O papel da educação na formação da personalidade

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ARTIGO ORIGINAL

COSTA, Francimar [1]

COSTA, Francimar. O papel da educação na formação da personalidade. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 03, pp. 82-97 Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O estudo propõe uma reflexão acerca da formação da personalidade a partir da sua relação com a educação, visto que essa última exerce poder sobre a primeira. Para tal discorremos sobre as teorias de cinco grandes pensadores da área da Psicogênese Cognitiva, pois esses colaboram para com a Psicologia e a Pedagogia com suas pesquisas, observações e estudos. Debruçam sobre questões relacionadas ao desenvolvimento infantil, visando pensar as necessidades em cada fase, bem como, considera-se a formação social de cada uma delas.Observam-se alguns pontos de convergência como o papel social, a necessidade de compreensão e respeito as fases e individualidade de cada um, a liberdade e curiosidade na estruturação do conhecimento. A importância da formação continuada do professor e ainda o cuidado com o interior deste personagem chave nas engrenagens do saber são algumas das questões de reflexão propostas por este estudo.

Palavras chave: Educação, Personalidade, Escola, Professor, Psicologia.

INTRODUÇÃO

Este artigo tem como objetivo a realização de um diálogo sobre como a educação contribui e ampara a formação da personalidade, esta, por sua vez, é ancorada pelos pensadores da educação que refletem sobre psicogênese cognitiva. Tendo como base a importância da educação nos primeiros anos de vida na formação das pessoas, abordaremos, neste capítulo, cinco dos grandes pensadores que contribuíram com duas teorias, frutos do conhecimento e observação científica acerca do desenvolvimento infantil, são eles: Henri Wallon, Jean Piaget, Lev Vygotsky, Maria Montessori e Maria Ferreiro.

Cada um é oriundo dos mais variados espaços do saber: medicina, biologia, psicologia, filosofia, psiquiatra. Todos acabam preenchendo lacunas que, mais tarde, servirão de embasamento para a pedagogia. Assim, propõe-se pensar a ciência que fundamenta o desenvolvimento da inteligência, do pensamento, da aprendizagem, da socialização, do papel da escola socialização com o professor nesse espaço de construção do outro que é a personalidade.

Iniciando, cada vez mais cedo, o ciclo escolar em berçários, creches e a pré-escola, a criança é inserida no segundo meio social que é a escola. Como este espaço contribuirá na formação da personalidade deste indivíduo é uma das questões que norteará esse estudo. Parte-se da ideia de que introjeções se iniciam com todos os cuidados, a partir da formação de alianças com aqueles que os circulam. Consequentemente, surge mais uma questão que precisa ser considerada: quem são essas pessoas que ganham status de substitutos temporários da família?

Muitas vezes os pequenos passam mais tempo expostos neste ambiente integral, em estado de vigília, do que com a família. As longas jornadas de trabalho dos pais, fazem com que, cada vez mais cedo, a escola seja a opção mais adequada pelo estimulo especializado, assim como por proporcionar a sensação segurança, comodidade e proteção.

É importante que se trabalhe a conscientização a partir do professor, dos auxiliares de sala bem como de todos que circulam nesse espaço, visando que esses tenham noção da importância que possuem no processo de desenvolvimento de características nesses indivíduos que tomam conta, pois esses resultados poderão ser percebidos seis anos mais tarde, dessa forma, é preciso entender que esses profissionais terão um impacto expressivo sobre a vida da criança, como coloca Piaget. Com esta estrutura também é construída a alfabetização, o letramento, a capacidade de ler, compreender e escrever textos. O acúmulo de todo este material somado ao logo dos anos faz parte da base que sustenta o indivíduo.

A construção afetiva, neste período, dará subsídios para a compreensão não só de textos, mas da realidade externa e das relações interpessoais que fazem parte do cotidiano dessas crianças. As emoções e sentimentos, dessa forma, passam a ser consideradas nesta interpretação assim como os traços de cada um, pois eles, com o tempo, são expostos bem como as suas necessidades.

