A religião como memória e transmissão

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/religiao-como-memoria
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ARTIGO ORIGINAL 

MORAES, Gerson Leite [1], SANTOS, Robson da Silva [2]

MORAES, Gerson Leite. SANTOS, Robson da Silva. A religião como memória e transmissão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 12, Vol. 07, pp. 05-18 Dezembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O que se pretende com este trabalho é mostrar que a religiosidade de tendência pentecostal no Brasil, propaga suas ideias, seus valores e princípios, através de uma série de elementos da cultura popular, tais como: os jargões e os adesivos de carros, que no uso cotidiano possibilitam a construção de uma memória coletiva e da perpetuação de um patrimônio comum. Isso funciona como um elemento de marketing muito poderoso na construção da identidade pentecostal no Brasil. Contudo, isso não é uma prática nova, já que se percebe tal tendência, na cultura bíblica da linguagem de sabedoria, através do uso de provérbios no Antigo Testamento.

Palavra-chave: Pentecostalismo, memória, símbolo, ditos populares, cultura.

INTRODUÇÃO

Longe de ser uma estratégia nova, o uso de expressões de fácil assimilação, a utilização de ditos populares e o uso de símbolos é algo muito antigo. O que se pretende mostrar nesta primeira parte do trabalho é que tais práticas encontram eco já na cultura bíblica judaica, naquilo que convencionou-se chamar de linguagem de sabedoria. Os evangélicos de tendência pentecostal no Brasil estão simplesmente dando continuidade a uma longa tradição que remonta a uma faceta muito antiga da cultura judaica. É fácil perceber que o cristianismo primitivo também deu prosseguimento a essa estratégia, pois o mesmo sempre valeu-se de um arcabouço de símbolos e expressões de fácil assimilação para perpetuar sua mensagem e criar assim uma memória coletiva. Basta lembrar do símbolo maior do início da cristandade, a saber, o peixe, que em grego, criava um acróstico, que encetava uma pública profissão de fé.

Mas deixemos isso de lado, por enquanto, porque o que interessa para o presente momento é mostrar como a religião de forma geral cria uma memória coletiva, onde ela consagra e transmite ideias, valores e princípios através do tempo histórico. Quando se trata de compreender a organização da memória coletiva e a transmissão de ideias dentro de um grupo em geral, o trabalho intelectual de Maurice Halbwachs (1877-1945) é sempre de grande relevância.

Halbwachs em suas pesquisas descobre a importância da memória como condição de identidade dos grupos e das pessoas, portanto há um caráter social na memória e então, segundo ele, a memória não pode ser simplesmente qualificada como um emaranhado de simples lembranças. Ela é uma construção social marcada por grandes pontos de referência históricos e sociais. Depreende-se daí, que a memória coletiva é anterior à memória individual. A memória coletiva possibilita uma construção cultural, uma corrente de pensamento que se perpetua gerando uma tradição. Os grupos religiosos perpetuam-se dentro dessa lógica da memória coletiva. Halbwachs diz:

Mas nossas lembranças permanecem coletivas, e elas nos são lembradas pelos outros, mesmo que se trate de acontecimentos nos quais só nós estivemos envolvidos, e com objetos que só nós vimos. É porque, em realidade, nunca estamos sós. Não é necessário que outros homens estejam lá, que se distingam materialmente de nós: porque temos sempre conosco e em nós uma quantidade de pessoas que não se confundem. (HALBWACHS, 1990, p.26)

Em se tratando de grupos religiosos, estes buscam sempre recuperar os fatos fundadores, no entanto, como cada momento histórico tem as suas especificidades, os grupos religiosos precisam adaptar-se aos novos tempos tentando preservar as características iniciais dos fatos fundadores. Isso gera um conflito existencial no grupo religioso.

