Obesidade: Um enfoque sob a psicologia corporal

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ARTIGO ORIGINAL

BROGNOLI, Maicol de Oliveira [1], SANTOS, Sônia Alves dos [2]

BROGNOLI, Maicol de Oliveira. SANTOS, Sônia Alves dos. Obesidade: Um enfoque sob a psicologia corporal. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 12, Vol. 16, pp. 52-66. Dezembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/psicologia-corporal

RESUMO

É de vital relevância compreender os fatores que envolvem a obesidade, na qual desde os primórdios da humanidade, constitui-se como um distúrbio metabólico podendo ser verificado em relatos sobre múmias egípcias e em algumas esculturas gregas. Atualmente, a obesidade pode ser considerada o maior problema relacionado ao descuido nutricional nos países desenvolvidos, tendo em vista o aumento de sua incidência. O objetivo deste trabalho foi verificar por meio da Psicologia Corporal quais fatores provocam esse anseio exacerbado pela comida por parte do sujeito, seus traços de caráter e como este lida com o alimento e suas consequências corporais, psíquicas, sociais e energéticas. Destaca-se como uma revisão de literatura utilizando as bases de dados LILACS, SciELO, MEDLINE, assim como monografias, teses e artigos de anais de congresso encontrados no site www.centroreichiano.com.br. A obesidade é uma doença multifatorial e definida como o acúmulo excessivo de gordura corporal que pode causar prejuízos à saúde. Buscou-se compreendê-la sob o viés do paradigma da Psicologia Corporal, levando-se em consideração a relação mente e corpo e fluxos de energia, adotando o contexto reichiano original e sua continuidade pós e neo-reichiana.

Palavras-chaves: obesidade, comportamento alimentar, psicologia corporal, obesidade.

INTRODUÇÃO

São contemporaneamente preocupantes os dados que indicam uma curva de crescimento frenético com relação ao tema obesidade no mundo. No oriente, segundo as palavras de Fernandes (2013) em países asiáticos que diminutos registros eram evidenciados, experimentam atualmente baseados em costumes, modo de vida e valores ocidentais uma progressão de casos com indivíduos acima do peso. A cultura ocidental tem direcionado a humanidade como um todo, a necessidade do “ter” que ultrapassa a filosofia do “ser”. Nesta perspectiva, “tempo” é “dinheiro” e a modernidade com suas exigências desencadeia um processo de exacerbação do estresse. Nesta corrida moderna, inúmeras pessoas não se dedicam mais à arte de cozinhar, especialmente em grandes centros urbanos onde o alimento é comercializado e oferecido pronto. Entretanto, possuem poucos valores nutricionais e cada vez mais estruturados para atrair a atenção pela sua praticidade, com aparência, cheiro e paladar para conquistar os sentidos humanos. Recebem embalagens lindas e sofisticadas, sabores açucarados, com sal e gordura acentuados. A família quase não se senta mais à mesa, come-se só, em pé, nos transportes coletivos, assistindo TV, diante do computador ou celular. Sendo tudo muito rápido, prático e consequentemente engordativo (FERNADES, 2013). Assim, define-se obesidade como uma patologia onde a reserva natural de gordura aumenta progressivamente causando inúmeros problemas de saúde e ainda desencadeando aumento do índice de mortalidade. É uma doença multifatorial sendo que seu tratamento visa acompanhamento multiprofissional, na maioria das vezes (LEITNER, 2014).

