Como pensar o processo ensino-aprendizagem acerca do ensino de filosofia no ensino médio: uma abordagem metodológica

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OLIVEIRA, Arlan Braga [1]

OLIVEIRA, Arlan Braga. Como pensar o processo ensino-aprendizagem acerca do ensino de filosofia no ensino médio: uma abordagem metodológica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 09, Vol. 06, pp. 118-133 Setembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo aborda o ensino de filosofia e suas problemáticas acerca do processo ensino-aprendizagem e o caminho metodológico quanto à importância da sistematização dos conteúdos. De início, retrata o desenrolar histórico do ensino de Filosofia, que desde o período colonial se fez presente na educação brasileira. Em seguida, nos conduz para o ensino médio nos dias atuais, tendo em vista, a importância do pensamento crítico a ser construído numa proposta problematizadora dos conteúdos. Por fim, a reflexão sobre a compreensão do processo ensino-aprendizagem.

palavras – chave: Filosofia, Ensino-Aprendizagem, Ensino Médio.

INTRODUÇÃO

A problemática do ensino-aprendizagem acerca da disciplina de filosofia no ensino médio vem tomando grandes proporções nas investigações acadêmicas. Seu principal objetivo é desenvolver entre os licenciados no campo do saber filosófico a reflexão sobre a necessidade de qualificação metodológica, tendo a consciência da não transmissão de conteúdos, mas a problematização filosófica como itinerário pertinente a uma relação satisfatória entre ensino-aprendizagem.

A disciplina de Filosofia no ensino médio exerce um caráter importante no desenvolvimento dos jovens educando. Contudo, atualmente se criou uma mentalidade errônea, pois, entre os alunos, principalmente da rede pública, se concebe o ensino filosófico como autoestima, ou o estudo de um simples ditado popular que norteia a vida de determinados indivíduos.

A filosofia é um estímulo de aperfeiçoamento do conhecimento. Sendo o homem por natureza inclinado ao saber, assim, expressava Aristóteles. A filosofia vem contribuir com o objetivo de estimular a provocação na busca incessante de uma ação transformadora, que nos conduz a uma sistematização do conhecimento com o desejo de atingir a acessão ao saber.

É na ótica do caminho ao saber que a filosofia tem que perpassar a linha histórica do ensino de filosofia, e por meio de um processo ousado, ou seja, que envolva aluno, professor e toda a sociedade, provocando nos jovens filósofos o desejo investigativo de leitura crítica acerca da realidade em que estão inseridos.

Nesta perspectiva que o ensino de filosofia deixa de ser uma mera contribuição às aulas e passa a ocupar o seu verdadeiro espaço. Assume o caráter de germe que fecunda o amor ao saber e proporciona um caminho mais iluminado em direção a libertar-se da ignorância. Não se pode aqui, interpretar como desamparo a tradição histórica e a todo conhecimento sistematizado pela filosofia.

Contudo, evolui na perspectiva de uma ação filosófica, embasado na tradição para um novo olhar sobre os novos desafios que envolvem a humanidade. Todo este caminho a ser percorrido deve acontecer na medida em que o aluno de mãos dadas com o professor utiliza-se do diálogo filosófico como recurso metodológico, capaz de traduzir a linguagem complexa filosófica numa aprendizagem a partir da realidade.

2. UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA DO ENSINO DE FILOSOFIA

2.1 – A FILOSOFIA NO PERÍODO COLONIAL

Sabe-se que a filosofia é uma matéria estudada desde o período colonial. Seu objetivo principal era de preparar bem os filhos da elite, como também, auxiliava a formação doutrinária das concepções religiosas e políticas vigentes naquela época.

Juntamente com os primeiros portugueses que aqui vieram, compunha a colonização os missionários Jesuítas, para evangelizar e catequizar os nativos. Contudo, com a permanência dos colonos e destes religiosos, passou-se a ter a necessidade de criar um ambiente semelhante à realidade da qual eles provinham, portanto, construíram igrejas, escolas, casas, povoados e etc.

