Resistência à Biodeterioração das Madeiras de Rápido Crescimento Tratadas com Tall Oil e Derivados

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Resistência à Biodeterioração das Madeiras de Rápido Crescimento Tratadas com Tall Oil e Derivados
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DIAS, Kelly Bossardi [1]

BARREIROS, Ricardo Marques [2]

DIAS, Kelly Bossardi; BARREIROS, Ricardo Marques. Resistência à Biodeterioração das Madeiras de Rápido Crescimento Tratadas com Tall Oil e Derivados. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 08. Ano 02, Vol. 02. pp 22-36, Novembro de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

O aumento da preocupação com as questões ambientais, com a saúde dos operadores de processos de tratamento preservativo e dos consumidores da madeira, e ainda com o reaproveitamento destas madeiras tratadas após seu uso, tem gerado a necessidade de desenvolvimento de tratamentos preservativos menos agressivos à saúde e ao meio ambiente. O objetivo deste estudo foi testar a potencialidade do Tall Oil em três condições na preservação de duas espécies de madeiras de reflorestamento: Pinus elliottii e Eucalyptus grandis. As alternativas de Tall Oil testadas foram o Crude Tall Oil (CTO), que é um subproduto do processamento de polpa de coníferas resinosas para produção do papel Kraft, e dois subprodutos do refino do CTO, o Ligth Oil (LO) e o Óleo Ejetor (OE). Os resultados obtidos mostraram que as condições de Tall Oil apresentam potencialidade para proteger a madeira contra ataque do fungo de podridão branca. Os melhores resultados foram obtidos com os tratamentos com OE, que resultou em amostras com hidrofobicidade de 55% para as duas madeiras, e perda de massa de 39,07% para o eucalipto e de 39,18% para o pinus, após ensaio de exposição ao fungo apodrecedor.

Palavras-Chave: Preservativo para Madeira, Tall Oil, Biodeterioração.

INTRODUÇÃO

Por razões ambientais, tanto a preservação de madeira tradicional e o uso de espécies de madeira resistentes são sujeitos a restrições políticas e de consumo. Sabe-se que a eficácia dos sistemas tradicionais de preservação da madeira é devido ao efeito biocida dos produtos utilizados, porém, consequentemente, poluem o meio ambiente.  Além dos riscos envolvidos no uso de tais materiais, há uma preocupação crescente com os problemas decorrentes do escoamento da madeira no final da sua vida comercial (KOSKI, 2008). Assim, há uma crescente necessidade de desenvolver produtos químicos antifúngicos eficazes, não tóxicos para os seres humanos e para o meio ambiente.

A procura por alternativas aos preservativos atuais tem sido eficiente, porém não eficaz, ou seja, ainda não foi encontrada uma alternativa viável para os produtos já existentes. Com base em diversos estudos, a procura por um preservante para madeira pode ser dividida:

  • Extrativos de plantas com resistência natural à biodeterioração: óleos essenciais de plantas aromáticas (SBEGHEN, 2001; CELOTO et al., 2008), os extrativos de plantas venenosas (GOKTAS et al., 2008), os óleos extraídos de sementes e grãos (GONZAGA, 2006; MACHADO et al., 2006; PAES et al., 2010; RAHHAL et al., 2007; RODRIGUES et al., 2009) e ainda os extrativos da própria madeira como o tanino (HASHIM et al., 2009; JAIN et al., 2011; TASCIOGLU et al., 2013; BROCCO et al., 2017), e as resinas (BULTMAN et al. (1991), BULTMAN et al. (1993) e NAKAYAMA et al. (2001).
  • Subprodutos de processos: Quitosana – Subproduto das indústrias de processamento de crustáceos como camarão, caranguejo e lagosta (MAOZ; MORREL, 2004; EIKENES et al., 2005; TORR et al., 2006; SINGH et al., 2008; TREU et al., 2009; SATTOLO et al., 2010; GORGIJ et al., 2014), Okara – lixo orgânico produzido a partir da fabricação do leito de soja e do tofu (AHN et al., 2008 e AHN et al,. 2010)  , Crude Tall Oil (CTO) e seus derivados – Subproduto da polpação Kraft (JEMER et al., 1993; PAAJANEN e RITSCHKOFF, 2002; ALFREDSEN et al., 2004 ; VÄHÄOJA et al., 2005 ;  HYVÖNEN et al., 2006; TEMIZ et al., 2008; KOSKI, 2008;  ANITA et al., 2014; DURMAZ et al., 2015 e SIVRIKAYA e CAN, 2016).

