Violência escolar: O uso do futsal como ferramenta no combate à violência na visão de professores

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Violência escolar: O uso do futsal como ferramenta no combate à violência na visão de professores
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ARTIGO ORIGINAL

OLIVEIRA, Fábio Bispo [1]

OLIVEIRA, Fábio Bispo. Violência escolar: O uso do futsal como ferramenta no combate à violência na visão de professores. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 11, Vol. 08, pp. 27-41 Novembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

A violência escolar é apontada como um dos grandes desafios a serem enfrentados na educação, quanto mais carente é a comunidade maior é a taxa de violência. Dentro deste contexto, este artigo tem como objetivo demonstrar como a prática esportiva, em especial o futsal , possui representatividade e, consequentemente pode ser utilizada para diminuição desse cenário. A metodologia empregada foi a descritiva observacional aplicada em uma comunidade carente da cidade de Salvador, no estado da Bahia- Brasil, à jovens e professores que vivenciam ou vivenciaram contexto de violência escolar. Suas narrativas foram agrupadas, categorizadas, e por fim, analisadas. Na conclusiva foi possível observar que o futsal devido sua herança cultural no Brasil pode ser considerado uma alternativa favorável não apenas no combate a violência escolar, mas também , como ferramenta de socialização dos estudantes, afastando-os do contexto da marginalidade.

Palavras-Chaves: Violência escolar, Futsal, Futebol.

INTRODUÇÃO

A violência de modo geral é um dos grandes males da sociedade contemporânea. Ela é encontrada em várias formas (física, psicológica, fisiológica, social , material, dentre outras), e em diversos lugares (ambientes familiares, instituições, locais públicos, dentre outros) (Sposito, 2001). Desta forma, para se falar sobre a violência dentro de um determinado contexto é preciso introduzir o leitor ao contexto que o estudo está investigando.

A violência escolar pode ocorrer na âmbito patrimonial, com a deterioração da estrutura escolar, quanto na agressão física aos alunos, professores e, aos colegas, e, ainda , na agressão psicológica da imposição do medo. Levandoski, Ogg e Cardoso (2011) conceituam a violência escolar como sendo qualquer tipo de comportamentos agressivos e/ou antissociais, conflitos interpessoais, danos ao patrimônio e atos criminosos cometidos no contexto escolar. A predominância da violência escolar ocorre do aluno para a escola ou para o professor e está associada diretamente ao ambiente externo e as condições socioeconômicas em que a escola está inserida. O estudo de Giordani, Seffner e Dell’Aglio (2017) apontou a violência escolar como sendo multifacetada, ocorrendo tanto no formato verbal quanto físico.

Para Lima (2018) a violência escolar e/ou a tendência da violência escolar pode ser detectada logo na educação infantil, quando as crianças começam a interagir com os outros reproduzindo seus ambientes domésticos, caberia já aí uma das primeiras ações de práticas educativas de sociabilizar a criança dentro de um novo espaço, introduzindo lhe novos valores. Para Silva e Sabião (2018) os primeiros sinais aparecem nas ações de indisciplina, capazes de revelar de forma intrínseca e extrínseca os problemas que emergirão, em especial nas violências verbais que poderão desdobrar-se facilmente em violências físicas.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS, 2002) a violência escolar tem sido responsável pelo desenvolvimento de diversas doenças, principalmente aquelas ligadas a transtornos psicológicos, uma vez que expõe seus atores (a maioria alunos e professores) a vivenciarem situações de violência direta e indiretamente, colocando a violência escolar como um problema de saúde pública desde a década de 1980. Embora o interesse pela discussão da temática da violência escolar tenha crescido a nível mundial, Bringiotti, Krynveniuk e Lasso (2004) reconhecem que apontar os motivos para a violência escolar de uma única fonte ainda não é o suficiente, pois para que se reconheçam os verdadeiros motivos da violência escolar é necessário investigar a realidade da sociedade em que ela está́ inserida, no entanto, a maioria dos estudos demonstra que as formas de violência variam de acordo com os problemas sociais enfrentados pela comunidade onde a escola está́ inserida, ou ainda, de acordo com os pressupostos dos indivíduos que ela (a violência) pratica.