Numa sociedade mutável, a religião transforma-se e tem como função relacionar o novo com o passado e incorporar este último às novidades. A mudança social ameaça a coerência. Para continuar existindo, uma sociedade depende tanto da transformação quanto da continuidade. Eis o paradoxo de toda sociedade viva. Quanto mais ela muda, mais precisa referir-se ao passado e quanto menos aparece no presente, mais é necessário colocá-lo como ponto de referência. (RIVERA, 2001, p.45)

Para Halbwachs religião é o jogo da memória, e a partir de suas ideias, têm-se um ferramental de grande utilidade para se compreender a forma como os grupos religiosos criam suas memórias. Além de Halbwachs, o trabalho de Danièle Hervieu-Léger é um outro grande referencial na tentativa de compreender a criação da memória e a consequente transmissão desta. Na mesma linha de Halbwachs, ela acredita que toda organização religiosa estrutura-se a partir de uma memória coletiva. A transmissão religiosa perpetua-se por meio da memória coletiva que cria uma tradição. A experiência religiosa do presente está vinculada a um evento fundador do passado, criando aquilo que ela chamou de linha crente. Marcelo Ayres Camurça diz o seguinte sobre essa linha crente:

A crença religiosa é uma crença na continuidade da ‘linha crente’. É o processo de conservação e reprodução desta ‘linha’ por meio da memória religiosa que garante a permanência da religião, dando sentido ao presente e assegurando o futuro dentro do percurso da ‘linha’, cujo ponto de origem é o passado sempre perenizado. (2003, p.251)

A crença religiosa, ao criar a linha crente propaga e pereniza o passado, e evidentemente, comunica os valores daquele grupo religioso. Trazer para o debate o pensamento de Halbwachs e Danièle Hervieu-Léger, deixa clara a intenção de definir a religião em termos de memória coletiva e da forma como essa memória é transmitida. Um princípio fundamental que será defendido neste trabalho é a ideia de que grupos religiosos criam um acervo enorme de provérbios, jargões e símbolos para comunicarem seus princípios religiosos. Na sequência será abordada a criação de uma memória coletiva na cultura judaica, a partir da linguagem de sabedoria que explorava o provérbio como ferramenta linguística para transmitir valores.

1. MOVIMENTO SAPIENCIAL NO CONTEXTO DO ANTIGO TESTAMENTO

A Bíblia é, de fato, uma biblioteca em miniatura. Nela encontram-se diversas formas e tipos de expressões e dentre elas destacam-se: poesias, hinos, orações, lamentações, canções de amor e, também uma grande variedade de escritos didáticos, tais como os provérbios, os enigmas, as fábulas, os sermões, as alegorias, as parábolas e outros tantos gêneros que mereciam ser destacados, mas fogem do propósito deste trabalho.

Todos os gêneros literários possuem em sua estrutura elementos específicos, que possibilitam por meio de regras próprias serem interpretados e compreendidos. O conhecimento de cada gênero possibilita a análise correta dos mesmos.

A literatura sapiencial no contexto do Antigo Testamento envolve uma série de gêneros literários. Falar sobre essas formas literárias é, sobretudo, dar respostas às inúmeras perguntas, sobre como se deu sua formação, sobre sua finalidade e a função desta literatura na vida do antigo Israel.

A visão tradicional da literatura sapiencial enfoca Salomão, o glorioso e sábio rei de Israel, como autor dos livros canônicos de Provérbios, Jó e Eclesiastes, e também dos livros apócrifos Ben Sirac e de Sabedoria de Salomão. As formas literárias sejam simples ou bem elaboradas visam adaptar o modo de vida à ordem fundamental do mundo, ou se preparar para o que fazer quando a ordem antecipada falhar. Como os gêneros literários são muitos e variados, procurou-se neste trabalho destacar somente a figura do provérbio como exemplo de comunicação de uma sabedoria que visava construir uma memória coletiva e instruir os praticantes daquele rito sobre elementos fundamentais daquela fé.

PROVÉRBIO

A forma básica da literatura sapiencial é o provérbio (maxal). Baseando-se na possível etimologia, os especialistas deram diferentes explicações a esse termo hebraico, desde semelhança, até palavra poderosa, passando ainda pela ideia de palavra alada, sempre carregando em si, um caráter paradigmático e atemporal. Existem diversos tipos de maxal, tais como: “provérbio popular, instrução, exortação, provérbio numérico e a comparação similar”. (ASENSIO, 1997, p.63).

