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Vivências de profissionais de psicologia frente aos desafios de inclinar-se no atendimento aos refugiados

RC: 29874
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SILVA, Ana claudia a. [1], CAMANDUCCI, Ive p. C. [2], TOZZI, Leony de o. Mansur [3], ANDRADE, Maristela p. [4]

SILVA, Ana claudia a. Et al. Vivências de profissionais de psicologia frente aos desafios de inclinar-se no atendimento aos refugiados. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 04, pp. 51-89 Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O fenômeno do refúgio em outros países tem se tornado crescente em todo mundo, por diversos motivos, ao ponto até mesmo de impulsionarem crises locais. Quanto uma pessoa ou uma família de refugiados chegam a um novo país trazem consigo esperanças e frustrações que necessitam serem observadas, por outro lado, os profissionais psicólogos responsáveis por esses atendimentos acabam por também enfrentarem desafios e adquirir novas experiências como terapeutas e, como pessoas. Este trabalho investigou as narrativas das práticas e vivências de profissionais responsáveis pelo atendimento psicoterápico em uma Instituição de atendimento aos Refugiados da cidade de São Paulo. Através das narrativas foi possível observar que os Refugiados chegam no Brasil geralmente em condições de extrema carência econômica. O atendimento psicoterápico acaba por ser paliativo, exigindo do profissional psicólogo muito além da prática clínica.

Palavras-Chaves: Refugiados, Vivência Profissional, Psicoterapia

INTRODUÇÃO

Mesmo não sendo um tema novo, já que desde os primeiros relatos históricos o nomadismo aparece elencado como parte das civilizações (AGIER, 2003), o contexto dos refugiados ganha cada dia mais expressão, e se constata como sendo de grande impacto nas sociedades contemporâneas (ROCHA e MOREIRA, 2010).

A Declaração de Cartagena em 1984 tratou de definir categoricamente o conceito de refugiados para que ao se tratar desta temática, principalmente nos tratados internacionais, a compreensão da definição fosse universal (ONU, 2017).

De acordo com a Declaração, os refugiados podem ser considerados pessoas que deixaram seus países porque suas respectivas vidas, seguranças e ou liberdade foram ameaçadas em decorrência da violência generalizada, sendo: agressão estrangeira, conflitos internos, violação massiva dos direitos humanos ou outras circunstâncias que perturbem gravemente a ordem pública (DECLARAÇÃO, 2001).

Concorda-se com Moreira (2005) que a problemática dos refugiados está também relacionada ao contexto de guerras civis. Estas guerras podem se dar por diversas questões, dentre elas as que mais se destacam são: ideologias religiosas, políticas, questões econômicas, conquistas de espaços, raças, dentre outras capazes de violar a integridade física ou moral dos moradores de determinada região, forçando – de forma direta ou indireta- seus moradores a se refugiarem em outra comunidade, país.

A organização e apoio aos refugiados passaram a ser quantificados e qualificados através da criação da ONU (1951) uma vez que houve a preocupação da universalização do termo “refugiados”, bem como suas definições e conceitos, conforme será observado no decorrer deste estudo. A ONU também criou o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados(ACNUR) em 1957 (JUBILUT, 2007), responsável por políticas e ações de apoio aos refugiados através de atenção direta e indireta.

OS REFUGIADOS NO BRASIL

Segundo Moreira (2005) o Brasil foi o primeiro país da América Latina a regulamentar a proteção aos refugiados aprovando a Convenção de 1951, nove anos depois da criação, ou seja, em 1960. Em 1997, foi sancionada a Lei Federal 9.474/07, específica para refugiados, incorporando neste momento a Declaração de Cartagena (MOREIRA, 2005).

No Brasil, a gestão dos refugiados pode ser observada na década de 1990, na qual pautada pela Constituição 1988[1], passou a ter um novo direcionamento na participação nos tratados de direitos humanos, incorporando-se à Corte Internacional dos Direitos Humanos bem como ao Tratado de Roma e ao Tribunal Penal Internacional. A partir de então o Brasil passou a incorporar os preceitos das iniciativas mundiais, e, aceitar refugiados promovendo políticas específicas (mesmo que essas ainda se apresentem deficientes em suas questões práticas) (GONZALEZ e SILVA, 2015).

Embora não seja objeto deste estudo, é importante salientar que de acordo com Fernandes, Castro e Milesi (2008) os grupos que se refugiam no Brasil ainda são considerados pequenos e geralmente estão ligados a comunidades específicas, como no caso dos sírios por exemplo.

A capacidade do Brasil absorver de forma benéfica os refugiados está ligada diretamente a capacidade de convivência intercultural e/ou multicultural, que segundo Freitas (2008) é um dos problemas frequentemente evidenciado por países de primeiro mundo ao adotar medidas de acolhimento de refugiados. Essa capacidade traz à tona a necessidade de o Brasil repensar sua atuação na gestão da crise dos refugiados e iniciar uma sequência de estudos que proponham alternativas de solucionar o desempenho do Brasil neste enfrentamento.

No entanto, Fernandes, Castro e Milesi (2014) constataram que o fluxo de imigração para o Brasil é relativamente recente, e, que a política governamental possui sinais de ambiguidade em seu exercício, que se por um lado esforça-se na adesão e tratados, por outro não tem estrutura para efetivação real destes. Por fim Kongo (2014) chama a atenção a conscientização e participação ativa nessa crise que acomete o contexto mundial.

Desta feita, observando a capacidade do Brasil, principalmente de conseguir convivência multicultural pacífica (GONZALEZ e SILVA, 2015), optou-se por desenvolver este estudo focando o contexto dos refugiados no Brasil, bem como, e, principalmente, o papel desempenhado pelo profissional psicólogo em ONGs destinada ao atendimento psicossocial de refugiados na cidade de São Paulo.

