Por que os professores da educação de jovens e adultos (EJA) se capacitam em novas tecnologias?

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/professores-da-eja
Por que os professores da educação de jovens e adultos (EJA) se capacitam em novas tecnologias?
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RESUMO

OLIVEIRA, Fábio de Biase [1]

OLIVEIRA, Fábio de Biase. Por que os professores da educação de jovens e adultos (EJA) se capacitam em novas tecnologias? Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 10, Vol. 05, pp. 102-120 Outubro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O presente artigo tem, como principal escopo, identificar quais são as razões para os professores que atuam na Educação de Jovens e Adultos (EJA), da rede pública de ensino fundamental da cidade de Vitória, no Espírito Santo, se capacitarem em novas tecnologia. Busca-se compreender, também, se tais formações têm promovido práticas pedagógicas mais inovadoras. A pesquisa se caracteriza por um estudo de natureza exploratória-descritiva, o campo de pesquisa se constituiu de nove escolas da rede pública Municipal de Vitória que atendem a EJA, entrevistando 26 professores, de um total de 73 educadores que atuam nas nove escolas selecionadas. O método de coleta de dados selecionado para este estudo foi a observação participativa, entrevistas em profundidade e aplicação de um questionário parcialmente estruturado. Os resultados indicam aspectos que favorecem o uso das tecnologias, bem como características negativas. Em relação aos aspectos positivos destacam-se: facilitação do aprendizado dos alunos, aulas mais dinâmicas, despertar grande interesse entre os jovens e adultos pela necessidade de acompanhar essas inovações, tanto para seu uso diário quanto para o aperfeiçoamento profissional. Quanto aos aspectos negativos, observa-se, sobretudo, a falta de formação adequada para lidar com as novas tecnologias.

Palavras Chave: Formação de professores, Educação de Jovens e Adultos, Novas Tecnologias.

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa objetiva a identificação de motivos os quais levam professores que atuam na Educação de Jovens e Adultos (EJA), da rede pública de ensino fundamental na cidade de Vitória, no estado do Espírito Santo, a buscarem capacitações em novas tecnologias. Questiona-se, também, ao decorrer deste estudo, se tais tecnologias têm promovido uma prática pedagógica mais inovadora, uma vez que os educadores, têm feito uso de computadores, notebooks, salas de recursos de multimídia e quadro digital.

Examina-se, além, quais as relações que essas novas tecnologias estabelecem com a demarcação de objetivos, seleção dos conteúdos de ensino e aprendizagem, a prática pedagógica e a didática em si e, também, com os processos de avaliação utilizados nas salas da EJA pelos professores.

Nessa senda, busca-se compreender os principais motivos que levam muitos profissionais atuantes na EJA a se capacitar em novas tecnologias e principalmente, distinguir como esse empenho por capacitação está articulada aos anseios dos professores em atender às necessidades de seus alunos. Isso, pois, muitos estudantes, crianças ou adultos, quando vão à escola, trazem suas vivências de trabalho, comunidade e família para dentro da sala de aula.

Ademais, também é trazida à tona a questão da falta de adequação para lidar com as novas tecnologias. Tal dificuldade, faz repensar os processos de capacitação que os atuais professores do EJA experimentaram em seu tempo de licenciatura, ou seja, formação inicial.

Essa problemática compõe o pano de fundo da formação de professores e envolve uma rede de ações que vão, desde uma melhor qualificação na formação inicial à capacitação necessária com o passar dos anos na carreira do magistério.

1. AS TRANSFORMAÇÕES DA MODERNIDADE E NOVAS TECNOLOGIAS, SUAS IMPLICAÇÕES PARA OS PROCESSOS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES

Segundo Veiga (2007, p. 11), os processos educacionais, assim como a sociedade, a política e a economia, passaram por mudanças ao longo do tempo, até os dias atuais, pois “dentre os acontecimentos integrados ao crescente processo de expansão da escolarização salientam-se a organização e evolução do Estado moderno, as divergências religiosas, o avanço da urbanização, as alterações econômicas, as diversificações das classes sociais”.