A educação tornou-se uma preocupação expressiva para os religiosos – que apreciavam os estudos e se preocupavam com a formação dos jovens. Assim passa-se a organizar o processo de ensino no Brasil, tendo a frente os religiosos da Companhia de Jesus. É importante destacar a grande contribuição que estes missionários educadores ofereceram a organização intelectual da sociedade brasileira. Ghiraldelli acentua:

A experiência pedagógica dos jesuítas sintetizou-se em um conjunto de normas e estratégias chamado de Ratio Studiorum (Ordem dos Estudos). O objetivo dessa Ordem era o de” formação integral do homem cristão”, de acordo com a fé e a cultura daquele tempo. Esse plano de estudos articulava um curso básico de humanidades com um de filosofia seguido por um de teologia…[2]

A sistematização da educação no período colonial estabelece um curso básico de humanidades, filosofia e teologia. Na verdade, era um ensino seminarístico, pois, somava para a formação cristã, a formação dos que aspiravam o sacerdócio e os que almejavam outra carreira profissional. Contudo, estes estudos, possibilitavam uma preparação eficaz para uma posterior especialização em outro país, especialmente na Europa.

O curso de Filosofia no período Colonial ou, também, identificado por curso de Ciências ou Artes, possuía a duração de três anos e se destacava com o estudo da Lógica, Metafísica, Moral, Matemática, Ciências e Física. Desta forma, reduziam o ensino de Filosofia a basicamente o de formar homens letrados e eruditos.

2.2 – PERÍODO PÓS-COLONIAL

Ao desenvolvimento histórico do país, identificaram-se os lentos passos, porém, significativos em que à filosofia foi ganhando espaço nas escolas. Ainda em 1879, com o progresso da industria, Revolução Francesa e os pensamentos liberais acerca da educação de Rousseau, surge no cenário brasileiro Carlos Leôncio de Carvalho, com a reforma que tornava completamente livre o ensino primário e secundário do município da corte e o superior em todo império, ou seja, as aulas não apresentavam mais o caráter de aulas régias.

O caminho do ensino de Filosofia só estava sendo traçado. Em 1925, Rocha Vaz, enfatiza a importância de fornecer uma cultura geral, não apenas direcionada para o campo profissional, mas que oferecesse no currículo escolar conteúdos que fundamentasse a vida como objeto de reflexão. Contudo, se ofereciam as duas ultimas séries do ensino secundário o ensino de Filosofia.

Uma outra reforma para melhor compreendermos o processo histórico do ensino de filosofia no país foi com a reforma de Capanema: a filosofia passou a ocupar maior espaço nos currículos do curso clássico e científico. Porém, com a vida de novas políticas para educação a filosofia perde espaço, pois, sua atuação perde o caráter de obrigatoriedade passando para disciplina complementar:

O mesmo não ocorre com alei n. 4.024/61, na medida em que ficou sob a responsabilidade do Conselho Federal de Educação a indicação, para todos os sistemas do Ensino Médio, das disciplinas obrigatórias, e aos conselhos estaduais de educação a indicação das disciplinas complementares, podendo a filosofia está entre elas.[3]

Com o passar dos tempos, a Filosofia foi perdendo seu espaço no currículo escolar, principalmente no período ditatorial. Para este regime governamental, o pensamento filosófico era mais que um empecilho na grade de ensino; era uma ameaça contra a ideologia política vigente naquela época.

2.3 – O AVANÇO DO ENSINO DE FILOSOFIA NO PAÍS

No tempo atual, a Filosofia pouco a pouco, inicia um processo de revalorização e expansão em sua prática histórica disciplinar. A partir dos anos 80, mais precisamente, se vem fazendo um esforço para a inclusão desta matéria na grade curricular, devido à importância da mesma. Sensível a tais apelos a Lei de Diretrizes e Bases n9394/96 determina aos Temas Transversais a faculdade do estudo aos alunos de Ensino Médio. A justificativa dada é a necessidade da conscientização da cidadania, daí se percebe a intenção do governo em oferecer aos jovens esta disciplina. Para tanto, algumas entidades particulares já oferecem a matéria além do Ensino Médio, na Educação Infantil e Fundamental, numa perspectiva de conscientização acerca do ser quanto antropológico e sociológico.

Apesar de tal conquista, o ensino da Filosofia na escola é, antes de qualquer coisa, uma prática que preocupa. Houve uma sugestão de inclusão no corpo de disciplinas oferecidas, mas não teve uma definição enquanto currículo. Desta forma, os professores se sentem “livres” para seguirem um programa particular, sem orientações pedagógicas, que muitas vezes estão distantes da realidade em que vive o aluno, seja no contexto social, político-econômico, cultural, como também das reais exigências do estudo da filosofia em determinadas séries. Além disso, ainda existem as dificuldades de profissionalização daqueles que ministram as aulas de filosofia.

