UNIPAULISTANA

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here