Jornalismo online, Credibilidade & Fake News: Uma breve análise

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ARTIGO ORIGINAL

VICTOR, Cínthia Lima [1]

VICTOR, Cínthia Lima. Jornalismo online, Credibilidade & Fake News: Uma breve análise. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 07, Vol. 05, pp. 81-89. Julho de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/jornalismo-online

RESUMO

Com o surgimento da internet e redes sociais, o fluxo de informação aumentou notadamente. Neste artigo, será feita uma breve passagem acerca da história da criação da internet e desenvolvimento do ciberjornalismo para se chegar à um novo paradigma comunicacional. Descrever-se-á sucintamente a problemática da apuração de episódios versus fake news, evidenciando a conduta ética do jornalista, reforçando sua função de interpretar acontecimentos e/ou fatos. O objetivo desse trabalho é analisar a importância da credibilidade nos textos jornalísticos online. A metodologia aplicada parte de uma pesquisa explicativa e bibliográfica. Infere-se na relevância do profissional jornalista no empenho de trazer a realidade dos acontecimentos em tempos de notícias ilegítimas e boatos.

Palavras-chave: Ciberjornalismo, credibilidade, fake news.

1. INTRODUÇÃO

A imprensa tem o dever de garantir a informação no mais extensivo campo da verdade e de forma imparcial. Ela expressa ideias, questionamentos e críticas à sociedade, querendo o progresso e a renovação no campo político e social. O jornalista procura ter credibilidade e ser instantâneo em suas publicações.

  • Credibilidade: aponta para a necessidade de transmitir uma sensação de confiança. A ideia está relacionada com o que tem reputação, crédito.
  • Instantaneidade: caracteriza o que é instantâneo, imediato.

Na teoria da espiral do silêncio, observa-se que os meios de comunicação tendem a preferir opiniões de um grupo que parece dominante, consolidando-as e colaborando para calar minorias. Assim: “essa teoria defende que os indivíduos buscam a integração social por meio da observação da opinião dos outros e procuram se expressar dentro dos parâmetros da maioria para evitar o isolamento” (PENA, 2005, p. 156). Com a tecnologia, a sociedade passou a se relacionar, também, a partir de um ambiente cibernético. Com o advento das redes sociais, a sociedade interage por meio dela tanto pela vertente social quanto pelo lazer, modificando o corpo social. Seu uso amplia o contato e produz um universo igualitário (RECUERO, 2009). Analisa-se que a relação emissor-receptor está obsoleta diante do crescente volume de disseminação de conteúdos proporcionado pela internet e pelo fato do indivíduo buscar inserção social.

Por outro lado, manifestam-se as fakes news, que não possuem nenhum comprometimento com a verdade, imbuídas de desinformação. Nesse contexto, busca-se identificar elementos concernentes surgimento do jornalismo online, analisar técnicas de produção de textos e apuração, questionar o papel da imprensa na busca pelo furo de reportagem e seu papel com a verdade e promover a discussão acerca do desenvolvimento da opinião pública.

2. INTERNET E JORNALISMO ONLINE

No ano de 1969 surge a Internet, em meio a Guerra Fria, com objetivos militares. Naquela época, a Arpa (Advanced Research Project Agency) era o órgão dos Estados Unidos da América responsável pela ascensão tecnológica do país. Ela desenvolveu então a Arpanet; uma rede para depósito de conceitos. Na década de 70, o termo “internet” foi cunhado por Vinton Cerf e seu quadro de trabalhadores. Eles esforçavam-se para vincular redes dissemelhantes em uma ordem dita como interneting. Todavia, em 1973, verificou-se a 1ª junção entre dois continentes: Norwegian Seismic Array agrupou-se à Arpanet. No Brasil, a internet se desenvolveu junto ao meio acadêmico e científico. Durante a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – Eco-92, em 1992, um instituto brasileiro fixou um contrato com a associação para liberação do ingresso da internet ao coletivo.

Gráfico 1: Estágios da web

Fonte: Slideshare
  • Web 1.0 – implantação e popularização; o conteúdo dos sites é estático e o internauta apenas um ledor.
  • Web 2.0 – o internauta passa a interagir e produzir conteúdo. Ocorre, também, a ascensão de sites de busca, como o Google, e de relacionamento social, como o Facebook.
  • Web 3.0 – uso de modo mais ágil do conhecimento já disponível na Internet com o progresso das ferramentas de busca.
  • Web 4.0 – a inteligência artificial está presente.

