ARTIGO ORIGINAL
PEREIRA, Joana D’arc Rodrigues [1], SOUSA, Elis Maria de [2]
PEREIRA, Joana D’arc Rodrigues; SOUSA, Elis Maria de. A importância do ensino de valores éticos, morais e religiosos no processo de escolarização no primeiro ciclo do ensino fundamental. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 01, Vol. 01, pp. 205-221. Janeiro de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/valores-eticos, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/pedagogia/valores-eticos
RESUMO
Este artigo discorre sobre valores éticos, morais e religiosos, trabalhados pelos professores na escola e suas implicações para a formação do aluno, analisando o que representam para a prática docente a promoção da justiça e o bem-estar coletivo. Discute-se a coerência entre o discurso pedagógico e o que se pratica em sala de aula, ressaltando que o Ensino Religioso neste contexto não tem o caráter confessional, mas a importância do acolhimento das diversidades. A ética docente, portanto, o alicerce que confere credibilidade a todo o processo materializando-se no acolhimento das individualidades e na construção de vínculos respeitosos, essenciais para a formação integral do docente. Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, desenvolvida por meio de levantamento bibliográfico, tendo como principais referenciais teóricos Cury (2003), Luckesi (2022), Libâneo (2021) entre outros. O estudo ressalta como o comportamento ético influencia o ambiente educacional, essencial para promover uma prática pedagógica coerente com os princípios da cidadania e do respeito mútuo. Por fim, evidencia-se segundo estudos de Cury e Luckesi que estimular e acolher o aluno de forma amorosa é importante na constituição ética para lidar com as adversidades, fator essencial para garantir uma formação sólida com direito à educação de qualidade.
Palavras-chave: Afetividade; Aprendizagem; Educação; Valores éticos; Valores religiosos.
1. INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como objetivo refletir sobre as implicações da conduta ética, ou da ausência dela, por parte do professor no processo de escolarização no primeiro ciclo do Ensino Fundamental. Parte-se do pressuposto de que o docente exerce um papel de referência moral e social para o aluno, sendo suas atitudes, linguagem e postura determinante na formação de valores e no desenvolvimento de habilidades socioemocionais. Assim, compreender como o comportamento ético influencia o ambiente educacional é essencial para promover uma prática pedagógica coerente com os princípios da cidadania e do respeito mútuo.
No contexto contemporâneo, marcado por transformações sociais e pelo enfraquecimento de vínculos familiares, a escola assume função cada vez mais ampla na formação integral das crianças. Nessa fase inicial do ensino, o aprendizado de valores éticos, morais e religiosos, quando abordado de maneira plural, inclusiva e sem imposição de crenças, contribui para o desenvolvimento de uma consciência crítica e para a convivência harmônica. De acordo com Freire (1996) a educação é um ato de amor e respeito, sendo impossível ensinar sem reconhecer o outro como sujeito de saber e de dignidade.
A discussão aqui apresentada tem como base a experiência vivenciada durante o estágio supervisionado, momento em que foi possível observar de forma direta as condutas docentes, suas relações com os alunos e os impactos dessas atitudes no ambiente escolar. Essa vivência proporcionou uma compreensão mais concreta sobre a importância da ética na prática pedagógica e evidenciou a necessidade de refletir sobre os desafios enfrentados pelos professores diante da diversidade social e emocional presente nas salas de aula.
Entretanto, observa-se, por vezes, uma contradição entre o discurso pedagógico, que prega valores como empatia, solidariedade e respeito, e a prática docente, quando permeada por atitudes autoritárias, desrespeitosas ou discriminatórias. Essa incoerência pode comprometer não apenas a aprendizagem, mas também o desenvolvimento moral e emocional dos estudantes. Conforme Piaget (1994), a moral autônoma se constrói por meio da cooperação e do respeito mútuo e não da obediência imposta pela autoridade.
Desta forma, a presente reflexão busca discutir de que modo a conduta ética do professor impacta a formação cidadã dos alunos e a construção de um ambiente escolar mais justo e harmonizado. Além disso, pretende-se analisar como o ensino de valores éticos e religiosos, conduzido sob uma perspectiva crítica e inclusiva, pode fortalecer o papel da escola como espaço de transformação social. A coerência entre o que se ensina e o que se pratica em sala revelam-se, portanto, determinante para a eficácia pedagógica e para a formação de cidadãos conscientes, reflexivos e capazes de conviver em uma sociedade pautada pelo respeito e pela empatia.