Nesse contexto de mudanças, verifica-se a emergência de novas configurações dos modos de ser e estar, concedendo aos indivíduos novas características. Com essas alterações tão relevantes à construção do ser humano, notam-se profundas mudanças nos processos educacionais, conforme destaca Favero apud Paiva e Oliveira (2009, p.20)

Ao longo dos últimos anos se foi configurando um novo sujeito social: a juventude […]. Embora seja claro que a educação de jovens e adultos tem uma dupla função de formar para a cidadania e de preparar para o mundo do trabalho. Essas funções se colocam de modos diversos para jovens e para os adultos. As escolas não estão preparadas para trabalhar com essas diferenças.

Com essa observação, é possível depreender que, com a passagem do tempo, houve uma reconfiguração da sociedade e, consequentemente, nos indivíduos. Para Hall (2006, p. 07), esse processo de mutação do sujeito é parte de um processo mais amplo que se configura na chamada crise de identidade do sujeito da modernidade. O supracitado autor diz que

a crise de identidade é vista como parte de um processo mais amplo de mudanças, que está deslocando as estruturas e processo centrais das sociedades modernas e abalando os quadros de referências que davam aos indivíduos uma ancoragem estável no mundo social.

Ainda sob essa perspectiva abordada por Hall (2006, 38), tem-se que os indivíduos é suas particularidades são formadas pelo passar do tempo, por meio de processos sutis, que não lhe são intrínsecos, as identidades são transformadas, mas nunca estão completas, encontrando-se num estado de eterna construção.

Precisamente, os processos de mudanças e suas implicações para a configuração de uma nova identidade histórico-social, Hall (2006, p. 46), ainda postula que,

[…] a questão da identidade está relacionada ao caráter da mudança na modernidade tardia, em particular, ao processo de mudança conhecido como “globalização” e seu impacto sobre a identidade cultural […] e acrescentam ainda, as mudanças de o “sujeito” do iluminismo visto como tendo uma identidade fixa e estável, foi descentrado, resultando nas identidades abertas, contraditórias, inacabadas, fragmentadas, do sujeito pós-moderno.

Observa-se, que o corpo social e seus sujeitos estão em permanente processo de transformação, resultando reconfigurações no trabalho, nos modos de produção, no consumo e na circulação de conhecimentos.

Com toda essa transformação, questiona-se se todos os indivíduos são resistentes a tais mudanças. Como vimos acima, à luz da sabedoria de Hall, é possível compreender que absolutamente todos os sujeitos sociais estão nesse eterno processo de rompimento de sua própria individualização.

Nessa perspectiva, afirma-se que os alunos frequentadores da EJA também estão subordinados a essa constante transformação social; assim, os educadores devem buscar capacitação em novas tecnologias que sejam capazes de lidar com situações que não só exigem o pleno conhecimento da ciência, mas também a valência em compreender a diversidade cultural dos estudantes frequentadores da EJA, uma vez que são de diferentes idades, níveis de conhecimento e interesses socioculturais.

O contexto atual narrado acima, demonstra que são exigidos dos profissionais conhecimentos relacionados às novas tecnologias. São demandas sociais, partes constituintes dos sistemas produtivos, os sujeitos encontram necessidades de estarem em consonância com as demandas impostas pelo mercado. Se por um lado essas novas necessidades aparecem como imposição, sob outra ótica podemos pensar que também produzem novas ou outras formas de pensar e atuar, formando uma nova cultura, uma nova identidade, uma vez que o homem é fruto das relações sociais, bem como domina essas variações.

Especificamente sobre o professor, observa-se a dialética existente nesse processo de mudança inerente à atividade docente, pois o contexto sócio educacional sugere a necessidade de tensões e transformações na atividade profissional docente. A título de exemplo, temos a exigência de ultrapassar os modelos tradicionais de transmissão e assimilação de conhecimentos por parte de professores e alunos.

Essa instabilidade social exige que os educadores renovem suas práticas pedagógicas, especialmente no que tange ao uso habitual das novas tecnologias como uma forma de sobrevivência profissional e humana.

As novas tecnologias por todas as partes, em escolas, residências, trabalho e cotidiano, assim a educação também incorpora novas formas de relações sociais que incluem as tecnologias de informação e comunicação (TICS) hoje em dia nos relacionamos através das tecnologias, e-mail, Facebook, MSN, entre outras.

Nesse sentido, Soares (2009) entende as formas de relações sociais da seguinte forma: há, atualmente, as redes sociais como “Orkut”, chats e MSN, as quais necessitam da interação humana (ouvinte, telespectador e internauta) articulando com as “tradicionais”, tais como a escola, a família e o trabalho.