Por ser uma nova disciplina na matriz curricular, existem poucas pessoas qualificadas no mercado para atender às necessidades da demanda. Devido a isto, as escolas procuram redirecionarem os professores que geralmente ensinam Geografia ou História para também lecionar Filosofia e Sociologia, afirmando não haver diferenças. Existe um outro fator que perpassa o comodismo e a injustiça cometida por tais escolas, mesmo que estas a façam sem pensarem na gravidade da questão, é o de se aproveitarem do tempo de ensino da Filosofia para completarem a carga horária de certos professores sem qualificação profissional para o exercício da mesma.

Quando a Filosofia surge como complemento, passando a ter um valor menor, rebaixado as demais disciplinas, há uma enorme desvalorização, cumpre-se obrigatoriamente apenas pelo fato de se encontrar no currículo, ou agora na lei.

No entanto, mais que questões estruturais, a Filosofia precisa ser pensada enquanto utilidade no processo de educar. De nada valerá se o professor, que é o primeiro responsável, não apresentar aos respectivos alunos a disciplina com entusiasmo, de forma criativa e participativa. Para isso é necessário primeiro, motivação por parte do educador para ensinar. À medida que o educador demonstra interesse pela própria proposta, o educando pode motivar-se em acolher o que lhe é sugerido. Esta opção do discente será realizada de forma espontânea e livre, rompendo com a realidade comum de participarem de mais uma disciplina, porque precisam dela para passarem de uma série para outra progressivamente.

3. FILOSOFIA NO ENSINO MÉDIO

3.1 – O JOVEM FILÓSOFO

Tendo em vista os avanços da sociedade moderna, tanto o progresso de cunho tecnológico quanto os culturais ou até mesmo lingüísticos e intelectuais, percebe-se a necessidade cada vez maior e urgente em oferecer aos jovens uma boa educação.

Uma educação de qualidade não se constrói apenas em transmitir para as gerações posteriores conteúdos acumulados com o decorrer da história. Todavia, se estimula os alunos a se deparar com o conhecimento de forma crítica e questionadora no intuito de quebrar os paradigmas e reformular os conceitos. É a proposta pedagógica filosófica que os jovens iniciantes no caminho do saber devem se submeter no processo formativo do ensino de filosofia.

Diferente do filósofo Platão que atribuía aos indivíduos de idade avançada o domínio do saber. A sociedade moderna descobre a eficácia de que quanto mais cedo, melhor, para iniciar os jovens no processo educativo. É fundamental quando a proposta pedagógica o lança para o mundo do conhecimento como verdadeiros exploradores e desejosos em elevar o espírito ao saber.

E nada melhor que proporcionar aos jovens do Ensino Médio o desenvolvimento do pensamento crítico quanto à realidade que estão imersos. Não apenas assimilar as ciências exatas ou o desenvolvimento cultural de uma dada sociedade, mas, progredir colocando em prática a capacidade reflexiva da Filosofia.

A atenção ao ensino de Filosofia deve ser uma constância. A atividade que atribuímos o nome de ensino de Filosofia não se pauta exclusivamente em conteúdos as serem depositados de forma irregular. Pelo contrário, o exercício do magistério profissional do ensino de Filosofia, possui um caráter puramente filosófico, que está para além de um simples transmissor de conhecimentos, mas que converge em acentuar o antagonismo kantiano na possibilidade de criação de conceitos.

3.2 – O EDUCANDO À LUZ DAS ESCOLAS FILOSÓFICAS E DA REALIDADE

Uma outra preocupação que se apresenta como ameaça para o despertar da aprendizagem filosófica, condiz com a proposta pedagógica vigente na legislação. Orienta-se que o ensino de filosofia deve ser feito espontaneamente, abordando temas como: amizade, liberdade, sexualidade e outros. Observa-se o que indica como proposta de ensino as Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional:

