Suicídio Infantil: A Autodestruição Silenciada

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CONTEÚDO

DANTAS, Talyanne Nobre de Figueiredo [1], DANTAS, Thayse Elayne de Oliveira [2], SILVA, Carlos Roberto de Morais e [3]

DANTAS, Talyanne Nobre de Figueiredo; DANTAS, Thayse Elayne de Oliveira; SILVA, Carlos Roberto de Morais e. Suicídio Infantil: A Autodestruição Silenciada. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 07, pp. 33-55, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Esta pesquisa busca investigar os multifatores que estão por trás do suicídio infantil, entendendo e descrevendo o porquê se manifestam de forma silenciada, utilizando o método de pesquisa de revisão bibliográfica acerca do suicídio na infância, veiculados em bases eletrônicas. Foram feitas pesquisas nas bases eletrônicas Pepsic, BVS, Lilacs e Scielo. Também foram realizadas pesquisas de fontes localizadas em artigos, livros, dissertações de mestrado e tese de doutorado. Segue uma ordem de organização de conteúdo, a qual se inicia com o suicídio em discussão, acompanhado da exposição dos índices de suicídio geral e infantil. Na sequência é descrito o desenvolvimento da infância e sua relação com a morte, abordando posteriormente os multifatores influentes para o pensamento suicida até a realização do ato, explorando as possibilidades do ser criança, e finalizando com uma proposta interventiva para a sociedade, onde inclui profissionais, instituições e a integralidade de ambos, para observar e refletir nas possibilidades de mudança da negativa realidade aqui apresentada.

Palavras-chave: Suicídio Infantil, Suicídio, Infância, Suicídio na Infância.

1. INTRODUÇÃO

O tema abordado refere-se ao suicídio como uma realidade presente na vida de muitos indivíduos de várias faixas etárias e em vários contextos culturais, como uma maneira de cessar os próprios sofrimentos, enxergando tal ato como solução. Algumas das possíveis causas que influenciam o comportamento e ato suicida, como mostra a Organização Mundial de Saúde (2012), são: a depressão, histórico familiar de suicídio, uso de álcool e drogas na família, abuso sexual, abuso de poder, bullying, estresse, pressão interna e a dificuldade de interação social. Entretanto, mesmo com a presença de tais fatores influentes para com o indivíduo, como relatado pela OMS, bem sabemos, que as causas determinantes estão muito além de fatores individuais, assim como Durkheim (2000) reflete em seus escritos, é um problema mais social do que puramente individual, envolvendo, por exemplo, o meio cultural e as relações sociais.

Sendo também, questões influentes para tal pesquisa, a inquietação que nos trouxe o assunto e a necessidade de conscientização e desmistificação em relação ao tema, para criar condições de enfrentamento e articulação de saberes e práticas de profissionais e instituições, para combater tal realidade.

A pesquisa discorre sobre os dados mundiais e depois nacionais sobre os suicídios em geral e em seguida, focando nos dados de suicídio infantil. Expondo sobre a construção histórica da infância, as mudanças culturais e alguns dos principais fatores, principalmente culturais, que tem agravado o número de suicídios infantis, tornando-o assim, um problema social e de saúde pública. Focalizando também, na importância da expansão do tema na sociedade para se construir uma cultura mais consciente e preparada para lidar com a morte, não apenas em sua aceitação, mas principalmente, como prevenção.

2. O SUICÍDIO EM DISCUSSÃO

O suicídio, em uma visão geral e profunda, como cita Bouchard, (2002, apud COSTA E ADRIÃO, 2005, p. 1) “é um meio de coerção e de vingança contra sentimento de importância e de incapacidade de mudar uma situação problemática. O objetivo é mais, na maioria das vezes, mudar de vida e não, por fim à mesma”. Já a tentativa de suicídio é caracterizada como uma ação malsucedida de pôr fim a própria vida.

De acordo com Bertolote & Fleischmann (2002 apud BARBOSA et al, 2011), estima-se que em 2020, aproximadamente 1,53 milhões de pessoas no mundo morrerão por suicídio. Isso significa que um número de dez a vinte vezes maior de pessoas tentará suicídio. Representando um caso de morte por suicídio a cada 20 segundos e uma tentativa a cada 1 ou 2 segundos.

Em termos globais a mortalidade por suicídio aumentou em 60% nos últimos 45 anos, especialmente entre adultos jovens (MCGIRR et al, 2007 apud BARBOSA et al, 2011).  A Organização Mundial de Saúde (OMS) ressalta que a cada 40 segundos uma pessoa comete suicídio, sendo cerca de 2.192 pessoas por dia, e mais de 800 mil pessoas por ano (OMS, 2014 apud ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA, 2014). E segundo a WHO (et al, 2014 apud BOTEGA 2014), esses números superam a soma de todas as mortes causadas por homicídios, acidentes de transporte, guerras e conflitos civis.

É importante destacar que nesses dados não estão incluídas as tentativas de suicídio, que são de 10 a 20 vezes mais frequentes que o próprio ato em si. Entretanto, é importante ressaltar que como afirma Meleiro (2004 apud BARBOSA et al, 2011), os dados oficiais relativos às tentativas de suicídio são mais falhos do que os de mortalidade por suicídio. E que as informações que a OMS disponibiliza estão subnotificadas, pois nem todos os países enviam seus dados atualizados.