Webwriting equivale a um complexo conjunto de mecanismos utilizados textualmente e digitalmente, com intuito de produzir matéria online de excelência, que seja objetiva, coerente e de descomplicado acesso. Firmado na noção de webwriting, pode-se elucidar quatro preceitos deste complexo de recursos: princípio da encontrabilidade, acessibilidade, navegabilidade e objetividade. Alguns recursos podem ser usados em diversos tipos de textos para tornar a mensagem mais clara, objetiva e explicativa. O jornalista deve saber definir a finalidade da notícia e o público-alvo e alimentar o interesse do leitor logo no início do texto. Com a leitura do primeiro parágrafo, o ledor deve já estar basicamente informado sobre o assunto, porém será estimulado a ler a matéria até o final. Pena (2005), afirma que o jornalismo constrói uma presumida realidade e que o jornalista usa a enunciação para criar discursos que visam estabelecer o que o senso comum denomina como notícia:

Esses pressupostos estão incluídos no modelo teórico do newsmaking, cuja sistematização feita por autores como Mauro Wolf e Nelson Traquina, por exemplo, leva em consideração critérios como noticiabilidade, valores-notícia, constrangimentos organizacionais, construção da audiência e rotinas de produção (PENA, 2005, p. 128).

Uma notícia é composta pelo título, e, em alguns casos, há, também, subtítulo- por lead (assunto a ser abordado, informação principal), corpo do texto com desdobramentos e conclusão. Deve ser um texto com clareza, concisão, precisão, simplicidade, ritmo, brevidade, etc. Outros aspectos gramaticais são: coesão (uso correto das articulações gramaticais e conectivos, que permitem a ligação harmoniosa entre as frases, orações, termos, períodos e parágrafos de um texto), coerência (relação lógica entre as ideias, pois essas devem se complementar), sentido denotativo (sentido literal), linguagem objetiva (estilo de escrita simples e eficiente que permite ao leitor entender facilmente o que está escrito), logo, sem ambiguidade. Moherdaui (2007), em seu trabalho, salienta a presença de quatro fases concernentes ao desdobramento do jornalismo na internet.

A primeira seria um modelo “nos quais a formatação e a organização seguiam diretamente o modelo do jornal impresso” (MOHERDAUI, 2007, p. 122). Os levantamentos denotados nesse momento seriam cópias de outros já publicados em editorias no impresso, sem a preocupação com a utilização de novas formas de narrativas digitais. No final dos anos 90, houve a segunda fase. Destacou-se pelo início da utilização das novas possibilidades que o meio digital oferecia, ocorrendo uma agregação de novos tipos de produtos. Moherdaui (2007) destaca que nesse ínterim os “jornalistas criam conteúdos originais para a rede, passando a utilizar hiperlinks, interatividade, ferramentas de busca, conteúdo multimídia como vídeo, áudio e imagens, customização de conteúdos” (MOHERDAUI, 2007, p. 124). Na terceira fase de progressão, o material único para o jornalismo online começou a ser desenvolvido.

Isso se deu devido à nova relação que as grandes empresas passaram a tecer com a web, criando iniciativas adaptadas ao meio. Nesse estágio, as notícias computam com profusas possibilidades: “o uso de recursos multimídia; a convergência entre suportes diferentes (multimodalidade); a disseminação de um produto em várias plataformas e/ou serviços informativos; e a produção de conteúdo pelo usuário” (MOHERDAUI, 2007, p. 125). Moherdaui (2007), considera, também, uma quarta fase nesse processo, que, segundo ela, evidencia-se por um jornalismo online “baseado em bancos de dados inteligentes que aparece ao usuário como interface tipificada no espaço navegável, que permite explorar, compor, recuperar e interagir com as narrativas” (MOHERDAUI, 2007, p. 127). Inferem-se seis características tangentes à essa aplicação. São elas: 1) Multimidialidade/Convergência; 2) Interatividade; 3) Hipertextualidade; 4) Personalização; 5) Memória; e 6) Instantaneidade/Atualização contínua.

3. ENQUADRAMENTO, CREDIBILIDADE E FAKE NEWS

Os meios de comunicação de massa já influenciaram no que a sociedade deve pensar uma vez que a mensagem já foi apenas uma relação emissor- receptor/estímulo-resposta. A agenda setting analisa os efeitos dos meios de comunicação de massa (m.c.m) sobre a audiência, buscando entender a formação da agenda temática de discussão da sociedade. Os jornalistas se pautam entre si e evidenciam determinado assunto. É nesse contexto que aparece a figura dos Gatekeeper- jornalistas, que decidem o que será divulgado na mídia. Nos Estados Unidos, a centralização de gatekeeping em editores ora se pautava na lei de mercado ora por conveniências que retratavam manipulações de grupos de constrição. Os jornalistas verificavam e organizavam conteúdos conforme o método padrão sem muita influência (LAGE, 2006).