O uso de provérbios era muito comum em todo Antigo Oriente. Israel também utilizou deste recurso linguístico, que servia para formular e fixar as experiências e os conhecimentos relacionados às leis que regulavam o universo e a vida cotidiana. No Antigo Testamento, encontram-se inúmeros provérbios que exprimem experiências humanas de caráter universal. (ex: 1Sm 24.14; 1Rs 20.11; Jr 23.28; Ecl 9.4). Por vezes o provérbio é determinado pela situação histórica, e foi incorporado, após ser revestido com uma fórmula (2 Sm 5.8).

Pode-se dizer que o provérbio tem uma função pedagógica. Um aspecto importantíssimo da pedagogia do maxal é sua estrutura didática refletida, por exemplo, no provérbio numérico, que está ligado em sua origem com enigmas, e com os recursos mnemotécnicos.

Seu esquema corresponde à fórmula X/X + 1, embora, talvez, a mais popular seja 3/(3+1) 4: ‘Há três coisas que… e uma quarta que…’. Após a menção do ‘X + 1’, expõe-se o conjunto de coisas às quais se refere a última cifra. São famosos os provérbios numéricos de Pr 30; menos conhecidos os de Pr 6.16-19; Eclo 25.7-11; 26.28; 50.25-26; Jó 5.19-22; 13.20; 33.14-15. Existem variantes com menor rigor formal, como os provérbios numéricos que somente mencionam uma realidade apesar do esquema X/X+1, incitando o aluno a completar as cifras mediante a busca de analogias entre os âmbitos naturais e sociais. (ASENSIO, 1997, p.64)

A comparação também é muito usada na literatura sapiencial, tendo como característica destacar alguns tipos de conduta em paralelo com outras.

Como verniz aplicado à vasilha de barro, são os lábios doces com coração perverso. (Pr 26.23). Como o cão volve ao seu vômito, o néscio insiste em sua estupidez. (Pr 26.11). Como o crepitar de espinhos sob as folhas, assim é o sorriso do néscio. (Eclo 7.6). A fumaça e o vapor do forno anunciam chamas, assim, as injúrias anunciam sangue. (ASENSIO, 1997, p.65)

Outra forma que se destaca muito bem são aquelas que trazem em seu conteúdo elementos considerados como negativos, que por sua vez exigem menos na sua elaboração: Não é bom comer mel em excesso, nem empanturrar-se de palavras elogiosas. (Pr 25.27). Nem a neve no verão, nem a chuva no tempo da ceifa, nem a glória ao néscio assentam bem. (Pr 26.1). Mas talvez, o exemplo mais significativo seja a comparação que enfatiza o melhor (aquilo que mais vale). Melhor é viver num canto do terraço, que em casa ampla com mulher impertinente (Pr 21.9). Vale mais ração de verdura com amor que boi gordo com rancor. (Pr 15.17)

Todos os provérbios estão relacionados em suas origens às tradições populares ou folclóricas. Nas tradições populares encontram-se os fatos ligados à origem e também à história primitiva de um povo, cujos fatos foram transmitidos ao longo do tempo, de forma oral, até serem registrados como texto.

Ao analisar os provérbios, percebe-se que a transmissão se deu por meio das assimilações, dos enfeites da imaginação e do cultivo da prática da memorização de nomes e fatos. Certamente os provérbios usados no Antigo Testamento tiveram um papel de conservação de uma tradição, que formou uma memória coletiva e permitiu às futuras gerações, dentro da linha crente, conhecerem os valores e princípios de seus antepassados. No próximo tópico será abordada a relação entre religião e cultura, especificamente a cultura dita popular, e será apresentada uma série de elementos que estão criando entre os evangélicos pentecostais brasileiros, um arsenal de provérbios e símbolos, que estão possibilitando o nascimento de uma memória coletiva e transmitindo a fé e os valores desse grupo.

