ARTIGO ORIGINAL
SILVA, Lyandra Jhéssica Rodrigues [1], FREITAS NETO, Joaquim Generoso de [2]
SILVA, Lyandra Jhéssica Rodrigues. FREITAS NETO, Joaquim Generoso de. A importância da literatura infantil nas séries iniciais. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 07, Vol. 01, pp. 31-46. Julho de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/importancia-da-literatura, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/importancia-da-literatura
RESUMO
O presente trabalho aborda a importância da literatura infantil nas séries iniciais como instrumento essencial para o desenvolvimento cognitivo, emocional, social e linguístico das crianças. A leitura de obras literárias, além de promover o prazer estético e a imaginação, contribui significativamente para a formação do leitor crítico e criativo, favorecendo o aprendizado em diferentes áreas do conhecimento. A literatura infantil atua como mediadora entre o aluno e o mundo, permitindo a construção de valores, o fortalecimento da identidade e o desenvolvimento da empatia. O estudo destaca ainda o papel do professor como mediador da leitura, responsável por selecionar obras adequadas à faixa etária, propor atividades de reflexão e incentivar o hábito de ler de forma prazerosa e significativa. Conclui-se que a inserção sistemática da literatura infantil no cotidiano escolar é fundamental para o processo de alfabetização e letramento, bem como para a formação integral do educando, conforme os princípios da educação contemporânea.
Palavras-chave: Literatura infantil, Séries iniciais, Leitura, Formação do leitor, Mediação pedagógica.
1. INTRODUÇÃO
A literatura infantil desempenha um papel fundamental no desenvolvimento integral da criança, especialmente nas séries iniciais do Ensino Fundamental, constituindo-se como uma ferramenta pedagógica essencial no processo educativo. De acordo com Zilberman (2003), a literatura infantil ultrapassa o caráter meramente recreativo, assumindo uma função formativa ao contribuir para a construção do pensamento, da sensibilidade e da identidade da criança. Para a autora, o contato precoce com textos literários favorece a formação de leitores críticos e conscientes.
Nesse sentido, Coelho (2000) destaca que a literatura infantil atua diretamente no desenvolvimento da imaginação, da criatividade e do senso crítico, pois permite à criança vivenciar situações simbólicas, refletir sobre conflitos humanos e compreender diferentes perspectivas de mundo. As narrativas literárias possibilitam à criança interpretar a realidade de forma mais ampla, relacionando o texto com suas próprias experiências.
O professor ocupa uma posição fundamental na mediação entre a criança e o texto literário, pois é ele quem possibilita que o contato com a leitura se transforme em uma vivência relevante. À luz de Vygotsky (1998), entende-se que o conhecimento se constrói nas interações sociais; nesse contexto, o professor atua como mediador ao apoiar a criança na atribuição de significados, ampliando a interpretação dos textos e contribuindo para o desenvolvimento de suas capacidades cognitivas.
Compreender sua relevância nas séries iniciais é reconhecer que ela contribui não apenas para o desenvolvimento intelectual, mas também para a formação integral do indivíduo, consolidando-se como um instrumento indispensável no processo de ensino-aprendizagem.
O objetivo deste artigo é analisar o impacto da falta de interesse pela leitura e das estratégias inadequadas de ensino da literatura infantil na formação de novos leitores nos primeiros anos do Ensino Fundamental, propondo práticas pedagógicas capazes de estimular o gosto pela leitura e, consequentemente, o desenvolvimento cognitivo pleno da criança. Entre os objetivos específicos estão: (i) compreender o contexto histórico da literatura infantil; e (ii) destacar a importância do acesso a livros durante a primeira infância para a iniciação à leitura e a construção de leitores. A justificativa se apoia na função da literatura infantil de promover o desenvolvimento integral das crianças, considerando que as primeiras experiências de leitura podem determinar a relação futura com o universo literário.
Diversos estudos reforçam a importância da literatura infantil. Coelho (2000) enfatiza que ela deve ser compreendida como uma manifestação artística e cultural, capaz de desenvolver habilidades linguísticas, imaginação, sensibilidade e senso crítico. Zilberman (2003) destaca que o hábito da leitura deve ser incentivado desde cedo, especialmente no ambiente escolar, ressaltando a importância da mediação do professor na formação de leitores autônomos. Colomer (2007) evidencia o potencial da literatura para trabalhar valores, culturas e diferentes pontos de vista, quando integrada de maneira significativa ao cotidiano escolar.