DESENVOLVIMENTO

Para entender o processo do desenvolvimento infantil é imprescindível conhecer os conceitos que norteiam esta teoria. Para tanto, os autores mais expressivos serão chamados à discussão para se refletir sobre a formação da personalidade:

1. Henri Wallon de origem francesa (1879-1962) foi um médico psiquiatra, psicólogo, psicanalista e filósofo. Wallon destaca as emoções como as primeiras manifestações afetivas presentes na criança, assim são fatores fundamentais para que haja a interação da criança com o meio que se insere. Em seu livro “A educação psicológica da criança”, de 1941, aborda que a inteligência é secundaria a afetividade, dessa forma, a noção do eu vai se destacar em cada sujeito de acordo com o meio, inserido no seu contexto. A infância funciona como um estado provisório, mas se configura como uma fase com sentido em si próprio, assim, é um estado inacabado que transformará esses seres, no futuro, em adultos. Busca-se esse desenvolvimento a partir do aprimoramento de suas necessidades atuais.

A escola irá buscar relativizar e articular-se a partir da história dessa criança, para tanto, considera-se a bagagem, a singularidade e o repertório desta como também resultado do seu meio. Este espaço é um caminho de conciliamento que atua no contexto privilegiado para o estado da criança, onde as emoções se inserem em um campo maior que a afetividade. Como há uma variedade intensa, expressam-se de forma visível para o outro, elas tentam, também, chamar a atenção de todo o grupo familiar, buscando, principalmente, contagiá-los com as suas emoções. A função das emoções é, principalmente, social, assim este é o primeiro recurso de interação acionado para chamar a atenção. A inteligência nasce das emoções, baseada na linguagem e desenvolve a inteligência discursiva. Dessa forma, instala-se um antagonismo entre a inteligência e a emoção conflitosa.

Analisado as origens do conhecimento na criança, apresenta duas particularidades do pensamento infantil. A ausência do pensamento reflexivo que configura a capacidade de pensar o próprio pensamento, e a ausência da tomada de posição que configura a capacidade de assumir um ponto de vista. Tomaremos agora a segunda particularidade que guarda relações com outro traço próprio do pensamento infantil: A alternância entre afirmações opostas. Wallon afirma que o pensamento infantil é “fluído” pelo menos sobre dois aspectos: o da solução entre hipóteses contraditórias e o da interferência mutua entre a linguagem verbal e imagem (PEREIRA, 2012).

O pensamento sincrético, por sua vez, é uma fusão da representação mental do concreto. A criança não separa a qualidade da coisa. Por exemplo, se a mãe se chama Maria, não há outra Maria, só a mãe dessa criança, assim, ela não compreende a dinâmica e fica confusa.

A diferença fundamental leva ao pensamento categorial, ou seja, à separação por categorias, o que é fundamental para que haja a interação com a cultura, nela existem as diferenciações, ou seja, as peculiaridades. Esta é a fase escolaridade. Este pensamento permite, ao adulto, a formação do raciocínio, de teorias e das novas invenções, dessa forma o sincretismo continua fazendo parte desta obra.

Wallon tem como base, na sua teoria, as contradições, pois devido à dupla origem do seu saber, a criança preenche as próprias lacunas com as explicações e conceitos do outro para, mais tarde, na adolescência, excluir esse outro de si, pois já é capaz de formar a sua própria opinião. Este é um processo fundamental para o desenvolvimento da criança.

A criança não é apenas um resultado linear do seu contexto familiar pois a escola como o segundo útero social no contexto de desenvolvimento pode criar um ambiente que adequa, ambienta, cria outras relações com a criança diferente do contexto familiar. A escola pode ser uma alternativa positiva par o desenvolvimento da educação pois ensina a essa criança papeis diferentes do que está acostumada a aprender em sua casa. Destarte, elas precisam ser estimuladas para que se desenvolvam e aprendam os princípios mais básicos, como aprender a localizar os lugares aos quais costuma frequentar.

No currículo escolar, por sua vez, é importante que haja a valorização da arte, pois como se parte do princípio de que a criança aprende a socializar por meio da cultura, a arte acaba por ocupar um papel fundamental nesse processo, pois é por meio desse contato que a criança aprende a construir a sua própria identidade, pois é a partir do contato com a cultura que as suas especificidades acabam por ser reveladas. Essa identidade é construída a partir da imitação das pessoas, pois é esse contato que faz florescer a particularidade dessa criança. Freud entende que “a criança responde as impressões que as coisas lhe causam com gestos dirigidos a elas”. Esse movimento promove aprendizagem e o pensamento pois é sustentado na dinâmica no qual esse sujeito está inserido.

