Freud, a cultura e suas consequências

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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

GARRIT, Marcio [1]

GARRIT, Marcio. Freud, a cultura e suas consequências. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 02, Vol. 01, pp. 132-145. Fevereiro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/filosofia/freud-a-cultura

RESUMO

O objetivo desse artigo é discorrer sobre a desenvolvimento do pensamento de Freud a respeito da formação da cultura e suas consequências. Para isso, partiremos do desenvolvimento do mito científico, apresentado assim pelo próprio Freud, e o discorreremos sobre o papel relevante que o mesmo teve em vários conceitos importantes para a psicanálise.  Abordaremos, também, o papel estratégico que os mitos têm a respeito da construção cultural e as influências que Freud já demonstrava em suas pesquisas, quando vem escrever seu texto datado de 1908, A moral sexual “cultural” e nervosismo moderno.  Neste trabalho, o criador da psicanálise já percebia o peso que a cultura tem enquanto força estruturante na psique dos sujeitos e o papel importante da sexualidade frente a sua impossibilidade de satisfação.

Palavras-chave: Cultura; mito; neurose; sujeito; tabu; totem.

INTRODUÇÃO

[…] o sintoma deva ser considerado também uma ação de protesto contra a ação de coerção civilizatória. (Rudge; Fuks)[2]

Inicia-se esse artigo com o objetivo de analisar, pelos escritos Freudianos, o conceito de sociedade, sua formação e como o sujeito se desenvolve enquanto ser na cultura. Freud percebia a importância de analisar o sujeito como um ser social, seja em sua família, seja em grupos, pois o sujeito, antes de qualquer coisa, é um ser de cultura. Além disso, acreditamos que, enquanto circundado pelos ditos culturais a que pertence, o sujeito, de certa forma, tem seu sintoma neurótico também determinado por esses ditos que refletem a estrutura cultural de uma época.  É necessário que partamos do mito freudiano sobre a fundação da civilização, em que transmite as marcas que se apresentam na história e no psiquismo do homem civilizado.  Porém, antes de discorrermos sobre o mito freudiano, faz-se importante pontuar a relevância que os mitos têm a ponto de Freud lançar mão de tal método como estrutura de parte extremamente relevante de sua teoria.

De acordo com Souza e Rocha (2009) os mitos têm como objetivo principal fornecer a tradição da cultura, e a vivência humana em relação ao passado. Assim, eles acabam por se mostrar imprescindíveis à preservação daquela, sendo necessário seu estudo em relação às suas influências no modus operandi da sociedade da qual faz parte.

É através de um mito de sua própria lavra que Freud se utiliza para estruturar sua teoria do que vem a ser cultura para ele e o que ela vem a representar para o sujeito.  O uso do mito por ele não se limita apenas a propor mais uma teoria possível de entrada no sujeito na cultura, mas sim, a conceber quais são as bases sociais e psíquicas de toda humanidade, em qualquer cultura. Ao adicionar o termo “científico” a seu mito, nos mostra de imediato a importância que dá para esse recurso teórico.

O MITO E A PARTIR DELE

Para Winograd e Mendes (2012) o mito pode ser definido como narrativa popular e não refletida, um discurso alegórico para disseminar uma doutrina ou para exprimir o futuro fictício de uma coletividade. Dessa forma, segundo Souza e Rocha (2009), os mitos seriam produtos de experiências culturais, porém, sem a participação da consciência humana. “Os mitos contam como o homem se tornou o que é hoje e o que determinou sua organização, suas regras sociais e sua ética.” (WINOGRAD; MENDES, 2012, p. 227) Os mitos não são criados para satisfações curiosas e sim para retratar realidades vivas. Esse paradoxo de criação e explicação da realidade torna o mito importante para Freud, que recorria a metáforas mitológicas para “abordar e explicar as características que ele observava no presente, […] para preencher as lacunas teóricas que surgiam quando ele não via claramente.” (WINOGRAD; MENDES, 2012, p. 227) Com isso, Freud cria um sistema não totalizante e ainda afirmava que todas as ciências eram mitologias científicas, e deixa claro que há uma necessidade de construção teórica para dar conta de questões específicas.

