Religião e a escola dos Annales

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-e-a-escola-dos-annales
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL 

SBIZERA, Carmem Lúcia [1], DENDASCK, Carla Viana [2]

SBIZERA, Carmem Lúcia. DENDASCK, Carla Viana. Religião E A Escola Dos Annales. Revista científica multidisciplinar núcleo do conhecimento. Ano 03, ed. 12, vol. 07, pp. 83-95. Dezembro de 2018. Issn:2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-e-a-escola-dos-annales, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-e-a-escola-dos-annales

RESUMO

O presente trabalho abordou a religião sob a luz da Escola dos Anneles, abordando preliminarmente o contexto histórico desta escola e posteriormente como a religião adentrou suas obras. Fez-se relevante o presente estudo o fato de que as discussões teóricas e metodológicas referentes às relações entre História e Religião do século XIX exerceram influência no que foi produzido nos séculos XX e XXI. Por um lado, a História das Religiões se dedicava aos múltiplos fenômenos religiosos do mundo, em uma abordagem que se distanciava da teologia. Por outro, estabeleceram-se as ciências humanas, como a antropologia e a sociologia, que abordaram as mais inúmeras experiências religiosas. Para tanto, empregou-se como procedimento metodológico do presente trabalho pesquisa em materiais secundários composto principalmente por livros e trabalhos acadêmicos científicos, que possibilitaram responder os objetivos de elucidar o papel da religião frente à Escola dos Annales. Concluiu-se que as inúmeras transformações ocorridas na História ao longo do século passado, que, sobretudo, por influência dos historiadores integrantes dos Annales, trouxeram renovações metodológicas e teóricas, as quais possibilitaram um distanciamento do modelo clássico de história das religiões, que procurava, nos dados históricos, a confirmação de crenças para o cristianismo, ou, ainda, acreditava que a expansão da indústria e progresso da ciência resultaria no desaparecimento da religião.

Palavras-chaves: Religião, Escola dos Annales, Nova História.

INTRODUÇÃO

O Marxismo e o Positivismo são os dois modelos de historiografia que predominaram a academia no século IXI e começo do século XX. Em compensação, no período de 1920, Marc Bloch e Lucien Febrve deram início à uma nova metodologia no momento que inauguraram o movimento historiográfico que resultou na criação da Revista Anais da História Econômica e Social (1929). Nesse método, a Escrita da História recorria à interdisciplinaridade, a fim de abarcar não só as estruturas sociais e políticas, mas, também, o constructo mental dos indivíduos. Febvre e Bloch elegeram como objetos as instituições religiosas dominantes e o sistema de crenças, tais quais: a Igreja Católica, com sua ideia de Sagrada Realeza, e a religiosidade existente em personalidades como a de Martinho Lutero.

Neste contexto, é necessário ressaltar a influência trazida pela História das mentalidades, sobretudo com os Annales, como um item importante para compreender a formação da perspectiva história em pauta. Ao passo em que abria uma nova gama de abordagens e objetos à história, ela foi muito relevante para a formação de uma História religiosa. Entretanto, muito embora as propostas dos Annales tenham proporcionado muitos ganhos, não se pode excluir as contradições que trouxeram aos estudos sobre religião, mesmo que de forma indireta.

O movimento dos Annales moveu o fluxo produtivo para as esferas econômica e social, visto que possibilitaram que a História estabelecesse um diálogo com demais áreas acadêmicas, como a Sociologia, Economia, Psicologia e Filosofia, em um primeiro momento.

Desta forma, será objetivo do presente estudo abordar a religião e sua ligação com a Escola dos Annales. E, para isto, adotou-se como procedimento metodológico a pesquisa em materiais secundários compostos por livros e trabalhos acadêmico científicos que possibilitaram fundamentar adequadamente o tema.

ESCOLA DOS ANNALES

Segundo Guy Bourdé e Hervé Martin, o termo “Nova História”, ou “História Nova”, foi lançado por alguns integrantes do grupo denominado Annales, em 1978. Peter Burke (1997) explica que essa tendência teve início como uma proposta teórica ao mesmo tempo em que foi criada a revista Annales, que pretendia estimular um novo tipo de História. Por esse motivo, chamam de herdeiros da “Escola dos Annales” aqueles historiadores ligados à Nova História. De acordo com Jacques Le Goff (1998), os integrantes desse movimento teórico-historiográfico buscaram produzir uma história do poder que incluísse explicitamente o imaginário e o simbólico, abordando, desse modo, todos os seus aspectos, não só os políticos. Além disso, procuraram privilegiar plurais explicações a respeito das inter-relações dialéticas entre as várias instâncias do real, ou seja, o esclarecimento dos diversos códigos que guiam a vida social, bem como buscaram negar qualquer determinismo estrito. Desse modo, a Nova História, que marca a terceira geração do movimento dos Annales, além de se abrir para conversar com as demais ciências, também estendeu seu olhar sobre as fontes (MATOS, 2010).