Esta pesquisa do ponto de vista de sua natureza se classifica como Pesquisa Básica, almejando construir conhecimentos novos e úteis para o avanço da ciência sem aplicação prática prevista. Quanto à abordagem, optou-se pela Qualitativa, considerando dinamicamente a relação do mundo real com o sujeito, partindo da convicção indissociável entre o mundo objetivo e a sua subjetividade sem amparar-se em números, analisando seus dados indutivamente. Do ponto de vista de seus objetivos, buscou-se a Pesquisa exploratória, que envolve levantamento de dados bibliográficos proporcionando maior familiaridade com o problema com vistas a torná-lo explícito ou a construir hipóteses (GIL, 2002). Sob o ponto de vista dos procedimentos técnicos, considerou-se a Pesquisa Bibliográfica como a mais pertinente aos anseios desta pesquisa. Pois a mesma é elaborada a partir de material já publicado, constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e por meio de materiais disponibilizados via Internet (GIL, 2002). Assim, a coleta de dados foi abordada por meio de uma revisão de literatura utilizando as bases de dados LILACS, SciELO, MEDLINE, assim como monografias, teses e artigos de anais de congresso encontrados no site www.centroreichiano.com.br. As palavras-chaves utilizadas foram: obesidade, comportamento alimentar, psicologia corporal e obesidade.

Como objetivo conjecturou-se verificar por meio da Psicologia Corporal quais fatores provocam esse anseio exacerbado pela comida por parte do sujeito, seus traços de caráter e como este lida com o alimento e suas consequências corporais, psíquicas, sociais e energéticas.

Portanto, cogitou-se com este trabalho analisar o contexto multifacetado da obesidade através do paradigma da Psicologia Corporal. Essa abordagem empenha-se no conhecimento que integra as dimensões psíquicas, somáticas e energéticas em uma concepção de ser humano que precisa ser compreendido de um modo dinâmico. Reich é um autor muito pouco lido e mal compreendido, e ao nosso modo de percebê-lo, parece-nos rico e exemplar na profundidade com que aborda a vida emocional. Desejou-se discutir o modo pelo qual a Psicologia Corporal aborda a obesidade utilizando-se de referenciais psicodinâmicos, compreendendo sua organização do trabalho prático, as técnicas de mobilização corporal, que são feitas de acordo com os traços de caráter do sujeito, das defesas utilizadas, das couraças ativas, etc. Assim, pretendeu-se dialogar tanto pelo caráter analítico da Psicologia Corporal, ou seja, a desconstrução das estruturas cristalizadas; quanto, pelo sintético e construtivo de modos de ser mais positivos e vitais, no sentido de referenciar um caminho a mais no processo terapêutico do tratamento da obesidade.

OBESIDADE: UM ENFOQUE SOB A PSICOLOGIA CORPORAL

A OBESIDADE E SEUS ASPECTOS GERAIS

É de vital relevância compreender os fatores que envolvem a obesidade, na qual se faz presente desde os primórdios da humanidade, este distúrbio metabólico pôde ser verificado em relatos sob aspectos de múmias egípcias e caracterizado nas esculturas gregas. Atualmente, a obesidade pode ser considerada o maior problema relacionado ao descuido nutricional nos países desenvolvidos, tendo em vista o aumento de sua incidência. A obesidade tem sido considerada um problema mundial, presente tanto em países desenvolvidos como em desenvolvimento, sendo que o aumento de sua incidência está distribuído em quase todas as raças e sexos, e atinge principalmente a população de 25 a 44 anos (BLUMENKRANTZ et al., apud FRANCISCHI et al., 2000). Esta doença tem se tornado alvo de preocupação para os órgãos que cuidam da saúde pública, onde se trata de uma doença não transmissível, porém, crônica e degenerativa que nos últimos tempos tem tido um alarmante aumento (PINHEIRO; FREITAS; CORSO, apud OLIVEIRA e ALMEIDA, 2012).

