Oclusão Vascular: Uma Revisão Bibliográfica Sobre A Eficácia Deste Protocolo De Treinamento

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ARTIGO DE REVISÃO

CARBALLO, Fábio Peron [1], VIROTE, Bárbara do Carmo Rodrigues [2], AMARAL, Kátia Jéssica Brandão [3], PIMENTA, Luciana Duarte [4], BILA, Wendell Costa [5], MEDEIROS, Paulo Eduardo Souza [6]

CARBALLO, Fábio Peron. Et al. Oclusão Vascular: Uma Revisão Bibliográfica Sobre A Eficácia Deste Protocolo De Treinamento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 05, Vol. 12, pp. 43-55. Maio de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao-fisica/protocolo-de-treinamento

RESUMO

Atualmente, percebe-se uma crescente busca dos profissionais de educação física por modelos diferenciados de treinamento, entre os protocolos está a oclusão vascular. Por ser um assunto ainda pouco abordado, o presente trabalho, objetivou-se realizar uma revisão bibliográfica para apresentar a oclusão vascular, explicando as principais reações fisiológicas que ocorrem durante o treinamento, estabelecendo seu modo de aplicação, instrumentos necessários e ainda trazer opiniões de profissionais da área acerca do assunto. Este excerto traz uma ideia de como pode ser promissora a aplicação de um treinamento de força associado à restrição do fluxo sanguíneo, demonstrando seus benefícios para os praticantes do mesmo, sem descartar a sua necessidade de estudos mais amplos e aprofundados.

Palavras-chave: Restrição do fluxo sanguíneo, Método Kaatsu, Variáveis de treinamento.

1. INTRODUÇÃO

Quando o assunto em pauta é treinamento muscular, as pessoas tendem a buscar diversas variáveis que possam lhe auxiliar no alcance de seus objetivos. Essa busca por técnicas de treinamento mais eficientes é fato constante na vida do profissional de educação física (MAIOR, 2013).

Existem diversas variáveis de treinamento disponíveis que são amplamente utilizadas pelos profissionais do meio, mas uma das mais discutidas recentemente, é a prática de exercícios associada à obstrução do fluxo sanguíneo (oclusão vascular) do indivíduo em treinamento (LOENNEKE et al., 2011).

O treinamento resistido associado à oclusão vascular consiste na aplicação de exercícios de fortalecimento muscular, juntamente à aplicação de uma pressão externa na região proximal do segmento trabalhado, através de faixas elásticas, cintas ou manguito de pressão, em intensidade suficiente para induzir alguma porcentagem de redução do fluxo sanguíneo (LUZ; PINTO; DE CERQUEIRA, 2020).

O método de treinamento por oclusão vascular foi desenvolvido em 1966 pelo cientista do esporte e fisiculturista japonês Yoshiaki Sato, por meio de testes feitos nele mesmo. Sato o denominou de Kaatsu Training (ou Método Kaatsu para os brasileiros). Tal método utiliza, além da restrição do fluxo sanguíneo, de exercícios com baixa carga de peso, promovendo assim a hipertrofia metabólica, que seria o inchaço dos músculos por retenção hídrica (SATO, 2005).

O fluxo sanguíneo é um importante componente no transporte de oxigênio para o músculo durante sua atividade e a sua restrição durante a atividade física tem se mostrado benéfica no ganho de hipertrofia muscular e força, similar ao ganho com exercício resistido tradicional de alta intensidade, porém utilizando menor intensidade (GUIMARÃES; ALVES; LOPES, 2020).

A utilização deste método tem sido bastante estudada por nomes conceituados da área de educação física e saúde, e, demonstram que associar a oclusão vascular ao exercício físico traz grandes benefícios ao praticante, e o mesmo pode ser utilizado em diversos protocolos de treinamento, tais como a musculação, exercícios resistidos com auxílio de cargas, e em treinamentos funcionais (COSTA et al., 2012). Segundo Wolinski; Neves e Pietrovski (2013) observa-se que o método de treinamento por oclusão vascular consiste utilizar estímulos resistidos de baixa intensidade combinados com a obstrução do fluxo sanguíneo, fazendo com que os resultados hipertróficos sejam induzidos a partir da grande quantidade de sangue venoso, o que pode, de fato, auxiliar a melhora do ganho de massa muscular em indivíduos saudáveis, induzindo a hipertrofia.