2. OS VALORES ÉTICOS, MORAIS E RELIGIOSOS NA ESCOLARIZAÇÃO INICIAL
A escolarização representa uma etapa que ainda não foi vivenciada pela criança, marcada pela descoberta de um novo universo com regras, dinâmicas e expectativas próprias. Nesse processo, o professor assume um papel essencial que vai além da instrução curricular, tornando-se mediador na formação de valores, na promoção do respeito e na orientação do comportamento dentro e fora da sala de aula. Como afirma Libâneo (2021), a docência envolve não apenas o ensino de conteúdos, mas também a formação ética e social dos alunos, de modo que a escola se configure como um espaço de construção coletiva de valores éticos e morais, pautado pelo respeito às crenças, às diversidades culturais, às origens e às diferentes estruturas familiares presentes na sociedade.
A abordagem dos valores religiosos, em particular, requer discernimento e sensibilidade por parte do professor, devendo ser tratada sob uma perspectiva cultural e histórica, assegurando o caráter laico do Estado e o direito à liberdade de crença. Conforme orienta a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) (Brasil, 2017), o trabalho pedagógico deve promover o respeito à pluralidade e evitar qualquer forma de doutrinação, especialmente na Educação Infantil e nos anos iniciais, privilegiando vivências que estimulem virtudes universais, como empatia, amor ao próximo, honestidade, cooperação e responsabilidade.
No contexto escolar, a relação entre professor e aluno assume papel central na construção desses valores, uma vez que o docente atua como mediador das interações sociais e seja modelo ético de comportamento. Segundo Freire (1996), toda prática educativa é carregada de intencionalidade moral, pois educar é um ato formador de consciência e não apenas de transmissão de conteúdo.
Portanto as práticas pedagógicas como a contação de histórias, a resolução mediada de conflitos, as brincadeiras cooperativas e assembleias de classe configuram-se como instrumentos eficazes para que as crianças, de forma reflexiva e crítica, compreendam gradualmente os princípios de convivência em sociedade, consolidando uma cidadania consciente e orientada por valores éticos e humanos.
2.1 OS VALORES ÉTICOS E MORAIS
Os valores morais e éticos devem fazer parte da formação histórica da criança desde seu nascimento. Sobre valores, importa ressaltar que a “ética” é o estudo das relações entre o indivíduo e o ambiente o qual está integrado. Nesse aspecto, a ética representa uma escolha de uma determinada conduta e os fundamentos da tomada de decisão.
Nessa perspectiva entende-se que a ética não se limita a regras impostas exteriormente, mas está diretamente ligada à construção da sociedade e a capacidade de agir com responsabilidade diante do outro.
O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Lei Nº 8.069, de 13 de julho de 1990, Art. 53 (Brasil, 1990), estabelece que a criança e adolescente têm direito à educação, visando ao preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho. Diante disso, é imprescindível que o professor atue com comprometimento para garantir que tais objetivos sejam alcançados. Seja em suas atitudes docentes, na postura em sala de aula, na forma de interagir com os alunos, nas relações com os demais profissionais da escola ou no comportamento perante a sociedade, a ética deve estar presente como princípio essencial na prática pedagógica.
As crianças têm direito a uma educação de qualidade, prazerosa e significativa. Para isso é fundamental que o professor cumpra as normas e diretrizes educacionais, reconhecendo que o educar vai muito além de transmitir conteúdos de determinada matéria, mas se faz necessário investir no educando para proporcionar o desenvolvimento da criticidade, da autonomia e do protagonismo, estimulando-o a questionar, refletir e construir sua própria trajetória.
Nesse sentido, Cury (2003) afirma que:
É estimular o aluno a pensar antes de reagir, a não ter medo do medo, a ser líder de si mesmo, autor da sua própria história, a saber filtrar os estímulos estressantes e a trabalhar não apenas com fatos lógicos e problemas concretos, mas também com as contradições da vida (Cury, 2003, p.66).