No Brasil, conforme os dados apresentados pela Associação Brasileira de psiquiatria (ABP), em 2012 foram registradas 11.821 mortes por suicídio, aproximadamente 33 mortes por dia. Com um aumento de 10,4% entre 2000 e 2012, e dentre esta porcentagem, 30% desse aumento ocorreu entre jovens (ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE PSIQUIATRIA, 2014). Os dados sobre mortalidade por suicídio no Brasil são constatados pela verificação dos atestados de óbitos, os quais são reunidos pelo Sistema de Informações de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Esses dados costumam estar subestimados, pois segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estima-se que 15,6% dos óbitos não foram registrados em cartório (sub-registro), e que, segundo estatísticas do Ministério da Saúde, o IBGE calculou que 13,7% dos óbitos ocorridos em hospital, podem não ter sido notificados (subnotificação), referentes ao mesmo ano (IBGE, 2006 apud BOTEGA 2014).

Tais subnotificações contribuem para que o assunto se torne camuflado e classificado como outras causas de morte, como afogamento, acidentes automobilístico, envenenamento acidental e mortes por causas indeterminadas. Segundo uma pesquisa, foi observado que as mortes por causas indeterminadas têm superado o suicídio em países da America Latina, incluindo o Brasil. Sendo que, grande parte de tais mortes são consideradas suicídios, como em pesquisa feita no Estado de São Paulo, por exemplo, que de 496 óbitos, 11 derivou-se de suicídio e que 66% ainda continuou com causa indeterminadas.  (BOTEGA, 2014).

O órgão responsável pelo envio dessas informações das declarações de óbito ao Ministério da Saúde, segundo Barbosa et al (2011) é o Instituto de Medicina Legal (IML), mas ainda conforme citam as autoras, nem todas as regiões do país preenchem os dados corretamente. Dessa maneira, conforme esclarece Barros (2003 apud BARBOSA et al, 2011), a OMS consegue rastrear apenas 80% das mortes no país.

Diante das publicações sobre o assunto, percebemos que o suicídio vem crescendo significativamente nas últimas décadas e envolvendo todas as faixas etárias e também os vários contextos socioeconômicos.

Como afirma Botega (2002 apud BARBOSA et al, 2011) refletir sobre o suicídio é também analisar por que este fenômeno tem sido silenciado ao longo dos anos pela sociedade, autoridades responsáveis, profissionais de saúde e familiares, camuflando assim, um grave problema de saúde pública no Brasil e no mundo. Sendo, o suicídio, um tema que ainda permanece pouco discutido entre a população.

Enquanto, o que deveria ser feito é a propagação do assunto e a busca por cuidar e prevenir, seja dentro e fora das escolas, das casas, nas mídias, nas políticas e até nas implantações culturais. Pois, como diz Durkheim (2005), o suicídio está mais relacionado a um problema social – em vista das influências e consequências sociais na vida do indivíduo – quando comparado aos demais fatores.

Desde o nascimento o ser humano é preparado para a vida, em criação, educação, dentro ou fora das escolas. Mas, não sendo preparado e nem educado para lidar com a morte. E este desenvolvimento não precisa acontecer em nenhum lugar específico ou distante, mas sim, no seio da sociedade a qual está integrada (KOVÁCS, 2005).

Segundo a OMS (2014 apud BOTEGA, 2014), o suicídio está classificado entre as três principais causas de morte no mundo, e conforme apontam recentes pesquisas, tem maior ocorrência nos grupos de adolescentes, adultos jovens e crianças. E segundo Braga et al (2013) foi constatado que entre indivíduos de 15 a 44 anos, está entre as três principais causas de morte, e entre indivíduos de 10 a 24 anos, como a segunda principal causa de morte. E diante os aumentos desses índices, a OMS passou a considerar o suicídio como problema de saúde pública mundial. Assim, nota-se o quanto é preciso dar atenção especial a esse problema, pois, como esclarece Werlang (2013 apud OSMARIN 2015), já se tem registros de óbitos por suicídio a partir dos cinco anos de idade.

Fensferseifer e Werlang, em seus estudos, constataram que quase metade dos incidentes com crianças são consideradas tentativas de suicídio, e que os pais ou responsáveis tem dificuldades de perceber as pistas deixadas por essas crianças, não identificando os avisos das idealizações de tentativas suicidas (FENSFERSEIFER E WERLANG, 2003, apud COSTA E ADRIÃO, 2005). Outro fator importante é que 75% a 90% das pessoas que tentam ou cometem suicídio, antes, comunicam as suas intenções suicidas com familiares e amigos, seja de forma direta ou indireta, como ressalta Lithan (1996), Shneidman (1994), Werlang e Botega (2002, apud COSTA E ADRIÃO, 2005).

Essa concepção também se aplica para as crianças, visto que a consciência da realidade, como da morte, vai se aprimorando e se concretizando com o passar da idade e contato social, com o seu desenvolvimento biopsicossocial. E como diz Friedrich (1986), Assumpção Jr. (1997 apud COSTA E ADRIÃO, 2005, p. 5), essa criança que comete suicídio, “este ser que tem a vida pela frente está optando reduzir seu caminho de forma trágica trocando assim a infância pela autodestruição[4] da inocência”.

Em seus estudos, Gama (1987 apud COSTA E ADRIÃO, 2005, p. 6) ressalta que “o suicídio é o resultado de um processo que, em muitos casos, se desenvolve durante vários anos e que o melhor a fazer é levar a pessoa que está dando avisos, a um profissional que possa ajudá-lo a não tentar mais cometer o ato”. Mais fácil seria se o assunto fosse mais problematizado no meio social em geral e, que assim, maior atenção fosse dada pela busca das soluções adequadas.