Sua dimensão multifatorial pode correlacionar fatores que aglutinados ou não desencadeiam o desenvolvimento da doença. Essa caracterização multifatorial pode ser classificada em fatores internos ou endógenos (genético, endócrino, psicogênico, metabólico, medicamentoso e neurológico) e fatores externos ou exógenos (ambiente facilitador, estilo de vida e hábitos alimentares). Estes fatores sofrem forte influência das novas tendências nutricionais que ocorrem neste século e de uma dieta ocidentalizada típicas da modernidade. Por isso, são contabilizados muitos casos de morbidade e mortalidade correlacionados a patologia obesidade, e ainda, os fatores de risco disparam direcionados a outras doenças por causa desta patologia (FRANCISCHI et al., 2000). “A obesidade é definida como um acúmulo excessivo de gordura corporal” (MCARDLE; KATCH e KATCH, apud OLIVEIRA e ALMEIDA, 2012 p.35). Oliveira e Almeida (2012) elucidam que a distribuição da gordura se correlaciona com a saúde, especialmente quando sua localização está na região abdominal. A avaliação para a relação entre a distribuição da gordura e o risco para outras doenças se enquadra na relação cintura/quadril. Define-se a gordura que se acumula em maior quantidade na região abdominal como gordura andróide ou visceral e a que está acumulada em maior quantidade no quadril e coxas como gordura ginecóide. Existe uma predisposição relacionada ao sexo para a localização da gordura, sendo que a andróide é observada mais facilmente em homens, e a ginecóide em mulheres. Esta diferença entre os sexos inicia-se na adolescência e está relacionada com os hormônios sexuais. No sexo feminino ocorre o aumento da progesterona e do estrógeno e no masculino o aumento de testosterona. Por recobrir as vísceras, a obesidade visceral constitui-se como situação de alto risco à saúde, ou seja, pode prejudicar o coração, fígado, pulmão, rim, intestino etc. (ZILBERSTEIN et al., apud OLIVEIRA e ALMEIDA, 2012). “A obesidade está associada a algumas das mais prevalentes doenças na sociedade moderna” (FRANCISCHI et al., 2000, p. 20). Ela se relacionada com inúmeras doenças do coração, hipertensão arterial, dislipidemias, resistência à insulina, intolerância à glicose ou diabetes. Portanto, a obesidade:

[…] é fator de risco independente para doença cardiovascular, incluindo doença arterial coronariana, infarto do miocárdio, angina, insuficiência cardíaca congestiva, acidente vascular cerebral, hipertensão e fibrilação atrial. Estudo recente com mais de 37 mil adolescentes mostrou que aqueles com um IMC maior, mesmo dentro da faixa de normalidade, apresentam maior risco de doença arterial coronariana na vida adulta. (MELO, 2011, p. 3).

Os transtornos emocionais também podem levar ao aumento de peso ou a impedir que a pessoa emagreça. No passado a obesidade era vista como falha de personalidade, entretanto, atualmente:

[…] é vista como uma doença resultante de uma complexa interação entre fatores genéticos, ambientais e psicológicos que geram um balanço energético positivo e como consequência o excesso no acúmulo de gordura corporal. A estratégia para os possíveis tratamentos da obesidade sofreu mudanças radicais nos últimos 10 anos. Por ser uma doença multifatorial, necessita de um tratamento multidisciplinar, que visa orientar o indivíduo obeso para mudanças nos hábitos alimentares, nas atividades físicas mais adequadas, no apoio psicológico e medicamentoso (PERES; COUTINHO; TOCK, apud OLIVEIRA e ALMEIDA, 2012, p. 36).

PSICOLOGIA CORPORAL

Para Volpi (2013, p. 2) a Psicologia Corporal:

[…] se dedica a estudar as manifestações comportamentais e energéticas da mente sobre o corpo e do corpo sobre a mente, tratando-as em seu conjunto e em sua relação funcional. Objetiva reencontrar a capacidade do ser humano em regular a sua própria energia e, por consequência, seus pensamentos e emoções.