Evidencia-se, portanto, a importância de preparar o aluno para lidar com as adversidades e contradições que enfrentarão no percurso da vida, desenvolvendo a inteligência emocional e a capacidade de liderança pessoal. A educação deve ir além do raciocínio lógico, abrangendo também as dimensões emocional e social do estudante, cultivar a coragem e a resiliência. O professor, nesse contexto, desempenha papel essencial ao investir na autonomia, na criatividade e no desenvolvimento do senso de responsabilidade dos alunos, elementos indispensáveis para a formação de sujeitos capazes de transformar sua realidade. Como afirma Freire (1996), não há docência sem discência, indicando que o educador também se forma no processo e estabelece com o aluno uma relação dialógica, condição necessária para uma prática educativa integral.
Dessa forma, compreende-se que os valores éticos e morais são pilares da prática educativa, pois orientam não apenas o comportamento do professor, mas também influenciam a formação integral do aluno. A escola, ao promover uma educação baseada na ética e no respeito mútuo, contribui para a construção de um ambiente social mais equilibrado e solidário, capaz de transformar positivamente a convivência humana e fortalecer o exercício da cidadania.
2.2 VALORES RELIGIOSOS
O ensino de valores religiosos na escola deve ser compreendido como parte da formação integral do ser humano e não como um instrumento de doutrinação. A escola, como espaço de convivência democrática, precisa assegurar o respeito à diversidade de crenças e à liberdade de consciência, promovendo o diálogo entre diferentes visões de mundo. Nesse sentido, o Ensino Religioso assume um papel pedagógico voltado para o desenvolvimento do respeito, da empatia e da compreensão das diversas manifestações de fé, sem a imposição de uma verdade única.
De acordo com a BNCC (2017), o Ensino Religioso deve possuir caráter não convencional, ou seja, deve priorizar a reflexão sobre o fenômeno religioso em suas diversas expressões culturais e históricas, sem privilegiar ou excluir qualquer tradição. Tal perspectiva contribui para que os alunos desenvolvam valores éticos e sociais que favoreçam a convivência harmoniosa em uma sociedade plural e democrática.
A educação ética e religiosa contribui para a promoção do diálogo e o entendimento mútuo entre as pessoas. Nesse contexto, cabe ao professor atuar como mediador do conhecimento, conduzindo discussões com sensibilidade e equilíbrio, de modo a estimular a reflexão crítica sobre o papel das religiões na formação dos valores humanos.
O reconhecimento da diversidade religiosa na escola contribui para que os alunos desenvolvam respeito e empatia em relação a diferentes crenças, promovendo o diálogo como parte da convivência social. Conforme Passos e Usarski (2013), o professor atua como mediador, orientando os alunos na construção de valores éticos e cidadãos conscientes de seu papel na sociedade. Dessa forma, o professor não apenas transmite conhecimento, mas contribui para a formação de sujeitos éticos, sensíveis e conscientes de seu papel social.
Toda atividade docente que envolve valores religiosos, contribui para a construção de uma identidade pautada no respeito mútuo e na responsabilidade coletiva. dessa forma, a escola consolida-se como um espaço de acolhimento e aprendizado que valoriza a diversidade e forma cidadãos conscientes, capazes de agir com empatia, solidariedade e humanidade, em um mundo cada vez mais interconectado e diverso.
3. O PROCESSO ESSENCIAL DE ESCOLARIZAÇÃO E A IMPORTÂNCIA DO PROFESSOR
Ser professor vai muito além das atribuições de ensinar, ele pode tocar vidas, transformar vidas. Em um mundo onde tantas crianças crescem sem o apoio familiar que merecem, a escola torna-se, muitas vezes, a única ponte entre a dor e a esperança. Cada gesto de empatia, uma palavra de acolhimento acompanhada de uma atitude ética possui o poder de ressignificar trajetórias e despertar novos sentidos na experiência de ser e conviver. Essa compreensão dialoga com a reflexão de Nóvoa (2019), ao afirmar que “os professores são, antes de tudo, pessoas que marcam pessoas”, reforçando a dimensão humana, afetiva e ética que sustenta a prática docente.
Ao ingressar no processo de escolarização, a criança passa a conviver em um microcosmo social regido por normas, valores e objetivos comuns, o que representa uma profunda expansão na aplicação de sua percepção de mundo. Luckesi (2022), afirma que a escola é o espaço no qual se realiza, de forma intencional, a mediação entre o indivíduo e a sociedade. Nesse sentido, o “aprender a conviver” não é um produto secundário da vida escolar, mas uma dimensão fundamental e planejada da prática pedagógica.