2.1 A CRIANÇA E A MORTE

A infância é uma construção histórica e que durante muito tempo não havia uma distinção entre o mundo infantil e o mundo adulto. Na idade média as crianças pequenas repentinamente transformavam-se em homens jovens, sem passar pelas etapas da juventude. Como enfatiza Ariès (2006), as transmissões de valores e conhecimento e a socialização da criança não eram asseguradas e nem controladas pela família. A criança logo se afastava da família e sua educação ocorria por aprendizagem através do convívio com outros adultos.

Segundo esse autor, as maiores atenções eram reservadas para a criança enquanto pequena, “bonitinha” e quando poderia ainda divertir os adultos, como se fosse um “animalzinho” de estimação. E pouco ressentimento se tinha quando essas pequenas crianças morriam. Pensavam-se, na cultura da época, que logo viria outra para substituir. Era como se a criança vivesse em um contínuo anonimato.

O sentimento entre cônjuges, pais e filhos, não era necessário para a existência da família. O que mais se preservavam eram a conservação dos bens, prática de um ofício, ajuda mútua, e proteção da honra e das vidas. Mas isso não quer dizer que o sentimento de amor não existisse. Existia muitas vezes até antes do casamento e em outras tantas, depois do casamento, com o convívio. Diante disso, as comunicações sociais e as trocas afetivas com as crianças, ocorriam fora do âmbito familiar, em um meio mais acolhedor e caloroso, formado por vizinhos, amigos, criados, homens, mulheres, velhos e crianças, com quem podiam se expressar mais livremente. Sendo entendida como uma sociabilidade, essa tendência à necessidade de comunicação e encontros com o outro. O autor classifica essas características como sendo das antigas sociedades, ao contrário das características presentes nas sociedades industriais. (ARIÈS, 2006).

No fim do século XVII ocorrem mudanças nessas formas, valores e práticas cotidianas. A reforma de alguns aspectos sociais, advindas de influência protestante entre outras, por exemplo, predomina na moral dos homens. A família torna-se lugar de afeição necessária, afeição esta, que passou a expressar sua importância para com a educação. Assim, a escola toma o lugar do convívio e aprendizado diário com os adultos, passando a ser a forma de educação das crianças. É nessas circunstâncias que, como cita Ariès (2006), a escola passa a representar uma espécie de quarentena, antes das crianças disporem de um convívio mais aberto com o mundo. E esse processo de enclausuramento, o qual se dá o nome de escolarização, se estende até os dias de hoje.

A criança passa então, de um anonimato para um lugar muito visível, dentro das famílias e em toda a sociedade. Os pais passam a ter uma diligência e esmero com suas crianças, o qual foi característico dos séculos XIX e XX, mas que outrora, eram desconhecidas (ARIÈS, 2006). Passou-se a entender que a criança não estava preparada para encarar o mundo tão facilmente apenas pelo convívio e aprendizagem com os adultos. Foi enxergada uma necessidade de prepará-la para a vida com os adultos, diante da importância que elas passaram a receber na transição dos tempos. Assim, a educação escolar toma a cena no lugar das ruas e de suas experiências.

As mudanças dos tempos, sua evolução, o passar das gerações e evoluções de todos os níveis na sociedade, ocorrem junto com novos pensamentos e consequências positivas e negativas. Não negável, as evoluções foram muitas, juntas com seus visíveis benefícios, como por exemplo, a criação do Estatuto da Criança e do Adolescente, como cita o art. 4º do ECA (Lei Nº 8069/90), assegurado pelo art. 227 da Constituição Federal de 1988, o qual afirma que é dever da Família, da Sociedade e do Estado assegurar a criança e ao adolescente o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. E, garantindo ainda, que devem ser protegidos de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Entretanto, diante das imperfeições contidas nas criações humanas, também percebemos grandes consequências negativas, como por exemplo, a vida muito preenchida de atividades extra-escolares, sem tempo para o lazer e para o brincar – característico e fundamental para o processo de desenvolvimento infantil[5] – e na maioria das vezes tendo a influência dos pais nessa aceleração de compromissos, tendo que em muitos casos, adequar-se à modernidade, transformando-se “em pequenos adultos”. Como cita Staviski et al, (2013), esquecem-se do presente e não aceita a criança como ela se encontra no agora, e sim, na expectativa do que ela poderá vir a ser. Essas consequências negativas de acordo com Meira (2003 apud STAVISKI et al, 2013), reforçam como a criança contemporânea é afetada pelo meio no qual está inserida e como passa a reproduzir um viver acelerado, que, consequentemente acarreta em prejuízos para as suas vidas, como também, para todos os demais, em todas as faixas etárias e culturas, a curto e longo prazo.

Como sabemos, as culturas são mutáveis e o contexto influencia na maneira como ela é adaptada pela coletividade e pelo indivíduo. Segundo Marconi e Presotto (2005 apud DINIZ, 2007) o conceito de cultura varia no tempo, no espaço e em sua essência. De acordo com Lakatos (1999 apud DINIZ, 2007, p. 19), “as culturas mudam continuamente, assimilam novos traços ou abandonam os antigos, através de diferentes formas. As culturas estão sujeitas aos aspectos como crescimento, transmissão de hábitos, difusão ideológica, estagnação, declínio e fusão”.

