A construção da lecto-escrita na EJA: Oralidade e letramento

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ARTIGO ORIGINAL

MOREIRA, Eliany Silva De Argôlo [1]

MOREIRA, Eliany Silva De Argôlo. A construção da lecto-escrita na EJA: Oralidade e letramento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 02, Vol. 03, pp. 138-144. Fevereiro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/lecto-escrita-na-eja

RESUMO

Este trabalho compreende a importância da lecto-escrita na Educação de Jovens e Adultos no contexto da oralidade e letramento. O ensino de língua portuguesa, desde o princípio do processo de letramento escolar, tem sido objeto de discussão e preocupação de muitos especialistas. O domínio da leitura e escrita é uma condição indispensável para todos os indivíduos apropriarem-se das práticas sociais de letramento, ou seja, para que sejam capazes de desenvolver-se e aprimorar-se em relação às práticas sociais de interações discursivas, orais e escritas. Nesse contexto, a pesquisa traz como problema de pesquisa a reflexão acerca de como tornar os alunos da EJA leitores e escritores proficientes em língua portuguesa no contexto do letramento. Essa é uma questão de grande relevância, visto que para que a proficiência em língua portuguesa seja desenvolvida no cotidiano da sala de aula a partir do contexto do letramento e da oralidade é preciso proporcionar uma aprendizagem significativa. Desse modo, é preciso que sejam promovidas aulas dinâmicas com metodologias diversificadas e que busquem a vivência dos alunos, ou seja, aquilo que já está internalizado, oferecendo-lhes, então, condições de oralidade, letramento e escrita para que seja utilizada, proficientemente, a língua portuguesa no dia a dia escolar e extraescolar, passando, o aluno, a ter a capacidade de comunicar-se na sua língua materna bem como a de ler e escrever bons textos de maneira eficaz.

Palavras-chave: Letramento, lecto-escrita, Educação de Jovens e Adultos.

1. INTRODUÇÃO

Durante o século XX, autores como Lajolo, Foucambert e Soares desenvolveram pesquisas no âmbito da leitura e escrita. Estas continuam prevalecendo no século XXI e indicam mudanças no papel da escola e transformações na ação docente. Tais mudanças contribuem, diretamente, para com a aprendizagem do educando, visto que aprimoram o seu desempenho e rendimento escolar. As práticas de leitura realizadas na escola – modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) – oferece, aos educandos, o despertar do prazer pela leitura e a apreensão e compreensão leitora, visto que o sujeito que convive em um ambiente leitor interpreta os diversos portadores textuais apresentados no contexto social em que os textos circulam. Considerando este contexto, o estudo se destina à compreensão do trabalho de leitura em sala de aula.

Objetiva-se compreender a importância da lecto-escrita na Educação de Jovens e Adultos no contexto da oralidade e letramento. Para tanto, é preciso desenvolver, nos alunos, a vontade de ler bons textos, os tornando aptos para interpretar tais textos. É preciso, então, promover a compreensão desses mesmos textos assim como as atividades de escrita e reescrita. Tais práticas farão com que esses alunos estejam em contato, de maneira eficiente, com a lecto-escrita. Desse modo, a pesquisa traz como problema de pesquisa a pergunta: Como tornar os alunos da EJA leitores e escritores proficientes em língua portuguesa no contexto do letramento? Pretende-se inserir o aluno situações de aprendizagem a partir da lecto-escrita por meio da mediação do professor a partir de metodologias diversificadas.

2. A LEITURA NA EJA – OBJETO DE ENSINO E APRENDIZAGEM

No âmbito escolar, a leitura é, antes de tudo, um objeto de ensino. Ao ser constituída, também, como objeto de aprendizagem, é preciso fazer-se significativa na aprendizagem do educando. Isso significa cumprir a função de propiciar o conhecimento e a realização de propósitos dos leitores. No contexto social, a leitura, tida como objeto de ensino, não se diferencia da prática social vivenciada pelo aprendiz. Assim, é imprescindível representar ou reapresentar, na escola, os diversos usos que essa leitura tem na realidade desse cidadão sócio-histórico. Saber ler é uma ação que, em construção, oportuniza, aos educandos, ter acesso aos suportes leitores e escritores na utilização destes recursos. A leitura contempla o contexto cultural e social em que os textos se encontram presentes (MARCUSCHI, 2010).