2. Jean Piaget- de origem suíça (1896-1980) foi Biólogo, Psicólogo e Epistemologista. Criou a epistemologia genética e, assim, foi considerado como um cientista que muito pode até se confundir com pedagogo. Ele é um autor que se apoia na psicologia e, dessa forma, contribui com fundamentações teóricas para embolsar a pedagogia. Sua obra se baseia em como a criança constrói o conhecimento, e mais importante, investiga como se desenvolvem a partir de uma perspectiva construtivista e interacionista. Piaget estudou, pesquisou a criança de 0 a 4 anos para entender como, aprendem, brincam e possuem interesse pelo conhecimento. Os primeiros seis anos de vida tem um impacto sobre o adulto da criança.

O processo de escolarização é importante no processo de autonomia para as fases subsequentes. Era um grande estudioso de teorias da educação. A partir do século XV, Worinton, criador da autogenética, passou a ver o papel da natureza e da cultura no processo de aprendizagem. Há duas fases na construção da sua teoria: A primeira, ocupa-se em pensar a linguagem e a representação que a criança tem das coisas, para tanto, apoia-se nas perguntas clássicas para criança e no julgamento moral. Na segunda fase passou-se a observar os filhos e, portanto, dedicou-se a pensar sobre o nascimento da inteligência e a construção da realidade. Assim, foram desenvolvidas quatro fases. No livro de 1975 tinha-se como objetivo entender e interpretar a realidade.

O primeiro estágio buscou analisar as crianças de 0 a 2 anos. Foi chamado de sensoriamento, pois buscou-se desvendar o fenômeno da inteligência prática, ou seja, ocupava-se em entender como as questões poderiam ser resolvidas a partir da ação. Nesse estágio, o mundo é entendido e percebido a partir dos sentidos, dessa forma, caracteriza-se como uma estrutura ainda rudimentar. O período dos 2 anos 7 anos, por sua vez, é chamado de pré-operatório, pois é caracterizado como uma fase egocêntrica devido ao fato da criança não conseguir perceber o outro, ou seja, não há um movimento de troca com o outro. É o momento onde a linguagem é desenvolvida, mas há pouca interação. São estágios essenciais para o desenvolvimento da criança. A inteligência é uma forma de adaptação do indivíduo ao meio, a cada fase desta evolução pois corresponde novas acomodações do saber. Neste, o pensamento depende de dados perceptíveis.

Dos 7 aos 11 anos há o estágio operatório concreto. Já há uma coordenação das percepções, pois a criança começa a conceituar o mundo, entender diferenças, aprender de forma prática assim como aprende a pegar, construir e elaborar coisas. Passa, também, a entender como as coisas funcionam e a construir um raciocínio. Desenvolve, ainda, a cognição, e, por conta disso, consegue pensar de forma mais racional bem como consegue manipular objetos.

Dos 11 aos 15 anos há o estágio operatório formal. Nele a criança desenvolve a capacidade do pensamento lógico e dedutivo, assim consegue aprender a abstrair, a elaborar o conhecimento subjetivo e linguístico sem precisar do auxílio de elementos palpáveis, pois consegue pensar, associar e elaborar construções e hipóteses lógicas. Uma fase bastante presente neste período é a puberdade, pois, do ponto de vista biológico, há grandes transformações. Surge, nesse período, questões como a identificação sexual, pois é o momento em que o amadurecimento ocorre.

Com a adolescência há uma efervescência cognitiva, pois, há a abertura a novos saberes, conceitos e possibilidades de raciocínio, discussões, confrontos e de pensamento próprio, contudo, há, ao mesmo tempo, o desenvolvimento da imoralidade, da tomada de posições, das escolhas ideológicas, políticas, religiosas. Há diálogos internos, autorreflexões e a autocorreções assim como passam a ter novos conceitos científicos e filosóficos.

Enfim, a identificação do eu é um processo de individualização que se soma ao longo destes anos com intuito de construir o adulto a partir da criança.

