ARTIGO ORIGINAL
FARAH, Leonardo de Castro [1]
FARAH, Leonardo de Castro. Estudo do Épico de Gilgamesh e sua influência na Bíblia Hebraica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 10, Vol. 01, pp. 46-72. Outubro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/gilgamesh-e-sua-influencia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/gilgamesh-e-sua-influencia
RESUMO
O objetivo deste artigo é de analisar o conteúdo do texto do Épico de Gilgamesh, que teria sido escrito por volta do 3º milênio antes da Era Comum, e que serviu de influências para mitologias posteriores. E desta forma, podemos inseri-lo, dentro da tese do Monomito, de Joseph Campbell. Nossa pesquisa é centrada no personagem, Gilgamesh e nas suas aventuras, que obedece ao plano mitológico, similar de outros mitos, heróis e de alguns personagens que vemos em textos bíblicos. A metodologia usada em nossa análise é basicamente bibliográfica, contando com artigos científicos e livros de antropologia, história, mitologia geral e mitologia da Antiga Mesopotâmia, com destaque nas traduções de Dr. Jacyntho Lins Brandão (UFMG): “A Epopeia de Gilgamesh”, o “Enuma Elish” e o texto assírio: “Descida de Isthar ao submundo” descrito no livro: “Ao Kurnugu: Terra Sem Retorno”. E a conclusão que chegamos é que o Monomito é visível e observado no Épico de Gilgamesh, demonstrando que suas estórias influenciaram alguns textos da Bíblia Hebraica.
Palavras-chave: Gilgamesh, Mitologia, Monomito.
1. INTRODUÇÃO
Nossa pesquisa tem como base a análise do Mito de Gilgamesh, que foi um herói lendário, da região da mesopotâmia. E para fazer esta pesquisa foi necessário entender o conceito do herói! E como ele foi criado? Para isso vamos estudar superficialmente, a Jornada do Herói elaborada, por Joseph Campbell e o Ciclo do Herói proposto por Paul Radin (citado no livro de Feijó). Desta forma, vamos nos afastar da tese pseudocientífica de Graham Hancock, que sugere um revisionismo de mitos de povos antigos. Após completar os estudos da construção do herói, vamos, nos a ter em contar a história da descoberta, transliteração e tradução do documento: Epopeia de Gilgamesh, para que depois, possamos dar início análise do tema.
Quando foi analisado o texto de cunho bibliográfico, percebemos que há elementos dignos de destaque, como: as profecias e presságios que ocorrem por sonhos; o número sete usado por diversas vezes ao longo de textos mesopotâmicos; as frases repetitivas faladas por diferentes personagens no Épico; a busca por algo inalcançável; a formação de uma assembleia dos deuses, para aplicar a Lei do Talião; o fato dos deuses terem qualidades e características humanas e o retorno para sua cidade. Estas características revela um quadro mais complexo do mito a ser abordado.
1.1 O QUE É UM HERÓI? COMO ELE NASCE? E SEU CICLO
O Herói é um ser aventureiro, uma pessoa que aceita um desafio ou que seja imposto de forma coercitiva, que o obriga agir. Segundo Feijó (1984, p 13), as pessoas mais destacadas dentro de uma sociedade, tendo habilidades extraordinárias e status de semideuses, é homenageado, prestando-lhe ritos e cultos. De um modo geral, procura-se num tempo longínquo, alguém que simbolizasse os anseios daquela sociedade, daí que nasce o Herói. O nascimento do mito do herói se dá por essa origem, por sua vez é a crença de sua comunidade, seja ela tribal ou industrial.
Desta forma, ele pode ser sim, construído por sua sociedade para defender um estilo de vida ou de governo. Um bom exemplo de construção de mito foi o Tiradentes: Joaquim José da Silva Xavier. Assim, como Jesus, ele foi traído, por um amigo, Joaquim Silvério dos Reis e morreu enforcado por seus princípios ou por um ideal republicado e separatista.
Sabemos que a história de Tiradentes entre os anos de 1789-1889 foi negligenciada pela historiografia brasileira e foi marginalizada por Varnhagen, dando apenas um parágrafo, em seu livro a História Geral do Brasil (1857). Tiradentes foi condenado à morte, pelas autoridades ligadas a família real portuguesa. Entre: 1789-1889 ele era visto pelos historiadores do Império, como alguém que cometeu o crime de sedição (traição à pátria), e é por isso que foi “esquecido”.