O planejamento docente deve incorporar de maneira explícita objetivos de socialização e formação moral. Isso significa que o professor, ao planejar suas atividades, precisa prever e criar situações didáticas que provoquem o debate respeitoso, a cooperação, a divisão de tarefas e a resolução coletiva de problemas. É na execução da aula que essas intenções se concretizam, refletindo-se nas interações entre os alunos e entre os professores (Nóvoa, 2019).
Conforme enfatiza Luckesi (2022):
Para atuarmos educativamente, necessitamos ser amorosos, em primeiro lugar, com nós mesmos, o que significa reconhecer-nos, acolher-nos, nutrir-nos, sustentar-nos e, se necessário, buscar orientações necessárias para nossa vida, condição para, a seguir, manter uma amorosidade e cuidados equivalentes com nossos estudantes (Luckesi, 2022, p.72).
Nesse processo, a criança não apenas reproduz comportamentos, mas vivencia e reflete sobre os princípios do bem e do mal, do certo e do errado, num movimento que vai da heteronomia à autonomia. Assim, para Luckesi (2022), a escola não se restringe a reforçar o que se aprende no ambiente familiar; ela sistematiza, problematiza e amplia essas aprendizagens, conferindo-lhes um caráter público e coletivo. A convivência escolar, portanto, é pedagogicamente planejada, executada e avaliada para formar cidadãos capazes de transformar a sociedade de maneira consciente e solidária. Assim, a escola com a promoção do ensino sistematizado contribui sobremaneira para a formação ética e cidadã do seu aluno.
3.1 A ESCOLA
O primeiro ciclo do Ensino Fundamental I corresponde à etapa inicial da Educação Básica, sendo fundamental para promover o desenvolvimento integral das crianças nos aspectos psicológico, intelectual, social e físico. Neste contexto, a escola acolhedora desempenha um papel decisivo, pois o afeto constitui a base para o crescimento saudável e para a formação de vínculos significativos de aprendizagem.
Uma escola que acolhe transforma o ambiente educativo em um espaço de aconchego, confiança e desenvolvimento. Quando o afeto está presente no processo pedagógico, o conhecimento é assimilado de forma mais significativa, favorecendo o desenvolvimento da autonomia, da autoestima e da capacidade crítica. Como expõe Galvão (2020), ao analisar o pensamento de Wallon, educar implica atuar também sobre as dimensões afetivas que estruturam o desenvolvimento humano, refletindo-se diretamente nas práticas escolares e na forma como o aluno se relaciona com o saber. Da mesma forma, Libâneo (2017), ressalta que o clima escolar acolhedor influencia a formação ética e emocional dos estudantes, fortalecendo sua participação ativa na aprendizagem. Assim, o ambiente escolar se torna um espaço de humanização, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa, empática e solidária.
A instituição escolar precisa, portanto, estar preparada para lidar com as transformações sociais contemporâneas e assumir o compromisso de instruir os alunos nos princípios éticos e morais que orientam a convivência democrática. Segundo Puig (1998), a educação moral se organiza na escola por meio das práticas cotidianas de convivência, que ensinam o aluno a agir de forma responsável, solidária e participativa. Portanto, é nesse ambiente que a criança aprende a compartilhar, respeitar e compreender o outro, consolidando e ampliando os valores que, muitas vezes, têm origem no seio familiar.
Conforme destaca Luckesi (2022):
O espaço da sala de aula necessita ser o espaço no qual os estudantes possam sentir-se acolhidos e orientados, tendo em vista receber, assimilar e tomar posse dos conhecimentos, das habilidades, assim como os valores éticos curricularmente estabelecidos (Luckesi, 2022, p.67).
Nesta perspectiva, o autor reafirma a importância da sala de aula como ambiente em que acontecem as práticas educativas. Importa dizer que, é na escola que a criança amplia suas experiências, aprende a respeitar regras, expressar sentimentos, conviver com as diferenças e a resolver conflitos de forma construtiva. Deste modo a escola se torna um espaço que dá autonomia, estimula a curiosidade, a cooperação e o senso de responsabilidade.