2. RELIGIOSIDADE PENTECOSTAL E CULTURA POPULAR NO BRASIL

Na sociedade brasileira, profundamente marcada pelo sincretismo religioso, a construção cultural passa pela questão religiosa. Ter isso em mente facilita a compreensão e evita preconceitos. Definir religião não é uma tarefa simples de ser realizada. Há muitas definições e uma diversidade de opiniões acerca do assunto. No entanto, para efeitos metodológicos e de continuidade da construção de uma lógica estruturante que fundamenta este trabalho, segue a definição dada por Anthony Giddens:

As religiões envolvem um conjunto de símbolos, que invocam sentimentos de reverência ou de temor, e estão ligadas a rituais ou cerimônias (como os serviços religiosos) dos quais participa uma comunidade de fiéis. Cada um desses elementos necessita de alguma elaboração. Mesmo que as crenças de uma religião possam envolver deuses, ou não, quase sempre existem seres ou objetos que inspiram atitudes de temor ou de admiração. (GIDDENS, 2007, p.427)

Entender a religião como um conjunto de símbolos permite situá-la como uma construção meramente humana, e que por causa disso, necessita da criação de códigos que lhe permitam comunicar seus valores, ideias e princípios. Se definir religião não é tarefa fácil, definir cultura de igual modo é uma tarefa hercúlea. Peter Burke define-a da seguinte maneira, “…cultura é uma palavra imprecisa, com muitas definições concorrentes; a minha definição é a de um sistema de significados, atitudes e valores partilhados e as formas simbólicas (apresentações, objetos artesanais) em que eles são expressos ou encarnados”. (BURKE, 2010, p.11)

Correndo o risco de ser chamado de reducionista, pode-se dizer que a religião é um elemento da cultura. Outra discussão importante refere-se à ideia de cultura popular. A definição de cultura popular, consequência direta e natural da discussão anterior, não se esgota em si mesma, e deve ser entendida como um conceito polissêmico, com possibilidade de muitas definições e passível de ambiguidades.

Antonio Gramsci formula a questão em termos de estruturas ideológicas da sociedade: ao lado da chamada cultura erudita, transmitida na escola e sancionada pelas instituições, existe a cultura criada pelo povo, que articula uma concepção do mundo e da vida em contraposição aos esquemas oficiais. Há nesta última, é verdade, estratos fossilizados, conservadores, e até mesmo retrógrados, que refletem condições de vidas passadas, mas também há formas criadoras, progressistas, que contradizem a moral dos estratos dirigentes. Gramsci dá como exemplo alguns cantos populares. (BOSI, 2007, pp.77-78)

A cultura popular refere-se aos costumes, à forma de vida e envolve as festas, as comidas, as músicas, as danças, o folclore e as tradições do povo, e pode ser chamada como cultura de massa ou cultura pop. Este tipo de cultura está sempre em movimento, ou seja, em constante mudança e é alimentada pelas indústrias cinematográfica, musical, televisiva, etc.

A cultura popular alimenta-se e é alimentada pelo elemento folclórico. Nessa relação de duas mãos, pode-se dizer que a cultura popular existe de muitas formas, como por exemplo, em forma de provérbios ou ditos populares, que não se sabe bem como nascem, mas sabe-se que os mesmos se espalham entre a população, de boca em boca, como sempre aconteceu, mesmo em tempos de internet e redes sociais.

Os provérbios fazem parte da religiosidade brasileira. Porém, o termo jargão é muito mais conhecido neste contexto. O jargão pode ser entendido como uma linguagem corrompida, uma gíria profissional, mas na prática ele tem o mesmo papel do provérbio bíblico, que tinha a finalidade de transmitir valores da memória coletiva do grupo religioso.

Num artigo publicado na revista Eclésia, de autoria de Marcelo Santos, verificou-se a importância das diversas formas de linguagens do cenário evangélico brasileiro. Foram destacados alguns dos jargões mais usados no campo pentecostal brasileiro. O autor procurou elencá-los e tentou esclarecer seus significados. Segue a lista de jargões publicados pela revista:

Avivalista: É aquele pregador que incendeia a igreja com suas mensagens de poder. Cajado puro: Quando o pregador é duro no seu discurso contra o pecado ou a acomodação da igreja, diz-se que foi ‘cajado puro’. Afinal, os pastores usam cajados para guiar e, eventualmente, castigar as ovelhas de seu rebanho.

