Formação do cânon do novo testamento

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ARTIGO ORIGINAL

NASCIMENTO, Germano Rabelo [1], LIZARDO, Carla Jacinto [2]

NASCIMENTO, Germano Rabelo. LIZARDO, Carla Jacinto. Formação do cânon do novo testamento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 09, Vol. 11, pp. 41-50 Setembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Há muitas questões sobre a infalibilidade ou autenticidade dos escritos do Novo Testamento. Neste artigo, me propomos de forma breve fazer uma análise sobre a formação do cânon[3] do Novo Testamento e demonstrar quais foram os principais fatores que influenciaram a igreja da época para a sua formação.

Palavra chave: Cânon, novo testamento, formação

INTRODUÇÃO

A formação do Cânon do NT[4] é talvez um dos assuntos mais polêmicos, pois divide opinião, ou seja, para muitas pessoas, ela é a própria palavra de Deus e é aceita por esse público sem questionamento. Entretanto, muitos são os que negam sua eficácia e assim até mesmo sua formação, dizendo que fora escrito por homens, e neste caso, isso acaba sendo uma ponte para que essas pessoas não aceitem a sua formação e até mesmo negando-a.

O presente artigo tem como objetivo compreender por meio de uma análise bibliográfica como ocorreu o processo de formação do cânon do NT. Deste modo, pretendemos aqui mostra alguns por menores importantes em relação à formação do cânone do NT.

O CÂNON DO NT

De acordo com Geisler e Nix (2006), a formação do Cânon do NT, ao contrário da formação do cânone do AT[5], difere em vários aspectos. Ou Seja, em primeiro lugar, o início do cristianismo já era considerado uma religião e suas especificidades não se restringiam a um povo único, como era o caso do AT (restrito aos judeus). Passaram séculos para o processo pelo qual todas as escritas apostólicas se tornaram universalmente e principalmente aceitas.

De acordo com a arqueologia bíblica, existem mais manuscritos do NT do que do AT. Entretanto, isso não significa dizer, que o cânone do AT seja desvalorizado em relação ao cânon NT. Em segundo lugar, não houve movimentos internos do cristianismo, pelo não reconhecimento dos 27 livros, e as discussões resultaram no reconhecimento dos 27 livros canônicos do NT.

A história do cânon do Novo Testamento difere da do Antigo em vários aspectos. Em primeiro lugar, visto que o cristianismo foi desde o começo religião internacional, não havia comunidade profética fechada que recebesse os livros inspirados e os coligisse em determinado lugar. Faziam-se coleções aqui e ali, que se iam completando, logo no início da igreja; não há notícia, todavia, da existência oficial de Uma entidade que controlasse os escritos inspirados. Por isso, o processo mediante o qual todos os escritos apostólicos se tornassem universalmente aceitos levou muitos séculos. Felizmente, dada a disponibilidade de textos, há mais manuscritos do cânon do Novo Testamento que do Antigo. Outra diferença entre a história do cânon do Antigo Testamento, em comparação com a do Novo, é que a partir do momento em que as discussões resultaram no reconhecimento dos 27 livros canônicos do Novo Testamento, não mais houve movimentos dentro do cristianismo no sentido de acrescentar ou eliminar livros. O cânon do Novo Testamento encontrou acordo geral no seio da igreja universal. (p. 99)

O cânone do NT encontrou acordo geral dentro da igreja universal, de acordo com:

Tendo, pois, muitos empreendido pôr em ordem a narração dos fatos que entre nós se cumpriram, segundo nos transmitiram os mesmo que os presenciaram desde o princípio e foram ministros da palavra, pareceu-me também a mim conveniente descrevê-los a ti, ó excelentíssimo Teófilo, por sua ordem, havendo-me já informado minuciosamente de tudo desde o princípio, para que conheças a certeza das coisas de que já estás informado. (BÍBLIA, Lucas 1. 1-4)

Além disso, outra passagem que relata esse acordo geral dentro da igreja universal é “Saudação da minha própria mão, de mim, Paulo, que é o sinal em todas as epístolas; assim escrevo”. (BÍBLIA, 2 Tessalonicenses 3.17). Deste modo, havia muitos escritos falsos em que não pertenciam aos apóstolos de Jesus, e foi no primeiro século, ou seja, no início da igreja apostólica, que ouvi essa preocupação em saber o que é verdadeiro e o que é falso. Como essa separação foi realizada?