Assim, compreender o papel da afetividade e da ética no ambiente escolar significa reconhecer que o processo educativo deve integrar razões e emoções, conhecimento e sensibilidade. O educador, ao unir a dimensão técnica e a dimensão humana do ensino, contribui para a formação de cidadãos críticos, éticos e empáticos, preparados para atuar de maneira consciente e transformadora na sociedade.
3.2 AFETIVIDADE DO PROFESSOR
A afetividade associada à prática do professor pode auxiliar para que a criança seja um aluno em potencial a ser instruído, que tem a necessidade de aprender a ler e escrever. O professor precisa compreender que a criança é um ser humano em formação, com emoções, fragilidades e potencialidades que merecem respeito e cuidado. Mais do que ler e escrever, a criança necessita ser acolhida, valorizada e ouvida. Quando o docente age com indiferença, autoritarismo ou abuso de poder, o impacto pode ser profundamente negativo no desenvolvimento cognitivo e intelectual, emocional e social do estudante. Ao destacar que as emoções constituem a base da construção da personalidade infantil, Wallon reforça que relação afetiva é determinante no processo educacional (Wallon, 2007).
A afetividade é um elemento fundamental no processo educativo e para o desenvolvimento integral da criança, pois, cria um vínculo de confiança entre o professor e aluno, que permite o desenvolvimento da autonomia, autoestima, empatia e respeito pelo outro. De acordo com Wallon, o desenvolvimento humano ocorre com inteligência, sendo a afetividade um eixo estruturante dessa trajetória (Wallon, 2007).
Na percepção da autora, a ausência de empatia e o distanciamento afetivo no ambiente escolar podem acentuar traumas já existentes, dificultando a construção de vínculos de confiança e o prazer de aprender. Atitudes punitivas desproporcionais, negligência emocional e comentários depreciativos podem gerar sentimentos de inferioridade, vergonha e desmotivação, afetando diretamente na baixa autoestima, no desempenho e na participação da criança nas atividades e recusando-se a participar das aulas, por não se sentir acolhida nem pertencente ao grupo.
Da mesma forma Tabachi (2024) em seu texto fala sobre a questão da discriminação:
A discriminação chegou a um nível insuportável na escola maternal. A direção pediu-me que mandasse uma babá para ficar exclusivamente com ele na sala de aula. Quando a professora entrava, a babá, por ordem dela, saia com o Ricardo para o pátio para “assim não atrapalhar as outras crianças”. Não contente com este tipo de tratamento, a diretora da escola acabou me pedindo para tirá-lo de lá, alegando não ter “espaço” para o menino. Não pode haver humilhação maior para os pais e a criança, do que a discriminação declarada, sem qualquer sutileza (Tabachi, 2024, p.53).
Neste contexto, o professor desempenha um papel fundamental ao utilizar a afetividade como recurso pedagógico para amenizar os efeitos emocionais causados pela rejeição e promover um sentimento de pertencimento na criança, A afetividade, portanto, não deve ser compreendida como um gesto secundário, mas como uma ferramenta educativa essencial, capaz de ressignificar a presença do aluno no espaço escolar e fortalecer os vínculos com seus colegas e com a aprendizagem.
Portanto, a prática docente é uma ação que poderá amenizar a exclusão social, mas sua eficácia plena depende da transformação cultural, dos valores e políticas escolares. Somente assim será possível construir um ambiente em que nenhuma criança seja considerada “sem espaço”, mas reconhecida como sujeito de direitos e dignidade no processo educativo.
4. RELATOS DE EXPERIÊNCIA DURANTE A REALIZAÇÃO DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO CURRICULAR NO CURSO DE PEDAGOGIA
O Estágio Supervisionado Curricular Obrigatório do Curso de Pedagogia, regulamentado conforme a Lei Nº 11788 de 25 de setembro de 2008 (Brasil, 2008), a qual dispõe sobre o estágio de alunos no âmbito do ensino superior e que regula a questão da obrigatoriedade de estágio presencial para fins de cumprimento dos critérios formativos. Essa legislação estabelece que o estágio deve ser entendido como um ato educativo escolar supervisionado, constituindo-se em um componente essencial obrigatório para a formação docente, uma vez que possibilita ao futuro pedagogo a imersão no campo de atuação profissional, articulando teoria e prática em contextos reais de trabalho.
