Análise crítica sobre o papel da universidade no fomento do empreendedorismo

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ARTIGO ORIGINAL

ARAKAKI, Arthur Teruo [1]

ARAKAKI, Arthur Teruo. Análise crítica sobre o papel da universidade no fomento do empreendedorismo. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 11, Vol. 12, pp. 69-81. Novembro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/lei/papel-da-universidade

RESUMO

A relevância da educação empreendedora para o desenvolvimento de um país tem sido reconhecida em inúmeras nações. Nos últimos anos, estudos acerca do empreendedorismo avançaram em termos de notoriedade, todavia, a questão da educação empreendedora ainda exige um debate mais sólido, que contribua para o seu amadurecimento, norteamento e difusão de modo mais efetivo. Posto isso, o presente estudo visa confrontar e analisar premissas, objetivos e metodologias de educação empreendedora no âmbito das Universidades. As suas diferenças em relação à educação tradicional têm acarretado a necessidade de criação de novos modelos pedagógicos, que se harmonizem com as atitudes e habilidades do sujeito empreendedor. Assim, este estudo analisa as peculiaridades da educação empreendedora, seus aspectos metodológicos, a função do docente, o ponto de referência que o acadêmico assume no processo e a visão destes em relação ao assunto. Para tanto, foi adotada a estratégia de estudo de caso, através da utilização da técnica de coleta de dados, com a realização de entrevista com acadêmicos do 10º período do curso de Direito de uma universidade pública.

Palavras-chave: Empreendedorismo, Educação Empreendedora, Papel das Universidade, Aprendizagem Empreendedora, Direito.

1. INTRODUÇÃO

A relevância da educação empreendedora para o desenvolvimento de um país tem ganhado destaque, não somente no território brasileiro, mas em várias outras nações, tendo sido inserida como prioritária nas agendas e discussões políticas, acadêmicas e econômicas, incluindo os mais elevados níveis de debate das Nações Unidas (UNCTAD, 2015; LIMA et. al., 2015).

Conferências realizadas pelo órgão internacional da ONU responsável pelo desenvolvimento e economia indicam quatro ramos-chave para a educação empreendedora: a) implementação do empreendedorismo na educação e treinamento, b) o desenvolvimento curricular, c) o desenvolvimento do docente e d) o engajamento junto ao setor privado (UNCTAD, 2011).

Ademais, o desenvolvimento e instituição de programas de educação empreendedora seguem as orientações da Unesco para a educação do presente século. Além destes panoramas, a Unesco recomenda outros aspectos da moderna educação vinculadas ao empreendedorismo, com o intuito que os acadêmicos desenvolvam a capacidade de inovar, obter conhecimento, elaborar projetos próprios e aprender a lidar com as adversidades (LOPES; TEIXEIRA, 2010).

No que tange ao Brasil, nota-se a necessidade e a consequente oportunidade de se fomentar uma educação empreendedora que possibilite que uma maior parcela de sua população desenvolva o seu potencial empreendedor (DOLABELA; FILION, 2013).

A educação empreendedora pode alavancar a qualidade da preparação e a quantidade de jovens proativos, inovadores e com iniciativa, tanto para trabalharem em uma atividade autônoma quanto para atuarem em uma organização, ou até mesmo para gerirem seu próprio empreendimento. Em ambas as situações, o resultado reflete no crescimento econômico do país (GUERRA; GRAZZIOTIN, 2010; LIMA et. al., 2014). A educação empreendedora perpassou por um longo caminho nas últimas décadas, e se instalou em disciplinas, programas de formação e atividades preparatórias, entretanto, as pesquisas relacionadas ao tema ainda carecem de mais estudos empíricos e teóricos  (LIMA et. al., 2014).

Nesse contexto, sem sobra de dúvidas, os estudos a respeito do “empreendedorismo” evoluíram muito em termos de visibilidade e relevância, mas a temática “educação empreendedora” ainda necessita de um debate mais sólido e embasado, que contribua para o seu norteamento e amadurecimento, estimulando sua disseminação de modo mais efetivo.