[…], por exemplo, através do conceito de recalque originário (inauguração da clivagem psíquica), do conceito de complexo de Édipo (ponto chave da organização libidinal), do mito original da horda primitiva (nascimento da cultura), da teoria das pulsões (definida por Freud como mitológica), da hipótese filogenética (tempo herdado e pré-individual) etc. (WINOGRAD; MENDES, 2012, p. 226)

O mito científico de Freud acaba por ser o basilar de uma série de conceitos na psicanálise, pois, além de explicar a fundação da civilização pela instituição do tabu do incesto, e por intermédio da ambivalência, apresenta as condições para o surgimento das organizações sociais, morais e a religiosas.  No mito, a cultura e a moralidade se estruturam a partir uma relação de violência, e é através dessa própria violência que a mesma se perpetua.  Sendo assim, vamos a ele.

De acordo com Freud (1913), um pai violento e opressor reservava todas as mulheres de sua tribo para si, e, com isso, seus filhos homens ficavam privados das mesmas ao crescerem. Certa vez, esses irmãos excluídos se juntam e decidem matar e devorar esse pai mais forte que eles, pois individualmente isso seria impossível. Esse pai, até então odiado, mas admirado, ao ser devorado provoca uma identificação nesses filhos com ele, e assim cada um apropria-se de parte de sua força. A refeição totêmica é marcada por amor e ódio. O ódio foi gerado pela impossibilidade dos filhos satisfazerem suas necessidades sexuais e de poder, e o amor surge na identificação após o ato. O arrependimento se institui, surge uma consciência de culpa e com isso o pai morto torna-se mais forte do que antes. Sendo assim, o que antes era proibido pelo pai, após o parricídio torna-se uma norma que mantém a obediência psíquica, tão conhecida pela psicanálise no complexo de Édipo.

Nesse mito científico a respeito da fundação da civilização, enfatiza-se a limitação da satisfação pulsional do indivíduo como inerente à vida na cultura. Essa é uma das normas inegociáveis para qualquer organização social, e tais limitações estão baseadas em alguns interditos básicos. Com isso, o criador da psicanálise direciona seus estudos ditos antropológicos, apresentando o interdito do incesto como renúncia necessária para o estabelecimento da civilização.

A razão primeira que levou Freud a se confrontar com a questão da civilização parece ter sido a da limitação pulsional e da proibição do incesto, cujas consequências pôde observar na neurose, tanto que já no Manuscrito N (1897), contemporâneo ao surgimento do termo “psicanálise”, encontramos a curiosa formulação de que o “incesto é um fato antissocial ao qual a civilização teve que renunciar para poder existir” (KOLTAI, 2010, p. 20)

Faz-se importante registrar que seu mito, dito científico pelo autor, mostra o parricídio como pressuposto à introdução da lei, ou seja, “[…] para Freud o parricídio é, sim, um fato histórico[3], razão pela qual podemos supor que lá onde, originalmente, os filhos de fato mataram o pai, os neuróticos apenas o matam em pensamento.” (KOLTAI, 2010, p. 21) Entendemos que tal fato histórico, defendido por Freud, insere a culpa como fator de ambivalência obrigatória para continuidade da civilização e marca com isso o funcionamento neurótico do homem civilizado. Sendo assim, firma sua posição conceitual sobre a fundação da civilização e com isso nos solicita uma produção de sentido para justificar a passagem do pré para o pós civilizado a partir de certos tabus instituídos.

Tal obra mostra-se de inquestionável valor para psicanálise, e é a partir dela que inúmeros outros conceitos se apóiam para posterior desenvolvimento. Freud a valoriza não só ao qualificar seu mito como científico, mas também ao confessar seu grande interesse por ela, a ponto de concorrer com o livro A interpretação dos sonhos (1900) que é considerado nada menos do que a obra inaugural da psicanálise.