3. Lev Vygotsky- natural da Bielorrússia (1896-1934) foi um psicólogo judeu, fundador da psicologia histórica cultural ou sócio interacionista. Seu enfoque centrou-se na interação social, assim, entende que o pensamento e a linguagem têm funções distintas. Em “A Formação social da mente”, seu livro reeditado em 1991, defende que a linguagem é socia. Entende que embora esta seja um instrumento do pensamento, ambos percorreram caminhos diferentes (linguagem e pensamento). De 0 aos 2 anos, a criança passa pela fase pré-intelectual do pensamento. Nessa etapa a inteligência é mais prática e objetiva, sua linguagem, é, basicamente, o choro para comunicar o que quer, pois isso alivia o emocional uma vez que não há o domínio da linguagem. Após essa fase a fala se intelectualiza se unindo ao pensamento verbal, este é o momento em que o biológico se transforma no sócio histórico. Assim a relação interage com os que estão ao seu redor. Para Vygotsky o desenvolvimento é de fora (social) para o interior. Assim, a criança vai falar e conversar com os brinquedos a partir de atitudes egocêntricas, mas não é algo que perdura por muito tempo. Dessa forma, a função passa a ser intrapsíquica pois o sujeito pronuncia o que pensa, sem pensar muito.

A cultura se integra ao homem pela atividade cerebral estimulada pelo social e permeada pela linguagem. A linguagem e o pensamento agora estão fortemente ligados. Uma das etapas mais importantes é a zona de desenvolvimento proximal, essa define a distância entre o que já desenvolveu na atualidade e o que irá aprender. É o intermediário entre o que se sabe e o que vai saber. Existe uma estratégia para desenvolver do conhecimento real para o potencial, é um ciclo que não acaba, pois sempre aprendemos algo novo. A interação que toma forma no meio social é o resultado da construção sua com o outro no coletivo, dessa forma o saber é construído a partir dos símbolos e metáforas que mediam o indivíduo com a cultura. Sem interação não há desenvolvimento, sem mediação não há internalização.

A internalização aqui se completa com a reflexão do nome e significado (sigo e significado) pois traz para o plano concreto conhecimentos, papeis e valores sociais. Em pensamento e linguagem 1996, temos então como fatores importantes para Vygotsky.

1.Mediação – o conhecimento é adquirido através da interação entre vários interlocutores, numa relação em que todos os envolvidos são ativos.

2.Linguagem: sistema simbólico de significados e significantes dos grupos humanos que favorece o intercâmbio social e o fenômeno do pensamento.

3.Processo de interiorização que envolve um componente interno e outro externo de forma que o interpessoal se torna pessoal.

O aprendizado adequadamente organizado, resulta em desenvolvimento mental e pôr em movimentos vários processos de desenvolvimento que em de outra forma seria impossível de acontecer (VYGOTSKY, 1954).

O desenvolvimento mental adequado passa pela introjeção da cultura de fora para dentro. A realidade observada pela criança, por sua vez, determinará sua construção enquanto personalidade. A família, a escola, estados sociais e os lugares fazem com que algumas questões passem a ser consideradas tais como a saúde, a doença, a adaptação e o desajuste.

4. Maria Montessori: nascida na Itália (1870-1952) foi médica psiquiatra e educadora. Montessori criou um método que se assemelhava bastante a uma didática para a humanidade ser melhor. Iniciou, assim, a formação em medicina. Foi a primeira mulher italiana a frequentar uma faculdade de medicina. Em 1904 se torna livre docente pela universidade de Roma e assume a cadeira de antropologia e em 1907 cria a casa “De Bambini” que serviu de modelo para o método montessoriano. Este modelo teve como primeiro público filhos de operários. Partia da observação de crianças consideradas como “idiotas”, pois possuíam alguma deficiência cognitiva.

Em 1911, ela abandona os trabalhos como médica e passa a se dedicar a pedagogia, momento em que as escolas italianas e suíças passaram a adotar seu método. Depois EUA, Espanha, Inglaterra, também aderiram e ela passou a oferecer um curso de formação de professores. Parte do princípio que o processo de aprendizagem deve ser espontâneo, e, assim, deve tomar forma a partir das experiências do ambiente, dessa forma, incentiva-se o aprendizado na prática, escolhendo o que saber e como saber. Apresentou um trabalho em um congresso em Turim que trazia como exemplo as crianças “idiotas”, ou seja, os deficitários, observados por ela no hospital psiquiátrico. Defendia que eles precisavam de um bom método e não da medicina. Elas necessitam aprender como refinar a audição, a visão e a percepção de alimentações.