Silva e Ristum (2010) ainda concluem que a violência escolar pode ser caracterizada como uma forma de privação de liberdade, e quando os autores defendem a linha desta privação não estão direcionando-se apenas a liberdade individual e ir e vir, mas sim, em sentido amplo, pois se oprime o ensinar agora, o educar que certamente tirará a liberdade deste indivíduo na capacidade de suas escolhas futuras.

No Brasil, a educação é um direito fundamental de todos. Cabe aos pais a obrigação de introduzir as crianças a partir de seis anos no contexto escolar. No entanto, muitas vezes o contexto escolar está declinado às sanções impostas pela violência escolar (Silva; Sabião, 2018). Reconhece-se que a violência escolar é um problema público no Brasil. De acordo com Gonçalvez e Sposito (2002) a maioria das ações que vislumbram trabalhar com ações de combate a violência escolar é de competências municipais e estaduais, que acabam por ser em sua grande maioria das vezes desfragmentadas e descontinuadas, sendo de difícil, mas necessário embate de políticas públicas.

A violência escolar no Brasil vive escondida por uma espécie de lei do silêncio, que ora são quebradas por busca de mídia, mas que não avançam com grandes repercussões para a criação de políticas públicas que garantam a ampla proteção (aos funcionários, professores, alunos, gestores e ao próprio patrimônio). Desta feita, surge o desafio aos gestores, que detém o delicado papel de conseguir atuar dentro deste contexto de insegurança, e, muitas vezes ameaças.

A escola, um lugar onde deveria ser de proteção e orientação as crianças e jovens, no Brasil, acabam muitas vezes por serem lugar de massacre aos direitos das crianças, adolescentes e jovens que são expostos a violência.

Na carreira docente, Chrispino e Gonçalves (2013) apontam o contexto da violência escolar no Brasil a desvalorizar ainda mais a carreira do magistério, fazendo com que professores antigos se afastem ou se recusem a lecionar em certas regiões, e, professores em formação desistam de atuar na profissão, pois, além do baixo salário e condições duvidosas de trabalho ainda se veem obrigados a lidar com o contexto de violência. Assim, surge o fenômeno de abandono do magistério, outro assunto que merece discussão em estudos posteriores. Além disso, Aquino (2008) alude que há uma evidenciada crise de identidade dos professores que se veem num papel deslocado, onde seus esforços esbarram na violência verbal dos alunos, um dos primeiros sinais de violência escolar que são relatados dentro dos estudos que investigam o âmbito da violência. Outro desafio encontrado no contexto brasileiro de violência escolar está associado aos traumas e desdobramentos patológicos que as diversas formas de violência dentro do contexto escolar são capazes de proporcionar aos indivíduos.

O ambiente de violência escolar no Brasil possui algumas características predominantes incomuns: A maior parte ocorre em comunidades carentes; são realizadas predominantemente por meninos, ocorrem entre os 10 e 18 anos (Chirspino e Dusi, 2008).

Dentro deste contexto, não se restam dúvidas da necessidade de a escola apontar caminhos e ferramentas que possam servir como ações de combate a violência. Essas ações podem ser reconhecidas como sendo parte das práticas educativas. Para Vasconcelos (2017) as práticas educativas, especialmente aquelas que trabalham com conscientização do sujeito, de que a violência deve ser combatida individualmente e coletivamente, e, que cada um possui papel importante no contexto escolar para o combate da violência .

Uma das práticas educativas em que o estudo está baseado refere-se as práticas realizadas nas aulas de educação física, especialmente a prática do futebol.