Mas, quando aconteceu o Golpe de 1889 (Proclamação), o novo governo que tomou o poder sentiu a necessidade a criar: uma nova bandeira, um novo Hino Nacional, novo Brasão da República, Selo Nacional e uma pessoa, que possa simbolizar tudo isso. O escolhido foi Tiradentes e tornou-se: o Herói Nacional (Feijó, 1984). Para demonstrar o caráter quase divino de Tiradentes, muitos pintores, a pedido dos novos governantes, fizeram quadros que o comparasse com Jesus, desta forma, nas artes ambos são: barbudos, com pele clara, alto e imponente e fiel aos seus ideais e que foram traídos por um amigo. Não importa se Tiradentes é o Herói nacional, mas sim, a propaganda que o novo governo transmitia, sendo uma pessoa a ser seguida.
1.1.1 O CICLO DO HERÓI E O MONOMITO
Feijó (1984) citou em seu livro, que Paul Radin (1883-1959), antropólogo estadunidense havia estudado a cultura dos povos nativos norte-americanos e publicando, em 1948, sua obra: “Ciclos de heróis de Winnebago”, dividindo os Heróis, em quatro tipos:
QUADRO 1 – O CICLO DO HERÓI DE RADIN:

À medida que se lê sobre mitologias greco-romanas, nativas americanas, egípcias, mesopotâmicas, descobrimos que há uma correlação (um padrão). Isso não quer dizer que os povos do Antigo Egito visitaram o mundo todo para levar sua cultura, que seria o Hiperdifusionismo. Por exemplo, em muitas culturas existe uma estória mitológica comum, o tema do Dilúvio Universal. Só os Mesopotâmicos tiveram três versões deste evento: O Mito de Atrahasis (escrito em acádio), O Mito de Ziusudra (escrito em Sumério) e Uta-napishtim (babilônico, dentro do Épico de Gilgamesh). Os gregos também tiveram sua estória do Dilúvio de Deucalião, assim como, os povos originários, como: os Maias e Cherokees (Durschmied, 2004).
Alguns autores, como Graham Hancock usa o hiperdifusionismo para explicar que as origens das civilizações antigas, como: Egito, Mesopotâmia, Grécia, Roma e tantas outras espalhadas pelo planeta, se formaram graças a uma civilização mais antiga, datada em 12-10 mil anos, que foi destruída pelo Fim da Era Glacial (numa catástrofe global). Daí os sobreviventes, navegaram pelo mundo a fora difundindo sua cultura. Hancock chamou isso de “memória coletiva”, isso porque os mitos são muito parecidos. Porém há evidências contrastantes, vamos elencar apenas duas:
QUADRO 2 – CONTRADIÇÃO DA TESE DE HANCOCK:

Dr. Joseph Campbell (1904-1987) estudou as diversas mitologias dos povos nativos americanos e também de outros povos, deste modo, viu evidências de similaridades entre: as estórias mitológicas tendo elementos e aspectos comuns, que ele chamou de Monomito[2], que seria o conceito de uma jornada cíclica, que envolve um personagem central, o herói, que sai de sua comunidade (ou por pressão ou por vontade) e que realiza diversas tarefas e depois de algum tempo, retorna a sua comunidade. Dr. Campbell, em seu livro: O Herói de Mil Faces publicado em 1949 (publicado, em 2007) e teve influencias do pensamento de Carl Jung, James Joyce, em sua obra Ulisses e por diversas mitologias que foram comparadas.
O Épico de Gilgamesh é um Monomito. Ele foi o rei de Uruk, realizou diversos feitos tidos como impossíveis e após a morte de seu amigo, Enkidu, partiu numa última jornada, a procura da imortalidade, mas acaba falhando e no final, retorna para sua cidade natal. Perceba que a Jornada do Herói, possuí diversas etapas, são elas:
QUADRO 3 – AS ETAPAS DA JORNADA DO HERÓI, A PARTIR DO MITO DE GILGAMESH:

É muito importante dizer, que cada etapa da Jornada, não precisa seguir à risca parte por parte, vista no Quadro 3. Ela é método de observação e comparação das aventuras de seres semidivinos, em diversos mitos. No livro: “O Poder do Mito”, na entrevista de J. Campbell, por Bill Moyers, com afirmou que as “histórias acolhem o mesmo tema universal, mas o adaptam, com sutis diferenças dependendo do particular enfoque de quem está escrevendo” (Campbell, 2000, p 12).