Nada tem permanecido exatamente igual, desde as primeiras gerações. Conforme Ullmann (1991 apud NEPOMUCENO & ASSIS, 2008), as mudanças são necessárias, pois existem novas situações históricas que devem ser enfrentadas; convulsões sociais que exigem, após seu termino, novas respostas e soluções. Desse modo, as relações sociais são como ciclos renováveis. O homem tem a necessidade de criar e procriar, e isso, não apenas biologicamente, mas em todos os sentidos sociais, referindo-se tanto da matéria, como da essência. As formas de valores e ensino também mudaram com o tempo, e a cada dia algo novo se percebe na cultura atual.

Com decorrência das evoluções industriais, econômicas, tecnológicas, e tantas outras mudanças, os valores, costumes e objetivos dos homens também mudaram. Dias mais preenchidos com trabalhos, vidas ocupadas e com pouco lazer, relações sociais limitadas e superficiais, valores sendo mudados por regras. Não generalizante, mas a grande e considerável maioria tem se cercado por esses modos “modernos” de vida.

As pessoas têm cobrado muito de si e dos outros. Hoje, a produção acelerada e cada vez maior, tem por objetivo o aumento das rendas econômicas. Não muito distante, mas os noticiários e os demais recursos midiáticos têm mostrado claramente os atuais e competitivos e consumistas modos de vida, e, que são crescentes e perpassados de gerações para gerações, como modelos de vida.

Os adoecimentos têm crescido, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Segundo os dados da OMS, mais de 300 milhões de pessoas sofrem de depressão no mundo. Um número maior que a população brasileira e os demais países de língua portuguesa, somados. De acordo com os dados, houve um aumento de 18% nos casos de depressão, entre os anos de 2005 e 2015. E segundo a agência da ONU (Organização das Nações Unidas), a depressão é uma das principais causas de mortes por suicídio, sendo aproximadamente 800 mil por ano. Já no Brasil, segundo a OMS, foram registrados 11,5 milhões de casos de depressão, sendo quase 6% da população (ONU, 2017).

Em relação ao tratamento, conforme dados da Organização Pan-Americana de Saúde e Organização Mundial de Saúde (OPAS/OMS), aproximadamente sete de cada dez pessoas com depressão não recebem o tratamento necessário (OPAS/OMS, 2017).

Segundo o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-V), o transtorno depressivo maior é caracterizado por episódios distintos de no mínimo duas semanas de duração, apesar da maioria dos episódios durarem um tempo consideravelmente maior (DSM – V, 2014). Os elementos que mais se sobressaem nas síndromes depressivas são o humor triste e o desânimo. Entretanto, conforme Dalgalarrondo (2008, p. 307), “elas caracterizam-se por uma multiplicidade de sintomas afetivos, instintivos e neurovegetativos, ideativos e cognitivos, relativos à autovaloração, à vontade e a psicomotricidade”.

Esses fatos são mostrados pelo não preparo e suporte para lidar com uma crise individual ou social. Na maioria dos casos se percebe a existência de um adoecimento (sofrimento) na vida de alguém através da consequência que esse adoecimento causou – o suicídio, por exemplo – e não pelo fato de ter percebido antes o início do sofrimento, como por exemplo, em casos que a criança comete o ato do suicídio por um sofrimento decorrente de um abuso sexual, o qual, ela não conseguiu expressar e que igualmente, não foi percebido por terceiros.

Quando pensamos em adoecimento psíquico e somático, o senso comum geralmente tem a tendência de excluir as crianças dessa densa realidade, como se fosse uma realidade muito distante desses pequenos. Bem como vimos e vemos, as mudanças culturais atingem não somente, mas principalmente, as futuras gerações, aqueles que estão no ápice de desenvolvimento da personalidade, aqueles que necessitam de exemplos para traçar como metas a se seguirem e, aqueles que precisam de educação, para não serem “tabulas rasas” na vida. São esses pequenos, os tão bombardeados pelas culturas mutáveis, e agora, pelas culturas modernas, contemporâneas, cheias de regras e objetivos já traçados de vida.

Como reflete Costa e Adrião (2005), o mundo cada vez mais competitivo tem influenciado para que as crianças se tornem adultas mais cedo, quando estas, ainda nem compreendem inteiramente o mundo que as cercam.

Os dias preenchidos de estudos, aulas complementares e esportes; trabalho escravo; situações precárias; exploração e abuso sexual; gravidez; convívio em situações estressantes; falta de um bom convívio familiar; abandono; humilhação e desprezo constante; influências midiáticas, dentre outras conjunturas, são exemplos de fatores que contribuem para o adoecimento psíquico infantil. Esse adoecimento, na maioria das vezes de forma silenciosa, pode e tem levado muitas vezes a consequências irreversíveis, como é o caso do suicídio.

A depressão infantil, como um dos muitos fatores de adoecimento psíquico, tem aumentado e contribuído para a crescente busca pelo suicídio como ato final, como forma de solução para colocar um fim na situação estressante em que vivem. Mas é importante salientar, que o suicídio pode e acontece mesmo que a pessoa não apresente alguma má formação em seu desenvolvimento psicossocial, como bem fala Reis e Figueira (2002) e Fensterseifer e Werlang (2003, apud COSTA E ADRIÃO, 2005).

De acordo com Botega (2010), em 97% dos casos, diante os vários levantamentos internacionais, o suicídio é um marcador de sofrimento psíquico ou de transtornos psiquiátricos. É importante salientar que existe distinção entre esses dois fatores. O sofrimento psíquico é algo que todos nós desenvolvemos, pois diz respeito à vivência do sujeito, ou seja, quando ele passa por situações estressantes e difíceis, o qual acha que não vai suportar o sofrimento ou que vai enlouquecer. Já os transtornos psiquiátricos segundo o DSM-V:

É uma síndrome caracterizada por perturbação clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento de um individuo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. Transtornos Mentais estão frequentemente associados a sofrimento ou incapacidade significativos que afetam atividades sociais, profissionais ou outras atividades importantes. Uma resposta esperada ou aprovada culturalmente a um estressor ou perda comum, como a morte de um ente querido, não constitui transtorno mental (DSM-V, 2014, p. 20).