O método foi desenvolvido com materiais de casa, do dia a dia como: vassoura, mesa, cadeiras pequenas, dentre outros. A criança era exposta aos objetos que foram se aperfeiçoando e escolhiam o que melhor se adequava a elas. Agregava-se os materiais da vida prática, como o material dourado que é usado, hoje, em escolas tradicionais. Esses materiais produzidos aguçam a curiosidade da criança que aprende e se autocorrige e esse erro não é apontado pelo professor. O desenvolvimento da autodisciplina deve ser trabalhado em sala de aula pois só há um exemplo de cada material, assim a criança aprende a esperar e a guardar o material.

Na formação do professor, é necessário que conheça cada elemento, sobretudo o objeto que leva para a sala de aula e, para tal, é importante que tome ciência acerca de todas as fases do desenvolvimento infantil assim como as suas necessidades, dessa forma deve se tornar um observador, um orientador. Ninguém tem a iniciativa sem se exercitar, assim o método deve trazer autonomia à criança e essa deve aprender a desenvolver a sua personalidade a partir dele, de forma, sempre, autônoma.

Insistimos afirmar que o professor, pai, deve se preparar interiormente, está dando a si mesmo com metódica constância a fim de conseguir suprimir os próprios defeitos enraizados que constituem obstáculos as suas realizações com a criança, para descobrir os defeitos ocultos na consciência, necessitamos de ajuda externas, de uma certa instrução. É indispensável que alguém nos diga o que devemos ver em nós mesmos, nos preparando excessivamente com a maneira de corrigir os defeitos das crianças quando deveríamos começar a estudar nossos próprios defeitos, as más tendências. Tire primeiro a trave do seu olho e saberás tirar a trave de uma criança (MONTESSORI, p. 18, 1965).

Como podemos, com nossa ferida aberta, notar as dores atrozes em curso? Somos cientistas e observadores assim devemos entender que a criança apenas precisa da orientação para descobrir o saber e para escolher o que querem conhecer de acordo com o nível de desenvolvimento individual de cada um, conforme as mais diversas curiosidades e necessidades. Montessori recomenda o conserto de nossos defeitos assim como a cicatrização e entendimento das nossas feridas pois só assim conseguiremos acessar a criança. Os educadores e as escolas precisam ser preparados e transformados para receber e assumir o papel de desenvolvedor do desenvolvimento da criança. Observou-se ao longo do desenvolvimento da sua teoria, passagens bíblicas como cita em pedagogia científica que apontam o que se defende neste estudo.

Ezequiel 37: 1-11: Que lhe pareceu adapta-se a educação de deficientes bem como quando o discípulo questionou o cristo em Matheus 18: 1-4: Mestre como será o maior de todos os reinos dos céus? O cristo acariciando a cabeça de um pequeno que o observava maravilhando responde: quem pode igualasse a esta criança, este será o maior no reino de deus (MONTESSORI, p. 15, 1965).

Ela cita, como exemplo, a alma simples e nobre da criança, pois está pronta para o burilamento devido ao fato de que tem a liberdade para escolher, aprender e desenvolver suas potencialidades. Para isso, parte ao seu redor, como as matérias e os instrumentos oferecidos por esse método. Esse processo ajuda a criança a manipular e explorar para desenvolver suas capacidades a partir de alguns pilares educacionais:

1. Autoeducação: a criança é capaz de aprender sozinha uma série de coisas como andar, falar, comer pegar coisas, reconhecer vozes, dar e receber carinho, dentre outras, porém, nem sempre damos conta disso. Essas ações revelam que o adulto estimula e orienta a criança, mas a confiança nasce apenas a partir dela assim como o seu potencial. Esse processo de aprendizagem deve ser baseado na confiança, na liberdade e no ambiente adequado. Os desafios devem ser postos um por vez, pois é a própria criança quem deve perceber e corrigir seus erros.