Obra considerada barroca por alguns e constada por muitos outros, Totem e tabu foi uma das que Freud escreveu com mais entusiasmo, como é possível constatar numa carta que enviou a seu discípulo predileto Ferenczi, informando-o de que estava trabalhando em seu “mito científico”, obra que viria a ser seu melhor e mais importante trabalho desde A interpretação dos sonhos (1900), e a hipótese do parricídio seu mais ousado empreendimento. Seu entusiasmo com a obra era tamanho que, numa outra carta a Ferenczi, afirmava ter a impressão de se ver obrigado a casar com uma nova mulher, embora estivesse querendo ter apenas um caso. (KOLTAI, 2010, p. 22)

Entende-se que o mito científico de Freud é estruturado a partir de sua visão do sujeito instituída pela teoria psicanalítica. Não havia objetivo acadêmico em Freud para o desenvolvimento de uma nova antropologia e, mesmo assim, o alto nível de suas pesquisas baseado nos conceitos da psicanálise acabaram por agregar, notadamente, conteúdo relevante para os antropólogos contemporâneos e posteriores à obra. O foco para a elaboração do mito era relacionar os motivos e causas do funcionamento neurótico através de atos fundantes de uma civilização, mas visando destacar o que são os fundamentos de qualquer cultura. A partir disso tem-se explicado a instituição da organização social, da moral, das leis e da culpa.

Com Totem e tabu, Freud teria acrescentado dois novos temas à antropologia de sua época: a lei moral e a culpa.  No lugar da origem, um ato real, o assassinato do pai; e no lugar do horror ao incesto, a interiorização da proibição, ato simbólico por excelência. Foi esse enfoque que lhe permitiu desembocar numa nova definição da universalidade do incesto e da gênese das sociedades humanas. (KOLTAI, 2010, p. 24)

A partir de agora, expor todo o percurso conceitual que explica o ato civilizatório e suas nuances e consequências para o homem neurótico civilizado. Freud (1913) decide ter, como base de sua teoria, a análise de uma tribo bem primitiva, conceituada pelos etnógrafos da época como uma das mais atrasadas e miseráveis: os aborígenes da Austrália. Eles são vistos como um povo particular, não se conhece parentescos físicos ou linguísticos; além disso, seus hábitos eram bem rudimentares: não tinham moradias permanentes, agricultura, animais domésticos, exceto os cachorros, e nem qualquer conhecimento de atividades artesanais como a cerâmica. Alimentavam-se de caça e raízes, não tinham lideranças nem religiosidade, e tudo era decidido por assembléias. Sendo assim, Freud percebe que não existia, entre eles, uma moral sexual comparável à da civilização ocidental; havia, porém, interdição do incesto, quando transpassada era passível de severas penas, e sua organização social aparentava ter uma estrutura a serviço desse cuidado.

Ao se preocupar com essa restrição de satisfação das pulsões sexuais dos aborígenes em relação às civilizações ditas desenvolvidas, Freud volta seu interesse para o totemismo, pois estabelece uma relação direta do totem com a exogamia. O totem vem acompanhado da interdição de que os seus membros tenham relações sexuais entre si. A análise de Freud a respeito dos costumes dos aborígenes, e a relação estabelecida entre essa civilização e a nossa através da interdição do incesto, deixa claro que, apesar do progresso que as diferencia, a interdição é um elemento invariável nas culturas. Nos costumes da vida sexual e moral, nunca estão ausentes imposições que limitam a satisfação pulsional.

Vê-se que, para Freud (1913), o tabu ainda é algo persistente na sociedade atual, com as modificações devidas ao avanço do tempo, porém subsistindo, de forma psicológica, como o “imperativo categórico[4]” de Kant. Já o totem, de outra maneira, veio sofrendo várias modificações e, por fim, foi abandonado ou substituído, deixando parcas influências na religião e nos costumes. O tabu sofreu bem menos transformações que o totem ao longo do progresso civilizatório. Dessa forma, entendemos que o tabu acaba por se tornar o protagonista central do mito, e com isso faz também o papel de “abordar a origem da religião e da moralidade, mas não adota uma perspectiva judaica nem se coloca restrições em favor do judaísmo.” (FREUD, 1913, p.10).