Wilhelm Reich precursor da Psicologia Corporal desenvolveu a técnica da Análise do Caráter divergindo da tradicional análise do sintoma, pois para ele o modo convencional que a psicanálise buscava lidar com esta situação deveria ser ampliado. Com relação a análise do caráter, Reich passou a analisar o paciente como um todo, embasado em um trabalho com resultados mais rápidos, em um processo dinâmico, intenso e profundo (VOLPI e VOLPI, 2003). De acordo com Scarpato (1999, s/n):

Na visão reichiana, o caráter é o jeito de ser de cada um e está relacionado à dinâmica emocional das fases do desenvolvimento, à utilização de certos mecanismos de defesa, à estruturação mental de crenças internas, enfim, a um funcionamento energético, emocional e corporal. Há cinco tipos principais de caráter: esquizóide, oral, masoquista, rígido (fálico-narcisista, histérico e passivo) e psicopata. Cada um deles relacionado principalmente a uma das fases do desenvolvimento afetivo-sexual: visual, oral, anal, genital e diafragmática respectivamente.

Segundo Volpi (2005), a Psicologia Corporal busca reconhecer nas atitudes e no corpo todas as impressões registradas no período das etapas do desenvolvimento emocional na formação do caráter. Para isso, faz-se necessário uma leitura corporal, uma anamnese da história pessoal do sujeito e uma compreensão do seu caráter. Deve-se manejar adequadamente a relação psicoterapêutica no diagnóstico inicial, cuidar minuciosamente do direcionamento durante o projeto psicoterapêutico, almejando elaborar uma boa metodologia de trabalho. Nossa mente absorve os conflitos emocionais produzidos por toda a nossa história de vida e é a mesma, que responde pela formação das neuroses. Já o nosso corpo arquiva esses conflitos na condição de couraça muscular, ou seja, procura contrair-se e deste modo, instaura posturas defensivas que podem ser exemplificadas pela condição de olhos arregalados, região da boca tensa e/ou apertada, o pescoço rígido, ombros apresentando-se mais erguidos ou caídos, peito estufado ou para dentro, etc. (VOLPI, 2005).

Volpi (2013) comenta que Wilhelm Reich (1897-1957), foi um médico austríaco que optou por romper com a técnica da psicanálise tradicional pelo descobrimento e verificação de que o corpo comporta a história de cada sujeito. Para Reich, seria pelo corpo a forma mais profunda de entrar em contato e resgatar as emoções, de modo a mobilizar o paciente biopsiquicamente anulando e/ou flexibilizando as couraças, que podem ser consideradas verdadeiras armaduras emocionais e também musculares em um funcionamento defensivo. Mesmo não sendo o primeiro estudioso a perceber a relevância dos meios não verbais, Reich se destaca como o pioneiro em mapear as regiões do corpo humano, local que se retém as emoções (VOLPI, 2013).

Volpi (2005) expõe que por meio do trabalho direcionado a musculatura do paciente, Reich mapeou o corpo humano em sete segmentos de couraça: ocular, oral, cervical, torácico, diafragmático, abdominal e pélvico. Cada segmento carrega desde a gestação a história singular e particular oriundas dos estresses sofridos no processo das etapas do desenvolvimento psicoafetivo vivenciado por todas as pessoas. Portanto, o trabalho de manipulação das couraças com aplicação de movimentos específicos que visam a expressão das emoções, agindo de modo direcionado ao Sistema Neurovegetativo, recebe a intitulação de Vegetoterapia Caracteroanalítica (VOLPI, 2005).

Segundo Volpi (2013), é interagindo entre si que mente e corpo ficam à mercê das impressões físicas, psicológicas e cognitivas. Nossa mente agrupa informações intelectuais, até diante de manifestações mais abstratas, ela não se separada do corpo. A mente é provida e moldada pelo corpo. Nosso corpo armazena toda nossa história, e pode-se encarar o fato de que mudanças psíquicas podem ser condicionadas pelas mudanças nas funções corporais. É devido a isso que percebe-se as diversas posturas corporais e os diferentes comportamentos, onde cada sujeito é, age e projeta-se de modo singular. Está aí a expressão do caráter. O corpo humano pode sentir, aprender, buscar se disciplinar, se condicionar e propagar os conflitos emocionais que provém da mente; estes conflitos emocionais se corporificam na região dos tecidos celulares, são refletidos na qualidade ou dificuldade do tônus muscular, nas expressões faciais, na postura, no ritmo respiratório, no tom da voz, entre outros (VOLPI, 2013).