Para Sedorko e Fink (2016) o esporte é considerado um dos maiores fenômenos sociais e capazes de unirem culturas, classes sociais, religião e ideologias políticas em convivência pacificam devido ser polissêmica, por isso, a escolha pela adoção do esporte no contexto da educação física escolar deve tomar posicionamento de destaque na escola da

As influências de uma concepção de Educação Física, com foco no desporto de alto nível, aliando técnica à competitividade, colocando a Educação Física acima dos conflitos sociais, a utilização do esporte nos momentos livres da população, com vistas a eliminar críticas ao regime político, se estenderam pelo país, independentemente da proximidade territorial das decisões políticas e ideológicas formação curricular por parte dos professores, bem como, por parte da gestão. Na prática esportiva identifica-se sua “abrangência e a diversidade de relações que o esporte suscita originou um alargamento do seu conceito, que abrange a existência de um esporte da escola, de um esporte de lazer, além do esporte institucionalizado, de rendimento”. (Sedorko e Fink, 2016).

Quando se trata das práticas através do futebol, recorre-se ao contexto social, individual e cultural. Social a partir do momento em que o indivíduo precisa aprender trabalhar com os colegas para alcançar um determinado resultado, sociabilizando, realizando estratégias e lidando com certas restrições. Individual pois para lidar com as variáveis do esporte para determinados objetivos é necessário trabalhar com a inteligência emocional , realizando capacidade de escolhas, e colhendo rapidamente os resultados destas, ou seja, as escolhas de ações de desempenho determinaram na perda ou vitória da partida. E, por fim, a adesão cultural, pois o futebol no Brasil é reconhecido como características de pertencimento social.

Como já aludido acima, um dos grandes propulsores para que o futsal passasse a fazer parte assídua das aulas de educação física, passando ser um dos esportes mais praticados, foi o crescimento e representação do futebol no contexto nacional, e até́ mesmo internacional após a segunda metade do século XX (Cruz e Moreira, 2016).

O futebol tende a ser aceito tanto pelas meninas quanto pelos meninos, porém, apesar disso, identifica-se uma certa predominância entre o sexo masculino. Assim como em demais matérias, cabe ao docente o desafio de compor uma base curricular dentro de sua disciplina capaz de impulsionar o interesse e desenvolvimento de todos os alunos (Santos 2016), motivo este que tem enfatizado a introdução do futsal de acordo com as preferências dos alunos.

Desta forma, este estudo teve como objetivo analisar a representatividade do futsal como ferramenta no combate a violência escolar através das narrativas de adolescentes e professores de uma comunidade da cidade de Porto Seguro, no Estado da Bahia/ Brasil.

Porto Seguro é a segunda cidade mais importante do Estado da Bahia, especialmente com grande potencial econômico relativo ao turismo. No entanto, embora seja uma cidade rica, algumas regiões periféricas são dominadas pelo tráfico de drogas e geridas por milícias que disputam o território de droga. Nessas regiões periféricas, a violência escolar acaba sendo uma realidade recorrente, trazendo aos professores e gestores desafios para manter-se e conseguir fazer a diferença na vida dos alunos, buscando evitar com que estes sejam aliciados pelo tráfico.

MATERIAIS E MÉTODOS

A classificação do tipo de pesquisa a ser empregada em um estudo acadêmico é um desafio que deve ser atendido com cautela e, através das fases e ferramentas utilizadas no processo de desenvolvimento da pesquisa, especialmente com base em seus objetivos gerais (Gil, 2002, p.41). De acordo com Gil (2002), as pesquisas podem ser exploratórias, descritivas e explicativas. No caso deste estudo, a pesquisa será classificada como descritiva (Gil, 2008).

“As pesquisas descritivas têm como objetivo primordial a descrição das características de determinada população ou fenômeno ou, então, o estabelecimento de relações entre variáveis” (Gil, 2002, p.42). Seguindo esses preceitos, o estudo buscou reconhecer o perfil dos adolescentes, o fenômeno em que estão inseridos, e, ainda as variáveis resultantes desse fenômeno quando tratou de investigar a representatividade do futsal em suas respectivas formações.