1.1.2 A MITOLOGIA COMPARADA E O AXIS MUNDI
O Axis Mundi[3] é usado para estudar mitologias de vários povos, tendo elemento comum o: centro do mundo, podendo simbolizar árvores sagradas, um objeto (totem) ou até mesmo de um lugar. Campbell (2000, p 93) sugeriu que o Axis Mundi é o ponto central do encontro entre o repouso (eternidade) e o movimento (tempo). Daí seu simbolismo da união entre o céu (habitação dos deuses) e a terra (local que vivemos). E qualquer lugar pode ser um Axis Mundi. Em muitas culturas há uma. Por exemplo, a população de Rapa-Nuí (na Ilha de Páscoa) acreditava que sua Ilha fosse o centro do mundo, chamando-a de: te pito te henua (umbigo do mundo) (Abreu, s/d, p 201). Já os Incas tinham o Coricancha (Templo Dourado). Segundo a tradição era o centro do mundo Inca, pois ali o próprio deus, Inti (sol), uma vez ao ano, no solstício de verão (dezembro), ficava acima do poço de água no centro do templo. Os espanhóis na tentativa de conquistar os Incas edificaram a Igreja de Santo Domingo, nas ruínas onde se localizava o Templo (Coe, Snow e Benson, 2006, p 200). “Os cristãos transformam a paisagem própria colocando seu templo, no mesmo lugar do templo alheio” (Campbell, 2000, p 99). Na cultura Germânica-Viking, acreditavam na existência de uma árvore do mundo (Yggdrazil), que ligava o mundo dos homens (Midgard) ao mundo dos deuses (Asgard) (Jones, 1984).
Os vikings veneravam um tronco de árvore de tamanho gigantesco que identificavam com a “coluna universal” que sustinha o peso do mundo. Essa árvore era o Yggdrazil, um imenso freixo da mitologia escandinava que suporta o universo inteiro e que é como que seu eixo (Cohat, 1991, p 110).
Existiu um mito entre os sumérios, chamado: Canção do Huluppu de Inana, conta a estória de uma árvore, o Huluppu que teve suas raízes arrancadas pelo Vento Sul e foi levado pelo rio Eufrates, até uma mulher que a encontrou e resolveu levá-la para Uruk, para ser plantada no jardim sagrado, a pedido de Enlil, e o texto segue dizendo: “… Então uma serpente que não podia ser encantada. Fez seu ninho nas raízes da árvore Huluppu[4]”. Esse trecho é semelhante ao Antigo Testamento (Gn 2:9), que temos o Jardim do Éden, e em seu centro, à árvore da vida e a árvore do Conhecimento do bem e do mal, tendo uma serpente. Já no mito de Gilgamesh, conta que o herói atravessou o jardim dos deuses, que continha frutos iguais a rubis, guardado por uma mulher chamada Siduri-Sabitu (Mella, s/d, p 62). Ali, Gilgamesh encontrou com o deus-sol, Shamash, para ver se poderia ajudá-lo a encontrar o “distante Utnapishtim”:
Procura Siduri-Sabitu, á sábia senhora da Montanha Celeste, ela está sentada sobre o torno no Jardim dos Deuses, junto ao Oceano e a custódia da Árvore da Vida. Ela poderá indicar-lhe o caminho para alcançar o distante Utnapishtim (Mella, s/d, p 64).
No mundo Maia, havia o sacbé, o “caminho branco”, na visão simbólica poderia representar a Wakah-Chan – a árvore da vida, que simboliza a ligação dos reinos humanos e não humanos. O que explica tanta similaridade entre os mitos seria a psique humana, que é a mesma em todo mundo, nossa experiência interior, ligada as emoções, como: a morte, velhice, doenças, guerras, inveja e amor – fazendo parte do nosso íntimo e conteúdo dos mitos (Campbell, 2000).
Em todo o mundo e em diferentes épocas da história humana esses arquétipos ou ideias elementares aparecem sob diferentes roupagens. As diferenças nas roupagens decorrem do ambiente e das condições históricas. São essas diferenças que o antropólogo se esforça por identificar e comparar (Campbell, 2000, p 54-55).
Terminada esta primeira parte de nossa análise, que foi bem superficial, na qual tratamos do conceito e da criação do Herói e de como se dá seu ciclo e Monomito comparada com diversas mitologias. Essas abordagens irão servir para análises futuras que faremos do Épico.