No curso de Pedagogia do Centro Universitário de Goiatuba – Unicerrado (2024) o Estágio Supervisionado tem um papel fundamental no desenvolvimento das competências necessárias para a atuação em diferentes espaços profissionais e educativos, especialmente na Educação Infantil e nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Permite ao futuro educador que construa sua identidade profissional, aprofundando seu compromisso com uma educação de qualidade, inclusiva e socialmente referenciada, à luz das diretrizes curriculares nacionais e dos princípios éticos que regem a profissão docente.
Para Libâneo (2021), a necessidade da reflexão sobre a prática ocorre:
[…] a partir da apropriação de teorias como marco para as melhorias das práticas de ensino, em que o professor é ajudado a compreender o seu próprio pensamento, a refletir de modo crítico sobre sua prática e, também, a apropriar seu modo de agir, seu saber-fazer, à medida que internaliza novos instrumentos de ação (Libâneo, 2021, p. 137).
O Estágio Supervisionado Obrigatório no curso de Pedagogia, mais do que um requisito legal, configura-se como um espaço privilegiado de aprendizagem profissional, é a circunstância perfeita para pôr em prática todos os conhecimentos teóricos adquiridos em sala de aula, durante o período de Licenciatura, além de proporcionar a vivência direta com a realidade educacional e contribuir para a formação de educadores empáticos, críticos, e sensíveis às diversas realidades presentes no ambiente escolar.
A minha experiência na realização do Estágio Supervisionado Curricular Obrigatório na Educação Infantil e no Ensino Fundamental I, possibilitou-me vivenciar situações que marcaram profundamente a minha percepção sobre o papel do professor no desenvolvimento das crianças. Eu acreditava que a relação professor e aluno fosse mais satisfatória, que o pensamento e a percepção do professor em relação às crianças teriam se modificado, afinal, a maioria dos professores atualmente, de certa forma podem ter passado por algum tipo de trauma emocional.
Devido a esse fato eu acreditava que os professores de modo geral poderiam usar de atitudes diferentes às quais vivenciaram. Percebi que existem excelentes professores, que provocam nos seus alunos sensações de acolhimento, segurança e afetividade. Nesta perspectiva, em um curto período foi possível também vivenciar situações em que crianças eram desprezadas e deixadas de lado por terem mais dificuldade de aprender e entender o que estava sendo proposto, dificuldade esta que pode ser atribuída à forma pela qual a criança é tratada no ambiente familiar.
No primeiro dia de realização do Estágio Supervisionado na etapa de Observação na Escola D[3], a professora saiu da sala de aula, me deixando sozinha com as crianças, mesmo sabendo que naquele momento o estágio era apenas assistido, momento este que aproveitei para pôr em prática o que já havia aprendido na teoria durante as aulas na graduação. Percebi a alegria das crianças com a ausência da professora, e no final da aula fiquei chateada em saber o motivo de sua ausência. Uma das crianças tem laudo de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). As poucas horas que estive com a criança, não tive nenhuma dificuldade, ela participou da atividade que eu propus, e com apoio realizou a atividade, usando pincel e tinta sem atrapalhar os colegas.
A professora só retornou para a sala no final da aula, na hora das crianças irem embora. Finalizando meu estágio naquele dia, me despedi da professora e dirigi-me até a sala da coordenação pedagógica para assinar o livro de presença, fiquei constrangida ao me deparar com uma cena em que havia uma mãe chorando, pelo fato de que a professora deixou explícito que não aceitava o filho dela na sala.
Esse tipo de conduta representa uma forma de negligência institucional e pedagógica, que compromete diretamente o direito dessas crianças a uma educação de qualidade e inclusiva.
Refletindo sobre a cena vivenciada, cheguei à conclusão do perfil de professora que pretendo ser. Quero ser uma professora que promove a humanidade entre meus alunos e entre meus colegas de profissão, pois quando uma família confia o seu filho matriculando-o numa escola ela acredita que ali naquele espaço de educação o seu filho terá oportunidades de adquirir os conhecimentos necessários para se tornar uma pessoa apta a viver e conviver em sociedade.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao concluir esta reflexão, torna-se evidente, que a incorporação de valores éticos, morais e religiosos na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental não apenas enriquece o processo de escolarização, como também se configura como um “andaime” indispensável à formação integral da criança. A escola, enquanto espaço de socialização e construção do conhecimento, assume a responsabilidade de promover, de forma intencional e planejada, uma educação que transcende a dimensão cognitiva, abrangendo a formação do caráter, o desenvolvimento socioemocional e o exercício de uma cidadania ativa.