Do mundo: Diz-se acerca das pessoas que não são crentes. Também designa atitudes, situações ou lugares evitados pelos evangélicos. Boate, por exemplo, é considerado um ambiente ‘do mundo’.

Espinho na carne: É qualquer dificuldade na vida do crente – doença, desemprego, familiar não-convertido, etc. A expressão foi empregada pela primeira vez pelo apóstolo Paulo.

Fluir: Muito popular ultimamente, o vocábulo abrange uma série de significados. Pode ser o ‘fluir de Deus’, quando Ele está se manifestando; pode ser também o ‘fluir do louvor’, quando as pessoas sentem-se abençoadas pelas músicas.

Fogo: É o símbolo do poder do Espírito Santo. Portanto, o crente que brada: ‘Derrama fogo, Senhor!’ não é um piromaníaco. Está apenas pedindo ao Senhor que mostre seu poder no meio da congregação.

Geazi: Personagem do Antigo Testamento, que era aprendiz do profeta Eliseu. Por associação de ideias, diz-se daqueles crentes que procuram se inspirar e buscar orientações com irmãos mais experientes e consagrados na fé.

Golias: O termo é inspirado no gigante Golias, que afrontou o nome do Senhor e acabou decapitado por Davi.

Gospel: É uma das mais corriqueiras expressões do evangeliquês. Virou quase sinônimo de evangélico; assim, temos música gospel, eventos gospel, indústria gospel, shows gospel, etc.

Ímpio: É o não-crente, aquele que não segue a Jesus.

Inimigo: O diabo. Eufemismo usado para evitar o uso de termos como demônio ou Satanás.

Levita: Geralmente, é o indivíduo que se dedica ao louvor congregacional.

Maná: É o alimento com que o Senhor sustentou o povo de Israel no deserto, após a fuga do Egito. Muitos evangélicos usam este termo para referir-se a uma coisa boa, agradável.

Ministério: É a atividade, geralmente voluntária, exercida pelo crente na igreja. Os mais conhecidos são os ministérios de louvor, evangelismo, visitação, do ensino ou da Palavra (pregação).

No Espírito: Diz-se do ato de pautar as atitudes de acordo com a vontade divina. Por exemplo: ‘Falar no Espírito’ quer dizer que a pessoa falou conforme orientação de Deus Na carne: O contrário de ‘no Espírito’. Significa que a pessoa está sendo motivada por seus próprios interesses.

Obra: Na igreja, nada tem a ver com cimento ou areia. É apenas uma forma de se chamar qualquer serviço prestado à causa evangélica.

Ô, glória!: É um brado de entusiasmo, empregado em situações de alegria ou êxtase espiritual.

Queima, Jesus!: Interjeição típica dos pentecostais. É empregada para repelir qualquer situação considerada pecaminosa ou oposta à vontade de Deus.

Repepé: Reunião avivada, onde o poder de Deus se manifesta. Trata-se de uma onomatopeia das línguas estranhas que os pentecostais atribuem a um dom do Espírito Santo.

Sair do Egito: Expressão baseada no relato do Êxodo, quando o povo de Israel foi liberto da escravidão naquele país. Portanto, significa deixar para trás alguma provação.

Subir o monte: Nada a ver com alpinismo. Trata-se de um jargão que se refere ao ato de buscar a Deus de maneira intensa. É inspirada no Antigo Testamento, onde homens, como Moisés, subiram montes para ficar face a face com Deus. Por vezes, tem significado literal: crentes sobem montes para orar.

Tá amarrado: O famoso bordão é usado para anular as forças das trevas. Também pode ser empregado para esconjurar pessoas ou situações contrárias à vontade de Deus.

Tribulação: Período de dificuldades na vida do crente.

Tomar posse da bênção: Expressão característica da chamada confissão positiva ou teologia da prosperidade. É a atitude do evangélico que, pela fé, age como se já tivesse recebido o esperado benefício divino.

Varão: O mesmo que homem. É uma espécie de elogio – quando se chama alguém de ‘varão de Deus’, geralmente se quer dizer que a referida pessoa é um crente espiritual.

Vaso de bênção: É o crente dedicado ao ministério da oração ou usado por Deus com manifestações sobrenaturais.

Voto: É o compromisso, ou pacto, que o crente faz com Deus. ‘Pode ser em busca de uma bênção ou para traçar alguma meta espiritual’. (Marcelo Santos. A língua dos Crentes. Disponível em: http://www.eclesia.com.br/revistadet1.asp?_artigos/>. Acesso: 31/10/2010)

Na Internet existem muitos sites dedicados à tarefa de registrar esses jargões. Segue mais uma lista:

O mais alto que podemos chegar nesta vida é dobrarmos aos pés de Jesus.

Deus não faz distinção de pessoas, mas respeita suas próprias promessas.

Muitos querem as bênçãos de Deus, mas não querem o Deus das bênçãos.

Com Deus não existe barganha.

Deus não escreve em linhas tortas, porque tudo que Ele faz é justo e perfeito.

Servir a Cristo não é trabalho extra, mas transbordamento.

Tenho grande necessidade de Cristo, tenho um grande Cristo para minha necessidade.

Ser crente é como rapadura: é duro e é doce.

Não mostre a Deus o tamanho do teu problema, mostre ao teu problema o tamanho do teu Deus.

Fora da vontade de Deus não existe sucesso; dentro da vontade de Deus não existe fracasso.

O pouco com Deus é muito e o muito sem Deus não é nada.

Nossos grandes problemas são pequenos diante do poder de Deus; nossos pequenos problemas são grandes para o seu amor.

Para o céu não existe atalhos.

Seja aquele que ensina o caminho, e não aquele que ensina atalhos. (Jesus é o caminho. Disponível em: http://comodiziaaminhaavo.blogspot.com/…/ditados-evangelicos-frases-verdades/>. Acesso em 01/11/2010)

Embora muitos desses jargões possam ser vistos pelos não religiosos como algo até jocoso, na prática eles criam uma identidade do grupo pentecostal brasileiro. Os membros dessas igrejas comunicam-se assim e se reconhecem usando tais jargões. Eles foram incorporados às liturgias dos cultos, e consequentemente, criaram uma memória coletiva que é transmitida na tradição dos crentes, exatamente como fazia o provérbio na cultura judaica.

Além do uso de jargões que têm uma afinidade com o uso dos provérbios vétero-testamentários, os elementos visuais adotados por grupos evangélicos de forma geral também cumprem o papel de criar uma memória coletiva que será transmitida. Um fenômeno bastante interessante em nossos dias são os adesivos de veículos. Podemos relacionar este fenômeno, como uma transmissão visual relacionada a elementos característicos que fazem parte da divulgação visual, que transmitem também de forma indireta algo intimamente ligado ao sagrado. Muitos dos ditos desses adesivos apontam para uma tarefa evangelística. Nesse sentido, percebe-se que até mesmo os católicos usam essa estratégia. Para ilustrar essa questão, veja as imagens abaixo expostas:

Figura 1 – Terços formando imagens

Fonte: Imagens retiradas do site: [email protected] Acesso em: 02/11/2010.

Já entre os evangélicos, a imagem de uma mão aberta e estendida é a mais conhecida. O fiel está dizendo com essa imagem, que ele e seu veículo estão de fato, nas mãos de Deus, portanto, protegidos.

Figura 2 – Nas mãos de Deus

Fonte: www.imagensde.com.br/…/adesivo-nas-maos-de-deus.html/>. Acesso em: 03/11/ 2010. cleversonleal.blogspot.com/…/estes-adesivos-estao-tomando-conta-de.html/>. Acesso em 03/11/ 2010.

Outra imagem muito usada pelos evangélicos é aquela que informa que o motorista é um crente que acredita no arrebatamento final. O que se pretende dizer com essa frase é que o proprietário daquele veículo crê em Deus e que na volta de Jesus, o proprietário será salvo do inferno. São milhares de adesivos que estão espalhados pelas cidades brasileiras, comunicando os valores desse grupo religioso.

Figura 3 – “Perigo! Em caso de arrebatamento este veículo estará desgovernado”

Mas os evangélicos pentecostais não só comunicam questões teológicas importantes, eles também brincam com suas mazelas e culpam Satanás por seus infortúnios. Veja a imagem abaixo.