Tanto os fatores de ordem do sofrimento psíquico, como de transtorno psíquico podem influenciar negativamente a vida do indivíduo, e aqui falando, da criança. Além disso, somar-se ao fato de que em nossa sociedade a maioria das pessoas não sabe como lidar com a morte e tampouco buscam compreender o que ela representa, somando-se ainda, ao fato da precária educação para com esse tema. Apesar de ser o processo final do ciclo vital, as pessoas se negam a falar sobre o assunto transformando-o em um tabu, principalmente com as crianças. Em muitos casos, os adultos “mentem ou ocultam a verdade à criança sobre a morte, esta deixa de acreditar neles e pode não voltar a perguntar” Aberastury (1984, apud SENGIK & RAMOS, 2013, p.2).

De acordo com Kovács (2002, p. 2) “existem várias possibilidades de ocultamento para a morte, tanto culturais quanto psicológicas. Entre estas últimas podem ser destacados os mecanismos de defesa: negação[6], repressão[7], intelectualização[8], deslocamento[9]”. Percebemos, ainda mais, na contemporaneidade a incitação da manutenção de vida a qualquer custo.

Segundo Morin (1970 apud KOVÁCS 2002, p. 35), “a sociedade funciona apesar da morte, contra ela, mas só existe enquanto organizada pela morte, com a morte e na morte”. Falar de morte na contemporaneidade é entendido como algo negativo, visto que a ciência de forma geral trabalha incansavelmente para manter as pessoas vivas seja através de pesquisas, medicamentos, formas de tratamento, etc. Perguntamo-nos, pois, o que a sociedade tem a falar diante de uma morte por suicídio? E refletimos que, por remeter a um problema maior e mais complexo, percebemos que não se discute muito o assunto.

Existe no senso comum, uma tendência a considerar alguém que tira voluntariamente a própria vida – sendo visto e julgado – como uma pessoa “desequilibrada mental”, também como um covarde que não soube enfrentar os problemas da vida, ou, levando para o lado religioso, como uma pessoa “endemoniada”, que possivelmente cometeu tal ato por falta de fé em Deus. E é através dessa generalização que se tiram as justificativas errôneas do porque as pessoas se matam. Diante desse “diagnóstico”, a sociedade ao mesmo tempo em que estigmatiza esse sujeito como alguém que não está lúcido no controle de sua própria conduta, ela se afasta do problema ou tenta empurrar o assunto para “debaixo do tapete”. E agindo assim, acaba impedindo que a verdade apareça.

2.2 O SUICÍDIO INFANTIL: POSSIBILIDADES DO SER CRIANÇA

Múltiplos são os fatores que levam o indivíduo ir além da construção da ideação suicida, até o ato em si. Estando ele, consciente ou não de seus atos. A questão é saber quais são estes fatores tem mais influenciado o comportamento suicida infantil, levando em consideração a lucidez e a noção de morte presente na vida das crianças que cometem tal ato.

Segundo Loureiro, Moreira, & Sachsida (2013), em uma análise empírica para os estados brasileiros, a mídia é o terceiro maior motivador de suicídio, para todos os grupos de pessoas, ficando atrás apenas do desemprego e da violência. Constatou-se que a cada 1% de aumento na mídia, a taxa de suicídio de jovens do sexo masculino entre 15 e 29 anos, se eleva em 5,34%. A violência também tem influência considerável para o aumento da taxa de suicídio. Quanto mais violenta é a localidade, maior é a taxa de suicídios.

De acordo com outro estudo, o qual analisou 37 pesquisas mundiais, o bullying é outro tipo de violência que tem sido uma das principais causas de morte por suicídio entre crianças e adolescentes (KIM & LEVENTHAL, 2008 apud KUCZYNSKI, 2014).

O bullying é definido pelo uso de força ou coerção para afetar negativamente aos demais, envolvendo um de­sequilíbrio do poder social, físico e/ou emocional, e atos danosos voluntários e repetitivos. Pode ser persistentemen­te dirigido a um alvo baseado na raça, cor, peso, origem, grupo étnico, religião, crença, deficiência, orientação se­xual, gênero, aparência física, sexo, ou outras características que distingam o eleito no grupo. Não está limitado a, mas prevalece entre crianças e adolescentes. Assume várias formas: verbal, física, relacional/social e eletrônica, sendo o último mais conhecido como cyberbullying (NASP, 2012, apud KUCZYNSKI, 2014, p. 247).

O desenvolvimento tecnológico e o crescimento midiático inegavelmente têm atingido todos os públicos, e em especial os mais jovens, onde são atraídos pelas novidades, games, meios rápidos e interativos de conversa, redes sociais que os permitem acompanhar a vida de famosos e anônimos. Perceptivelmente esses meios tecnológicos têm influenciado nas rotinas, escolhas e comportamentos das pessoas, sendo essas influências, não apenas positivas, mas também, negativas, as quais causam danos pelo excesso e mal uso de tais meios. Como exemplo, podemos citar o cyberbullying, caracterizado como o bullying virtual ou eletrônico, e que segundo Nasp (2012, apud KUCZYNSKI, 2014), vem crescendo na atualidade.