Para Antunes (2009, p. 213), o currículo escolar do ensino da língua escrita deveria privilegiar “a produção, a leitura e a análise dos diferentes gêneros, de cuja circulação social somos agentes e testemunhas”. Informa, também, em suas conjecturas, que “a gramática da língua […] seria a gramática requisitada por esses gêneros, em função do que se poderia estabelecer com mais precisão […] o alcance das regras […]” (idem). Ler com autonomia e proficiência é um requisito básico na formação de qualquer estudante da EJA, e, dessa forma, se a função primeira é formar cidadãos aptos à compreensão dos diversos tipos textuais com os quais se defrontam, é necessário uma maior organização no trabalho educativo, objetivando que esses alunos experienciem e aprendam isso em sala de aula.

Isso se dá, especialmente, “quando os alunos não possuem contato sistemático com materiais de leitura adequados, quando não participam de práticas existentes na vida cotidiana onde ler é imprescindível” (LAJOLO, 2011, p. 23). As interações verbais dão-se pelo ato de ler, pelo ato da fala, da troca de informações. Compreende-se o ato de ler como o processo de ‘construção de significados’, partindo do próprio texto lido, o que é possível pela interligação entre os elementos textuais e os conhecimentos internalizados do leitor. Quanto mais houver consonância entre o texto e o leitor, mais possibilidades existirão, e, assim, a leitura obterá êxito.

3. ORALIDADE E LETRAMENTO

Verifica-se que os alunos da EJA, em muitas das vezes, não entendem o que escrevem, visto que os textos não se apresentam com palavras completas e exatas, mas, para o educador, o contexto é compreensível, e, então, pode-se observar que assim ocorre o letramento. É necessário ultrapassar algumas concepções acerca do primeiro aprendizado concernente à lecto-escrita. A mais difundida concepção é aquela em que ler é unicamente decodificar e transformar letras em sons, referindo-se, ainda, ao fato de que a compreensão é a decorrência natural dessa ação. Devido a essa concepção carregada de equívocos, a escola vem lançando uma enorme quantidade de leitores aptos a decodificar qualquer texto, entretanto, com grandes dificuldades no entendimento do que tentam ler (FOUCAMBERT, 1994). Assim, é necessário oferecer subsídios que favoreçam as situações interativas com ênfase na leitura.

Como processo interacional que envolve a linguagem e, portanto, a construção conjunta de contextos para agir sobre o outro, a leitura, antes reduzida a uma questão linguístico-pedagógica, passou a ser considerada uma prática social e discursiva. Por isso, acredita-se que a aprendizagem acontece em espiral, e, dessa forma, as atividades de leitura retomam, aprofundam e ampliam aspectos pertinentes à maturidade e às habilidades linguísticas (BAMBERGER, 2002). Para Marcuschi (2010, p. 15), “é impossível investigar oralidade e letramento sem uma referência direta ao papel dessas duas práticas” na contemporaneidade”. A escrita se diferencia da prática em relação à distribuição de seus usos no cotidiano. Aprender a ler é muito mais do que simplesmente aprender o valor sonoro das letras, isto é, juntar sílabas, palavras, frases (SOARES, 2003).

É preciso proporcionar, ao estudante, o contato e a interação com textos escritos, de modo que ele possa perceber as funções sociais da escrita: ler por algum motivo ou para alguma coisa. É importante ressaltar a relevância da leitura na vida social dos indivíduos. Contemplar os diversos textos que circulam na sociedade dentro da sala de aula é favorecer que os discentes se apropriem dos mesmos, sabendo utilizá-los nas mais diversas situações do cotidiano. São as situações deabendo utilize os discentes se apropriemde dentro da sala de aula ente sua misss linguagens e pedagogia, professores de pedagog uso da leitura e o valor que se dá a essa prática social que configuram um contexto de letramento e um espaço de reflexão sobre como funciona as coisas no mundo (MARCUSCHI, 2010). Nesse sentido, é importante utilizar, em sala de aula, textos que retratam o cotidiano dos alunos para que a identificação destes com os textos seja imediata e favoreça o letramento.

Quando a escola não valoriza a diversidade de saberes, fruto das experiências anteriores, faz com que os alunos entrem em um mundo estranho e hostil. Nessas condições, é de se esperar que percebam que não podem corresponder ao que os professores esperam deles e acabam desenvolvendo a crença de que são incapazes ou de que não aprenderão a ler e escrever ou interpretar textos.  Reconhecer diferenças de repertório sobre a leitura implica um comprometimento efetivo com a aprendizagem dos alunos que não possuem quase nenhum contato com textos e seus usos, pois são exatamente estes que mais dependem da escola para ter acesso ao conhecimento letrado. Nessa perspectiva, os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 2001, p. 34), “enfatizam a diversidade textual extraescolar que pode e deve estar a serviço da expansão do conhecimento letrado do aluno”.

Para ler e escrever bem os educandos precisam esforçar-se ativamente. Por isso, é importante que o educador medie esse processo e que seja capaz de orientar esses alunos de maneira que os novos saberes que venham a facilitar tanto a leitura e escrita quanto a interpretação textual sejam enfatizados e transpassados. Uma das práticas sociais referentes ao letramento é a ação de ensinar a ler. Não é satisfatório, portanto, apenas decodificar a língua escrita para que seja considerado letrado. É preciso apropriar-se de uma condição nova, a saber, passar a ser um usuário dessa língua como leitor e elaborador de textos, optando o que é de interesse seu em conformidade às suas intenções (seja a de interatuar com outros indivíduos, orientando-se, buscando influenciar e procurando informações, instruindo-se, entre outras). Assim, é necessário expressar-se, adequando a comunicação escrita aos distintos contextos e condições de produção, de forma que não tenha somente relação com o âmbito escolar (MARCUSCHI, 2010).

Segundo Soares (2003), a palavra letrado tem novo significado e é usada, em sua concepção, para caracterizar a pessoa que, além de saber ler e escrever, faz uso frequente e competente da leitura e da escrita. Como consequência disso o indivíduo se transforma, ou seja, é levado a uma outra situação ou condição sob diversos aspectos, a saber: cultural e social, linguístico e cognitivo, entre outros. Torna-se capaz de agir para transformar relações e práticas sociais. Desse modo, é função do educador cooperar para pôr seus educandos em estado de letramento. O professor não pode se limitar, por conseguinte, a instruir a decodificar e/ou a reproduzir o código linguístico. Ensinar a ler passa, também, pela ação de estimular o hábito prazeroso da leitura que possibilita o ingresso ao conhecimento brotado ou que está ainda em produção e ao prazer estético (contemplação do que é belo, do que nos emociona, do que nos mobiliza profundamente).

O aluno deve estar ciente dos benefícios de saber ler. O professor faria bem, então, em ajudar o aluno a construir uma representação positiva da leitura e dos poderes que ela confere ao cidadão. E, em cada situação particular da sala de aula, deveria explicitar, para os alunos, os objetivos de toda atividade de leitura (SILVA, 2005). Para as escolas, faz-se necessário, também, ensiná-los, de forma contextualizada, a gramática normativa para que aprendam a escrever de forma correta, não esquecendo que, na oralidade, ocorre a variação linguística, como retrata Antunes (2009, p. 207), “atendendo a diferenças do lugar, do meio social ou da situação sociocultural em que a atividade verbal ocorre”. O autor continua ressaltando que a língua escrita ainda não “ainda parece subsistir a impressão de uma língua escrita uniformemente, totalmente estável, sem variações” (idem).

Informa, ainda, que essa impressão é reforçada pela exigência da ortografia oficial, em seu padrão rígido e sem alterações, com mudanças que ocorrem de tempos em tempos, mas sem muita significação (ANTUNES, 2009, p. 207). O professor contribui para a ação leitora quando desenvolve atividades significativas tais como: lê em voz alta; comenta ou discute, com os alunos, os conteúdos e as funções dos textos lidos; proporciona, aos educandos, familiaridade com os gêneros textuais; solicita que o leitor identifique, nos textos, as características dos gêneros lidos; sabe reconhecer diferentes gêneros textuais e quando identifica suas características gerais, quando favorece o trabalho de compreensão e quando orienta as expectativas do leitor diante do texto.

