A avaliação e as inteligências múltiplas

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ARTIGO DE REVISÃO

MARTINS, Thayane dos Santos [1]

MARTINS, Thayane dos Santos. A avaliação e as inteligências múltiplas. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 02, Vol. 07, pp. 128-135. Fevereiro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/a-avaliacao

RESUMO

O presente estudo tem como metodologia uma revisão bibliográfica que teve como objetivo apresentar a Teoria das Inteligências Múltiplas de Howard Gardner como instrumento para avaliação. O trabalho discorre que um dos motivos do fracasso escolar é a avaliação, por muitas das vezes contemplar apenas as competências linguística e lógico-matemática, excluindo as outras. Nesse caso, se torna ineficaz indicar a verdadeira potencialidade do discente. Educadores e educandos podem ter importantes contribuições para o processo de ensino e aprendizagem com essa teoria, ao defender que a forma que os alunos aprendem é diferente, que cada aluno é singular e possui inteligências próprias. Portanto, há necessidade de toda comunidade escolar reformular as formas de ensino e avaliação estimulando a inclusão de todos.

Palavras-Chave: Aprendizagem, avaliação, Inteligências Múltiplas.

1. INTRODUÇÃO

A percepção de quem é a culpa do fracasso escolar decorrente das avaliações atuais e os métodos de ensino comumente utilizados tem como base teórica as inteligências múltiplas de Howard Gardner (1994). Pois ele apresenta que o sistema educacional avalia apenas uma ou duas das diversas inteligências compostas no indivíduo que normalmente são a linguística e lógico-matemática, excluindo as outras inteligências que são: musical, espacial, intrapessoal, interpessoal, cinestésica-corporal e naturalista. Desprezando um enorme potencial de cada ser humano.

Essas outras inteligências podem ser incentivadas e trabalhadas no espaço escolar, mas para isso o professor terá que expandir a sua capacidade de observação para perceber a maneira que o aluno desenvolve.

O fracasso nas avaliações normalmente remete ao aluno, uma vez que ele é dado como responsável pela aprendizagem e o professor pelo ensino, nessa ótica as dificuldades enfrentadas pelo discente acaba sendo responsabilidade dele. No entanto, o ideal é usar o termo fracasso escolar como responsabilidade de ambos (aluno/professor), pois o docente enfrenta problemas em sala de aula e necessita de suporte mais apropriado para entender que a forma que os alunos assimilam é diferente. Que cada aluno é singular e único.

Antigamente o professor era protagonista do processo de aprendizagem, já os alunos era depósito de informações. Ao passar do tempo, o aluno tornou-se protagonista e assim o professor teve que se adaptar as novas práticas para que atendesse os discentes.

O fracasso nas avaliações é decorrente do insucesso dos relacionamentos entre professor, aluno, conteúdo, escola, sistema de ensino, e o ambiente e a família convivendo com todos. Geralmente, esses últimos (ambiente e a família) não se dá tanta responsabilidade no processo de aprendizagem, é visto como se apenas o professor e o aluno responsáveis pelo fracasso. Aluno e professor repetem as mesmas práticas com objetivo de alcançar efeitos diferentes. Um exemplo disso é quando o docente percebe a dificuldade e indica diversos exercícios de forma idêntica, o aluno se torna ainda mais desinteressado.

É necessário que o professor analise o processo de ensino e aprendizagem que levou a avaliação ruim. Busque alternativas e avalie seu trabalho como também seu aluno. A avaliação deve propor diálogo e aproximação entre os agentes e assim melhoria no aprendizado.

Diante disso, este trabalho sugere que a avaliação suceda a partir da concepção das inteligências múltiplas de Haward Gardner. Ele defende que a inteligência é dividida em oito tipos: linguísticas, lógico-matemática, espacial, musical, corporal-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e naturalista. Defende que o indivíduo tem potencial para diversas inteligências, mas apresenta propensão para certa inteligência desde criança o que pode ser observado pelo professor.