O artigo 36, parágrafo 1˚, em seu inciso III decreta a necessidade do “domínio dos conhecimentos filosofia e de sociologia necessários ao exercício da cidadania”. A interpretação imediata da lei pelas instâncias normatizadoras da instrução escolar foi taxativa: entenda-se por conhecimentos de filosofia os temas transversais a serem trabalhados pelas disciplinas que compõem a base nacional comum dos currículos escolares da educação básica (artigo 26 da lei 9.394/96), tornando-se desnecessária a inclusão da filosofia na parte diversificada dos currículos.[4]

Sem dúvida são temas puramente filosóficos, porém, são trabalhados de forma indefinida, sem planejamento e distantes da sistematização dos pensadores que se destacaram no decorrer da história do pensamento filosófico. É necessário que o mediador do saber articule o pensamento sistemático juntamente com as idéias fomentadas em sala de aula.

Relembrando Hegel quando afirma que é necessário que a História da Filosofia seja uma história filosófica. Impulsiona ao aprimoramento quanto à leitura das escolas filosóficas, percebendo nelas, espaço apropriado para o desenvolvimento intelectual. O pensamento filosófico é um esforço constante à apreensão ao saber, portanto, não contentemos com simples reflexões alicerçadas no senso comum.

3.3 – NECESSIDADE DE CONFRONTO NO IMPULSO AO CRESCIMENTO

O homem desde os primórdios da história vem dando passos significativos para evolução da espécie: nos âmbitos intelectuais, antropológicos, científicos, culturais. Isto, porque é um ser dotado de razão e liberdade. A capacidade intelectual possibilita de forma a transformar a realidade a qual o indivíduo está inserido.

Não podemos omitir, também, a capacidade humana de regredir em qualidade nas atitudes sociais que são estabelecidas com os outros e com o cosmo. Assim, estes avanços e regressões são inerentes à natureza humana. Segundo Kant é uma necessidade antagônica do homem. A disputa em dar passos em direção a evolução do conhecimento é pertinente e deve acontecer naturalmente, pois, é o que impulsiona o homem na construção e reconstrução do saber e de novas relações com perspectivas diferentes. O caráter antagônico, portanto, é compreendido como indispensável para o desenvolvimento intelectual. Observemos o que nos aponta Dominique Santos com base no pensamento kantiano, acerca da capacidade humana de construção de saberes, que por sua vez, gera política, arte, filosofia e tantas outras ações culturais:

Na sociedade, os homens podem desenvolver suas disposições naturais e por isso se sentem mais como homens, em oposição, eles também têm uma forte tendência a se separar, pois encontram em si o forte desejo de conduzir tudo a sua maneira, para o seu proveito…Isto acontece de forma necessária, pois por meio desta inquietação são dados os primeiros passos em direção à cultura, é por meio deste antagonismo necessário que os homens desenvolvem todas as suas potencialidades, desenvolvem todos os talentos, forma-se o gosto, e através de um constante iluminar-se, acontece à fundação de um modo de pensar que pode levar ao todo moral.[5]

Com o raciocino apresentado acima da necessidade antagônica do homem, podemos refletir que o jovem necessita deste processo de confronto em sala de aula no impulso ao crescimento. O ato de se deparar com dificuldades a serem superadas é louvável, na tentativa de superação, pois, se produz o novo, ou se reconstrói experiências, que, portanto, possibilita a ampliação do horizonte dos conhecimentos adquiridos.

4. PROBLEMATIZAR A FILOSOFIA

4.1 – A LINGUAGEM COMO ITINERÁRIO A PROBLEMATIZAÇÃO

Desde os primórdios da humanidade, identificamos por meio da história a necessidade que a espécie humana tem de se comunicar. A linguagem é de suma importância para uma comunicação satisfatória. Ela se apresenta como elemento indispensável na relação com os outros e se manifesta de formas variadas: exprime os sentimentos, desejos, ideias, descreve os objetos e muitas outras funções que desempenha. Heidegger não pensa diferente, nos relata que o homem quanto este ser constante na fala quer na ativa ou adormecido, esta sempre se comunicando:

O homem fala sempre. Nós falamos na vigília e no sono.Falamos sempre. Mesmo quando não proferimos palavra, mas escutamos ou lemos, dedicamo-nos a um trabalho ou nos perdemos no ócio. De um ou outro modo, falamos ininterruptamente. Falamos porque o falar no é conatural…Quer-se dizer que é a linguagem que torna o homem o ser vivo que ele é enquanto homem.[6]

Heidegger é feliz quando nos apresenta o homem como ser que vive da linguagem, pela linguagem e para a linguagem. Em todos os momentos corriqueiros sempre estamos voltados para a necessidade de comunicação.

