Religião nos presídios: Contribuição na transformação da conduta do detento

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-nos-presidios
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REVISÃO BIBLIOMETRICA

FREITAS, Marleide Marlene de [1]

FREITAS, Marleide Marlene de. Religião nos presídios: Contribuição na transformação da conduta do detento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 11, pp. 47-53. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Neste artigo expõe e analisa a importância e os benefícios que o trabalho das religiões pode trazer no sistema carcerário brasileiro e como pode vir a contribuir na transformação da conduta dos sujeitos apenados. A assistência religiosa nos presídios compreende a possibilidade de os presidiários ter contato com os orientadores religiosos e praticar as atividades por eles programadas e referentes às seguintes religiões ali existentes. Tal compreensão se dá a partir das ressignificações dessas atividades desenvolvida dentro dos mesmos, significando reconstruir conceitos e vivências dos sujeitos apenados a partir da sua experiência com a religião, permitindo várias descobertas. Faz-se necessário, entretanto, lembrar a importância do trabalho religioso cristã como um meio de contribuir para uma ressocialização significativa, juntamente aos demais setores envolvidos. Em seguida, discutimos a presença e o papel da religião nas penitenciárias e os fatores que levam os apenados a procurarem a uma religião. Para finalizar ressaltamos as contribuições que a religião traz no comportamento e na disciplina desses sujeitos nas carcerárias.

Palavras-chave: Trabalho religioso, comportamento, transformação, esperança, conduta.

INTRODUÇÃO

O cotidiano das grandes cidades brasileiras ainda é frequentemente impactado por cenas de motins que eclodem no interior do chamado “sistema prisional”. Nesses acontecimentos, fica claro a ausência dos governos, não tomam medidas preventiva e quanto falta para que os órgãos fiscalizadores do sistema penitenciário cumpram seu papel. Quase sempre, as prisões tornaram-se espaços menos favorecidos caracterizados pela ausência de bens materiais básicos – como água, sabonete e papel higiênico; pela ausência de atendimento médico; pela marcante presença de tortura, tratos desumanos e humilhações. Por outro lado, também nestes momentos de crise, evidenciam-se os complexos desafios que são colocados para os organismos dos Direitos Humanos e para outras tantas organizações da sociedade civil que buscam saídas e alternativas de ressocialização. Menos evidentes, no entanto, são os desafios e as repercussões sociais da crescente presença das religiões no universo penitenciário.

Buscar no trabalho das religiões dentro do presídio o seu papel de contribuição na transformação da conduta dos apenados e ressignificações dessas atividades desenvolvida dentro dos mesmos, significa reconstruir conceitos e vivências dos sujeitos apenados a partir da sua experiência com a religião, permitindo várias descobertas a partir sua própria experiência. A consciência religiosa possui, comprovadamente, a capacidade de colaborar para o reequilibro das personalidades desajustadas, auxiliando na recuperação de vícios, depressões, enfim, confortando nas dores e sofrimentos que todos sentimos. Para o autor Mirceal Eliade (1993) “é impossível olhar o outro com desprezo quando compreendemos o valor supremo do sagrado e a unidade planetária do gênero humano”.

Dessa forma, há a necessidade de que os profissionais que lutam pela ressocialização do delinquente tenham consciência do marcante e benéfico papel e as contribuições da religião no comportamento humano, compreendendo que a crença religiosa é capaz de transformar para melhor a vida do homem livre ou encarcerado. Havendo essa compreensão, perceber-se-á o quanto é fundamental que se dê aos detentos condições de expressarem a sua religiosidade ou de se conscientizarem de que ela existe.

É urgente que as atividades religiosas dentro dos estabelecimentos penais sejam sistematizadas, melhoradas e expandidas, possibilitando o ensino religioso, leitura, diálogo e conforto espiritual. Tais medidas contribuirão expressivamente para a evolução moral e cultural dos presidiários.

