Interioridade Religiosa e o resgate do indivíduo em Kierkegaard

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DISSERTAÇÃO

SILVA, Paulo Alves da [1], SILVA, Antunes Ferreira da [2]

SILVA, Paulo Alves da. SILVA, Antunes Ferreira da. Interioridade Religiosa e o resgate do indivíduo em Kierkegaard. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 10, Vol. 02, pp. 16-34. Outubro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Soren Aabye Kierkegaard nasceu em Copenhague em 5 de maio de 1813. Todo seu pensamento se baseia em sua própria trajetória existencial, marcada pela melancolia, que o seguiu durante toda sua vida, contudo, superada pela sua fé. Sua obra é expressamente sobre a religião cristã e lida com temas como a fé, o desespero e a angústia. Nosso trabalho aborda um tema de suma importância, tanto para filosofia, quanto para teologia modernas: o indivíduo e a interioridade e a correlação entre fé e razão. Kierkegaard fora marcado por uma época em que o indivíduo era totalmente ignorado pelos sistemas filosóficos de sua época. O Idealismo alemão tentou abarcar dentro de seu sistema, toda a existência e a própria história, que seria um desdobramento do Absoluto. O indivíduo fora ignorado, perdido dentro do sistema. A teologia protestante fora extremamente afetada pelas ideias filosóficas do Idealismo hegeliano, perdendo sua natureza espiritual. Kierkegaard se insurge contra o sistema, trazendo à tona o indivíduo e a subjetividade, para ele, a subjetividade é interioridade. O indivíduo é aquele que se descobre existindo, sujeito à angústia, dor, sofrimento e desespero; é o indivíduo que tem fé, não sendo um mero conceito abstrato, como queria os sistemas filosóficos. Nosso trabalho é baseado em pesquisa de cunho bibliográfico, nas obras do autor, bem como, de seus respectivos comentadores. Buscamos analisar as nuances do pensamento kierkegaardeano e sua análise psicológica no que concerne ao ser subjetivo, o desvelamento da interioridade e o resgate da subjetividade.

Palavras-Chave: Indivíduo, Interioridade, Subjetividade, fé, Cristianismo.

1. INTRODUÇÃO

A existência humana é marcada pela subjetividade, que caracteriza a interioridade. A certeza de existirmos é nossa individualidade e isto se traduz em nossa verdade objetiva.

Nosso trabalho é uma abordagem ao pensamento de Soren Aabye Kierkegaard. Nascido em Copenhague em 5 de maio de 1813, formou-se em teologia e filosofia, começando sua carreira de autor em 1840. Foi um autor prolífico, sua obra foi resultado de sua intensa religiosidade, profunda análise espiritual e psicológica; seu pensamento se dirige especialmente para as categorias da fé cristã.

Sua época fora marcada por uma forte herança cultural do movimento Iluminista que delegava à razão toda à potencialidade de transformar o mundo, bem como um movimento estritamente de seu tempo, o Idealismo e Romantismo alemão, que fizera de toda realidade objetiva um desdobramento de sistemas filosóficos abstratos. Kierkegaard surge nessa época para resgatar a individualidade e a subjetividade, aquilo que ele identifica como sendo a verdade existencial concreta do existente através da fé cristã. O próprio Kierkegaard (2013, p.62) descreve: “O cristianismo não pode ser observado objetivamente, justamente porque ele quer levar a subjetividade até seu ponto extremo; quando a subjetividade está, assim, posicionada corretamente, não pode amarrar sua felicidade eterna à especulação.” Ele critica a filosofia especulativa de seu tempo que busca sistematizar a objetividade arrancando o indivíduo de sua existência concreta a partir de sua interioridade.

A abordagem que destacamos neste trabalho se dá em alguns temas importantes de sua filosofia, como a descoberta do indivíduo e da interioridade. Dentro deste parâmetro, destacamos categorias do pensamento kierkegardeano que estão intrinsecamente ligados à individualidade, como a fé, a subjetividade, a existência e a interioridade. O indivíduo foi relegado pelo sistema filosófico hegeliano, que via apenas o desdobramento imanente da história da humanidade, dando um significado de que a realidade é racionalidade; contudo, Kierkegaard combate veementemente essa filosofia que ignorava a interioridade. O indivíduo é aquele que sente, vive, se angustia e desespera, e, sobretudo, tem fé.

2. O IDEALISMO ABSOLUTO E A SUPRESSÃO DO INDIVÍDUO

Em uma época permeada pelas categorias de sistemas filosóficos, a individualidade perdeu seu sentido, sendo dissolvida dentro das especulações do sistema filosófico do Idealismo alemão, representados especialmente por Hegel, o gênio filosófico da época. Para Hegel, a realidade concreta é reflexo da Ideia e vice-versa.