A obtenção dos extrativos de plantas com resistência natural à biodeterioração agrega custo ao produto, pois tem a necessidade de áreas de reflorestamento e um processo de extração e beneficiamento.

Com foco na relação Custo x Benefício x Meio Ambiente, foi estabelecida a alternativa mais viável para desenvolver um preservativo que contemple grande parte das propriedades desejáveis, e que seja eficaz na proteção das madeiras de Pinus e Eucalyptus. E entre as alternativas de subprodutos de processos o Tall Oil foi escolhido para esta investigação, pois estamos localizados em uma região de Indústrias de papel e celulose kraft.  Além disso, na avaliação das propriedades de vários óleos, resinas e ceras, nenhum componente único pode satisfazer todas as exigências quanto à proteção à bioterioração e os revestimentos de superfície ou impregnantes utilizados para o tratamento da madeira deve, portanto, ser feita a partir de uma mistura de óleos, resinas e ceras. Conforme Temiz et al. (2008) e Koski et al. (2008), ao contrário de outros óleos naturais, o Tall Oil já contém todos os componentes necessários para uma boa proteção: óleos, resinas e ceras.

O uso de Tall Oil como agente de proteção na madeira tem sido considerado promissor por reduzir significativamente a absorção de água capilar do alburno, removendo um dos fatores que favorecem a madeira ser atacada por fungos e insetos: água, oxigênio e nutrientes (HYVÖNEN et al., 2006). Esta repelência se deve aos seus precursores, que são extratos encontrados, principalmente, em árvores coníferas (KOSKI, 2008; TEMIZ et al., 2008).

Investigações feitas com Tall Oil indicam o seu potencial como agente protetor da madeira. Jermer et al. (1993), Paajanen e Ritschkoff (2002), Alfredsen et al. (2004), Vähäoja et al., 2005, Hyvönen et al. (2006), Temiz et al. (2008), Koski (2008),  Anita et al. (2014),  Durmaz et al. (2015) e e Sivrikaya e Can (2016)  focaram seus estudos em desenvolver alternativas aos preservantes atuais utilizando o Tall Oil. Em geral, indicam que o efeito preventivo do Tall Oil está provavelmente relacionado com as propriedades hidrofóbicas.

Jermer et al. (1993) testaram o efeito de derivados de Tall Oil contra a degradação biológica, e os comparou com conservantes em uso corrente, como o CCA e o creosoto. Obtiveram resultados mostrando que os dois derivados de Tall Oil pode ser quase tão eficaz como CCA e creosoto.

Paajanen e Ritschkoff (2002) mostraram que o Tall Oil em bruto aplicado em amostras de verniz não produziram zona de inibição sobre o meio de crescimento, assim, o efeito inibidor do Tall Oil não é causado por toxicidade aos fungos. O mais provável é que o efeito preventivo está relacionado à hidrofobicidade. Com base na eficácia dos produtos de Tall Oil, ser devido principalmente a hidrofobicidade, a idéia é que reduzindo o teor de umidade da madeira, o crescimento de fungos é limitado.

