SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: resenha

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/geografia/desenvolvimento-desigual
SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: resenha
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RESENHA

CRUZ, Uilmer Rodrigues Xavier da [1]

CRUZ, Uilmer Rodrigues Xavier da. SMITH, Neil. Desenvolvimento desigual: resenha. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 01, pp. 16-22. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

O caminho escolhido pelo autor para o desenvolvimento de sua reflexão, presume corresponder para o objetivo central. Deste modo, desenvolve através dos capítulos IV e V uma discussão organizada em tópicos a respeito da lógica de organização espacial no capitalismo, tecendo argumentos em uma linearidade didática (embora fique claro que o desenvolvimento do sistema capitalista não respeita necessariamente um processo sincrônico, porém dialético). Assim, as questões centrais apontadas pelo autor presumem, respectivamente, uma discussão a respeito do dialético processo de diferenciação espacial, baseado desde a naturalização das diferenças até a construção das mesmas de acordo com a lógica do capital, bem como, por seguinte, uma argumentação a respeito de sua tese principal assumida nesta obra: O Desenvolvimento Desigual.

Palavras-chave: Desenvolvimento desigual, Capital, Sistema Capitalista.

INTRODUÇÃO SOBRE O AUTOR

Principal destaque deste documento, uma resenha a respeito dos capítulos 4 e 5, da obra ‘Desenvolvimento Desigual’, é válido uma breve consideração sobre o autor, Neil Smith (1954 – 2012), geógrafo escocês. O autor, professor distinto dos departamentos de antropologia e geografia da Universidade da Cidade de Nova Iorque, tem destaque em suas discussões referentes à Geografia Crítica, mais especificamente em análises a respeito das desigualdades e processos de diferenciação (espacial) presentes no Sistema Capitalista. Conforme destaca matéria do portal de jornalismo ‘Folha de São Paulo’: “Smith argumentava que os espaços, seja em escala global ou local, são fruto não só das relações sociais, como também das relações capitalistas com o território.”[2]

Smith faleceu em 29 de setembro de 2012, em decorrência de uma falência múltipla dos órgãos, aos 58 anos de idade.

O TEXTO/LIVRO NO CONTEXTO DA OBRA

Conforme destacado no tópico I desta revisão, o autor tem sua obra destacada conforme uma relação entre geografia, economia e antropologia, em diálogo constante com a literatura marxista, podendo ser localizada sua produção científica especificamente na Geografia Crítica.

Deste modo, suas discussões não se limitam apenas em uma generalização absoluta que afirma que o espaço é resultante das relações sociais, porém em suas obras afirma que além das relações sociais, a configuração espacial, bem como a construção do espaço geográfico está diretamente ligada às relações capitalistas, ou seja, das relações de produção e relações de classe.

Neste contexto, o livro em questão, ‘Desenvolvimento Desigual’, constitui-se em uma construção teórica que corresponde a todo um processo de reflexão que o autor apresenta ao longo de outras produções acadêmicas em sua trajetória. Destarte, esta obra reflete uma necessidade objetificada pelo autor de apresentar uma discussão endossada teoricamente em diálogo com a literatura marxista a respeito da constituição do Sistema Capitalista de Produção e sua relação direta com as nuances espaciais atreladas a este recorte.

OBJETIVO DO AUTOR

Smith (1988) inicia sua discussão identificando qual é o objetivo de sua reflexão; uma análise a respeito do ‘Desenvolvimento Igual’ e o processo de diferenciação no sistema capitalista que, segundo o autor, na ocasião de publicação de seu livro, estava carente de análises teóricas a este respeito e, deste modo, propõe uma discussão em diálogo com a literatura marxista. Sua ressalva a respeito das carências teóricas no olhar sobre o fenômeno do desenvolvimento desigual também se baseia na noção da generalização desta questão enquanto existente desde o início da humanidade. Deste modo, destaca que o seu olhar sobre este fenômeno está alçado no recorte do Sistema Capitalista, ou seja, é específico a este recorte histórico-geográfico. Segundo Smith (1988), a generalização dos sujeitos e a naturalização da exploração sobre o trabalho é interessante para o capitalismo, da mesma forma que tratar do desenvolvimento desigual enquanto natural da humanidade se apresenta enquanto interessante. Assim, sua proposta de reflexão caminha na direção contrária dos interesses do capitalismo, sobretudo um embate às reflexões burguesas.