AS RELAÇÕES FAMILIARES

É a partir da inserção do totem que as estruturas familiares são explicadas, pois é a dinâmica ao redor dele que irá orientar essas novas configurações. O totem pode ser definido comumente como um animal comestível, inofensivo ou não, ou, mais raramente, como uma planta ou elemento/força da natureza, e tem sempre uma relação especial com todo clã que o instituiu. Esse totem é, antes de tudo, um ancestral comum ao clã, serve, ao mesmo tempo, como um espírito protetor e divinatório. O clã, em retribuição, não mata ou come seu totem, o que é passível de punição severa. Entretanto, em festividades com diversas homenagens ao clã, esse animal é comido em um banquete totêmico. O totem é transmitido hereditariamente por linhagem paterna ou materna.

O totem remete diretamente a significantes de proteção e acolhimento ao clã, mas o importante é que “em quase toda parte em que vigora o totem […] não se pode casar ou ter relações sexuais entre membros do mesmo totem. É a instituição da exogamia, ligada ao totem.” (FREUD, 1913, p. 12) Freud afirma, ainda, em relação à articulação entre totem e exogamia, que o totem “torna impossível, para um homem, a união sexual com todas as mulheres de seu próprio clã, ou seja, com bom número de mulheres que não são suas parentas de sangue.” (FREUD, 1913, p. 14) A relação biológica não é necessária para o tabu do incesto, pois todos que partilham o totem são uma família e por isso esses graus de parentesco acabam por se tornar um obstáculo para a união sexual. Sendo assim, Freud chega à conclusão de que a “forma como se veio a substituir a família verdadeira pelo clã totêmico permanece um enigma, cuja solução talvez coincida com a explicação do totem mesmo.” (FREUD, 1913, p. 15) Nota-se, dessa maneira, que toda essa dinâmica relacionada à exogamia totêmica que proíbe os vínculos sexuais para com os do mesmo clã, acaba sendo o cenário adequado para evitar o que Freud vem a chamar de “incesto de grupo”.

Freud (1913) aproveita-se dos conceitos elaborados em relação ao seu mito científico para estabelecer uma analogia que, no sistema psíquico do neurótico, nomina de traço infantil.   Para o autor, a primeira escolha sexual é incestuosa, sendo assim, “o neurótico representa para nós um quê de infantilismo psíquico, ele não conseguiu libertar-se das condições psicossexuais infantis ou reverteu a elas (inibição no desenvolvimento e regressão).” (FREUD, 1913, p. 25) Sabe-se que como condição para a cultura, é necessário renunciar ao incesto para que haja a formação de um corpo social, porém, o neurótico acaba por se fixar inconscientemente a questões infantis incestuosas e isso impõe um direcionamento determinante de seu sintoma. Desta maneira, a origem de uma neurose se dá pela tendência de evitar uma realidade que não é satisfatória para um sujeito, e deslocando-se para um cenário idealizado, fantasístico, o sujeito acaba por tentar fugir do mundo real.

Os resquícios do ato fundante da civilização deixam ao homem civilizado, como a única saída em relação aos seus desejos, a de serem satisfeitos apenas pela via da fantasia e do recalque. Sendo assim, há a necessidade de existir um “sistema de repressão coletivo, que é o que explica o fato de as sociedades primitivas, […] terem […] tão severas proibições com o intuito de reprimir, organizar e canalizar a sexualidade […].” (KOLTAI, 2010, p. 30-31) Entende-se então que tais proibições acarretaram os grupos, após devida aceitação, uma espécie de neurose coletiva como substituto do meio pré-civilizatório.

Percebe-se que as proibições sociais continuam após o ato fundador da civilização, o parricídio. Este mesmo crime, em vez de facilitar o acesso ao poder que era do pai, acaba por proibi-lo, e o pai morto acaba por se mostrar com mais poder que antes. Em vez de liberar o acesso ao gozo, o assassinato do pai estabelece um sistema de leis, das quais a proibição do incesto se coloca como a primeira delas. Por fim, é justamente o crime que transforma o antes chefe da horda em Pai da horda. Sendo assim, deduz-se que o pai mítico só existe enquanto morto e que dessa forma, idealizado, ele consegue garantir os laços sociais através de afetos como amor, terror, culpa e reverência.