1.2 A DESCOBERTA E TRADUÇÃO DO ÉPICO
Sobre a descoberta e a tradução da escrita mesopotâmica teria ocorrido no século XIX, quando a Inglaterra era o maior império do mundo. O seu domínio abrangia desde Canadá até a Índia/Afeganistão, partes da Ásia, Nova Zelândia/Austrália todos fazendo parte da British Commonwealth of Nations (Neto e Tasinafo, 2016). Nesse ambiente, destaca-se Henry Rawlinson (1810-1895), que foi militar de carreira servindo na Índia, e foi enviado até a Pérsia (Irã), exercendo o cargo público naquela região (Mella s/n). Rawlinson teve contato com a cultura mesopotâmica, ficando fascinado, com a escrita cuneiforme desejando fazer sua transliteração/tradução do cuneiforme para o inglês. Os locais haviam comentado sobre a existência da Inscrição de Dario (ou Inscrição de Behistun), que se encontrava numa falésia. Ali, o rei Persa, Dario I (550-486 a. C), por volta de 515 a. C, mandou escrever sua declaração usando três alfabetos de línguas diferentes, estando um no lado do outro. 1º escrito estava em persa antigo, 2º escrito estava em elamita e o 3º escrito em cuneiforme babilônio (Anônimo, 2019). Só que tinha um problema! A Inscrição de Behistun ficava num penhasco a uns 15 metros de altura, com 25 metros de largura. Diz a lenda, que Rawlinson e seus ajudantes fez com que ele ficasse pendurado por uma corda, para tentar ler e traduzir a inscrição (Mella, s/d). Rawlinson sabia ler o persa antigo e assim, conseguiu traduzir a escrita cuneiforme. Isso abriu as portas para novos pesquisadores, como George Smith (1840-1876), para traduzir os textos cuneiformes.
Mais ou menos nessa mesma época, Henry Layard (1817-1894) em 1846, teria escavado, em Nínive e descobriu a Biblioteca Real. Diversos textos foram descobertos, entre eles estavam: Enuma Elish e o Épico de Gilgamesh. Esse material foi levado até o Museu Britânico e foi examinado por George Smith (1840-1876), que traduziu a Epopeia de Gilgamesh, escrito em língua acádia, para o inglês. A importância deste texto só foi percebida 20 anos após sua descoberta, quando em dezembro de 1872, George Smith, anunciou num encontro da recém-fundada Sociedade de Arqueologia Bíblica afirmando que há “pouco tempo atrás, descobri entre as tábuas assírias no Museu Britânico um relato do dilúvio” (Anônimo, 2019). Atualmente, sabemos que o Épico de Gilgamesh é composto por diversos textos isolados. Isso abriu caminho para novas escavações no Oriente Médio e nas últimas décadas, graças, a arqueologia foi descoberto novas tabuletas de argila, que narra suas aventuras. Vamos elencar apenas cinco poemas, que foram copilados separadamente e que mais tarde foram agrupados num único texto, são eles:
QUADRO 4 – OS TEXTOS ISOLADOS SOBRE AS AVENTURAS DE GILGAMESH:

Jacyntho Brandão (2015) da UFMG sugere em um de seus artigos publicados pela revista da UNI-BH, que Sîn-lēqi-unninni teria sido, o autor da versão babilônica mais bem preservada, completa e conhecida do Épico de Gilgamesh, escrito entre 1300-1000 a. C (a qual foi o tradutor)[5]. Mas nossa análise é centrada na versão inglesa de Nancy Sandars. É importante frisar que o Épico em si teria sido escrito originalmente, no 3º milênio a. C, no apogeu de Uruk, que era o centro nervoso da Suméria. Foi ali que se desenvolveu: a urbanização, o comércio, a escrita cuneiforme, a religião com templos (Eana) e composta por um clero.