Deste modo, Volpi (2013) afirma que a moldagem do corpo é provinda das experiências vividas, onde a primeira infância ganha maior destaque, pois nesta fase os meios para a própria defesa ainda são precários. As experiências desta fase comumente geram marcas profundas e difíceis de serem revertidas. Assim, dois caminhos se apresentam: fazer uma escuta do corpo e deixá-lo falar em seus desejos expressando seus conflitos e angústias ou reprimi-lo aos estresses físicos e psicológicos que são inevitáveis pela vida diária, desenvolvendo as couraças. Tudo que foi vivido na infância jamais será esquecido, por meio das sensações permanece registrado, e a somatização constitui-se como um veículo de comunicação destes arquivamentos encouraçados no corpo. A metodologia da vegetoterapia é voltada para a flexibilização dos sete níveis de couraça, busca-se por meio de técnicas específicas da abordagem contrair ao máximo o músculo e posteriormente o relaxar (VOLPI, 2013).

A OBESIDADE E AS ESTRUTURAS DE CARÁTER

Volpi e Volpi (2003) defendem que a fase oral, etapa do desenvolvimento compreendida entre o décimo dia de vida e os dezoito meses, compreendem um momento do desenvolvimento que foi marcado na primeira infância, no período de amamentação. Para os autores, o desmame mais adequado deveria acontecer aproximadamente aos nove meses de idade, pois a oralidade provém de um desmame precoce ou tardio. Um desenvolvimento infantil sadio deve ser permeado por uma amamentação de qualidade, ou seja, com a presença de contato e de carinho, ou melhor, de “maternagem”, seguido por um desmame gradativo. Ao contrário disso, poder-se-á ter bloqueios nesta fase que futuramente constituirão um sujeito dependente e sempre com medo da perda. Privações na fase oral levam a tendência ao pessimismo, também a sentimentos de abandono permeados ao direito de receber suporte (VOLPI e VOLPI, 2003).

Segundo Volpi e Volpi (2003), o paciente oral caracteriza-se como passivo, deprimido, dependente, com exacerbada necessidade de atenção, possuindo problemas com a atitude de assumir posição em qualquer questão e nos processos de enfrentamento da oposição. Ele ainda sente fortemente medo de abandono, demonstrando caracteres de dependência almejando a compensar na fantasia, na ansiedade e no narcisismo. Apresenta dificuldades em compreender desejos e necessidades dos outros e, assim, o segmento de couraça oral muitas vezes gera biopatias do tipo distúrbios ortodônticos, bruxismo, bulimia, obesidade, alcoolismo e etc.

De acordo com Leitner (2014, p. 3):

A interação nos primeiros anos de vida, que é vivida intensamente pela região oral, vai servir ao psiquismo infantil como modelo de respostas futuras, mais tarde ampliadas pelas interações e troca de experiências familiares. A criança experimenta o mundo colocando-o na boca. Distorções podem ser encontradas em adultos que de maneira infantil substituem o contato pela comida. O comer também pode vir acompanhado de raiva, voracidade, destruindo o alimento. Essa voracidade não contida na infância, geralmente por ausência de frustração, se estende para vida adulta. É estabelecida como a forma de contato com o mundo, diante da qual aparece no discurso de pacientes obesos como uma incapacidade de resistir a um prato dito saboroso […].