No livro “A Escola dos Annales (1929-1989)”, Peter Burke tenta compreender o mundo francês e explicar a prática e a teoria do historiador para outros cientistas sociais, faz a apresentação de um estudo do movimento dos Annales, o qual teve início na década de 20 até chegar às gerações seguintes. Conforme elucida Burke, três fases dividiram o movimento dos Annales: a primeira é caracterizada por uma afronta extrema à história tradicional, a história dos eventos e a história política; a segunda fase, dominada pela presença de Fernand Braudel, já apresenta conceitos (conjuntura e estrutura) e novas metodologias (história serial das transformações na longa duração), o que faz com que se aproxime de uma verdadeira “escola”; já a terceira geração foi marcada pela fragmentação e por influenciar de forma significativa, por meio de abordagens da Nova História, ou História Cultural, a historiografia e o público leitor. Através dos cinco capítulos que compõem a obra de Burke, é possível viajar pela trajetória da “história da história”, partindo da primeira contribuição até chegar ao século XX, adquirindo informações sobre seus principais escritores, metodologias e finalidades das escritas. É, portanto, a História da Historiografia em sua longa duração.

Oliveira e Casimiro (2007) complementam que história sociocultural foi re-marginalizada tendo como ponto de partida a “Revolução Copernicana” na história, com Leopold Von Ranke. Em um momento em que excluiu-se a história não política e os historiadores procuravam se profissionalizar, enfatizaram-se as fontes dos arquivos. Houve muita discordância entre os historiadores no século XIX, como Burckhardt e Michelet, por exemplo, que propunham uma perspectiva mais ampla da história, ou Fustel de Coulangs e Marx, que apresentavam um paradigma histórico diferente daquele proposto por Ranke. Os mais bem organizados opositores da história política foram os historiadores econômicos. Spencer, Comte e Durkheim, fundadores da Sociologia, expunham pontos de vista parecidos.

A Escola de Annales e sua herdeira, a Nova História, desde o surgimento, se dividiram não só em gerações, mas em tendências. Os estudos sobre os fenômenos de longa duração, bem como sobre as manifestações religiosas e sobre a biografia (relação entre indivíduo e coletividade) foram focados na primeira fase. Já na chamada “Era Braudel”, debruçou sobre as pesquisas demográficas, econômicas e, sobretudo, as quantitativas e seriais, como na história dos preços, por exemplo. A terceira fase, História das Mentalidades, procurou introduzir os até então excluídos da área e, desse modo, abriu o campo para as tendências da história da vida privada, de gênero, da sexualidade, das religiões e da loucura, se caracterizando por sua fragmentação. E em sua quarta e, até agora, última fase, encontra-se a Nova História Cultural, que se dedica aos estudos cultuais das questões populares, das massas anônimas e que acabou se voltando ao molde febvriano de enxergar o indivíduo como representante de uma coletividade, por conta de sua proposta de observação micro-histórica (MATOS, 2010).

RELIGIÃO E A ESCOLA DOS ANNALES

Questionamentos e instrumentos elaborados, nos últimos anos, pela ciência histórica sob influência da Nova História, ou dos fundadores dos Annales, ou, ainda, da “virada linguística” contribuíram para o desenvolvimento de um campo específico de estudos das religiões e religiosidades. Tais instrumentos buscam realizar comparações (descontinuidades e continuidades) entre fenômenos do tempo presente e seus possíveis correspondentes do passado, bem como suas diferentes temporalidades, além de procurar a historicidade das práticas, discursos, agentes religiosos e crenças, estabelecendo, por meio de ferramentas conceituais e sob uma perspectiva cultural, a relação entre indivíduo e sociedade.

Neste sentido, esclarece Albuquerque (2009), que as discussões teóricas e metodológicas referentes às relações entre História e Religião do século XIX exerceram influência nas produções dos séculos XX e XXI. Por um lado, a História das Religiões se dedicava aos múltiplos fenômenos religiosos do mundo, em uma abordagem que se distanciava da teologia. Por outro, estabeleceram-se as ciências humanas, como a antropologia e a sociologia, que abordaram as mais diferentes experiências religiosas. Percebe-se que a história, em sua modalidade tradicional, pretendeu-se uma ciência.

As inúmeras transformações ocorridas na História ao longo do século passado, que, sobretudo, por influência dos historiadores integrantes dos Annales, trouxeram renovações metodológicas e teóricas, fazem com que a área tenha um papel importante. Essas mudanças possibilitaram um distanciamento do modelo clássico de história das religiões, que procurava, nos dados históricos, a confirmação de crenças para o cristianismo, ou, ainda, acreditava que a expansão da indústria e progresso da ciência resultaria no desaparecimento da religião (FONSECA, 2009).

No entanto, no século XX, passou a religião a ser abordada de forma diferente a partir do surgimento de novas preocupações historiográficas apontadas por um movimento ligado à revista francesa Annales, que tinha como líderes Marc Bloch e Lucien Febvre. Tal movimento, que se aproximava intelectualmente da demografia, economia, antropologia, psicologia e sociologia, foi designado como História Nova, nos anos 1960, marcando o novo campo da História das mentalidades. Entre 1960 e 1970, impulsionados por Fernand Braudel, educando de Febvre, os Annales conseguiram um espaço importante no cenário universitário da França e, assim, ganharam novos integrantes, como Emmanuel Le Roy, Georges Duby e Jacques Le Goff, por exemplo. Se, em seu início, os Annales se inclinavam para a sociedade e economia, a partir daqui, criou o conceito de “mentalidade”, o qual foi aplicado de diversas formas.

Desse modo, a partir dos escritos de Block e Febvre, a inovação historiográfica tem sua questão principal nas religiões, crenças e religiosidades, ao passo que são elementos que manifestam a essência da vida humana no espaço e tempo. O historiador precisa apreender essas questões para que sua história seja a história do indivíduo em sociedade conforme sua temporalidade (SANTOS; ANDRADE, 2015).

Explicam Santos e Andrade (2015) que Dominique Julia (1976), em seu trabalho, prioriza compreender as alterações nas Ciências Sociais ocorridas a partir de 1900, quando os historiadores passaram a considerar a interação entre ciência e fé, ou seja, o pensamento científico e a fé religiosa. Julia (1976) relaciona o fato das Ciências Modernas apontarem para perspectivas novas do conhecimento humano com as modificações na expressão religiosa. A religião passa a ser uma representação e, por isso, sua importância para a História. Tomando a religião como conceito de um produto cultural, não se limita a História em estudar a História Religiosa ou a defender determinado olhar sobre a fé (JULIA, 1975).

Entende-se, portanto, que o olhar historiográfico de Bloch e Febvre a respeito das Religiões e das Religiosidades se difere daquele predominante na Idade Média e, também, no Iluminismo. Esta nova perspectiva complementou o formato das Ciências Modernas e permitiu os paradigmas que se firmaram no século XIX. Justamente por isso, foi alvo de rejeição e ataques por muitos historiadores (SANTOS; ANDRADE, 2015).

Como observou Artur César Isaia (2009), a sociologia das religiões de matriz francesa veio conquistando espaço na prática historiográfica desde os princípios dos Annales. Como resultado, a História passou a dar atenção às crenças e ao sagrado que, naquela perspectiva, se mostravam capazes de estruturar a vida social. Apesar do movimento anti-positivista e anti-objetivista dos fundadores, essa visão da religião e da sociedade atravessou as primeiras gerações dos Annales, concretizando a influência dos pensamentos de Durkheim. Combinada com uma noção do ‘sacer’ estritamente ligada a princípios normativos, a religião aparece como uma forma abreviada de vida em sociedade, como um padrão coativo capital para que a ordem social fosse mantida. Nesse sentido, a religião era uma instituição com o poder de, por meio de suas interdições, mandamentos e rituais, manter o ‘nomos’ e, as tão valorizadas por Durkheim, coesão e coerção na sociedade (SERAFIM, 2014).

Não se pode deixar de lado, apesar de todas as novas apreensões e ressignificações pelas quais a História Cultural passou a se preocupar com as religiões, religiosidades e crenças, a relação entre aquelas e a norma social, que, em muito, supera as questões levantadas pela tradicional sociologia das religiões. Se não mais se busca o posto pela sociologia das religiões herdeira de Durkheim, ou seja, a eficácia coercitiva e normativa da religião, as contribuições fornecidas, por exemplo, pelo campo da linguística demonstram o caráter ordenador e prescritivo das crenças religiosas (ISAIA, 2009).

O tratamento da religião foi inovado pelos Annales e pela História Nova de duas formas. A primeira mudança foi com relação à noção de tempo, que se diferenciava da concepção de temporalidade presente em abordagens anteriores da historiografia tradicional, mas restringidas a um tempo curto e breve (ALBUQUERQUE, 2007).

Por considerar a religião como composta por diversas faces construídas histórica e socialmente, a segunda inovação refez as dimensões do objeto em cada pesquisa sobre o assunto. Repensaram-se a classificação das categorias da religião e temas como a família, a mulher, a criança, a morte e o amor foram entendidos como relacionados à discussão. Em comparação às perspectivas tradicionais, a religião passou a integrar outros campos de conhecimento e, muito embora tenha perdido nitidez, ganhou complexidade, visto que vieram à tona novas relações históricas. Até meados dos anos 1990, essas abordagens eram denominadas pelo termo mentalidade, que deixou de ser corriqueiro na historiografia, sendo substituído por “imaginário” e “cultura” (ALBUQUERQUE, 2007).

Complementa ainda Prado e Silva Júnior (2016) que, a religião passa a ser encarada de maneira totalmente distinta pelos historiadores no contexto dos desafios intelectuais enfrentados pelo grupo dos Annales. O tema deixou de estar abaixo da guerra, da política, da economia e do Estado, frequentemente alvos de foco na lente da historiografia da escola positivista, não ocupando mais um papel secundário a partir da abertura para novos objetos, novas abordagens e novos problemas. Com respeito ao toque real de cura, Bloch discorre, já nos primeiros anos da Escola dos Annales, sobre o conceito de mentalidade, em seu livro Os Reis Taumaturgos, e, a partir dele, discute sobre a função da religião, da crença e da fé nas esferas sociopolíticas.

Tudo se inicia em um novo objetivo. Trata-se de pesquisar a história de um milagre no meio intelectual dos anos 1920. Pretendia entender o rito de cura da adenite tuberculosa (escrófulas), realizado por meio de toques com as mãos pelos reis da Inglaterra e da França e, para isso, era necessário refazer um percurso significativo da Idade Média e da Época Moderna. Em outras palavras, o autor desejava transformar aquilo que, antes, era apenas uma anedota em história. Segundo Gaspar (2005), a história se mostrou profunda, visto que é possível extrair da anedota um conteúdo infindável que auxilia a compreender a humanidade persistente nos tempos passados. O autor complementa que, mais do que extrair matéria, possibilita um aprofundamento em um estudo inovador de história mental e política.

Para ele, tudo está relacionado ao conceito oriundo da sociologia de Durkheim de “consciência coletiva”. Por meio do estudo dos ritos, o pesquisador consegue analisar o caráter sobrenatural que, por muito tempo, foi atribuído ao poder régio da Inglaterra e da França. Visto que o rei era objeto de adoração de seus súditos por conta do maravilhoso propiciado pelas fábulas e crenças que cercavam os grupos dominantes, é preciso estuda-las para discorrer sobre a instituição da realiza (ALBUQUERQUE, 2009).

Diferente do que ocorre na historiografia tradicional, as origens desse entendimento de realiza “mística” não são examinadas, porque entende que somente a etnografia comparada conseguiria dar conta dessa explicação, e, por isso, acredita ser uma herança das mais antigas civilizações (BLOCH, 1993). O poder milagroso conferido aos reis se encontraria no contexto da própria crença nos milagres.

Os políticos hábeis, que, em muitas vezes, partilhavam o preconceito comum, exploraram com afinco a ideia de realeza santa que dominava a consciência popular, noção essa consolidada pela unção e a legenda da monarquia. Não existiram santos se não houvesse as proezas miraculosas, assim como, não fosse o poder sobrenatural, não haveria coisas ou pessoas sagradas (BLOCH, 1993). O que se entende é que, apesar da mentalidade ser uma criação coletiva, alguns grupos e/ou indivíduos estão passivos e mas podem agir sobre ela.

A noção de construção coletiva, válida tanto para a religião quanto para a mentalidade, ressurge em outro estudo que caracteriza, por meio da mentalidade religiosa, as maneiras de pensar e de sentir da sociedade medieval. Nesse sentido, a mentalidade seria construída por uma infinidade de práticas e crenças – nascidas em épocas recentes ou herdada de magias milenares – que exerceria uma pressão constante sobre a doutrina oficial (BLOCH, 1968).

Desse modo, vários temas que estão presentes no conjunto da história deste milagre são ressaltados na obra, com enfoque, sobretudo, as atitudes mentais e poder das crenças dos homens e à importância do imaginário coletivo. O estudo também retorna às disputas políticas ocorridas no processo de ascensão das casas principescas da Europa e enfatiza como o sagrado foi importante na caracterização do ambiente mágico e religioso deste tempo, que oscilava entre os anseios e tradições da cultura popular, o catolicismo pio da Igreja e os projetos sem sempre espirituais do poder laico. Aborda a história da apropriação do sagrado por um milagre régio, a delimitação e disputa de distintas e sutilezas entre o secular e o espiritual, o papa e o rei, o leigo e o sacerdote, ou seja, História de poder e sagração, crença e fé. Enfim, mais uma vez se vê o passado de modo aprofundado, visto que os anseios de vida humana na história são profundos (GASPAR, 2005).

Bem complementa Fuzzi (2010) que as duas propostas principais de inovação dos Annales já eram apontadas pela estrutura de pesquisa da obra “Reis taumaturgos”. A primeira proposta seria abordar o milagre em sua evolução e na sua duração para, em seguir, na segunda proposta, explica-lo de forma total. É entendida como base da psicologia história e da história das mentalidades que a fé no milagre foi criada pela ideia de que ali deveria existir um milagre. Bloch, partindo da premissa de que é necessário entender o passado através do presente, realizou uma experiência com soldados entre 1914 e 1918 no qual observou a propagação de notícias falsas. Tal constatação serviu como um estopim para a sua análise das formas dos indivíduos pensarem durante a Idade Média com relação ao milagre régio e, portanto, este pode ser considerado como uma gigante notícia falsa.

No entanto, bem coloca Pires (2009), Bloch, de certa forma, desconsiderando a especificidade do objeto, utiliza o religioso para fornecer explicações culturais e/ou políticas. Levando em conta a indefinição do que seria fazer a história do religioso e o tempo em que foi escrito, poderíamos considerar que a obra de Bloch é uma História religiosa que, ao mesmo tempo, desenvolve uma crítica a forma hegemônica de se produzir história religiosa até o momento, que seria, basicamente, voltada para ou contestando as instituições “igrejas”, ou atravessadas por um viés transcendental ou providencialista. Ou seja, incita a elaboração de uma modalidade nova de história religiosa, sem, no entanto, ser um paradigma a esta.

Visto que o religioso está fluido em uma História social ou econômica, o vínculo entre História das mentalidades e a História religiosa se configura como um fator determinante na explicação dos motivos de sua especificidade e delimitação inconsistentes.

Dominique Julia escreveu o artigo História Religiosa nos anos 70, o qual compõe a obra de título História: novos problemas, novos objetos, novas abordagens. Neste texto, Julia aborda a relação entre religião e mentalidade, apresentando ao pesquisador da área um novo campo de estudos da História. De acordo com Albuquerque (2007), Julia esclareceu que a organização social não consegue explicar a religião, sendo ela, portanto, ao mesmo tempo, um reflexo da sociedade e uma influenciadora da mesma.

O autor parte dos dizeres de Marcel Mauss, que acredita que as transformações sociais resultam em mudanças nos desejos e ideias dos fieis, que, a partir disso e para se adequar a isso, alteram seu sistema religioso. Tal afirmação reforça que a organização social explica a religião, que é uma representação desprovida de privilégio da verdade frente aos demais produtos culturais. Segundo Julia (1976) as manifestações religiosas, diferente daquilo que pretendiam dizer, sinalizam outras coisas. A teologia, o clero ou a piedade nos dizem sobre as condições sociais em um determinado tempo histórico (ALBUQUERQUE, 2007).

O campo de pesquisas histórias ganhou dimensões mais ampliadas nos últimos cem anos. Novos desafios surgiram ao estudo das religiões a partir da possibilidade de diversas abordagens. Em algumas ocasiões, as pesquisas estabeleceram relações entre as estruturas sociais e a religião e, em outras, apesar de apresentar este enfoque de maneira implícita, isso pouco importou. Existem estudos que trabalham a religião em conexão com outros aspectos, como a feitiçaria, o medo ou a morte, por exemplo, e, também, aqueles que procuram abordar o tema em um contexto maior. Isso acabou constituindo o que é equivocadamente denominado de “fracionamento do objeto” (DELUMEAU, 1989).