Sendo assim, o professor identifica as dificuldades do aluno de acordo com a teoria de Gardner e planeja a maneira de abordar aquele conteúdo de forma que ajude o aluno superar as dificuldades. Conforme apresentado a teoria de Gardner com o fracasso escolar.

As respostas para a avaliação ruim de determinado conteúdo, como também, assimilar as particularidades de cada aluno que tem dificuldade no aprendizado, pode estar na teoria das inteligências múltiplas. O reconhecimento das variadas inteligências orientadas por Gardner pela escola acaba sendo mais complicado, pois as avaliações normalmente são baseadas apenas nas inteligências lógico-matemática e na linguística não abrangendo as capacidades que são consideráveis para a vida dos alunos.

A concepção de inteligências múltiplas não tem como objetivo ser uma fórmula mágica para o fracasso escolar, mas sim um embasamento para refletirmos o que é inteligência e as possibilidades de avaliações.

2. A AVALIAÇÃO E AS INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS

Distinta da concepção tradicional de inteligências, que geralmente avalia somente habilidades intelectuais ligadas à linguística e a lógica matemática. Howard Gardner constatou oito tipos de inteligências, que são elas: musical, corporal-sinestésica, lógico-matemática, linguística, espacial, intrapessoal, interpessoal, naturalista. E assim constatou:

A teoria das inteligências múltiplas é certamente relevante para a educação, mas não é em si uma razão ou objetivo educacional. Como assinalamos anteriormente, a afirmação de que nós, como espécie, temos certo número de inteligências, e que os indivíduos diferem em seus perfis particulares, pode levar a qualquer número de práticas educacionais, algumas delas contradizendo outras. Um fato ou uma hipótese sobre a condição humana nunca pode em si mesmo ditar o que fazer na manhã de segunda-feira ou no próximo ano (GARDNER, 1995, p. 58)

A Inteligência musical é a capacidade de apreciação das formas de expressividade musical (timbre, tom e ritmo). É a habilidade de produzir ou reproduzir músicas, normalmente associada a inteligência linguística. A criança com a essa habilidade discerne diversos sons em seu ambiente. Além de conseguir interpretar, ler, escrever e se manifestar por meio da música. Gardner defende que qualquer pessoa pode desenvolver sua inteligência musical.

A música representa no processo ensino aprendizagem o estímulo ao uso dos sentidos pelo aluno. Independente do estilo e dos instrumentos utilizados, promove em que toca e quem houve maior habilidade de observação, localização, compreensão e representação. As músicas escolhidas ajudam na interpretação de textos no dia a dia escolar. O professor com esse aluno pode explorar avaliações através de paródias, vocabulário, letras entre outras coisas. A música pode ser usada também como início de debates importantes, como ecologia, política, educação. Confere ao docente a escolha das músicas pertinentes e com mais relevância de aprendizado para seus alunos.

A Inteligência Corporal-Cinestésica é estabelecida como a capacidade de usar o corpo para solucionar problemas e trabalhar com objetos de forma hábil. Este tipo de inteligência é presente em atletas, dançarinos e atores. O aluno dotado dessa inteligência demonstra uma coordenação fina aprimorada. São alunos que tem inclinação para inquietude.

Através de jogos e atividades físicas o professor consegue trabalhar o pensamento crítico, a concentração, senso de solidariedade, noção de espacialidade entre outras. Pode também realizar peças teatrais, grupos de dança e competições esportivas.

A Inteligência Lógico-Matemática é a capacidade para o raciocínio dedutivo, consegue realizar operações e problemas matemáticos de maneira muito rápida. É associada ao pensamento científico, sendo uma das inteligências de maior relevância na sociedade humana, desse modo a ideia convencional de inteligência. Possui habilidade de concluir, deduzir, comparar, medir, enumerar.

Esse tipo de inteligência é encontrado em economistas, contadores, engenheiros. O professor pode trabalhar com jogos, exemplo e o xadrez, quebra-cabeças, preparar competições de física e matemática, apresentar desafios lógicos.

A inteligência linguística ou verbal é a capacidade que o aluno tem de lidar de forma criativa com as palavras em diversos níveis da linguagem, se comunica bem tanto na fala quanto na escrita. Possui habilidades para transmitir ideias, convencer e consegue pensar usando palavras. Essa inteligência é encontrada em professores, advogados, poetas e entre outras profissões.

Ao analisar um aluno com essa habilidade no mau comportamento na escola percebe conversas paralelas, fora de hora. O professor pode criar jornais da escola, dar a oportunidade desse aluno ler e falar as experiências vividas, modelar a utilização da linguagem corretamente.

A inteligência espacial é a capacidade de perceber o mundo visual de maneira precisa. É o potencial de elaborar mapas, plantas, imaginar deslocamentos ou movimentos. Normalmente, costumam pensar através de fotografias e imagens. Na criança pequena essa inteligência é facilmente percebida na habilidade com quebra-cabeças e jogos de videogames. Profissionais como escultores, arquitetos, pilotos tem essa habilidade. O professor pode trabalhar com maquetes, criar espaços para exporem seus trabalhos artesanais.

A inteligência interpessoal é a capacidade de compreender intenções, motivações, desejos e humores de outras pessoas. É comum em terapeutas, professores, vendedores e líderes religiosos. O aluno tem facilidade para socialização com os outros e lideranças de equipes. O professor com esse tipo de aluno pode sugerir trabalhos e jogos em grupo.

A inteligência intrapessoal é observada por Gardner como uma das mais importantes, pois é a capacidade de se controlar e conhecer internamente. Entender seus potenciais e motivações. O aluno com essa inteligência tende a ter um bom comportamento, pois tem mais autocontrole. O professor com esse modelo de aluno pode recompensá-lo pelo bom desempenho, aulas de filosofia também é interessante.

A inteligência naturalista é a habilidade de identificar tipos de plantas, animais e elementos da natureza. Esse tipo de inteligência normalmente é encontrado em biólogos, veterinários e agricultores. Um aluno com essa capacidade é comum levar um animal para a escola sem a permissão da professora. A intervenção pedagógica pode se dar através de visitas aos zoológicos e aquários, observação do meio ambiente, explorar por um microscópio um animal, plantar sementes.

Anteriormente o professor era protagonista do processo de aprendizagem, já os alunos só absorviam os conteúdos. Eram tidos como depósitos de informações. Ao passar do tempo, o aluno se tornou protagonista desempenhando um papel ativo na constituição do seu respectivo aprendizado. Não apenas absorvendo, mas agregando conhecimento através de debates, informações, exposições de ideias. As vantagens dessa inversão de papéis é a eficiência no aprendizado, desenvolvimento de responsabilidade e autonomia, criatividade, criação de espírito de equipe. Segundo Celso Antunes:

O papel do novo professor é o de usar a perspectiva de como se dá a aprendizagem, para que, usando a ferramenta dos conteúdos postos pelo ambiente e pelo meio social, estimule as diferentes inteligências de seus alunos e os leve a se tornarem aptos a resolver problemas ou, quem sabe, criar “produtos” válidos para seu tempo e sua cultura (ANTUNES, 2008, p. 97-98)

Paulo Freire já defendia a concepção do ser inacabado, que está em constante evolução, em 1996 no seu livro Pedagogia da Autonomia:

Gosto de ser gente porque a história em que me faço com os outros e de cuja feitura tomo parte é um tempo de possibilidades, e não de determinismo. […] Gosto de ser gente porque, inacabado, sei que sou um ser condicionado, mas, consciente do inacabamento, sei que posso ir mais além dele. Esta é a diferença profunda entre o ser condicionado e o ser determinado. A diferença entre o inacabado que não se sabe como tal e o inacabado que histórica e socialmente alcançou a possibilidade de saber-se inacabado. (FREIRE, 2013, p. 52-53).