Hegel enxergava o indivíduo imerso no absoluto, como uma expressão conceitual existente, mas não um ser individual, e sim como um desdobramento da Ideia. Conforme Reale e Antiseri (2005, p.105): “A Ideia absoluta se autogera, gerando ao mesmo tempo a própria determinação e superando-a completamente: ela se atua e se realiza sempre como infinito que põe e ao mesmo tempo supera o finito.” A Ideia no pensamento hegeliano, coincide com o Absoluto, ou seja, Deus; de modo que Deus só pode ser pensado como o espírito absoluto e identifica-se com a própria razão imanente na história concreta. Conforme infere A.O. Moraes (2002, p.85) sobre a propriedade conceitual da filosofia hegeliana:

De fato, o mundo do espírito é conhecimento e sua expressão mais apropriada é o conceito; por conseguinte, no interior da realidade exterior nada há senão o conceito, toda realidade efetiva é fenômeno e ao olhar para o interior do fenômeno, somente nos deparamos com nosso próprio olhar.

A subjetividade no pensamento hegeliano se perde no determinismo conceitual de seu sistema, que abrange toda realidade fenomênica. Kierkegaard se insurge contra todo sistema hegeliano, o qual o indivíduo se perde no geral, em que o sistema absorve o indivíduo engendrando-o nos conceitos abstratos, suprimindo a individualidade, de modo que, a subjetividade se esvazia de todo seu conteúdo, relegada à especulação filosófica, desprovido da realidade concreta imanente à existência. Em seu Pós-Escritos às Migalhas, Kierkegaard (2013) afirma que o conceito que define a verdade como a concordância do pensamento com o ser (definição empírica), ou a concordância do ser com o pensamento (definição do Idealismo), não passam de aproximações quanto à verdade existencial, já que tudo está posto no devir, de modo que, até mesmo o sujeito cognoscente está no devir, e a verdade neste ponto torna-se temerária e insegura. A verdade absoluta, do pensar e ser só pode ser remetida a Deus de modo absoluto, mas não para o sujeito existente. Entretanto, só o espírito existente pode refletir sobre a verdade, é ele quem a conjura, quem realmente vive nela. A verdade reside no indivíduo subjetivamente, somente ele pode perguntar por ela.

Kierkegaard rompe paradigmas contra todo sistema especulativo. Para ele, a existência não pode ser resumida à abstratos conceitos, já que ser, implica em existir de forma concreta, ou seja, o sujeito é aquele que é, existindo. A verdade não pode ser redutível aos conceitos, mas, à existência individual, pois só se vive e conhece algo na subjetividade. O sujeito é aquele que sofre, se angustia, se desespera e tem fé. A fé é a singularidade mais profunda da subjetividade. O homem como um conceito é desprovido de significado existencial, mas o indivíduo, que existe concretamente se relaciona com o Absoluto através da maior paixão: a fé. Segundo Kierkegaard (1984, p.185): “A fé é a mais alta paixão do homem. Talvez haja muitos homens de cada geração que não a alcancem, mas nenhum vai além dela.” O objetivo primordial do pensamento de Kierkegaard é salvaguardar a categoria indivíduo se baseia no fato da correlação deste com a fé Cristã, segundo ele (KIERKEGAARD, 2013, p.38):

O cristianismo é espírito: espírito é interioridade; interioridade é subjetividade; subjetividade é essencialmente paixão, e em seu máximo, uma paixão infinita e pessoalmente interessada na felicidade eterna. Logo que se exclui a subjetividade, e se tira da subjetividade a paixão, e da paixão o interesse infinito, não resta absolutamente nenhuma decisão, nem sobre este problema nem sobre qualquer outro.

O pensamento kierkegaardiano parte de uma reflexão na fé Cristã como pressuposto filosófico para definição da subjetividade como paixão pelo desejo de infinitizar-se. A diluição do indivíduo dentro do sistema filosófico do Idealismo expropria sua subjetividade, e suprime a fé, que, segundo nosso filósofo, é a mais decisiva expressão da subjetividade.

Sua luta contra a igreja de seu tempo, que institucionalizada, esqueceu da essência do cristianismo que era para ele resultado de escândalo e paradoxo, que envolvia a própria encarnação do verbo, ou seja, Deus se fez carne, resultando em escândalo para razão, algo que, para Kierkegaard, era assimilável apenas pela fé. O que despertava a insatisfação de Kierkegaard era o fato de a especulação filosófica invadir a esfera do íntimo da fé, do privado, em que o indivíduo se relaciona com Deus, entretanto, a racionalização objetiva da fé começa a expropriar o conteúdo espiritual da vida interior. Conforme Le Blanc (2003, p.29):

O mesmo fez H. L. Martensen (bispo – 1808-1884) […], o dever da época era completar a união do Cristianismo com a filosofia, e a dogmática especulativa podia fundamentar a fé na razão, justificar completamente a revelação. Este é o ponto de partida da reflexão de Kierkegaard.