Alfredsen et al. (2004) testaram a eficácia de quatro derivados de Tall Oil em ensaios de taxas de crescimento dos fungos de podridão parda Coriolus versicolor e de podridão parda Poria placenta em papel filtro e em mini-blocos de madeira de Pinus sylvestris L. Esperava-se que a eficácia do Tall Oil testado estivesse relacionada com a composição química dos óleos. Isto foi confirmado no ensaio de papel de filtro, onde o aumento da eficácia foi relativamente proporcional com as quantidades crescentes de ácidos resínicos. No entanto, esse padrão não foi encontrado para o ensaio de mini-bloco. O efeito protetor do Tall Oil em madeira, portanto, parece estar mais relacionado às suas propriedades hidrofóbicas do que às suas propriedades fungicidas.

Hyvönen et al. (2006) e Koski (2008) investigaram a eficiência, em repelir água, do Tall Oil em bruto e emulsionado em água. Tratamentos com Tall Oil reduz a absorção de água do alburno de pinho. E, os tratamentos do tall oil em emulsão mostraram que a eficiência, em comparação com o CTO, pode ser alcançada. A técnica de emulsão é um método potencial de diminuir a quantidade de óleo necessária para proteger a madeira de absorção de água por capilaridade.

Temiz et al. (2008) verificaram o potencial de quatro produtos derivados do Tall Oil disponíveis comercialmente, testados separadamente e combinados, com duas concentrações de ácido bórico (1 e 2%) frente à resistência ao ataque de dois fungos de podridão parda. Os resultados obtidos mostraram que os derivados de Tall Oil em combinação com ácido bórico são promissores como preservantes de madeira, uma vez que combinam efeitos fungicidas e repelência a água. Os testes de resistência à degradação indicaram que apenas a impregnação com Tall Oil, sem a presença do ácido bórico, não foi eficaz para proteger a madeira contra os fungos testados. As amostras com ácido bórico numa concentração de 2%, combinados com o derivado de Tall Oil que consiste de 90% de ácidos mostrou o melhor desempenho em relação a dois fungos de podridão parda, com uma perda de massa inferior a 3%.

Vähäoja et al. (2005) focaram seus estudos na determinação da biodegradação de diferentes produtos de Tall Oil e do óleo de linhaça em águas subterrâneas obtendo informações preliminares sobre seus efeitos ambientais. Obtiveram resultados promissores, mostrando que os produtos de Tall Oil e do óleo de linhaça são moderadamente biodegradáveis, não tóxicos ao meio ambiente avaliado.

Anita et al. (2014) verificaram que a resistência a Biodeterioração da maderira Jabon (Anthocephalus cadamba Miq.), melhorou ao ataque de fungos de podridão branca e parda em relação a amostra de madeira não tratada. Já, Durmaz et al. (2015) constataram o aumenta a durabilidade do alburno do pinheiro da Escócia. Ambos os estudos utilizaram o Tall Oil Crude (CTO) como agente protetor a biodeterioração.

Sivrikaya e Can (2016) constataram que a madeira tratada com tall oil pode proporcionar alguma redução na absorção de água e aumentar a resistência à decomposição. Nesta pesquisa, o CTO foi dissolvido em etanol a concentrações de 5, 10 e 15% no tratamento de pinho escocês. Utilizaram corantes, óxido de ferro e ascorbato de sódio como aditivos em 0,5%. Os melhores resultados foram obtidos  com 10% de CTO e óxido de ferro.

Existem várias outras maneiras de abordar a preservação da madeira sem a utilização de toxicidade como o mecanismo de eficácia. Há uma relação muito estreita entre o teor de umidade da madeira e sua biodeterioração (ROWELL, 2006). Então, para evitar o ataque destes organismos, algumas pesquisas têm objetivado limitar a água com o uso de produtos hidrofóbicos.

Nesse contexto, o Tall Oil, que é um óleo natural de fonte renovável e apresenta propriedades hidrofóbicas pode ser uma alternativa. O Tall Oil é um subproduto gerado industrialmente da produção da celulose kraft. A quantidade destes componentes varia com a idade, espécie de madeira, localização geográfica, e também com todas as operações antes e durante o processo de polpação (KOSKI, 2008).