Buscando atender os pressupostos dessa conceituação, foram entrevistados estudantes e professores da comunidade do Paraguai em Porto Seguro no estado da Bahia. Embora o Estado busque fazer rondas nessas regiões, todo esforço volta-se ao turismo, não sendo possível atuar ativamente na violência local. Desta feita, o número de homicídios e domínio do tráfico é muito alto. Na competitividade por busca de territórios e domínio do tráfico é evidenciado um constante aliciamento por participações crianças, jovens e adolescentes que possam servir as facções criminosas. Por conta deste cenário, as escolas e seus atores, em especial gestores e professores vivem em constante pressão.

As entrevistas foram realizadas através de questionário com questões abertas na tentativa de obter o máximo de informações e reconhecimento da representatividade do futsal para meninos de uma comunidade carente. Desta forma, a pesquisa adotou-se da metodologia qualitativa por meio de entrevistas em profundidade. Essa metodologia pressupõe que os entrevistados falem livremente a respeito dos assuntos que lhes são apresentados nas questões da entrevista.

A técnica amostral utilizada foi a não probabilística por conveniência. As entrevistas foram gravadas, transcritas e, depois, agrupadas e analisadas. A análise foi dividida em tópicos que correspondem às hipóteses do estudo. Cada tópico foi desenvolvido de acordo com a hipótese que se investigou. Essa estratégia assegurarou a validade da pesquisa para dar as respostas necessárias a esta tese (Samara; Barros, 2007).

A entrevista foi realizada com 10 alunos e 06 professores. Os atores investigados foram alunos e professores que compõem de forma ativa o contexto escolar. Quanto aos alunos fizeram parte da entrevista com a faixa etária de 15 a 18 anos capazes de discorrer sobre suas percepções quanto à inserção do futsal já que passaram pelo processo anterior as práticas de futsal na aula de educação física, e, que de alguma forma já sentiram a violência escolar. Já quanto aos professores que se dispusera a falar, alguns ainda possuem ressalvas pessoais quando o assunto envolve comentar sobre a violência local.

O roteiro do professor fora composto de 12 questões, as perguntas tiveram o intuito de entender como este relatava a violência escolar e, como percebeu que as aulas de educação física, especialmente o futsal atuaram no comportamento dos alunos, buscando evidenciar se houveram benefícios claros. Toda a coleta de material se deu entre os meses de julho e dezembro de 2017, já as transcrições de janeiro a março de 2018.

As entrevistas foram gravadas com o auxilio do aparelho gravador, e, depois transcritas no aplicativo de texto Word.

Já a pesquisa com os alunos seguiu roteiro semelhante, sendo acrescentadas mais duas questões, formando assim, 14 questões, especialmente com relação ao aliciamento de jovens e a prática de esportes, e, suas percepções sobre o contexto escolar.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Foram entrevistados 6 (seis professores), 3 do sexo masculino, 3 do sexo feminino. As idades variaram entre 31 a 54 anos, e a área de atuação conforme apresentado abaixo:

Quadro 1: Área dos professores

Professor Área de Atuação Tempo de Atuação
02 Língua Portuguesa 9 anos e 13 anos
01 Ciências e artes 10 anos
02 Matemática 4 e 20 anos
01 Educação física 20 anos

Fonte: Dados da pesquisa 2017

A busca por professores de diferentes áreas foi na expectativa de observar se a percepção do impacto e influência do futsal varia de acordo com área do professor, ou seja, se podem ser percebidas além das aulas de educação física. Além disso, todos podem ser considerados experientes, e pelo período de atuação docente conhecer bem próximo a realidade da violência escolar.

Já com relação aos alunos Foram entrevistados 10 alunos de 14 a 18 anos, do sétimo ao nono ano do ensino fundamental, em frequência seriada regular, ou pertencentes ao EJA (programa de Ensino de Jovens e Adultos no Brasil, voltados para aqueles que ultrapassaram a idade escolar). Nota-se que a expectativa normal é que o ensino fundamental (1o ao 9o ano) seja concluído pelos adolescentes na faixa etária dos 14 aos 15 anos). Desta forma, uma das primeiras observações a serem realizada nos dados coletados é que todos os estudantes entrevistados parecem estar acima da idade para conclusão normal do ensino fundamental. Essa é uma das características encontradas em estudantes de comunidades carentes que tendem a não concluir o ensino escolar em idade considerada regular dentro dos padrões do Ministério da Educação (MEC).