POLÍTICAS PÚBLICAS DESTINADAS AOS REFUGIADOS

As políticas públicas no Brasil seguem basicamente a integração nas Organizações internacionais de direitos humanos pautada sem tratados internacionais que o Brasil adere (MOREIRA, 2005). Os acordos internacionais que impulsionam as ações estabelecidas são: a Convenção relativa ao estatuto de refugiado de 1951, na qual foram sancionados 46 artigos, que se preocupou desde da conceituação do termo refugiados, como dito anteriormente, passando pelo direito de que estes tenham empregos assalariados nos países que acolherem, seu bem-estar, medidas administrativas, ou seja, direito a documentos de identificação e assistência, e de disposições executórias transitórias (Anexo I); O Protocolo sobre o Estatuto de Refugiado de 1967:oqual está constituído por 11 artigos, definem os termos de participação dos Estados (países) que decidem por pactuar com o Estatuto, impondo então o compromisso pelo respeito e observância dos termos pactuados dentro do Direito Internacional[2](Anexo II); A Declaração de Cartagena de 1984, a qual tratou de realizar recomendações aos países que aderiram os tratados anteriores no tratamento aos refugiados (Anexo III). Em decorrência dessas diretrizes foi promulgada a Lei Federal 9.474/97 que define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências.

A partir do momento em que o Brasil aderiu os tratados acima, e, instaurou a Lei Federal 9.474/97 passou a subsidiar a entrada dos refugiados no Brasil por vias formais através da ACNUR e das ONGs– reconhecidas pela ACNUR. As ONGs por sua vez atuam como redes de proteção e são responsáveis pela implementação de políticas públicas para os refugiados (BÓGUS e RODRIGUES, 2011)[3].

CRÍTICAS À EFETIVIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS DESTINADAS AOS REFUGIADOS

O terceiro setor no Brasil enfrenta desafios constantes, principalmente para conseguir-se estabelecer em sua própria existência, isso porque, o repasse de verbas governamentais são incertas, e a capacidade de alocar recursos são limitadas. (TOZZI, 2016).

Segundo Bógus e Rodrigues (2011) as políticas públicas atuam através de 3 eixos principais:

1) Assistência ao direito à saúde: segundo a Constituição Federal, todos estrangeiros que se encontram no Brasil têm garantido o atendimento nos hospitais públicos. O ACNUR destina verba para a compra de medicamentos e os destina às ONG ́s, que avaliarão a situação dos solicitantes e decidirão sobre os usos dos fármacos. Há ainda uma preocupação com o atendimento psicológico (o CONARE [4]destina uma verba anual concedida pelo governo a um programa de saúde mental para solicitantes) também por iniciativa do Ministério da Saúde e do Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, que criou o primeiro Centro de Referência para a Saúde dos Refugiados. Ali funcionários do Sistema Único de Saúde são capacitados para atender aos refugiados;

2) Assistência ao direito a alimentação: ocorre por meio de parceria entre ONG ́s e Serviço Social do Comércio (SESC). Tal parceria resultou na oferta de alimentos a baixo custo para solicitantes e refugiados, com descontos expressivos nos preços normais das refeições.

3) Assistência ao direito à moradia: por meio de abrigos públicos, mantidos pelas Prefeituras Municipais e pelo Governo dos Estados, e de Albergues mantidos por ONG ́s. Uma vez reassentado, o refugiado poderá ter seu aluguel pago pelo ACNUR por um determinado período (BOGUS e RODRIGUES, 2011, p.109).

A legislação denota que os refugiados devem ter acesso aos mesmos direitos dos brasileiros, conforme as instruções da Constituição Federal de 1988. Dentre os direitos estão: o acesso à educação, à saúde, à moradia. No entanto, reconhece-se que as políticas públicas são ineficientes aos próprios brasileiros, gerando então, uma ‘falsa esperança’ aos refugiados de que eles serão atendidos com excelência nestes direitos.

As organizações não governamentais voltadas ao atendimento de refugiados, busca suprir a questão: como um país com tantos problemas, que vão desde a política até os problemas socioeconômicos, pode oferecer um apoio completo aos refugiados?

TERCEIRO SETOR NA COMPLEMENTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS DESTINADAS AOS REFUGIADOS: ENTENDENDO AS PRÁTICAS.

Terceiro Setor é um “conjunto de ações promovidas pela sociedade civil a fim de colaborar na execução das políticas públicas. No Brasil, de acordo com a legislação, essas ações são classificadas como provenientes de entidades sem fins lucrativos, preocupadas com valores sociais e que se colocam como um novo segmento, além do Estado e do mercado” (Tozzi, 2015, p. 19).

Portanto, ONGs são entidades não-governamentais, de interesse privado, que atendem uma causa específica ou porque o Estado não consegue responder à demanda ou para complementar as ações públicas estabelecidas, não sendo, portanto, extensão de qualquer instância do Estado (Tozzi, 2015).

O avanço do Terceiro Setor no Brasil se deve a constituição de 1988 que impulsionou para sociedade civil mais ativa e maior participação na elaboração de políticas públicas. Desta forma, as ONGs que cuidam de refugiados devem ser entidades sem fins lucrativos, formalizadas desde sua criação, como qualquer entidade de Terceiro Setor (Tozzi, 2015).

Caso a entidade queira se beneficiar de recursos do Estado, como captação de dinheiro público para cumprimento de projetos que atendam sua missão, é necessário que respeite os itens propostos pela Lei 13.019/2014. As entidades, caso queiram fazer um trabalho de assistência social e utilizar-se dos benefícios propostos pela legislação brasileira devem buscar pela certificação denominada Certificado de Entidade Beneficente de Assistência Social (CEBAS). Essa certificação é dada pelo Ministério do Desenvolvimento Social, desde que sejam atendidos os requisitos propostos pela Lei nº 12.101/09 alterada pelo Lei nº 12.868/2013 e renovado periodicamente, caso haja captação de recursos públicos, a ONG deve prestar contas ao seu respectivo financiador. Da mesma forma, como no caso de recurso privado (Tozzi, 2015).

