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Efeitos da curcumina no manejo do Diabetes Mellitus tipo 2 – Uma revisão da literatura

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

SANTOS, Milena Silva Rocha [1], MIRANDA, Gabriela Batitucci [2]

SANTOS, Milena Silva Rocha. MIRANDA, Gabriela Batitucci. Efeitos da curcumina no manejo do Diabetes Mellitus tipo 2 – Uma revisão da literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 05, Vol. 02, pp. 44-66. Maio de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/efeitos-da-curcumina, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/efeitos-da-curcumina

RESUMO

O Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) é uma doença crônica multifatorial caracterizada pela presença de um estado inflamatório com produção de citocinas pró-inflamatórias e estresse oxidativo. O desenvolvimento do DM2 pode causar complicações sistêmicas que comprometem o estado de saúde do indivíduo.  Atualmente, há evidências crescentes sobre a eficácia do uso de nutrientes antioxidantes na prevenção e controle do DM2. A curcumina é um composto bioativo encontrado na Curcuma longa, popularmente chamado de Cúrcuma, que exibe várias propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias e tem apresentado evidências de promoção à saúde nas doenças crônicas. Tratando-se de uma revisão narrativa da literatura, o presente artigo teve como objetivo identificar a ação da curcumina e seus benefícios no manejo do pré-DM2, DM2 e DM2 associada a dislipidemia. Foram buscados artigos científicos na base de dados PUBMED publicados no período de 2009 até 2023. As combinações de palavras-chaves utilizadas para as buscas foram: “curcumin AND diabetes”, “curcuma longa AND diabetes”, “curcumin AND type 2 diabetes” e “curcuma longa AND type 2 diabetes”. Foram encontrados 1.195 artigos que abordavam a intervenção nutricional com cúrcuma no DM2, dentre eles 54 estudos experimentais e clínicos. Após critérios de inclusão e exclusão, foram elegíveis 10 artigos científicos. Os estudos mostraram que uso da curcumina pode melhorar o metabolismo da glicose e lipídico, bem como de marcadores do estresse oxidativo e inflamatórios, além da melhora na função pancreática e na sensibilidade à insulina. Apesar dos efeitos da curcumina, especialmente na melhora da resistência à insulina, podendo ser um possível aliado terapêutico no manejo do DM2, ainda é necessário conhecer profundamente como esse nutriente atua no DM2.

Palavras-chave: Diabetes mellitus tipo 2, Inflamação, Resistência à insulina, Curcumina.

1. INTRODUÇÃO

Segundo a International Diabetes Federation (IDF), a prevalência mundial de diabetes mellitus na população adulta (20-79 anos) em 2021 foi de 10,5%. Desse percentual, metade da população não tem conhecimento da existência da condição e 90% dos casos são de diabetes tipo 2. As projeções da IDF mostram que até 2045, 1 em cada 8 adultos, aproximadamente 783 milhões, viverá com diabetes, representando um aumento de 46%. O DM2 é uma doença crônica, multifatorial, caracterizada por concentrações elevadas de glicose circulante (hiperglicemia), advinda do papel disfuncional da insulina e das células beta pancreáticas, podendo acarretar no processo inflamatório de Resistência à Insulina (RI), que pode afetar sistematicamente outros tecidos periféricos (Khan et al., 2019, Rehman; Akash, 2016).

O risco para desenvolver o Diabetes Mellitus Tipo 2 (DM2) é determinado por fatores metabólicos, ambientais, estilo de vida, coexistência de obesidade, genética, idade, Índice de Massa Corporal (IMC), circunferência da cintura, sexo, etnia, sedentarismo, tabagismo, dieta, histórico familiar de diabetes, diabetes mellitus gestacional, pressão arterial elevada e dislipidemia (Laakso, 2019).

O processo inflamatório característico do DM2, envolve a sinalização crônica, de baixo grau da produção aumentada de citocinas pró-inflamatórias como Fator de Necrose Tumoral-α (TNF-α) e Interleucina 6 (IL-6), seguido da infiltração de macrófagos M1 no tecido adiposo, fígado, músculo e pâncreas (Esser et al., 2014) podendo causar complicações sistêmicas comprometendo o estado de saúde do indivíduo. As complicações metabólicas oriundas do DM2 também estão relacionadas ao aumento do estresse oxidativo com a produção exacerbada de Espécies Reativas de Oxigênio (EROS) e a reduzida atividade de defesa antioxidante do organismo (Kizub; Klymenko; Soloviev, 2014). O aumento do estresse oxidativo provocado pela hiperglicemia pode gerar o aumento da Proteína C Quinase (PKC) (Kizub; Klymenko; Soloviev, 2014), uma enzima reguladora associada a diversas doenças como cânceres, doenças neurológicas, doenças cardiovasculares e infecções (Kawano et al., 2021) e dos marcadores pró-inflamatórios a exemplo do TNF-α, IL-1β, IL-6 e Proteína C-Reativa (PCR) (Rehman; Akash, 2016).

O processo de Resistência à Insulina (RI), que pode preceder o diagnóstico de DM2, está intimamente atrelado ao comprometimento funcional da insulina, uma vez que, ainda há a produção desse hormônio pelas células beta pancreáticas, porém há danos na sinalização da insulina – receptor, para que o papel da insulina em captar glicose livre na corrente sanguínea seja executado com êxito (Javeed; Matveyenko, 2018). Sabe-se que a RI pode ocorrer em detrimento de multifatores, especialmente aqueles relacionados com um estilo de vida sedentário e ganho de peso excessivo atrelado à padrões alimentares ricos em açúcares, gorduras, de densidade calórica elevada e conteúdo de fibra irrisório (Khan et al., 2019). As consequências da RI podem ser deletérias, já que pode ocorrer uma compensação funcional das células Beta pancreáticas em detrimento da manutenção normoglicêmica, ou seja, da homeostase glicêmica, podendo ocorrer uma sobrecarga dessas células pancreáticas, podendo culminar na exaustão e morte celular (Chen et al., 2017).  As dislipidemias, bem como o aumento de Ácidos Graxos Livres (AGL) na corrente sanguínea, podem prejudicar a ação da insulina, reduzindo a captação de glicose pela mesma (Pandey; Chawla; Guchhait, 2015; Bardini; Rotella; Giannini, 2012).

Em longo prazo, o não monitoramento e tratamento correto do DM2 para que não haja descompensação glicêmica, pode levar a complicações (Khan et al., 2019) microvasculares, como retinopatia, neuropatia e nefropatia diabéticas, já que o processo inflamatório é sistêmico. Além disso, comorbidades associadas à DM2, como Hipertensão Arterial (HAS), dislipidemias, doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, doenças vasculares periféricas e variações de cânceres, também podem acometer os pacientes, agravando o estado de saúde geral do indivíduo (Wu et al., 2014).

No que tange aos potenciais mecanismos para o tratamento e prevenção do DM2, sabe-se que intervenções no estilo de vida como a prática de exercícios físicos, melhores hábitos alimentares, se mostram necessários, pois são ferramentas atuantes no tratamento de doenças metabólicas (Wu et al., 2014). A prática de exercício físico melhora a saúde e o manejo glicêmico no DM2, isso porque o exercício físico permite que a captação de glicose pelo músculo esquelético se eleve por meio de vias independentes de insulina, melhorando os mecanismos de sensibilidade à insulina, podendo ser um fator de menor risco para eventos cardiovasculares (Kanaley et al., 2022).

Padrões alimentares caracterizados por alimentação rica em fibras e micronutrientes com características anti-inflamatórias e antioxidantes; de baixa densidade energética e minimamente processada, são indispensáveis para o manejo e prevenção do DM2. A qualidade da dieta é um dos fatores que diminuem a incidência do DM2 (Ley et al., 2014; Salas-Salvadó et al., 2019). Nesse sentido, há pesquisas que destacam o papel da Curcumina, composto ativo antioxidante presente na Cúrcuma Longa e que parece apresentar benefícios na melhora do controle glicêmico e RI no DM2 (Pivari et al., 2019).

A curcumina é um componente ativo da Cúrcuma Longa, popularmente chamada de cúrcuma ou açafrão da terra (Prasad; Tyagi; Aggarwal, 2014). A Cúrcuma Longa é um polifenol cultivado em regiões como a Ásia, Austrália e América do Sul (Marton et al., 2021) e que tem apresentado evidências de promoção à saúde nas doenças crônicas (Wojcik et al., 2018) devido às propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias da curcumina (Pivari et al., 2019).

Apesar da cúrcuma ser um alimento com propriedades benéficas, a curcumina apresenta baixa biodisponibilidade e baixa solubilidade (Prasad; Tyagi; Aggarwal, 2014) justamente pelo seu rápido metabolismo no organismo humano, limitando sua absorção no trato gastrointestinal, podendo ser influenciada também pela matriz alimentar de proteínas e lipídeos (Marton et al., 2021).

A curcumina está envolvida no metabolismo glicídico reduzindo a glicose no sangue, reduzindo a resistência e aumentando a sensibilidade a insulina ao poder suprimir o estresse oxidativo e o processo de inflamação, podendo melhorar a sinalização da insulina e consequente redução da hiperglicemia (Zeng et al., 2023).

A curcumina por ser um potente composto antioxidante (Pivari et al., 2019), pode suprimir a produção e ação do marcador pró-inflamatório TNF-α (Aggarwal; Gupta; Sung, 2013), inibindo a ativação do Fator Nuclear kappa B (NF-kB), um fator de transcrição pró-inflamatório, levando a supressão da expressão de biomarcadores inflamatórios (Aggarwal, 2010), pode promover melhorias nas funções da célula Beta (Chuengsamarn et al., 2012) pela redução do estresse oxidativo e redução da indução da morte celular (Aggarwal, 2010) e o aumento da citocina anti-inflamatória adiponectina (Chuengsamarn et al., 2012) que está associada ao menor risco de desenvolver DM2 (Li et al., 2009).

Tendo em vista que o DM2 é um problema de saúde pública mundial, há uma necessidade emergente de promover estratégias de prevenção e tratamento dessa doença. Sendo a cúrcuma um alimento com potenciais efeitos anti-inflamatório e antioxidante, a presente revisão de literatura tem como objetivo reunir e identificar evidências sobre a ação da curcumina no manejo do pré-DM2, DM2 e DM2 associada com dislipidemia na população adulta, a fim de elucidar principais mecanismos envolvidos na possível contribuição da curcumina na atenuação, tratamento e prevenção do DM2.

2. MÉTODOS

O presente artigo trata-se de uma revisão narrativa da literatura. Este tipo de revisão é caracterizado pela descrição, de maneira ampla e desenvolvida de um assunto específico, proporcionando uma atualização sobre a temática fornecida por pesquisadores no estudo do tema (Canuto; Oliveira, 2020).

A busca dos artigos científicos foi realizada em janeiro de 2023 a agosto de 2023, por um pesquisador de forma independente na base de dados científicas Public Medline or Publisher Medline (PUBMED), por meio do endereço eletrônico https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/advanced/. Foram considerados os artigos a partir do ano de 2009 até 2023 para manter os estudos em uma faixa temporal mais atualizada. As combinações de palavras-chaves utilizadas para as buscas foram: “curcumin AND diabetes”, “curcuma longa AND diabetes”, “curcumin AND type 2 diabetes” e “curcuma longa AND type 2 diabetes”. Nessa pesquisa estudos publicados somente em inglês foram selecionados para compor as análises de literatura.

Os artigos contemplaram nove estudos com a população humana adulta e um estudo in vitro com linhagem humana. Os critérios de inclusão para seleção dos artigos científicos foram: artigos originais experimentais e ensaios clínicos que descreviam o papel da curcumina e seu potencial antioxidante e investigaram o efeito da curcumina no manejo do pré-DM, DM2 e DM2 associado com dislipidemia. Foram incluídos somente artigos escritos em inglês, disponíveis na íntegra com acessos gratuitos e pagos. Os critérios de exclusão foram artigos de revisão, teses, dissertações, estudo com animais, crianças e adolescentes, associação de DM com outras comorbidades que não fora dislipidemia e a abordagem de outros tipos de diabetes (DM1, gestacional e insipidus).

A partir da busca inicial, foram encontrados 1.195 resultados de artigos que abordavam o estudo da intervenção nutricional da cúrcuma no diabetes, tendo sido descartados 1.141 pela leitura de título por não terem obedecidos os critérios de inclusão, permanecendo um total de 54 estudos experimentais e clínicos. Desses 54 estudos, foram excluídos 44 após leitura de resumo, nos quais abordavam estudos associando DM2 a outras comorbidades que não fora dislipidemia, incluía outros tipos de diabetes (DM1, gestacional e insipidus) e que utilizaram ensaios clínicos com animais, crianças e adolescentes. Após análise completa dos artigos, 10 estudos foram inclusos por elegibilidade.

Fluxograma

Fonte: Elaborado pela autora (2025).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

 Foram selecionados 10 artigos envolvendo estudos experimentais (1), ensaios in vitro com cultura de células (1) e ensaios clínicos (8), os quais estão sumarizados e descritos cronologicamente na tabela 1.

Tabela 1 – Suplementação de curcumina em diferentes desenhos experimentais com DM2

Estudo Condição patológica Desenho

da pesquisa

Dose

Diária

Local Principais desfechos
Jain et al., 2009

 

 

 

DM2

Cultivo de monócitos U937 de linhagem humana expostos à alta concentração de glicose e controlada com a ausência ou presença de curcumina a 37ºC por 24h.  

 

0,01–1 μ M

Shreveport, Louisiana, EUA ↓ IL-6, IL-8, MCP-1 e TNF-α nos monócitos cultivados. ↓ IL-6, IL-8, MCP-1, TNF-α, glicose, HbA1.
 

 

Chuengsamarn et al., 2012

 

 

Pré-DM

 

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=240). Intervenção: ingestão de 3 cápsulas de curcumina ou placebo por 9 meses.  

 

1.500mg

Nakornnayok,Tailândia Melhora na função das células beta pancreáticas, maior HOMA-B,         e baixo HOMA-IR comparado ao grupo placebo.
Na et al., 2012

 

 

 

DM2

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=100). Intervenção: ingestão de 2 cápsulas de curcumina ou placebo por 3 meses.  

 

300mg

Harbin, China ↓ da glicemia em jejum, HbA1c, HOMA-IR, TG, AGL e melhora da atividade do LPL.
Panahi et al.,

2017

 

 

 

DM2

Ensaio randomizado, duplo-cego             e controlado             por placebo. Homens e mulheres (n=118). Intervenção: ingestão de 2             cápsulas de curcumina + piperina ou placebo por 12 semanas.  

 

1.000mg de

curcumina

+ 10mg de peperina

Tehran, Irã ↓ dos níveis séricos de colesterol total, não HDL-c e Lp(a) e ↑ nos níveis séricos de HDL-c.
Panahi et al.,

2018

 

 

DM2

Ensaio randomizado, duplo-cego             e controlado             por placebo. Homens e mulheres (n=118). Intervenção: ingestão de 1 cápsula de curcumina + piperina ou placebo por             3 meses.  

 

 

500mg de curcumina

+ 5mg de peperina

Tehran, Irã ↓ níveis séricos de glicose.
Adab et al., 2019  

 

DM2 + hiperlipidemia

 

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=80).

Intervenção: ingestão de 3 cápsulas de cúrcuma ou placebo por 8 semanas.

 

 

 

 

2.100mg

Tehran, Irã ↓ IMC, TG e colesterol total após intervenção com curcumina.
Adibian et al.,

2019

 

 

 

DM2

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=53). Intervenção: ingestão de 3 cápsulas de curcumina ou placebo por 10 semanas.  

 

 

 

 

1.500mg

Tehran, Irã ↓ concentração de proteína C reativa, peso, TG e ↑ adiponectina após intervenção com curcumina.
Funamoto et al., 2019  

 

Pré-DM e DM2

 

Ensaio randomizado, duplo-cego             e controlado             por placebo. Homens e mulheres (n=52).

Intervenção: ingestão de 1 cápsula de

Theracurmin® (suplemento natural de             curcumina) ou placebo por 6 meses.

180mg Kyoto, Japão ↓ fração LDL-c; ↑ sérico de adiponectina após intervenção com curcumina.
Hodaei et al.,

2019

 

 

 

DM2

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=53).

Intervenção: ingestão de 3 cápsulas de curcumina ou placebo por 10 semanas.

1.500mg Tehran, Irã ↓ peso, IMC, circunferência da cintura (CC) e glicemia em jejum após intervenção com curcumina.
Thota et al., 2020  

Alterações na glicemia em jejum, RI ou com HbA1c elevada

Ensaio randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Homens e mulheres (n=29). Intervenção: ingestão de 2 cápsulas de curcumina ou placebo por 12 semanas.  

 

 

 

 

180mg

New South Wales, Australia ↓ níveis de GSK-3, IAPP e RI após intervenção com curcumina.

NOTA: AGL: ácidos graxos livres; GSK-3: glicogênio sintase quinase 3; HOMA-B: avaliador da capacidade de secreção de insulina pela célula beta pancreáticas; HOMA-IR: avaliador da resistência à insulina; IAPP: polipeptídeo amiloide das ilhotas; Lp(a): lipoproteína A; LPL: lipoproteína lipase.

Fonte: Elaborado pela autora (2025).

Nos ensaios clínicos selecionados, foi observado diferentes abordagens para o consumo da curcumina, sendo as intervenções utilizando cápsulas de curcumina (Chuengsamarn et al., 2012; Adibian et al., 2019; Funamoto et al., 2019; Hodaei et al., 2019; Na et al., 2012; Thota et al., 2020) e cúrcuma (Adab et al., 2019), na sua extração natural, isolados ou adicionados com peperina (Panahi et al., 2017; Pahani et al., 2018), um composto extraído do Piper Nigrum, popularmente chamado de pimenta preta.

As doses diárias de curcumina utilizadas nos ensaios clínicos variaram de 80mg a 2.100mg e o período de intervenção variou de 7 semanas a 9 meses (Chuengsamarn et al., 2012; Panahi et al., 2017; Pahani et al., 2018; Adab et al., 2019; Adibian et al., 2019; Funamoto et al., 2019; Hodaei et al., 2019; Na et al., 2012; Thota et al., 2020). Os ensaios clínicos incluíram participantes com faixa etária de 18 a 70 anos, com pré-diabetes e DM2 (Chuengsamarn et al., 2012; Panahi et al., 2017; Pahani et al., 2018; Adab et al., 2019; Adibian et al., 2019; Funamoto et al., 2019; Hodaei et al., 2019; Na et al., 2012; Thota et al., 2020), o mesmo foi observado nos estudos experimentais (Jain et al., 2009). Em modelo in vitro, células foram tratadas com altas concentrações de glicose (Jain et al., 2009).

As evidências mostram que o uso da cúrcuma ou curcumina (em diferentes formulações e doses entre 80mg a 2.100mg) pode reduzir marcadores pró-inflamatórios como Interleucina 6 (IL-6), Interleucina 8 (IL-8), Monócitos 1 (MCP-1), Fator de Necrose Tumoral (TNF-α), Proteína C-Reativa (PCR) e estresse oxidativo (Jain et al., 2009; Adibian et al., 2019). Além disso, intervenções com curcumina já demonstraram efeitos benéficos no metabolismo glicídico de indivíduos adultos pré-diabéticos e com DM2, ao reduzir níveis plasmáticos de glicose circulante, Hemoglobina Glicada (HbA1c) e RI (Jain et al., 2009; Pahani et al., 2018; Hodaei et al., 2019; Thota et al., 2020).

Intervenções com cúrcuma ou curcumina, também podem contribuir com a melhora do perfil lipídico em condições dislipidêmicas de indivíduos adultos, melhorando parâmetros bioquímicos, como Triglicerídeos (TG) (Adab et al., 2019; Adibian et al., 2019), Colesterol Total (CT) (Panahi et al., 2017; Adab et al., 2019), Lipoproteína de Baixa Densidade (LDL-c) (Funamoto et al., 2019) e elevando os níveis de Lipoproteína de Alta Densidade (HDL-c) (Pahani et al., 2017). Das contribuições metabólicas que a curcumina pode desempenhar, estão também a importante melhora funcional das células beta pancreáticas (Chuengsamarn et al., 2012), redução do Índice de Massa Corporal (IMC) (Adab et al., 2019; Hodaei et al., 2019) e consequente aumento nas concentrações de adiponectina, mediante a relação inversa que a mesma apresenta com o IMC (Adibian et al., 2019; Funamoto et al., 2019).

O DM2 é uma doença crônica caracterizada pela hiperglicemia (Khan et al., 2019, Rehman; Akash, 2016), oriunda de um estilo de vida sedentário e excesso de peso, entre outros fatores como fatores metabólicos, ambientais, genética, idade, Índice de Massa Corporal (IMC), circunferência da cintura, sexo, etnia, sedentarismo, tabagismo, dieta, histórico familiar de diabetes, diabetes mellitus gestacional, pressão arterial elevada e dislipidemia (Khan et al., 2019, Laakso, 2019). O estudo de Hodaei et al. (2019) reuniu 53 participantes com DM2, no qual uma amostra consumiu 1.500mg de curcumina em cápsula (n=25) e o outro placebo (n=28), 3 vezes ao dia por 10 semanas. Os pacientes foram orientados a não mudar seus hábitos alimentares habituais, atividade física, estilo de vida e medicamentos durante o período de intervenção. Os pesquisadores relataram que a suplementação de curcumina em relação ao grupo placebo causou mudanças significativas no peso médio, IMC, circunferência da cintura e da glicemia em jejum dos participantes. No entanto, não mostrou nenhuma diferença para HbA1c, insulina, capacidade antioxidante total, índice de HOMA-IR e função das células Beta pancreáticas.

Thota et al. (2020), selecionaram 29 participantes com alterações na glicemia em jejum, RI ou com HbA1c elevada, que consumiram 180mg de curcumina encapsulada ou placebo, 2x/dia ao longo de 12 semanas. Os participantes foram aconselhados a manter seu padrão alimentar regular e níveis de atividade física durante todo o período de estudo. Os autores mostraram redução pós-intervenção com curcumina comparado ao grupo placebo, na RI e nos níveis de Glicogênio Sintase Quinase 3 (GSK-3), uma enzima que participa do metabolismo glicídico. A GSK-3 regula a sinalização da insulina reduzindo a síntese de glicogênio pela inibição da enzima Glicogênio Sintase (GS), e a diminuição da GSK-3 provoca maior sensibilidade a insulina (Ullah et al., 2023). Além disso, o estudo apresentou nos participantes suplementados com curcumina redução no Polipeptídeo Amiloide das Ilhotas (IAPP), um peptídeo regulador que possui propriedades citotóxicas podendo provocar perdas de células beta pancreáticas (Westermark, Andersson; Westermark, 2011) e pode induzir a RI ao antagonizar a atividade da insulina (Thota et al., 2020).

No estudo de Panahi et al. (2018), 118 participantes com DM2 foram submetidos à suplementação de 500mg de curcumina juntamente com 5mg de peperina diariamente ou placebo 1x/dia por um período de 3 meses. A peperina foi adicionada ao estudo com o intuito de aumentar a biodisponibilidade da curcumina. Os participantes foram orientados a seguir o tratamento padrão da DM2, receberam instruções dietéticas juntamente com o uso da curcumina. Foi observado que as concentrações séricas de glicose reduziram significativamente pós-intervenção com curcumina, comparado ao grupo placebo. Porém, não foram observadas mudanças significativas para Proteína C-Reativa (PCR).

Já no estudo de Na et al. (2012), 100 pacientes consumiram curcumina (n=50) ou placebo (n=50) por 3 meses. Foi utilizada 300mg de curcumina diariamente, sendo observada redução nos níveis de glicemia em jejum, HbA1c, HOMA-IR, TG, AGL e melhora da atividade da enzima Lipoproteína Lipase (LPL). Os participantes durante a intervenção foram solicitados que mantivessem a dieta habitual, estilo de vida e o uso de medicamentos original.

A hiperglicemia pode promover o aumento do estresse oxidativo e da produção da PKC, a qual provoca elevação de marcadores pró-inflamatórios, como IL-6, IL-8, MCP-1, TNF-α e PCR (Rehman; Akash, 2016). O aumento da inflamação pode gerar complicações sistêmicas, tais como a indução do processo inflamatório nos tecidos periféricos, que perdem a capacidade de utilizar a insulina diante da quantidade exacerbada de glicose circulante (Rehman; Akash, 2016).

O estudo de Jain et al. (2009) utilizou e cultivou células de linhagem humana, monócitos U937, expostos à elevadas concentrações de glicose com a ausência ou presença de curcumina a 37ºC por 24 horas. As células expostas a alta concentração de glicose tiveram um aumento dos marcadores pró-inflamatórios e o tratamento com curcumina mostrou efeito inibitório no aumento da secreção de TNF-α, IL-6, IL-8 e MCP-1, demonstrando melhora no processo inflamatório.

O marcador TNF-α em condições mais elevadas pode diminuir a expressão dos Receptores de Insulina (IRS-1) e Transportador de Glicose 4 (GLUT-4), responsáveis pela captação de glicose, inibindo sua sinalização (Jain et al., 2009), podendo gerar assim a RI (Panahi et al., 2018). A curcumina pode atuar como um potente composto antioxidante (Pivari et al., 2019), podendo suprimir a produção e ação do marcador pró-inflamatório TNF-α (Aggarwal; Gupta; Sung, 2013), inibindo a ativação de NF-kB, um fator de transcrição nuclear pró-inflamatório, levando à supressão da expressão de biomarcadores inflamatórios (Aggarwal, 2010).

As consequências da RI podem ser deletérias, já que pode ocorrer uma compensação funcional das células beta pancreáticas em detrimento da manutenção normoglicêmica, podendo ocorrer uma sobrecarga dessas células pancreáticas e mal funcionamento (Chen et al., 2017). A curcumina pode promover melhorias nas funções da célula beta (Chuengsamarn et al., 2012) pela redução do estresse oxidativo ou redução da indução da morte celular (Aggarwal, 2010).

O estudo de Chuengsamarn et al. (2012) selecionou 240 participantes com pré-diabetes que foram orientados a consumir três cápsulas de curcumina ou placebo 2x/dia ao longo de 9 meses. Cada cápsula de curcumina continha 250 mg, totalizando 1.500mg diárias. Os participantes receberam devidas recomendações de como manter o padrão de estilo de vida. Os autores concluíram que houve aumento significativo no índice HOMA-Beta, potente marcador da capacidade de secreção de insulina pelas células beta pancreáticas, após intervenção com curcumina.

Os autores ainda analisaram o marcador bioquímico de resistência à insulina, o HOMA-IR, e observaram redução nesse índice no grupo suplementado com curcumina comparado ao grupo controle. Foi demonstrado também que os participantes pré-diabéticos suplementados com curcumina, não evoluíram para um quadro de DM2. Em contrapartida, o mesmo não ocorreu com o grupo placebo, em que uma grande parcela dos participantes desenvolveu DM2, após 6 meses de intervenção (9,5%) e após 9 meses de intervenção (15,5%) (Chuengsamarn et al., 2012).

Além de apresentar um potencial anti-inflamatório, a curcumina também está associada ao aumento da citocina anti-inflamatória adiponectina (Chuengsamarn et al., 2012). A adiponectina possui efeito benéfico sobre o metabolismo da glicose, a partir da ativação da proteína quinase ativada por Monofosfato de Adenosina (AMP-

K), responsável pela translocação do Transportador de Glicose 4 (GLUT-4) para a membrana celular, melhorando a sensibilidade à glicose (Achari; Jain, 2017).

Adibian et al. (2019), recrutaram 53 participantes com DM2, que consumiram 1.500mg de curcumina encapsulada (n=25) ou placebo (n=28), grupo que consumia farinha de arroz na forma de cápsula, 3x/dia ao longo de 10 semanas. Pacientes foram orientados a seguir uma alimentação saudável e praticar atividade física. Os autores mostraram redução na média de peso, TG, na concentração de PCR e aumento da adiponectina no grupo curcumina, comparado ao placebo. No entanto, não foi observado mudanças significativas nos parâmetros de CT, LDL-c E HDL-c.

No ensaio clínico de Funamoto et al. (2019), indivíduos pré-diabéticos (n=33) e com diagnóstico de DM2 foram orientados a consumir 180mg de curcumina (nome comercial de Theracumin), suplemento natural de curcumina, durante 6 meses. Os autores concluíram que a curcumina pode reduzir efeito de reduzir o LDL-c e também observou aumento de adiponectina, uma citocina anti-inflamatória.

A curcumina, além de apresentar benefícios sobre o metabolismo da glicose em pacientes com DM2, tem demonstrado também efeitos promissores sobre o metabolismo lipídico, com a possibilidade de promover modificações benéficas nos níveis de colesterol total e frações lipídicas (Marton et al., 2021).

As dislipidemias, bem como o aumento de AGL na corrente sanguínea, podem prejudicar a ação da insulina, reduzindo a captação de glicose pela mesma (Pandey; Chawla; Guchhait, 2015; Bardini; Rotella; Giannini, 2012), o que pode acarretar na denominada lipotoxicidade das células beta (Bardini; Rotella; Giannini, 2012). O fato é que os AGL são carreados até o fígado, induzem a gliconeogênese hepática e a síntese elevada de Lipoproteína de Muita Baixa Densidade (VLDL) (Bardini; Rotella; Giannini, 2012), se ligam a receptores do tipo Toll-like Receptor (TLR4), ativando o fator nuclear NF-kB, favorecendo a translocação de citocinas pró-inflamatórias, agravando a RI, já que esta favorece ainda mais o processo lipolítico, com a insistente circulação dos AGL (Pandey; Chawla; Guchhait, 2015).

Panahi et al. (2017) recrutaram 118 pacientes com DM2, os quais fizeram uso de cápsulas contendo 1.000mg curcumina adicionada de 10mg de peperina diárias ou placebo, 2x/dia, durante 12 semanas. A peperina foi adicionada para aumentar a biodisponibilidade da curcumina. Foi observado diminuição dos níveis séricos de colesterol total, não HDL-c e Lipoproteína A (Lp(a)) e aumento nos níveis séricos de HDL-c no grupo curcumina. No entanto, não houve mudanças significativas nos valores de TG e LDL-c.

Adab et al. (2019) observaram que com o uso de doses maiores de curcumina, 2.100mg, sem a combinação com a peperina, houve benefícios no grupo curcumina com a redução da dislipidemia em pacientes diabéticos e dislipidêmicos, quando comparado ao grupo placebo. É importante salientar que nenhuma mudança dietética ou no estilo de vida dos participantes foram observadas, sugerindo resultados bastante fidedignos para a curcumina.  No entanto, nenhuma mudança foi observada no perfil glicêmico, níveis de PCR e capacidade antioxidante total, ao longo de 8 semanas. Segundo os autores, é possível que a curcumina atue em mecanismos catabólicos do colesterol ao elevar a atividade da enzima 7-hidroxilase do colesterol hepático. Ademais, pode haver a inibição da síntese de colesterol pela supressão da enzima HMG-CoA redutase, além de afetar os receptores de LDL-c e aumentar a betaoxidação dos ácidos graxos.

Por fim, a presente revisão de literatura revela que a curcumina pode ser capaz de melhorar a resistência à insulina, o metabolismo da glicose, perfil lipídico e parâmetros inflamatórios em adultos com DM2. No entanto, é importante ressaltar que neste artigo existem algumas limitações, tais como os estudos que utilizam diferentes doses de curcumina nas intervenções, bem como diferentes protocolos crônicos ou agudos, o que exige cautela na interpretação dos resultados. Há algumas limitações que também podem influenciar no entendimento da eficácia da curcumina, como sua baixa biodisponibilidade no organismo humano, o tempo e amostra insuficiente dos estudos para analisar a influência da mesma e a variabilidade do estilo de vida de cada paciente. Ainda não se sabe ao certo a quantidade ideal do consumo diário de curcumina para induzir positivamente no quadro do DM2 e seus reais efeitos, o que se faz necessário mais estudos precisos para observar o papel da curcumina nessa patologia. Compreende-se que a ação e os efeitos da curcumina no DM2 podem representar um importante composto aliado na prevenção e tratamento do diabetes.

4. CONCLUSÃO

A presente revisão de literatura demonstrou que a curcumina pode ter efeitos antioxidantes capazes de melhorar o metabolismo da glicose em condições de DM2. Embora a literatura tenha proposto um papel relevante da curcumina no manejo anti-inflamatório do DM2, ainda é preciso mais esclarecimentos quanto à eficiência dessa substância, bem como as ações metabólicas mecanicistas no DM2.

Existem poucos estudos que refletem a capacidade da curcumina de melhorar o DM, devido às limitações como o tempo do consumo do nutriente, a quantidade ideal a ser consumida e biodisponibilidade, sendo um objeto de estudo que tem muito a ser explorado e que possui a necessidade de investimento em mais pesquisas clínicas e experimentais a fim de esclarecer o potencial papel da curcumina no manejo do DM2.

Por fim, o consumo da curcumina deve ser incentivado, por não haver contraindicações a população saudável e por possuir seus efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. É importante salientar que a cúrcuma deve ser consumida por pessoas que não possuam sensibilidade a cúrcuma, histórico de úlceras, grávidas, distúrbios hemorrágicos ou que sintam algum tipo de efeito colateral tais como desconfortos gastrointestinais, não só para se ter os possíveis benefícios no DM2, mas para obter um aporte maior de antioxidante diário, necessário para o organismo.

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NOTA

Os autores utilizaram a Inteligência Artificial Microsoft 365 Copilot correção gramatical. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos, organização e escrita do trabalho foram realizadas de maneira autoral.

[1] Pós-graduação Lato Sensu em Nutrição esportiva e obesidade pela Universidade de São Paulo; Pós-graduação Lato Sensu em Nutrição clínica hospitalar e ambulatorial pela Faculdade Unyleya. Graduação em Nutrição pela Universidade Salvador. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6126-2593. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3463026722813151.

[2] Doutora (2017-2022) em Ciências Nutricionais pela Unesp, Araraquara/SP em conjunto com o Laboratório de Nutrição, Metabolismo e Exercício da Escola de Educação Física e Esporte da USP de Ribeirão Preto. Mestre (2015-2017). Aperfeiçoamento em Nutrição Esportiva (Universidade de São Paulo, USP, 2017 e 2018). Aprimoramento profissional em Nutrição no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP / USP, 2014). Iniciação Científica desenvolvida no Laboratório de Biotecnologia da Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (2012). Graduação em Nutrição pela Unicamp – FCA (2010-2013). https://orcid.org/0000-0001-5719-8378.

Material recebido: 16 de julho de 2024.

Material aprovado pelos pares: 10 de abril de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 23 de maio de 2025.

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Milena Silva Rocha Santos

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