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Relato de Experiência: Projeto Biografia

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Relato de Experiência: Projeto Biografia
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ÂNGELO, Jamisson da Silva [1]

ÂNGELO, Jamisson da Silva. Relato de experiência: Projeto Biografia. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 07, Vol. 07, pp. 55-59, Julho de 2018. ISSN:2448-0959

Este artigo tem por objetivo relatar a experiência do projeto “Biografia”, desenvolvido durante o ano letivo de 2017, com alunos do 5º ano da Escola Estadual João Catarino de Souza, o qual teve por objetivo motivar os alunos ao hábito de leitura, proporcionando momentos extrovertidos e agradáveis tendo como gênero textual a biografia. O projeto se deu em quatro fases distintas, as quais serão abaixo relatadas.

No primeiro, sentamos para discutirmos estratégias e ações que viessem a calhar a execução do projeto em questão. Então, a ideia surgiu motivada pelo fato de ainda os alunos do 5° ano não terem trabalhado este gênero literário e também objetivando desenvolver o hábito da leitura, pensamos que se os alunos conhecessem os autores teriam mais incentivo em desejar ler alguma de suas produções. Esta pensamento foi positivo, pois ao finalizarmos o projeto, houve por parte dos envolvidos desejo por conhecer a produção dos escritores estudados e um maior índice de visitas à biblioteca.

O segundo momento foi o planejamento das ações de trabalho, determinando que os encontros aconteceriam todas as quintas-feiras com uma hora de duração (9:30 as 10:30 no período matutino e 15:30 as 16:30 no vespertino). As biografias escolhidas para as leituras foram de Adélia Prado, Maurício de Souza, Cecília Meireles, Monteiro Lobato e Marina Colasanti. Geralmente, antes de introduzir os textos trazíamos documentários biográficos dos autores eleitos para desenvolvimento do projeto. Citamos um exemplo positivo destas estratégias, quando trabalhamos com a biografia de Monteiro Lobato. Na introdução da aula assistimos um episódio do sítio do Pica-Pau-Amarelo e um documentário sobre a vida do autor e as suas principais obras. Alguns alunos até conheciam o seriado Sítio do Pica-Pau-Amarelo, mas desconheciam totalmente sobre o seu autor. Deste modo, todos os escritores estudados tiveram a mesma introdução. Na aula seguinte trabalhávamos com leitura de obras do escritor em evidência e os alunos respondiam um breve questionário sobre o tema, composto por uma única pergunta.

No terceiro momento, fizemos a coleta e registro dos resultados destas leituras, considerando o que Adélia Prado acredita no sentido de desenvolver a leitura. De acordo com a escritora, a leitura não pode ser forçada, mas o papel do professor deve ser resumido apenas em oferecer a obra, deixando que o aluno faça as suas considerações. Diante disto, não cobrávamos interpretação de texto ou usávamos a leitura de forma sistemática, apenas oferecíamos a leitura. Ao final, o aluno respondia a pergunta pré-estabelecida: Qual a sua opinião após ler esse texto? Então, organizamos a nossa coleta de informações observando a participação dos alunos e verificando se após a leitura tinham a curiosidade de ler algo do escritor que estavam estudando e se pegavam livros na biblioteca referente a produção desse autor ou um outro que tivessem curiosidade. Foi satisfatório perceber estas visitas à biblioteca, enquanto trabalhávamos com Monteiro Lobato, bem como com os outros autores.

Como já citamos acima, de acordo com a poeta Adélia Prado, para ser difundida a leitura, basta oferecer o livro e deixar a pessoa ler, nada mais. Ler é conhecer e conhecer é interpretar sem que alguém nos diga como é. Temos a partir da leitura uma noção, e esta alimenta a imaginação transportando muitas vezes nossos corpos para o local em que estamos conhecendo por intermédio da leitura. Ainda, de acordo com a escritora, o livro quando usado para fins de didático, ou seja, para compreender um verbo ou algo do gênero perde a sua principal funcionalidade, que é a agregação do conhecimento, no seu entender aprendemos pela compreensão que adquirimos após ler. Modéstia à parte somos da mesma opinião, também pensamos desta forma, por que temos conhecimento de causa, sabemos que aprendemos muita coisa sem que nossos professores nos dissessem ou tivessem de algum modo ensinado, apenas lendo e entendendo.

Quando lemos um livro entramos automaticamente no mundo que o escritor criou do qual se refere e no qual o leitor passa a participar, isso faz com que criticamos quando o final não é aquele que gostaríamos, vamos ao longo da leitura desenvolvendo uma postura mais ativa, fica difícil não estabelecer um diálogo com o texto, ou seja, interagindo, duvidando, dando palpite, enfim vamos comparando o herói do livro com alguém que admiramos. Recordo que quando li pela primeira vez o livro: O homem que acordou menino, do escritor Rubem Alves, achei que o título não fazia jus aos contos, depois de uma leitura atenta percebi que o senhor que escrevia os contos não era mais um menino e ao rememorar tornou-se aquela criança que um dia foi.

A aprendizagem coexiste com a leitura, de tal modo que não se pode dissociar uma da outra, para Antunes (2003, p. 67) a aprendizagem e a leitura são atividades que se completam, de tal forma que a leitura e a produção de texto escrito são práticas da linguagem, deste modo uma prática social. Isso implica em possibilitar o leitor escrever textos para diferentes interlocutores, com metas diferentes, organizados em diferentes gêneros, circulando em vários espaços sociais de maneira adequada “a situação em que se insere o evento comunicativo” (ANTUNES, 2003, p. 64).