RELIGIÃO COMO ESPERANÇA DE MUDANÇAS

A religião apesar de ter sido expulsa dos centros do saber científico e das câmaras onde se toma as decisões que concretamente determinam nossas vidas, ela permanece com uma vitalidade que se acreditava extinta, nos tempos modernos. E a religião está mais próxima de nossas experiências espiritual do que desejamos admitir. Segundo Alves (1984), o sagrado está determinado à eternidade, bem como o mundo do poder que ele envolve, já a ciência está fadada a ser reciclada, de vez em quando. É por isso que muitos estudiosos não querem aceitar o que diz a religião, por seu rigoroso ateísmo metodológico. A ciência tradicional nos coloca num mundo mecânico, matematicamente preciso e tecnicamente manipulável, mas vazio de significação humana. Enquanto isso, a religião atribui real sentido à vida.

E a essa experiência, que cada indivíduo experimenta, se atribuii ao sentido de viver emocionalmente, sem que se saiba explicar ou justificar. Neste caso a atribuição a vida se faz viver melhor a vida, transformando em sentimento. E nos sentimentos também passam nossos julgamentos éticos, até porque os nossos sentimentos são expressões da realidade. E o que passou nos ensina que o ciclo da humanidade se constitui na espiritualização de numerosos valores. Dentre esses valores está em colocar a vida numa batalha diária para não morrer.

Daí o traço real da religião é a fé. De acordo com Ernest Bloch (2005), “onde está a fé ali está a religião”, isto é, ninguém que se sentir isolado no meio da multidão. Entretanto, há uma necessidade fundamental de acreditar em alguma coisa, além de nós mesmo. Mesmo que a “fé” não esteja presente nos nossos sentimentos, mas que tenha lago que envolva uma convicção mais profunda. Basta acreditarmos em alguma coisa, por exemplo: na ciência, na arte, no ateísmo etc., pois causa um prazer ao nosso ego, termos a esperança de poder nos ligar a um corpo de ideias vigentes em nossa contemporaneidade. “[…] os nossos pensamentos, a maioria de nossas vocações, não são elaboradas por nós senão através de uma imposição […].” (DURKHEIM, 1986, p. 6). E qualquer um que não traga ao estudo da religião uma espécie de sentimento religioso, não poderá falar dela. Pois para o crente, o que constitui essencial a religião não é uma mera sedução sobre o homem ou o seu destino. Mas, sim

[…] o que prende à sua fé que ela faz parte do seu ser, é que ele não pode renunciar a ela, parece-lhe, sem perder alguma coisa dele mesmo, Sem que disto resulte uma depressão, uma diminuição de sua vitalidade […]. (DURKHEIM, 1970, p. 309).

Quando Durkheim estudava a religião ele estava investigando as próprias condições para sobrevivência da vida social. Pois o sagrado é o centro do mundo, onde está a origem da ordem, a fonte das normas e a garantia da harmonia. Portanto, poucos estudos são encontrados ao que se referem à religião como tratamento penal no país. Entretanto, é notória a importância da sua prática diária nas penitenciárias dos estados. Os agentes penitenciários são os que melhor vislumbram a diferença dos detentos convertido ao cristianismo na sua conduta diária. Estes detentos são mais disciplinados, tranquilos e dedicam-se as orações, de um modo geral estes têm interesse de cumprir a sua pena sem faltas disciplinares dentro do sistema penitenciário.

A RELIGIÃO COMO PROCESSO DE RESSOCIALIZAÇÃO

Durante o processo de detenção, é desejo de todos os funcionários e autoridades envolvidas neste processo, a mudança de paradigmas deste detento, bem como a sua ressocialização à sociedade. Mas é necessário que o mesmo também deseje, ou seja, motivado a refletir sobre sua postura de vida e perceber o quanto lhe será benéfico decidir por novos caminhos. Educação e trabalho há muito vêm proporcionando meios reais e satisfatórios para o processo da ressocialização, trabalhado desenvolvido, seja dentro das salas de aulas, nas palestras ou nos canteiros de trabalho.

Faz-se necessário, entretanto, lembrar a importância da religião cristã como um meio de contribuir significativamente, juntamente os demais setores envolvidos. “E conhecereis a verdade e ela vos libertará”. (BÍBLIA, N.T. João 8.32).

De acordo com Oliveira (2002) “[…] se o sujeito vai para a prisão e lá se depara com um aparelho destruidor de sua personalidade, como poderá de lá sair sem rusgas na alma?” Como desfazer essas tendências em condições de vencer? Como poderá fluir a sensação de que será útil na sociedade no amanhã?” Para responder tais perguntas é importante investir nas três áreas: Educação, Trabalho e Religião.