Hegel foi um dos alvos da crítica de Kierkegaard, pois o sistema hegeliano procurou racionalizar a fé, desprovendo-a de todo mistério, embora Hegel tenha discorrido extensivamente sobre a religião, sobretudo, conforme Gardiner (2001), o eminente filósofo alemão acreditava ser possível a redutibilidade da religião Cristã à abstração puramente intelectual, e se comprometeu, desde o início de sua carreira, a investigação da própria crença religiosa, de modo que se pudesse compreendê-la objetivamente, e procurou racionalizar a fé, no entanto, que os dogmas cristãos pudessem ser interpretados à luz da razão, como um fenômeno puramente humano e não relegados à indiferença ou à ignorância. Sobre este percurso temático, Gardiner (2001, p.34) afirma:

Portanto, não é surpreendente que as extensas críticas de Hegel ao que ele chamava de “positividade” do cristianismo institucionalizado moderno, englobando tanto as doutrinas como as práticas da igreja autoritária fossem associadas, por seus estudiosos, aos ataques que representantes anticlericais do Iluminismo lançavam contra a religião Cristã. Contudo, essa associação era, em importantes aspectos, enganosa. Mesmo neste estágio, seu tom não era de ironia ou de escárnio, mas de insatisfação pessoal; no desenvolvimento posterior do seu pensamento, Hegel tendeu, cada vez mais, a tratar as doutrinas teológicas como criações do espírito humano que exigiam cuidadosa investigação – não podiam, simplesmente, ser descartados como produtos absurdos de superstição e ignorância antiquada.

Hegel procurou retirar da religião Cristã toda a sua natureza de mistério e subjetividade. A teologia tornou-se mero produto da razão em tentar apreender o fenômeno religioso. De início seu objetivo era a investigação empírica dos fenômenos ligados à religião, algo que, mais adiante, ele dá um desdobramento à religião como uma progressão da consciência, assim como a própria realidade era uma manifestação imanente do Espírito Absoluto. Kierkegaard critica veementemente a filosofia hegeliana, que, para ele, o sistema absorvia o indivíduo, que se diluía no Espírito absoluto, ou seja, na própria realidade imanente à história, em que a subjetividade perdia sua essência, bem como nosso filósofo cria na impossibilidade da redutibilidade da religião à filosofia, de modo que, é impossível provar objetivamente as verdades do Cristianismo, conforme afirma Kierkegaard (2013, p.37):

O exame objetivo, de qualquer modo, permanece de geração em geração precisamente porque os indivíduos (os examinadores) tornam-se mais e mais objetivos, menos e menos infinitamente, apaixonadamente, interessados. Sob a pressuposição de que, por este caminho, se iria continuar a demonstrar e a procurar a demonstração para a verdade do cristianismo, algo curioso iria por fim surgir: que justamente quando se terminasse a demonstração de sua verdade, o Cristianismo teria deixado de existir como algo presente; ter-se-ia tornado de tal modo histórico, que seria algo passado cuja verdade, isto é, cuja verdade histórica, teria agora sido trazida a um ponto de confiabilidade.

2.1 O INDIVÍDUO COMO CATEGORIA EXISTENCIAL

Os sistemas filosóficos pautados no Idealismo ignoraram o indivíduo. Alguns sistemas filosóficos tentaram abarcar toda realidade dentro de um sistema de categorias, esquecendo que o indivíduo é um ser subjetivo, que se relaciona com Deus mediado pela paixão infinita. O sistema hegeliano se arrogava na pretensão de ver o mundo com o olhar do absoluto, ignorando o indivíduo singular e sua relação com o mundo. O homem é constituído de uma síntese de finito e infinito que transcende para o absoluto (Deus) através de sua própria interioridade. A síntese que compõe o indivíduo resulta no eu, que é espírito; o mundo estético dos prazeres imediatos esvazia o homem de sua interioridade, que, imerso no imediato, está sujeito à angustia e ao desespero, contudo, somente a fé pode ser um elo de seu eu com o absoluto; somente a fé pode fazer o indivíduo transcender a Deus.

Kierkegaard (2013) afirma que o indivíduo existente é aquele que busca tornar-se subjetivo, onde a verdade Cristã o conjura à existência autêntica, e esta verdade coincide com a interioridade diametralmente oposta à ciência e a objetividade, sujeita à especulação e abstrações filosóficas redutíveis à investigação histórica e à certeza sensível. Kierkegaard (2013, p. 62) afirma que:

O Cristianismo não pode ser observado objetivamente, justamente porque ele quer levar a subjetividade até seu ponto extremo; quando a subjetividade está, assim, posicionada corretamente, não pode amarrar sua felicidade eterna à especulação.

A contemplação da objetividade se relaciona diretamente com a reflexão analítica puramente filosófica e especulativa, em que a subjetividade fica relegada, ignorada e o Cristianismo perde sua essência de interioridade e vivência espiritual. A individualidade deve ser marcada pela incerteza objetiva, ou seja, a fé é o paradoxo infinito que irrompe no sujeito a tensão da interioridade, que se dá na impossibilidade da verdade na objetividade.

O indivíduo para Kierkegaard não é redutível à espécie ou ao gênero humano, mas, através de sua singularidade, em sua particularidade, o indivíduo é uma categoria existencial que é ontologicamente imagem e semelhança de Deus. O indivíduo se constitui em um paradoxo, de eterno e temporal em sua constituição; antes de tudo, ele é possibilidade, ou seja, deve realizar-se na existência. Conforme Farago (2011), no homem, essência e existência se encontram separadas, de modo que o homem deve, numa difícil tensão, buscar a síntese. Essência e existência caminham paralelas e paradoxalmente juntas, sujeitas ao desequilíbrio, porque para tornar-se um autêntico indivíduo, o homem deve caminhar em direção de si mesmo mediado pela fé, que, longe de ser um saber absoluto e objetivo, é paradoxo e contradição, apreensão da eternidade a partir do finito e contingente.

Kierkegaard enxerga a subjetividade como a verdade que se expressa na existência autêntica e não nos sistemas de pensamento do Idealismo (KIERKEGAARD, 2013, p.96): ”[…]o sujeito pensante é existente. Só que os sistemáticos e objetivos cessaram de ser homens e se transformaram na especulação que reside no puro ser.” O ser existente, mesmo diante do pensamento lógico sistematizado, existe em diversas esferas de sua vida, que são os estádios existenciais. A abstração racional na objetividade renega ao homem sua existência interior, que, para Kierkegaard, é gerada pela síntese de finito e infinito, na tensão entre o objetivo e subjetivo, interior e exterior. No sistema hegeliano, as verdades cristãs perdem sentido, a própria individualidade fica suprimida dentro da objetividade, pois, o indivíduo sujeito à especulação filosófica está distraído com a abstração intelectual e esquece de viver a interioridade com paixão. A especulação hegeliana invadiu totalmente a esfera da teologia[3]. Kierkegaard reafirma a individualidade como categoria fundamental para a existência e para vida do homem de fé. No plano absoluto, Deus não enxerga o conceito, mas sim, o indivíduo; somente o homem pode ter fé ou mesmo suprimi-la. A maior paixão do homem para Kierkegaard é a fé, e, somente o homem como ser subjetivo pode vivenciá-la, experimentando os percalços da existência. Somente o homem ou mulher podem viver diante de Deus uma vida em que a subjetividade é a verdade a ser vivida. A verdade cristã deve ser vivida, jamais demonstrada. A teologia como objeto de ciência, bem como a filosofia e seus sistemas não servem como objeto de fé. Kierkegaard rejeitava a tentativa de demonstrabilidade da existência de Deus, bem como as provas da teologia filosófica. A existência de Deus é algo indemonstrável que se alcança somente pela fé, vivida na existência subjetivamente e concretamente, como ele afirma: (KIERKEGAARD, 2011, p. 65):

Não nos deparamos aqui com a mais terrível das dúvidas religiosas, e não é impossível liquidar todas essas dúvidas religiosas? Mas, a partir de um tal estado de coisas, não tentarei provar a existência de Deus, e mesmo que eu começasse jamais chegaria ao fim, e, além disso, teria que viver constantemente in suspenso temendo que de repente alguma coisa tão terrível acontecesse que viesse a demolir minha pequena prova.

As verdades de fé, como a existência de Deus ou a encarnação de Cristo só podem ser aceitas ou rejeitadas, não cabendo a razão especulativa ou mesmo provas justificarem ou demonstrarem filosoficamente. É algo para se crer. O fato do eterno se encarnar e tornar um ser finito e humano é um paradoxo que a mente humana não pode conceber, pois excede a razão. Bem como a demonstrabilidade de Deus, conforme infere Kierkegaard (2010, p.148): “A demonstração da existência de Deus é algo que a gente só se ocupa ocasionalmente, de modo erudito, no âmbito metafísico, mas a ideia de Deus se imporá em qualquer ocasião.” Kierkegaard é considerado por muitos como fideísta[4] e via na razão uma limitação para se alcançar Deus. Não havia adequação entre razão e fé conforme a tradição filosófica Cristã. Para nosso filósofo, apenas a fé ara a paixão necessária para se alcançar Deus, por isso seu desprezo pelas ideias hegelianas que haviam se imiscuído dentro da teologia gerando sistemas, conforme infere Gardiner (2001, p.42):

A asserção de que ideias religiosas deveriam ser explicadas como expressão, num estágio de pensamento primitivo e mítico, de um conteúdo cuja importância oculta aguardava formulação dentro da estrutura de um sistema metafísico que a tudo englobasse pode ter encontrado aceitação entre diversos teólogos contemporâneos. Contudo, aos olhos de Kierkegaard isso significava, de fato, uma revisão radical da mensagem cristã, que estaria sendo, finalmente, substituído por um conjunto novo de princípios.