O ser humano é dotado da capacidade de falar, a qual o difere dos demais seres vivos. Não é meramente a capacidade de produzir algum som, isso outros animais também fazem, mas a capacidade de, pelo som que produzem – a fala –, expor seu pensamento, suas idéias, suas indagações. Agindo com tal recurso, o ser humano se expõe mesmo de forma inconsciente. Pela palavra humana pode-se exprimir, informar, convencer. É a palavra que especifica o humano[7].

É preciso saber que a palavra, seja oral, seja escrita, é um elemento da linguagem, a qual, por sua vez, pode ser concebida como a multiforma da expressão humana. Interessante que na contemporaneidade, existe uma tendência para a negação da palavra: alguns não falam ao outro por não possuir autoridade ou simplesmente por preferir a omissão; outros porque optam pelo escutar do que pelo falar.

Na construção do saber é necessário falar e também escutar. Podemos destacar Sócrates, que em muito contribuiu na arte de pensar e também de se expressar por meio do seu método dialético (a refutação e a maiêutica) com a finalidade de conduzir o individuo a pensar e a gerar conhecimento. Assim, comenta Reale:

É como podemos ler em testemunho platônico: Quem quer que esteja próximo a Sócrates e, em contato com ele, ponha-se a raciocinar, qualquer seja o assunto tratado, é arrastado pelos espirais do discurso e inevitavelmente forçado a seguir adiante, até ver-se prestando contas de si mesmo, dizendo inclusive de que modo vive e de que modo viveu. E, uma vez que se viu assim, Sócrates não mais o deixa. [8]

A Filosofia, portanto, é um meio incessante de almejar o conhecimento como verdade por meio do diálogo. Identifica-se, que o saber é inacabado, e a ação contínua em buscar do conhecimento utilizando-se do processo problematizador, ou seja, numa maiêutica para com o objeto de estudo é que se pode estabelecer uma ação de transformação, que conduz a uma sistematização do pensamento com o objetivo de aprimorar o saber.

4.2 – PROBLEMATIZAÇÃO: APRENDIZAGEM METODOLÓGICA

Instigar os alunos ao saber é o melhor caminho. É nesta perspectiva de filosofar, que se pode desenvolver a aprendizagem em sala de aula, problematizando o saber, discutindo, argumentando e reformulando os conceitos que já se têm como certos. Assim, podem-se ler os pensamentos dos filósofos que os livros nos apresentam, tendo em mente a construção de novos saberes que nos possibilite pensarmos de forma autônoma e científica.

Pensar o ensino de Filosofia, sempre foi motivo de muitas indagações, portanto, a construção de respostas lógicas foi se estabelecendo por meio das problematizações. As reflexões são frutos de levantamentos acerca de como se deve estabelecer o ensino de Filosofia, se é possível, de que forma, qual didática utilizar e tantas outras. Contudo percebe-se que não podemos pensar uma relação unilateral na educação filosófica, ela acontece por meio da problematização dos conteúdos em sala.

Torna-se elemento significativo apreender que não é uma relação unilateral, em que, só o professor determina o que se deve aprender e de que forma deve ser assimilada. Esta relação ensino-aprendizagem, logo aponta que a filosofia não é, e não deve ser uma ciência acabada, pronta, mas que precisa ser construído o saber por meio do indagar filosófico.

Pode-se dizer que o conhecimento, ou seja, a atitude filosófica, dá-se nas provocações que são encontradas mediante ao estudo. Sendo, contudo, a dinâmica da experiência, que é o ato do ser se deparar com o problema. Quanto a esta ação filosófica se observa à contribuição que Silvio Gallo faz ao ensino de filosofia, partindo do problema, como fonte de desenvolvimento filosófico:

Para tanto, o processo educativo deve partir da experiência do problema como mobilizador e motor do pensamento, para que seja possível a criação conceitual. Esse parece ser o único caminho possível para que o ensino da filosofia não seja um mero “contar histórias” e seu estudo um mero “escutar histórias”.[9]

O caráter primordial nesta sentença é o filosofar. Não se concebe a idéia de um ensino de transmissão dos conteúdos, puramente por uma obediência a grade curricular, no intuito de satisfazer ao programa de ensino. É preciso compreender a Filosofia como um ato puramente filosófico, que por meio da tradição histórico-filosófica, utiliza-se de suporte para dentro da realidade que se encontra inserido, portanto, ser capaz de fazer ligações e de construir conhecimentos.