“Compreende-se que são os próprios conflitos desenvolvidos desde a concepção, e principalmente na infância, que podem desencadear a construção de um corpo obeso” (LEITNER, 2014, p. 4). Emocionalmente essa manifestação ocorre pela dificuldade que a pessoa possui em expressar seus sentimentos, devido sua agressividade precária e pela voracidade com que engole o alimento. Para pacientes que sofrem com a obesidade, a fome, emocionalmente, os remete a perda, ao desamparo, ao frio. Assim, a hiperfagia e o beliscar entram como um comportamento distorcido na tentativa de preencher um vazio existencial, presente na história de vida de cada sujeito. Contudo, pode-se entender que a carência afetiva é a experiência base do caráter oral, onde se procura sanar a carência apoiando-se nos outros, e no caso da obesidade, substituindo parcialmente o contato saudável com os outros pela comida (LEITNER, 2014). Para a referida autora:

A oralidade como traço de caráter, tem muitos traços relacionados a primeira infância. Esses traços da personalidade oral se tornam claros nos obesos, quando se observa que os corpos obesos perdem parte das características sexuais secundárias e em muito se assemelham ao corpo de um bebê “fofinho”. O nível de excitação genital é reduzido e se evidencia principalmente pelo fato de que a busca pelo prazer ainda está em parte ancorada no ato de se alimentar (LEITNER, 2014, p. 4).

Deste modo, bioenergeticamente, a obesidade pode ser definida como um contraste na relação carga x descarga do corpo. Absorve-se mais do que se gasta ou elimina, sendo que o alimento excedente é retido no corpo na forma de gordura ou acúmulo de tecido adiposo (LEITNER, 2014).

DISCUSSÃO

Leitner (2014) Discute que dados contemporâneos, artigos dentro e fora do campo acadêmico tratam o tema obesidade como um fator social alarmante. Tem sido encarado pela literatura como uma doença epidêmica multifatorial e por vezes o mal do século. Mundialmente, principalmente em países desenvolvidos, o percentual de pessoas acima do peso cresce assustadoramente, ano após ano. Este fato pode trazer severas consequências no âmbito social, médico e psicológico.

Por apresentar-se como um desafio para as mais diversas áreas do conhecimento, faz-se necessário uma investigação interdisciplinar entre diversas abordagens e áreas profissionais que atuam frente à saúde. Pesquisas de diversas áreas, bem como a percepção de muitos casos de obesidade, relatam a insuficiência de tratamentos em longo prazo seja dietético, restritivo, medicamentoso ou mesmo cirúrgico. A frustração e o fracasso terapêutico são partilhados na área clínica, como também no âmbito psicológico. Em consequência o mercado cresce cada vez mais, oferecendo produtos à base de promessas milagrosas e efeitos imediatos (LEITNER, 2014).

Provou-se cientificamente que comer de forma saudável, praticar exercícios físicos e intervir terapeuticamente, constituem-se como passos relevantes para o emagrecimento e o alcance de uma vida saudável. Em contrapartida, a questão cultural é marcante, pois o sujeito obeso ainda é visto como pessoa relaxada, fraca e pouco esforçada, sendo este estigma sentido profundamente, de modo a ocasionar severos prejuízos psicossociais. Deste modo, falar de obesidade é falar de fome e de desejo de comer, sendo este desejo algo singular e próprio, onde a relação com determinada comida pode ser vivenciada de modos diferentes de pessoa para pessoa.

Todavia, a proposta deste constructo foi analisar a questão da obesidade como um sintoma psicossomático, propondo uma possibilidade de intervenção terapêutica frente aos desafios e delineamentos atuais do referido tema. Realizando um percurso conceitual, partiu-se para uma leitura teórica da Psicossomática Corporal e da Análise Bioenergética para uma sistemática compreensão da obesidade como uma doença associada a um processo de encouraçamento e a uma fixação nas fases do desenvolvimento psicoemocional do indivíduo. Grande parte da população traz consigo algum grau do traço de caráter oral seja pela dependência, depressão, obesidade, infantilidade e outros. Sentimentos marcantes deste caráter encontram-se comumente inseridos na população contemporânea como, desamparo, solidão, ressentimento e a sensação de vazio existencial. Sendo a Psicologia Corporal uma abordagem que se dedica a estudar como a mente se manifesta comportamental e energeticamente sobre o corpo, e vice-versa, objetivando os recursos do paciente em promover a regulação de sua própria energia, e conseguintemente seus pensamentos e emoções; valeu-se do esforço relevante de apontar e estudar um viés a mais na compreensão do complexo contexto do tema obesidade e seus desdobramentos.