Por isso a existência para Kierkegaard era de fato estar diante de Deus e viver segundo sua vontade. É necessário a posse da verdade subjetiva fora do sistema filosófico- teológico, e, para tomar posse dessa verdade, Kierkegaard afirma que é preciso que o indivíduo seja ele o único que pode tomar decisões e assumir os riscos, a única forma de tornar-se sujeito. Mesmo que os homens fossem incontáveis como grãos de areia, cada um teria de tornar-se único. A verdade só pode ser compreendida existindo. Soren não estava disposto a abdicar da verdade Cristã, o único modo de tornar-se indivíduo autêntico. Com a influência do pensamento sistemático, a racionalidade invade as categorias de pensamento puramente Cristãs, em que as verdades de fé estavam sendo repensadas à luz da razão e das mais variadas explicações objetivas, e o indivíduo havia sido ignorado, e muitos religiosos de sua época se renderam ao sistema hegeliano, como ele infere (KIERKEGAARD, 2013, p.111):

Quero primeiro, aqui e agora, garantir algo no que toca a minha modesta pessoa. Desejaria, como qualquer um, cair em adoração diante do sistema, se conseguisse ao menos enxergá-lo. Até agora não tive sucesso, embora tenha pernas jovens, estou quase esgotado de tanto correr de Herodes a Pilatos.

A subjetividade não é traduzida por sistemas epistemológicos. Conforme Kierkegaard (2013), tornar-se subjetivo é uma tarefa que compete apenas a individualidade, de modo que, a auto – compreensão do sujeito existente até mesmo diante do pensar-sobre-a-morte ou mesmo a consciência de ter um eu imortal, requer atitude, ação, angústia e sofrimento. É necessário desenvolver a subjetividade na ação individual para que, não é necessário demonstrabilidade, mas apenas, subjetividade. Kirkegaard não enxerga o sujeito existente puramente objetivo, todavia, para ele, o indivíduo é uma síntese de corpo e alma, possibilidade e necessidade, temporalidade e eternidade, concernente a isto, Adorno infere (2010, p.160):

O conceito kierkegaardiano de existência não equivale ao mero ser-aí [dasein], porém a um conceito que, movendo-se em si mesmo, apodera-se de um sentido transcendente, e que deve ser qualitativamente diferente do ser- aí. Com isso, a questão da existência não se coloca pura e simplesmente como uma pergunta pelo ser-aí, mas sim por uma existência histórica.

A existência histórica do indivíduo faz com que em sua singularidade ele tome decisões que só cabe a ele no plano da existência. Não é apenas um sujeito lançado na existência objetiva, ou mesmo numa existência especulativa, mas indivíduo concreto, real. Conforme afirma R. Jolivet (1953, p.39), para Kierkegaard: “O que importa é compreender a si mesmo e compreende-se existindo.” Independente de sistemas categóricos, o conhecimento verdadeiro é o conhecimento de si mesmo. O eu é uma síntese de finito e infinito, abstrato e objetivo, indissociáveis da realidade existencial. De fato, a existência para Kierkegaard leva-o a rejeitar qualquer sistema filosófico que pretendesse explicar a realidade abstratamente, renegando o caráter ambíguo do ser-humano.

2.2 INDIVÍDUO E INTERIORIDADE

Toda obra de Kierkegaard é um desdobramento analítico de sua própria existência como parâmetro para a individualidade subjetiva. O pensamento de Kierkegaard se baseia na interioridade religiosa, pautada por um sentimento Cristão de devoção apaixonada. Ser Cristão autêntico é existir autenticamente e aceitar o sofrimento com resignação, pois o eterno ao encarnar-se sofre todos os tormentos existenciais, angústias e desespero e morte, mas não perde seu contato consigo mesmo, em sua subjetividade mais profunda, no entanto, vive-se apaixonadamente a existência com interioridade. Para Kierkegaard, o maior exemplo de indivíduo é a figura paradoxal de Deus no tempo, pelo fato de que, pautado numa figura de servo, o deus no tempo veio para servir, de modo apaixonado, padecendo todos os males da existência objetiva, todavia, abnegou-se; a interioridade absoluta se dá no amor, na paixão pela vida, conforme afirma Kierkegaard (2011, p.54): “[…] é o amor que sofre, é o amor que tudo dá, estando ele mesmo na necessidade. Maravilhosa abnegação! […] o amor não transforma o amado, mas se transforma a si próprio.” Para Kierkegaard, o homem é síntese de corpo e alma sustentada pelo espírito. A existência está marcada pelo devir, e em seu viver autêntico, o homem depara-se com os mais variados sentimentos e sofrimentos e na busca de sentido existencial, conforme Adorno (2010, p.168):

O sentido ontológico, para Kierkegaard, não é um sentido em que a existência, interpretando-se a si mesma, pudesse reconhecer seu próprio ser; ela tem de conjurá-lo; ela o conjura sem imagens, para apossar-se dele em pura espiritualidade, sem aparência; o sentido conjurado lhe é proporcionado ambiguamente e se confunde com a mera existência mesma: isso remete a crítica da ideia kierkegaardiana da verdade de volta à estrutura de seu conceito de existência, como fundamento dessa ambiguidade.

A existência convoca o indivíduo objetivamente, de modo que, no ponto de vista kierkegaardiano, trata-se de um paradoxo, entretanto, a partir da objetividade, o homem interior reconhece a síntese que constitui sua existência. O sentido da existência é esforço, uma tensão voltada para o infinito, já que, segundo ele, o indivíduo é uma síntese de eterno e temporal, é a aceitação objetiva dessa tensão espiritual do eterno e temporal na subjetividade. Quando apenas a objetividade adentra no seio do Cristianismo, ele perde aquilo que o caracteriza, a interioridade; e interioridade é espiritualidade; aquilo que faz o homem que almeja ser sujeito é apaixonar-se pela existência depositando nela sua esperança eterna. Quanto mais o sujeito especulante, na sua busca contemplativa voltada à razão e as categorias intelectuais (o que caracteriza a objetividade), mais ele se afasta da beatitude eterna, que reside na fé; o encontro consigo mesmo é no interior, reside na abnegação das coisas terrenas em prol da paixão pela eternidade. O indivíduo que almeja uma vida autêntica necessita de fé, conforme Kierkegaard (2013, p.43): “[…] o nome da mais decisiva expressão de subjetividade: fé.” Viver conforme à fé é correr riscos onde a razão torna-se impotente devido aos mecanismos inerentes à existência como o próprio devir, que torna a existência imprevisível e a verdade impossível, com o constante vir-a-ser. Kierkegaard (2013, p. 220) afirma que:

Quando a verdade eterna relaciona-se com o existente, ela se torna paradoxo. O paradoxo rebate, na incerteza objetiva e na ignorância, para a interioridade daquele que existe. Mas como o paradoxo não é, em si mesmo, o paradoxo, ele não rebate com interioridade o suficiente; pois sem risco não há fé; quanto maior o risco, maior a fé; quanto mais confiabilidade objetiva, menos interioridade (pois a interioridade é justamente a subjetividade); quanto menos confiabilidade objetiva, mais profunda é a possível interioridade.

A instabilidade paradoxal da existência leva o indivíduo a diversos estádios[5] existenciais. Kierkegaard faz uma profunda análise psicológica e espiritual do indivíduo que se enquadra naquilo que ele definiu como estádios da existência e que definem o comportamento humano diante de si mesmo e do geral. O homem não pode fugir da subjetividade, ela caracteriza a verdade, conforme Le Blanc (2003, p.80) infere:

A limitação, a fragilidade, a instabilidade da existência, em suma, a finitude segundo Kierkegaard, não devem ser afastadas quando se trata da verdade, mas, ao contrário, servir de ponto de apoio […]. O que chamou existencialismo é a consideração radical da subjetividade (com suas angústias, suas incertezas, seus defeitos e suas falhas na construção do discurso filosófico sobre a verdade.

O existencialismo kierkegaardeano conjura o indivíduo à vida sem mediações. O sujeito em busca de existir é aquele que pode viver meramente pelo prazer, pela voluptuosidade, sob governo das paixões, em que ausência de reflexão caracteriza o sujeito que vive apenas para o imediato. Ele pode existir também de modo regrado, cônscio de suas responsabilidades, sob autocontrole e regras de modo que satisfaça sua vida exterior ante a sociedade. Contudo, a interioridade pode requerer do eu um estádio mais elevado de si mesmo: a vida pautada frente ao absoluto, reservado para Deus em absoluta intimidade, alheio aos devaneios mundanos. O caminho da existência não obedece a parâmetros lógicos, há uma tensão constante dentro da interioridade. O indivíduo é aquele que que descobre a paixão pelo paradoxo da existência. O paradoxo é a verdade existencial da subjetividade. A paixão para Kierkegaard é viver nessa tensão paradoxal, em que a verdade objetiva, científica, nada significa. O conceito é mera conjectura estéril da realidade sujeita ao devir.

O indivíduo só se encontra diante de si mesmo, quando compreende a si concretamente, quando ele descobre sua sede de infinito, pois, conforme Kierkegaard (2010, p.150): “Compreender o que se diz é uma coisa, compreender a si mesmo no que foi dito é outra coisa.”

Portanto, o homem pautado em uma vida autêntica deve aceitar o fato de viver sob a reflexão em busca da interioridade absoluta, ser verdadeiro consigo, imerso em si mesmo, em seu eu, que resulta na sua própria subjetividade. Somente quando o homem encontra-se consigo mesmo e se desprende da vida inautêntica, ele encontra Deus. Quanto mais nítida for a consciência de si mesmo, mais concreta será a existência, pois, o sujeito sem interioridade é estranho a si mesmo, vive inautêntico, de modo superficial, sem reflexão e sem consciência de seu eu eterno. O indivíduo que vive subjetivamente é verdadeiramente livre, segundo Kierkegaard (2010, p.150):

Quanto mais concreto for o conteúdo da consciência, tanto mais concreta ficará a compreensão, e, quando esta faltar na relação com a consciência, teremos um fenômeno da não liberdade que se quer encerrar em si mesma contra a liberdade.

O conteúdo concreto da consciência é a própria percepção de se ter um eu espiritual; o eu é subjetividade. Conforme Kierkegaard (2010, p.158): “A interioridade, a certeza, é seriedade. Parece meio pouco, se pelo menos tivesse dito que a seriedade é subjetividade, a pura subjetividade.” A individualidade não pode ser descrita em termos puramente filosóficos como os sistemas racionais tentaram descrever em vão. Para Kierkegaard, cada homem individualmente é autoconsciência pura. A indivíduo assume sua mais pura característica: a seriedade, conforme ele mesmo afirma (KIERKEGAARD, 2010, p.154): “[…] a interioridade é justamente a fonte que jorra para vida eterna, e o que brota dessa fonte é justamente seriedade.” Para nosso filósofo, encontrar uma definição para “seriedade” no contexto existencial torna-se um esforço vão. Procurar defini-la é o mesmo que tentar definir a subjetividade: sua realidade objetiva transcende o conceito.

Ser sujeito existente requer do indivíduo a mais pura liberdade e responsabilidade. Corresponde ao indivíduo lançado na existência concreta, imediata, de modo que, seu eu exige de si mesmo uma constância na determinação do viver, que por si mesmo, é instabilidade. A seriedade requer compromisso com a existência, ou seja, aquilo que se quer fazer, faça com compromisso, sem deixar arrefecer o sentimento interior.

Portanto, a subjetividade requer do indivíduo compromisso com a existência, mesmo porque dela ele não pode fugir. O homem em seu itinerário existencial depara-se com circunstâncias que são indeterminadas, exige-se escolhas, compromisso. A razão nem tudo pode explicar nessa caminhada, em que se faz necessário ter fé como antídoto para o desespero e a angústia. A fé como paradoxo da existência faz com que o indivíduo, ante as múltiplas possibilidades, decida-se perante o absoluto, com a mais pura paixão, lançando-se a Deus através do salto qualitativo na existência que o desprende de uma existência superficial e o projete diante do infinito. É suprimir a razão, como afirma Kierkegaard (1984, p. 213):

O essencial para ele é saber se quer crer que a Deus tudo seja possível, se ele tem a vontade de crer nisso. Mas não será a fórmula mais própria para se perder a razão? Perdê-la para ganhar a Deus, é o próprio ato de crer.

A possibilidade da existência também gera no indivíduo um sentimento estranho, um sentimento que assemelha-se à melancolia, mas que na verdade é a angústia. A angústia tem diante de si o nada que o fundamenta. A existência permeia-se de angústia, pois, é mediante a angústia que se origina a liberdade. Pela angústia, que somente um indivíduo pode ter, advém a vertigem da própria liberdade, conforme Charles Le Blanc: “Se a existência é possibilidade, a existência individual é angústia.” (2003, p.51). Contudo, o indivíduo é assolado também pelo desespero. O desespero é a relação de um indivíduo consigo mesmo. A existência arrasta o indivíduo para o desespero, de modo que, somente quando ele lança-se a Deus, ele consegue auto transcender-se e superar sua condição.

A especulação filosófica não alcança o indivíduo concreto que sofre e desespera. Conforme R. Jovilet (1953, p. 56): “É impossível escapar do desespero. A ausência de desespero equivaleria, rigorosamente ao nada. Quem diz desespero, diz consciência, espírito e reflexão.” Toda a abstração filosófica e a ciência de um modo geral, relegaram ao indivíduo e a sua interioridade, uma plano secundário ante a objetividade. Kierkegaard acreditava que somente a olhar sobre si, sobre o que é o existir com consciência de ser um ser espiritual, tornaria o homem pleno de ter um eu, conforme ele afirma (KIERKEGAARD, 2013, p.262): “Minha ideia principal era que, em nosso tempo, devido ao muito saber, a gente esqueceu o que é existir, e do que pode significar interioridade, e que o mal-entendido entre especulação e o cristianismo poderia ser explicado por isso.”

CONCLUSÃO

A filosofia de Soren Kierkegaard foi um desdobramento de suas próprias experiências como um existente. Procuramos dar um destaque às principais ideias de sua complexa obra, bem como analisar um pouco do contexto filosófico subjacente ao seu pensamento.

A obra de Kierkegaard é extensa e complexa, não obedecendo a nenhum sistema filosófico; seu pensamento é, por vezes, hermético e complexo, mas inovador. Sua vida fora pautada por uma depressão que o acompanhou pelo resto de sua vida, contudo, superada pela fé. Sua vida é marcada por perdas precoces; por uma criação extremamente rígida nos princípios da religiosidade protestante, bem como, herdeiro dos traumas paterno. Após o rompimento de seu noivado, suas crises existenciais se aprofundaram.

Kierkegaard faz uma análise de si mesmo como parâmetro para a individualidade concreta. Luta contra todos os sistemas filosóficos de sua época que diluía a subjetividade e viveu uma intensa polêmica com a igreja de sua época. Kierkegaard, antes de tudo, foi um pensador religioso, preocupado com a interioridade cristã. Avesso aos sistemas que engendravam o indivíduo a uma abstração especulativa. Nosso filósofo descobre o indivíduo concreto, que vive a possibilidade, tendo de fazer escolhas reais, tendo de viver com as consequências de seus erros e acertos.

REFERÊNCIAS

ADORNO, Theodor W. Kierkegaard. São Paulo: UNESP, 2010.

FARAGO, France. Compreender Kierkegaard. 3°ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2011.

GARDINER, Patrick. Kierkegaard. São Paulo: Edições Loyola, 2001.

JOLIVET, Regis. As doutrinas Existencialistas. Porto: Livraria Tavares Martins, 1953. v.8

KIERKEGAARD, Soren. Temor e Tremor. Trad. Maria José Marinho. 2°ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. Os Pensadores.

KIERKEGAARD, Soren. Migalhas Filosóficas: ou um bocadinho de filosofia de João Clímacus. 3° ed. Petropólis, RJ: Editora Vozes, 2011.

KIERKEGAARD, Soren. Pós-Escritos às Migalhas Filosóficas. Petropólis, RJ: Editora Vozes, 2013. v.1.

____________________. Conceito de Angústia. 2°ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2010.

LE BLANC, Charles. Kierkegaard. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 2003.

REALE, G; ANTISERI. D. História da filosofia. São Paulo: PAULUS, 2005. v.5

MORAES, Alfredo de O., et al. Hegel: A moralidade e a Religião. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2002.

3. Conforme Jolivet (1953, p. 38): O Hegel ao qual se opõe Kierkegaard não é o da Fenomenologia do Espírito, mas o Hegel idealista de 1827, para quem a história não é mais do que um desenvolvimento e a manifestação de uma lógica, visto que, entre as coisas finitas e seu princípio absoluto, a relação é essencialmente à que existe, numa dedução racional, entre o princípio absolutamente primeiro e as suas consequências necessárias. Explicar o mundo será, portanto, deduzi-lo a partir da Ideia (ou do Espirito infinito), isto é, admitir que, estabelecido o Espírito Infinito, o mundo resulta dele necessariamente, com todos os caracteres que a experiência apresenta e toda sucessiva variedade dos seres e da história.

4. Segundo Norman Geisler (2002, p. 349): O Fideísmo religioso afirma que assuntos de fé e crença religiosa não são apoiados pela razão. A religião é uma questão de fé e não pode ser arguida pela razão. Só é preciso crer. A fé, não a razão, é o que Deus exige (Hb 11.6). Os fideístas são céticos em relação a natureza da evidência aplicada à crença. Eles acreditam que nenhuma evidência ou argumento se aplica à crença em Deus. Deus não é alcançado pela razão, mas apenas pela fé.

5. Kierkegaard desenvolve uma analítica psicológica da existência, de modo que ele denomina de “Estádios da existência.” Os estádios não são uma categoria que se enquadre em um sistema, já que Kierkegaard abominava os sistemas de pensamento de sua época. Os estádios compreendem os estádios estético, ético e religioso. De acordo com Le Blanc (2003, p.53): “O indivíduo entra em relação com o mundo, consigo mesmo e com Deus. Estes três tipos de relação representam as três possibilidades da existência. Explicando esses tipos de relação, Kierkegaard apresenta três estádios de existência que se excluem uns aos outros e não podem de maneira alguma ser objetos de síntese. Fazer a síntese desses três estádios equivale a fazer o indivíduo concreto da existência desaparecer na espécie humana: o indivíduo concreto não pode entrar em contato, ao mesmo tempo, com diferentes termos da relação, a não ser de maneira abstrata e especulativa.” Não há uma ordem lógica nos estádios existenciais, o sujeito transpõe cada estádio através de “saltos” qualitativos, o único modo de transpor de um para outro, mas, jamais por uma sucessão entre eles. Para explicar o que compreende cada estádio, Farago (2011, p.62) infere: “O estádio estético corresponde a uma vida inteiramente vivida sob o jugo dos sentidos, da imediaticidade, da improvisação totalmente caótica, insensata. O estádio ético ordena a vida sob a lei. O estádio religioso é aquele que se relaciona com o absoluto.”

[1] Pós-Graduando em Ciências da Religião pela FAFIC – Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Graduado em Licenciatura em Filosofia.

[2] Mestrado em Filosofia; Especialização em andamento em Ciências das religiões, diversidade e ensino religioso; Especialização em Filosofia Clínica; Graduação em Filosofia.

Enviado: Outubro, 2018.

Aprovado: Outubro, 2019.

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