Quadro 2. Características dos alunos

ALUNO SÉRIE IDADE
1 15
2 17
3 EJA 18
4 EJA 16
5 16
6 EJA 17
7 15
8 16
9 14
10 16

Fonte: Dados da pesquisa 2017

Tanto os alunos quanto os professores relataram possuir medo da violência em que a escola está inserida. O relato dos professores demonstra que a violência é tão evidenciada que já faz parte de suas preocupações, elevando o nível de estresse e afetando a saúde destes professores. Albuquerque; Williams (2015) apontou justamente os prejuízos para a saúde dos professores na exposição constante ao estresse ocasionado pela violência escolar, igualmente como elucidado por Sposito (2001) quando fez uma abordagem das construções de violência e a saúde. <<A violência na comunidade é uma realidade, infelizmente várias cidades sofrem com esse problema social, onde a educação está perdendo o espaço (professor).>>

Nota-se que, as formas de violência manifestadas no contexto escolar são abrangentes, assim como manifestado por Levandoski, Ogg e Cardoso (2011), que extrapolam os limites da violência verbal, manifestando-se de forma multifacetada (Giordani, Seffner e Dell’Aglio, 2017). E ainda, como apontado por Silva e Ristum (2010) que priva a liberdade. << Sim, já sofri ameaças, um a vez vieram dois caras onde fui agredido com palavras de baixo calão, fiquei preocupado com minha permanência aqui na escola (professor)>>.

Diz-se que a privação da liberdade no relato dos professores pode ser verificada quando a professora três enuncia que projetos idealizados foram interrompidos e/ou nem iniciados ao considerar a violência através da indisciplina dos alunos e da presença da violência vinda por pessoas daquela comunidade. Para Silva e Sabião (2018) a indisciplina é um dos primeiros indicadores da violência, que neste caso, impede com que a direção aceite todos os projetos propostos pelos professores. Nas narrativas não foi possível compreender as formas de manifestações da indisciplina escolar.

Ainda sobre a violência, contexto, percepções, atuações e impacto, a quinta pergunta buscou investigar se os professores tiveram alunos que se envolveram diretamente com a violência , todos os professores responderam que já tiveram casos de alunos com envolvimento direto ou sanções impostas pelo crime. De acordo com Sposito (2001), Albuquerque; Williams, (2015) e Levandoski, Ogg e Cardoso (2011) o envolvimento direto do professor nos quadros de violência tendem a se manifestar ainda de forma mais evidente na progressão de doenças. Nas narrativas foi possível observar professor que perderam seus alunos assassinados, e, que em suas percepções nem estavam envolvidos com o crime. Nota- se que a escola investigada trata-se de uma escola de ensino fundamental, os alunos são extremamente jovens, podem ser apontados como uma escola de crianças e adolescente afetados diretamente pela violência.

Todos os professores concordam que o Futsal é capaz de introduzir melhor perspectivas na visão dos alunos << Sabemos que o esporte mais praticado no Brasil é o futebol de campo, onde muitos meninos enxergam o NEYMAR, como um exemplo a ser seguido, e o inicio dessa profissão muitas das vezes começam nas brincadeiras de bola na escola, e se estende através do futsal. A comunidade aprova o esporte, principalmente quando é realizada competições interna ou externa (professor)>>.

Lima e Viana (2016) apontam que o futsal por ser um esporte que faz parte da cultura nacional tende a ser um dos mais bem aceitos na aula de educação física. Na escola investigada, parte de uma comunidade carente e violenta, o futebol encontra ainda novos desdobramentos ainda mais profundos, pois como vamos perceber no decorrer das narrativas, é capaz de introduzir os alunos a outra realidade. << Sim, no meu ponto de vista os esporte em geral tem grande influência na formação dos jovens, especialmente o futebol e o futsal, onde nos jogos muitos desses alunos desenvolve suas habilidades e podem chegar aos times profissionais (professor) >>.