A função do gatekeeper de decidir se determinada informação seguirá ou será bloqueada não é mais necessária devido às caraterísticas das redes como a flexibilidade, o modelo de comunicação todos/todos e liberdade de ambiente para publicação de conteúdo. Agora seu papel se configura como guia ao invés de líder, tornando-se, assim, os gatewatchers. Eles utilizam do enquadramento que serve para dizer ao público o olhar que deveria ter sobre um determinado assunto (mudanças na formulação podem causar variações significativas). Logo, enquadramentos são entendidos como recursos que organizam o discurso a partir de práticas específicas (seleção, ênfase, exclusão). Diante do cenário político, Porto (2004) observa que a definição de enquadramento no sistema político está relacionada à compreensão da resolução de discórdias políticas que evoluem a partir das interpretações para ponderar acerca de assuntos políticos (PORTO, 2004).

Enquadrar significa selecionar alguns aspectos de uma realidade percebida e fazê-la mais saliente em um texto comunicativo por meio do dimensionamento que pode fomentar a ampliação ou encolhimento dos fatos e o domínio discursivo estabelecido, ou seja, uma série de conjuntos de ideias associadas que formam uma maneira de raciocinar sobre o assunto, raciocínio que é familiar ao público a partir de outras experiências culturais; o rótulo do “evento” em si e a generalização. Nesse contexto comunicacional visto na internet, é notável a facilidade de encontrar informação, mas o problema passa da disponibilidade para a qualidade. Com isso, uma questão se torna bastante pontual: a credibilidade da informação veiculada. O jornalista deve se preocupar com um texto mais imparcial possível. Ser imparcial é não fazer juízo de valor (exceto em textos de colunistas), sua narração é feita em terceira pessoa.

A teoria do espelho tem como base a ideia de que os periódicos refletem o factual e o jornalista faz apenas o reflexo do verdadeiro: “o jornalista é um mediador desinteressado, cuja missão é observar a realidade e emitir um relato equilibrado e honesto sobre suas observações, com o cuidado de não apresentar opiniões pessoais” (PENA, 2005, p. 125). Ademais, o profissional deve checar todas as informações rigorosamente (como prática contínua; erros de gramática ou informações que podem gerar problemas e incredibilidade ao autor). É necessário que esse profissional sempre confronte informações coletadas e faça uma revisão minuciosa para não comprometer a credibilidade do seu texto já que é um dos preceitos mais prezados na relação de confiança entre jornalista e público. Atualmente, notícias falsas ficam célebres rapidamente com o auxilio de redes sociais. As fake news tem o propósito de defraudar a realidade a partir do uso de recursos da linguagem jornalística, gerando dúvida informativa.

[…] a internet trouxe novos desafios também na aferição de veracidade das notícias. Se antes a limitação de um boato dificilmente transpassava os limites de uma cidade ou, quando muito, de um país, hoje o boato torna-se global sem grandes dificuldades, com consequências imprevisíveis (IBCCRIM, 2018, p. 2).

Na notícia ilegítima, pode-se verificar a má utilização da informação para modelar um indivíduo ou quando o verdadeiro conteúdo é compartilhado com informações falsas contextuais. No presente, grandes empresas utilizam sites de checagem para detectá-la; o ledor pode utilizar de artifícios para identificar informação inautêntica como consultar especialistas sobre o assunto, achar outras fontes que sustentem as notícias e verificar se os autores realmente existem e são confiáveis.

4. ÉTICA JORNALÍSTICA

Os jornalistas possuem um código de ética que fixa normas que regulam a atuação do profissional e as suas relações com a comunidade, com as fontes de informação e com os próprios colegas de trabalho, os jornalistas. A sociedade, parte integrante do processo de comunicação, tem seu direito assistido, o da informação, presente no código de ética dos jornalistas brasileiros, no seu Art. 1: “o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros tem como base o direito fundamental do cidadão à informação, que abrange seu o direito de informar, de ser informado e de ter acesso à informação” (Fenaj, 2007). Outra parte importante e que jamais pode ser esquecida é a conduta do profissional, e, com isso, a divulgação dos fatos deve ser segura, além de haver o dever de respeitar o direito da privacidade do cidadão.