Faz-se importante pontuar que as proibições sociais que perduram após o discorrido em Totem e tabu (1913) já eram evidenciadas por Freud no texto de 1908, A moral sexual cultural e nervosismo moderno (1908), que constitui uma crítica da cultura que tem sua origem nas descobertas relativas à clínica da histeria. Nesse trabalho, que acreditamos ser de extrema importância nos atentarmos a partir de agora com mais detalhes, Freud vem pontuar os malefícios provenientes do discurso repressivo da sexualidade e o comando do corpo pela moral social estabelecida na sociedade da época, sua ênfase era original, acreditava que o adoecimento social era, na verdade, principalmente proveniente da cultura sexual repressiva dos indivíduos. Apesar de criticar a forte repressão sexual da Viena do século XIX, especialmente em relação às mulheres, como responsável pela incidência das histerias, da obra freudiana não se permitiria concluir que a redução da moral sexual resultaria em uma sociedade feliz, muito pelo contrário. Em o Mal-estar na cultura (1930), a solução desse dilema se mostra impossível.

Faz-se necessário, segundo Freud, para que uma sociedade se estabeleça, que o sujeito recalque suas pulsões mais brutais. Sendo assim, essa energia perdida e recusada pelo sujeito deve ser em parte direcionada para a constituição cultural e civilizatória da sociedade à qual pertence. Esse movimento psíquico foi evoluindo ao longo do tempo e estruturando tudo que conhecemos hoje no que tange à cultura. Os redirecionamentos da parte pulsional sob a forma de sublimação levou o sujeito a elaborações das mais diversas, inclusive a religião.

Em termos bem gerais, nossa civilização está baseada na repressão dos instintos. Cada indivíduo renunciou a um quê do que possuía, à plenitude de seu poder, às tendências agressivas e vingadoras de sua personalidade; dessas contribuições originou-se o patrimônio cultural comum de bens materiais e ideais. Além das necessidades da vida, foram provavelmente os sentimentos ligados à família, derivados do erotismo, que levaram os indivíduos a essa renúncia. Ela foi progressiva no curso da evolução cultural, seus avanços graduais foram sancionados pela religião; a parcela de satisfação instintual a que cada um renunciara foi oferecida à divindade como sacrifício; o bem comum assim adquirido foi declarado “sagrado”. Aquele que, devido à sua constituição inflexível, não pode acompanhar essa repressão de instintos, torna-se um “criminoso.” (FREUD, 1908, p. 256-257)

A vida na cultura exige a renúncia pulsional, desde que se estabelece o recalque originário. Tal manobra psíquica nunca é completamente bem sucedida, pois mesmo que parte dessa força pulsional possa servir à sublimação, o preço pago pelo sujeito é um dispêndio energético muito grande, ocasionando eventualmente seu afastamento relativo dessa cultura que de uma forma direta e ou indireta estava ajudando a construir. Freud atribui ao neurótico um excesso de recalque, diferenciando a neurose, com isso, da maneira como as outras estruturas psíquicas lidam com a repressão social, como quando afirma que a neurose é o negativo das perversões.

Os neuróticos são aquele tipo de pessoas que, devido a uma organização recalcitrante, conseguem, sob o influxo das exigências culturais, uma repressão dos instintos apenas aparente e cada vez menos bem sucedida, e que, por isso, mantêm sua colaboração nas obras da cultura somente com enorme dispêndio de forças, com empobrecimento interior, ou às vezes têm de suspendê-la por estarem doentes. Descrevi as neuroses como o “negativo” das perversões, porque nelas os impulsos perversos se manifestam, após a repressão, a partir do inconsciente da psique, porque contêm, em estado “reprimido” as mesmas tendências que as perversões positivas. (FREUD, 1908, p. 260)

Ainda sobre a questão sexual, Freud deixa claro que a tentativa de direcionar os esforços para qualquer tentativa de abstinência sexual não irá livrar o homem dos resultados nocivos das repressões exigidas pela vida em sociedade. O excesso de recalque sexual que caracteriza a neurose, não garante a falta de conflitos. É a possibilidade de colocar a libido a serviço da criação na cultura que, diferentemente da neurose, não envolve introversão da libido para a vida imaginária