Portanto, é também pelo Terceiro Setor, que complementa e supri as ações de políticas públicas desenvolvidas pelo Estado, que os refugiados recebem apoio através de acolhimento propriamente dito, assim como de orientação jurídica e atendimento médico.

De acordo com o Programa de Apoio para Recolocação de Refugiados (PARR, 2017) as ações e orientações de atenção ao refugiado são: Realizar a conscientização das empresas privadas e da população sobre o status dos refugiados e solicitantes de refúgio; Buscar apoio e parcerias com empresas privadas e com organizações em prol dos refugiados e solicitantes de refúgio; Apoiar os refugiados e os solicitantes de refúgio na elaboração e divulgação de seus currículos, através da disponibilização dos mesmos através do site do projeto. Além disso, é importante ressaltar que o projeto será totalmente custeado pela EMDOC[5] e não terá nenhum custo para os refugiados e solicitantes de refúgio, bem como para o ACNUR, as empresas parceiras e as ONGs envolvidas.

O Instituto de Reintegração de Refugiados (ADUS) tem como objetivo se preocupar com o cuidado global dos refugiados, promovendo ações de reintegração desses com a nova pátria, dentre as preocupações está o contexto da saúde destes.

De acordo com o Instituto ADUS, salienta que as Instituições devem buscar: Proporcionar atenção, acolhida e escuta especializada no que concerne à saúde mental; Auxiliar na elaboração de conflitos internos ligados ao período de pré-migração, percurso e chegada no país de acolhida; Fortalecer laços entre os beneficiários; Identificar casos graves e encaminhar para serviços especializados; Identificar e dialogar com outros equipamentos que prestam atendimento a refugiados; Contribuir para a melhoria do bem-estar e da autoestima dessa população.

Compreendendo então as orientações acima, dever-se-á discorrer sobre os desdobramentos da atenção à Psicologia, o que será realizado na sequencia deste estudo.

POSSÍVEIS CONTRIBUIÇÕES DA PSICOLOGIA NA QUESTÃO DOS REFUGIADOS

O interesse pela escolha desta temática se deu em função de nossa percepção de que é de fundamental importância a atuação do profissional psicólogo dentro de um ambiente em que é necessário ater-se em questões individuais e coletivas como é o caso dos refugiados.

Martins Borges e Pocreau (2012) apresentaram um estudo descritivo do tratamento para refugiados realizados pelo Departamento de Psicologia da Universidade Laval, Quebéc, Canadá. Dentro do estudo, os autores relataram que as práticas de psicologia destinadas à refugiados devem estar dentro de uma dimensão biopsicossocial.

Esclarecem ainda que:

O método biopsicossocial é o modelo teórico de referência que corresponde de forma mais adequada à noção de saúde adotada pela psicologia da saúde, diferentemente do modelo médico, que apreende a doença a partir de desequilíbrios orgânicos. Ela considera que os fatores psicológicos, biológicos e sociais têm individualmente e de forma interdependente – uma ação determinante sobre a saúde e a doença, em que as dimensões biológica e psíquica encontram-se diretamente relacionadas uma com a outra (MARTINS BORGES E POCREAU , 2012, p. 580)

Atualmente o Conselho Federal de Psicologia faz orientações e publicações como por exemplo a reportagem da Revista Psi/08-01-16: Braços abertos aos refugiados, buscando esclarecer a atuação dos profissionais, porque não há uma regulamentação específica. Os psicólogos devem sempre ter em mente o respeito ao código de ética ao prestarem serviços aos refugiados, que são de acolhimento, atendimento, papel de escuta, e eventual encaminhamento àqueles que chegam se sentindo abandonados e desamparados.

Outros estudiosos pensam a respeito da clínica com refugiados, talvez por suas vivências possamos pensar numa posição ideal de acolhimento. Knobloch (2015) reforça a importância de não patologizar e reconhecer o sujeito apenas enquanto vítima, criando um determinismo, mas atuar pensando nas especificidades e diferenças, criando aproximação e interação maiores entre profissional e cliente, colocando como posição ideal a de devolver a dignidade sem patologizar ou negar o sofrimento do sujeito acolhido.

Neste contexto, vale aduzir sobre a psicologia intercultural, partindo então da compreensão dos desafios da interculturalidade. De acordo com Ramos (2013) a interculturalidade apresenta desafios sociais em diversos setores, e cabe ao auxílio da psicologia conseguir ligar com essas relações, e padrões comportamentais que estão ligadas diretamente a cultura e a capacidade cognitiva de compreender e ver o sujeito, bem como, este a si mesmo.

Alguns serviços já vêm sendo realizados na área. Borges e Pocreau (2012) apresentam o Serviço de Atendimento Psicológico Especializado aos Imigrantes e Refugiados no Quebec – Canadá, uma mediação nos primeiros contatos com o paciente, procurando criar uma ponte e fortalecer a confiança para a situação desconhecida. É um serviço transicional com estimulação de vínculos psicossociais, dando importância à questão da cultura e da linguagem e prezando por um bom atendimento, sendo o profissional um facilitador da adaptação, aquisição e desenvolvimento de novas habilidades por parte do refugiado. Rosa (2012) apresenta o projeto Migração e Cultura, que se insere na proposta ético-política da USP e da PUC, objetivando intervir com a população refugiada e fortalecer novos contextos sociais e afetivos vividos pelo sujeito. Apoiado na teoria psicanalítica de Jacques Lacan, a pesquisa foca a dificuldade do sujeito de passar seus valores e história através da linguagem, suas incertezas do futuro e a criação de novos laços sociais. No atendimento, o psicólogo procura desfocar as diferenças e levar em conta todas as dimensões do paciente, que construirá um sentido social, político e subjetivo. Na posição de analista, o profissional estará presente, escutando, intervindo e devolvendo as significações do paciente.