O Crude Tall Oil (CTO) bruto pode ser refinado para vários tipos de Tall Oil com diferentes composições químicas, sendo os principais produtos comerciais do CTO, os ácidos graxos de Tall Oil (TOFA), Destilados de Tall Oil (DOT) e o Breu de Tall Oil (TOR). Além dos produtos comerciais já citados, são subprodutos do fracionamento o Óleo Ejetor (OE) e o Light Oil (LO) que não possuem aplicação comercial.

O objetivo deste estudo foi testar a potencialidade de três condições de Tall Oil, em duas espécies de madeiras: Pinus elliottii e Eucalyptus grandis. As alternativas de Tall Oil testadas foram o Crude Tall Oil (CTO), o Ligth Oil (LO) e o Óleo Ejetor (OE).  E, verificar se o principal mecanismo de inibição à ação dos organismos de biodegradação do CTO e seus derivados é a hidrofobicidade, conforme relata KOSKI (2008)

MATERIAL E MÉTODOS

Duas espécies de madeira de rápido crescimento foram amostradas neste estudo: Pinus elliotti e Eucalyptus grandi com 18 e 8 anos de idade, repectivamente. Para o Pinus as amostras foram retiradas das costaneiras da madeira adulta. E para o Eucalyptus, as amostras foram retiradas do alburno. Todos os corpos de prova foram submetidos ao processo de secagem em estufa a 40 + 2°C até umidade de 12%. Após acondicionados em estufa a 25+3°C. Foram utilizados para os ensaios corpos de prova de 2,5 x 2,5 x 5,0 cm.

O efeito de três amostras de Tall Oil com composição química variável, foram testados separadamente e em combinação com o ácido bórico (AB) em duas classes de madeiras – Pinus elliotti e Eucalyptus grandis. As amostras de Tall Oil foram preparadas por dissolução de cada um deles em isopropanol.

As amostras utilizadas para este estudo são o crude tall oil (CTO), o óleo ejetor (OE) e o light oil (LO).  A análise cromatográfica foi realizada com o objetivo de qualificar e quantificar ácidos resínicos e graxos nas amostras. A caracterização das amostras de CTO, LO e OE foi realizada pela indústria fornecedora dos produtos. O equipamento utilizado para caracterização foi um cromatógrafo a gás acoplado a um espectrômetro de massa (CG-EM), cromatógrafo de massa HP 5890 série II, equipado com uma coluna capilar Ultra HP-5 (30 m, 0,25 mm de diâmetro interno). Foi utilizado um detector de massa HP 5970.

As amostras de Tall Oil foram preparadas por dissolução de cada um deles em isopropanol. A concentração da solução era de 25% (p/v), que é a razão entre o peso da amostra e o volume de solvente. E, as soluções de ácido bórico (AB) foram preparadas em solução 2% (p/v). Os sistemas preservativos testados estão descritos na Tabela 1. Os sistemas de tratamentos preservativos em estudo foram aplicados nos corpos de prova, a temperatura ambiente, conforme descritos na Tabela 2. Os sistemas preservativos foram aplicados nos corpos de prova conforme instruções adaptadas da ASTM D1413 (2007).

Tabela 1 – Composição dos sistemas preservativos

Sistema Preservativo Composição
CTO 25% (m/v) em isopropanol
LO 25% (m/v) em isopropanol
OE 25% (m/v) em isopropanol

 

Tabela 2 –  Etapas dos processos de aplicação.

Sistemas preservativos Etapa Processo aplicação dos sistemas nos Corpos de Prova
CTO
LO
OE
1 Vácuo inicial de 600 mmHg por 30 minutos .
2 Aplicação do produto (CTO, LO ou OE) sob vácuo.
3 Vácuo de 600 mmHg por 30 minutos com o produto aplicado.
4 Amostras retiradas e secas ao ar.