Como podemos perceber, diante das análises bibliográficas de dados já existentes, como mencionado durante a pesquisa, os motivos que levam a prática do suicídio infantil não são unicamente isolados, mas se envolvem, se influenciam, se integram. Como explanado, o crescimento tecnológico e a mídia, juntamente com suas diversas formas interativas, se unem em um conjunto de fatores dominantes para comportamentos, ideações e atos suicidas entre as crianças. Apesar de alcançar outros públicos, tem se evidenciado o quanto tem afetado as crianças – passiveis de aprendizagem e de influências externas, pelo seu ainda evidente desenvolvimento biopsicossocial, incluindo a formação da personalidade – principalmente no período da segunda infância até a adolescência.[10]

Outros fatores que influenciam as crianças a tentarem suicídio, segundo Friedrich (1986 apud COSTA E ADRIÃO, 2005, p. 6), são os seguintes: “a perda de pessoas, dificuldades familiares, cobranças nos afazeres domésticos porque os pais trabalhavam esquecendo que a criança não pode ter o mesmo desempenho do adulto, separações com muitas brigas entre os pais”, e também, por ser cada criança única, há outros fatores influentes para o risco suicida, como: perdas recentes de pessoas significativas ou próximas da criança, preocupação exagerada com a morte de pessoas próximas e/ou queridas e pouca resistência à frustração.

Durkheim (1977 apud RODRIGUES, 2009, p. 702) refere-se que a sociedade não é somente uma finalidade que atrai os sentimentos e as atividades dos indivíduos de uma forma desigual, afirmando ser também, um poder regulador. Existindo uma relação de como ocorre essa ação reguladora com a taxa social dos suicídios, e esta, refere-se não a tendências coletivas ou individuais, mas sim a um critério que quantifica por um longo período de tempo, afinal, como bem menciona o autor, “o enfoque do suicídio como fato social mostra que cada sociedade está predisposta a fornecer um determinado contingente de mortos voluntários”.

Outro fator importante, também trazido pelo autor, é a justificativa errônea a qual muitas vezes atribuímos aos casos de ideações ou atos suicidas. Embora interfiram, as questões raciais, culturais e econômicas não são determinantes para justificar o suicídio, como exemplo, traz a comparação de que o aumento da miséria influencia muito pouco para o aumento dos casos de suicídio, enquanto, situações felizes, que contribuem para a prosperidade de um país, influenciam para o suicídio, tanto quanto os desastres econômicos (DURKHEIM, 2005).

O desejo de morte pode variar, mas sofre influência de fatores ambientais estressantes, o que faz pontuar a importância para maior atenção a fatores de riscos cognitivos, seja para uma primeira tentativa ou para uma recorrência de comportamento suicida. Tais fatores podem ser: “desesperança; carência na geração de alternativas para problemáticas e na flexibilidade para enfrentar situações; estilo disfuncional, internalizando eventos negativos, considerando-o estável e global (associados a quadros de­pressivos de longa evolução); impulsividade” (SHAFFER & PIACENTINI, 1994 apud KUCZYNSKI, 2014, p. 249).

Apesar de não haver necessariamente um desejo suicida explícito relacionado às mortes de adolescentes, o envolvimento em condutas de risco definem atitudes pa­rassuicidas aliadas a um descaso e uma desvalorização da vida, quer pela concomitância de transtornos do humor (principalmente a depressão e a distimia, não necessariamente diagnosticados), quer pela existência de estres­sores ambientais associados a uma ausência (objetiva ou subjetiva) de perspectivas de futuro (SOUZA & KUCZYNSKI, 2012 apud KUCZYNSKI, 2014, p. 249).

Um estudo epidemiológico realizado em 101 países, no período de 2000 à 2009, constatou que 14,7% das mortes por suicídio ocorreram em crianças na faixa etária entre 10 e 14 anos. Onde também foi verificado que, destas mortes, 74% foram provocadas por meio de enforcamento e 13% por arma de fogo. Já no Brasil, segundo o Mapa da Violência do Ministério da Saúde, entre os anos de 2002 a 2012 o número de mortes por suicídio aumentou 40% entre crianças e adolescentes na faixa etária entre 10 e 14 anos (SOUSA et al, 2017).

Outros dados mostram que, no período de 2000 a 2008, foram constatados no Brasil, 43 casos de suicídios em crianças menores de 10 anos e de 6.574 casos de crianças e adolescentes entre 10 e 19 anos, sendo uma média de 730 mortes por suicídio, por ano. Entre as crianças, 80% dos meninos buscaram o meio de enforcamento e entre as meninas, percebeu-se a preferência por meios de intoxicação medicamentosa, o uso de objetos cortantes e afogamento (SOUZA, 2010 apud KUCZYNSKI, 2014).

Esses dados e muitos outros referentes aos casos de suicídio infantil, não inclui os casos não notificados, assim acontecendo por escolha dos pais ou responsáveis, pedindo a alteração da causa de morte na certidão de óbito; pela existência de cemitérios clandestinos (LOVISI et al, 2009 apud KUCZYNSKI, 2014); como também, pela desqualificação de muitos profissionais para identificar a real causa da morte por suicídio de crianças (MACINTIRE & ANGLE, 1973 apud KUCZYNSKI, 2014).