2. CONCEITO DE UNIVERSIDADE EMPREENDEDORA

A expressão ‘universidade empreendedora’ foi empregada pela primeira vez na história por Clark (1998) em seu estudo Creating entrepreneurial universities: organizational path of transformation, que a define como aquela que promove mudanças em sua cultura e em sua estrutura organizacional – fortalecendo seu núcleo diretivo e de gestão – modificando seus programas, currículos e fontes de financiamento, buscando engajamento em um sistema social para assegurar um futuro promissor.

As habilidades para se identificar novas oportunidades, no meio externo, avaliá-las e aproveitá-las, traduzindo-as em conceitos de serviços e produtos viáveis, são o eixo central do processo de empreendedorismo (MORRIS et al., 2011). É a concentração de energia para dar início a um novo conceito ou criação de empreendimento ou negócio, ao invés de somente analisar ou assistir. Tal concepção exige uma disposição para assumir riscos estudados e, posteriormente, fazer todo o possível para minimizar as chances de fracasso.

O empreendedorismo também abarca a capacidade de se formar uma equipe com talentos e habilidades complementares, assim como a aptidão para reconhecer a oportunidade ao invés do caos, confusão e contradições (MORRIS et al., 2011).

A Carta Constitucional em vigor estabelece em que art. 207 que: “as universidades […] obedecerão ao princípio da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão” (BRASIL, 1988). Noutras palavras, o tripé formado pela pesquisa, pelo ensino e pela extensão representa os eixos basilares das universidades do país e não deve ser relegado. Assim, essas funções basilares merecem atenção por parte das instituições de ensino superior, sob risco de ofensa a preceito constitucional.

Gibb et al. (2013) defende que as universidades estão diante de um enorme desafio e ao mesmo tempo novas oportunidades na criação de uma cultura empreendedora, visto que há uma grande liberdade nos departamentos, classicamente integrados em “comunidades de estudiosos”, que se movimentam mais para uma “comunidade de prática”.

De acordo com Chrisman et al (1995), a universidade empreendedora se relaciona com a criação de novos negócios por estudantes, técnicos ou professores universitários. Já no sentir de Röpke (1998), uma universidade empreendedora pode representar três coisas: a própria universidade, como organização, torna-se empreendedora; os integrantes da universidade – estudantes, professores, funcionários – tornam-se empreendedores; e a interação da universidade com o meio ambiente (região), é norteada por uma acepção empreendedora.

Segundo Barnes et al (2002), a universidade empreendedora é uma entidade que oferece oportunidades, culturas, práticas e ambientes propícios que fomentem e recepcionem ativamente o empreendedorismo, o qual faz parte da própria essência destas instituições.

Para Etzkowitz (2003), a universidade empreendedora constitui uma incubadora natural, oferecendo estrutura de apoio para acadêmicos e docentes para iniciar novos negócios. Já Guenther e Wagner (2008) afirmam que uma universidade empreendedora consiste em desenvolver instrumentos direto e indireto, para vincular a academia aos empreendimentos, tais como transferência de tecnologia e escritórios, parques científicos e incubadoras, bem como o ensino sobre o empreendedorismo para proporcionar competências e habilidades no desenvolvimento de atividades empreendedoras.

3. INCENTIVO AO EMPREENDEDORISMO NAS INSTITUIÇÕES DE ENSINO SUPERIOR

Para que a criatividade seja transformada em inovação, as instituições de ensino superior precisam oferecer aos acadêmicos a oportunidade de aprendizagem sobre empreendedorismo aplicado na prática, seja por intermédio da aproximação dos alunos com os empreendedores, seja pela disponibilização de ambientes de ensino que contribuam para o desenvolvimento da cultura de empreender.

Por certo, os alunos aprendem através de engajamento prático, via projetos reais que aprimoram seus conhecimentos, por meio de dinâmicas e vivências próximas da realidade. Infelizmente, no Brasil, apenas 6,2% das instituições de ensino contam com disciplinas que oferecem maior viés de inovação, como a criação de novos empreendimentos, incubadoras, empresas juniores e outros espaços que estimulem um perfil empreendedor. (LEYDESDORFF, 2012)

As universidades devem assumir uma postura estratégica no desenvolvimento do ecossistema empreendedor, tomando para si a responsabilidade de uma importante missão: além da pesquisa e do ensino, passam a ser responsáveis pelo desenvolvimento econômico, gerando conhecimento científico e tecnológico, de modo inovador, em conjunto com todos os integrantes do ecossistema, em favor do crescimento da região, refletindo na economia do país (ETZKOWITZ, 2013).

Considerando esse papel que as universidades devem assumir, para que sejam viabilizadas as iniciativas empreendedores, no espaço universitário, é imprescindível o suporte e apoio do corpo diretivo, de maneira a estimular pesquisadores, docentes e acadêmicos no desenvolvimento de espaços dedicados à promoção do empreendedorismo.

Nota-se um preocupante desequilíbrio entre o que o mercado de trabalho necessita e procura, e as aulas teóricas que são promovidas nas Universidades. Esta percepção vai de encontro com os ensinamentos de Mahoney e McGahan (2007), que apontam que as empresas não estão satisfeitas em receber das instituições de ensino pessoas despreparadas para enfrentar os desafios contemporâneos.

Diversas são as circunstâncias que interferem diretamente no desenvolvimento profissional dos acadêmicos. Fatores como capacidade de resolver problemas, trabalhar em equipe, inovação, criação e tomada de decisões são competências empreendedoras essenciais para o desenvolvimento profissional (DOLABELA; FILION, 2013). Assim, a característica essencial do profissional do futuro é ser empreendedor.

O ecossistema empreendedor reside num espaço regional conjunto e com uma gama de atores que se relacionam em conformidade com o modelo da Hélice Tríplice, integrado por três figuras importantes: Estado, empresas e universidade. Os atores de um ecossistema empreendedor são: capital humano, ambiente financeiro, mercados maduros, políticas públicas, aspectos culturais e agentes de suporte (ISENBERG, 2010).

A partir daí, observa-se que as universidades detêm um importante papel, no âmbito do ecossistema empreendedor, haja vista que possui grande influência na formação dos jovens, como fonte de conhecimento, criatividade e inovação.

A metodologia tradicional clássica de ensino é deficiente não desenvolvendo satisfatoriamente conhecimentos, atitudes e habilidades alinhadas às necessidades e complexidades do mercado. Como resultado, verifica-se uma grande necessidade de se estimular maneiras de pensar inovadoras e novos mecanismos, para aperfeiçoar o ensino e desenvolver abordagens efetivadas para a aprendizagem e a educação (HIGGINS; SMITH; MIRZA, 2013).

De acordo com Krakauer, Serra e Almeida (2017), este modelo de ensino prático, em que os acadêmicos se tornam protagonistas de sua aprendizagem insurge da abordagem construtivista. O construtivismo leva em conta a intervenção do aluno na realidade que está sendo formada, alterando-se, assim, as estruturas mentais existentes. Nesse sentido, os alunos devem ser estimulados a sair da zona de conforto e a buscar novas oportunidades, utilizando um modo de aprendizagem, até então, desconhecido por eles.

Etzkowitz (2008) formulou a hélice tríplice com a inclusão, além das instituições de ensino superior e as empresas, o governo, com a finalidade de fazer a economia local crescer por meio do empreendedorismo. O referido estudioso enfatiza que os órgãos públicos devem desenvolver reuniões periódicas para debater melhorias na economia regional, contribuindo para o processo de crescimento das empresas e desenvolvendo novas empresas regionais ou locais.

É dever do governo ser articulador deste processo, orientando as ações junto às empresas e universidades. De acordo com Ranga e Etzkowitz (2013), a hélice tríplice tem sua viga de sustentação pautada em uma sociedade livre, em que os grupos ou atores informais possam ter a capacidade de se organizar, de maneira livre, para debater e decidir a respeito de iniciativas empreendedoras.

Tais iniciativas devem ser incentivadas, visto que são consideradas pressupostos indispensáveis para o desenvolvimento dinâmico de tríplice hélice. A hélice tríplice significa um processo complexo de experiências nas relações entre pesquisa, tecnologia, desenvolvimento e ciências nas instituições de ensino, empresas e governos, desenvolvendo, deste modo, uma infinita espiral de transições (RANGA; ETZKOWITZ, 2013). A colaboração dos referidos atores beneficia o desenvolvimento regional.

Um resultado que merece destaque nesse processo de inovação institucional é o caso da universidade empreendedora, que foi disseminada no decorrer dos últimos anos.  Tendo suas raízes em meados do século XX, o modelo conceitual da universidade empreendedora vem sendo propagado no mundo, levando as instituições de ensino a promoverem um esforço multilateral buscando o desenvolvimento sustentável local. (PLONSKI; CARRER, 2009).

O aprimoramento das características empreendedoras e o desenvolvimento deste perfil são questões que devem ser primadas em fóruns, reuniões e congressos nacionais e internacionais. Posto que isto evidencia a relevância que o tema possui no desenvolvimento social e no crescimento econômico do país. Para que as supracitadas características possam ser desenvolvidas adequadamente, a educação empreendedora constitui um dos meios mais efetivos na criação e na implantação da cultura empreendedora nos cidadãos do futuro. É necessário ensinar o empreendedorismo como algo viável, como vantagem profissional, que pode oferecer um futuro próspero para os cidadãos.

4. METODOLOGIA

Para esse trabalho foi empreendido através do método exploratório a fim de investigar a expectativa dos acadêmicos e o papel da universidade como fomentadora do empreendedorismo. Para Gil (2002) a pesquisa exploratória tem como função promover a familiaridade do pesquisador com o problema de pesquisa a fim suportar o levantamento de hipóteses.

Para Creswell (2007) a pesquisa quantitativa integra o processo de investigar e coletar informações que irão produzir dados estatísticos. Nesse processo fez-se uso da pesquisa bibliográfica como suporte para se atingir os objetivos propostos.  O trabalho de investigação bibliográfica da possibilidade do pesquisador se apropriar da literatura atual sobre o tema investigado (MARCONI E LAKATOS, 2009).

Para elaboração do questionário se usou os conceitos de Morris et al (2011) e Barnes et al (2002). Neste diapasão, as habilidades para se identificar novas oportunidades, no meio externo, avaliá-las e aproveitá-las, traduzindo-as em conceitos de serviços e produtos viáveis, são o eixo central do processo de empreendedorismo. O empreendedorismo também abarca a capacidade de se formar uma equipe com talentos e habilidades complementares, assim como a aptidão para reconhecer a oportunidade ao invés do caos, confusão e contradições. (MORRIS et al., 2011).

Segundo Barnes et al (2002), a universidade empreendedora é uma entidade que oferece oportunidades, culturas, práticas e ambientes propícios que fomentem e recepcionem ativamente o empreendedorismo, o qual faz parte da própria essência destas instituições.

Logo, buscou-se evidências nas respostas dos alunos concluintes do curso de Direito de uma universidade pública sobre o sucesso da universidade em seu importante papel de estimular o empreendedorismo, visando o desenvolvimento regional.

Nesse trabalho as informações foram coletadas por meio de Survey através de questionário eletrônico enviado pelo Google Forms (ferramenta de elaboração de questionários online) contendo 18 questões de múltipla escolha no formato fechado.

Para evitar a exposição dos indivíduos que colaboraram com sua percepção, o nome da universidade será mantido em sigilo. Trata-se de uma universidade pública de relevância na região norte do Brasil e presença de destaque nos índices de aprovação no Exame da Ordem e demais avaliações.

Todos os respondentes eram acadêmicos concluintes do curso de Direito (10º período). Os acadêmicos receberam um convite, via correio eletrônico, para colaborar com a pesquisa por meio de questionários enviados pelo aplicativo online Google Forms por ser de fácil configuração e compilação das informações.

Através das questões pretendeu-se investigar a percepção desses acadêmicos acerca do empreendedorismo e seu objetivo profissional quando egresso do curso de Direito. Os dados foram coletados no período de 27/10/2020 até 29/10/2020. Os resultados das questões foram analisados de forma única.

5. RESULTADOS

Foram levantados nove questionamentos para serem respondidos pelos concluintes do curso de Direito, a saber: As disciplinas cursadas estimulam os alunos a pesquisar novas soluções e possibilidades? Na sua percepção, o curso de Direito estimula a inovação? As atividades realizadas durante o curso permitiram cultivar uma rede de contatos com interesses mútuos? Durante o curso, adquiriu qualidades para prospectar negócios e atender clientes? Os professores incentivam ideias empreendedoras? A universidade o preparou para seguir carreira empreendedora? As atividades práticas desenvolvidas durante o curso lhe proporcionaram visão de oportunidades? Você considera possuir conhecimento técnico para empreender no mercado jurídico? Qual é o seu objetivo após concluir o curso de Direito?

Dos questionários enviados aos acadêmicos, 21 estudantes decidiram participar da pesquisa, respondendo-a em prazo hábil.

Vejamos as percepções dos acadêmicos na tabela 1:

Tabela 1

 As disciplinas cursadas na universidade estimulam os alunos a pesquisar novas soluções e possibilidades? Sim – 57,1% Não – 42,9%
Na sua percepção, o curso de Direito estimula a inovação? Sim – 42,9% Não – 57,1%
As atividades realizadas durante o curso (ensino, pesquisa e extensão) possibilitaram desenvolver uma rede de contatos com interesses mútuos com colegas, escritórios, pesquisadores e outros empreendedores? Sim – 42,9% Não – 57,1%
Durante o curso, você adquiriu habilidades técnicas para prospectar negócios e atender clientes com confiança? 52,4 – Sim 47,6% – Não
 Os professores incentivam e trocam ideias sobre as oportunidades que busco para empreender no mercado jurídico? 33,3% – Incentivam 42,9% – Não incentivam 23,8% – Nunca teve intenção de empreender
A universidade me preparou para seguir carreira empreendedora?  9,5% – Sim 90,5% – Não
As atividades práticas desenvolvidas durante o curso lhe possibilitaram conhecimentos e visão de oportunidades para empreender no mercado jurídico? 33,3% – Sim 66,7% – Não
Você considera conhecer suficientemente os detalhes técnicos envolvidos para empreender no mercado jurídico? 19% – Sim 81% – Não
 Qual seu objetivo? 52,4% – Concurso público 28,6% – Empreender na advocacia 9,6% – Empreender na área jurídica, exceto advocacia 9,4% – Continuar no emprego atual

Fonte: Elaboração própria.

Diante destas indagações pretendeu-se aqui verificar a percepção do acadêmico em empreender após cinco anos de universidade do curso de Direito e as habilidades necessárias para isso, de acordo com Barnes et al (2002) e Morris et al (2011).

De acordo com Morris et al (2011), a inovação é fundamental para o empreendimento ser bem-sucedido. Nesta esteira, em relação à resposta da primeira pergunta, 57,1% dos entrevistados responderam que as disciplinas cursadas na universidade estimulam os alunos a pesquisar novas soluções e possibilidades, contra 42,9% que discordam dessa percepção. Um comparativo interessante é a segunda pergunta cujo objetivo era o mesmo da primeira, porém, com outras palavras. À segunda pergunta, 57,1% dos respondentes afirmam que, na sua percepção, o curso de Direito não estimula a inovação.

No entendimento de Barnes et al (2002), a criação de rede de contatos com interesses mútuos (desenvolvimento de network) é fundamental para o empreendedorismo. Nesta esteira, em relação à resposta da terceira pergunta, 57,1% dos entrevistados responderam que as atividades realizadas durante o curso (ensino, pesquisa e extensão) não possibilitaram ao acadêmico desenvolver sua rede de contatos com interesses mútuos.

Na definição de Morris et al (2011) o empreendedorismo também abarca a aptidão para reconhecer as oportunidades. Neste desiderato, em relação à resposta da quarta pergunta, 52,4% dos acadêmicos que responderam à pesquisa afirma que adquiriram habilidades técnicas para prospectar negócios e atender clientes. Por sua vez, 47,6% deles afirmam que não adquiriram tais habilidades tão necessárias para o sucesso do empreendimento.

A sétima pergunta tem o mesmo objetivo da quarta pergunta. Todavia, para 66,7% dos estudantes as atividades práticas desenvolvidas durante o curso não lhe proporcionaram conhecimentos e visão de oportunidades no mercado jurídico. Já para 33,3% dos respondentes a resposta foi afirmativa.

Em resposta à sexta pergunta, 90,5% dos acadêmicos afirmam que a universidade não os preparou para seguir carreira empreendedora. Adicionalmente, em resposta à oitava pergunta, 81% dos respondentes afirmam que desconhecem suficientemente os detalhes técnicos envolvidos para empreender no mercado jurídico. Tais resultados causam preocupação porque o empreendedorismo é fundamental para o desenvolvimento regional. Todavia, a falta de conhecimento de empreendedorismo (inovação, visão oportunidades, rede de contatos, desconhecimento de detalhes técnicos do empreendimento) tem o potencial de causar o insucesso do empreendimento.

Por derradeiro, no que se refere à última pergunta, para 52,4% dos estudantes de 10º período do curso de Direito, o seu objetivo é seguir carreira pública. Outros 28,6% pretender empreender na advocacia e 9,6% desejam empreender na área jurídica fora da advocacia. O restante deseja continuar no emprego atual.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A presente pesquisa reflete apenas uma pequena amostra do curso e pode não refletir o cenário de todo o curso de Direito no Brasil, mas traz preocupação sobre um importante papel da universidade no desenvolvimento regional.

Ademais, nota-se uma cultura em que a expectativa é de que o estudantes conquistem postos de trabalho em entes públicos ou empresas. A maior parte dos estudantes de Direito analisados visam concursos públicos.

Adicionalmente, falta formação empreendedora nas escolas iniciando a partir do ensino fundamental para todos os alunos.

Por todo o exposto, o empreendedorismo pode ser entendido como a arte de fazer acontecer com motivação, criatividade e inovação. Cristaliza-se no prazer de realizar com sinergismo qualquer projeto organizacional ou pessoal, em desafio permanente aos riscos e oportunidades. É assumir uma postura proativa frente a questões que precisam ser solucionadas.

Assim, o empreendedorismo representa o despertar do sujeito para o integral aproveitamento de suas potencialidades intuitivas e racionais. É a busca do autoconhecimento em processo permanente de aprendizagem, abrindo espaço para novos paradigmas e experiências.

O comportamento empreendedor impulsiona o ser humano e modifica contextos. Nesse ínterim, o empreendedorismo resulta na ruptura de antigos conceitos, que por serem arcaicos não tem mais a capacidade de encantar e surpreender. O cerne do empreendedorismo reside na mudança, por isto o empreendedor enxerga o mundo com outros olhos, com novos conceitos, propósitos e atitudes. Sem sombra de dúvidas, o empreendedor é um inovador de contextos. As atitudes deste são construtivas. Eivado de entusiasmo, para ele o foco é na solução dos muitos problemas existentes.

Nesta esteira, o presente estudo se concentrou na busca do papel da universidade em fomentar o empreendedorismo e o ensino jurídico nas universidades. Contatou-se que nesta pequena amostra, a percepção dos alunos, foi de que acumularam conhecimento teórico e, mas, não treinadas suas habilidades empreendedoras. Isto pode evidenciar a deficiência do ensino brasileiro em fomentar o perfil empreendedor nos acadêmicos. Serão necessárias novas pesquisas com amostra significativa para de fato poder verificar o panorama do ensino jurídico brasileiro e o papel da universidade empreendedora.

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[1] Pós graduado em Direito Tributário pela Unitins, Pós graduado em Direito Penal e Processual Penal pela Unitins e graduação em Direito pela Universidade Federal do Tocantins.

Enviado: Novembro, 2020.

Aprovado: Novembro, 2020.

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