Até chegar aí a educação já tem feito uma árdua caminhada. Isto, porque até então a tentativa é desenvolver a formação da identidade do professor. Pode-se chamar de consciência, clareza do ato de ensinar se responsabilizando em planejar, avaliar e refazer. Então, quando houver consciência, haverá de fato, espaço para a filosofia acontecer. Tanto o docente como seus interlocutores poderão compreender o valor da Filosofia, ao passo que faz parte da vida de cada um. Deve-se assumir, ainda, uma condição de formação humana, que contribua para as ações cotidianas, buscando organizar os pensamentos da vida na sua vasta possibilidade de realização.

Existem muitos profissionais que ensinam alguma matéria há muitos anos, mas, não sabem a aplicação da mesma no cotidiano, no dia-a-dia, a participação deste ensino na própria existência. Seja quanto à Filosofia, seja quanto a outras disciplinas, quem leciona na superficialidade, apenas finge que ensina e, conseqüentemente, faz com que o educando finja que aprende. Por isso, os interessados possuem a obrigação de questionar: “Para que Filosofia?”.

Quando se luta por algo sem objetivo, gasta-se energias desnecessariamente. A educação cai no pragmatismo revoltante, ao invés de marcar a vida estudantil do educando, é marcado com um trauma, algo assustador ou educa para a passividade intelectual.

5. PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM

5.1 – O ENSINO E A APRENDIZAGEM

Deve-se analisar o processo ensino-aprendizagem por partes, no intuito de uma melhor compreensão. Ao refletir o que vem a ser ensino, logo atribui à transmissão de conhecimentos, como ato puramente de depositar conceitos, ou idéias já pensadas. É preciso ter um olhar mais aguçado para perceber a verdadeira noção de ensino.

A prática do ensino, é colocar em comum, em conjunto com os demais indivíduos, quer seja: verbal, por peio de sinais, expressões corporais e etc. Contudo, a comunicação é um ato sublime, que eleva o homem a condição de ser racional, pois, na medida em que se estabelece uma ralação de informação, acerca de determinados conhecimentos, enobrece a capacidade antropológica do diálogo. Assim, apresenta Marculino Camargo:

Ensinar não é um processo de transmitir conhecimento, mas de desencadear processos psíquicos, principalmente os mecanismos intelectuais: é comunicar, isto é, colocar em comum (com+um(ic)ação) valores; é fazer sinais de comunicação.[10]

O que estabelecemos como conhecimento a ser ensinado, diz respeito ao que é possível apropriar-se mentalmente do objeto, a partir do contato com os sentidos; sendo a faculdade básica do conhecimento a inteligência que, etimologicamente deriva do latim, de instus (dentro) e legere (ler): lê dentro do objeto e extrai o que significa.

É o movimento da comunicação, que por meio da inteligência desenvolve a capacidade de aprendizagem. Esta, por sua vez, vai desenvolvendo-se por meio da reflexão, do deparar-se com o objeto a ser investigado. Assim, desenvolve-se o encadeamento de idéias a serem analisadas, investigadas, discutidas, que auxilia no aprimoramento dos conhecimentos adquiridos.

A aprendizagem é um contínuo situar-se no tempo e no espaço exigindo auto-reorganização, reestruturação, reidentificação da pessoa com a realidade em que ela vive, pois vai adquirindo uma visão nova, diferente, ampliada desta realidade.[11]

A aprendizagem não pode ser pensada fora do âmbito real que os indivíduos estão inseridos. É preciso compreender esta realidade como um espaço cultural, econômico, político, que estabelece direta e indiretamente influência no desenvolvimento psíquico. Portanto, ensino aprendizagem na ótica psicológica é um campo vasto para reflexão, pois, oferece um leque de autores, que indicam caminhos que contribuem no desenvolvimento humano.

5.2 – AS TEORIAS DA APRENDIZAGEM NA ARTE DE ENSINAR A APRENDER

Destacar o behaviorismo[12], o cognitivismo[13] e o construtivismo[14] como teorias da aprendizagem. São, portanto, correntes pedagógicas que apresentam características determinantes e que contribuem na formação educacional dos indivíduos.