O noticiarista se fundamenta na realidade e verdade das ocorrências, pactuando com sua precisa exposição, como aponta a norma: “Art. 4 – O compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação” (Fenaj, 2007). Segundo Marcondes Filho (2000), o jornalismo tem o papel de “mostrar” a verdade oculta, e, assim, afirma que:

Jornalismo é a síntese do espírito moderno: a razão (a “verdade”, a transparência) impondo-se diante da tradição obscurantista, o questionamento de todas as autoridades, a crítica da política e a confiança irrestrita no progresso, no aperfeiçoamento contínuo da espécie. (MARCONDES FILHO, 2000, p. 9).

Analisa-se a atividade do jornalista como uma natureza obrigatória de prestação de assistência à população como um funcionário público, em seu sentido literal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A cobertura feita pela mídia afeta “sobre” o que o público pensa e também “como” o público pensa sobre determinado tema depende da forma como o conhecimento e informações são enquadrados. O enquadramento atribui significados/interpretações específicos aos eventos, participam da construção de cenários e na construção de “clima” em que a realidade é construída. Isso parte de práticas de seleção, ênfase e exclusão com o objetivo final de promover uma resposta comum, moldar a opinião pública e estimular um julgamento. Com o advento do novo “dialogador”, com muito mais acesso à informação devido ao desenvolvimento das novas tecnologias da informação e comunicação, mudou o cenário para as empresas jornalísticas. Elas precisam saber cada vez mais dialogar, não bastando simplesmente “jogar” informações.

A internet e as mídias sociais abrem o campo das possibilidades de relacionamento. Nesse campo, por sua vez, surgem as fake news que criam uma realidade artificial e fazem um serviço de desinformação. Com o crescente volume de disseminação de conteúdos, pessoas reais ficam vulneráveis às fake news e acabam, dessa forma, compartilhando essas informações. É necessário que o leitor cheque as fontes e credibilidade do veículo. Casos de linchamentos, greve, suicídio estão associados às notícias fraudulentas. Desse modo, este trabalho buscou analisar a importância da apuração para publicação de uma notícia, seu enquadramento e demonstrar a relevância também da credibilidade dos profissionais/veículos de comunicação.

REFERÊNCIAS

DE FLEUR, M. L. Teoria da comunicação de massa. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

DEROSA, C. FAKE NEWS – Quando os jornais fingem fazer jornalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2019.

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS. Código de ética dos jornalistas brasileiros. 2007. Disponível em: https://fenaj.org.br. Acesso em: 08 jan. 2020.

INSTITUTO BRASILEIRO DE CIÊNCIAS CRIMINAIS – IBCCRIM. São Paulo, 2018. Disponível em: https://www.ibccrim.org.br/media/documentos/doc-07-04-2020-14-13-41-786351.pdf. Acesso em: 19 fev. 2020.

LAGE, N. Estrutura da notícia. 6ª ed. São Paulo: Ática, 2006.

MARCONDES FILHO, C. Comunicação e jornalismo: a saga dos cães perdidos. Bauru: Hacker Editores, 2000.

MOHERDAUI, L. Guia de Estilo Web. São Paulo: Senac SP, 2007.

PALACIOS, M. Ruptura, Continuidade e Potencialização no Jornalismo Online: o Lugar da Memoria. In: MACHADO, E.; PALACIOS, M (Orgs). Modelos do Jornalismo Digital. Salvador: Editora Calandra, 2003.

PENA, F. Teoria do jornalismo. 3ª ed. São Paulo: Contexto, 2005.

POLISTCHK, I.; TRINTA, A. RTeorias da comunicação: o pensamento e a prática da comunicação social. Capítulo 2. Conhecimento científico da comunicação, 2002.

PORTO, M. P. Enquadramentos da Mídia e Política. Salvador: Edufba, 2004.

RECUERO, R. Para entender a internet: noções, práticas e desafios da comunicação em rede. In: AVORIO, A.; SPYER, J. São Paulo: Clube de Autores, 2009.

SANTOS, K. N. dos. Em busca da credibilidade perdida: a rede de investigação jornalística na era das fake News. 1ª ed. Belo Horizonte: Letramento, 2019.

[1] Pós- graduação em Jornalismo Digital, Pós – graduação em Revisão de texto e Graduação em Comunicação Social – habilitação Jornalismo.

Enviado: Maio, 2020.

Aprovado: Julho, 2020.

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