Porém este método tem sido bastante discutido entre os profissionais da área, e ainda traz muitas dúvidas mesmo com todos os pontos positivos já encontrados, pois pode apresentar vários riscos ao praticante como hemorragia subcutânea, dormência, anemia cerebral, entre outros (WOLINSKI; NEVES e PIETROVSKI, 2013).

Diante dessas incertezas, a oclusão vascular é um tema com abordagem ainda bastante restrita nos cursos de graduação e precisa ser melhor estudada. Baseando-se principalmente na pertinência do tema para os profissionais da área, apresenta-se como um objetivo deste trabalho, a investigação da eficiência e contribuição desta técnica aos resultados de treinamentos físicos em toda a sua amplitude de aplicação em estudos encontrados nas principais bases de dados. Com a apresentação de definições e explicações importantes sobre as reações fisiológicas que ocorrem no corpo do indivíduo ao utilizar a oclusão vascular. Também demonstrações de públicos que podem ou não ser alvos deste protocolo, além de salientar quais os riscos que podem apresentar para cada um deles.

2. REAÇÕES FISIÓLOGICAS DURANTE A OCLUSÃO VASCULAR

Sabe-se que o termo oclusão se refere à obstrução, fechamento ou bloqueio proposital momentâneo, de uma abertura ou passagem natural do organismo (SATO, 2005). Desta forma, pode-se entender que o método Kaatsu trabalha com a restrição do retorno venoso e diminuição do fluxo arterial (YASUDA et al., 2010).

Para a aplicação do método, torna-se necessária a utilização de um manguito flexível colocado na parte proximal do membro em treinamento, para que assim o sangue seja acumulado neste local, aumentando a concentração de substâncias nos vasos, como por exemplo, hormônios, lactato e íons de hidrogênio, o que termina por ocasionar um grande estresse metabólico (WERNBOM; AUGUSTSSON e RAASTAD, 2008).

Segundo Costa et al. (2012) a restrição do fluxo sanguíneo durante o exercício físico de baixa intensidade:

[…] aumenta a resistência, fosforilação e síntese proteica muscular, além de promover o incremento de sua força, tanto quanto o exercício de resistência convencional com altas cargas. No entanto, o mecanismo celular responsável pelo ganho de força e hipertrofia induzida pela restrição do fluxo sanguíneo ainda não são conhecidos completamente (COSTA et al., 2012, p.193).

Conforme citado, ainda não se conhece detalhadamente e completamente todos os fatores que favorecem a hipertrofia e ganho de força através da oclusão, porém já foi constatado que os resultados são bastante semelhantes aos obtidos com treinamento de alta intensidade com maiores cargas (COSTA et al., 2012).

Wilmore e Costill (2001) afirmam que a hipertrofia é o aumento do tamanho muscular, decorrente do treinamento de força, onde ocorrem alterações estruturais reais do músculo. O exercício de força representa um estímulo específico que normalmente resulta em aumento de massa muscular, indicando aumento de proteínas intracelulares como actina e miosina e, também de outras moléculas como creatina, glicogênio e água (HENRIKSSON, 1995; DESCHENES e KRAEMER, 2002).

Assim como treinamentos com oclusão vascular, o aumento da resistência e o ganho de massa muscular a uma ligação direta com a fadiga da musculatura e o acúmulo de metabólitos em seu interior (OSAKI, 2011).

Maior (2013), especialista em Fisiologia do estado do Rio de Janeiro e praticante do método Kaatsu há pelo menos um ano, descreve sobre a sua experiência com o treinamento:

Quando faço a oclusão, gero pressão e acumula plasma no local, que não consegue retornar ao coração e fica ali. Esse acúmulo gera pressão hidrostática, ou seja, há mais água fora das células do que dentro delas e, para se preservarem desse desequilíbrio, as células e as fibras hipertróficas se abrem para que a água entre e igualem as pressões intra e extra-celulares. Quanto mais água dentro das células, maior o tamanho do músculo, gerando uma hipertrofia aguda que, quando acontece constantemente, passa a ser crônica. (MAIOR, 2013, p.239-251).

Para Sato (2005), o acoplamento do manguito utilizado deve ter uma área de atuação bastante precisa e deve exercer uma pressão adequada suficiente para alavancar o menor estímulo tensional decorrente de uma carga de treino baixa. Sato ainda afirma que os melhores e mais seguros níveis pressóricos estão entre 120 e 150 mmHG (milímetros de mercúrio) para membros superiores e aproximadamente 200 mmHG para os inferiores.

Nos estudos de Loenneke et al. (2010) e Yasuda et al. (2010), sugere-se que a prática favorece uma maior utilização das fibras musculares tipo II, estas que possuem maior potencial hipertrófico. Isso ocorre devido ao aumento das concentrações de lactato (fibras de contração rápida), o que inibe a contração das fibras musculares, obrigando o corpo a ativar mais fibras no mesmo nível de geração de força. Ocorre também uma subsequente estimulação do aumento dos fatores de crescimento (hormônio GH) e da síntese proteica. Nestes estudos também é demonstrado que o treinamento por oclusão vascular pode induzir a secreção do hormônio do crescimento, aumentar a densidade óssea mineral, melhora o desempenho aeróbico e anaeróbico e redução de pressão arterial em pessoas hipertensas.  Além de vários outros estudos demonstrarem que a restrição do fluxo sanguíneo favorece a redução do processo de sarcopenia, maior concentração sérica de GH, aumento de força e da área de secção transversa, tanto em indivíduos jovens quanto em idosos (DE BARROS et al., 2019).

Mas apesar de todos esses pontos positivos, esse treinamento, deve ser aplicado com cautela, pois se aplicada de forma errônea e equivocada, pode trazer graves transtornos fisiológicos. Como necrose do tecido muscular e/ou formação de trombos, lesões, cansaço, dor, hemorragia subcutânea, dor extrema, dormência, coceira, sensação de frio, danos cardiovasculares (GUIMARÃES; ALVES; LOPES, 2020). Como demonstrado no estudo realizado por Spranguer et al. (2015) foi sugerido que o treinamento com oclusão vascular cause uma hiperatividade do sistema nervoso simpático, e este por sua vez atuaria no aumento da pressão arterial e estresse cardiovascular, aumentando assim, possíveis riscos de efeitos adversos.

Todos os efeitos fisiológicos acima mencionados devem ser bastante observados pelos profissionais da área antes de prescrever o treinamento Kaatsu ao seu aluno. Apesar de sua abrangência de público, englobando indivíduos saudáveis e com alguma disfunção física, nem todos estão aptos à prática, podendo sofrer com os efeitos, como dor e hemorragias, em maior escala. (LOENNEKE et al., 2010).

É necessário atentar-se não só para os resultados positivos, que são consideravelmente mais significativos segundo os estudos revisados, mas também para todas a limitações apresentadas pelos estudiosos contrários à prática do método, cuidados e restrições na utilização da oclusão vascular como protocolo de treinamento. Pois os mecanismos fisiológicos que explicam a eficiência deste tipo de treinamento ainda não estão totalmente esclarecidos, mas parecem ser dependentes de alterações metabólicas, hormonais, produção de radicais livres, entre outros (GUIMARÃES; ALVES; LOPES, 2020).

3. CUIDADOS E RESTRIÇÕES NA UTILIZAÇÃO DA OCLUSÃO VASCULAR COMO PROTOCOLO DE TREINAMENTO

Um dos primeiros cuidados a ser observado, deve-se a forma correta de aplicação do Kaatsu juntamente com a utilização dos materiais adequados. Como já foi demonstrado, a oclusão vascular para ser aplicada, necessita de um manguito flexível posicionado nas extremidades dos membros inferiores e superiores. Este manguito precisa ser capaz de medir a pressão utilizada, para que não seja aplicada uma pressão menor e/ou maior no local, o que comprometeria a eficiência da técnica, e consequentemente, traria diversos efeitos negativos ao praticante (MAIOR, 2013; TAKARADA; TAKAZAWA e ISHII, 2000).

É necessário destacar também que o treinamento com oclusão vascular não deve ser aconselhado quando se lida com pacientes hemodinamicamente instáveis, especialmente pacientes que sofrem de doenças cardiovasculares (MAIOR, 2013; TAKARADA; TAKAZAWA e ISHII, 2000).

Cauê La Scala Teixeira (2018), profissional de educação física, especialista em Fisiologia do Exercício e Treinamento de Força, professor na Faculdade de Praia Grande e autor do livro Treinamento de Força com Oclusão Vascular, alerta para os riscos desse treinamento em pessoas com condições físicas não controladas:

Justamente por restringir o retorno venoso, a prática é contraindicada para portadores de doença vascular periférica e a qualquer pessoa que tenha uma condição não controlada, como diabetes, hipertensão ou ainda pacientes com histórico de AVC (acidente vascular cerebral) ou alguma doença cardíaca (TEIXEIRA, 2018, p. 79)

A aplicação do método para estes indivíduos deve ser bastante estudada, pois suas condições físicas trazem uma necessidade de controle maior das variáveis envolvidas, e as mesmas podem sofrer em maior escala com os possíveis efeitos adversos provocados pela técnica, tais como, danos nos nervos e paralisia, lesões no músculo e nas veias, dentre outros (TEIXEIRA, 2018).

A tabela abaixo, adaptada de Nakajima, Morita e Sato (2011), demonstra os principais fatores de risco para a aplicação do Kaatsu. Importante ressaltar que, dentro deste contexto, quanto maior a pontuação, menor será a indicação do método.

Tabela 1 – Fatores de risco que devem ser avaliados antes de aplicar o método oclusão vascular.

Pontuação Fatores de Risco
5 pontos Histórico de trombose venosa profunda.

Tendência hereditária para trombose.

Síndrome do anticorpo antifosfolipídeo.

4 pontos Mulheres grávidas.
3 pontos Veias varicosas nas pernas.

Imobilidade prolongada (> 8 horas e uso de tromboprofilaxia). Fibrilação atrial.

Insuficiência cardíaca congestiva.

2 pontos Pessoas com idade superior a 60 anos.

IMC > 30.

Dislipidemia.

Neoplasia maligna.

Uso de torniquete nos membros inferiores.

Uso de contraceptivos orais e hormônios adrenocorticais.

Quadriplegia.

Níveis elevados de hemoglobina

1 ponto Pessoas com idade entre 40 a 58 anos.

Mulheres.

25 < IMC <30.

Fonte: Nakajima, Morita e Sato (2011)

Todos os itens apontados na tabela acima indicam fatores limitantes da aplicação da técnica que devem ser observados e analisados individualmente a fim de validar a utilização da oclusão vascular (NAKAJIMA; MORITA e SATO, 2011).

Um dos fatores de risco mais preocupantes é o histórico de trombose venosa. Este, ocupa o primeiro lugar na tabela de risco devido a técnica favorecer substancialmente a formação de trombos intravasculares. Tentando explicar este fenômeno, Madarame et al. (2013) realizaram estudos a fim de avaliar os efeitos agudos do exercício resistido associado a restrição do fluxo sanguíneo sobre os fatores hemostáticos relacionados à formação de trombina e de trombos intravasculares.

Como resultado observaram que de forma aguda, os testes não foram capazes de desencadear a cascata de coagulação em homens saudáveis, e que, no caso de homens com doenças crônicas isquêmicas no coração, porém estáveis, o método é relativamente seguro, isso do ponto de vista hemostático. Outro fator importante observado: os níveis plasmáticos de noradrenalina neste grupo, aumentaram significativamente (MADARAME et al., 2013).

Todavia, é preciso salientar que, a aplicação equivocada do método sem as devidas avaliações dos fatores de risco mencionados, é que será responsável pelo desencadeamento de quaisquer efeitos adversos negativos ao aluno.

A partir das tabelas apresentadas acima, foi possível esclarecer e ressaltar que mesmo o mais promissor protocolo de treinamento em estudo atualmente, traz consigo a necessidade de observação dos possíveis cuidados e restrições em sua aplicação (NAKAJIMA; MORITA e SATO, 2011). Cada um desses aspectos do treinamento deve ser previamente analisado de forma individual, levando em consideração as características físicas e fisiológicas de cada indivíduo, a fim de traçar a melhor estratégia e evitar danos ao aluno/paciente (NAKAJIMA; MORITA e SATO, 2011).

4. PÚBLICO ALVO E SUAS VARIÁVEIS DE TREINAMENTO

Avaliando o público alvo deste método de treinamento, percebe-se que o mesmo pode ser bastante variável, sendo o mesmo aplicado em pessoas saudáveis, atletas e até mesmo com algumas disfunções físicas (HUGHES et al., 2017).

No Japão, o método é utilizado para o tratamento de diversas condições físicas, como doenças musculares, ortopédicas, cardíacas, respiratórias, hipertensão, diabetes e obesidade. Além é claro de ser utilizado também em atletas e pessoas totalmente saudáveis (HUGHES et al., 2017).

Alguns especialistas da área efetuaram estudos com idosos com fraqueza muscular, artrite e comorbidades ortopédicas; e também com pessoas submetidas a cirurgia de reconstrução do ligamento cruzado anterior (TAKARADA; TAKAZAWA e ISHII, 2000). Como visto por De Barros et al., (2020) que a utilização do método de treinamento com oclusão vascular em idosos hipertensos apresentou respostas satisfatórias, com uma carga inferior ao método tradicional.

Cook et al. (2017), aplicou o treinamento também em idosos com risco para limitação funcional, utilizando do método de treinamento resistido de alta intensidade com o treinamento resistido de baixa intensidade e com oclusão vascular a fim de comparação de resultados. Seus estudos demonstraram que após 12 semanas de treinamento, ganhos de força muscular e hipertrofia foram similares entres os grupos.

Os resultados do estudo de Takarada; Takazawa e Ishii (2000) em indivíduos de estado pós cirúrgicos no ligamento cruzado anterior, mostraram que:

[…] no grupo controle, a área de secção transversa dos extensores e flexores do joelho diminuiu cerca de 20% e 11% respectivamente, enquanto que o grupo que realizou o método oclusão vascular, a área de secção transversa diminuiu somente 9% nos extensores e nos flexores do joelho, demonstrando que o método oclusão vascular aplicado 1 dia após a cirurgia de LCA durante 13 dias seguidos, foi capaz de retardar o processo de atrofia causado pelo desuso muscular pós-cirurgia (TAKARADA; TAKAZAWA e ISHII, 2000, p. 2035-2039).

Observando o relato acima sobre os resultados do estudo mencionado, pode-se avaliar como promissora a aplicação do método de Kaatsu em pacientes pós-cirúrgicos, onde ocorre uma grande diminuição da mobilidade e consequentemente atrofia muscular diante da inutilização daquele músculo após o procedimento cirúrgico (TAKARADA; TAKAZAWA e ISHII, 2000).

Outro estudo realizado por Pinto e Polito (2015) efetuaram uma análise com a pretensão de demonstrar as respostas hemodinâmicas acarretadas pela oclusão vascular durante o exercício em um grupo de indivíduos com hipertensão. O estudo mostra que indivíduos hipertensos, mesmo com o controle da medicação, podem ser mais sensíveis às oscilações hemodinâmicas e cardiovasculares causadas pelos exercícios resistidos com a oclusão vascular. Porém, é importante salientar que estes resultados podem ser divergentes conforme o modelo experimental, o que não extingue a necessidade de, para este grupo de indivíduos, a adoção de uma maior cautela em sua aplicação (PINTO e POLITO, 2015).

Uma das vertentes de treinamento físico que podem ser associados à oclusão vascular, é a caminhada. Osaki et al. (2011), avaliaram os efeitos da caminhada com e sem a obstrução do fluxo sanguíneo por um período de 10 semanas, em indivíduos normotensos, com idades entre 57 e 76 anos. Foram avaliados os seguintes aspectos: complacência da artéria da carótida, força e hipertrofia. Após o período mencionado, notou-se que somente o grupo com obstrução do fluxo sanguíneo obteve ganho de hipertrofia e aumento de níveis de força muscular, no entanto, os dois grupos obtiveram aumento da complacência arterial (OSAKI et al., 2011).

Em consonância, Renzi; Tanaka e Sugawara (2010) efetuaram estudos sobre o efeito agudo também da caminhada com e sem oclusão vascular sobre a função cardiovascular em indivíduos jovens saudáveis, com média de idade de 26 anos. Neste estudo foram aplicados protocolos parecidos com o do estudo anterior Osaki et al. (2011). Como resultado obteve-se, os seguintes resultados no grupo que realizou a caminhada com oclusão vascular: Aumento significativo da pressão arterial sistólica, diastólica, pressão arterial média, resistência periférica total, frequência cardíaca, e duplo produto; redução da complacência arterial sistêmica, o que sugere uma sobrecarga no ventrículo esquerdo; e diminuição da função endotelial da artéria poplítea.

Apesar do estudo ter sido feito em indivíduos saudáveis, torna-se necessário frisar que estas alterações citadas acima, de forma aguda em indivíduos com algum comprometimento da função cardiovascular como hipertensão, diabetes, obesidade, doença arterial periférica e insuficiência cardíaca congestiva, podem induzir a uma sobrecarga circulatória (RENZI; TANAKA e SUGAWARA, 2010).

Desta forma, nota-se a variabilidade de público que esta técnica pode atender. E apesar de ser um assunto em pauta no mundo dos educadores físicos e existirem inúmeros estudos que avaliam os resultados de diversos protocolos de treinamento, como exercícios resistidos e caminhada, associados à oclusão vascular, em diversas faixas etárias, o assunto ainda possui a necessidade de que qualquer prescrição de treinamento neste contexto esteja pautada na individualidade do aluno e em rigorosas avaliações físicas e fisiológicas (PINTO e POLITO, 2015).

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A ideia do presente trabalho surgiu com a observação de que um assunto relativamente novo no cenário dos educadores físicos estava sendo bastante discutido entre os profissionais da área. Notou-se que o mesmo possuía uma restrita abordagem na graduação, o que fez com que um estudo sobre o mesmo fosse pertinente e muito importante.

Por meio dos artigos e materiais estudados, ficou evidente que a aplicação de um treinamento de força associado à oclusão vascular é bastante promissora. Reações como a indução da secreção do hormônio do crescimento, melhora do desempenho aeróbio e anaeróbio em atletas, redução de pressão arterial foram observadas nos estudos encontrados e são apenas algumas das que tornam esse método tão promissor.

Mas, apesar de todos os resultados apresentados serem promissores, o tema oclusão vascular necessita de mais alguns estudos e testes para ter sua eficiência atestada com confiabilidade em variáveis grupos de indivíduos, sejam eles, saudáveis ou com limitações funcionais.

Quanto as limitações funcionais, alguns estudiosos não recomendam a prescrição deste treinamento para pessoas com condições não controladas, como diabetes, histórico de AVC e doenças cardíacas. Para estes indivíduos, a sensibilidade para com a restrição do fluxo sanguíneo pode ser maior que um indivíduo saudável, fazendo com que os efeitos negativos do treinamento (dor intensa, hemorragia subcutânea, dormência, etc.) sejam sentidos em maior escala.

No entanto, a utilização da oclusão vascular demonstrou resultados muito positivos para pacientes em estado pós-cirúrgico, melhorando a mobilidade destes pacientes, levando a uma redução significativa da atrofia muscular causada pelo desuso do músculo em tratamento.

Diante disso, pode-se considerar a oclusão vascular um promissor método de treinamento, desde que o profissional se atente para todos os cuidados necessários para sua aplicação, como a avaliação individual do estado físico e fisiológico de seu aluno, a fim de detectar se o mesmo se enquadra como público alvo deste treinamento.

REFERÊNCIAS

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[1] Doutorado em Ciências da Educação; Mestrado em Educação; Especialização em Treinamento Esportivo-Personal; Graduação em Filosofia – Licenciatura Plena e Graduação em Educação Física.

[2] Mestrado em Ciências e Graduação em Ciências Biológicas – Licenciatura Plena.

[3] Especialização em Musculação e Condicionamento Físico e Graduação em Educação Física.

[4] Doutorado em Promoção da Saúde, Mestrado em Promoção da Saúde, Especialização em Treinamento Esportivo e Graduação em Educação Física.

[5] Doutorado em Ciências da Educação; Mestrado em Educação e Graduação em Educação Física.

[6] Mestrado em Ciências do Esporte e Graduação em Educação Física.

Enviado: Abril, 2021.

Aprovado: Maio, 2021.

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