Nossa língua é definida por Bagno (2002, p.24) “como atividade social” torna-se então a prática da interpretação fundamental para a interação social humana. Segundo esse autor essa prática deve ser exercitada em aula, deixando a teoria de lado e focando na prática, ou seja, ler. Seu método de letramento não se resume a saber ler ou escrever. Acredita que é importante que haja um envolvimento nas práticas sociais de leitura e escrita, assim sendo a leitura deve ocorrer para que ocorra a compreensão da gramática e outras áreas da linguagem, sem, no entanto, estar preso excessivamente a nomenclatura.

As escolas têm como objetivo formar cidadãos críticos, capaz de manifestar opiniões próprias forjando seu caráter, tendo total consciência que isso pode ser dado através da leitura. Toda prática social têm uma consequência e a leitura como prática não fica fora dessa concepção. As consequências ao ler é ter ampliados os conhecimentos de mundo, isso de maneira simultânea sem que seja preciso uma abordagem tradicional. É percebido que a leitura faz com que seja desvendados a existência das coisas ao nosso redor, e ao estingar a curiosidade questionando se de fato o que leu funciona da forma que imaginamos há rompimento do nosso horizonte até então estagnado e fechado, transportando-nos para um ambiente de expectativas, mostrando o real, o que de fato é, assim seu universo de entendimento passa a se avolumar.

Sobe isso Braga e Silvestre pontua que:

Para formar um leitor e um produtor de textos competente e autônomo, capaz de compreender e interpretar aquilo que lê, construir significados e transformá-los em palavras, exige-se do professor uma intervenção adequada, contínua e explícita durante toda a vida escolar do aluno. E essa intervenção deve ocorrer de forma coerente e sistemática antes, durante e depois das atividades de leitura (2002, p. 20, grifos das autoras)

Ao propor esse projeto nos colocamos como mediadores do processo de leitura e escrita, escrita porque sabemos que ao ler certamente o leitor terá mais habilidades para escrever. Por esta razão, após leitura pedíamos para que os alunos dessem as suas considerações sobre o que liam. Um exemplo significativo foi quando estudamos o escritor Maurício de Souza e um aluno nos disse que a Mônica era perseguida pelo Cebolinha, por que o mesmo tinha ciúme do seu coelho. Também fizemos algumas entrevistas com os diferentes atores – pais, professores, alunos, bibliotecários, coordenadores – envolvidos no processo, ou seja, entrevistamos os alunos perguntando se gostaram ou não gostaram do que estavam aprendendo, que por sua vez entrevistaram os pais para escrever sobre suas vidas. Neste momento inclusive oportunizou que fizessem visitas, uma vez que alguns alunos decidiram escrever sobre seus avós e precisavam se deslocar a até a casa deles, sem que soubessem estavam também passeando e fazendo uma atividade além de socializando o que aprenderam em sala.

Diante disto, observamos e verificamos se a exploração desses materiais se davam de forma contundente, se as experiências socializadas eram manifestadas quando ao liam, concordavam ou não com o que o autor escreveu. Neste caso, um outro exemplo significativo foi quando trabalhamos o conto: O Homem que não Parava de Crescer da escritora Marina Colasanti e alguns alunos acharam o conto tolo, pois segundo eles este problema só existe na fantasia.

Na finalização tivemos a avaliação da nossa proposta e para isso nos perguntamos o que os alunos aprenderam, se aconteceu aprendizagem durante o estudo da vida dos escritores, sua produção, na autobiografia ou biografia dos seus familiares. Avaliamos também o desenvolver de um senso crítico durante as considerações que faziam após a leitura. Estas avaliações ocorriam no cotidiano do desenvolvimento do projeto.

Com esse projeto buscamos despertar o gosto pela leitura e pensando que é mais importante focar atividades de aprendizagem associadas a leitura, pois as duas acontecem simultaneamente. Lembrando ainda que nós os professores servirmos como mediadores. De maneira muito esperançosa, tentamos envolver a comunidade, consciente que um processo de agregação de conhecimento só acontece satisfatoriamente quando todos participam do processo, uma vez que envolvendo-se será mais fácil despertar o gosto pela leitura nas crianças, idoso, adolescentes entre outros. Isso irá contribuir para o aculturamento, desenvolvendo na sociedade pessoas mais competentes. Portanto, é grande a necessidade de se desenvolver nas comunidades projetos voltados para a leitura.

Referências

ANTUNES, Irandé. Aula de português: encontro e interação. São Paulo: Parábola, 2003.

BAGNO, Marcos. A inevitável travessia. In: BAGNO, Marcos; GAGNÉ, Gilles; STUBBS, Michael. Língua materna: letramento, variação e ensino. São Paulo: Parábola, 2002. p. 13-84.

BRAGA, Regina Maria; SILVESTRE, Maria de Fátima Barros. Construindo o leitor competente: atividades de leitura interativa para a sala de aula. São Paulo: Peirópolis, 2002.

[1] Pedagogo, estudante de História, idealizador e responsável pelo desenvolvimento do Projeto Biografia.

Como publicar Artigo Científico
Pedagogo, estudante de História, idealizador e responsável pelo desenvolvimento do Projeto Biografia.

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