De modo geral, não tenho a impressão de que a abstinência sexual contribua para formar homens de ação enérgicos e independentes, ou originais homens de pensamento, ousados reformadores e libertadores; com bem maior frequência, parece-me que forma indivíduos fracos e bem-comportados, que depois se tornam parte da multidão que costuma seguir, relutantemente, os impulsos dados por homens fortes. (FREUD, 1908, p. 264-265)

Percebe-se então que, mesmo antes de Freud escrever seu mito científico, o mesmo já havia elaborado alguma teoria a respeito dos ditos culturais. Dito de outra forma, Freud já havia percebido quais eram as relações necessárias para a manutenção cultural e com isso só faltava explicar como esta surgiu, o que foi feito em Totem e tabu.

A OBEDIÊNCIA AO TABU E A NEUROSE HERDADA

Freud se utiliza do tabu como balizador teórico para justificativa da fundação civilizatória, mas também generalizando sua descoberta do complexo de Édipo. Nesse movimento, articula o que apreendeu de sintomas neuróticos com aspectos da cultura. O tabu encontra uma analogia interessante com sintomas da neurose obsessiva. Ele se exprime em proibições e restrições semelhantes à do sintoma obsessivo, das quais o sujeito não consegue entender as razões, mas não pode desobedecer sob risco de ser tomado pela angústia.

As proibições do tabu prescindem de qualquer fundamentação; têm origem desconhecida; para nós obscuras, que parecem evidentes para aqueles sob o seu domínio. Wundt afirma que o tabu é o mais antigo código de leis não escritas da humanidade. Considera-se geralmente que o tabu é mais antigo que os deuses e remonta a épocas anteriores a qualquer religião. (FREUD, 1913, p. 27)

No caso do tabu na cultura, o castigo para a violação era originalmente deixado para uma instância interior, de efeito automático. “O tabu ferido vinga a si mesmo.” (FREUD, 1913, p. 28) Posteriormente, com o desenvolvimento das ideologias religiosas, o tabu fica vinculado ao “poder divino” e tal mecanismo se fortalece. Com a evolução da civilização e do conceito de tabu, Freud atribui à própria sociedade o exercício da punição.

Nota-se que o sistema de funcionamento da punição em relação à transgressão do tabu, é totalmente amplo. Alguns são dotados de sentido com suas abstinências e renúncias, outros se apresentam sem significado. Além disso, “o mais singular é que quem chega a violar uma proibição dessas adquire, ele mesmo, a característica do que é proibido, como que assumindo toda a perigosa carga.” (FREUD, 1913, p. 30) Entendemos por essa afirmativa que o tabu é dotado de tal poder, que se impõe ao sujeito de forma invasiva e violenta, pois, o tabu “conforme seu sentido literal é algo simultaneamente sagrado, acima do habitual, e perigoso, impuro, inquietante.” (FREUD, 1913, p. 30)

Freud nota que a interdição principal dos tabus é o toque, assim como na neurose é o contato, ou seja, tudo que faz dirigir o pensamento à coisa proibida, ao contato com ela, se mostra da ordem do impossível, tanto na neurose como nas interdições do tabu.

As proibições obsessivas trazem consigo formidáveis renúncias e limitações da vida, tal como as proibições do tabu, mas uma parte delas pode ser cancelada mediante a execução de determinadas ações, que então têm de ocorrer, que possuem caráter obsessivo — atos obsessivos —, e de cuja natureza como penitência, expiação, medida defensiva e limpeza não pode haver dúvida. A mais comum destas ações obsessivas é a lavagem com água (mania de lavagem). (FREUD, 1913, p. 36)

A evolução social desde a implementação do tabu até o contemporâneo, não foi suficiente para eliminá-lo totalmente e ainda serviu como pano de fundo para o direcionamento do agir neurótico, pois, segundo Freud (1913) apesar dos tabus aparentarem ser proibições muito antigas, impostas por gerações primitivas, as mesmas terminaram por se fixar como patrimônio psíquico herdado e com ele o surgimento do desejo, chamado por Freud de original, de fazer o que se institui de proibido. Essa ambivalência tem persistência inconsciente, ou seja, a fixação do tabu enquanto algo que se herda, psiquicamente, também fixa a necessidade de transgredi-lo, além, óbvio, dos conflitos que esse desejo provoca, tal como na neurose. “As mais antigas e importantes proibições do tabu são as duas leis fundamentais do totemismo: não liquidar o animal totêmico e evitar relações sexuais com os indivíduos do mesmo totem que são do sexo oposto.” (FREUD, 1913, p. 39).