A partir da experiência vivenciada no Estágio Supervisionado, consolidou-se a percepção de que a conduta ética e afetiva do professor constitui fator determinante para a efetividade do processo educativo. Observou-se, que quando o docente age com respeito, empatia e coerência não apenas favorece a aprendizagem, mas também modela comportamentos e atitudes que serão internalizados pelos alunos. Por outro lado, práticas excludentes, autoritárias ou negligentes, como as presenciadas durante o estágio, evidenciam o impacto negativo que a ausência de alinhamento entre discurso e prática pode causar no desenvolvimento infantil.
Minha compreensão sobre a abordagem dos valores religiosos também se ampliou. Compreendi que, longe de serem evitados, esses valores podem ser trabalhados sob uma perspectiva cultural, histórica e plural, sempre em respeito à laicidade do Estado e à liberdade de crença. Quando conduzido com sensibilidade e isenção, o diálogo sobre religião e valores universais como solidariedade, respeito e amor ao próximo fortalece a convivência democrática e a valorização da diversidade.
Destaca-se, ainda, a importância de a escola constituir-se como um espaço de acolhimento e pertencimento, especialmente para crianças em situação de vulnerabilidade emocional ou social. O caso de Ricardo, relatado por Tabachi (2024), bem como a situação observada durante o estágio, reforçam a necessidade de uma atuação docente que ultrapasse os limites da sala de aula, englobando a defesa intencional dos direitos das crianças e a promoção de uma cultura institucional verdadeiramente inclusiva.
Por fim, minha percepção como futura pedagoga é a de que a educação em valores não deve ser tratada como um conteúdo isolado, mas como um eixo transversal que permeia todas as interações, projetos e planejamentos escolares. A formação docente, portanto, precisa contemplar não apenas saberes técnicos e metodológicos, mas também a reflexão permanente sobre a dimensão ética, política e afetiva da prática educativa. Somente assim será possível formar cidadãos conscientes, críticos e comprometidos, contribuindo para uma sociedade mais justa, humana e igualitária.
REFERÊNCIAS
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BRASIL Lei nº 11.788, de 25 de setembro de 2008. Dispõe sobre o estágio de estudantes. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 set. 2008. Disponível em: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2008/Lei/L11788.htm. Acesso em: 12 set. 2025.
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LIBÂNEO, José Carlos. Organização e gestão da escola: teoria e prática. 6. ed. Goiânia: Editora Alternativa, 2021.
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APÊNDICES – NOTAS DE RODAPÉ
[3] O nome da Escola D, foi atribuído de maneira fictícia, visto não ser ético mencionar o seu verdadeiro nome.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Graduanda em Pedagogia na Universidade – Centro Universitário de Goiatuba-UNICERRADO ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7193-7249. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/9152232218807897.
[2] Mestrado (Stricto Sensu) em Educação – Linha de Pesquisa “Teorias da Educação e Processos Pedagógicos” (Pontifícia Universidade Católica de Goiás – PUC- GO, 2019); Especialização (Pós-Graduação Lato Sensu) em Psicopedagogia (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba, 2002); Graduação em Pedagogia (Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas de Goiatuba, 2001). Professora aposentada da Educação Básica da Secretaria Municipal da Educação e Cultura (SEMEC). Professora titular do Centro Universitário de Goiatuba-UNICERRADO desde agosto de 2004, atuou como coordenadora de Estágio Curricular Supervisionado no período de 2020 a 2023. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-5335-3552. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1798010037675633.
Contribuição dos autores:
Joana D’arc Rodrigues Pereira: concepção do estudo, fundamentação teórica, análise, interpretação dos resultados e redação final do manuscrito.
Elis Maria de Sousa: professora orientadora, auxílio na organização do referencial teórico, orientação metodológica e psicológica, organização do referencial teórico, reuniões presenciais e pelo meet semanalmente e toda a revisão e aprimoramento do texto.
INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL
Conflito de interesse:
Não há conflitos de interesses.
Agradecimentos e Financiamento:
Não há financiamento.
Nota:
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
- Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico da Publicação:
Material recebido: 08 de novembro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 03 de dezembro de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 13 de janeiro de 2026.