OBJETIVOS

OBJETIVO GERAL

Investigar as vivências do psicólogo nas práticas psicológicas no acolhimento ao refugiado.

OBJETIVOS ESPECÍFICOS

Investigar os desafios enfrentados no atendimento psicológico aos refugiados que chegam em uma ONG, bem como os de se inserirem em instituições destinadas a essa acolhida.

JUSTIFICATIVAS

O estudo aqui realizado é justificado pela necessidade de refletir sobre essa temática a partir de olhares dos profissionais de psicologia atuantes, uma vez que a complexidade desta atuação necessita de uma investigação que possa problematizar os desafios das práticas profissionais.

A relevância acadêmica deste estudo é realizar uma discussão e reconhecimento das atividades que exercem os profissionais da psicologia no contexto dos refugiados. A fim, de fomentar o desenvolvimento sobre esta temática, bem como, servir de aporte até mesmo para outras áreas de reconhecimento. Quanto a relevância social, este estudo é justificado pela necessidade de se discutir sobre assuntos que afetam nossa organização social, economia e qualidade dos serviços públicos.

MÉTODOS

A escolha da metodologia para um trabalho científico, permite com que sejam alcançadas as premissas de qualidades que se pressupõe no desenvolvimento de um estudo acadêmico. (DEMO, 2002). Nota-se, ainda, que a escolha da metodologia, além de importante, é uma das fases mais cruciais, pois permite com que seja realizada a sistematização dos critérios adotados.

Em linhas gerais, este estudo usou-se da pesquisa teórica para embasar e compreender os desdobramentos do contexto investigado. Também, pode-se dizer que é um estudo que se utilizou da metodologia exploratória, e, por fim, com abordagem qualitativa, incluindo também o campo.

Gerhardt e Silveira (2009, p. 31) explicam que:

A pesquisa qualitativa não se preocupa com representatividade numérica, mas, sim, com o aprofundamento da compreensão de um grupo social, de uma organização, etc. Os pesquisadores que adotam a abordagem qualitativa opõem-se ao pressuposto que defende um modelo único de pesquisa para todas as ciências, já que as ciências sociais têm sua especificidade, o que pressupõe uma metodologia própria.

A pesquisa qualitativa de campo por sua vez, trouxe a perspectiva fenomenológica, onde abordará as vivências através de narrativas.

Já dentro das definições de pesquisa exploratória, entende-se que esta tem como objetivo: “proporcionar maior familiaridade com o problema (explicitá-lo). Assim, a pesquisa exploratória proporcionou melhor reconhecimento sobre o campo de atuação, uma vez que há poucos estudos com relação a política do psicólogo.

PARTICIPANTES

Participaram três psicólogos que atuam junto aos refugiados acolhidos em uma organização não governamental, localizada na Cidade de São Paulo; sendo eles: Lúcio, Carla e Gisele¹.

APARATOS DE PESQUISA

O aparato de pesquisa deste estudo foi o gravador de áudio, apoiado pelo roteiro de entrevista, caneta e caderno para eventuais anotações.

INSTRUMENTOS

Foi realizado um roteiro de entrevista (conforme apresentado em anexo V), as quais foram gravadas, e, depois transcritas.

PROCEDIMENTO

Em fevereiro o grupo se dirigiu à entidade para pessoalmente, explicar do que se trata o presente trabalho, programar, sob as orientações da diretoria da entidade, o andamento das pesquisas.

As entrevistas foram realizadas entre os meses de fevereiro e junho de 2018, e utilizaram-se de um roteiro de entrevista que possibilitou ao entrevistado narrar suas percepções e considerações sobre os cuidados dispensados a esses pacientes, bem como as estratégias, dilemas e dificuldades enfrentadas[6].

A escolha do roteiro de entrevista foi justificada devido a intenção de permitir com que o entrevistado fosse capaz de narrar o máximo possível de detalhes desse atendimento, não impondo assim, questões que poderiam limitar suas respectivas respostas.

As entrevistas foram realizadas entre os meses de janeiro a julho de 2018. Foram entrevistados três profissionais psicólogos que trabalham com o atendimento a refugiados em um Instituto do terceiro setor na cidade de São Paulo.

As entrevistas foram gravadas com a autorização e assinatura do TCLE (apêndice II).

PROCEDIMENTO PARA ANÁLISE DO MATERIAL

Após a realização das entrevistas, elas foram transcritas e analisadas de acordo com a perspectiva fenomenológica.

De acordo com Bicudo (1998) a pesquisa fenomenológica permite reconhecer e compreender um fenômeno de forma a investiga-lo de maneira exaustiva, buscando uma compreensão particular dentro do contexto investigado, neste caso, dentro da área da psicologia.

RESSALVAS ÉTICAS PARA OS PROFISSIONAIS

As ressalvas éticas se deram dentro do sigilo, fidelidade e idealização do Termo de Livre Consentimento e Esclarecimento (TLCE – Anexo VI), tanto para o responsável da instituição, quanto pelos profissionais que participarão desse estudo.

O procedimento do grupo deve, tanto em suas entrevistas quanto em ações, evitar constranger a entidade que acolhe essa pesquisa, abrindo-nos suas portas, assim como evitar constranger o profissional pesquisado em relação ao seu atendimento, aos seus colegas e em relação à própria instituição.

RESULTADOS

Após a entrevista, as falas foram degravadas (escritas em texto) e separadas em forma de categorias. A partir da análise do material foram elaboradas as seguintes categorias:

Tabela 1: Títulos das categorias

1 O sofrimento dos refugiados
2 As expectativas dos refugiados
3 Os desafios de trabalhar com pessoas de culturas e idiomas diferentes
4 Práticas psicológicas com refugiados
5 Desafios nas práticas psicológicas
6 Vivências impactantes dos profissionais de psicologia: ser tomado emocionalmente

Na sequência estão apresentadas as sínteses de cada uma das categorias.