1.3 AS FACES DE GILGAMESH
1.3.1 SUA PATERNIDADE
A paternidade de Gilgamesh, é um problema, pois muitos tabletes de argila encontrados estão incompletos ou difíceis de traduzir. A versão de Sîn-lēqi-unninni não cita, especificamente, como se deu seu nascimento, mas, há outros textos mais antigos, que abordam esse assunto. Segundo a Dra. Alhena Gadotti (2014) da Universidade de Towson sugere que os manuscritos mais antigos do Épico, informam que o pai de Gilgamesh era desconhecido, mas, textos recentes como, neoassírios (934-605 a. C), menciona Lugalbanda como seu pai legítimo. O nome significa: “rei jovem/feroz”. Ele era pastor (líder) e tornou-se rei de Uruk, sua origem e sua vida são incertas. Sabemos que ele é citado no Épico e na Lista dos Reis da Suméria que governado a cidade por 1.200 anos[6]. Já a mãe de Gilgamesh era a deusa Ninsuna, ligada à vida rural/pastoril. Ela exercia uma espécie de culto ao deus-sol: Shamash. Seu nome significa: “Senhora das Vacas Selvagens”, que tinha a habilidade de interpretar os sonhos (Anônimo, 2019). Na lenda, seus pais eram seres divinos e terrenos, simbolizando: o céu morada dos deuses imortais, com a terra morada dos seres mortais. Gilgamesh também é citado na Lista dos Reis da Suméria, como o 5º rei de Uruk que reinou por 126 anos (Budge, 2004). É importante dizer duas coisas:
QUADRO 5 – A IMPORTÂNCIA DO CONTEXTO HISTÓRICO NA CRIAÇÃO DO HERÓI

Na antiguidade, quando o ser torna-se mito, fica muito difícil separar aquilo que é lendário, daquilo que é histórico – e assim, muitos heróis têm sua paternidade ligada a alguém mortal e um ser divino. E isso era comum na literatura da antiguidade, acontecia o tempo todo com personalidades, como: Jesus, Hércules, Perseu e Apolônio de Tiana, que foi citado pelo Dr. Bart Ehrman (2014), alegando que seu nascimento se deu de forma milagrosa e que realizou prodígios, considerado a encarnação, do deus grego, Proteu. No mito Asteca, a deusa, Coatlicue, vivia no templo localizado no Monte da Serpente, em Coatepec, no México. Seu nome significa: “saia de cobra” (em referência a sua vestimenta). Certo dia em seus afazeres no templo, ela engravidou de um ser divino, em forma de pássaro. Sua gravidez milagrosa se deu sem a presença masculina, dando a luz mais tarde, ao deus, Huitzilopochtli[7]. Na mitologia grega, Zeus em forma de cisne engravidou Leda, rainha de Esparta (Bulfinch, 2001). De acordo com Campbell, temos a união entre o céu (pássaro) representando a liberdade e a independência e a terra (serpente) (Campbell, 2000). Conclui-se que os mitos serviam para legitimizar uma mensagem. Ninguém iria prestar atenção, numa divindade que teve um nascimento corriqueiro e que levava uma vida normal.
Acredite quem quiser, mas alguns estudiosos defenderam a ideia de que os heróis tenham sido indivíduos destacados em suas sociedades e que a imaginação coletiva acabou por dotá-los de poderes extra-humanos (Feijó, 1984, p 17).
Os povos mesopotâmicos viam Gilgamesh e sua família como sendo seres divinizados, que mereciam ser cultuados, pois eram a ligação entre o céu e a terra e por isso, muitos reis desejavam à força, serem seus descendentes. Sabemos disso, porque há registros em louvor ao rei Ur-Nammu e seu filho, Shulgi, da 3ª Dinastia de Ur (2112-2003 a. C), que ambos consideravam-se descendentes de Lugalbanda e Ninsuna, ou seja, se diziam irmãos de Gilgamesh[8]. Ora… Shulgi foi “declarado deus em vida, como foram reis posteriores” (Kriwacezk, 2018, p 194). Esse culto à personalidade visava realizar uma propaganda, com o objetivo de impor autoridade aos povos vizinhos e evitar rebeliões internas. Para Feijó (1984) a elite que exerceu o poder: econômico, político, ideológico, para incidir no processo da criação do herói.
1.3.2 SUAS VISÕES
Então como já foi mencionado, o “Épico de Gilgamesh” é um conjunto de cinco textos que foram descobertos, em: Ur, Sippar e Nínive, em épocas diferentes, e que teve uma versão mais completa escrita no século XIII a. C por Sîn-lēqi-unninni (um exorcista e escriba), que deu o título para sua obra de: “ša nagba īmuru”, sendo transliterado significando: “Aquele que viu o abismo” (ou o fundamento da Terra). Na versão inglesa, Gilgamesh teria visto: “coisas estranhas”, ou que era: “aquele que viu as profundezas” ou que “viu coisas misteriosas” ou “conheceu segredos” e que “percorreu nações” e “exauriu em trabalhos” (Nancy Katharine Sandars – Anônimo, 2019, p 95). Estas citações acima são recorrentes e aparecem no início do texto servindo para dar suporte aos eventos que seriam apresentados ao longo da obra (veja o Quadro 3).