Para avaliar a hidrofobicidade dos sistemas aplicados foram realizados medidas do ângulo de contato – Goniometria. É uma medida macroscópica que permite a determinação da energia de superfície de um determinado material. O ângulo de contato é uma medida quantitativa da molhabilidade de um sólido por um líquido. Quanto maior o ângulo de contato, menor a molhabilidade, ou seja, maior a hidrofobicidade do substrato (BURKARTER, 2010). As superfícies podem classificar-se de acordo com seu ângulo de contato, como ilustra a Tabela 3 (adaptado BURKARTER, 2010).

Tabela 3 – Classificação de superfícies de acordo com o ângulo de contato.

Valor do ângulo de contato Tipo de Superfície
@ 0 Superhidrófila
< 30 Hidrófila
30-90 Intermediária
90-140 Hidrófoba
>140 Superhidrófoba

 

Por se tratar de um material anisotrópico, a madeira apresenta propriedades distintas nos três planos (transversal, radial e tangencial). As medidas do ângulo de contato foram realizadas nestas três direções para as duas amostras de madeiras analisadas. Amostras de pinus e eucalipto tratadas e não tratadas foram submetidas a este ensaio. A amostra foi colocada no Goniômetro, uma gota de água deionizada foi então colocada sobre a amostra e foi medido o ângulo de contato entre a gota e a superfície da amostra tratada.  A análise foi realizada nas condições de temperatura e umidade ambiente, respectivamente, 25 + 2°C 60%.

Os corpos de prova também foram submetidos a ensaios de apodrecimento – simulador de campo em laboratório com fungos apodrecedores de podridão branca, Trametes versicolor (L.; Fr.) Pilát. Os fungos de podridão branca são considerados como importantes fungos de apodrecimento de madeira comercial, pois podem causar sérios danos dentro de um curto período de tempo (TEMIZ et al., 2008).

Os inóculos do fungo de podridão branca foram previamente preparados em meio líquido (mal­te e água destilada) e posteriormente deposita­dos no solo. As amostras foram dispostas em recipientes com o solo contaminado com o fungo apodrecedor de podridão branca. O solo utilizado para este ensaio foi coletado no Câmpus da UNESP de Itapeva, e o fungo foi inoculado no solo sem prévia esterilização. Três repetições para cada tratamento e para cada espécie de madeira foram utilizadas; e amostras de madeira não tratada, foram incluídas para medir a viabilidade da estirpe de fungo. Desse modo, os tratamentos foram estabelecidos na combinação das duas espécies de madeira e os três sistemas preservativos. Antes de serem submetidos ao ensaio de apodrecimento acelerado, os corpos de prova foram secos em estufa a 40 + 2°C até umidade de 12%. Para verificar se a umidade atingiu o valor desejado de 12%, a cada 24 horas foram realizadas medidas de umidade com medidor portátil da Instrutherm modelo UM-626.

O tempo de incubação em câmara climatizada foi de 12 semanas a 27 + 2°C e 75% de umidade relativa. Após o período de incubação, o micélio do fungo foi removido das amostras, e os corpos de prova foram secos em estufa a 40 + 2°C até umidade de 12%. Para verificar se a umidade atingiu o valor desejado de 12%, a cada 24 horas foram realizadas medidas de umidade com medidor portátil da Instrutherm modelo UM-626. A perda de massa de cada amostra, causada por fungos foi calculada pela Equação (1):