DESENVOLVIMENTO

A discussão proposta pelo autor (1988) para este momento de reflexão se está relacionada à justificativa de escolas geográficas – em seus devidos recortes históricos (temporais) – em explicar a diferenciação espacial desigual diretamente atrelada às condições naturais de determinado recorte espacial. Para tanto, é importante destacar que as discussões sobre diferenciação espacial no início do capitalismo estão ligadas a produções geográficas relacionadas aos interesses da época. Assim, a geografia tradicional e, neste caso, mais especificamente a geografia comercial, estavam relacionadas (no século XIX) com o ápice do capitalismo mundial da época, que se localizava na Grã-Bretanha e, portanto, ao império Britânico. Ora, toda forma de conhecimento produzido segue determinada lógica de correspondência ao pensamento hegemônico – quando não serve de empoderamento de grupos não hegemônicos, como atualmente algumas frentes científicas, como a Pós-Colonial o é.

Assim, Smith (1988) afirma que a Geografia Comercial, com uma tentativa de analisar a produção e escoamento de produção no capitalismo, afirma que a lógica de desenvolvimento espacial desigual está diretamente relacionada às condições naturais para fornecimento de matéria prima e posterior produção de mercadoria. Isso coloca naturalmente determinados Estados-Nação à frente de outros, devido à lógica desigual de distribuição de recursos naturais ao longo do Planeta Terra.

De certo modo, como afirma o autor (1988), isso faz um certo sentido, é uma meia-verdade. O que faz não fazer completo sentido é o fato de que se deve considerar que a análise da Geografia Comercial se deu em um período de herança da lógica feudalista de distribuição de recursos e produção. As tecnologias envolvidas na produção industrial se deparavam com barreiras, como o transporte. E, portanto, é lógica a compreensão de que a produção agrícola estivesse relacionada apenas às características como solo e clima e, por sua vez, a produção fabril relacionada à proximidade destes recursos.

No entanto, isso faz sentido para o início do capitalismo. Não mais faz sentido em tempos atuais, relacionados à década de 80 e ainda mais ilustrados nos anos 10 do século XXI. Após o advento dos sistemas de transporte e, embora o autor não cite, pós revolução tecnológica dos anos 70, intensificando-se ao longo dos anos, as lógicas relacionadas apenas às condições naturais são ineficazes para uma análise de um todo. Ora, não significa que não há diferenciação espacial/desenvolvimento desigual e que historicamente não se tenha produzido hegemonias relativas à Estados-Nação específicos, porém a lógica atual de distribuição não se limita ao solo de uma nação, com a licença do termo alemão alcunhado por Ratzel em ‘antropogeografia’, ao ‘libesraum’, ou em tradução livre ‘espaço vital’, onde ‘quanto maior o território em sua distribuição terrena, maior seria o poder de uma Nação’, porém à descentralização do capital e a distribuição do acesso à matéria-prima e produção de mercadoria. Como se vê atualmente, por exemplo, a produção de mercadoria norte-americana em solo chinês.

Há aqui uma reflexão de Smith (1988) acerca da diferenciação espacial relacionada à divisão do trabalho, apoiada em um debate de Marx, sobre a divisão do trabalho enquanto o modo primário pelo qual se ocorre a diferenciação espacial. Em diálogo então com Karl Marx, o autor afirma que a divisão do trabalho pode ser discutida através de três níveis iniciais, ‘departamento’, ‘setor’ e divisão individual. Cada qual faz referência ao modo que o capital se divide em diferentes escalas (da mais ampla, para a mais específica). No entanto, afirma que a análise acerca da divisão do trabalho enquanto um componente de diferenciação espacial da maneira qual foi analisada a partir de Marx se altera em tempos atuais, sobretudo pós expansão industrial e comunicacional. Porém, como afirma Smith (1988), como Marx afirmou que o processo de diferenciação espacial/divisão do trabalho se dá inicialmente a partir do antagonismo entre rural/urbano, não deve ser desconsiderada por completo, mas considerada de forma histórica pela herança a qual participou do processo de diferenciação.

