Educação física e lazer no rio Marapanim – Pará

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao-fisica/educacao-fisica-e-lazer
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ARTIGO ORIGINAL

MONTEIRO, Erislene Rione Mota [1], DENDASCK, Carla Viana [2], FERNANDES, Roseane da Silva Matos [3], OLIVEIRA, Euzébio de [4], BAHIA, Mirleide Chaar  [5]

MONTEIRO, Erislene Rione Mota. Et. al. Educação física e lazer no rio Marapanim – Pará. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 01, pp. 101-127. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

Esta pesquisa teve por objetivo principal analisar o uso do rio Marapanim como espaço de educação física e lazer, a fim de averiguar como se dá o uso dos espaços do rio para tal. Como objetivos específicos buscou-se verificar qual a frequência de uso do espaço pelos visitantes e quais as vivências de lazer realizadas no mesmo. A coleta e a análise das da investigação foram de cunho qualitativo, com caráter exploratório, realizadas por meio de revisão bibliográfica e pesquisa de campo, por meio de observações não participantes e aplicação de entrevistas semiestruturadas aos usuários do rio Marapanim. No primeiro momento, referente a pesquisa bibliográfica despontou com a compreensão de lazer sendo caracterizado como um tempo livre de quaisquer obrigações; por meio das observações, foi possível catalogar diversas atividades de lazer que estavam contempladas, além de possibilitar perceber que o público frequentador do referido espaço é bastante variado. Por meio das entrevistas aos usuários do rio foi possível verificar que o ambiente natural é um grande atrativo para os frequentadores, em função de seu caráter diferencial, tratando-se de um espaço público na natureza, inserido em uma área urbana; A conclusão desta pesquisa se dá a partir dos resultados aqui apresentados e na consideração de sua contribuição com a conscientização da importância de vivências de lazer em ambientes naturais. Foi possível perceber que o ambiente é de extrema relevância para os frequentadores, o espaço é um local de procura assídua para lazer, tendo como um dos principais atrativos a paisagem natural que o constitui, tratando-se de natureza dentro de uma área urbana, além de ser um ótimo local para a vivência da socialização principalmente das famílias.

Palavras-chave: Vivências de Lazer, Meio Ambiente, rio Marapanim.

1. INTRODUÇÃO

No Brasil, o lazer e o meio ambiente são direitos sociais garantidos pela Constituição Federal de 1988. Neste estudo o lazer é caracterizado como tempo livre de obrigações e comportará a relação de ambientes naturais com as práticas de lazer (MARCELLINO, 2006).

Em decorrência da urbanização das cidades e de outros fatores, como a globalização e os avanços tecnológicos, a nova formatação da sociedade assim como trouxe o lazer como necessidade, trouxe a escassez de ambientes naturais dentro das cidades que possibilitem sua prática (BAHIA, 2005; MACHADO, 2018).

O braço esquerdo do rio Marapanim limita Castanhal com Terra Alta. Esta região é rica em recursos hídricos, possui uma ampla área natural e é reconhecida por seu ponto turístico principal, o rio Marapanim, o qual deu origem a um espaço público denominado “Balneário Rio Grande”. Este é um dos maiores atrativos de lazer do município de Terra Alta, tanto para a população do entorno quanto para turistas. Por isso gerou grande interesse de realização desta pesquisa no referido balneário.

Este estudo, portanto, contou com objetivo geral de analisar o uso do rio Marapanim como espaço de lazer, e dispôs dos objetivos específicos de verificar qual a frequência de uso do espaço pelos visitantes e quais as vivências de lazer realizadas nele.

A pesquisa se justifica pelo fato do local ser composto por um ambiente natural, localizado dentro de uma área urbana, o que possibilita a acessibilidade de contato com a natureza para práticas de lazer e um possível sentimento de conscientização sobre a preservação ambiental.

A relevância do estudo se dá por perceber que atividades em meios naturais possibilitam lembranças de uma infância de muitas vivências e experiências vividas em contato com ambientes naturais, o que atualmente nem todas as pessoas têm oportunidade de vivenciar. Este estudo se torna relevante ainda por poder subsidiar futuras pesquisas relacionadas a esta conexão ser humano-natureza e a possibilidade de se vislumbrar que vivências de lazer nesse tipo de lugar pode servir como objeto e veículo de educação ambiental, mostrando a importância do ambiente para a população, mantendo assim a integridade do balneário.

Esta pesquisa desfrutou de cunho qualitativo, de caráter exploratório, e foi realizada com revisão bibliográfica e pesquisa de campo, por meio de observações não participantes e aplicação de entrevistas semiestruturadas aos usuários do rio Marapanim.

A revisão bibliográfica foi realizada a partir de uma fundamentação bibliográfica em livros e artigos científicos, com o intuito de adquirir um embasamento teórico necessário para o debate sobre o tema. Foram realizadas também observações não participantes, buscando observar e analisar as práticas de lazer dos frequentadores do balneário. E também foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os visitantes do local, com o intuito de obter informações para responder aos objetivos propostos.

Foi possível perceber que o ambiente do “Balneário” é de extrema relevância para os frequentadores, haja vista que o espaço é um local de procura assídua para lazer, tendo como um dos principais atrativos a paisagem natural que o constitui, tratando-se de “natureza dentro de uma área urbana”, além de ser um ótimo local para a vivência e socialização, principalmente das famílias.

Esta pesquisa está organizada em quatro sessões. A primeira sessão está pautada nos referenciais teóricos acerca das relações de lazer e meio ambiente. A segunda sessão aborda sobre o braço esquerdo do rio Marapanim, apresentando seu espaço e equipamentos. A terceira sessão trata sobre a importância do rio para a população da região amazônica, abordando os aspectos metodológicos utilizados neste estudo. A quarta sessão aborda a trajetória metodológica da pesquisa, e a quinta sessão traz as análises e os resultados adquiridos com as observações e entrevistas. E finalizando a pesquisa, são abordadas as considerações finais, de acordo com o que foi observado na pesquisa.

2. LAZER EM ÁREAS NATURAIS

O lazer até a era industrial era visto, em meio às lutas de classes, como um fragmento de tempo, intitulado “tempo livre”, sendo este um fenômeno social surgido no advento da revolução industrial e, a partir daí, vem sendo cada vez mais valorizado e abordado, ganhando espaço e reconhecimento. No Brasil, é entendido como fenômeno social moderno, e se trata de uma necessidade social.

O lazer deve ser encarado como fenômeno social moderno, constituído no quadro das tensões entre classes sociais, é uma necessidade social e motivo de intervenção de políticas públicas, mesmo sendo o lazer uma preocupação recente e alvo de atenção secundária, existe uma clara tendência de crescimento de ações governamentais direcionadas para esse sentido (MELO; ALVES JÚNIOR, 2003, p. 22).

Embora no mundo o lazer esteja vinculado ao processo industrial, no Brasil o mesmo está mais diretamente ligado à urbanização nas grandes cidades (MARCELLINO, 2006). Em decorrência desse fenômeno e outros fatores como a globalização e os avanços tecnológicos resultou em uma nova formatação da sociedade, causando a carência de um tempo livre no qual estivesse fora das obrigações cotidianas, trazendo o tempo de lazer como indispensável
à vida moderna.

O lazer apresenta um vasto significado, assim como o caráter dessas atividades, promovendo bem mais que uma simples prática. Para tanto, Marcellino (1995) apresenta este como o sentido mais amplo de cultura.

[…] cultura-compreendida no seu sentido mais amplo-vivenciada (praticada ou fruída), no “tempo disponível”. É fundamental como traço definidor, o caráter, “desinteressado” dessa vivência. Não se busca, pelo menos basicamente, outra recompensa além da satisfação provocada pela situação. A “disponibilidade de tempo” significa possibilidade de opção pela atividade prática ou contemplativa (MARCELLINO,1995, p. 31).

Assim excede então a percepção do lazer apenas como um conjunto de ocupações e estabelece a compreensão de uma prática cultural que auxilia em várias extensões da vida, sejam elas físicas, cognitivas, afetivas, sociais ou estéticas. Sendo ainda uma ferramenta fundamental para a educação, desenvolvimento humano e da cidadania do mesmo.

O lazer é compreendido como um momento livre das obrigações profissionais, familiares e sociais, desinteressado de fins lucrativos de forma que o indivíduo tem uma participação voluntária, a qual se entrega por espontaneidade às atividades e experiências escolhidas que se adequam às suas próprias necessidades, interesses e preferências, seja para descansar, entreter-se ou ainda para ampliar seus conhecimentos, possuindo liberdade de escolha, satisfação, diversão criatividade, felicidade e prazer (DUMAZEDIER,1976). Este também pode ser caracterizado segundo dois aspectos:

O lazer ligado ao aspecto tempo considera as atividades desenvolvidas no tempo liberado do trabalho, ou no “tempo-livre”, não só das obrigações profissionais, mas também dos familiares, sociais e religiosas. Por outro lado, o lazer considerado como atitude será caracterizado pelo tipo de relação verificada entre o sujeito e a experiência vivida, basicamente a satisfação provocada pela atividade. Sobretudo para toda atividade ser considerada lazer é preciso que se esteja dentro dos dois aspectos (MARCELLINO, 2006, p. 8).

O lazer se torna um direito humano básico, juntamente com a saúde, o trabalho e a educação, o qual não deve ser negado a nenhum cidadão. Atualmente, no Brasil, este é garantido pelo artigo 6º da Constituição Federal de 1988, a qual ressalta que:

São direitos sociais […] o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade, e à infância, à assistência aos desamparados, na forma desta constituição (BRASIL, 1988, não paginado).

Assim, ganha respaldo legal a defesa de que o lazer é essencial à vida humana e viabiliza o bem-estar social contribuindo na preservação da saúde e o bem-estar geral dos indivíduos, estimulando a socialização e a aparição de novas amizades, melhorando assim o humor e a autoestima, possibilitando a plenitude mental e física dos cidadãos.

Mesmo sendo o lazer respaldado por lei, o crescimento das populações urbanas propiciou o processo de urbanização não acompanhando o desenvolvimento das infraestruturas das cidades resultando com que os espaços propícios à prática de lazer fossem ficando cada vez mais raros, “gerando desníveis na ocupação do solo” (MARCELLINO, 2002, p. 25).

Este crescimento acelerado e sem programação das cidades, resulta no inchaço das cidades, ocasionando o aumento da desigualdade social. Tais fatores contribuem então para a preocupação sobre a existência, a criação e a manutenção de espaços e equipamentos de lazer para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos, mesmo que tal preocupação seja recente.

[…] O processo de urbanização crescente vem causando preocupações quanto à existência, a criação e manutenção de espaços e equipamentos de lazer nas cidades, ocasionando sérios problemas à qualidade de vida das pessoas, pela impossibilidade ou possibilidade restrita da população vivenciar o lazer nas cidades (FIGUEIREDO, 2008, p. 59).

Tais ações têm levado a um grande diferencial em relação aos espaços de lazer espalhados pela cidade, visto que com o processo de urbanização as áreas periféricas das cidades acabam por ficar de fora das políticas de incentivo ao lazer. Passa-se a dar prioridade às áreas consideradas nobres, com melhor infraestrutura e serviços.

[….] Em sua grande maioria, as cidades não contam com um número suficiente de espaços e equipamentos específicos de lazer para atender a população, havendo ainda uma distribuição desigual entre os bairros e distritos das áreas metropolitanas. Além disso, muitas vezes a conservação e manutenção são negligenciadas, deteriorando os poucos equipamentos existentes (FIGUEIREDO, 2008, p. 59).

Nota-se um grande vazio na periferia em relação aos centros urbanizados quando se trata de espaços de lazer, criando com isso a ideia de lazer excludente, pois quem vem de outros lugares fora desses espaços, acaba não usufruindo do espaço por ser de outro lugar. Cria-se a ideia de que aquele espaço não é de todos, é apenas da classe financeira que o cerca.

[….] Nem todos, por exemplo, têm a possibilidade de acesso aos equipamentos de lazer, seja por falta de condições econômicas que limitam o próprio acesso aos equipamentos, seja por falta de políticas públicas de lazer, ou ainda, por deficiência no planejamento de uma política de animação sociocultural para os espaços e de uma democratização cultural (FIGUEIREDO, 2008, p. 61).

Com isso, o que se trabalha em lazer como espaço e tempo, atitude e qualidade de vida, vem sendo distorcido por conta do capitalismo. O lazer passou a ser visto como mercadoria, como moeda de troca, para chamar atenção da população, passou a ser oferecido dentro das políticas capitalista. Um exemplo claro ao qual pode usar, é a questão dos condomínios fechados, com muros que separam as classes, e um dos principais atrativos nas vendas de tais imóveis são as opções de lazer.

Em meio a esse processo de capitalização do lazer, este não se pode deixar de ser observado como um direito social, como função social. O mesmo deve ser encarado, prioritariamente, como um meio de repouso, de qualidade de vida, não apenas como uma mercadoria, e isso requer uma atenção de todos os atores envolvidos nesse processo, tanto o poder público quanto a sociedade em geral, pois estes espaços e momentos de lazer têm que produzir uma apropriação de quem os pratica.

O espaço público, visto como uma área de sociabilidade e lazer, indispensável à vida nas cidades, e muitas vezes, agregando valores da natureza, está em oposição ao restante do urbano, com concreto em demasia, sistemas econômicos de produção etc. Assim, os espaços públicos caracterizados pela circulação, comunicação, lazer e sociabilidade têm sido alvos de intervenções do planejamento urbano, do lazer e do turismo das cidades, geralmente com a premissa de proporcionar qualidade de vida à população. Dessa forma são construídas áreas de lazer e circulação tradicionais, como praças, passeios, jardins e parques. Também são criados espaços que se configuram como equipamentos urbanos públicos ou semi-públicos, mix de passeio, praça, compras, cultura e gastronomia. Além disso, áreas de características diversas são transformadas em locais desses tipos, e mais e mais equipamentos urbanos passam a fazer parte da configuração do lugar (FIGUEIREDO, 2008, p. 81).

Os espaços produzidos para o lazer têm que possuir relação com os seus arredores, pois, muitos desses lugares ocupados para virar espaços específicos de lazer, anteriormente já havia utilização pela comunidade que o cerca. É necessário que estes tenham em sua produção a participação de elementos do meio em questão. Outro ponto relacionado ao lazer além do espaço é o tempo livre, visto que para ocorrer, é preciso ter disponibilidade para este, e para isso é necessário estar livre do horário de trabalho e das obrigações.

Nessa perspectiva, altera-se a concepção de tempo, que passa a ser interpretado como uma dualidade: tempo de trabalho e tempo livre. Passa-se, portanto, a prever um tempo destinado ao descanso e ao lazer. Esse tempo livre transformou-se ainda mais com o descanso semanal e as férias pagas (FIGUEIREDO, 2004, p. 168).

Seguindo o que disse Figueiredo (2004), existe uma dualidade na modalidade tempo, visto que tem de ser apresentado o tempo como de trabalho e livre, o tempo de trabalho passa ser aquele gasto com obrigações trabalhistas, desempenhado no dia a dia, e o tempo livre, sendo o que sobra entre as obrigações de trabalho, domésticas e outras.

Esta limitação de tempo ocasiona, em alguns momentos, o lazer como uma forma compensatória para a rotina de trabalho, porém evidencia-se o mesmo como um tempo para o descanso, produção de cultura e conhecimento, podendo este ser utilizado como forma de organização dentro da sociedade, levando-se em consideração o seu caráter desinteressado e, principalmente, o seu lado lúdico como um atrativo para atividades variadas.

Com relação ao tempo e ao espaço de lazer, podem ser observadas as várias possibilidades de interação entre espaços para práticas de tais atividades. No meio urbano, observa-se a utilização de bares, lanchonetes, espaços esportivos, shopping, entre outros, assim como a aproximação deste com o meio natural, com atividades em áreas livres como praças, bosques, canteiros etc. Isto no meio dos centros urbanos, porém esta vivência se observa também nas áreas naturais como praias, rios, igarapés, trilhas ecológicas e atividades na natureza (BAHIA, 2005).

Essas várias possibilidades se apresentam como um incentivo a mais para tais práticas, visto que os espaços de lazer são variados e, com isso, volta-se para a questão do tempo, espaço e atitude para serem vivenciadas, porém, com relação ao natural, observa-se sua prática como um meio de educação para sua utilização de modo sustentável.

Antes de adentrar nas atividades de lazer no meio natural é preciso entender o que é o meio natural, este se trata de um ambiente no qual a natureza está presente de maneira que tenha pouca modificação do homem, ou mesmo nem uma, qual a necessidade deste para o ser humano. O meio ambiente assim como o lazer, é respaldado por lei dentro da Constituição Federal Brasileira de 1988[6], com isso, todo cidadão tem direito ao meio ambiente de forma equilibrada, a partir daí, nota-se a importância deste para a sociedade de um modo geral.

O meio natural é vital para a sobrevivência de todas as espécies, este tem sido colocado em segundo plano por conta da importância dada ao sistema de urbanização desenfreado, o qual tem contribuído para o distanciamento do ser humano da natureza, por isso tem sido alvo de pesquisas e questionamentos quanto à sensibilização sobre o tema.

A partir do processo de industrialização e, conseqüente urbanização dos espaços, houve um distanciamento progressivo e contínuo na relação ser humano- natureza, desencadeando condições de vida pouco favoráveis à aproximação, ao contato e à integração da sociedade com as diversas áreas naturais existentes no planeta. (BAHIA, 2005, p. 14)

O lazer viabiliza sensações e percepções da corporeidade[7] do ser humano, assim como possibilita reflexão de como ele tem se relacionado com o meio em que vive. E, quando vivenciado por meio de práticas na natureza, possibilita sensibilização para essa causa – o uso da riqueza ambiental com responsabilidade.

A vivência de atividades intimamente ligadas à natureza vem tornando-se uma nova perspectiva no âmbito lazer, no sentido de preenchimento da inquietação humana em busca da melhoria da qualidade existencial (TAHARA; SCHWARTZ, 2003, p. 2).

Essas atividades têm crescido muito atualmente, por conta de contribuírem na criação de princípios e comportamentos que acarretam na criação de uma conscientização em relação às questões ambientais.

Bruhns (2003, p. 41) ressalta que as práticas de lazer vivenciadas na natureza, “buscam os laços afetivos dos seres humanos com o meio ambiente natural”, assim podemos perceber que esta experiência traz a compreensão da natureza como sendo um bem de todos e essencial à sobrevivência e, portanto, esta deve ser cuidada, trazendo a clara percepção de conscientização.

Estas práticas, quando realizadas de forma equilibrada e orientada, proporcionam ao indivíduo o desenvolvimento de uma percepção e sensibilização maior acerca da necessidade de preservação dos mesmos e a educação ambiental vem para contribuir com o despertar de tal consciência de preservação (BRUHNS, 2003).

Ainda sobre tais vivências podemos perceber que a necessidade e o prazer do lazer são despertados a partir dessas experiências em ambiente naturais, proporcionando o preenchimento da necessidade do praticante por busca de melhoria da qualidade de vida (TAHARA; SCHWARTZ, 2003).

Para tanto, o lazer pode ser uma ferramenta fundamental para essa nova visão em relação ao meio natural, sendo este utilizado de maneira consciente de modo a apontar novas sensações, trazendo ao seu praticante a apropriação e a sensibilidade de se ver integrado ao meio ambiente, fazendo com que este se utilize do meio de modo sustentável, sem causar danos, preservando seu equilíbrio natural (BAHIA, 2005).

Esse reconhecimento de si, de sua posição junto a natureza, pode e deve ser trabalhado como forma de incentivar e sensibilizar os praticantes de atividades de lazer em ambientes naturais, a preservarem e contribuírem para a manutenção do equilíbrio natural das áreas que frequentam e utilizam para tais atividades, pois o que ainda se observa é um uso desorganizado dos espaços de lazer (BAHIA, 2005).

Com isso nota-se a importância de se buscar maneiras para o entendimento do lazer de modo a facilitar a apropriação de práticas sustentáveis por meio de tais atividades.

A necessidade de se discutir academicamente a questão das vivências do lazer na natureza, traz em seu bojo a urgência no aprofundamento de abordagens sobre o entendimento do lazer e do meio ambiente, devendo privilegiar uma análise multidisciplinar das diversas áreas e dos diversos atores envolvidos (BAHIA, 2005, p. 92).

Com essa busca por espaços naturais para a vivência do lazer, observa-se que dentro dos centros urbanos há a busca pelas áreas verdes públicas, como praças arborizadas, jardins, bosques, e afastando-se da cidade, buscam áreas como rios, praias, florestas.

Sobre as áreas naturais fora do meio urbano, os riachos são as principais procuras para o lazer, principalmente nos finais de semana e nas férias, essas áreas geralmente recebem um grande número de visitantes, contudo apesar do apelo e das sensações que estas causam na relação de prazer para o ser humano, como forma de recuperar as energias, para a volta a rotina e ao tempo de trabalho, são ainda as áreas que mais sofrem com essa utilização.

A grande utilização destes espaços de lazer gera também problemas para a sobrevivência da área natural, pois são áreas de rios que necessitam de cuidados para sua utilização, visto que as mesmas, com a frequência de uso, sofrem perdas de biodiversidade, por meio da passagem dos carros, pela produção de lixo, dentre outros fatores negativos.

Porém, não se pode descartar o potencial educativo que estes espaços podem ter e como podem ser trabalhados de forma positiva para a sua utilização. Com isso observa-se que o lazer deve ser trabalhado na base educacional, em todos os meios de ensino, tanto formal quanto informal, para que este seja o diferencial em um lazer sustentável em áreas naturais.

Tais áreas trazem uma relembrança de experiências vividas em outras épocas, pois cada ida à natureza se apresenta de forma diferente.

As viagens à natureza relacionam-se a determinados ritos e rituais. Talvez o mais evidente e marcante seja o rito de passagem envolvido na própria viagem, no qual identidades são construídas e nutridas por subjetividades. A busca pelo ambiente natural implica em um deslocamento, incorporando aspectos relacionados ao trânsito, à viagem, ao movimento, à errância (BRUHNS; MARINHO; 2012, p. 88).

Conforme as autoras, essa significação da ida a natureza, vai muito além de um simples passeio de final de semana, trata-se de vivências iniciadas desde a viagem até a chegada ao local desejado, assim construindo uma identidade e significação para a ida a natureza. Esses espaços são muitas vezes vistos pelas pessoas como uma fonte de renovação das forças e de busca por paz interior, para estar disposto a uma nova semana de trabalho. Em vista disto se explica a escolha do município de Terra Alta, dada a sua privilegiada área com grande paisagem natural e a passagem do braço esquerdo do Rio Marapanim, além de seu fácil acesso.

3. BRAÇO ESQUERDO DO RIO MARAPANIM (TERRA ALTA)

Terra Alta é um município localizado no Estado do Pará, mais especificamente no Nordeste do Estado, a 94 km da capital Belém, originado em 28 de dezembro de 1946. Esta denominação foi dada devido sua situação geográfica na parte de maior altitude às margens da rodovia Castanhal-Curuçá Km 28, antes conhecido apenas como vila de Terra Alta (IBGE, 2016). A criação desse município teve grandes influências do braço esquerdo do rio Marapanim, que até então era um grande aliado ao sustento de pescadores.

O braço esquerdo do rio Marapanim limita Castanhal de Terra Alta, e era considerado navegável, sendo o principal meio de transporte, já que não existiam estradas rodoviárias ligando os principais pontos do Estado à comunidade, isto até aproximadamente o ano de 1932. Logo, com a criação do sistema viário, várias pessoas fixaram residências na localidade, ocupação esta influenciada pela comunidade eminentemente agrícola do município de Curuçá-Pará (IBGE, 2016). A figura 1 mostra a localização do braço esquerdo do Rio Marapanim.

Figura 1- Vista aérea da Área do Rio. Fonte: (GOOGLE MAPS, 2016)

Atualmente, existe uma ponte sobre o braço esquerdo do Rio Marapanim, possibilitando o acesso para o município de Terra Alta e a estrada para as outras cidades depois dela, como mostra a figura 2.

Figura 2- Ponte de acesso a Terra Alta sobre o Rio Marapanim. Fonte: (Pesquisa de campo).

Esta região é rica em recursos hídricos e possui uma ampla área natural, e é reconhecida por seu ponto turístico principal, o rio Marapanim, o qual deu origem a um Balneário público chamado “Rio Grande”, que é um dos maiores atrativos de lazer do município de Terra Alta, tanto para a população do entorno quanto para turistas.

Este espaço foi escolhido para a execução da pesquisa por estar localizado em um espaço acessível à via de transporte tanto coletivo quanto particular, ostenta um ambiente natural extenso arborizado e possui águas escuras em profundidade média.

Apesar de ser um ambiente frequentado em sua maioria por famílias, moradores relataram a existência de violências ocorridas no balneário por conta do número grande de consumidores de bebidas alcoólicas, o que acaba por abrir possibilidades a possíveis inconveniências, como brigas, assaltos, entre outros tipos de violência em geral.

3.1 ESPAÇOS E EQUIPAMENTOS DO BALNEÁRIO RIO GRANDE

O Balneário Rio Grande é de fácil acesso para quem trafega pela PA-136. Na entrada da cidade a esquerda, onde está fixado a empresa de energia do município (Rede Celpa), existe uma placa da Prefeitura da cidade (Figura 3) anunciando a localização do Balneário a 450 metros, possibilitando aos turistas acessibilidade para encontrar o local sem dificuldades.

Figura 3: Placa de convite ao Balneário Rio Grande. Fonte: (Pesquisa de campo).

Obedecendo a placa de informação disponibilizada pela Prefeitura, dobrando a esquerda se encontra o caminho de acesso ao balneário. Esta passagem conta com uma rua um pouco íngreme e asfaltada (Figura 4), e no percurso dessa estrada em suas laterais ainda existem espaços verdes, o que propicia aos frequentadores a sensação de estar em um ambiente natural desde o percurso até seu destino.

Figura 4: Caminho para o Balneário. Fonte: (Pesquisa de campo).

Pouco antes de chegar à beira do rio, encontra-se uma quadra de areia, disponibilizada para o uso dos frequentadores e moradores da região.

Figura 5: Quadra de areia. Fonte: (Pesquisa de campo).

Dentro do Balneário existe um parque infantil (Figura 6), onde elas podem brincar da forma que quiserem e até ir além de se divertir, desenvolvendo suas capacidades físicas e sociais.

Figura 6: Parque infantil. Fonte: (Pesquisa de campo).

Apresenta ainda um bosque na beira do rio (Figura 7) que é de livre acesso aos frequentadores para a prática de qualquer atividade. Na área do bosque é possível perceber várias placas de incentivo à preservação e respeito à natureza (Figura 8).

Figura 7: Bosque. Fonte: (Pesquisa de campo).
Figura 8: Placas de incentivo a preservação do rio. Fonte: (Pesquisa de campo).

Existem alguns moradores que residem próximo à beira do rio e percebe-se também um fluxo de comércio grande dentro do balneário (Figura 9), além de vários restaurantes, bares e sorveteria.

Figura 9: Bares e Restaurantes. Fonte: (Pesquisa de campo).

O rio possui água escura (Figura 10), gelada e com pouca correnteza na região do Balneário, além de ser de profundidade média e é cercado por floresta, como mostra a Figura 11.

Figura 10: Balneário Rio Grande. Fonte: (Pesquisa de campo).
Figura 11: Vista do Rio pela ponte. Fonte: (Pesquisa de campo).

4. TRAJETÓRIA METODOLÓGICA

O Balneário Rio Grande foi escolhido como lócus para a realização da pesquisa devido ser uma área pública de fácil acesso à população do município e do entorno para as práticas de lazer, e uma das poucas áreas naturais, que são oferecidas à população de Terra Alta e às regiões dos arredores. Sendo também uma área diferente, em relação aos outros espaços de lazer proporcionados à população, além de estar localizada em um perímetro urbano.

A partir do interesse de analisar o uso do Balneário Rio Grande como espaço de lazer, foram aplicadas entrevistas e observações no local. Inicialmente, no mês de julho de 2016, nas quintas feiras pelo final da manhã e início da tarde e alguns finais de semana no mesmo horário.

Os dias escolhidos para a ida ao campo foi em função de serem propícios ao fluxo grande de pessoas frequentando o Rio. E a partir das observações, sentiu-se a necessidade da realização de entrevistas com esses frequentadores e moradores do município em 28 de julho.

Partindo de uma entrevista que seguiu um roteiro semiestruturado de questionamentos relacionados às atividades desenvolvidas no local, a escolha pelo espaço, a frequência da busca de vivências nele, e sua importância, além da observação do comportamento dos frequentadores em relação à sensibilidade ao meio natural, preservação e importância.

A pesquisa teve caráter exploratório[8] e qualitativo[9], além de se tratar de um estudo que envolve pesquisa bibliográfica a qual, foi realizada a partir de uma fundamentação bibliográfica em livros, artigos científicos, esta “baseia-se na necessidade de se fazer revisões bibliográficas periódicas, que visam apresentar de modo organizado o estágio atual do conhecimento de um determinado assunto” (OLIVEIRA, 2008, p. 96).

O local escolhido para a pesquisa foi o Balneário Rio Grande, localizado no município de Terra Alta às margens da Rodovia Castanhal-Curuçá Km 28. Foram efetuadas observações não participantes[10], para investigar as práticas de lazer dentro do balneário, além de entrevistas com os frequentadores do local.

Os instrumentos utilizados para as entrevistas e observações no local foram uma câmera digital de marca Sony e dois celulares com funções de áudio e vídeo e gravador de voz de marca Motorola e Samsung de modelos Moto G Terceira Geração e Samsung Galaxy Gran Neo.

Neste estudo foi empregado um roteiro de entrevista semiestruturada, ou não-diretivas, por ser de menor complexidade na aplicação, facilitando ao pesquisador e também ao entrevistado, os deixando mais à vontade além de possibilitar alterações necessárias que possam vir a ocorrer no decorrer do diálogo.

Por meio da entrevista não-diretivas, colhem-se informações dos sujeitos a partir do seu discurso livre. O entrevistador mantém-se em escuta atenta, registrando todas as informações e só intervindo discretamente para eventualmente, estimular o depoente. De preferência, deve praticar um diálogo descontraído, deixando o informante à vontade para expressar sem constrangimento suas representações (SEVERINO, 2007, p. 127).

As entrevistas tiveram a transcrição das falas na íntegra sem nenhum tipo de alterações, mantendo assim a originalidade dos dados obtidos.

Foram realizadas quatorze (14) entrevistas com os visitantes que estavam no balneário realizando suas atividades e moradores do entorno. Dos 14 entrevistados, 7 eram do sexo feminino e 7 do sexo masculino. Todos os entrevistados assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), a finalidade da pesquisa foi informada aos candidatos por meio deste documento, assim como foram esclarecidos de que em qualquer momento, se sentissem desconfortáveis quanto ao assunto, poderiam retirar sua autorização para o uso de suas respostas assim como seu afastamento da pesquisa.

A escolha dos participantes das entrevistas foi feita aleatoriamente de acordo com a escolha de participação e disponibilidade dos frequentadores do balneário e moradores do entorno acessíveis no dia da entrevista. O critério de escolha se deu a partir de que os escolhidos fossem maiores de 18 anos de idade e o número de entrevistados se deu a partir do critério do alcance dos objetivos propostos na pesquisa.

5. RESULTADOS E DISCUSSÃO

No mês de julho de 2016 foram realizadas as observações, nas quintas feiras e alguns finais de semana. Em ambos os dias os turnos escolhidos variaram entre o período da manhã e da tarde para as observações.

Diversas atividades foram contempladas por meio das observações, e por meio dela também foi possível perceber que o público é bem variado, desde crianças a idosos moradores da cidade, além de um público grande de turistas. É perceptível que os frequentadores vão ao balneário e realizam suas atividades independentemente, sem intervenção e influência de nenhum órgão público.

Nas manhãs de quinta feira, foi possível perceber um público variado, várias famílias além de muitos moradores da cidade. Tomar banho de rio e conversar foram as principais atividades notadas.

Aos finais de semana se notou a considerável presença de turistas no balneário, assim como de jovens. Muitas famílias trazem seus filhos para apreciação do local. Pela parte da manhã as principais atividades observadas realizadas pelos adultos foram conversas entre amigos enquanto tomam cerveja, além de banho de rio, enquanto as crianças realizam atividades de socialização com as outras no playground e brincadeiras na beira do rio.

No período da tarde foi percebido que as atividades dos adultos não se alteram muito, já os jovens praticam diversas brincadeiras dentro do rio tais como “cinco cortes”, “pega pega”, além conversas e o banho de rio, e pela parte da tarde passam a usar o campo de areia para jogar futebol, a organização é realizada por eles mesmos.

Foi percebível que são realizadas diversas vivências de lazer dentro do balneário, e dentre os equipamentos disponibilizados, somente o bosque não é muito utilizado. Durante as observações não foi encontrada nenhuma atividade dentro dele ou que o envolvia. A frequência de visitações do balneário é considerável, o fluxo de frequentadores é grande principalmente aos finais de semana. A comunidade do entorno tem um vínculo com o local, além de considerar como espaço de lazer, também depende financeiramente do ambiente.

Percebe-se ainda que o uso do balneário está se dando de forma “mal-educada”, já que os frequentadores não respeitam o ambiente, jogando lixo no chão do balneário, o que demonstra uma falta de consciência ambiental.

Com a finalização do período de observações, deu-se continuidade a pesquisa seguindo para a realização de entrevistas com o intuito de arrecadar dados a respeito do uso e experiências dos frequentadores do balneário.

Dividiu-se em duas etapas esta análise, primeiro optou-se por observar as experiências dos frequentadores no ambiente e após analisar as falas dos mesmos possibilitando assim o entendimento das experiências vividas comparando as falas com as práticas.

Com o intuito de contemplar os objetivos da pesquisa foram construídas e aplicadas quatro perguntas aos frequentadores do balneário e moradores do entorno. A primeira, procurou indagar os visitantes quanto a “o que vão fazer no Balneário Rio Grande?”

Tomar banho né… (E. 3) [11] (Grifo meu)

A gente vem em busca de lazer principalmente nosso e da família. (E. 7) (Grifo meu)

Eu venho pra me divertir, tomar banho, espairecer né, é um rio que dá conforto pra gente, que lava a alma na verdade né. (E. 8) (Grifo meu)

Ah, eu venho apreciar a natureza, eu gosto aqui do local é calmo pras criança brincar… (E. 10) (Grifo meu)

Por essas falas, percebe-se que existem fatores atrativos para a busca pelo balneário, dentre eles estão a beleza do ambiente natural, a água ser própria para o banho, a tranquilidade e o conforto. O ambiente natural é um grande atrativo para os frequentadores, por conta de seu diferencial, tratando-se de natureza dentro de uma área urbana.

O lazer, de acordo Bruhns (2003), pode possibilitar “um efeito purificador (catártico), conduzindo ao bem-estar e à alegria” (BRUHNS, 2003, p. 35), e conforme as falas dos entrevistados, o lazer no meio natural proporciona aos frequentadores um efeito de renovação, “purificação da alma” além de diversão, conforto e apreciação da natureza, o que possibilita o encontro com um ritmo distinto de vivência e também uma reflexão de sua importância para sobrevivência humana. Neste contexto Marinho (2004) afirma tal sentimento de sensibilidade despertado no encontro com a natureza

[…] as experiências na natureza podem, efetivamente, contribuir para o despertar de uma sensibilidade e de uma responsabilidade ambiental coletiva, contribuindo, até mesmo, para impulsionar o estabelecimento de políticas em níveis local e global (MARINHO, 2004, p. 12)

Avançando nas indagações buscou-se saber, “Por que vão ao rio? “. Assim responderam:

[…] é porque eu moro aqui né há muito tempo, é mais próximo pra mim (E.3) (Grifo meu).

Por conta do ambiente que é agradável e…é isso (E.7) (Grifo meu).

Bom, além dele ser o único digamos assim ponto turístico que tem no município né, é a única área de lazer que nós temos realmente pra se divertir, pra nos divertir, trazer a família, é isso (E 9) (Grifo meu).

[…] quando a gente vem a gente gosta de apreciar aqui o rio a natureza, lazer daqui é bom, calmo (E.11) (Grifo meu).

É possível identificar que a procura do balneário além do lazer, também se dá pelo fato de ser acessível, por ser próximo às residências. Ainda de acordo com moradores da cidade, foi citado que o balneário é um dos únicos pontos turísticos da cidade, além da área ser a única área de lazer existente na cidade, de acordo com a visão deles, apesar do município apresentar outros espaços e equipamento de lazer.

Marcellino (2002) retrata o motivo pelo qual tais pensamentos ocorrem, quando expõe que “mesmo aquelas cidades que contam com um razoável número desses equipamentos, nem sempre têm seu uso otimizado, pela falta de conhecimento do grande público, ou seja, pela divulgação insuficiente entre os próprios moradores” (MARCELLINO, 2002, p. 32), além da implantação de espaços e equipamentos sem identidade com a população do local o que não é diferente no município de Terra Alta, logo, o balneário se torna o principal atrativo de lazer da cidade.

O maior número de entrevistados listou como principal atrativo para a prática de lazer no rio a beleza explícita do ambiente natural.

Expressam ainda que devido ao ambiente agradável é um ótimo local para vivência do conteúdo cultural social, este com a família. Este contato com a natureza proporciona o descanso do cotidiano dos frequentadores, assim como possibilita a experiência de diversas vivências não programadas.

Dando continuidade aos questionamentos, indagou-se sobre a “frequência de busca do balneário para o lazer?”

Todo domingo eu tô aqui, aí as vezes vem na semana, no meio da semana uma vez por semana tomar um banho no meio da semana e todo domingo eu tô por aqui também (E.3) (Grifo meu).

Como a gente mora longe daqui a gente em torno de dois meses, três meses. Três em três meses (E.7) (Grifo meu).

Pelo menos umas quatro ou cinco vezes por semana, quase todo os dias aqui (E.9) (Grifo meu).

Agora que eu tô morando em outro estado eu venho pouco, mas sempre que a gente vem aqui em Terra Alta a gente procura aqui rio grande pra tomar um banho (E.10) (Grifo meu).

Observou-se que a maioria dos moradores entrevistados tem frequência assídua no balneário, já os turistas têm uma frequência menor em relação aos moradores, isto por conta do deslocamento e tempo necessário para chegar ao local.

A frequência do local segundo as observações e fala dos entrevistados se dá com maior fluxo aos finais de semana pelo final do turno da manhã e início do turno da tarde, e no final do segundo turno foi percebido práticas de lazer utilizando os outros equipamentos disponibilizados no balneário, como campo de areia, playground das crianças assim como fluxo grande nos bares à beira do rio.

Os dias da semana escolhidos pelos turistas se dão pelo fato de ter a folga do trabalho aos finais de semana, dias estes também que por conta do fluxo de pessoas no ambiente, gera trabalho para alguns moradores do município que dependem do rio para o sustento.

O último questionamento buscou saber dos frequentadores: “qual a importância do rio para você?”

É bastante importante pra, pra questão ambiental ele é limpo, ele não tem muitas poluições por ele é bastante agradável por isso a gente procura (E.7) (Grifo meu).

… é no nosso meio ambiente né que ele contribui muito pela fauna pela flora, assim um local bem próximo e acho que é isso né (E.12) (Grifo meu).

Bom, não só pra mim né, é importante pra todos né, apesar de porque é um lugar da natureza é um lugar que temos que preservar né… (E.13) (Grifo meu).

Constata-se que alguns dos frequentadores citam a importância do rio para o lazer tanto de sua família quanto da população, entende-se tais afirmações já que este “faz o ser humano se integrar ao ambiente natural e vislumbrar novos prazeres, diferentes da rotina urbana, além da satisfação e dos desafios do corpo” (CHAO, 2004, p. 217).

Percebeu-se que a maioria dos entrevistados focaliza a importância do rio por ser um ambiente natural, tanto que um enfatiza a preservação ambiental para subsistência da fauna e flora, além do gosto dela natureza.

No contato com a natureza, de forma orientada, o ser humano reconhece-se, podendo entender a necessidade de preservar outras formas de vida, as quais contribuem para o equilíbrio do meio ambiente. A isso, dá-se o nome de Educação Ambiental, uma das possibilidades de entender a natureza, e preservá-la, uma vez que não se acredita na possibilidade de preservação sem a colaboração humana de forma ordenada e consciente. Através desse contato, compreende-se a necessidade de valorizar o próprio ser humano (CHAO, 2004, p. 215).

Em contrapartida, foi possível perceber nas entrevistas que para muitos a frequência de visitas ao ambiente e a importância do local se dá pela utilização do mesmo como ferramenta de subsistência financeira para muitos.

Eu venho trabalhar… (E. 4) (Grifo meu).

Porque eu preciso mana eu não sou aposentada eu não tô empregada e eu preciso desse rio pra eu ganhar o meu dinheiro pra comprar o meu mantimento (E.4) (Grifo meu).

A importância não só pra mim mais pro município além de ser uma fonte de renda porque aqui é um ponto turístico o único ponto turístico o único ponto turístico que a gente tem de Terra Alta é como eu te falei é o único lazer que nós temos aqui em Terra Alta né (E.9) (Grifo meu).

A partir dessas podemos evidenciar, que além de ser uma fonte de renda para muitos, a água também é utilizada por muitos moradores por conta da precariedade de fornecimento de água para a população do município, segundo relato dos entrevistados. Por isso citam a relevância da conscientização e preservação para a sobrevivência deste meio natural.

[…] se acabar vai ficar mais difícil já é carente de água aí com mais a falta de preservação aí vai se acabar um dia como a gente vê em Castanhal tem canais que antes era rio né hoje são só canais aí o medo é esse de um dia se acabar aí a parte hídrica da cidade fica muito mais carente (E.3) (Grifo meu).

Pra gente porque as vezes falta água a gente procura o igarapé né pra tomar banho, pra lavar roupa muita das vezes também como tem uma bica lá pra pegar água pra gente beber, no meu caso a gente não pega água lá pra beber que a gente compra mineral mas a maioria das pessoas daqui usa pra beber, é… (E.5) (Grifo meu).

Porém, foi possível perceber também, que apesar dos frequentadores relatarem preocupação com a conscientização e preservação do meio, muitos agem de forma contrária já que durante o uso do local, não respeitam o meio jogando lixo no chão, logo, percebe-se a necessidade de intervenção de órgãos públicos quanto a educação para o uso do local.

Destaca-se ainda o relato de um entrevistado morador de muitos anos do município justificando não ir mais ao rio por conta de ser idoso e o único vivo de sua época e a ida ao local provocar nostalgia.

[…] mas não vou lá não, me relembra muita coisa. Porque eu estava nova ia lavar minhas roupa tudo lá no igarapé né tudo do nosso tempo as colega né a gente ia cada qual com suas roupa pra lavar né era por isso que eu ia me aproximava mais mesmo, terminou o nosso igarapé que era abaixo do igarapé dos homens que é esse balneário hoje né o nosso era naquela volta que dá alia ai o nosso era lá tinha nossas tábua tinha o canozinho que descia pra ir lá pro nosso né e acabou, acabou as colega tudo já morreram só estou eu mesmo ainda dizendo as palavras relembrando o passado né (E.6) (Grifo meu).

A gente ia […] não tinha ainda essa sabe falta de respeito que é briga é tudo, mataram aí, mataram até um sobrinho meu aí deram quatro tiro nele mataram ele o filho da minha prima legítima (E.6) (Grifo meu).

Outro fator que o faz não frequentar mais o local são as recordações de violência, que inclusive o fez perder um ente da família o que acarreta em lembranças ruins do local, afetando o seu emocional negativamente. Tais fatos fazem repensar a segurança do local.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Embasado no referencial teórico estudado e na coleta de dados obtidos por meio das entrevistas semiestruturadas, foi possível analisar como tem sido utilizado o balneário Rio Grande como espaço de lazer.

O balneário Rio Grande conta com um número grande de visitas, principalmente aos finais de semana e época de férias, tal fato possibilita identificar que o espaço tem potencial para o turismo, para o lazer e, principalmente, para a educação ambiental, já que segundo as entrevistas foi possível perceber que o ambiente gera sensibilização sobre o tema.

Devido ao acesso do ambiente ser livre, os frequentadores se sentem à vontade para executarem suas práticas de lazer no balneário de forma independente, de modo que não dependem da intervenção do poder público de qualquer tipo. Os frequentadores sentem a necessidade de vivenciar práticas nesse tipo de ambiente, por isso se dá a grande procura pelo balneário.

Foi percebido que a existência do rio é de extrema importância para a sobrevivência da população tanto do município quanto do entorno, por se tratar de uma grande fonte de renda, além de abastecer a população do município com água. Portanto, percebe-se a necessidade de maior conscientização e incentivo a preservação do mesmo, já que estão cada vez mais escassos ambientes naturais nas cidades, devido ao processo de urbanização crescente e desenfreado. A sensibilidade que a vivência no ambiente traz deve ser aproveitada para a construção de uma educação ambiental.

Logo, apresenta-se a necessidade e importância do desenvolvimento de estudos que abordem tais temáticas, deseja-se que este estudo incentive futuras pesquisas na área, para contribuir com o uso de espaços naturais de forma consciente e sustentável, possibilitando essas relações ser humano-natureza, passando o sentimento de preservação desses meios às gerações futuras, possibilitando a todos essas vivências em ambientes naturais.

REFERÊNCIAS

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6. Artigo 225: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as futuras gerações (BRASIL, 1988, s/p).

7. “Corporeidade é buscar transcendência, em todas as formas e possibilidades, quer individualmente, quer coletivamente. Ser mais, é sempre viver a corporeidade, é sempre ir ao encontro do outro, do mundo e de si mesmo [a]. (…) é sinal de presentidade no mundo. É o sopro que virou verbo e encarnou-se. É a presença concreta da vida, fazendo história e cultura e ao mesmo tempo sendo modificada por essa história e por essa cultura” (MOREIRA, 2003, p. 148-149).

8. As pesquisas Exploratórias têm como principal finalidade desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, tendo em vista a formulação de problemas mais precisos ou hipóteses pesquisáveis para estudos posteriores (GIL, 2008, p. 27).

9. Pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se ocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ou não deveria ser quantificado, ou seja, ela trabalha com um universo dos significados, dos motivos, das aspirações etc (MINAYO, 2012, p 21).

10. É a pesquisa na qual o observador não participa das atividades do observado, ficando este apenas como um expectador do que está acontecendo ao seu redor. Possibilita a obtenção de elementos para a definição de problemas de pesquisa; favorece a construção de hipóteses acerca do problema pesquisado; facilita a obtenção de dados sem produzir querelas ou suspeitas nos observados. (GIL, 2008, p. 101).

11. (E.3) Se refere aos entrevistados, identificados por números de 1 a 14.

[1] Graduada em Educação Física pela Universidade Federal do Pará, Campus Castanhal UFPA.

[2] Dra em Psicanálise Clínica- Pesquisadora pelo Centro de Pesquisa e Estudos Avançados- CEPA.

[3] Dra em Educação. Docente e Pesquisadora do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará – ICS/UFPA.

[4] Dr. em Doenças Tropicais. Docente e Pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará – ICB/UFPA.

[5] Dr. em Ciência: Desenvolvimento Socioambiental. Docente e Pesquisadora do Núcleo de Autos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA.

Enviado: Fevereiro, 2019.

Aprovado: Fevereiro, 2019.

Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

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