Autores como Ana Maria Machado (2005) defendem que a leitura deve ser prazerosa e despertar a curiosidade da criança, formando leitores críticos e cidadãos conscientes. Silva et al. (2021) reforça que a literatura infantil contribui para o desenvolvimento da linguagem oral e escrita, amplia o vocabulário e estimula a criatividade, além de abrir espaço para debates sobre diversidade e inclusão. Batista (2019) destaca o papel essencial do professor na mediação da leitura, apontando desafios relacionados à formação docente e à necessidade de políticas públicas que garantam o acesso a livros de qualidade.
Nessa perspectiva, busca-se compreender de forma crítica como a literatura infantil é trabalhada nas séries iniciais do ensino fundamental, identificando os principais desafios enfrentados pelos professores e as estratégias pedagógicas adotadas para tornar a leitura literária significativa, dinâmica e transformadora no cotidiano escolar. Ao analisar essas práticas, o estudo pretende evidenciar o papel da literatura infantil na formação do leitor, destacando sua contribuição para o despertar do gosto pela leitura desde os primeiros anos, para a ampliação do vocabulário, o desenvolvimento da compreensão textual e a construção da identidade cultural da criança, consolidando, assim, bases essenciais para uma aprendizagem contínua e ao longo da vida.
2. LITERATURA INFANTIL: CONCEITO, HISTÓRIA E FUNÇÃO SOCIAL
A produção literária destinada ao público infantil pode ser compreendida como uma forma de arte direcionada à infância. Segundo Antonio Candido (1995), ela não se limita a conteúdos pedagógicos nem se reduz a materiais de apoio escolar, pois envolve uma dimensão estética e simbólica própria, relacionada à criação e à interpretação de sentidos. Nesse contexto, entende-se que esse tipo de literatura não se diferencia por sua constituição, mas pela forma como se orienta a um público específico, tendo a criança como principal referência. Segundo Coelho:
A literatura infantil é antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e sua possível/impossível realização… (Coelho, 2000, p. 27).
Nesse sentido, o contato com a literatura proporciona à criança experiências que estimulam seu envolvimento com diferentes formas de pensar e sentir, favorecendo a construção de novas maneiras de compreender o mundo. Ao explorar narrativas, ela passa a estabelecer relações entre aquilo que vivencia e os universos apresentados nos textos, o que contribui para o desenvolvimento intelectual e para a ampliação de suas formas de aprendizagem.
De acordo com Regina Zilberman (2003), na obra A literatura infantil e o imaginário, esse tipo de produção ocupa um lugar próprio, pois, ao mesmo tempo em que envolve e sensibiliza, também contribui para a formação da criança, não como um instrumento escolar direto, mas como um meio de inserção cultural e de desenvolvimento humano. Nesse sentido, distingue-se dos livros voltados ao reforço de conteúdos, já que prioriza a vivência estética e o contato reflexivo com a linguagem, favorecendo uma formação mais ampla.
No contexto brasileiro, um ponto de virada ocorre com as produções de Monteiro Lobato. Conforme aponta Nelly Novaes Coelho (2000, p. 49), suas obras alteraram o padrão vigente até então, marcado por narrativas com finalidade moralizante, ao propor histórias que se relacionavam com o universo infantil de maneira mais dinâmica e questionadora. As histórias ambientadas no Sítio do Picapau Amarelo incorporaram aspectos da cultura popular, da tradição oral e da imaginação, configurando-se como um espaço que instiga tanto o pensamento quanto o envolvimento do leitor.
Para os Parâmetros Curriculares Nacionais de Língua Portuguesa:
A literatura não é cópia do real, nem puro exercício de linguagem, tampouco mera fantasia que se asilou dos sentidos do mundo e da história dos homens. Se tomada como uma maneira particular de compor o conhecimento, é necessário reconhecer que sua relação com o real é indireta. Ou seja, o plano da realidade pode ser apropriado e transgredido pelo plano do imaginário como uma instância concretamente formulada pela mediação dos signos verbais (ou mesmo não verbais conforme algumas manifestações da poesia contemporânea) (Brasil 1997, p. 29).