CONCLUSÃO

A forma de discussão dos dados escolhidos para esta pesquisa bibliográfica foi a abordagem da Psicologia Corporal, que segundo Volpi e Volpi (2003), destaca-se como uma abordagem que permeia o fato de envolver o entendimento do ser vivo, compreendendo-o como uma unidade energética que abrange dois processos paralelos: o psiquismo ou mente e o soma ou corpo. Esta área da psicologia propõe-se a estudar o modo comportamental e energético da mente de se manifestar sobre o corpo e vice e versa. Objetiva reencontrar a habilidade que o sujeito é portador de realizar uma regulagem do seu contexto energético, e conseguintemente seus pensamentos e emoções. A Psicologia Corporal deve tributos aos empenhos de Wilhelm Reich (1897-1957) que criou sua própria escola embasada na técnica da análise do caráter que se processa baseado nos bloqueios emocionais e energéticos vivenciados no que tange aos estágios do desenvolvimento psicoemocional. Para Volpi e Volpi (2003) a partir da fecundação o ser já sofre estágios no seu desenvolvimento que caracterizarão a constituição o que se chama de caráter. A psicologia corporal afirma que estresses vividos em uma etapa ou várias, são capazes de originar o tipo do caráter e seu traço. Segundo o exposto, tal fato proposto pela psicologia corporal elucida a configuração que uma pessoa adota diante de sua existência.

Volpi e Volpi (2003) comentam que a descoberta das couraças musculares foram possíveis pela prática sistemática de Reich com a técnica de análise do caráter. As couraças se apresentam como tensões crônicas formadas no decorrer da vida como um modo protetivo a experiências dolorosas e ameaçadoras. Deste modo, a análise do caráter vai além de uma terapêutica psicológica passando a ser direcionada ao corpo, abrangendo o sistema neurovegetativo, caracteres que originaram à técnica da vegetoterapia caracteroanalítica, entrelaçando em um conceito único, o trabalho nos aparelhos psíquico e físico.

Nas palavras de Reich, de acordo com Volpi e Volpi (2003) é o corpo o depositório dos registros históricos singulares de cada sujeito. Por meio deste depositório a vegetoterapia tem o intuito de entrar em contato com emoções em profundidade, estabelecendo uma mobilidade biopsíquica com a obliteração das couraças que se processam a nível de caráter e presentes na musculatura. Para isso, utiliza-se os actings que são movimentos peculiares e específicos, associados sempre aos materiais verbalizados por conta do paciente. Pode-se sugerir que a psicologia corporal se trata de um estudo bastante relevante no que diz respeito a obesidade, visto que a mesma: compreende os processos que propiciam o desenvolvimento de um corpo obeso e pela correlação que está área faz com os processos psicoemocionais, as conflitivas e os sofrimentos que podem ser os produtos oriundos de uma vida por inteira.

Sob este prisma, a obesidade se designa como uma patologia multifatorial podendo ser caracterizada na expressão do acúmulo exacerbado de gordura no corpo, disparando o aparecimento de outras patologias associadas, prejudicando à saúde. Urge compreender-se que a fome desenfreada pode ser o produto de conflitos emocionais que vêm sendo encouraçados desde a gestação do sujeito. Dificuldades emocionais na infância também se destacam na fixação do caráter oral, provocando os processos de obesidade. Portanto, buscou-se compreendê-la sob o viés do paradigma da Psicologia Corporal, levando-se em consideração a relação mente e corpo e fluxos de energia adotando o contexto reichiano original e sua continuidade pós e neo-reichiana.