Nesse sentido, é claro de se ver que a religião cristã possui traços dominante na ressocialização dos encarcerados, pois ela procura formar novos paradigmas na mentalidade dos presos. O reconhecimento e a necessidade de mudar de vida, de caráter é essencial para a ressocialização do preso na sociedade, um dos papéis do Sistema Penitenciário.

A reabilitação do ser humano passa por diversas áreas e sem dúvida nenhuma, a religião é um dos fatores fundamentais para a transformação do homem, não somente quanto as suas ações e comportamento, como também quanto aos seus conhecimentos e atitudes, que lhe dão suporte para seus posicionamentos perante a vida e à sociedade, quando nela retornaremos. Assim são necessários maiores cuidados nesta área possibilitando aos detentos condições organizadas de manifestação da sua fé.

METODOLOGIA

A metodologia apresentada na respectiva pesquisa tem como base um referencial bibliográfico e a análise qualitativa dos estudos apresentado sobre o tema. Constituiu-se a partir de um desejo de fomentar a curiosidade de como a religião pode contribuir na transformação da conduta do sujeito apenado na subjetividade com o transcendente e a esperança de uma nova vivência através da experiência com a religião.

De fato, a experiência religiosa devolve o sentido da existência, conforma nas perdas, ensina a importância de se amar o próximo, de ser solidário, enfim é capaz de resgatar os nossos valores humanitários e os nossos sonhos. O sentimento religioso nos dá a sensação de reconciliação com o universo, de comunhão com algo que nos transcende.

Durante todo o estudo para a construção desse trabalho, que foi requisitado para avaliação de um dos módulos do curso de pós-graduação da EJA com ênfase no sistema prisional, se fez necessário à leitura de artigos, textos e de alguns autores que embasam esse artigo, como também a releitura de textos estudados em sala de aula e as discussões de vivências e experiências dos colegas de turma.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para a realização deste artigo, foram realizados estudos sobre o tema abordado, e resgatadas leituras no decorrer da disciplina em estudo. Assim, se faz necessária na organização da escrita desse trabalho em que se destaca a importância da religião na transformação da conduta dos sujeitos apenados nas penitenciárias brasileiras.

A vivência religiosa devolve o sentido da vida, consola nos momentos difíceis e conforta nas perdas, ensina a importância do viver, resgata o valor humano, estimula os cuidados com o corpo e o bem viver. O sentimento religioso, nos restabelece com o meio social resgatando a confiança ao outro.

Como constatamos pelas observações, leitura e estudo feitos, a religião é um dos fatores fundamentais para a transformação do homem, não somente quanto aos seus modos e atitudes, como também quanto aos seus conceitos e valores, que lhe dão suporte para os seus posicionamentos perante a sociedade. Portanto a religião também é, sem dúvida, um dos fatores preponderantes no processo de ressocialização dos apenados.

Dessa forma, há a necessidade de que os profissionais que lutam incessantemente pela ressocialização do delinquente tenham consciência da marcante e benéfica influência da religião no comportamento humano, compreendendo que a crença religiosa é capaz de transformar para melhor vida do homem livre ou encarcerado.

REFERÊNCIAS

ALVES, R. O que é religião. 10. ed. São Paulo: Brasiliense, 1984.

BIBLIA (português). Bíblia de estudo aplicação pessoal. Rio de Janeiro: CPAD Editora, 2004.

BLOCH, E. O princípio esperança. Rio de Janeiro: EDERJ Contraponto, 2005. (volume 1).

DURKHEIM, E. Sociologia e filosofia. São Paulo, Ed. Forense, 1970 p. 309

___________ Le suicide. Paris: PUF, 1986. p. 06

OLIVEIRA, E. O futuro alternativo das prisões. Rio de Janeiro: Forense, 2002. p. 114, 69-71

SCHWARZ, F. Et, al, MIRCEAL ELIADE. O reencontro com o sagrado. São Paulo 1993, p. 89

[1] Especialista em Psicopedagogia e EJA com ênfase no sistema prisional, graduada e licenciada em Pedagogia e Ciências da Religião.

Enviado: Abril, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

 

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