2. Educação Cósmica: é uma forma de manter a criança interessada, para tanto, têm-se como objetivo fazer com que ela perceba que uma coisa está conectada à outra, pois uma depende da outra para existir. Entendo esse processo, a criança irá se sentir instigada a perguntar sobre o mundo a sua volta. A produção desse saber pode ser incentivada a partir de histórias e perguntas feitas pelo educador para encantar esses sujeitos.

3. Educação como Ciência: estudos apontam que as escolas, ainda, dependem do modelo proposto no período da Revolução Industrial que era baseado no poder fixo nas mãos de alguém autoritários e no seguimento rígido das ordens. Em relação ao método nessa perspectiva, percebe-se que a criança era estimulada a escolher por algo e repetir quantas vezes quisesse para exercitar a sua liberdade e confiança.

4. Ambiente preparado: promove a ideia de que é necessário haver um ambiente apropriado, organizado e preparado para que a criança possa agir. Dessa forma, o tamanho desse espaço, o material fornecido, a simplicidade, dentre outros aspectos, faz com que a criança busque tanto o equilíbrio quanto a independência.

5. Adulto preparado: apenas um adulto com caráter transformador conseguirá fazer com que a criança confie no seu trabalho, ou seja, no que diz e ensina. Percebe-se que as crianças buscarão, a partir da análise das ações desse adulto, sanar as suas necessidades. A ajuda é sempre necessária, para tanto, é importante que a criança seja encorajada para que desenvolva a sua independência assim como para que seja capaz de associar as coisas.

6. Criança equilibrada: possui, sempre, algo como um guia interior dentro de si, é nato a ela. Esse guia indicará qual a necessidade que precisa ser desenvolvida com mais afinco em cada fase. Caso esse mestre interior seja respeitado, a criança conseguirá se desenvolver de forma equilibrada, concentrada, generosa, esforçada, cheia de atitude e independência assim como considerará, sempre, o que o outro tem a dizer. O equilíbrio natural é a principal proposta do método, ele, portanto, depende da harmonia e da união dessa criança com os seus outros.

Montessori, nesse sentido, respeitava todas essas fases em seu estudo, pois defendia que haveria um melhor aprimoramento nas funções neuropsicomotoras, os sujeitos seriam mais autônomos, tornar-se-iam adultos seguros, etc. Também defendia a importância dos valores morais como a gratidão, a compaixão e até mesmo a fé nesse processo de amadurecimento. Acredita que são atributos inerentes ao desenvolvimento do conhecimento, e, assim, são valores que precisam crescer juntos à descoberta do saber, pois os sujeitos crescem de forma mais humanizada.

5. Emília Beatriz María Ferreiro Schavi (1937) nascida na Argentina, formou-se em psicologia e foi pesquisadora assistente de Piaget. Hoje tem 81 anos, ativa, vive no México. Para Ferreiro, o professor mobiliza vários tipos de saber porque assume diferentes papeis: como aluno, como filho, como colega de trabalho, etc. Esse seu saber especializado é necessário para que consiga ajudar a criança a progredir. Sem esse, acabará por copiar, sempre, colegas mais velhos, o que pode fazer com que ele reproduza os mesmos erros que critica. A autora discorre ainda, sobre a dificuldade história em se aceitar mudanças. Nota-se que quanto mais se adere a métodos antigos, mais rígida será a postura do professor. Chama a atenção, também, para o fato de que se o desenvolvimento infantil não for devidamente trabalhado, a criança não conseguirá desenvolver as suas potencialidades.

Numa entrevista ao programa nova escola, dirigido por Telma Weisz em 2013, Emília defende a formação permanente com acessória ao local de trabalho. Dessa forma, defende que devem haver mudanças tanto no Currículo quanto na própria formação docente, assim, a prática diária deve considerar o contexto desses alunos, ou seja, o seu cotidiano. Essas questões devem ser elencadas em todos os momentos em que a relação ensino-aprendizagem possa ser trazida como pauta de reflexão. Para tanto, é importante que a Secretaria de Educação não supervisione apenas os aspectos administrativos, logo, burocráticos, dessa escola. Ela deve possuir uma visão atenta ao plano pedagogo, e, assim, propor estratégias efetivas considerando o que realmente ocorre no planejamento prático do dia a dia.

Alguns dos aspectos estudos por seu método foram a sociabilidade, a afetividade, os aspectos motores e a aplicação do conhecimento. Para isso, apoiou-se em estudos de caso e em diagnósticos fornecidos pela escola. Funcionaram como instrumentos norteadores para pensar em alternativas para resolver os entraves da área da Educação. Entende que, como em toda pesquisa, há uma especificidade, nesta, por sua vez, ocupou-se em defender que não basta manter a pergunta “o que ensinar” em mente, é preciso substitui-la por “como ensinar”. Para essa análise, uma pesquisa foi feita junto à Ana Toberosky no ano de 1985, em Buenos Aires. O público alvo eram crianças de 4 a 5 anos. Concluíram que para aprender a ler e escrever, o discente enfrenta quatro fases.

1º fase: pré-simbólica: a criança entende que a escrita é uma forma de representação, assim, sabe que pode usar letras ou pseudoletras, porém, não entendem que a escrita é a representação da fala, dessa forma, organiza as letras a partir de quantidades. É muito comum que relacionem o tamanho da palavra com o do objeto.

2º fase: simbólica: divide-se em duas:

  1. Simbólica sem valor sonoro: a criança ainda não consegue fazer a relação entre o som e a grafia da letra que utiliza, pois ela ainda não é a representação da fala para a criança, assim acaba por usar a letra para representar cada símbolo sem se preocupar com o valor simbólico.
  2. Sílaba com o valor sonoro: a escrita começa a representar a fala, pois, a criança percebe a relação do som com a grafia, dessa forma escreve uma letra para cada silaba.

3º fase: silábica alfabética: apresenta escrita em algumas das vezes, de forma completa ou incompleta e a alternância para a escrita alfabética.

4º fase alfabética: faz a correspondência entre fonemas e grafemas, porém o sujeito ainda não domina os nomes ortográficos da língua. Escreve como fala.

No livro psicogênese da língua escrita, ferreiro estabelece as fases de aprendizado dos alunos e declara que pelo fato dos indivíduos serem diferentes, essas fases poderão ocorrer em momentos diferenciados, entre algumas crianças em outras podem estar presentes, caberia ao professor está atento a cada processo individual e promovendo intervenções que Pvdessem ajudar a criança no processo da escrita (MACHADO, p. 35, 2015).

Os professores são produtores ativos, dessa forma atuam como interventores no processo de aprendizagem. Se não há capacitação, não há instrução, e, assim, não conseguirá ajudar essa criança a se desenvolver. O conhecimento nos cursos de formação terá que ser amparado por pesquisas situadas na área da Educação Infantil. Ferreiro, em seu estudo, aponta, ainda, que há uma falha no sistema de contratação. Cada vez mais professores que não são especializados em todas as fases do desenvolvimento infantil têm sido contratados, dessa forma, eles não estão aptos para ajudar essas crianças efetivamente pois falta a formação necessária. Como há a defasagem desses profissionais, ou seja, não são muitos os especialistas, acaba-se por contratar esses docentes que não estão capacitados. Entretanto, ele pode, com o tempo, especializar-se para aprimorar a sua prática.

Como tentativa de romper esses estigmas, a autora propõe que seja feita uma mudança radical nas concepções sobre aquisição de leitura e de escrita. Para isso introduziu uma nova didática para se ensinar a língua. Nela a alfabetização é vista como uma construção do conhecimento, não atuando, apenas, como o local do acúmulo ou de informações sem significado. A cultura da escrita, por sua vez, deverá ser ensinada com carinho e respeito, pois é um momento onde haverão muitas coisas que esses alunos nunca viram, logo não compreendem. Assim, é papel do professor incentivar essa busca pelo conhecimento acerca do desconhecido. Incentiva-se a leitura em voz alta para evocar o mistério, a curiosidade a consequente busca. Precisa deixar claro, também, a importância de ler e escrever bem como deve entender a função da língua escrita, pois é um dos elementos mais fundamentais da Educação Infantil. Deve-se partir do princípio de que lendo a criança aprende a escrever assim como se aprende a falar e andar gradativamente, em um primeiro momento, sem perfeição.