Diante de tantas causas de mortes por suicídio entre crianças, o que se percebe é o interdito dessa morte por parte da família e da sociedade em geral. Vemos o silêncio forçado ante tais fatos. Tal interdito é como se fosse uma solidariedade a modernidade, acompanhando os avanços da industrialização, urbanização e racionalidade, como cita Ariès (2003 apud KUCZYNSKI, 2014). Como se o que valesse fosse apenas o interesse em prosseguir, sem o peso das tragédias cotidianas causadas pela morte, criando formas egoístas de se proteger, provocando o silêncio e a indiferença diante de tal realidade e de tais riscos agravantes e crescentes, desrespeitando assim, aqueles fragilizados e/ou já mortos.

Como diz Durkheim (2005), estamos acostumados a encarar como anormal tudo o que é considerado imoral. E assim, como bem se costuma fazer, estabelecendo o suicídio como algo classificadamente imoral, o qual ofende a consciência moral da sociedade. Parece totalmente inadmissível então, deixar de considerá-lo (o suicídio) como um fenômeno de patologia social.

Se continuarmos caminhando em direção a resultados negativos e crescentes, como esses já citados aqui e apontado pelos dados previstos, é inegável a necessidade de medidas institucionais e legais urgentes, para intervir nos meios de produção social que tem influenciado para tais dados. Como menciona Nasp (2012 apud KUCZYNSKI, 2014), se voltando e atuando em esforços nacionais para a prevenção, como resposta a tal questão.

Sendo, pois, necessário que a educação focalize de forma ampliada para a morte, partindo com base e fundamento na importância da discussão do tema, visando a reumanização da morte, em uma sociedade a qual interdita-a. “Escancarando” esse tema no cotidiano das pessoas (KOVÁCS, 2005).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Há um questionamento perturbador de como uma criança que socialmente é tida como “ser inocente” teria a capacidade e compreensão de planejar e tirar a sua própria vida. Diante de tal pesquisa, percebemos que múltiplas e complexas são as causas e questões acerca do suicídio infantil que influencia o comportamento suicida e a sua prática.

Evidenciamos que o “mito da inocência” ainda continua por ser difundido, tendo-se, ao mesmo tempo, os crescentes índices de morte por suicídio em pessoas cada vez mais jovens, atingindo em grande proporção as crianças, e isso, em todo meio social. Entretanto, não se tem muitas pesquisas referentes ao assunto, que continua sendo pouco estudado, discutido e questionado, contribuindo para permanência de algumas questões, como é o caso das subnotificações dos índices, e estas, inclui vários fatores, como por exemplo, o pedido da família para adulterar a causa da morte na certidão de óbito, como também, a falta de preparo profissional para realização de um bom diagnóstico, além da antiética de alguns, adulterando a causa da morte.

Percebemos também, que metade das subnotificações de “acidentes” envolvendo as crianças são tentativas “camufladas” de suicídio, como ressaltado por Sengik & Ramos (2013). Além de envolver o conhecimento dos pais ou responsáveis, de conseguir discernir uma tentativa de suicido, também envolve o conhecimento dessa criança que tenta tal ato. E que elas apenas começam a compreender esse fenômeno ao modo que passam a compreenderem o conceito de morte, assim como os seus fatores de risco. É importante ressaltar que há uma variabilidade da compreensão de morte para cada criança considerando a sua subjetividade e o conhecimento acerca do contexto em que estão inseridas. Se esse conhecimento for suficiente, influenciará para uma melhor avaliação do sofrimento, percepção das possibilidades de enfrentamento e soluções, mudando a perspectiva e/ou ideação de autodestruir-se.

As mudanças históricas e culturais incluíram a construção da infância, influenciando os seus diversos fatores de desenvolvimento. Tal construção envolveu uma série de questões nas vidas dessas crianças, e se falando dos dias atuais, podemos perceber a realidade do peso de atividades e responsabilidades diárias, que excedem o limite dessas crianças, sobrecarregando-as e antecipando-as à vida adulta. A infância e suas etapas têm a sua importância para um bom desenvolvimento biopsicossocial da criança, e pular essa fase ou parte dela, rouba-lhes as premissas da inocência, do brincar, do ser criança.

Diante de tudo que já foi apresentado, quais seriam as possibilidades ante esse fenômeno? Como as multiáreas de conhecimento e prática poderiam intervir nessa questão? Por que se evidencia na sociedade, a omissão ao invés da discussão? É realmente pela dificuldade de expressar/opinar sobre um assunto tão complexo e desafiador ou é por acreditar que comportamento suicida infantil não passa de frivolidade?

É importante atentarmos para tais questionamentos, considerando a visão de muitos indivíduos que acreditam que o sofrimento da criança não passa de algo imaturo e irrelevante. E diante o desconhecimento de tal questão, acabam por omitir/disfarçar a gravidade desse sofrimento não dando a importância necessária, acarretando e contribuindo para expansão do sofrer da criança. Crianças que vivenciam situações de violência, seja psicológica ou física, como, por exemplo, situações de humilhações e qualquer tipo de abuso, podem almejar e buscar a morte como forma de fuga da realidade que se encontram.

Percebemos assim, a importância da família, estado e de toda sociedade, na formação da criança, seja em sua personalidade, consciência ou demais fatores. Sendo responsabilidade social contribuir para um bom desenvolvimento físico, psicológico, moral e social, como ressaltado no Estatuto da Criança e do Adolescente. Devendo-se então, acolher a criança, considerando suas questões, buscando compreender a realidade que lhe faz desejar e buscar a morte de si mesma, visando ajudá-la a pensar e obter possibilidades de solucionar tal problemática. Levando em consideração que independentemente da idade, o desejo de morrer deve ser sempre levado a sério considerando o sofrimento desse indivíduo.