Observando o título da obra de Sîn-lēqi-unninni era: “Aquele que viu o abismo”. Nota-se alguma semelhança, com o trecho bíblico, que diz: “no princípio criou Deus o céu e a terra. E a terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo” (Gn 1:2 ACF). Comparando as duas citações, vemos que “Deus” (El) e Gilgamesh estavam próximos do abismo ou que viu além do abismo (algo impossível para um mortal).
No tocante a datação dos dois textos, podemos nos assegurar que a narrativa do Gênesis é recente, datada em 800-600 a. C, enquanto, o Épico teria sido escrito originalmente, no 3º milênio a. C, sendo, portanto, muito mais antigo. É possível que os escritores do Gênesis, tiveram influência destes textos mitológicos, pois eram muito mais antigos e isso ajuda a explicar suas semelhanças.
1.3.3 APARECIMENTO DE ENKIDU
Gilgamesh foi estudado pelo Dr. Emanuel Bouzon sugerindo que ele teria sido um grande rei mitológico. No Épico o descreve como um semideus tendo ²/³ divino e ¹/³ humano, daí nota-se que não se tratava de uma pessoa qualquer.
O herói desta epopeia é Gilgames, um lendário rei sumério da primeira dinastia de Uruk, que teria vivido no período proto-dinástico II (2750-2600 a. C). Na lista de reis suméria, como quinto rei da primeira dinastia de Uruk, depois de Lugalbanda (Bouzon, 1996-1997, p 33).
Quando os deuses criaram Gilgamesh, deram-lhe um corpo perfeito. Shamash, o glorioso sol, dotou-o de grande beleza; Adad, o rei da tempestade, deu-lhe coragem. Os grandes deuses tornaram sua beleza perfeita, superior à todos os outros seres, terrível como um enorme touro selvagem. (Anônimo, 2019, p 95).
No Épico, Gilgamesh construiu a grande muralha de Uruk e o Eana (templo consagrado ao deus An e a deusa Ishtar). Estas maravilhas não poderiam ser realizadas por meros humanos. Assim, Gilgamesh não tinha rival, sabendo disso, caiu em “excessos”. Mantinha relações sexuais com homens e mulheres. Do ponto de vista da população de Uruk, ele deixou de ser um guia (pastor), para seu povo, como teria sido seu pai, Lugalbanda. Dr. Jacynto Brandão (2015) comenta que Gilgamesh se entregava a prazeres sexuais e cobrava a Jus Primae Noctis prática medieval, em que o senhor feudal, tinha o direito de dormir com a noiva de seu servo, na primeira noite de núpcias.
Não há pai a quem tenha sobrado um filho, pois Gilgamesh os leva todos, até mesmo as crianças; e, no entanto, um rei deveria ser um pastor para seu povo. Sua luxuria não poupa um só virgem para seu amado; nem a filha do guerreiro nem a mulher do nobre; no entanto, é este o pastor da cidade, sábio, belo e resoluto (Anônimo, 2019, p 97).
Diante de tantos desmandos, o povo orou aos deuses para que tudo isso cessasse. O lamento foi ouvido pelo deus An, deus do firmamento, que pediu a deusa criadora, Aruru, que criasse “um igual” – que fosse parecido com Gilgamesh. Para que os dois se enfrentassem ou que se matassem, com o objetivo de deixar a cidade em paz: “Tu, Arúru, fizeste a raça humana! Agora faze o que se disse: Que um coração tempestuoso se lhe oponha, Rivalizem entre si e Úruk fique em paz!” (Brandão, 2015, p 109-110). Tal como Adão bíblico, criado por “Deus” (El), a deusa criou um ser do barro, ou da lama, ou do pó da Terra, simbolizando a origem do ser humano e de Enkidu.
Aruru, a deusa, então concebeu em sua mente uma imagem cuja essência era a mesma de Anu, o deus do firmamento. Ela mergulhou as mãos na água e tomou um pedaço de barro; ela o deixou cair na selva, e assim foi criado o nobre Enkidu (McCall, 1994. p. 39).