Essa visão também foi compartilhada pelos alunos que passam período do dia ociosos, e direcionam-se na comunidade para jogar futebol. Esse momento ocioso é um dos grandes responsáveis pelo aliciamento dos jovens. A maioria das famílias desses jovens são desestruturadas e não possuem condições de realizar um acompanhamento diário. Os jovens investigados sustentam a tese dos professores, e afirmam que existe influência direta através de convites de amigos especialmente, para que os jovens optem por tornar-se um criminoso. De acordo com os jovens, a grande oferta está na “projeção financeira, respeito, e facilidade” que são prometidas por quem oferece oportunidades do crime, levando em consideração sempre a posição financeira desfavorável que o jovem se encontra em uma comunidade carente.

Nas falas dos entrevistados são encontradas as violências das comunidades imputadas por facções, “outros caras”, traficantes que dão ordens, e, que não são necessariamente os moradores, mas sim, que a repressão vem por alguma força de poder externo, que se dá também como um poder paralelo, influenciando inclusive o ir e vir da população. Desta forma, a violência escolar seria um resultado ou reflexo dessa violência da sociedade ou comunidade em que a escola está inserida, como aponta Sposito (2001); Levandoski, Ogg e Cardoso (2011), dentre outros.

Quando solicitados para explicar sobre a representatividade do futsal (futebol) em suas vidas, todos os alunos inclinam-se para apoiar a prática do esporte e reconhecer que em especial o futsal é responsável por lhes fornecer novas perspectivas: << Sim! O Futsal Hoje é uma maneira de construir uma vida profissional na sociedade, não só o futsal, mais a prática de esportes é capaz de desenvolver o bom e o melhor caráter de um cidadão (aluno)>>.

Embora em um primeiro contexto as afirmações de que o esporte , em especial o futsal disseminado na escola possa servir não apenas como ferramenta no combate a violência escolar, mas na construção de novas perspectivas de vida para esses jovens, possam parecer exageradas, na medida em que as narrativas dos entrevistados vão sendo demonstradas é possível observar o simbolismo e sentimentos que são expressos através do futebol para esses jovens e adolescentes.

No decorrer das respostas foram possíveis encontrar falas dos alunos como: “tudo para mim”. Ou ainda, quando os alunos apontam emoções como o futebol associado a família, sociabilidade, respeito, humildade, paciência, comprometimento, união. E por fim, como um dos próprios alunos argumenta: “coisas boas, é o melhor lugar para os jovens que gostam do esporte, e acredito que não haja espaço para o mundo do crime”. Essa simples frase traduz o que se pretende alcançar com essa dissertação, ou seja, a adoção do futebol pelos alunos passa a ocupar o lugar do crime, sendo então um bem não apenas para o jovem, mas para a sociedade em que este está inserido.

Quando questionados sobre o esporte como potencial para afastar os jovens da violência, também é possível constatar nas narrativas uma unanimidade dos jovens e adolescentes na compreensão da prática do futebol como ferramenta de combate a violência, e responsável, inclusive, por afastar os jovens da criminalidade. Os jovens compreendem que o universo que vivem é um universo violento, e carente de muitas necessidades, além disso, “refém” da violência , ocasionados por terceiros ( milícias), porém, mesmo tendo essa consciência, os jovens acreditam que o esporte, mais ainda o futebol pode ser responsável por traçar um “novo rumo” para estes jovens..

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este estudo teve como objetivo investigar como o futsal é percebido pelos alunos no aspecto social e combate da violência escolar tem como foco a investigação em uma escola de uma comunidade carente da cidade de Porto Seguro, no estado da Bahia/ Brasil.

Através de um questionário etnográfico investigou-se as narrativas de professores e alunos que elucidaram viver em contexto violento, seja na escola , seja na comunidade, seja de forma direta ou indireta.