CONCLUSÃO

Para concluir, podemos retomar as ideias principais dos autores apresentados. Wallon coloca, de forma ímpar, que a criança não é interferida e movida apenas pelo meio familiar. A escola também a ajuda a se desenvolver porque é um ambiente social que adequa, cria e estimula outras relações, uma vez que é, sempre, contextualizada a outras possibilidades. Assim o ambiente social da criança é o responsável por determinar a sua existência pois fornece o primeiro meio de satisfação das suas necessidades.

Piaget, por sua vez, debruçou-se na teoria acerca de como a criança constrói o seu conhecimento. Sua pesquisa, até hoje, funciona de base para o surgimento de outras teorias. Ele foi para a Psicologia e para Pedagogia o que foi Darwin para a Biologia, visto que ele construiu a teoria da evolução neuropsicopedagógica. Assim, entendia que os fenômenos humanos são biológicos em suas raízes, mas intrinsecamente sociais em termos de finalidade e de localidade.

Vigotsky entendia que o aprendizado deve ser adequadamente organizado. Deve resultar em um desenvolvimento mental e não em um movimento onde ocorre vários processos. Para se entender a dificuldade de uma determinada criança, deve-se adentrar em seu núcleo familiar para orientar, discutir problemas futuros, fortalecer o indivíduo e, sobretudo resolver conflitos. Entende-se que a defasagem do desenvolvimento pode estar relacionada com esse núcleo familiar.

Montessori, por conseguinte, entende que para que a criança possa aprender e se desenvolver, ela necessita da liberdade de escolher o que, como e quantas vezes irá aprender. Os erros devem ser descobertos e corrigidos a partir delas mesmas, em um ambiente apropriado com os materiais devidos, observadas pelo professor que, por sua vez, deve ser capacitado para orientar essas crianças. Elas devem se sentir confortáveis para conseguir aprender com esses erros, dessa forma a liberdade precisa ser, continuamente, incentivada.

Por fim, Ferreira defendeu que um dos maiores danos que se pode causar a uma criança é a condução à perda da confiança e da capacidade de pensar. Assim sendo, deve-se capacitar o professor para que ele possa intervir de forma adequada para anular ou amenizar essa sensação nas crianças, dessa forma, é importante que haja, sobretudo, o respeito à individualidade. Como estratégia, propõe-se a leitura em voz alta para estimular o mistério e a curiosidade no alvo, ou seja, no aluno aprendiz.

Propôs-se este tudo pois acredita-se que a escola deve atuar, junto com a família, como um ambiente propício para que a criança se desenvolva plenamente. Para tanto, elencou-se os autores para amparar a defesa de seus conceitos e teorias relacionados ao desenvolvimento do saber. É um processo que deve ser entendido como um grande útero social, ou seja, como um espaço de formação de pessoas, como um local para o desenvolvimento do saber, como um sítio de promoção à saúde mental. É importante entender esse processo como um jardim que disponibiliza as ferramentas adequadas para cada fase, pois essas conseguem solucionar conflitos, transformar a realidade e edificar um indivíduo produtivo, seguro e com valores que podem tornar o mundo melhor no futuro.

REFERÊNCIAS

FERREITO, E; TEBEROSKY, A. Psicogênese da língua escrita. Porto alegre: Artes Médicas, 1985.

MACHADO, G. Et al. A teoria educacional de Emília Ferreiro. Reflexões necessárias em Maringá, 2015.

MONTESSORI, M. Pedagogia Científica: a descoberta da criança. São Paulo: Editora Flaboyant, 1965.

PEREIRA, C. Psicologia em estudo. Maringá v.17, n. 2, p. 277-286, 2012.

PIAGET, J. A construção do real na criança. São Paulo, 1975.

PIAGET, J. O inconsciente afetivo e o inconsciente cognitivo: problemas de psicologia genético. Rio de janeiro,1973.

PIAGET, J. Seis estudos de psicologia. Rio de janeiro: Forense, 1973.

VYGOTSKY, L. S. A brincadeira e seu papel no desenvolvimento psíquico da criança. Revista virtual de gestão e iniciativas sociais, 2007.

VTGOTSKY, L. S. A formação social da mente: O desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins, 1991.

WALLON, H. Do ato ao pensamento. Petrópolis: Vozes, 2008.

[1] Psicóloga, Especialista em Saúde Mental, Mestre em Educação.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Maio, 2019

 

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