Tem-se nessas duas proibições fundamentais do tabu, o que Freud (1913) considerava o ponto nodal e nuclear da neurose, ou seja, o conflito do sujeito existe tanto em sua relação com o totem como com o incesto.  Obedecer ao tabu, dessa maneira, envolve sempre a renúncia a algo que o sujeito deseja. Freud defendeu, em sua discussão com os antropólogos, que só precisa ser proibido aquilo que é desejado.

O tabu é uma proibição antiquíssima, imposta do exterior (por uma autoridade) e voltada contra os mais fortes desejos do ser humano. A vontade de transgredi-lo continua a existir no inconsciente; aqueles que obedecem ao tabu têm uma postura ambivalente quanto ao alvo do tabu […] Expiar a violação do tabu com uma renúncia mostra que na base da obediência ao tabu se acha uma renúncia. (FREUD, 1913, p. 42)

Freud atribui ao homem primitivo uma maior ambivalência do que ao homem civilizado, pois este, ao decair o tabu, abre um sintoma que é uma formação de compromisso entre o desejo e a proibição exigida pela cultura. “Também nisso as prescrições dos tabus, como os sintomas neuróticos, têm duplo significado. […] Aprendemos a ver uma parte das prescrições dos tabus como medo da tentação.” (FREUD, 1913, p. 68)

O conceito de consciência é descrito por Freud (1913) como a percepção da rejeição aos nossos desejos, e observa que o tabu é também um mandamento de consciência, pois sua violação faz emergir um grande sentimento de culpa. A consciência é marcada pela ambivalência, tanto no tabu como na neurose obsessiva, pois, na ambivalência de sentimentos, um destes se torna inconsciente e o outro acaba por se tornar obsessivamente dominante.

Apesar da analogia proposta, é importante pontuar que “o tabu não é uma neurose, e sim uma instituição social.” (FREUD, 1913, p. 76) Conclui-se assim, que o tabu marca a neurose enquanto patrimônio psíquico herdado, e que o neurótico continua esse trabalho pelo viés da ambivalência operacionalizada pelo psiquismo através do recalque e da fantasia. O tabu enquanto força social tem efeito na neurose, que por sua vez opera no âmbito individual.

CONCLUSÃO

Para concluir, o totem, que passamos a examinar, era especialmente constituído por animais considerados como ancestrais de cada clã. Sendo transmitido apenas pela linhagem materna, era proibido matá-lo e comê-lo. O animal totêmico é o sucedâneo do pai morto.  Dito isso, a ambivalência em relação ao assassinato transparece nesse respeito ao totem, assim como na comemoração a todo assassinato e sua repetição no banquete totêmico. De acordo com Freud (1913) essa ambivalência prossegue na vida adulta.

Mesmo se unindo para vencer o pai, os filhos eram rivais uns dos outros em suas metas de satisfação sexual. Com isso, o novo modelo de sociedade dos irmãos poderia se autodestruir, se a luta pelo antigo lugar do pai se mantivesse. Dessa forma a proibição do incesto foi uma renúncia sem alternativa. Tal renúncia leva ao totemismo, ou seja, o totem se torna o sucedâneo do pai. Essa dinâmica totêmica, para Freud, deixou características determinantes para a criação do modus operandi das religiões.  As mesmas surgem a partir do sentimento de culpa em relação ao pai e sua obediência a posteriori. A ambivalência permanece nas religiões: a religião institui a culpa e o arrependimento constantes pelo crime cometido.