A comunidade investigada foi a comunidade do Paraguai, uma comunidade que vive em zona de briga de milícias por território, consequentemente uma comunidade com forte influencia do tráfico de drogas, que por sua vez, além de espalhar ondas de violências , dedicam-se no recrutamento de adolescentes e jovens para trabalharem junto a criminalidade.

Muitas vezes a escola é fechada, e os cidadãos da comunidade são impedido de sair de casas por confrontos entre essas milícias. É comum que a violência da comunidade invada a escola, seja por alunos pertencentes ao crime, seja pelo crime que vê nas atividades escolares uma forma de ameaça , ou seja, apenas pela expectativa de imputar o poder paralelo demonstrando quem é “o dono do espaço”.

No decorrer do estudo a literatura apontou que a escola é um meio de socialização e de adquirir novos valores, morais e condutas anti violência. Essas afirmações foram pautadas pelas narrativas dos entrevistados. Tanto os professores quanto os alunos apontam a escola como meio ter melhores oportunidades da vida.

É na escola ainda que a proposta de se trabalhar com o futebol/futsal , e todas as suas normas e regras são trabalhadas. O futebol foi escolhido propositalmente para este estudo devido sua representatividade no contexto brasileiro.

É um esporte apontado como “paixão nacional”, além disso, a estrutura para se trabalhar é relativamente simples, basta uma bola, as demais são improvisadas. Talvez por essa “simplicidade” que todos os cidadãos brasileiros veem no futebol uma identificação.

Além disso, o estudo demonstrou que para os meninos pertencentes a comunidades carentes, o futebol carrega ainda mais simbolismo, é visto pelos jovens e adolescente como uma oportunidade de fazer carreiras, de mudar de padrão de vida para si e seus familiares, por isso, as inspirações de ‘ídolos’ são meninos que um dia foram pobres, pertencentes a comunidades carentes e que conseguiram vencer através do futebol.

Quando encontrou-se nas narrativas dos entrevistados, em especial dos jovens e adolescentes os sentimentos de emoção, felicidade, também pode ser observado a resiliência que esses jovens adquirem usando o futebol como arma, até mesmo de forma inconsciente, e, buscando através do futebol encontrar razões para enfrentarem as adversidades ocasionadas pela violência e pela falta de recursos.

Este estudo trouxe nas narrativas as possibilidades de ferramentas relativamente simples que podem servir como base para que as comunidades carentes possam enfrentar a violência, e trazer ao seus jovens oportunidades de conquistar um futuro melhor. Porém, isso só será possível se a escola e os professores adotarem de forma multidisciplinar o esporte em seu contexto, e trabalhar com os potenciais que a prática pode desenvolver.

Além disso, são através dessas iniciativas que os jovens vão desvencilhando do crime, e partindo para novas possibilidades, capazes de buscar pelo ensino , com resiliência e sonho proporcionado pelo esporte.

Quanto as limitações deste estudo sugere-se que a dimensão do família para compreender a importância , reflexos e aspectos da introdução do esporte, em especial do futebol, podem exercer na vida de adolescentes que vivam em comunidades carentes e violentas. Embora o estudo aqui realizado tenha como base o interesse na demonstração de ferramentas que possam atuar no combate a violência escolar, é fundamental compreender que a família ( assim como apontado na fala dos professores) , bem como a sociedade como um todo, são fundamentais na participação deste processo.

Outro desafio também encontrado neste estudo é a própria execução das entrevistas que não podem ser expostas de forma muito aberta para toda a comunidade uma vez que esta ( objeto de estudo) é comandada por milícias que acabam por dificultar qualquer tipo de estudo ou busca de solução contra a violência na sociedade, tendo o pesquisador que enfrentar cuidadosamente o interesse em pesquisar estes indivíduos que estão sob a égide do domínio de milícias.

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[1] Professor de educação física, mestre em educação.

Enviado: Novembro, 2018

Aprovado: Novembro, 2018

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