Categoria 1: “O sofrimento dos refugiados”

Evidenciou-se que os refugiados vivenciam intensos sofrimentos. Houve caso de crianças com abuso, casos de sofrimento no país e na viagem, caso onde os pais tiveram dificuldades para ter o filho que havia ficado no país de origem de volta, e muitos casos em que os refugiados não possuem moradia, local para banho ou alimentação.

< assim, eles trazem muito sofrimento, eles trazem muita angústia, trazem muito uma expectativa de que aqui no Brasil vai ser diferente para eles, que vai mudar a vida deles aqui.> Carla

A participante Gisele relatou que os refugiados possuem uma trajetória de rejeição. Rejeição do Próprio país de origem e, por isso, precisam ser olhados.

< e também para eles como indivíduos, como refugiados que já tem toda uma trajetória de rejeição mesmo. De rejeição do próprio país de origem e então eles precisam ser olhados.> Gisele

Categoria 2: “As expectativas dos refugiados”

Foi possível observar que todos chegam no país com grandes expectativas, possuem esperança de construir uma vida digna, de acordo com a vida que tinham antes da situação que os trouxe ao Brasil.

A participante Carla declarou ficar incomodada com a agitação que os refugiados chegam até o instituto, pois eles chegam desesperados para ter o mínimo das suas necessidades básicas atendidas. A situação do Brasil não está fácil nem para os brasileiros, tampouco para os refugiados.

< Porque eles querem o aqui e agora. Eles estão chegando cheio de angústia. Chegam querendo se matar> Carla

Alguns casos, chegam a frustrar porque as expectativas não são atendidas na rapidez que gostariam. Segundo a participante Carla, quando os refugiados vêm para o Brasil trazem muitas angustias e expectativas de que conseguirão mudar a vida. Relatou que um dos refugiados, por sua capacitação, ao chegar no Brasil, acreditava que merecia um importante cargo dentro de uma grande empresa. A intervenção dela foi de informar o refugiado sobre as dificuldades que ele teria para conseguir um emprego neste país.

<E então às vezes chega e fico brava com ele porque ele não consegue entender, porque ele é muito estudado. E então chega aqui no Brasil e ainda não conseguiu um emprego e não é assim. E ele não quer empreguinho, ele quer um empregão. Ele quer ser diretor de não sei o que. E eu falo com ele, você está no país errado. Não é assim> Carla.

Categoria 3:O importante desafio das culturas e idiomas diferentes”

Foi identificado que os profissionais se esforçam para aprender o idioma, e se comunicar com os refugiados. O participante Lucio relata que havia uma barreira.

< Existia essa barreira, que era quase impossível de conseguir fazer um trabalho mesmo, voltado para psicologia>. Lucio

Lucio ainda contou que as pacientes ficavam desconfortáveis em entrar na sala de atendimento sozinhas; e, também outras dificuldades como o costume nosso de se cumprimentar com beijo, elas já iam com a mão buscando distância no cumprimento.

< Então eu via que tinha essa barreira, assim…elas ficavam desconfortáveis, quando eram mulheres, de entrar com a gente na sala sozinha, e era sempre aquela coisa assim, a gente aqui no Brasil tem aquela mania de se cumprimentar, dar mão e elas já faziam assim com a mão, tipo de empurrar, sabe!?> Lucio

O participante Lucio relatou que vivenciou uma questão cultural de submissão da mulher síria ao homem de forma que elas agiam com suposto respeito ao homem sírio do que por elas.

< pelo que entendi, era. Mas era uma questão de costume cultural mesmo, aquela coisa que eu via…assim, eu via que assim, eu não posso nem afirmar isso, mas o que eu percebia é que tinha uma submissão, uma submissão assim, elas faziam isso com suposto respeito ao homem sírio do que por elas> Lucio

No entanto, precisam usar com frequência o tradutor (Osama) na tentativa de quebrar as barreiras culturais. Em alguns casos, a terapia passa a atuar apenas como conversa já que tem que ser realizada de porta aberta devido a cultura.

A participante Carla contou que a partir do momento em que se trabalha com os refugiados tem que se aprender o idioma, e isso é um pouco sofrido. Porém, “Graças a Deus” existem os tradutores.

< Você trabalhando com eles, você tem que aprender um pouquinho de idiomas e a gente sofre um pouquinho por conta disso. Mas graças a Deus aqui tem os tradutores> Carla

Dentre situações relatadas foi possível identificar a dificuldade do idioma; lidar com as diferenças culturais, o desespero dos refugiados que muitas vezes precisam de necessidades materiais básicas e a insegurança de atender da melhor maneira pessoas diferentes com tantos problemas.

Categoria 4 “Práticas psicológicas com refugiados”

Evidencia as formas interventivas que os profissionais de psicologia relatam em seu cotidiano profissional. O participante Lucio contou haver constantes desafios em manter a ética, ou seja, não se envolver com os pacientes para poder ajuda-los. Lúcio disse que percebeu que algumas pessoas diminuíam a busca pelos serviços de psicologia ofertados pelo Instituto. Afirmou ainda que outros refugiados que buscam constantemente o serviço iam lá começavam a chorar, mas ele não conseguia ajudar estas pessoas, devido ao tamanho do desespero deles frente as necessidades básicas de sobrevivência.

Por sua vez, a participante Carla, asseverou que seu desafio era tentar acalmar os pacientes, acolhendo-os e dizendo que no Brasil eles não sofreriam como em seus países.

< Eu acho que o meu maior desafio é tentar acalmá-los e dizer para eles… acolhê-los, e dizer para eles que aqui no Brasil eles não vão sofrer o que eles estavam passando na terra deles. > Carla

Contou ainda, que um desafio é o de aprender os diferentes idiomas dos refugiados.