Vê-se que o parricídio, de acordo com Freud (1913) ao elevar o pai à condição de Deus, torna-se uma possibilidade muito mais séria do que a adquirida com o contrato totêmico. Koltai (2010) considera a religião como onipresente no pensamento freudiano apesar do decidido ateísmo do autor. Isso se deve à importância que a religião tem na estruturação cultural e na clínica do sujeito. A religião é situada, por Freud, como algo do paterno e da origem da kultur, fundamento da sociedade.

A culpa é o principal sentimento gerado pelos dos tabus do totemismo, pois os assassinos se tornam filhos no momento em que transformam o chefe da horda assassinado em pai através do sentimento de culpa. Os tabus da sociedade primitiva correspondem aos mesmos desejos que a psicanálise descobriu como recalcados no complexo de Édipo.  Essa civilização criada no ódio passa a ser mantida pelo amor do pai morto e com isso se cria o primeiro ideal de eu, que nada mais é que o originado de uma figura odiada que assim se manterá no inconsciente pelos traços do supereu.

Percebe-se dessa forma, que a figura do pai na psicanálise tem, na metapsicologia freudiana, uma força extremamente relevante, elevando seu legado simbólico como imprescindível à estruturação individual e social. De acordo com Sennat et al. (2010) Sem o vínculo com o pai e a lei não seria possível qualquer transmissão. O pai morto vem ocupar um lugar de referência levando os demais sujeitos a uma identificação com ele de efeitos  permanentes no Eu.  A narrativa mítica é utilizada várias vezes na obra de Freud apontando esse pai como necessário para a transmissão das funções mais importantes na cultura.

A civilização irá criar Deus a partir dos mandamentos e proibições instituídos pelos seus próprios tabus. Esse Deus se encarregará de conservar as verdades históricas já criadas ao longo da fundação da civilização e com isso manterá articuladas as duas figuras do pai: o pai primordial odiado e o pai morto amado. Isso mostra a figura análoga do Deus amoroso e vingador.

O acontecimento do assassinato do pai da horda é o marco zero de passagem do estado pré civilizatório para o civilizatório, mesmo sendo um fato inacessível à nossa realidade documental ou perceptiva. Vê-se que Freud, não só precisava desse mito para balizar suas teorias, como também não estava preocupado com a transcrição da realidade, pois seu objetivo era conceituar a relação do pai com a lei. Com isso, Freud coloca o Urvater, esse pai do gozo pleno, no lugar do recalque originário e assim, além das interdições universais instituídas, nasce também à figura do Deus das religiões monoteístas.

Afirma-se que o pai do patriarcado, responsável pela transmissão da renúncia pulsional, está atualmente com sua legitimidade não assegurada, mas isso não tem correspondência direta ao trabalho de Freud, pois o mesmo não estava interessado no substituto sociológico do pai ou do complexo de Édipo e que as sociedades são fruto da articulação mítica do pai da horda e seu filhos, pois no princípio foi o ato.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de filosofia. 6.ed. RJ: WMR MARTINS FONTES, 2012.

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[2]RUDGE, Ana; FUKS, Betty. 100 anos de novidade: A moral sexual “cultural” e o nervosismo moderno, de Sigmund Freud [1908-2008]. 1.ed. RJ: CONTRA CAPA, 2011. p.79

[3] A expressão “fato histórico” aqui citado pela autora tem segundo nossa leitura, uma conotação inconsciente, pois a mesma afirma que após o recalque a cena do parricídio continua “viva” nos sujeitos e nas massas.

[4] Termo criado por Kant, talvez por analogia com o termo bíblico “mandamento”, para indicar a fórmula que expressa uma norma da razão […] Para o homem, norma da razão é uma ordem, pois a vontade humana não é a faculdade de escolher apenas o que a razão reconhece como praticamente necessário, ou seja, como bom. Se assim fosse, a norma da razão não teria caráter coativo e não seria uma ordem […] como o homem pode escolher também segundo a inclinação sensível, a lei da razão assume para ele a forma de ordem. (ABBAGNANO, 2007, pag.545)

[1]Psicanalista e Filósofo. Doutorando em Psicologia Clínica pela PUC/RJ. Mestre em Psicanálise, cultura e sociedade – UVA/RJ.

Enviado: Setembro de 2020

Aprovado: Janeiro de 2021

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