Dessa maneira, a literatura infantil estabelece uma relação constante entre experiências concretas e elementos imaginativos, permitindo que a criança compreenda o mundo a partir dessa interação. Ao longo do tempo, novos nomes ganharam destaque nesse cenário, como Ruth Rocha, Ziraldo e Ana Maria Machado, que contribuíram para a ampliação das formas de narrar, incorporando diferentes temas e estruturas.
No caso de Ziraldo, suas produções trouxeram situações próximas à vivência infantil, com destaque para O Menino Maluquinho. Já Ruth Rocha apresentou narrativas que provocam questionamentos sobre atitudes e relações sociais, como em Marcelo, Marmelo, Martelo. Por sua vez, Ana Maria Machado desenvolveu histórias que abordam diferentes dimensões da experiência humana, envolvendo aspectos imaginativos e reflexivos.
Com essas contribuições, a literatura infantil no Brasil passou a ocupar um espaço relevante como forma de produção cultural, colaborando para a formação de leitores capazes de interpretar e se posicionar diante da realidade. Nesse contexto, conforme destaca Nelly Novaes Coelho (2000), esse tipo de literatura também exerce um papel importante na constituição da identidade e da subjetividade da criança, ao possibilitar o contato com diferentes formas de ver e compreender o mundo.
Entre suas funções sociais, destacam-se: Formação de valores éticos e morais; Estímulo à imaginação e à criatividade; Desenvolvimento do senso crítico; Promoção da sensibilidade estética e cultural. Segundo Coelho (2000):
A literatura infantil é, antes de tudo, literatura; ou melhor, é arte: fenômeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra. Funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, as ideias e sua possível/impossível realização (Coelho, 2000, p.27).
Sendo compreendida não apenas como forma de lazer, a literatura infantil é também um instrumento de formação humana e social. A leitura literária é essencial para o desenvolvimento da linguagem, pois contribui significativamente para a ampliação do vocabulário, o aprimoramento da capacidade de interpretação e o fortalecimento da expressão oral e escrita. Nesse sentido, destaca que o contato frequente com textos literários possibilita à criança o domínio progressivo da linguagem, uma vez que a leitura promove a internalização de estruturas linguísticas, amplia o repertório lexical e favorece a produção de sentidos. De modo complementar, Rildo Cosson (2014) ressalta que a leitura literária, ao inserir o leitor em práticas sociais de leitura, estimula a compreensão textual e o uso consciente da linguagem em diferentes contextos comunicativos. Além disso, ao entrar em contato com diferentes estilos, gêneros e narrativas, a criança desenvolve maior sensibilidade estética e consciência linguística. A literatura insere a criança no patrimônio cultural da humanidade, permitindo-lhe reconhecer-se como sujeito histórico e cultural. Através das histórias, o leitor infantil é apresentado a valores de sua própria cultura e também a manifestações de outros povos, ampliando sua percepção sobre o mundo e sua capacidade de respeitar a diversidade.
Assim, pode-se afirmar que a literatura infantil cumpre um papel decisivo no processo de formação integral da criança, articulando dimensões linguísticas, cognitivas, culturais e sociais.
3. A LITERATURA INFANTIL NO PROCESSO DE ENSINO-APRENDIZAGEM
A literatura infantil, quando inserida no espaço escolar, desempenha função essencial no processo educativo, ultrapassando o caráter lúdico para assumir uma dimensão formativa. Ela contribui para a constituição do sujeito leitor, favorecendo aprendizagens cognitivas, linguísticas, emocionais e sociais. Como afirma Freire (1989, p. 9), “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”, sendo a literatura um caminho privilegiado para a construção de sentidos e para a compreensão crítica da realidade”.
A leitura deve ser inserida na vida do indivíduo desde a infância, de modo a favorecer a construção de uma relação significativa com o livro ao longo de sua trajetória. Os livros infantis, por apresentarem narrativas atrativas e recursos visuais variados, contribuem para o estímulo da imaginação e do interesse pela leitura, diferentemente de materiais didáticos voltados exclusivamente para avaliações escolares, que tendem a priorizar objetivos instrucionais.
Quando se fala de literatura, os termos leitor e leitura aparecem relacionados de maneira bastante estreita. Deve-se entender a leitura num sentido amplo, como a instância de recepção de diversos tipos de texto escrito, um texto visual, o teatro, as pessoas que nos rodeiam e o mundo (Gregorin Filho, 2010, p.44).