O educador exerce um papel importante na vida dos alunos, quanto à necessidade de orientação pedagógica que possibilite crescimento não só intelectual, mas, também, humano e profissional, ou seja, que contemple todas as dimensões. Assim, na história educacional sempre surgem educadores que, mediante a realidade que está inserida, busca desenvolver métodos que favoreça uma aprendizagem mais eficaz.

Para Jean Piaget, que está ligado ao construtivismo, o conhecimento não pode ser implantado de fora, mas tem de ser construído, ou reconstruído, pelo sujeito, ou seja, não é o ambiente externo, mas a partir do interior do sujeito. Diferente de um professor que assume o papel de detentor do conhecimento e o aluno deve acompanhá-lo como passivo e que nada sabe. Portanto, o que Piaget defende é a ideia de um professor como um facilitador que ajuda os educandos a descobrir conhecimentos e a desenvolver autonomia tendo em vista superar o egocentrismo perante os conflitos encontrados. Contudo, para Piaget, a inteligência não é um estado, mas sim um processo que pode ser desenvolvido.

Na relação ensino-aprendizagem pesa também, um outro fator de grande importância que é o relacionamento. O contato estabelecido entre professor e aluno contribui para ou uma aprendizagem significativa ou, pode favorecer para o bloqueio na compreensão e assimilação dos conteúdos. Podemos apontar o psicólogo e educador Carl Rogers que quebra os paradigmas do relacionamento formal entre professor e aluno e estabelece um relacionamento interpessoal.

Assim, também, como Piaget, para Rogers, ensinar é mais que transmitir conhecimento é despertar a curiosidade e instigar o desejo de ir além do conhecimento. Sua proposta pedagógica é centrada no aluno. A aprendizagem para Rogers deve ser significativa, pois apresenta respaldo, ou seja, provoca uma modificação, quer seja, no comportamento do indivíduo ou nas atitudes e na personalidade. Ele concebe o indivíduo na sua totalidade: mente e corpo, sentimento e intelecto que são partes integrantes do mesmo ser.

É notório que a educação, de forma mais específica o ensino de Filosofia, não pode ser concebido de forma homogênea, para todas as realidades, mas lança o olhar para novas leituras no intuito de auxiliar no processo educativo acerca de uma educação genuinamente filosófica. A educação, nada mais é que erguer o homem na sua totalidade, para isso, é necessário: metodologias eficazes, ambientes que colabore na aprendizagem e a interação entre as várias correntes pedagógicas com objetivo de contemplar todas as carências educacionais do homem.

CONCLUSÃO

O processo ensino-aprendizagem acerca do ensino de filosofia, é bem mais amplo do que possamos imaginar. É preciso que o professor ao lecionar esta disciplina esteja aberto as mais variadas possibilidades de realidades que haverá de encontrar. Pois, a sala de aula, não se reduz as quatro paredes, muito pelo contrario, é um espaço que acolhe diversas culturas e potencialidades do saber. É, portanto, o laboratório que possibilita a fecundidade e o desenvolvimento humano e intelectual.

É neste amplo laboratório que não se pode perder tempo e mediante as varias realidades traçar caminhos que leve a reflexão filosófica, tendo em vista primeiramente o amadurecimento das consciências. Assim, livrando-se dos preconceitos e das ideias que se fundamentam apenas no senso comum. Contudo, é necessário como via metodológica problematizar os conteúdos, experimentar o problema e partir para a construção de conceitos. O indivíduo é convidado a expor suas idéias ou conceitos que já possui sobre a realidade que está em sua volta e de forma crítica reconstruir.

A reconstrução é um processo de libertação de “achismos”, mitos, e tantos outros que contribuem para o aprisionamento do intelecto. O processo ensino-aprendizagem deve ser levado em consideração, por sua vez, como o ápice da ação educativa que é capaz de elevar o espírito na aquisição do saber nos vários campos da inteligência humana.

É um momento ímpar na educação, pois, possibilita ao crescimento do sujeito a abrir-se para a janela do mundo do conhecimento, porém, é preciso ter em mente que não é possível abarcar todo o conhecimento, mas é necessário assar vou em direção a um constante desenvolvimento do intelecto. É com o caráter de necessidade perante a superação do problema como fonte de conhecimento que atitude filosófica abraça o produzir conceitos.