1.1 NECESSIDADE DE FORMAÇÃO PERMANENTE DE PROFESSORES

Considera-se que a formação pode nortear o trabalho educativo, ajudando a resolver problemas que advêm do cotidiano escolar, oferecendo uma fundamentação teórica, bem como compartilhando com os companheiros da área, situações vividas ao longo da trajetória profissional e construir, assim, novos saberes, através das reflexões expostas de relatos dos momentos ocorridos no cotidiano que ofereçam possibilidades concretas de lidar com situações que ultrapassam a rotina diária das classes.

Os “encontros” da área proporcionam um espaço privilegiado de “reflexão” e de “problematização”’ e auxiliam na percepção das transformações, mudanças, inovações que afetam a sociedade e consequentemente os processos de ensino e aprendizagem.

Os professores constroem suas fundamentações teóricas por meio de congressos e seminário, numa educação permanente que influi e estimula tais educadores a ficarem cada vez mais próximos de discussões estimulantes sobre sua área de atuação.

Por consequência, esses profissionais levam esses novos saberes, fazeres e aprendizados para as salas de aulas, o que proporciona uma melhoria qualitativa em suas aulas, promovendo, também, práticas pedagógicas que estão em consonância com as transformações sociais. Sacristán (1996), entende isso como uma forma de compreender desafios e possibilidades que cercam o processo de ensino e aprendizagem.

Em relação à necessidade colocada pelos desafios tanto do contexto mais amplo da sociedade, como especificamente às contendas colocadas pelo cotidiano da sala de aula, Fernandes apud Paiva e Oliveira (2009, p. 65) ressaltam que a necessidade que os professores têm de formar-se, está relacionada com as mudanças deste novo século, pois,

Os trabalhadores do final do século XX e início deste, não estão mais treinados (ou adestrados) para desenvolver apenas uma função exclusiva. Deles se exige a capacidade de raciocinar, resolver problemas que sejam identificados, mais além da capacidade de substituir um trabalhador que desenvolve outra função, caso seja necessário […] estando a educação intimamente relacionada a esta questão.

Sendo assim, as possibilidades dos professores da Educação de Jovens e Adultos agregarem às suas práticas pedagógicas as inovações tecnológicas, ou seja, desenvolver práticas inovadoras, coloca-se como um dos desafios na contemporaneidade para os professores.

2. PERCURSO METODOLÓGICO

O presente artigo se caracteriza como uma pesquisa exploratório-descritiva. Conforme ensinamentos de Gil (2002), tal perspectiva teórico-metodológica é orientada por um estudo profundo e exaustivo de maneira que permitiu um olhar bem amplo sobre a problemática em questão.

O campo de pesquisa se constituiu de nove escolas da rede pública Municipal de Vitória, Espírito Santo, que atendem a EJA. A população foi composta de 26 professores de um total de 73 professores que atuam nas nove escolas selecionadas. Os professores que compuseram a amostra são de distintas áreas de conhecimento. Para esse estudo ser realizado, foram aplicados questionários para 21 professores, bem como foram realizadas entrevistas gravadas com 5 professores.

Em relação à maneira a qual os dados foram coletados, foram combinadas quatro estratégias, as quais: consulta aos documentos da secretaria; observação da realidade; aplicação de questionário aos sujeitos da pesquisa e entrevista em profundidade. No próximo tópico, seguem detalhes sobre os questionários aplicados e devidamente respondidos pelos educadores da EJA

2.1 ANÁLISE DE DADOS

A análise de dados se desenvolveu por meio de uma leitura cuidadosa de diversos materiais recolhidos, sempre tendo em conta os objetivos deste estudo, identificar os distintos fatores que levam os docentes da EJA a buscarem se capacitar em novas tecnologias; os fatores que influem em suas práxis cotidianas em um contexto de mudança e inovação educativa, e a busca de sentido e das relações entre os diversos elementos que transformam sua prática. A pergunta que sintetiza esse objetivo se apresentou aos professores, descrita assim: “como as tecnologias podem contribuir para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras?”.

Em uma primeira análise dos questionários e entrevistas, podemos constatar que os professores demonstram certo otimismo em relação às possibilidades das novas tecnologias que incrementam suas práticas, inovando-as. Destaca-se, no corpo geral de seus discursos, que a utilização dessas novas tecnologias visa a facilitação do planejamento, associação aos recursos mais tradicionais, tais como livros, folhetos, revistas e periódicos.

Ainda, a inclusão de tecnologia no ambiente educacional proporciona aulas que fluem de forma mais fácil. Cita-se, a título de exemplo, que um estudante que não frequentava a escola há muito tempo e que não tinha conhecimento sobre algum conteúdo específico, ao se deparar com uma apresentação no Power Point, consegue se aproximar de forma menos penosa a temática abordada.

Os professores entrevistados destacam que as TICs, ou seja, tecnologias de informação e comunicação, permitem uma maior interação, já que a visualização de conteúdo por meio das TICs é mais atrativa e lúdica. Destaca-se que, com a relativa facilidade de acesso às novas tecnologias, os alunos são capazes de aprender sem ir à escola, por meio de uma aprendizagem mais informal.

Os educadores entrevistados também aludem que, ao se utilizarem dos TICs, podem colocar o conteúdo tradicional junto ao prazer que é proporcionado principalmente pelos computadores.

As respostas supramencionadas demonstram que é necessário que os professores da EJA necessitam de uma formação específica, com ênfase no conhecimento e domínio de novas tecnologias, as quais se mostram extremamente necessárias para educandos que estão em contato diário com computadores, internet e televisivos.

Com a rápida circulação da informação nos mais diversos meios de comunicação, os estudantes chegam às escolas, frequentemente, com mais conteúdo sobre as novas tecnologias do que os próprios professores e isso faz com que os educadores tenham que estar sempre atualizados e apressando-se para alcançarem as incessantes mudanças tecnológicas.

A seguir, apresenta-se detalhada análise dos dados obtidos por meio da aplicação de questionário e entrevistas. Tais categorias estão relacionadas com os objetivos da investigação, sendo o foco central deste artigo identificar a razão de os professores da EJA se utilizarem de novas tecnologias no ambiente educacional.

Reconhecendo, primeiramente, o contexto social o qual os docentes estão inseridos, devidamente abordado nos itens 1 e 1.1, foram adotadas as seguintes categorias para investigar o propósito deste estudo: 1) acesso e uso da tecnologia por parte dos professores; 2) desafios que enfrentam os docentes na apropriação e uso das novas tecnologias; 3) tecnologia e inovação pedagógica; 4) utilização das tecnologias e prática pedagógica; 5) capacitação e utilização de tecnologias de informação.

2.2 CATEGORIAS EXPLORADAS

2.2.1 CATEGORIA 1: ACESSO E USO DA TECNOLOGIA POR PARTE DOS PROFESSORES

Nesta primeira categoria busca-se identificar quais são os equipamentos tecnológicos que estão presentes e fazem parte das práticas pedagógicas cotidianas dos docentes que trabalham na Educação de Jovens e Adultos. Essa intenção se justifica porque a educação, historicamente há falta ou ausência total de materiais adequados para a prática pedagógica dos docentes. A “pedagogia da saliva e giz”, por ser mais acessível, acaba sendo a mais utilizada pelos docentes.

As respostas dos professores quanto ao acesso e uso de tecnologia em sala de aula revelam que há um aumento considerável da presença de equipamento tecnológico nas escolas. Entre os materiais que os professores revelam utilizar se encontram equipamentos de som até computadores e data show.

No discurso do seguinte professor, é possível ter uma ideia geral da condição. Quando perguntado acerca de quais recursos tecnológicos que se podem utilizar para desenvolver suas práticas pedagógicas, o Professor 1 respondeu “DVD (filmes), sala de informática (com o tema que está sendo abordado); como suplementação, pesquisa na internet, com ajuda do professor de informática, assim como Power Point”.

É importante destacar que, nas respostas dos docentes aos questionários e nas entrevistas, resta evidente que as escolas estão bem equipadas com material tecnológico. Entretanto, quanto ao uso desses equipamentos, observa-se certa insuficiência devido à falta de formação adequada para integrar em suas aulas os equipamentos disponíveis, a falta de apoio profissional, assim como ausência de manutenção dos equipamentos, limitando o acesso a novas formas de aprendizagem.

2.2.2 CATEGORIA 2: DESAFIOS QUE ENFRENTAM OS DOCENTES NA APROPRIAÇÃO E USO DAS NOVAS TECNOLOGIAS

Nesta categoria, identifica-se nas respostas quais são os maiores problemas que enfrentam os docentes. Interessa identificar neste trabalho, não só as questões estruturais, como falta de material, mas, acima de tudo, os problemas relacionados com questões pessoais e profissionais, tais como a falta de conhecimento e a impossibilidade de utilizar o material tecnológico.

As respostas dos professores revelaram um quadro geral muito diverso. Os problemas identificados vão desde queixas pela falta de tempo para aprender a usar os computadores, incluindo o medo de utilizá-los.

No que tange à questão da falta de tempo, as réplicas dos educadores revelam que essa adversidade está vinculada a necessidade do professor trabalhar em dois e até três horários para cobrir o déficit salarial, conforme se observa no seguinte discurso do Professor 1: “Geralmente um profissional da educação que está na regência, não dispõe de tempo para investir em sua formação, já que necessita trabalhar, pelo menos, 2 turnos e, lhe falta ânimo ao final de seu segundo turno”.

O Professor 2 ainda diz: “A falta de tempo disponível e conhecimento suficiente para poder aproveitar o que temos. Quando temos tempo, os equipamentos são insuficientes para todos”.
Referente à capacitação, 10, dos 21 professores entrevistados, expressaram preocupação em relação à falta de programas de capacitação ou se queixam da necessidade de formação para dar conta da transformação do conhecimento. O Educador 10 responde que “a cada dia aparece uma nova tecnologia e nos falta uma formação continuada para acompanharmos essas novidades”.

O Professor 7 explica que “nas formações das prefeituras que, no meu caso, quase não acontecem e quando acontecem, nunca abordam as novas tecnologias. Portanto, fica por nossa conta e, diga-se de passagem, nos sobra muito pouco tempo”. Por conseguinte, há o depoimento do Professor 17, o qual mencionou a inexistência de um programa de capacitação para os professores em novas tecnologias, bem como uma baixa remuneração, a qual os obriga a procurar outras fontes de renda ao invés de se aperfeiçoarem na atividade do magistério.

As respostas dos professores revelam um problema recorrente na maioria dos sistemas educacionais: a escassez de programas de formação continuada, assim como propostas que contemplem essa realidade enfrentada pelos professores, ou seja, a necessidade de dominar as tecnologias para adequar suas práticas pedagógicas às demandas dos alunos.

No contexto da EJA, esse problema é mais agudo, pois segundo Guidelli (1996), a falta de formação do professor que atua na educação de jovens e adultos se deve ao fato de que esse gênero de ensino não exige de seus professores, estudos aprofundados ou especialização.

Outras questões que apareceram de forma recorrente nas respostas dos docentes foram a falta de conhecimentos específicos e a falta de experiência no uso das novas tecnologias; ausência de estrutura para utilizá-las. Em relação à falta de conhecimentos, observa-se que o professor enfrenta um dilema ante o uso do computador e outros equipamentos tecnológicos, já que, como não sabe utilizá-los, acaba criando um grande receio, e, assim, não se sente seguro de incluí-los em seu planejamento.

Nesse sentido, o Professor 19 faz alusão à possibilidade de uma política de inclusão digital para educadores, a qual incluísse “habilidade para lidar com o novo. Uso das TICs no cotidiano fora do espaço no laboratório. Planejamento com multifoco interdisciplinar. Política pública duradoura. Projetos de governos voltados para incluir os educadores”.

As questões estruturais para utilizar as tecnologias são os problemas que mais estão relacionados à falta de desenvolvimento de projetos que envolvam o uso de novas tecnologias no ambiente educacional. Ao menos 4 professores se queixaram de que, para haver uso de laboratório e de outros espaços e equipamentos, é necessário que haja um profissional especializado para ajudá-los

Nessa perspectiva, assim fala o Professor 3: “ a resistência às tecnologias. A falta de apoio profissional na educação continuada a nível local. Para ajudar na prática pedagógica”. Observa-se, portanto, que todos esses fatores prejudicam que a educação de jovens e adultos se desenvolva de forma agrupada ao surgimento de novas tecnologias, essas, tão necessárias para um aprendizado mais prazeroso e espontâneo.

2.2.3 CATEGORIA 3: TECNOLOGIA E INOVAÇÃO PEDAGÓGICA

Nas análises pertinentes a este trabalho, identifica-se que as novas tecnologias podem contribuir para o desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras, mesmo quando apenas o fato de mudar de espaço significa novas ou outras relações de aprendizagem. A fala do Professor 1 revela a percepção dos professores sobre o potencial que as novas tecnologias têm para melhorar a prática pedagógica: “Sair da sala de aula e passa a frequentar outros campos, sala de informática, de vídeo, biblioteca, maiores opções, utilização do software, Word, Excel, Power Point, Corel Draw, internet, Photoshop, etc.”.

O Professor 16 comenta que “o acesso à tecnologia permite ao professor utilizar meios como, por exemplo, microscópio acoplado a TV, para permitir ao aluno interagir, durante as aulas, com o conteúdo ministrado”.

Nessa senda, o Professor 21 entende que

ao frequentar outros espaços que não só as salas de aula com seus materiais habituais quadro, pincel atômico, explicação do professor, caderno, livros, caneta, lápis e borracha, as aulas se tornam mais atrativas e contextualizas, especialmente com o universo sociocultural dos estudantes, proporcionando uma maior compreensão dois conteúdos. Facilitam a compreensão. Diversificam os conteúdos e atualizam as informações.

Com as falas supra, observa-se que, no mundo contemporâneo, os estudantes têm as novas tecnologias como parte da cultura, e fazem uso diário delas. Ademais, a tecnologia desperta uma grande fascinação entre eles, o que se converte em uma poderosa ferramenta para que o professor possa aproximar-se dos estudantes no sentido de fazer suas aulas mais atrativas. Dessa forma, os professores reconhecem que a didática tradicional já não exerce uma grande influência nos estudantes.

Ainda sob a égide dessa concepção, o Professor 7 explica que “os conteúdos tradicionais não têm funcionado muito bem nessa clientela, que não tem tempo para se dedicar o suficiente para se fazer o aprendizado então caberia muito bem para o interesse dos nossos alunos”.

Com todos esses relatos, sabe-se que os processos de formação devem garantir aos professores uma mudança de prática, garantindo que eles passem pelo processo de estarem sempre em busca de novas estratégias de ensino para satisfazer as necessidades dos estudantes e do contexto atual. Tais novas técnicas podem beneficiar aos alunos que terão contato com um professor bem mais preparado para atuar na sala de aula fazendo uso das modernas tecnologias (ABRANTES, 1991).

O desenvolvimento de novas tecnologias relacionadas com a educação também contribui na construção de novos conhecimentos, de modo que, quando se está em constante inovação, se busca sempre uma melhoria qualitativa nas formas de alcançar os objetivos propostos pela área da educação, isto se reflete diretamente na dinâmica da escola, como informa um dos professores.

Leitão apud Paiva e Oliveira (2009), em consonância com as ideias aqui proferidas, entende que o docente deve sempre estar aperfeiçoando-se, haja vista que a condição humana, sempre em constante transformação, exige isso de todos os indivíduos.

Ainda no que tange sobre as respostas dos docentes, restou compreendido que eles depositam confiança nas novas tecnologias para inovação nas práticas pedagógicas, isto, por si só, justifica o incremento nos programas de formação de professores, já que o educador mais qualificado pode responder às demandas do desenvolvimento socioeducativo de maneira mais habilitada.

Como já se havia assinalado anteriormente, o professor na sociedade moderna não pode prescindir da utilização das novas tecnologias, sob a pena de tornar-se obsoleto em relação às demandas sociais, bem como não conseguir atingir seus alunos com um método pedagógico atualizado.

2.2.4 CATEGORIA 4: UTILIZAÇÃO DAS TECNOLOGIAS E PRÁTICA PEDAGÓGICA

Para os professores, sempre existe a necessidade de que o conteúdo seja entendido e contextualizado, uma urgência em atender aos alunos com atrativos cada vez maiores. As próximas respostas mostram que os professores acreditam que o uso das tecnologias funciona como um elemento facilitador, tanto no tratamento do conhecimento, como também na comunicação com os estudantes, já que os professores reconhecem que muitos discentes já estão familiarizados com as tecnologias, como logo podemos ver na fala do Professor 1: “facilita o planejamento devido ao acesso que a máquina nos fornece recursos, a aula flui mais facilmente, o aluno ficou muito tempo fora da escola, que lhe foi tirado a escrita, a sua percepção de mundo ele se aproxima melhor do contexto, Power Point, interação, visualização, é mais atrativo”.

O Professor 7, respectivamente, entendem que as novas tecnologias são apropriadas para o ambiente educacional “para que possamos mostrar conteúdos mais palpáveis e mais interessantes e necessários para o mercado de trabalho que hoje tem basicamente muita tecnologia”. Ademais, de acordo com o Professor 12, a tecnologia permite que haja inovação “tornando as aulas mais atrativas, com um planejamento que permita o alcance dos objetivos e ao mesmo tempo torne as aulas mais prazerosas e diferenciadas”.

Os discursos dos professores se alinham aos princípios estabelecidos pela proposta do Proinfo (1997), que afirmam que a formação e o uso das novas tecnologias por parte dos professores proporcionarão uma nova formação do cidadão do século XXI, e também acarretará mudanças no processo de ensino-aprendizagem, formas de estruturação e funcionamento da escola, assim como suas relações com a comunidade escolar.

As falas dos professores corroboram o que tem sido amplamente debatido no meio acadêmico e também nos círculos de debate sobre formação de professores. Os educadores sabem que as novas tecnologias estão em todos os aspectos da vida diária, desde o uso dos eletrodomésticos até para retirar saldo bancário, não há maneira de viver sem esse conhecimento tecnológico e não relacioná-los à educação; assim como dito pelo Professor 13: “não há mais como lidar na educação sem uso de tecnologias da informação, elas estão inseridas no contexto da vida atual”.

Ademais, o Professor 18 complementa ao dizer que “as tecnologias da informação possibilitam, tanto ao professor quanto ao aluno, o acesso a um universo de informações em curto espaço de tempo. Entretanto, necessário se faz dominar tais tecnologias de modo a organizar e sistematizar as informações de maneira a alcançar o objetivo pretendido”.

Os educadores também relevam as ferramentas oferecidas pelas novas tecnologias como algo muito importante e citam a internet, bem como vídeos, filmes curtos, digitação de texto na aproximação da máquina, sendo o uso do computador algo mais complexo para adultos e idosos, conforme fala do Professor 8.

Entende-se, portanto, através dessas falas, que, os professores, ao se utilizarem de uma metodologia interdisciplinar, por meio de apresentações em Power Point, datashow, Broffice e vídeos webquest, a título de exemplo, contextualizam e acompanham a realidade atual nas salas de aula de Vitória, Espírito Santo.

2.2.5 CATEGORIA 5: CAPACITAÇÃO E UTILIZAÇÃO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

Nesta categoria, busca-se agrupar as respostas dos professores, as quais são manifestações explícitas da necessidade de uma formação continuada para o melhor uso das tecnologias de informação. Os docentes demonstraram que a presença de equipamentos tecnológicos requer uma inversão nos processos de capacitação, já que muitos não tiveram estes conteúdos em seu processo de formação inicial. Portanto, a capacitação, na visão da maioria dos professores, pode manejar as necessidades de formação necessária para que os docentes passem a utilizar o computador, a sala de informática, a lousa digital e outros materiais tecnológicos.

Para os educadores, existe uma necessidade de fazer uso dessas novas tecnologias, uma vez que os próprios alunos da EJA levam para as salas de aula esse tipo de conhecimento. Se os formadores não se utilizam desses novos meios de aprendizagem, acabam se tornando obsoletos. A fala a seguir, do Professor 2, revela essa realidade:

A gente trabalha com vídeos, também mexe com parte de vídeos, programas de digitação, eles aprendem a digitar as técnicas de digitação que a parte de informática também trabalha enquanto o professor trabalha o conteúdo dele, o português, a forma correta de ortografia, essas coisas, e também têm produções que eles fazem histórias através de alguns programas, histórias em quadrinhos que eles criam em desenhos, textos, balões com diálogos, neh (sic) então envolve também todos os conteúdos, matemática, tem vários programas que trabalham os conteúdos da matemática, frações, geometria, e por aí vai.

Sendo assim, acredita-se que, se os professores da EJA não reuniram as condições necessárias para utilizar os recursos que as novas tecnologias oferecem, correm o risco de comprometer sua prática pedagógica, o que acarretará prejuízos para os alunos em termos de possibilidade de aprendizagens significativas, as quais são potencializadas por meio dessas novas tecnologias da informação.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para investigar questões em torno do tema da Educação de Jovens e Adultos, em como a utilização de TICs, ou seja, tecnologias de informação e comunicação, foram utilizadas as seguintes abordagens: demarcação de um campo de investigação que de alguma maneira representasse as respostas dos professores, de forma fiel; eleição de um marco teórico que abordasse a EJA, a formação de professores e as TICs, como demonstrados pelas doutrinas de Gil, Abrantes e Leitão apud Paiva e Oliveira e a dificuldade de levar a cabo um estudo de campo com um número representativo de professores.

O enfoque da investigação foi ao redor das perguntas de quais são os interesses dos professores da EJA para se capacitarem em novas tecnologias e se tais qualificações estão resultando uma prática pedagógica inovadora. A hipótese que havia ao iniciar esta pesquisa foi que os professores da EJA tinham dificuldades para se capacitarem, sobretudo quando os conteúdos dos cursos, seminários, conferências, palestras, oficinas, etc., são relativos às novas tecnologias.

Essa hipótese foi confirmada, ao demonstrar que a formação continua sendo um fenômeno complexo, que implica não só a dimensão técnica, mas, também, a dimensão subjetiva da relação ensino-aprendizagem. Em outras palavras; ao se oferecer atividades de formação para os professores, não há como estabelecer uma relação direta com a prática pedagógica, posto que o ensino não se faz da transposição e/ou da aplicação de métodos e técnicas.

Tem-se a consciência de que, quando se trata especificamente das novas tecnologias, os docentes se colocam diante de uma contradição inerente à própria natureza das ferramentas tecnológicas, que, na percepção da maioria dos professores, são de importância fundamental para a prática pedagógica.

No entanto, muitos deles, diante do desafio do uso, abrem mão daquilo que poderia melhorar sua prática, e recorrem às velhas formas de ensino e de aprendizagem, tais como as aulas com “quadro negro, cuspe e giz”.

Como é possível se observar a partir dos dados, os professores se mostram muito favoráveis às capacitações, inclusive vinculam seu êxito profissional a participar dessas atividades, ou seja, sabem que se não se atualizarem, ficarão em desvantagem em relação aos estudantes das salas da EJA. Sabem, também, que o computador, a internet e outros equipamentos tecnológicos têm a potencialidade de fazer que os estudantes se interessem mais em suas aulas e aprendam mais e de uma forma mais prazerosa.

Os dados revelam também a necessidade de uma formação inicial que tenham um conteúdo específico para educação de jovens e adultos, bem como auxílio para que os professores aprendam a manejar as novas tecnologias. Além disso, ressalta-se a importância de uma educação permanente para esses professores, por meio de uma formação em serviço, instalando-se uma cultura docente em que as tecnologias não sejam mais vistas com estranhamento ou medo.

Conforme dito pelo Professor 3, “negar uma tecnologia é praticamente desestimular os novos discentes […] o professor na sala de aula hoje sozinho com o quadro e com sua própria palavra ele já não desperta interesse […] sem essa ferramenta é como se nós estivéssemos no século passado”.

Constata-se, então, que essas inovações tecnológicas são parte do contexto escolar atual, gerando assim a produção e circulação de conhecimentos novos, e estes se põem em prática, assimilados e aceitos pelos estudantes em forma de práticas pedagógicas inovadoras que promovem uma melhoria qualitativa nas aulas através de um maior interesse, prazer e a aprendizagem de conteúdos tradicionais relacionando-os com os novos conteúdos que as novas tecnologias podem proporcionar.

REFERÊNCIAS

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VEIGA, Cynthia Greive. História da Educação. São Paulo: Ática, 2007.

[1] Possui Graduação em Educação Física Escolar pela Universidade Federal do Espírito Santo (1987), Especialização em Pedagogia do Desporto CEFD-UFES (1997), e Mestrado em Educação com Orientação em Educação Permanente pela Universidad Del Salvador em Buenos Aires (2015). Tem experiência na área de Educação Física, com ênfase em Educação Física Escolar e Treinamento Esportivo.

Enviado: Maio, 2018

Aprovado: Outubro, 2018

 

Possui Graduação em Educação Física Escolar pela Universidade Federal do Espírito Santo (1987), Especialização em Pedagogia do Desporto CEFD-UFES (1997), e Mestrado em Educação com Orientação em Educação Permanente pela Universidad Del Salvador em Buenos Aires (2015). Tem experiência na área de Educação Física, com ênfase em Educação Física Escolar e Treinamento Esportivo.

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