O convívio dos indivíduos nas práticas sociais de leitura e escrita na vida comunitária e escolar, possibilita-os, ainda que não saibam ler e escrever da forma convencional, apropriar-se do ato leitor/escritor, em um processo de contato com as situações de aprendizagem que o conduzem à reflexão sobre as hipóteses em construção e à reconstrução da aprendizagem. Atender esse objetivo requer promover práticas educativas que desenvolvam, nos educandos, habilidades de produzir e ouvir textos orais e escritos de diferentes gêneros e com diferentes funções. É papel do mediador promover trabalhos qualitativos, propor a formação de leitores autônomos e desenvolver, no contexto da sala de aula e fora dela, projetos que dão sentido a construção dos diferentes saberes desse leitor/escritor.

4. METODOLOGIA

O estudo apresentou o uso da pesquisa bibliográfica como uma possibilidade metodológica. Desse modo, partiu-se, a princípio, de um estudo teórico que abordou temas relacionados ao letramento, leitura e escrita, Educação de Jovens e Adultos, metodologias diversificadas, entre outras temáticas, ou seja, a pesquisa bibliográfica embasou teoricamente o estudo da revisão literária. Dessa forma, as fontes consultadas partiram de teóricos sobre a temática abordada bem como de textos acadêmicos, livros, artigos e periódicos em site especializado (SCIELO), publicados entre os anos de 1994 a 2011, para viabilizar a execução do trabalho, dando o norteamento para a elaboração do estudo.

Desse modo, partiu, a princípio, de um estudo teórico, sendo este uma revisão literária, e, para coletar os materiais necessários para tal embasamento, utilizou-se os seguintes descritores com as palavras-chave: Letramento; Lecto-escrita; Educação de Jovens e Adultos. Conforme Gil (2008), a pesquisa, entre outros itens, constitui, também, um levantamento bibliográfico (também chamada de pesquisa bibliográfica ou fundamentação teórica ou ainda, revisão literária). A partir desse estudo tem-se como objetivo contribuir com a academia fornecendo dados sobre a prática da lecto-escrita.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Esse estudo buscou trabalhar o contexto da lecto-escrita na modalidade da educação de jovens e adultos, sendo destinado à aprendizagem dos professores da EJA, e, assim, objetivou-se compreender a importância da leitura e escrita nesse modalidade de educação no contexto da oralidade e letramento. Trabalhar pedagogicamente com propostas e ações concretas de leitura e escrita é considerar, nos procedimentos metodológicos, a realidade do aprendiz, o contexto social em que este ser se encontra, reconhecer a individualidade existente em cada cidadão, cada região, cada comunidade em que se encontra essa escola.

Considerando o contexto apresentado, em suma, faz-se necessário aproveitar as experiências vivenciadas pelos alunos. Ler é um ato, pois exige esforço mental ativo. Daí a relevância da intervenção do professor da Educação de Jovens e Adultos nesse processo, visando a orientação e incentivo ao ensino de procedimentos inovadores da lecto-escrita, proporcionado não só a leitura proficiente, mas aquela que facilita a interpretação e produção de textos. Quem lê bem, escreve melhor.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, I.  Língua, texto e ensino: outra escola possível. São Paulo: Parábola Editorial, 2009.

BAMBERGER, R. Como incentivar o hábito de leitura. São Paulo: Ática, 2002.

BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais. Língua Portuguesa. 3ª ed. Brasília, 2001.

FOUCAMBERT, J. A leitura em questão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.

GIL, A. C. Como elaborar projetos de pesquisa. 4ª ed. São Paulo: Atlas, 2008.

LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo. São Paulo: Ática, 2011.

MARCUSCHI, L. A. Da fala para a escrita: atividades de retextualização. 10ª ed. São Paulo: Cortez, 2010.

SILVA, E. T. da. A Produção da leitura na escola – pesquisas x propostas. São Paulo: Ática, 2005.

SOARES, Magda. Letramento: um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.

[1] Mestranda em Ciências da Educação pela Universidad Grendal, Graduada em Letras Vernáculas pela UNEB – Campus X, Teixeira de Freitas-BA, (2000), Especialista em Língua portuguesa pela FINON (2008) e Educação Inclusiva pelas Faculdades Integradas de Jacarepaguá (2012).

Enviado: Fevereiro, 2020.

Aprovado: Fevereiro, 2020.

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