É simples: a filosofia também é uma disciplina criadora, tão inventiva quanto qualquer outra disciplina, e ela consiste em criar ou bem inventar conceitos. E os conceitos não existem desde já feitos, numa espécie de céu em que eles esperassem que um filósofo os agarrasse. É necessário fabricar os conceitos.[15]

É nesta capacidade criadora da filosofia que não podemos esquecer o papel importante, pois, não se dá de forma mágica, mas acontece numa ação metodológica que desde as nossas predisposições culturais, também na disposição ao diálogo numa relação de fala e escuta numa perspectiva hermenêutica, até mesmo a percepção de aprendizagem, ou seja, de retorno como resposta ao exercício da ação ensino-aprendizagem, é que nos adentramos ao átrio da filosofia.

Pode-se afirmar assim, que não se ensina Filosofia em sala de aula, mas, que por meio de um processo pedagógico, sistematiza-se e problematiza os conteúdos e atinge a verdadeira ação filosófica. A ação puramente filosófica é que liberta dos grilhões da dependência intelectual e do estacionamento perante o problema do conhecimento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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    1. GALLO, Silvio. Filosofia no ensino médio. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 26.
    2. GALLO, Silvio. Filosofia no ensino médio. Petrópolis, RJ: Vozes, 2000. p. 85.
    3. SANTOS, Dominique Vieira Coelho dos. História, imagens e narrativas. Nº 3, ano 2, setembro/ 2006. ISSN 1808-9895
    4. MONDIN, Batista. Introdução à filosofia: problemas, sistemas, autores, obras. São Paulo. Paulos, 1980. p. 35
    5. Cf. BRETON, Philippe. A manipulação da palavra. Trad.: Maria Stela Gonçalves. São Paulo: Edições Loyola, 1999. p. 23.
    6. REALE,Giovanni. A historia da filosofia:antiguidade e idade média. Editora Paulus. São Paulo – SP. 1990. p. 96
    7. GALLO, Sílvio. Filosofia, aprendizagem, experiência/ Org. Siomara Borba, Walter Kohan – Belo Horizonte: Autêntica Editoura, 2008. p.117.
    8. CAMARGO, Marculino. A filosofia do conhecimento e ensino-aprendizagem. Petrópolis, RJ: Vozes, 2004. p. 17.
    9. Ibid: p. 18.
    10. O behaviorismo é tributário das descobertas do russo Pavlov (1849-1936) sobre o mecanismo do reflexo condicionado. Suas experiências foram ampliadas e aplicadas nos Estados Unidos por John B. Watson e posteriormente por B. Frederich Skinner. A contribuição de ambos influenciou fortemente a pedagogia.
    11. A psicologia cognitiva estuda a cognição, os processos mentais que estão por detrás do comportamento. É uma das disciplinas da ciência cognitiva. Esta área de investigação cobre diversos domínios, examinando questões sobre a memória , atenção, percepção, representação de conhecimento, raciocínio, criatividade e resolução de problemas.
    12. As teorias construtivistas representam um esforço na busca de caminhos que deem conta da complexidade do processo de conhecimento. Por isso apóiam-se em pesquisas científicas – da psicologia, da psicologia social, da psicanálise, da medicina, da biologia, da cibernética, da linguística, entre outras – para melhor compreender o funcionamento da mente infantil e do desenvolvimento cognitivo.
    13. GALLO, Sílvio. Filosofia, aprendizagem, experiência/ Org. Siomara Borba, Walter Kohan – Belo Horizonte: Autêntica Editoura, 2008. p. 125.

[1] Arlan Braga Oliveira, sacerdote, religioso da Congregação Salesiana, pertence a Inspetoria Salesiana do Nordeste do Brasil. Licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia em Recife. Bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Diretor Pastoral do Colégio Dom Bosco em Fortaleza.

 

Arlan Braga Oliveira, sacerdote, religioso da Congregação Salesiana, pertence a Inspetoria Salesiana do Nordeste do Brasil. Licenciado em Filosofia pelo Instituto Salesiano de Filosofia em Recife. Bacharelado em Teologia pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo. Diretor Pastoral do Colégio Dom Bosco em Fortaleza.

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