Atualmente, não faz sentido a definição de que a divisão rural/urbano se apresenta em uma dicotomia clara no processo de diferenciação, porém é responsável por parte de todo o processo de maneira clara. Ora, em suma é necessário afirmar que a divisão do trabalho e diferenciação migram no sistema capitalista tal como ela é atualmente, porém também são herança em um modo diferente do sistema feudal europeu. Obviamente, há diferenças muito claras na configuração espacial atual que nada se relaciona com o modelo moderno-industrial. Mas se deve considerar que por mais locais que determinadas diferenças possam ser, elas podem oferecer uma alteração na lógica espacial na medida em que o capitalismo pode ser analisado sob o aspecto de países de capitalismo central e periférico e, por assim dizer, cada um respeitando uma lógica de diferenciação e manutenção.

Do mesmo modo que o autor (1988) afirma haver uma lógica de diferenciação espacial desigual, ainda em diálogo com Marx, destaca que dialeticamente, do mesmo modo que caminha para um diferenciação em três esferas (departamental, setorial e individual), tem uma tendência de equalização, ou seja, caminha para uma generalização das relações sociais em prol do desenvolvimento do sistema. Ao contrário do que possa ser considerado a respeito da diferenciação espacial enquanto muitas vezes não presente enquanto uma constante ao longo da história do sistema capitalista e da produção do espaço de maneira desigual, o autor afirma que a condição de equalização entre as esferas espaciais se apresenta enquanto uma constante, um dado concreto.

Neste momento, é possível estabelecer diálogo com Harvey (2011), onde o autor afirma que para um desenvolvimento saudável do sistema capitalista e, relacionando com Smith (1988), um desenvolvimento desigual espacial, que diz respeito às relações sociais (de poder) intrínsecas a uma sociedade de classes, é necessário que todas as esferas de atividade (Harvey, 2011) estejam em desenvolvimento e condições para tal igualitárias. Assim, neste ponto, Smith (1988) culmina noção de que para a manutenção do sistema capitalista, há uma tendência clara em todas as esferas existentes no sistema de produção capitalista ou, em outras palavras, a relação entre exploração e manutenção da acumulação de capital.

O autor (1988) argumenta que, do mesmo modo que com relação à diferenciação do capital não se faz presente em todas as esferas, à exemplo da atual configuração na relação entre campo-cidade, que está muitas vezes confusa em um apenas recorte (em uma fluidez relacionada à superação de barreiras tal como transportes e tecnologias de informação), a equalização, é uma tendência relacionada diretamente com as similaridades presentes no capital, a generalização dos sujeitos, às condições igualitárias para o desenvolvimento em todas as esferas do capital, para que se favoreça a acumulação e centralização do capital.

Isso explica, por exemplo, a ideia que se observa na Geografia Econômica, uma análise espacial tangente à existência de países de capitalismo central, tais como Estados Unidos e Alemanha, em relação a países de capitalismo periférico, como Brasil e México, que correspondem a uma lógica constante de produção de excedente e acumulação de capital que privilegia a centralização deste.

Neste sentido Smith (1988) caminha para a compreensão do Desenvolvimento Desigual em relação ao movimento que se produz afirmado pelo autor enquanto um ‘vai e vem’ do capital. Como destacado por meio dos parágrafos anteriores, há uma lógica afirmada pelo autor enquanto motriz do desenvolvimento e manutenção do Sistema Capitalista, que está relacionada ao processo de desigualdades espaciais e à condição de manutenção constante do ciclo do capital (ciclo do mais-valia, como presente na literatura Marxista).

O autor, por meio de sua discussão infere que a condição do desenvolvimento do Sistema Capitalista e, por sua vez, do favorecimento dos obtentores do poder hegemônico relacionado à posse do capital, está relacionado diretamente ao subdesenvolvimento dos que não possuem capital. Isto significa que, para que haja uma condição de equalização no processo de manutenção do ciclo de acumulação de capital para favorecimento do capitalista, é necessário que haja a manutenção da desigualdade na esfera da exploração do mais-valia (de um modo geral).

Afirma então Smith (1988) que a manutenção de países desenvolvidos economicamente na esfera do Capitalismo, é necessário que haja países subdesenvolvidos. Isso está relacionado à busca constante com o que Harvey (2011) afirma enquanto ‘acúmulo do capital constante’ em uma matemática intrínseca à geração de lucro que, segundo o autor em questão, depende de uma taxa de lucro de aproximadamente 3% ao ano. Voltando deste diálogo com Harvey (2011), Smith (1988) afirma que é inevitável, por vezes, uma estagnação no lucro, impedindo assim o crescimento de países desenvolvidos constantemente. No entanto, esta estagnação é momentânea, Harvey (2011) chamaria tal estagnação de crise.

Para a resolução desta questão, Smith (1988) afirma que países de capitalismo central aumentam as condições de exploração para a elevação da taxa de lucro e o suposto retorno ao crescimento. Deste modo, fica claro que a saúde do Sistema Capitalista depende diretamente do Desenvolvimento Desigual entre escalas interdependentes (embora tal interdependência seja em uma relação heterônoma de poder).

Um destaque a se considerar é a afirmação constante do autor de se voltar a historicidade da instauração e manutenção constante do Sistema Capitalista relacionada à herança feudal cuja qual o capitalismo se baseia. Isso significa que, desde a sua gênese, o Sistema Capitalista está relacionado à migração constante e alteração espacial do Campo para as cidades. Sendo assim, o autor considera, desde o início do texto que é no que a geografia delimita enquanto ‘espaço intra-urbano’ que o desenvolvimento desigual se destaca, vide a considerável diferença entre os obtentores de capital e os sujeitos explorados em sua distribuição espacial.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante destacar neste momento, que Smith (1988) busca uma compreensão específica sobre o Desenvolvimento Desigual do Capitalismo relacionada à existência de sujeitos nas mais diversas escalas que se colocam em uma relação de poder heterônoma, intrínseca à condição de posse de capital ou da ausência do mesmo. O autor destaca que a teoria referente ao Desenvolvimento Desigual não deve ser considerada de maneira superficial sobre apenas a existência de Nações Desenvolvidas e outras Subdesenvolvidas, porém enquanto uma força motriz pela qual o capital é perpassado pela sua existência.

Sendo assim, pode-se concluir que a teoria sobre o Desenvolvimento Desigual, trata-se de uma reflexão não tão somente sobre as disparidades presentes no Sistema Capitalista de Produção, porém a condição inicial para que se compreenda a história deste sistema social, assim como, o seu futuro.

REFERÊNCIAS

HARVEY, David. O enigma do capital: e as crises do capitalismo. São Paulo: Boitempo, 2011. P. 41 – 150.

SMITH, Neil. Para uma teoria do desenvolvimento desigual I: A dialética da diferenciação e da igualização geográficas; Para uma teoria do desenvolvimento desigual: A escala espacial e o vaivém do capital. In: SMITH, Neil. Desenvolvimento Desigual. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1988, p. 149 – 216.

2. Trecho presente na matéria “Aos 58, geógrafo Neil Smith morre nos EUA”, de 30 de setembro de 2012, presente em: <http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/69182-aos-58-geografo-neil-smith-morre-nos-eua.shtml>.

[1] Mestrando em Geografia, Licenciado em Geografia, Discente de mestrado

Enviado: Outubro, 2018.

Aprovado: Fevereiro, 2019.

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