Neste caso, Enkidu é a imagem e essência, dos deuses mesopotâmicos, sendo, portanto, similar à criação de Adão, que era imagem e semelhança de “Deus” (El) – Gn 1:26 – ACF. Enkidu aqui simbolizando a vida selvagem, comia grama, junto aos animais e rondava os poços d’água. Daí o significado de seu nome, que seria: Senhor (En) do bom (du) lugar/terra (ki), sendo traduzido: o Senhor da boa Terra. O texto prossegue se referindo à Enkidu tendo as virtudes dos deuses: Ninurta deus da guerra e Nisaba, a deusa dos grãos. E ele “era inocente a respeito do homem e nada conhecia do cultivo da terra” (Anônimo, 2019, p 98), sendo parecido com Adão, devido:
QUADRO 6 – SEMELHANÇAS ENTRE ADÃO E ENKIDU

1.3.4 – INIMIGOS E AMIGOS
O texto segue dizendo, que num certo dia, um caçador teve o contato visual com Enkidu, e ficou muito aterrorizado, por ser muito diferente dos homens. E voltou para casa e falou com seu pai sobre o que teria visto. E a sugestão proposta pelo pai do caçador era consultar Gilgamesh, que a meu ver desde o início, desdenhou-se desse problema ou ignorou-o. Mas foi avisado da chegada de Enkidu a Uruk. Ele teve dois sonhos que foram profetizados por sua mãe, Ninsuna.
Seja como for, Gilgamesh disse ao caçador para levar uma rameira, filha do prazer chamada, Shamhat para ser levada ao poço d’água e uma vez ali, ela deveria ficar desnuda, para que então os dois ficassem juntos, para que assim: “os animais da selva certamente passarão a repudiá-lo” (Anônimo, 2019, p 100). Resumindo, o caçador e a rameira ficaram por 3 dias aguardando a chegada de Enkidu e quando chegou, a moça ficou desnuda e os dois ficaram juntos por 6 dias e 6 noites. Passados os dias, Enkidu queria retornar a sua antiga rotina e percebeu que perdeu sua inocência:
Perdera sua rapidez e agilidade. E todas as criaturas da selva fugiram; Enkidu perdera sua força, pois agora tinha o conhecimento dentro de si, e os pensamentos do homem ocupavam seu coração (Anônimo, 2019, p 101).
Observe-se como fica claro o papel que tem o sexo para fazer com que Enkídu deixe o estado de “homem primevo”, que é como traduzo lullû amēlu[9] (Brandão, 2015, p 111).
Ao que parece, o ato sexual está relacionado com a perda da inocência. Há algumas semelhanças na Bíblia Hebraica (Gênesis) com o Épico, em que Shamhat teria dito “És sábio, Enkidu, e agora te tornas-te semelhante a um deus” (Anônimo, 2019, p 101), muito parecido com o texto bíblico, que diz: “Então disse o Senhor Deus: Eis que o homem é como um de nós, conhecendo o bem e o mal” (Gn 3: 22 – ACF).
Jacyntho Brandão (2015) citou a tese da Dra. Erica Reiner, que Shamhat ajudou Enkidu passar por duas etapas a 1ª – Humanização que ocorre pelo sexo e a 2ª Civilização que ocorre graças Shamhat, que ensina Enkidu como se portar, a forma correta de comer pão, beber leite, vinho e cerveja (consumidas sete vezes). Escovar os cabelos e vestir roupas humanas.
O texto segue dizendo que Enkidu caçava leões para proteger os pastores (similar às estórias de Hércules e o leão de Nemeia e de Sansão – Juízes 14: 6 – Bíblia Hebraica: ACF). Ele se sentia útil ajudando os pastores. Parece que no mito, Enkidu simbolizava a liderança, um exemplo de pastor e líder, expulsando o mal (os leões representados pelo descontrole da natureza). Enkidu pediu à rameira, que o levasse até Uruk e ali desafiasse Gilgamesh para “mudar a velha ordem”. Esse era o objetivo dos deuses, que houvesse um embate entre os dois, para que assim, a cidade ficasse em paz. O que motivo sua ida até Uruk foi o fato de ter encontrado com um homem, um trabalhador e escutou seu lamento.