Essa pergunta torna-se necessária, pois conforme a história de formação do cânon do NT estava sujeitam ao ensino dos apóstolos, todas as palavras que se relacionavam com Cristo, sejam pela tradição oral ou escrita, conforme em “o que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também tenhais comunhão conosco; e a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo”. (BÍBLIA, 1 João 1.3).

Além disso, outra passagem, que relata este fato é “Porque não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas, mas nós mesmos vimos a sua majestade,” (BÍBLIA, 2 Pedro 1.16). Compreende-se então, que esses escritos foram reconhecidos e separados, ficando conhecido como o “cânone vivo” das testemunhas oculares. Os fundamentos da igreja foram fundados e receberam as cartas apostólicas cheias de autoridade e, assim, os ensinamentos de Jesus foram transmitidos aos primeiros cristãos, nos quais eles colecionaram esses escritos para posterior leitura nas igrejas. Assim começou nas igrejas, o método de canonização do NT.

O apóstolo Paulo, admoestava os cristãos, para que esses lessem as Escrituras continuamente, conforme “Manda estas coisas e ensina-as; Persiste em ler, exortar e ensinar, até que eu vá” (BÍBLIA, 1 Timóteo 4.11, 13). Deste modo, o apóstolo tinha em vista o crescimento das igrejas. Além disso, para levar a cabo a tarefa de ler continuamente as Escrituras, o único meio era fazer cópias, ele esperava que as igrejas ou grupos de igrejas autorizassem a compilação desses escritos.

Tais cópias eram realizadas por meio dos documentos que existiam na época, neste caso, os papiros e os pergaminhos. De acordo com o erudito do NT Cullmann, um papiro possuía mais ou menos a grossura de um braço e de 2,5m e 5m de altura, cortado em tiras e cruzado, formando assim as folhas. Além disso, os papiros do NT são os documentos mais antigos que possuímos. Desta forma, a maioria deles data do século III. Esses documentos são importantes, pois torna os textos do NT verdadeiros, mesmo que transmita apenas alguns fragmentos. Nesse sentido, tais documentos se tornaram testemunhas preciosas do NT por sua antiguidade.

Um papiro é constituído por tiras de medula do papiro (uma espécie de caniço com caule triangular, da família das ciperáceas, da grossura de mais ou menos um braço e de 2,5m a 5m de altura). Cortadas em finas talas e colocadas em camadas cruzadas, essas tiras formam folhas que são, em seguida, fixadas umas após as outras e enroladas em torno de uma vara. O rolo assim formado se chama, em grego, de biblos (daí a palavra “Bíblia”) e pode ter até 10m de comprimento. (2001, p. 8)

Além dos papiros, de acordo com o mesmo autor, outro material bastante utilizado pelos escribas para realizar cópias eram os pergaminhos. Tal material tinha sua origem das peles de ovelha, cabra ou bezerro. Posto um em cima do outro. Desta forma, os pergaminhos formavam um volume, diferenciando do papiro que formava um rolo, pois se utilizava uma vara para enrolar o papiro.

Um pergaminho é uma pele, ordinariamente de ovelha, cabra ou bezerro, tratada e cortada em folhetos (a palavra “pergaminho” se originaria da cidade de Pérgamo): estes são postos um em cima do outro para formar não um rolo, mas um volume (em grego: teuchos, donde vem a palavra “Pentateuco” para designar os cinco primeiros livros do Antigo Testamento). (2001, p. 8)

QUAIS FATORES INFLUENCIARAM A IGREJA NO CÂNON DO NOVO TESTAMENTO?

Os estudiosos da Bíblia Sagrada dizem que a igreja sofreu grandes influências para que o cânone NT fosse completado. De acordo com Dreher, para que a igreja possa definir a lista de livros canônicos do NT, houve fatores que influenciaram significativamente essa lista. Na época em que a fé cristã entrou no mundo, esse “mundo” era mágico, ou seja, mais valor ao misticismo[6]. No seio da igreja, as visões, sinais e milagres eram normais, isto é, a gnose estava presente.

A gnose não é uma corrente filosófica, mas uma doutrina de salvação, que se baseia em revelações “pneumáticas”, espirituais. Sua existência sempre foi parasitária, isto é, jamais existe gnose de maneira pura. Ela só vinga em terra alheia. Houve muitos tipos de gnose. Conhecem-se as gnoses judaica, grega, egípcia e cristã. Suas origens estão na religião de Zoroastro. A gnose cristã criou uma piedade sincretista, que incluía fé e sabedoria. Frente à gnose cristã, o jovem cristianismo estava desarmado, pois hereges gnósticos também se consideravam “ortodoxos”, visto que se baseavam na Escritura, na tradição e no credo. Seu método de interpretação pouco divergia daquele usado pelos pais apostólicos. Era denominado de alegorese ou interpretação alegórica. Foram poucos os cristãos que reconheceram que a gnose diluía os fatos de revelação divina, substituindo-os pelo mito de uma história transcendental. (DREHER, 2013, p. 40)

O gnosticismo ou a gnoses foram uma das causas que influenciaram a formação do cânon do NT, uma vez que a igreja cristã da época teve que enfrentar uma luta muito grande contra os adeptos dessa seita. O próprio teólogo Irineu, bispo de Lyon, de 177/178, escreveu contra a gnose sob o título “Contra Heresias”. Além disso, Cullmann confirma essa afirmação sobre o gnosticismo.

Em meados do século II, nossos quatros evangelhos ainda não eram os únicos que exerciam autoridade. Outros evangelhos, “apócrifos”, que em parte relatam lendas (especialmente sobre os períodos da vida de Jesus dos quais os evangelhos antigos não falavam), em parte especulações gnósticas, atribuídas, frequentemente, ao Cristo ressuscitado, já se tinham difundido, e seu número continuava crescendo. (2001, p. 89)

Deste modo, o gnosticismo foi um dos grandes fatores que influenciaram a formação do cânon do NT. Por consequência, muitos foram os defensores do gnosticismo, um deles foi Basilides viveu em torno de 130 d.C. e seus ensinamentos foram ensinados por seus discípulos Valentino, Ireneu disse sobre os ensinamentos de Basilides:

Ensinou que a Mente foi primogênito do Pai Ingênito. A Razão foi gerada pela Mente e, por sua vez, gerou a Prudência, e esta gerou a Sabedoria e o Poder. Da Sabedoria e do Poder nasceram as Virtudes, os Príncipes e os Anjos, que são chamados também de “Os Primeiros”. Estes fizeram o Primeiro Céu, do qual derivam outros céus, que, também, geraram outros céus. (…). Os anjos que presidem sobre o Céu inferior, que é visto por nós, ordenaram todas as coisas que há no mundo, dividindo entre si a Terra e as nações da Terra. Seu chefe é aquele que tem sido crido como o Deus dos judeus. Ele pretendeu sujeitar os demais povos aos judeus, provocando a resistência dos outros príncipes, que se coligaram contra ele (…) Então o Pai Ingênito e Inominado (…) enviou sua Mente primogênita (chamada o Cristo) para libertar os que nele cressem dos poderes que fizeram o mundo. Ele apareceu assim entre as nações dos príncipes, em forma de homem, e realizou atos de poder. Ele, porém, não sofreu, mas certo Simeão de Cirene foi movido a levar a cruz por Ele; Simão foi equivocadamente crucificado, tendo sido transfigurado por Ele de tal sorte que a populacho o tomou por Jesus, entretanto, transmutou-se na forma de Simão, presenciando a agonia de sua sósia e dele escarnecendo. Quem, portanto, reconhecer e reverenciar o crucificado ainda não deixou de ser escravo e sujeito ao domínio dos que fizeram nossos corpos. Quem, ao contrário, o negar fica livre deles e conhece a disposição do Pai ingênito. Basilides ensina também que a salvação só concerne à alma, pois o corpo é naturalmente corruptível. As profecias em si mesmas provieram dos príncipes que fizeram o mundo. A lei foi dada pelo príncipe que tirou os israelitas da terra do Egito. Basilides prescreveu ainda a perfeita indiferença para com as coisas imoladas aos ídolos, permitindo que as usemos sem temor; igualmente quer que consideremos como matéria absolutamente inocente as sensualidades de toda classe. (DREHER, 2013, p. 41)

Igualmente como Basilides, outro que era a favor do gnosticismo era Marcião ou outras grafias Marcion, um herege gnóstico (150 d.C.), no qual ele fez uma lista de livros a serem aceitos, ele rejeitou o Antigo Testamento, no qual ele considerou que era o trabalho de um “deus inferior”. Marcião era natural de Sinopse, que estava localizado no Mar Negro, era filho de um bispo, e seu pai o expulsou da congregação, os motivos para a expulsão não são claros, no entanto, alguns estudiosos afirmam que foi devido às heresias ensinadas por ele.

Do mesmo modo, Valentino, um dos professores do gnosticismo, foi expulso pela comunidade de Roma, Valentino buscava adeptos desta “nova fé”, Marcião foi a Roma depois de ser expulso por seu pai se juntando a Valentino. Esse fato é importante porque mostra como as forças gnósticas tentaram penetrar na igreja da época.

A igreja cria uma confissão fundamental, como assim escreveu Dreher “O Deus do Antigo Testamento é o Pai de Jesus Cristo e também o criador do universo” (2013, p. 43). Posteriormente, todas as declarações subsequentes devem basear-se nessa base, isto é, sobre este fundamento. No interior da Ásia Menor, isto é, na Friggia, aparece outro movimento de Montanus, denominado Montanismo, conforme abaixo:

O cânone dos escritos bíblicos, criado por Marcião, acelerou, sem dúvida, o processo de surgimento do cânone neotestamentário. Sua tentativa de eliminar tudo o que era judeu de dentro da igreja levou a igreja a confessar que o Deus do AT é o Deus de Jesus Cristo. Com isso acentuou também a unidade do AT e do NT. (DREHER, 2013, p. 43).

Certamente, uma característica diferente do movimento do gnosticismo é o Marcião, o problema enfrentado pela igreja era que ambos os movimentos agiam simultaneamente. De acordo com Dreher, quando Montanus em 156 d.C., ele foi batizado, entrou em êxtase, e assim veio falar em línguas, as pessoas que estavam ao seu redor não sabiam o que era, no entanto, duas mulheres (Prisca e Maximila), eles sabiam o que era!

O trio piedoso, formado por Montanus, Prisca e Maximila, queria testemunhar com sua glossolalia, que a igreja de seus dias era pobre em relação à igreja antiga, pois lá glossolalia fora algo normal. Por outro lado, eles anunciavam que o fim do mundo era iminente. Afirmavam que por seus intermédio, falava o parákletos, o paracleto, o consolador, prometido por Jesus em João 14.16. Diziam ser portadores da segunda revelação, que punha fim a toda a atividade profética. Sua teologia, que anunciava o final dos tempos, pode ser resumida na seguinte sentença; “Eu sou o Pai, o Filho e o Parákletos”. (DREHER, 2013, p. 43).

Além disso, era desaconselhado o matrimônio segundo Montanus, mas o casamento por ele não foi eliminado, e um segundo casamento não era permitido. Eles valorizaram os martírios das pessoas em seu grupo, tornando-se uma supervalorização. Montanus era um bom líder, a ponto de não aceitar hierarquia e sacramentalismo. Além disso, Montanus foi capaz de desenvolver e estabelecer uma estratégia que permitiu um rápido crescimento em seu movimento.

Deste modo, é preciso considerar que, havia várias comunidades na África que tinham grandes influências montanistas, essas comunidades tinham uma disciplina muito rigorosa, por exemplo: comer carne e vinho era proibido; na roupa, as mulheres tinham que usar um véu; o jejum foi tomado com força e havia controle sobre o dinheiro. Montanus foi condenado como herege pela igreja da época, embora não tinha deixado de influenciar as pessoas internamente e externamente do seu ambiente.

Para tanto, Montanus tinha vários adeptos, mas um que se destacava era Tertuliano (150 – 225 d.C.). Tertuliano era um grande apologista[7], no qual ele lutava contra os marcionitas e os gnósticos, vendo em Montanus, o rigor, a ética, as únicas possibilidades de eliminar as deteriorações que surgiam na igreja da época. Naquela época, a igreja tentou, de várias maneiras, esquecer Tertuliano, mas não era possível, em vista de seus escritos, formulado em latim, tornando-se o criador da linguagem teológica latina. Dreher (2013, p. 44) descreve da seguinte maneira: “As formulações teológicas nas línguas românicas muito devem a Tertuliano”.

Da mesma forma que Montanus influenciou Tertuliano. Tertuliano influenciou várias pessoas e um de seus discípulos foi Cipriano (210 – 258 d.C.). Cipriano foi bispo de Cartago, África do Norte, também conhecido como Pai da Igreja. Seus pais eram ricos e isso o fazia considerar um bispo do tipo papalista. No norte da África, houve uma perseguição dos cristãos, na época Cipriano se escondeu e intencionalmente fugiu do martírio, sendo criticado por muitos sobre esse evento.

Cipriano, quando criticado por sua dissimulação e fuga, se defendeu alegando que, de seu esconderijo, ele poderia encorajar sua comunidade a permanecer perseverante, mas depois Cipriano foi preso e morto, sofrendo o martírio. O bispo Cipriano era bastante audaz, pois sua “tese” não tinha fundamentos exegéticos, tornando-se uma teoria herética. Segundo o próprio Cipriano, sua suposição de que o episcopado[8] monárquico era uma instituição de Jesus Cristo. No entanto, sua teoria foi de grande importância em seu dia, apesar de ser erronia:

Teologicamente, seu escrito De unitate ecclesiae (Sobre a unidade da igreja) expôs concepções que fizeram dele um dos principais criadores da teoria do primado de Pedro. Nessa sua teoria, o bispo de Cartago partiu das palavras de Jesus a Pedro (Mt 16.18s): “Tu és Pedro e sobre esta pedra hei de construir minha igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Em sua opinião, essas palavras não se referem apenas a Pedro; elas dizem respeito a todos os discípulos, aos quais Jesus teria anunciado: “Assim como o Pai me enviou, assim eu também vos envio. Recebei o Espírito Santo; se perdoardes os pecados a alguém, ser-lhe-ão perdoados; se os retiveres, ser-lhe-ão retidos” (Jo 20.21-23). A partir dessas palavras de Jesus, Cipriano concluiu que todos os bispos estão na linha de sucessão dos apóstolos. Por isso a unidade da igreja está manifestada na soma dos bispos. Esses bispos são todos iguais, devem obediência somente a Deus e estão unidos entre si por laços fraternos. (DREHER, 2013, p. 44).

Nos dias de Cipriano, essa teoria foi de grande importância. Com ela Cipriano buscou demonstrar onde se poderia encontrar a certeza da verdade em um mundo no qual começavam a surgir sempre mais interpretações da fé cristã. Para ele, o bispo que se encontrava na linha de sucessão dos apóstolos era a garantia da verdade. Quando examinamos o desenvolvimento posterior da história da igreja, bem podemos imaginar as influências desse pensamento nas teorias eclesiológicas que viriam a ser desenvolvidas. Basta lembrar o surgimento do papado e o desenvolvimento da teoria papal. (DREHER, 2013, p. 45).

PRINCÍPIOS DE ACEITAÇÃO CANÔNICA DO NT

Com isso, desenhar uma lógica histórica, buscamos mostrar como o cristianismo teve que se mover entre heresias e catolicidade. Houve muitas discussões e isso os levou a formular o cânone de escritos sagrados para os cristãos. Uma vez que a Bíblia se tornaria a norma, a conduta e a regra para todos os ensinamentos. Em geral, para que os livros sejam aceitos como canônicos, baseou-se em quatro princípios gerais: apostolicidade, conteúdo, universalidade e inspiração. Deste modo, iremos descrever de forma resumida cada um.

O apostolado ou apostolicidade se refere aos escritos, no qual deveria ter a autoridade apostólica, ou ainda, se os escritos do livro possuía algum relacionamento com um apóstolo para elevar seu livro ao nível dos livros apostólicos. Este versículo mostra a credibilidade dos apóstolos, ou seja, o apostolado.

“Então, eles, vendo a ousadia de Pedro e João e informados de que eram homens sem letra e indoutos, se maravilharam; e tinham conhecimento de que eles haviam estado com Jesus.” (BÍBLIA, Atos 4.13).

Além disso, de acordo com Cullmann, podemos confirmar a questão da apostolicidade ou apostolado:

A elaboração do cânone do Novo Testamento foi, portanto, o fruto de um processo que, até a fixação final, estendeu-se por vários séculos. Mas o fato decisivo é o surgimento da ideia do cânon. Esse momento importante aconteceu entre os anos de 140 e 150. Na época, a igreja reconheceu que ela sozinha não podia mais controlar as tradições que pululavam e, então submeteu toda tradição a uma norma superior, à tradição apostólica, que, exposta em certos escritos, teria valor canônico. Eis por que o caráter apostólico, atribuído, com ou sem razão, a um escrito, não deixou de influir sobre a escolha que foi feita. Em certos casos, para fazer entrar no cânon um livro que não tinha como autor um apóstolo, foi preciso estabelecer, posteriormente, uma relação entre o escrito e algum apóstolo. Pode-se dizer que o conceito de “cânon” resultou diretamente daquele de apóstolo. O apóstolo tem, na Igreja, uma função única, que não se repete mais: ele é testemunha ocular. Por conseguinte, acreditava-se que somente os escritos que tinham como autor um apóstolo ou discípulo de apóstolo poderiam garantir a pureza do testemunho cristão. (2001, p. 90-1)

Em relação ao conteúdo, podemos verificar na Bíblia Sagrada, teria que ter a natureza espiritual, de tal maneira que lhe desse o direito a essa categoria. Este teste eliminou muitos livros apócrifos ou pseudo-apócrifos. A universalidade, o livro teria que ser recebido universalmente por toda a igreja. E a inspiração, esse critério mostrou a evidência do livro de ter sido inspirado divinamente por Deus. Foi o teste final e tudo teve que cair diante dele.

O livro do Apocalipse, quando terminou de ser escrito em cerca de 96 d.C., fecha o NT, sendo reconhecido por toda a igreja e, assim, integrado a coleção dos 27 livros do NT. Como é hoje, sempre haverá um pequeno grupo de incrédulos em algum livro. Isto é bíblico, há sempre e haverá infiel, que querem apresentar e suscitar dúvidas sobre a autenticidade da Sagrada Escritura.

CONCLUSÃO

Conclui-se que a formação do cânon do NT para a igreja da época não foi uma tarefa muito fácil, isto é, em vista das seitas que surgiram desejando incluir livros que não se enquadravam nos critérios de formação. Ainda hoje, muitos são os “eruditos” da Bíblia Sagrada e até “curiosos” que querem colocar a credibilidade das Sagradas Escrituras em cheque! Mas a formação do cânon já foi concluída e isso não pode ser alterado. Graças a Deus!

REFERÊNCIAS

Bíblia Sagrada – Harpa Cristã. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil. Rio de Janeiro: Casa Publicadora das Assembleias de Deus, 2003. 1536 p.

BRUCE, F. F. “Os documentos neotestamentário: data e comprovação” e “O cânon neotestamentário” In: Merece Confiança o Novo Testamento?. 3. Ed. rev. São Paulo: Editora Vida Nova, 2010. p. 15-28 e p. 29-38

CULLMANN, Oscar. “Primeira Parte – História do texto do Novo Testamento” e “A formação do cânone do Novo Testamento”. In: A formação do Novo Testamento. Tradução de Bertoldo Weber. 7. Ed. rev. São Leopoldo: Sinodal, 2001. p. 7-13 e p. 89-92

DREHER, Martin N. “Parte I – A Igreja no Império Romano”. In: História do povo de Jesus: um leitura latino-americana. São Leopoldo: Sinodal, 2013. p. 11-103

GEISLER, Norman; NIX, William. “As características da canonicidade” e “O desenvolvimento do cânon do Novo Testamento”. In: Introdução bíblica. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Editora Vida, 2006. p. 61-72 e p. 99-110

  1. A palavra cânon deriva do grego kanõn (“cana, régua”), que, por sua vez, se origina do hebraico kaneh, palavra do Antigo Testamento que significa “vara ou cana de medir” (Ez 40.3). Mesmo em época anterior ao cristianismo, essa palavra era usada de modo mais amplo, com o sentido de padrão ou norma, além de cana ou unidade de medida. O Novo Testamento emprega o termo em sentido figurado, referindo-se a padrão ou regra de conduta (Gl 6.16). (GEISLER; NIX, 2006, p. 63)
  2. Novo Testamento.
  3. Antigo Testamento.
  4. Inclinação para acreditar em forças e entes sobrenaturais. Crença de que o ser humano pode comunicar-se com a divindade ou receber dela sinais ou mensagens.
  5. Que faz apologia, que defende.
  6. Conforme 1 Timóteo 3. É uma graduação ou um cargo (Pastor) que se alcança dentro do ministério de liderança na igreja.

[1] Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Piauí – FAEPI. Cursando o 5º Período em Licenciatura em Pedagogia na Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO. Cursando o Programa de Graduação em Ministério Cristão pelo Birmingham Theological Seminary (BTS).

[2] Curso Superior em Tecnologia em Logística pela Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO. Cursando o Programa de Graduação em Ministério Cristão pelo Birmingham Theological Seminary (BTS).

Recebido: Dezembro de 2017

Aprovado: Setembro de 2018

Bacharel em Teologia pela Faculdade Evangélica do Piauí – FAEPI. Cursando o 5º Período em Licenciatura em Pedagogia na Faculdade Metropolitana de Manaus – FAMETRO. Cursando o Programa de Graduação em Ministério Cristão pelo Birmingham Theological Seminary (BTS).

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