Nessa conjuntura, o autor declara que, ao mesmo tempo a literatura infantil possibilita inúmeras formas de leituras, diferentes gêneros textuais, permite que todos os gostos literários sejam atendidos, parte de um texto escrito até mesmo de uma peça teatral, desperta alegria e encantamento, textos conhecidos por uma história contada, e até mesmo de uma imagem analisada ou uma música escutada.
3.1 CONTRIBUIÇÕES DA LITERATURA PARA O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO, LINGUÍSTICO E EMOCIONAL
O contato com a literatura amplia as capacidades cognitivas ao estimular a imaginação, a criatividade e o pensamento abstrato. No campo linguístico, a literatura infantil favorece a apropriação de novos vocábulos e estruturas. Abramovich (1997, p. 17) observa que “ouvir histórias é o início da aprendizagem para ser leitor, é escutar a língua em sua forma mais elaborada”.
Do ponto de vista emocional, Bettelheim (1980, p. 6) defende que “os contos de fadas transmitem mensagens importantes à mente consciente, pré-consciente e inconsciente da criança, em qualquer nível de compreensão em que ela se encontre”, auxiliando no enfrentamento simbólico de medos e conflitos internos. Em outras palavras, especialmente os contos de fadas não serve apenas para entreter, mas também para educar emocionalmente, ajudando a criança a elaborar sentimentos complexos, reconhecer valores humanos e fortalecer sua autoconfiança diante dos desafios da vida.
3.2 RELAÇÃO ENTRE LITERATURA INFANTIL E ALFABETIZAÇÃO/LETRAMENTO
A literatura infantil contribui significativamente para os processos de alfabetização e letramento. Soares (2003, p. 36) diferencia: “alfabetização é o processo de aquisição do sistema convencional de escrita, e letramento é o desenvolvimento de habilidades de uso competente desse sistema em práticas sociais de leitura e escrita”. Nesse sentido, a literatura oferece contextos reais e significativos para a leitura, ao mesmo tempo em que insere a criança nas práticas sociais da escrita, ampliando seu repertório cultural e crítico. É importante também que possamos entender o conceito de alfabetização e letramento:
[…] um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado; alfabetizado é aquele indivíduo que saber ler e escrever, já o indivíduo letrado, indivíduo que vive em estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita, pratica a leitura e a escrita, responde adequadamente às demandas sociais de leitura e de escrita (Soares, 2002, p. 40).
Diante disso, entende-se que a alfabetização é o conhecimento da leitura e escrita, e o letramento é quando o aluno se familiariza com a leitura e a escrita conseguindo inserir esses dois mecanismos no meio social, uma criança alfabetizada não é uma criança letrada.
Além disso, as obras literárias também podem ser exploradas como recurso interdisciplinar, estabelecendo conexões entre diferentes áreas do saber. Zilberman (2003, p. 25) afirma que “a literatura não é apenas forma estética, mas também veículo de valores e conhecimentos”. Assim, histórias podem introduzir conteúdos históricos, fábulas podem despertar reflexões éticas e poemas podem dialogar com noções matemáticas de ritmo e proporção, ampliando o horizonte de aprendizagem.
Para isso, a mediação do professor é decisiva para que a literatura infantil cumpra sua função pedagógica. Freire (1996, p. 69) acrescenta que “ensinar exige disponibilidade para o diálogo”, destacando que cabe ao professor criar condições de interação entre criança e texto literário. Práticas como a leitura em voz alta, rodas de leitura e contação de histórias constituem momentos de construção coletiva de sentidos e formação de leitores críticos.
4. DESAFIOS E POSSIBILIDADES DA LITERATURA INFANTIL NAS SÉRIES INICIAIS
Desde os primeiros anos escolares, a literatura infantil se configura como um recurso indispensável na formação de leitores. Ao entrar em contato com histórias, a criança amplia seu repertório linguístico, exercita a imaginação, aprofunda conhecimentos culturais e desenvolve a capacidade de refletir sobre a realidade que a cerca. Embora sua relevância seja amplamente reconhecida, sua efetiva presença nas salas de aula iniciais ainda enfrenta diversos desafios. Ainda assim, quando utilizada de forma planejada e intencional, a literatura infantil oferece inúmeras possibilidades de transformar o ambiente escolar e enriquecer o processo de ensino e aprendizagem, conforme destaca Quevedo (2002):
Ler é muito mais que decodificar símbolos gráficos, é “captar” o mundo em nossa volta, sendo assim, a leitura se torna uma função essencial, pois é uma atividade presente desde que nascemos, quando passamos a “ler” o mundo através dos nossos sentidos (Quevedo, 2002, p. 27).
A partir da abordagem apresentada por Quevedo (2002), reconhece-se que o espaço escolar assume uma função determinante nesse processo, uma vez que representa o local legitimado socialmente para o desenvolvimento consciente da leitura e da escrita. Nesse contexto, compete à escola organizar práticas e proporcionar meios que contribuam para a formação do sujeito leitor, estimulando o interesse, a participação ativa e a capacidade de interpretar, elementos fundamentais para a construção de uma leitura consistente e reflexiva.
Apesar da importância da literatura infantil, muitos fatores dificultam sua valorização nas séries iniciais. Um dos principais problemas é a falta de acesso a livros de qualidade. Em muitas escolas públicas, as bibliotecas são escassas, desatualizadas ou inexistentes, o que impede que os alunos tenham contato frequente com obras literárias diversas. O autor Douglas (1971) afirma que o acervo de uma biblioteca escolar deve: “corresponder tanto às exigências do programa escolar quanto à diversidade dos gostos e das necessidades dos alunos e professores.”
Além disso, observa-se um excesso de materiais didáticos e cobranças curriculares, que relegam a literatura infantil a segundo plano. A pressão por resultados e o foco em avaliações externas contribuem para que os momentos de leitura sejam sacrificados em nome do cumprimento de conteúdo.
4.1 ESTRATÉGIAS PARA VALORIZAÇÃO DA LITERATURA INFANTIL
Apesar das dificuldades presentes, existem caminhos viáveis para ampliar o espaço da literatura nos anos iniciais. Entre eles, destaca-se a organização de ambientes de leitura acessíveis e atrativos, com acervos variados que atendam aos interesses das crianças e incentivem seu envolvimento com os livros. Essa proposta está alinhada às diretrizes da Base Nacional Comum Curricular, que enfatiza a relevância da convivência constante com diferentes gêneros e práticas de linguagem no desenvolvimento do leitor. Conforme orienta o documento da BNCC, essas experiências são fundamentais para a formação de sujeitos capazes de interagir, compreender e produzir textos em diversos contextos. De acordo com a BNCC:
[…] a prática da leitura deve ser sempre um meio e não um fim. Para isso, a participação da biblioteca é fundamental, devendo possuir um ambiente confortável e agradável, com acervo variado, de o professor possa indicar livros, mas em que também os alunos possam escolhê-los por conta própria, e até mesmo levá-los para casa (Brasil, 2000).
A constituição do leitor também passa pela realização de iniciativas voltadas à leitura, como momentos de partilha sobre livros, narração de histórias, circulação de materiais literários entre os alunos e eventos dedicados aos livros. Tais experiências favorecem a aproximação dos estudantes com as obras, criando um ambiente propício ao envolvimento com a leitura de maneira espontânea e significativa. De acordo com Rildo Cosson (2014), atividades realizadas em grupo contribuem para o letramento literário, pois permitem a construção coletiva de sentidos e fortalecem a relação do leitor com o texto.
Além disso, a atuação conjunta entre escola e família mostra-se indispensável, já que o contato com a leitura fora do espaço escolar reforça e amplia as experiências vivenciadas em sala. Nesse sentido, Teresa Colomer (2007) destaca que o envolvimento familiar no acesso aos livros favorece o interesse contínuo pela leitura e auxilia na consolidação de práticas leitoras ao longo do tempo. Dessa forma, quando há estímulo tanto no contexto escolar quanto no ambiente familiar, o desenvolvimento do leitor tende a ocorrer de maneira mais efetiva e consistente.
A leitura diária de livros em voz alta, feita pelo professor, é uma estratégia simples, mas muito eficaz. Essa prática desperta o interesse das crianças e possibilita a escuta atenta e a imaginação ativa. Dessa forma Carpinejar (2008) cita que:
Criança tem o olhar aberto para o poético na medida em que ela tem o olhar exercitado para brincar. Mas precisa ser incentivada a brincar com a língua por meio de muitos jogos de palavras: ditados populares, cantigas de todo tipo, de roda, de ninar, parlendas, quadrinhas, os poemas em si. Também ajuda viver em um ambiente em que impere a poesia, ter tido liberdade para olhar o mundo de modo detido, ainda que seu tempo de concentração seja diferente daquele do adulto, demorado e com minúcia. Afinal, criança é poeta quando em seus achados cotidianos desvenda um ângulo diferente para ver as coisas e para expressá-las verbalmente (Carpinejar, 2008, p. 7).
Nessa perspectiva, estabelece-se uma relação marcada pelo envolvimento espontâneo, pelo interesse genuíno e pela liberdade de interação da criança com o livro, que passa a ser explorado de forma lúdica. É nesse tipo de experiência que se constrói, de fato, o vínculo com a leitura, desde que a criança tenha oportunidades adequadas para se aproximar desse objeto em seu próprio ritmo.
A literatura infantil também contribui de maneira relevante ao permitir que a criança interprete suas próprias experiências, expresse sentimentos e participe da construção de sua identidade. Conforme destaca Teresa Colomer (2007), as narrativas possibilitam que o leitor se identifique com personagens e situações, favorecendo uma compreensão mais ampla de si mesmo e das relações que estabelece com os outros. Além disso, o contato com textos literários impulsiona formas mais elaboradas de pensamento, ao incentivar a interpretação e a problematização da realidade. Nessa linha, Antonio Candido (1995) evidencia a dimensão formativa da literatura, ressaltando seu papel na sensibilização, na construção da consciência social e na participação do indivíduo na vida em sociedade. Dessa forma, a inserção contínua da literatura infantil nos anos iniciais mostra-se indispensável para o desenvolvimento pleno do leitor.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A literatura infantil nas séries iniciais da educação é um pilar essencial para o desenvolvimento das crianças, e sua importância vai muito além da simples transmissão de conteúdos linguísticos. Ela atua como um elo entre o conhecimento acadêmico e a formação moral, emocional e social das crianças, sendo uma ferramenta poderosa na construção da identidade e na compreensão do mundo que as cerca.
Ao longo dos primeiros anos de escolarização, as crianças têm sua imaginação estimulada, sua capacidade de empatia expandida e suas habilidades cognitivas e linguísticas aprimoradas por meio da literatura. O contato com histórias e personagens proporciona uma experiência rica de aprendizado, que envolve não só a aquisição de competências linguísticas, mas também o cultivo de valores como o respeito à diversidade, a solidariedade, a justiça e a colaboração.
A literatura infantil, portanto, desempenha um papel decisivo na formação de leitores, mas também na formação de cidadãos críticos e conscientes. Ela possibilita que as crianças se identifiquem com diferentes culturas e realidades, desenvolvam suas próprias opiniões e reflexões e, ao mesmo tempo, ampliem seu repertório afetivo e intelectual. Além disso, a leitura de livros infantis oferece momentos de prazer, criando o gosto pela leitura que acompanhará os indivíduos ao longo de toda a vida.
Percebemos que a valorização e o incentivo à literatura infantil nas séries iniciais devem ser uma prioridade nas políticas educacionais, pois, ao promover o hábito da leitura desde os primeiros anos de escolarização, estamos investindo na construção de um futuro mais consciente, criativo e empático para nossas crianças. A literatura infantil é mais do que uma disciplina ou uma prática educativa, é um instrumento de transformação social e cultural, capaz de moldar a consciência e o caráter das futuras gerações. A integração eficaz da literatura nas séries iniciais é, assim, um investimento fundamental para o desenvolvimento integral das crianças e para a construção de uma sociedade mais crítica e plural.
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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Graduanda em Pedagogia. ORCID: https://orcid.org/0009-0004-8644-8574. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/7532546783425393.
[2] Orientador. Mestre em Estudos da Linguagem – Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem – UFCAT. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-6846-5785. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/7275866945434390.
Contribuição dos autores:
Lyandra Jhéssica Rodrigues Silva: Concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Joaquim Generoso de Freitas Neto: Interpretação e redação do trabalho.
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Conflito de interesse:
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 27 de outubro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 29 de janeiro de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 19 de junho de 2026.