É comum que estas práticas sejam dificultadas pelas necessidades básicas dos refugiados, levando algumas vezes o psicólogo trabalhar apenas como apoio.

Afirmou também que com as crianças ele trabalhava com ludoterapia, e com elas (as crianças) ele não sentia dificuldade de comunicação.

Categoria 5: “Desafios nas práticas psicológicas”.

Os principais desafios encontram-se no idioma, na cultura, na frequência e aderência dos refugiados ao tratamento psicoterápico e nas necessidades básicas que devem ser atendidas mediante ao desespero que a maioria dos refugiados chegam a instituição de apoio.

O participante Lúcio relatou ter começado a conversar com os voluntários, pois cuidar deles seria uma forma de poder ajudá-los efetivamente. Contou ainda que inicialmente o trabalho era feito individualmente e com o passar do tempo os atendimentos foram migrando para outras necessidades, como buscar moradias ou arrecadações para os refugiados.

< E eu falava: Meu Deus! E aí eu via aquilo, eu falava será!? Aí, eu comecei a conversar com esses voluntários, e aí chegou uma hora que eu falei assim: sabe como eu posso ajudar efetivamente? Eu vou cuidar desses voluntários > Lucio

< e aí eu comecei a atendê-los individualmente, para poder dar um suporte e trabalhar com essas pessoas. Então teve uma hora que meu trabalho migrou pra isso, não trabalhava mais diretamente com os refugiados no sentido, como psicólogo, mas fazia toda outra parte de batalhar pelas arrecadações, de moradia, essa parte toda junto, e a ludoterapia com as crianças e o que eu podia fazer onde não tinha essa dificuldade da língua, da comunicação> Lucio

< Então, porque eu sabia da importância disso, assim como eram difíceis as histórias. Tinha uma mulher lá na Síria que tinha meio que sequestrado ele, porque assim: a mãe confiou nessa mulher, e aí quando eles vieram, o casal pra cá, e eles falaram assim: a gente chegou aqui. Estamos em segurança. Você pode mandar o nosso filho. Eles conseguiram… assim, eu não lembro direito que órgão ou o que que aconteceu, mas eles conseguiram o dinheiro da passagem. Aí, quando eles foram enviar o dinheiro pra mulher enviar esse menino, ela disse “eu não vou mais mandar” > Lucio

De acordo com Carla as refugiadas se sentem bem e acolhidas no instituto, elas chegam ansiosas para fazer várias coisas e ela vai trabalhando esse aspecto. As vezes com dois, três ou quatro meses, eles não voltam mais, pois são atendidas suas demandas iniciais.

< E então aqui se consegue fazer com que eles fiquem mais acolhidos e então fica mais fácil> Carla

A participante Gisele contou que no atendimento ao refugiado deve haver comprometimento com os pacientes e com a profissão. As faltas dos pacientes dificultam o processo de terapia.

<os meus desafios pessoais eram porque primeiro eu tinha me formado no ano anterior, então eu sentia que, nossa, eu estou muito crua. E eu pessoalmente sou muito exigente. E então acabava um atendimento eu pensava, está bom, o que é que eu posso fazer a partir daqui? Procurava informação, procurava artigo referente a queixa da pessoa, a dinâmica que ela estava apresentando e falava, eu quero fazer alguma coisa. Eu não quero sentir que eu estou só vivendo aquele atendimento ali. Porque eu acredito que o psicólogo ele não faz só o atendimento que ele presta naquele momento> Gisele

Categoria 6: “Vivências impactantes dos profissionais”

Estão presentes relatos que explicitam que o atendimento aos refugiados tende a ser carregado de aspectos emocionais. Neste sentido, foi relatado que os profissionais que trabalham com os refugiados enfrentam situações de grande impacto.

A participante Gisele contou que enfrentou desafios pessoais no atendimento ao refugiado.

<Um pouco de insegurança por serem meus primeiros atendimentos, porque como eu disse eu não tinha trabalhado anteriormente> Gisele

Relatou ainda sentir insegurança em seus primeiros atendimentos com refugiados devido à falta de experiência. Afirmou que ao término de cada sessão ela procurava materiais que pudessem auxiliar na melhoria do atendimento, pois acredita que o trabalho do psicólogo é extensivo ao momento da consulta.

<os meus desafios pessoais eram porque primeiro eu tinha me formado no ano anterior, então eu sentia que, nossa, eu estou muito crua. E eu pessoalmente sou muito exigente. E então acabava um atendimento eu pensava, está bom, o que é que eu posso fazer a partir daqui? Procurava informação, procurava artigo referente a queixa da pessoa, a dinâmica que ela estava apresentando e falava, eu quero fazer alguma coisa. Eu não quero sentir que eu estou só vivendo aquele atendimento ali. Porque eu acredito que o psicólogo ele não faz só o atendimento que ele presta naquele momento> Gisele

Disse-nos sobre um atendimento que fez em que pode notar evolução com a paciente, o que para ela foi gratificante

Segundo o participante Lucio o psicólogo deve estar sempre atento aos seus limites de atendimento com os refugiados, pois eles possuem necessidades básicas como moradia e dinheiro, e as vezes o profissional pode acabar se envolvendo. Em um dos atendimentos o paciente foi encaminhado a outro lugar que falavam sírio e que tinham psicólogos, onde conseguiu ajuda.

<eu acho que a principal orientação é essa, né!? estar em atendimento, em terapia e prestar muita atenção no limite onde você realmente pode chegar, quais atitudes em si dá… porque às vezes, eles demandam coisas diretas assim: dinheiro, moradia, coisas assim que se você não toma cuidado, você acaba se envolvendo junto com eles…..então aí, a minha emoção é que eu não pude ajudar (o entrevistado se emociona novamente). Aí, isso foi… porque como que eu ia atender esse menino?! Não tinha como fazer> Lucio.

O participante Lúcio declarou que não conseguiu dar andamento nos trabalhos psicoterápicos, teve que abrir mão para fazer apenas o acolhimento, em especial pela dificuldade do idioma. Notava as pessoas que chegavam sem nada, sem nenhuma estrutura material e emocional. Pode avaliar que a grande queixa era a impossibilidade de se inserir na sociedade já que não tinham nem como prover suas necessidades básicas. Em alguns casos não tinham nem lugar onde morar ou tomar banho.

< a gente percebia que essas pessoas chegavam realmente sem nada, sem estrutura nenhuma, e uma das grandes queixas era justamente essa: como que eles iriam conseguir se inserir na sociedade sendo que eles não tinham, então muitas vezes um lugar pra tomar banho, uma roupa pra sair, coisas muito básicas . Lucio>

Isso porque os refugiados tinham vários traumas, tanto de seus respectivos países de origem quanto as cenas e conflitos vivenciados na viagem, mesmo que alguns tivessem uma viagem tranquila.

Porém, nota-se que acabam sendo afetados emocionalmente de uma forma ou de outra quando realizam intervenções que visem o auxilio aos refugiados. Por outro lado, sentem-se frustrado quando se deparam com a impossibilidade de auxiliar o outro.

<então aí, a minha emoção é que eu não pude ajudar (o entrevistado se emociona novamente). Aí, isso foi… porque como que eu ia atender esse menino?! Não tinha como fazer.> Lucio

Segundo o participante Lucio o psicólogo deve estar sempre atento aos seus limites de atendimento com os refugiados, pois eles possuem necessidades básicas como moradia e dinheiro, e as vezes o profissional pode acabar se envolvendo para além dos seus limites de atuação.

< eu acho que a principal orientação é essa, né!? estar em atendimento, em terapia e prestar muita atenção no limite onde você realmente pode chegar, quais atitudes em si dá… porque às vezes, eles demandam coisas diretas assim: dinheiro, moradia, coisas assim que se você não toma cuidado, você acaba se envolvendo junto com eles> Lúcio

participante Gisele contou de um atendimento que fez em que pode notar evolução com a paciente, o que para ela foi gratificante. Relatou ainda sentir insegurança em seus primeiros atendimentos com refugiados devido a falta de experiência. E, ainda, que enfrentou desafios pessoais no atendimento ao refugiado. Assim que acabava uma sessão ela procurava materiais que pudessem auxiliar na melhoria do atendimento, pois acredita que o trabalho do psicólogo é extensivo ao momento da consulta.

< Um pouco de insegurança por serem meus primeiros atendimentos, porque como eu disse eu não tinha trabalhado anteriormente> Gisele

DISCUSSÃO

Consideramos que por meio das narrativas dos profissionais de psicologia foi possível termos acesso às suas vivencias, que envolvem especificamente os desafios das práticas psicológicas destinados ao atendimento dos refugiados no Brasil. Portanto, os objetivos foram atingidos. Em cada uma das categorias relacionadas é possível desvelar uma faceta do trabalho do psicólogo com os refugiados. Ficando evidente que em muitos momentos, deixaram de posicionar-se como psicólogos clínicos tradicionais afim de acolhê-los em suas necessidades emergenciais. Tal posicionamento nos remete a proposta de Forghieri (2013), de que é o desejo de auxiliar o outro, de acalmar a pessoa, e de lhe fornecer suporte que impulsiona a prática do profissional psicólogo.

Portanto, a presente investigação propiciou desvelar o quão é necessário que o profissional esteja aberto a experimentar novas práticas, que de fato possam auxiliar esta população.

Estar aberto às diferenças é algo fundamental, uma vez que trabalhar com refugiados demanda dos profissionais motivação para enfrentar dificuldades e desafios relacionados à especificidade de uma população que é atravessada pelos mais diversos atendimentos. Neste sentido, os psicólogos entrevistados deixaram clara a necessidade de buscar outras maneiras de conseguir auxiliar os refugiados.

Há de se ressaltar que segundo os profissionais entrevistados, há uma diferença entre o atendimento de crianças e adultos, sendo mais fácil o acesso a crianças via ludoterapia e, mais complexo o atendimento aos adultos em função de já estarem enraizadas diferentes formas culturais.

Neste sentido, os profissionais buscam diferentes meios para conseguir intervir com esta população, uma vez que se torna um profundo desafio. A necessidade do profissional estar sempre se reinventado, é algo presente nos argumentos de Martins Borges e Pocreau (2012).

Como já aludido anteriormente, as práticas psicológicas com os refugiados dentro do contexto investigado são realizadas de várias formas, pois a cultura e as necessidades não permitem que a atuação profissional siga um protocolo único e específico, mas sim, se adapte as diferentes realidades ( MARTINS BORGES e POCREAU, 2012), trabalhando dentro de uma interculturalidade (RAMOS, 2013).

Rosa (2012), em um projeto de acolhimento aos refugiados, também na cidade de São Paulo, aludiu sobre a dificuldade cultural enfrentada no atendimento aos refugiados, demonstrando que o reconhecimento da interculturalidade se apresenta fundamental no atendimento ao refugiado e, deve ser levado em consideração pelo profissional que irá realizar o atendimento psicológico. No caso da presente pesquisa, foi possível observar que as barreiras culturais de estendiam além do idioma, e, de forma diferente em cada um dos imigrantes devido as distintas origens e suas condições existenciais.

Para Ramos (2013) é na interculturalidade que tentamos compreender o outro em seus múltiplos aspectos. Estar em um ambiente de interculturalidade se mostrou como um aspecto impulsionador, que leva o profissional a encontrar melhores meios para auxiliar a população. Pois estar em contato com o diferente nos atravessa de forma à questionar os outros e a nós mesmos, enquanto profissionais de psicologia.

No presente estudo foi possível ainda observar que os refugiados chegam ao Brasil estão em sua grande maioria no limite das necessidades básicas dos seres humanos. Por isso, os desafios dos psicólogos estão justamente em compreender as necessidades e de alguma forma aprimorar sua atuação.

Um dos assuntos abordados foi justamente a angústia enfrentada pelos refugiados, que chegam ao Brasil. O trabalho de Forghieri (2007) auxilia na compreensão das falas dos respondentes uma vez que nos explica que o atendimento do psicológico pode ser definido como um relacionamento interpessoal de ajuda existencial. Em especial quando os entrevistados assumem terem que realizar um acompanhamento diferente do que o atendimento psicoterápico por sessões, mas sim, acabam por adotar uma postura de acolhimento na convivência cotidiana.

Junto com os sofrimentos acumulados pelos refugiados, também foi encontrada muita expectativa ao chegarem no Brasil. Notou-se que essas expectativas às vezes excedem as capacidades do próprio país em atender. Muitos não imaginam que no Brasil o contexto social ainda é delicado, e, que muitas necessidades não conseguem ser atendidas nem aos próprios brasileiros.

Nesse aspecto, o profissional psicólogo se vê mais uma vez diante à um desafio, pois cabe a ele ao mesmo tempo que fornece a assistência psicológica, intermediar essa realidade, o que deve ser feito com muito cuidado para que este refugiado possa ter na instituição, um ponto de apoio em um momento de tantas incertezas.

Essa questão tem sido muito discutida nas mesas de debates, em especial em torno da política. Recentemente tivemos no noticiário o retrato do confronto entre venezuelanos e os cidadão de Roraima, que acabaram por se revoltar, causando uma embate, impulsionada pela invasão da região fronteiriça, deixando a cidade sem subsídios básicos para os próprias habitantes brasileiros. Desta forma, está em curso a discussão sobre a existência ou não da capacidade do Brasil em atender refugiados, ou ainda: O Brasil deve criar políticas públicas para atender os refugiados, levando em consideração todo o contexto socioeconômico e as necessidades enfrentadas pelos próprios brasileiros?

Desta forma, enquanto não se estabelece políticas públicas, o trabalho de acolhimento aos refugiados é realizado por Ongs que não possuem fins lucrativos e, consequentemente, atendem esses refugiados gratuitamente (Tozzi, 2015), isto nos faz pensar em um ambiente precário de atendimento onde o trabalho acaba sendo realizado por voluntários ou profissionais com pouca experiência.

Se por um lado existe uma vertente humanista, por outro lado existe uma corrente racionalista. Apesar de reconhecer a existência dessas discussões, as autoras decidiram por não se aprofundar nesta seara.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a situação dos refugiados se mostra como um desafio para os profissionais psicólogos que se inclinam a realizar atendimentos na ONG em que foi realizada a presente investigação. Nos deparamos com profissionais que realizam trabalhos voluntários, possuem pouca experiência ou falta de estrutura adequada para atendimento.

Neste sentido ficou nítida a necessidade de se encontrar profissionais especializados para atendimento a esta população.

Os principais desafios narrados pelos profissionais no atendimento com refugiados estão associados as diferenças culturais e as expectativas com que estes refugiados chegam ao Brasil.

Entre os entrevistados houve um consenso que o atendimento psicoterápico é pouco efetivo, a maioria das vezes os refugiados acabam por abandonar o tratamento ou não se sentirem confortáveis devido a barreira cultural. Desta forma, cabe aos profissionais os atendimentos outros, atuando no contato e nas necessidades pontuais que vão sendo evidenciadas durante a convivência.

Assim, este estudo demonstrou-se relevante para que possa servir de base de discussões acerca do acolhimento ao refugiado.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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APENDICE I

ROTEIRO DE ENTREVISTA

Nome:

Idade:

Abordagem:

  1. Conte-nos sua trajetória profissional até começar a trabalhar com o atendimento aos refugiados.
  2. Conte-nos sobre sua rotina de atendimento aos refugiados aqui nesta instituição.
  3. Conte-nos como é sua atuação como participante de uma equipe multidisciplinar no atendimento aos refugiados.
  4. Como é para você trabalhar com o atendimento as múltiplas e diferentes culturas?
  5. Conte-nos seus desafios no atendimento aos refugiados.
  6. Conte-nos um caso de atendimento aos refugiados que mais marcou sua vida profissional.
  7. Qual orientação você daria para que um psicólogo pudesse trabalhar com o atendimento aos refugiados?

APENDICE II

A Constituição de 1988 foi apontada por muitos doutrinadores como sendo a Constituição Humana do Brasil, uma vez que nas Constituições anteriores não fora identificada a preocupação com os Direitos Humanos de forma tão abrangente e direta quanto nesta (GONZALEZ e SILVA, 2015).

  1. Quando um país reconhece o direito internacional se compromete que os termos assinados internacionalmente como é o caso dos tratados internacionais sobreponham-se aos que antes eram reconhecidos anteriormente de forma interna (PIOVESAN, 2013).
  2. Somando-se aos esforços e articulações, incorporando várias instituições, entes, personalidades, organizações sociais, universidades, que se unem na luta pela defesa do refúgio, na promoção de políticas públicas e ações solidárias de proteção, assistência e integração dos migrantes e dos refugiados ( BÓGUS e RODRIGUES, 2011).
  3. Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE) é uma comissão interministerial sob o âmbito do Ministério da Justiça, no Brasil. O CONARE é o organismo público responsável por receber as solicitações de refúgio, e determinar se os solicitantes reúnem as condições necessárias para serem reconhecidos como refugiados.
  4. Nome da Associação de Mobilidade de Fronteira – http://www.emdoc.com/servicos/
  5. Atendendo a ética e sigilo, os nomes originais dos entrevistados foram substituídos por nomes fictícios.

[1] Psicologa.

[2] Psicologa e licenciada em letras.

[3] Administradora de empresas e psicologa.

[4] Psicopedagoga e psicologa.

Enviado: Maio, 2019.

Aprovado: Maio, 2019.

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