REFERÊNCIAS

FERNADES, À. S. P. Obesidade: Fome de quê? – Uma visão bioenergética. SOBAB, 2013. Disponível em: http://www.analisebioenergetica.com.br. Acesso em: 07 nov. 2015.

FRANCISCHI, R., P., P.; et al. Obesidade: atualização sobre sua etiologia, morbidade e tratamento. In: Rev. Nutr., Campinas, v. 13, n. 1, 2000. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141552732000000100003&lng=&nrm=iso. Acesso em: 21 out. 2015.

GIL, Antônio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. São Paulo: Atlas, 2002.

GIL, Antônio Carlos. Métodos e técnicas de pesquisa social. São Paulo: Atlas, 1994.

LEITNER, P.C.C. A obesidade como um sintoma psicossomático um estudo de caso. In: XIX Encontro Paranaense, XIV Congresso Brasileiro e III Convenção Latino Americana de Psicoterapias Corporais, 2014, Curitiba. Anais do Congresso – 2014. Curitiba: CENTRO REICHIANO, 2014, v. 1.

MELO, M. E. Doenças desencadeadas ou agravadas pela obesidade. Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Disponível em: http://www.abeso.org/pdf/artigo.pdf. Acesso em 19 out. 2015.

NAVARRO, F. A utilização dos actings na vegetoterapia caracteroanalítica contrapondo-se às psicoterapias puramente verbais. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. In: Revista Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2003, vol. 4, p. 9-14.

OLIVEIRA, L. H.; ALMEIDA, P. de. Obesidade: aspectos gerais dos fatores, tratamento e prevenção. In: VOOS Revista Polidisciplinar, Guairacá, v. 4, n. 2, p. 34-46, 2012.

REICH, W. Análise do Caráter. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

SCARPATO, A. A Psicossomática Reichiana. In: Revista Catharsis, São Paulo, n. 28, nov-dez, 1999.

VOLPI, J. H. Quando o corpo somatiza os conflitos da mente. Artigo do curso de Especialização em Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2013.

VOLPI, J. H. Segmentos de couraça e seus correspondentes neuropsicofisiológicos. Curitiba: Centro Reichiano, 2005.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Reich: A análise bioenergètica. Curitiba: Centro Reichiano, 2003.

VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Psicologia Corporal – Um Breve Histórico. Curitiba: Centro Reichiano, 2003. Disponível em: http://www.centroreichiano.com.br. Acesso em: 03 out. 2015.

[1] Graduação em Psicologia pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC em 2017, Especialização em Docência do Ensino Superior e EJA pela Faculdade da Região Serrana – FARESE em 2019, Especialização em Iridologia pela Faculdade Einstein em 2019, Especialização em Psicologia Clínica pela Faculdade da Região Serrana – FARESE em 2019, Especialização em AEE e Educação Inclusiva pela Faculdade da Região Serrana – FARESE em 2020, cursando Especialização em Psicologia Comportamental e Cognitiva pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante – FAVENI, cursando Especialização em Psicologia Social pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante – FAVENI, cursando Especialização em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica pela Faculdade de Venda Nova do Imigrante – FAVENI e cursando Mestrado em Ciências Ambientais pela Universidade do Extremo Sul Catarinense – UNESC.

[2] Graduação em Psicologia pela Universidade do Extremo Sul Catarinense (2017), Especialização em Iridologia pela Faculdade Einstein (2019), Especialização em Neuropsicopedagogia pela Uniasselvi (2020) e Especialização em Docência do Ensino Superior pela Uniasselvi (2020). Pós-Graduanda em AEE e Educação Inclusiva pela FARESE, Pós-Graduanda em Psicologia Jurídica e Avaliação Psicológica pela FAVENI e Pós-Graduanda em Psicologia Cognitiva e Comportamental.

Enviado: Novembro, 2020.

Aprovado: Dezembro, 2020.

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