Figura 4 – “Presente do Inimigo”

Como se pode perceber, hodiernamente há muitas formas de transmitir ideias e valores. Os evangélicos de forma geral apreciam ostentar elementos visíveis que apontem para a sua fé e seus valores, como é o caso dos adesivos de carros mencionados a pouco. Essa não é uma prática somente dos evangélicos pentecostais, mas de todo o segmento evangélico. Contudo, pode-se dizer que entre os pentecostais essas práticas são muito usadas e somando-se ao uso dos jargões, criam um modo de existir diferenciado na cultura brasileira e nos permite afirmar que há a gestação de uma memória coletiva que é transmitida, e que gera uma identidade específica desse grupo religioso. Os evangélicos pentecostais são muito criativos na tarefa de comunicar seus princípios e valores, mas não são inovadores, pois praticam algo muito semelhante ao que era realizado no contexto do Antigo Testamento. Frases curtas e de efeito estão servindo para criar uma identidade pentecostal e uma memória coletiva que conduzida na linha crente transmite ideias e princípios de fé.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A sabedoria do Antigo Oriente centrada na figura do provérbio, foi uma ferramenta fundamental para a transmissão de ideias, valores e princípios entre o povo de Israel. Era a típica sabedoria da vida prática, do dia a dia das pessoas.

Na tentativa de mostrar que essas atitudes continuam vivas na prática religiosa brasileira de tendência pentecostal, apontamos para o uso de jargões e adesivos automotivos que acabam transmitindo ideias e valores, e até mesmo, porque não dizer, a fé desses fiéis. Nascidos do cotidiano das pessoas, os jargões e os adesivos de carros acabam transformando-se em elementos do marketing religioso desses grupos que criam a cena pentecostal brasileira. A criação de uma memória coletiva que explora a cultura popular brasileira, reapropriando e ressignificando toda uma tradição de utilização do cotidiano das pessoas para transmitir uma mensagem que se pretende divulgar é tarefa muito bem-sucedida pelos pentecostais no Brasil.

REFERÊNCIAS

ASENSIO, V. M. Livros Sapienciais e Outros Escritos. São Paulo: AM Edições, 1997.

BURKE, P. Cultura Popular na Idade Moderna: Europa 1500-1800. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

BOSI, E. Cultura de Massa e cultura popular: leituras de operárias. Petrópolis: Vozes, 2007.

CAMURÇA, M.A. A Sociologia da Religião de Danièle Hervieu-Léger: entre a Memória e a Emoção. In: TEIXEIRA, Faustino (Org). Sociologia da Religião – Enfoques Teóricos. Petrópolis: Vozes, 2003.

GIDDENS, A. Sociologia. Netz.- 4. – Porto Alegre: Artmed, 2007.

HALBWACHS, M. A memória Coletiva. São Paulo: Ed. Vértice, 1990.

HERVIEU-LÉGER, D. O peregrino e o Convertido. Petrópolis: Vozes, 2008.

RIVERA, P. B. Tradição, Transmissão e emoção religiosa – Sociologia do Protestantismo contemporâneo na América Latina. São Paulo: Olho d’água, 2001.

Hipertexto

Jesus é o caminho. Disponível em: http://comodiziaaminhaavo.blogspot.com/…/ditados-evangelicos-frases-verdades/>. Acesso em 01/11/2010)

Marcelo Santos. A língua dos Crentes. Disponível em: http://www. eclesia.com.br/revistadet1.asp?_artigos/>. Acesso: 31/10/2010.

Nas mãos de Deus. Disponível em: www.imagensde.com.br/…/adesivo-nas-maos-de-deus.html/.>. Acesso em: 03/11/ 2010. E cleversonleal.blogspot.com/…/estes-adesivos-estao-tomando-conta-de.html/>. Acesso em 03/11/ 2010.

Terços formando imagens. Disponível em: [email protected]/>..Acesso em 02/11/2010.

[1] Doutor em Ciências da Religião pela PUCSP e Doutor em Filosofia pela UNICAMP. Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

[2] Graduado em Teologia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Pós-Graduando em Sociologia pela FESPSP.

Enviado: Dezembro, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

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