Perda de massa (%) = ((mo – mf) / mo) x 100

Outro ensaio realizado foi a diferença de massa. A determinação da massa foi realizada para verificar quanto os sistemas preservativos podem alterar a massa dos corpos de prova de pinus e eucalipto. As amostras utilizadas para determinação da massa, foram acondicionados em dessecador durante 6 meses para estabilização dos sistemas nos corpos de prova. As condições ambientais se mantiveram a 25 + 4°C de temperatura e 60 + 5% de umidade do ar. Após, as amostras foram o colocados em estufa com temperatura variando entre 103º ± 2ºC, até estabilização da massa, admitindo-se variações de massa menor que 0,5%.  As massas foram determinadas pesando as amostras em balança analítica com 0,001g de precisão.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Figura 1 mostra o resultado da análise cromatográfica das amostras de CTO, LO e OE. É possível observar que LO e CTO contém mais ácidos graxos. Já o OE contém quantidades equivalentes de ácidos graxos e de insaponáveis, que compreendem esteróis, álcoois e hidrocarbonetos, é maior no OE.  Os dados obtidos para o CTO foram 59% de ácidos graxos, 34% de ácidos resínicos e 7% de insaponáveis, ficando dentro dos limites da literatura.  Segundo Koski (2008) e Sales (2007), as quantidades de ácidos graxos, ácidos resínicos e insaponáveis no CTO variam, respectivamente, 40 – 60%, 30 – 55% e 1 – 10%. A composição dos subprodutos, LO e OE, do fracionamento do CTO, possuem composição concentrada nos ácidos graxos e insaponáveis, por se tratar de duas correntes composta dos componentes mais leves do CTO. O LO possui 89% de ácidos graxos, 4 % de ácidos resínicos e 7% de insaponáveis. O aumento da concentração de insaponáveis na amostra de OE, de 7% para 39%, já era esperado devido a degradação térmica dos ácidos graxos e resínicos durante o processo de fracionamento térmico.

Figura 1 - Resultado da análise cromatográfica das amostras de CTO, LO e OE.
Figura 1 – Resultado da análise cromatográfica das amostras de CTO, LO e OE.

Os resultados do ensaio Goniométrico mostraram que os corpos de prova tratados com as amostras de CTO, LO e o OE  melhoram a ação de repelência à água. Com relação a direção do plano (transversal, radial e tangencial), os resultados não apresentaram variações significativas, mostrando que a impermeabilidade que o produto preservante oferece é mesma em todos os planos. As amostras de Pinus sem tratamento apresentaram ângulo de contato próximo de 0 (zero), mostrando serem super-hidrófilas; e as amostras de Eucalyptus, nas mesmas condições, apresentaram variações do ângulo de contato entre 23 e 26°, mostrando serem hidrófilas. Todas as amostras, tanto do pinus quanto do eucalipto, submetidas aos tratamentos com CTO e com OE, apresentaram comportamento intermediário entre a hidrofilidade e a hidrofobicidade com ângulo de contato variando entre 56 e 70°. Este resultado mostra que o os sistemas em estudo diminui a hidrofilidade. Já, as amostras tratadas com LO mostraram serem hidrofóbicas, com ângulos de contato variando entre 120 e 125°. Em combinação com a análise cromatográfica, a amostra de LO tem maior quantidade de ácidos graxos (89%) que as amostras de CTO e de OE, podendo indicar que a elevada hidrofobicidade se deve impermeabilidade da película formada do LO. Já as amostras de CTO apresentam maior quantidade de ácidos resínicos, indicando que o aumento de ácidos resínicos diminuem a hidrofobicidade. Em contrapartida, a quase ausência de ácido resínicos e o aumento em proporções semelhentes de insaponáveis e ácidos graxos, conforme amostras do OE, diminuem ainda mais a hidrofobicidade. Portanto, a quantidade de ácidos graxos é proporcional aos níveis de hidrofobicidade.

Quanto ao ensaio de apodrecimento, os corpos de prova foram avaliados semanalmente para acompanhar o crescimento dos micélios do fungo. Observou-se a presença de outro biodegradador com micélios de coloração verde. Isso se deve ao fato da terra não ter sido esterilizada. Micélios brancos e verdes, nas amostras de eucalipto; e brancos nas amostras de pinus foram observados na 1° semana de inoculação nas amostras sem tratamento e foi aumentando até o término do ensaio. Nas amostras tratadas com CTO e com LO se observou alterações na 4° semana; e com OE na 5ª semana. Para todos os sistemas não se observou diferença nos tratamentos quanto à espécie de madeira. Ambas, eucalipto e pinus apresentaram resultados semelhantes para o mesmo tratamento. As amostras que apresentaram melhor resultado de resistência ao ataque do fungo de podridão branca foram as tratadas com OE e consequentemente obtiveram a menor perda de massa, conforme mostra a Tabela 4. Todos sistemas testados aumentam a resistência à podridão branca, porém com algumas observações:

  • Todos os sistemas preservativos mostraram melhora na resistência alterando a classe de não-resistente (amostras sem tratamento) para resistência moderada. Esta ligeira melhora pode ser devido a hidrofobicidade que todos apresentam, porém em níveis diferentes;
  • Os sistemas com OE foram os que apresentaram menor perda de massa, mostrando que pode ter algum composto que inibe a ação do fungo de podridão branca.

Tabela 4 – Classificação quanto à perda de massa das amostras submetidas ao ensaio de apodrecimento acelerado.

SISTEMAS PRESERVATIVOS PERDA DE MASSA (%) CLASSE DE RESISTÊNCIA             (ASTM D-2017, 2005)
Pinus Eucalyptus Pinus Eucalyptus
Sem Tratamento 45,35 48,11 Não-resistente Não-resistente
CTO 42,78 44,07 Resistência Moderada Resistência Moderada
LO 40,09 40,42 Resistência Moderada Resistência Moderada
OE 39,07 39,18 Resistência Moderada Resistência Moderada

 

A presença de todos os sistemas preservativos aumentou a massa dos corpos de prova. Este aumento comprova a fixação dos sistemas aplicados na madeira. A Tabela 5 mostra as médias dos valores calculados de seis corpos de prova de cada amostra e as porcentagens de aumento. É possível observar um aumento de aproximadamente 8,3% nas amostras de pinus, e 4,3% nas amostras de eucalipto, tratadas com ácido bórico. Esta diferença de 4% no aumento da massa entre as espécies pode ser devido menor densidade característica do pinus, indicando maior permeabilidade.

Nos corpos de prova tratados com CTO, LO e com OE foram observados aumentos menores que os observados somente com o ácido bórico, porém mantiveram o mesmo comportamento de aumento quanto à espécie da madeira. Este aumento, para os sistemas com Tall Oil, pode ser devido os sistemas preservativos ficarem retidos no lenho. Já para os sistemas com LO, que apresentou maior aumento, pode indicar que o sistema preservativo formou a camada rançosa e pouco penetrou nos corpos de prova. E, para os sistemas com OE e com CTO pode ser devido a total penetração dos sistemas nos corpos de prova.

Portanto, é possível concluir que os corpos de prova submetidos aos tratamentos com CTO e com OE obtiveram aumento da massa devido a penetração desses sistemas preservativos no lenho das amostras.

Tabela 5: Massa dos corpos de prova de Pinus elliottii. e Eucalyptus grandis.

Madeira Sistema de tratamento Massa (g) Aumento da massa (%)
Pinus Sem tratamento 9,1605 ——
CTO 10,7531 14,8
LO 10,9145 16,1
OE 10,8021 15,2
Eucalipto Sem tratamento 14,8708 ——–
CTO 15,9430 6,7
LO 16,0984 7,6
OE 16,0232 7,2

 

CONCLUSÃO

Os tratamentos alternativos com Tall Oil melhoraram a resistência das madeiras de reflorestamento, mas não na mesma intensidade que o tratamento tradicional com ácido bórico.

Maior resistência a podridão branca foi observada para o tratamento com o Óleo Ejetor, para o qual também foi observado penetração mais efetiva do preservativo no lenho.

Os resultados sugeriram que os efeitos dos preservativos estão relacionados tanto à sua taxa de penetração na madeira quanto à presença de componentes tóxicos.

A amostra que apresentou resultados mais satisfatórios para potencial uso como preservativo para madeira foi o Óleo Ejetor, um subproduto do fracionamento do CTO.

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[1] Engenheira Química. Doutora. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Itapeva.

[2] Engenheiro Florestal. Doutor. Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – Campus de Itapeva.

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