“Senhor aonde vai nesta fatigante jornada?” O homem respondeu, falando a Enkidu: “Gilgamesh foi para o templo do casamento e não deixa que o povo lá entre. Ele faz coisas estranhas em Uruk, a cidade das grandes ruas. Ao rufar dos tambores, os homens e as mulheres começam a trabalhar. Gilgamesh o rei está prestes a celebrar as núpcias com a rainha do amor, e ele ainda insiste em estar primeiro com a noiva; primeiro o rei, depois o marido, pois ainda ordenaram os deuses desde a época de seu nascimento, quando lhe foi cortado o cordão umbilical” (Anônimo, 2019, p 105).
Ouvindo este depoimento e a prática da: Jus Primae noctis, já comentada por Brandão (2015), Enkidu partiu para Uruk com objetivo de enfrentar Gilgamesh e “mudar a velha ordem” – os dois lutam como dois touros e no fim, Gilgamesh derruba Enkidu, e ao que parece os dois tornaram-se amigos, algo que os deuses não previram. Tornaram-se amigos porque “agora Gilgamesh encontrou um rival a sua altura” segundo as palavras de Enkidu. E Uruk estava em paz (por enquanto).
1.3.5 OS AVENTUREIROS
O texto segue dizendo, que os dois amigos unem-se com o objetivo de lutar contra Humbaba, o guardião da floresta de cedros (Líbano), similar ao ogro. Desde o momento, que Enkidu ficou com Shamhat, ele perdera sua força: “sinto-me fraco, meus braços perderam sua força e o grito de dor está preso em minha garganta e o ócio me oprime” (Anônimo, 2019, p 108). Isso seria o sinal do processo de envelhecimento. E sua angústia foi sentida por Gilgamesh, mas mesmo assim, tentou animar o amigo, em derrotar Humbaba, que possuía sete qualidades: rugido forte, boca grande, hálito de fogo, mandíbulas fortes, excelente audição, corpo de aríete e jamais dorme. Segundo o mito, a floresta possuía 10 léguas para todos os lados e o próprio, deus Enlil, designou Humbaba como guardião. Antes da partida, os dois amigos fizeram um ritual e ofereceu sacrifícios, ao deus-sol Shamash. Segundo Campbell, antes dos caçadores, independentemente de ser bosquímanos da África ou nativos americanos saírem para a caça, eles realizavam cerimônias e ritos, para que os deuses abençoe a empreitada. Desta forma, “a caçada é um ritual” (Campbell, 2000, p 76-77). O que me parece é que Gilgamesh e Enkidu desejavam uma aprovação de seus deuses, para realizar sua caça. É claro, que eles saem vitoriosos, pois Shamash teria dito: “avante não temas”, Humbaba foi morto para raiva de Enlil, que amaldiçoou essa aventura.
Com a vitória sob Humbaba, os dois amigos retornaram a Uruk, despertando o desejo sexual da deusa, Ishtar, que queria Gilgamesh como seu consorte, ela havia dito: “reis, tiranos e príncipes se curvarão a tua presença e pagarão tributos das montanhas e das planícies” (Anônimo, 2019, p 127), caso Gilgamesh aceitasse ser seu amante. Mas, com certa prudência o herói recusou a investida. Analisando a frase acima, se assemelha com a oferta de Satanás a Jesus, quando foi tentado no deserto.
E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o diabo: Dar-te-ei a ti todo este poder e a sua glória; porque a mim me foi entregue, e dou-o a quem quero. Portanto, se tu me adorares tudo será teu (ACF, 1995 Lucas 4:5-7).
Gilgamesh recusou a oferta da deusa. Ishtar ficou furiosa. Ela desejava destruí-lo. E mentiu para seu pai, An, dizendo que Gilgamesh teria a insultado. A deusa desejava enviar o Touro do Céu para que pudesse lutar e matar Gilgamesh. Caso, Anu se recusasse a entregar o touro, ela iria:
Destruir os portões do inferno e despedaçarei seus ferrolhos; haverá confusão entre os seres que estão nas camadas superiores e os estão nas profundezas da terra. Trarei os mortos para cima, para que se alimentem como os vivos e a hoste dos mortos será mais numerosa que as dos vivos (Anônimo, 2019, p 130).
Por fim, o Touro Celeste foi enviado para matar Gilgamesh e Enkidu e os dois conseguem matar o bicho, e realizou-se um rito de agradecimento (retirando o coração para oferecer ao deus, Shamash). