A importância das atividades físicas para portadores de Síndrome de Down

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ARTIGO ORIGINAL

MOREIRA, Maicon de Andrade [1], FILENI, Carlos Henrique Prevital [2]

MOREIRA, Maicon de Andrade. FILENI, Carlos Henrique Prevital. A importância das atividades físicas para portadores de Síndrome de Down. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 07, Vol. 03, pp. 20-28. Julho de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao-fisica/atividades-fisicas

RESUMO

A Síndrome de Down, por se tratar de uma alteração genética especificamente no cromossomo de par 21, traz complicações em relação a questões cognitivas e limitações para realização de tarefas motoras. Fazendo-se necessário buscar compreender os efeitos benéficos da atividade física para aquisição de força, visto que os portadores de Síndrome de Down possuem hipotonia muscular, o que compromete seu desenvolvimento físico e coordenação motora. Com isso foi feito uma revisão de literatura, buscando periódicos que sinalizavam os benefícios adquiridos através da atividade física. Vários estudos apontam que a inclusão de programas de exercício físico contribui para a reversão no quadro de hipotonia muscular e contribuindo para o aumento da força muscular nos portadores de Síndrome de Down. Ainda, destacam os efeitos significantes do treinamento resistido na composição corporal, proporcionando uma melhora na qualidade de vida e uma maior disposição para a execução das tarefas diárias. Portanto, devemos olhar para o portador de Síndrome de Down para além das suas questões físicas, intelectual e psíquicas, buscando desenvolvê-los harmoniosamente e com dedicação, pois podemos fazer a diferença na vida deles. Outro fator importante que deve ser destacado são os benefícios da estimulação precoce, onde as melhoras funcionais são consideráveis a partir do nascimento até a vida adulta com a inclusão de programas de treinamento específico.

Palavras chave: Síndrome de Down, atividade física, desenvolvimento motor.

INTRODUÇÃO

Está bem estabelecida a existência de uma relação entre a inatividade física associada a riscos de doenças e déficit à saúde. Segundo a OMS para ter uma boa saúde e bom funcionamento de todos os sistemas do nosso organismo, é necessário se alimentar muito bem, ou seja, manter uma dieta alimentar balanceada. Além disso, é importante se manter fisicamente ativo, para isso devem-se inserir atividades físicas na rotina semanal, onde estudos apontam que o mínimo indicado é três vezes por semana, por pelo menos 30 a 40 minutos. E para portadores de Síndrome de Down não é diferente, ainda apresentam menores índices de atividade física além de estarem mais suscetíveis a doenças crônicas, provenientes do estilo de vida sedentário (RIMMER, 1999; LIN, 2012).

Segundo Schwartzman (1999), a presença de hipotonia muscular é presente em 100% das pessoas com Síndrome de Down, o que contribui para o atraso motor por elas apresentado, interferindo assim no desenvolvimento de outras áreas de atuação. Em termos de força muscular, observa-se que, apesar destas pessoas apresentarem uma redução nos valores de força muscular de membros inferiores, poderão atingir níveis de força semelhante ao da população geral, podendo assim, obterem-se bons resultados com a atividade física orientada (PUESCHEL, 2002).

Um dos componentes importantes para a realização de atividades locomotoras cotidianas é a capacidade de produção de força muscular, porém, o déficit no controle motor, está além da capacidade de gerar força muscular. Observa-se, ainda, que a coordenação motora fina das pessoas com SD também apresentam comportamento diferenciado, onde esse quadro apresentado pode ser revertido através da prática de atividade física, seja ele o treinamento resistido ou a simples prática de atividade recreativa.

A atividade motora visa atender as necessidades do indivíduo portador de Síndrome de Down, mas desde que, sejam trabalhadas de acordo com os seus limites e seus interesses, procurando sempre atingir melhoras no seu desenvolvimento integral.

Sendo assim, a atividade física mostra-se necessária na vida das pessoas com SD, importante não só para o desenvolvimento motor e cognitivo, como para as capacidades essenciais para as atividades cotidianas. Para a realização deste trabalho, utilizou-se a revisão de literatura e buscou se compreender quais os efeitos e a importância da atividade física para os portadores da Síndrome de Down.

REVISÃO DE LITERATURA

SÍNDROME DE DOWN: CONCEITO E CLASSIFICAÇÃO

Podemos considerar a Síndrome de Down como uma deficiência intelectual, tida como a mais comum entre todas as síndromes que provocam desordem genética em seres humanos. É caracterizada como uma alteração na distribuição cromossômica envolvendo o par do cromossomo 21, apresentando-se como trissomia (92 a 95% dos casos), mosaico (2 a 4%) ou translocação (3 a 4%). Esta alteração cromossômica acomete em torno de 1 em cada 600 nascidos vivos resultando em alterações físicas e mentais, o que pode tornar os indivíduos mais vulneráveis em alguns aspectos do seu desenvolvimento (RIMMER et. al 2004; COWLEY et. al, 2011; SZYMANSKA et. al, 2012).

Segundo Werneck (1993) a classificação pode ser: “Trissomia simples; Trissomia por Translocação; Mosaicismo”.

Trissomia Simples: É responsável por cerca de 96% dos registros da Síndrome de Down. Para Werneck (1993, p. 75) “no cariótipo vê-se claramente a trissomia: os 2 cromossomos (da mãe e do pai) formando o par 21 e o terceiro, extra, causador da Síndrome de Down. O detalhe é que os três ficam bem identificados e separados entre si’. A trissomia simples também é conhecida como livre ou por não disjunção.

Trissomia por translocação: A trissomia por translocação pode ser vista como um acidente genético, como também pode ser herdado da mãe ou do pai e ainda é responsável por cerca de 2% da população de indivíduos com Síndrome de Down. Este tipo de trissomia que é por translocação ocorre quando: “o Cromossomo adicional está montado sobre um cromossomo de outro par G ou D. A translocação ocorre quando um cromossomo do par 21 e o outro, ao qual depois fica agregado, sofrem uma quebra na sua região central. Os dois braços curtos se perdem e os dois mais longos se unem”. (WERNECK, 1993, p.78)

Mosaicismo: O mosaicismo é caracterizado por indivíduos que possuem células normais com 46 cromossomos e células trissômicas com 47 cromossomos, aí está à diferença dos demais casos, onde todas as células são trissômicas. Este tipo ocorre em cerca de 2% dos indivíduos com Síndrome de Down. (WERNECK, 1993, p.78)

A IMPORTÂNCIA DA ATIVIDADE FÍSICA PARA O PORTADOR DE SÍNDROME DE DOWN

Quando pensamos na atividade física para os portadores de Síndrome de Down, devemos nos atentar principalmente ao seu diagnóstico clínico, onde de acordo com Mustacchi e Rozone (1990) as principais relacionadas ao desenvolvimento motor são a ausência do reflexo motor, hipotonia muscular generalizada e hiperlasticidade articular.

Portanto, devemos propor através da atividade física motora fundamentalmente atividades que desenvolvam e reverte esse quadro em que se encaixam, principalmente quando iniciada cedo. Segundo Werneck (1993), os indivíduos portadores de Síndrome de Down devem ser estimulados e muito no seu primeiro ano de vida, pois caso contrário, correm risco de ficar com o seu desenvolvimento bastante prejudicado.

A forma que será utilizada na estimulação de uma criança com Síndrome de Down é a mesma utilizada com qualquer outra criança, só que de maneira mais intensa, ou seja, ajudar a criança em direção ao melhor nível de desenvolvimento e experiência de acordo com o seu próprio ritmo, a partir do seu nível atual de desenvolvimento (HOLLE, 1990).

Sempre que se for realizar qualquer tipo de estimulação, esta deve ser feita de forma natural e com muito prazer. Atividades lúdicas também podem ser desenvolvidas, proporcionando assim ao portador de Síndrome de Down experiências que o levarão ao amadurecimento de suas funções motoras e até perceptivas.

Na realização de qualquer tipo de atividade não devemos tentar apressar a criança e sim fazer com que ela alcance o objetivo previamente proposto dentro dos seus limites e suas capacidades. Assim, a atividade motora possui papel importante na vida dos portadores de Síndrome de Down, pois visa o seu desenvolvimento físico, social e emocional. Respeitando seu ritmo e limite é possível desenvolver através da prática de atividades motoras a coordenação, o equilíbrio, a força, a destreza, a resistência, a precisão, a noção de tempo e espaço, melhorando assim o seu desenvolvimento integral. Desenvolvendo estas capacidades ficará mais fácil a adaptação do portador de Síndrome de Down com o meio físico e social no qual está inserido.

INFLUÊNCIAS DA ATIVIDADE FÍSICA NA SÍNDROME DE DOWN

Quando um portador de Síndrome de Down é inserido num contexto de atividade física, se faz necessário identificar quais são as influências que a mesma possui para eles.

Assim, o portador de Síndrome de Down pode realizar os mais variados tipos de atividades, desde que, estejam de acordo com o seu nível de desenvolvimento motor, seu ritmo, seu interesse e suas capacidades. Ao escolher as atividades que serão desenvolvidas, é necessário se ter certo cuidado em relação àquelas atividades que apresentam maior impacto, pois devido à hiperelasticidade articular e a hipotonia muscular o portador de Síndrome de Down pode vir a ter sérias lesões.

A baixa taxa de formação óssea apresentada pelos pacientes com Síndrome de Down, somado ao fato que estes apresentam, com o envelhecimento, um agravamento da baixa densidade mineral óssea aumenta o risco de fraturas nestes indivíduos (MCKELVEY et al., 2013). Sendo assim, torna se claro à necessidade de uma intervenção precoce, e esta deve ocorrer de preferência ainda na infância por meio de cuidados preventivos como a prática de atividade física regular e uma alimentação saudável, visando prevenir o risco de fraturas devido a fragilidades ósseas (FERGESON et al., 2009; SMITH; TEO; SIMPSON, 2013).

Oliveira et al. (2014) salienta que crianças com SD tendem a apresentar déficits motores, fazendo-se necessárias diferentes intervenções, podendo influenciar positivamente no desenvolvimento de habilidades motoras. Fica evidente, portanto, que a prática de atividades físicas podem contribuir para trabalhos em grupo e a exploração de diversos movimentos, além de estimular a expressão corporal de forma lúdica, com jogos e brincadeiras que favoreçam o domínio psicomotor (SOUZA, 2014).

Uma das disfunções dos portadores de Síndrome de Down é a hipotonia muscular, onde diminui com o tempo, mas ainda causam maus hábitos posturais. Atividade funcional já tem sido investigada em jovens e adultos, com a intenção de verificar seus efeitos benéficos, onde alguns apontados foram à melhora da força muscular e melhoras na aptidão física. Ainda, estudos com intervenções práticas que abordam o treinamento de força e sua influência na aptidão física, bem como uma metodologia que atendam às pessoas com Síndrome de Down. Neto; Filho e Pontes (2009), ressaltam que é possível aumentar significativamente a força muscular em indivíduos com síndrome de Down depois de inseridos em programas de treinamento de força ou resistência muscular. Na mesma direção, realizou-se outro estudo, cujo objetivo foi avaliar o efeito do treinamento sobre a força muscular e a capacidade de equilíbrio dinâmico de adultos com síndrome de Down, concluindo-se que os portadores dessa síndrome podem melhorar suas habilidades físicas e cinéticas com a aplicação de um programa de treinamento resistido, bem desenhado. (TSIMARAS e FOTIADOU, 2004).

Portanto, fica claro que a atividade física motora, quando bem estruturada e indicada para a causa ou solução que o praticante necessita, não há como negar seus benefícios, sendo assim um fator decisivo na vida destes indivíduos.

LIMITAÇÕES DOS PORTADORES DE SÍNDROME DE DOWN

Quando pensamos em atividade física para Síndrome de Down, devemos nos atentar a alguns cuidados, principalmente com atividades que envolvam pressão sobre a cabeça e pescoço onde possuem uma instabilidade atlanto-axial (SESI/SEDES-MEC, 1994)

Além da instabilidade atlanto-axial que possuem, alguns cuidados devem ser tomados para que não ocorra uma subluxação atlato-occipital posterior, caracterizado por um processo inflamatório na região cervical ou secundária a artrite reumatoide, podendo causar até a morte ou um maior comprometimento físico, devido a compressão da medula espinhal.

Embora existam alguns fatores limitantes no nível de aprendizagem e desenvolvimento motor dos portadores de Síndrome de Down, é importante estimulá-los com desafios, ajudando a superar suas dificuldades, promovendo autoconfiança, também compreendendo em que nível de desenvolvimento motor o indivíduo se encontra, aceitando seu ritmo na execução das atividades.

ATIVIDADE FÍSICA E O SÍNDROME DE DOWN

Abaixo será demonstrado através de um organograma todas as características e aspectos relacionados a atividade física para portadores de Síndrome de Down.

Figura 1 – Características de portadores de Síndrome de Down

Fonte: Próprio autor, 2019

CONSIDERAÇÕES FINAIS

É importante ressaltar através destes estudos investigados, que a atividade física se faz necessária na vida de todos, e os portadores de Síndrome de Down, mais presente ainda, onde através de experiências motoras diversificadas, poderão ter um melhor desempenho físico geral, favorecendo uma melhor qualidade de vida.

Ainda, é de extrema importante que a atividade física seja proporcionada a partir da infância, com as atividades para a obtenção da melhora na qualidade de vida e principalmente no seu desenvolvimento motor e cognitivo, oferecendo um ambiente diversificado e complexo, permitindo a vivência de diferentes formas, para que se possa explorar as capacidades físicas respeitando, é claro, suas vontades e limitações.

Com isto, estes estudos mostram que é preciso utilizar a atividade física para essa população, contribuindo para um melhor desenvolvimento geral, sendo necessário que os professores tenham conhecimento e vontade para trabalhar com esse público.

REFERÊNCIAS

COWLEY, PM; PLOUTZ-SNYDER, LL; BAYNARD, T; HEFFERNAN, K; JAE, SY; HSU, S et al. Physical fitness predicts functional tasks in individuals with Down syndrome. Med Sci Sports Exerc. 2010; 42: 388-393

Curso de Atualização: Educação Física e desporto para pessoas portadoras de deficiência. (1994: Curitiba). SESI/SEDES – MEC

FERGESON, M. A. et al. Low adherence to national guidelines for thyroid screening in Down syndrome. Genetics in Medicine, v. 11, n. 7, p. 548–551, jul. 2009

HOLLE, Brita. Desenvolvimento da crianca normal e retardada. São Paulo: Manole, 1990.

LIN, HC; WUANG, YP. Strength and agility training in adolescents with Down syndrome: A  randomized  controlled  trial.  Research  in  Developmental  Disabilities.  2012;  33:  2236–2244.

MCKELVEY, K. D. et al. Low bone turnover and low bone density in a cohort of adults with Down syndrome. Osteoporosis International, v. 24, n. 4, p. 1333–1338, abr. 2013.

PUESCHEL, S. M., Síndrome de down: guia para pais e educadores, trad. Lucia Helena Reily, Campinas, Editora Papirus , 2002.

RIMMER, JH; HELLER, T; WANG, E; VALERIO, I. Improvements in physical fitness in adults with Down syndrome. Am J Ment Retard. 2004; 109:165–174.

RIMMER, JH. Health Promotion for People With Disabilities: The Emerging Paradigm  Shift  From  Disability  Prevention  to  Prevention  of  Secondary  Conditions.  Physical  Therapy. 1999; 79(5): 495-502.

SMITH, C. H.; TEO, Y.; SIMPSON, S. An observational study of adults with Down syndrome eating independently. Dysphagia, v.29, n.1, p.52­60, jul. 2013.

SZYMANSKA,  AJ;  MIKOLAJCZYK,  E;  Wojtanowski,  W.  The  effect  of  physical  training  on  static balance in young people with intellectual disability. Research in Developmental Disabilities. 2012; 33: 675–68.

TSIMARAS, Vassilios K.; FOTIADOU, Eleni G. Effect of training on the muscle strength and dynamic balance ability of adults with down syndrome. The Journal of Strength & Conditioning Research, v. 18, n. 2, p. 343-347, 2004.

WERNECK, Cláudia. Muito prazer eu existo: um livro sobre pessoas com síndrome de down. 2a edição Rio de Janeiro: WVA, 1993.

[1] Graduação em Educação Física.

[2] Orientador. Mestrado em andamento em Ciências do Movimento Humano. Especialização em MBA em Gestão do Esporte. Especialização em treinamento desportivo. Graduação em Educação Física.

Enviado: Janeiro, 2020.

Aprovado: Julho, 2020.

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