De qualquer forma, a historiografia de grandes personalidades, datas, batalhas e crenças em combate já não é mais predominante. A preocupação dos estudiosos é com o coletivo e com os indivíduos que dele participam. Agora, os historiadores se debruçam sobre a interiorização das atitudes frente a situações como o medo e a morte, escapando da abordagem das crenças que tratava da dicotomia entre heresia e ortodoxia. Explicar as atitudes pela influência, como se fazia em tempos passados, já não é mais suficiente, e recorrem a estruturas, sendo que, os mais ousados, procuram essas estruturas no coletivo, no individual ou no inconsciente, enquanto outros preferem aborda-las a partir da relação com o econômico e social. Em meio a esta pluralidade de perspectivas, a religião perdeu seu protagonismo e sempre é abordada de forma vinculada a outro campo de conhecimento (ALBUQUERQUE, 2007).

Os estudos brasileiros sobre religião estiveram mais ligados ao campo da história confessional de instituições religiosas, ao campo da teologia, da sociologia e da antropologia. Os historiadores do Brasil, influenciados pela história do imaginário ou história das mentalidades – terceira geração dos Annales – e pela retomada de autores do país, como Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Hollanda, começam a demonstrar interesse pelo tema a partir das décadas de 1980 e 1990 (BELLOTTI, 2004).

Ao continuar os trabalhos de Febvre e Bloch, as demais gerações da Escola de Annales orientam novos paradigmas que, em meados de 1980, instituem a História das Mentalidades, que alcança e modifica a historiografia brasileira (ANDRADE, 2012). O entendimento de que a Ciência Antropológica fornece o material necessário para a compreensão do comportamento humano em coletivo fundamenta a História das Mentalidades, que acredita que a produção mental aparece como ponto central da pesquisa quando se toma a expressão religiosa como objeto. A abordagem de escrever a História através do estudo da construção mental do coletivo humano, levando em conta a religiosidade como forma de expressão coletiva sobre o universo em que se vive, é o papel da Antropologia Religiosa, que, conforme Andrade (2012), se torna o referencial para as pesquisas sobre as práticas rituais religiosos.

Pode-se contemplar a História pode com novas razões de existir a partir de questões que passaram a ser o centro de uma discussão temporal, como as religiões, crenças e ritos.

CONCLUSÃO

Concluímos que o presente estudo contribuiu para a compreensão sobre as crenças presente nas obras de Bloch e Fbvre, ressaltando a importância dessa abordagem para a historiografia e seu alcance na historiografia brasileira. Nas obras desses autores, as crenças e as religiões aparecem como expressões da Psicologia Coletiva de determinada época histórica, sendo, de todas as manifestações humanas, a mais sentida e profunda. Nesse sentido, Febvre e Bloch desenvolvem métodos para a História buscar nessas expressões a revelação do homem histórico e o perfil da sua existência em sociedade, não importando sua condição econômica, social e política.

Foi possível constatar que a religião passa a ser encarada de maneira totalmente distinta pelos historiadores no meio dos desafios intelectuais pelos quais passou a escola dos Annales. O tema deixou de ser tratado como inferior à política, guerra e Estado, comumente enfocados na lente da historiografia da escola positivista. Já nos anos iniciais dos Annales, Bloch, em seu livro Os Reis Taumaturgos, discorreu sobre o toque real de cura, evidenciando o debate a respeito do papel da fé, da crença e da religião nas configurações sociopolíticas, o que trouxe à tona o conceito de mentalidade.

Já nos anos de 1970, Dominique Julia, em seu artigo História Religiosa, tratou sobre a ligação entre religião e mentalidade, tornando possível ao pesquisador da História um novo campo de estudos. A grande lição da obra deste autor foi o entendimento de que a organização social não pode explicar a religião, visto que ela é, ao mesmo tempo um reflexo da sociedade e influenciadora desta por meio das mais diversas formas de intervenção.

REFERÊNCIAS

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[1] Teóloga. Licenciada em História. Docente de História e Geografia do Curso de Bacharel em Teologia na Universidade Santanna em São Paulo – SP. Mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

[2] Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

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