O fracasso escolar pode ser explicado através da teoria das inteligências múltiplas, pois ela demonstra a maneira que o aluno aprende. Se o professor não ensinar de acordo com as particularidades do aluno, ele não se apropria do aprendizado. Não internaliza os conhecimentos, valores, conceitos e dessa forma não atende as expectativas. Tira baixas notas, ocasionando a reprovação e por fim o abandono da escola. Essa conexão das inteligências múltiplas e as dificuldades de aprendizagem, de acordo com Gardner:

É da máxima importância reconhecer e estimular todas as variadas inteligências humanas e todas as combinações de inteligência. Nós somos todos tão diferentes, em grande parte, porque possuímos diferentes combinações de inteligências. Se reconhecermos isso, penso que teremos pelo menos uma chance melhor de lidar adequadamente com os muitos problemas que enfrentamos neste mundo (GARDNER, 1987, apud ARMSTRONG, 2001, 13).

Compete ao professor formular atividades para gerar conhecimento. Por isso, a necessidade de o docente conhecer os canais de aprendizagem de seus alunos e a partir desses canais propor a avaliação. Exclusivamente provas escritas que exploram apenas as habilidades linguísticas e/ou lógico-matemática não são suficientes para determinar a aprendizagem, pois os alunos possuem inteligências distintas.

A avaliação mediadora defendida por Jussara Hoffmann é um modelo mais adequado para medir a singularidade de cada aluno. Pois exige atenção no aluno, entender seus argumentos, sugerir questões desafiadoras e novas. Dessa maneira, Jussara Hoffmann argumenta:

A crença no sistema tradicional de avaliação como responsável por uma escola competente (uma visão bastante saudosista da escola exigente, rígida, disciplinadora, detentora do saber) que, no entanto, não encontra respaldo na realidade com a qual nos deparamos nesse momento (HOFFMANN, 2014, p. 16-17).

O “erro” não é algo negativo, mas sim uma oportunidade de o professor avaliar suas atitudes ao planejar sua aula e identificar as características de seus alunos. Portanto, mudar ou aprimorar sua proposta pedagógica. O professor é visto como quem ajuda no desenvolvimento, ensinando e aprendendo com cada um deles. Conhecendo, ouvindo seus argumentos, propondo questões desafiadoras e novas.

Portanto, a Teoria das Inteligências Múltiplas, na proporção em que desfaz a ideia de inteligência, sugere aos professores que refaçam sua prática pedagógica, como também o aprofundamento das diversas inteligências que o aluno pode possuir. Visto que, existem talentos diferentes em cada ser, cada aluno é único e possui um potencial enorme que precisa ser valorizado pela escola, e assim a avaliação precisa ser modificada, para que o aluno tenha a oportunidade de compartilhar o que aprendeu, sejam por intermédio de músicas, desenhos, gráficos, linguagem.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A proposta desse trabalho foi apresentar as contribuições da Teoria das inteligências Múltiplas de Howard Gardner para educação. Teoria que vai além das formas convencionais de avaliação da escola, limitadas nas competências lógico-matemática e da linguística.

O educador pode defender que sua finalidade é ensinar, no entanto, sua finalidade deve ser gerar aprendizagem significativa. Para isso é necessário que o professor observe seus alunos, se reinvente pedagogicamente, planeje uma aula diferente e formule avaliações inovadoras.

A avaliação com a finalidade de ajudar à aprendizagem é fundamental que o professor entenda seus alunos e conheça seus potenciais. Cada ser humano é único e necessita de formas de ensino particulares para inclusão de todos.  Mantendo suas habilidades mais dominantes, ao invés de colocá-los em modelos avaliativos que não servem.

REFERÊNCIAS

ANTUNES, Celso. As inteligências múltiplas e seus estímulos. 14ª ed. Campinas, SP: Papyrus, 2008.

ARMSTRONG, Thomas. Inteligências múltiplas na sala de aula. Porto Alegre, RS: Artmed, 2001.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 47ª ed. Rio de Janeiro, RJ: Paz e Terra, 2013.

GARDNER, Howard. Estruturas da Mente: A Teoria das Inteligências Múltiplas. Porto Alegre, RS: Artmed,1994.

HOFFMANN, Jussara. Avaliação mediadora: uma prática em construção da pré-escola à universidade. Porto Alegre, RS: Mediação, 2014.

[1] Psicopedagogia Institucional, Clínica E TGD.

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Fevereiro, 2021.

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