Evidenciamos a inexistente educação para com a morte na Escola, na família e em todo seio da sociedade. Sendo, pois, uma cultura que pouco fala, pouco se interessa e muito se silencia por muito pouco conhecer as causas que influenciam e levam ao suicídio. É essencial que a educação sobre esse tema se difunda nas diversas culturas e em cada instituição. E que, tais questões que envolvem esse tema, sejam levadas em consideração, juntamente com formas interventivas, visando à redução significativa desses índices referente ao suicídio infantil, como também, de demais faixas etárias.

Faz-se necessário que não só a psicologia, mas que demais áreas do conhecimento, insiram-se nos vários contextos da sociedade, como equipe multi e interdisciplinar, (médicos, psicólogos, enfermeiros, bombeiros, policiais, engenheiros, dentre outras áreas), que estejam preparados, capacitados e qualificados para identificarem e intervirem atuando de maneira prévia e com técnicas diretivas referentes ao assunto. E da intersetorialidade (saúde, educação, assistência social, segurança, etc.), contribuindo para eficácia de um trabalho em conjunto entre os diversos setores institucionais, partindo com uma mesma visão e objetivo.  Pois, tratando-se de um fenômeno com múltiplos fatores e de complexa interação é necessário ser analisado por profissionais de diversas áreas que possam contribuir para a compreensão dessa ocorrência, de forma integrada. Contribuindo para propagar/difundir o fenômeno do suicídio, visando à prevenção e o cuidado dentro dos diversos contextos (familiares, educacionais, hospitalares, políticos, midiáticos, culturais, etc.), realizando ações educativas que fale da morte sem tabus, preconceitos ou medos.

É necessária também a produção de mais pesquisas sobre o assunto, diante das poucas literaturas existentes. Pesquisas que aprofundem no tema de suicídio e seus aspectos, desenvolvendo planos de ações adequados ao contexto nacional e global. Assim, disponibilizando aos profissionais e a população no geral, compreensão sobre as características do comportamento suicida infantil, levando em conta que existem multifatores para este fenômeno. Além de ofertar serviços especializados de apoio e reabilitação para os casos de ocorrência, visando prevenir, promover e compreender de que há sempre um sofrimento velado que necessita ser percebido.

Sendo de grande importância enfocar no tema da morte, pois, juntamente estaremos falando de vida e ao falar de vida a qualidade desta acaba sendo revista. Sendo o interdito da morte um inimigo a ser vencido. Pois, quanto mais se nega a morte, mais esta se evidencia e se apresenta através de exemplos como violência urbana, guerras e suicídio (KOVÁCS, 2005).

Portanto, se faz necessário agora, que, como sociedades, pesquisemos, aprendamos e adotemos formas de lidar a respeito do suicídio. E assim, diante da solução encontrada e assentida, “chegaremos à conclusão ou de que as reformas a fim a refreá-lo são necessárias e possíveis, ou de que, pelo contrário, convém aceitá-lo tal como é, ainda que continuemos a condená-lo” (DURKHEIM, 2005, p. 397).

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[1] Graduada em Psicologia pela Universidade Potiguar

[2] Graduada em Psicologia pela Universidade Potiguar

[3] Orientador. Graduado em Psicologia pela UFRN

[4] De acordo com alguns autores como Kovács (1992, p. 165) o suicídio “é a autoeliminação /autodestruição voluntária e intencional. Tomado mais amplamente, o suicídio inclui processos autodestrutivos inconscientes, lentos e crônicos”. Autores como Cassorla & Smeke (1994, p.3) conceituam também o termo Autodestruição diante a complexidade das situações autodestrutivas humanas, tanto em sua vertente social como em suas manifestações aparentemente individuais (suicídio, acidentes, homicídio, doenças, drogadição, etc.).

[5] Segundo Oliveira (1994, p.8), o brincar promove experiências sociais, as quais contribuem com o desenvolvimento cognitivo seja indiretamente (promovendo o crescimento da habilidade de se colocar no lugar do outro), seja diretamente (fornecendo oportunidade das crianças perceberem como são os outros).

[6] Na negação, segundo Silva (2010 p.2),o sujeito recusa-se a aceitar a realidade ou a verdade de um fato ou experiência. Ou seja, “o sujeito dá como inexistente um pensamento ou sentimento que caso, ele admitisse causaria grande angústia”.

[7] A repressão envolve meramente esquecer algo incômodo, consistindo em manter afastado da consciência uma ideia penosa.

[8] A intelectualização conforme cita Souza (2013, p. 3) “é a tentativa de substituir uma razão genuína, instintiva, por uma fictícia, socialmente aceitável, isto é, para tentar afastar-se de uma situação estressante a pessoa se utiliza de discursos puramente abstratos”.

[9] O deslocamento que “é o mecanismo de defesa cuja pessoa substitui a finalidade inicial de uma pulsão por outra diferente e socialmente mais aceita” Silva (2010, p. 5). Isto é, a transferência de sentimentos de um alvo para outro, considerado como menos ameaçador ou neutro.

[10] Erikson (1985, apud PAPALIA, 2006) cita a principal crise de desenvolvimento da segunda infância sendo a iniciativa versus culpa. Nessa fase a autoestima tende a ser global e irrealista, refletindo a aprovação adulta. Na terceira infância as crianças ainda diferem muito no comportamento social e na personalidade. O temperamento desempenha algum papel. As crianças com o temperamento mais difícil são mais propensas a mostrar problemas posteriores de comportamento ou delinquência.

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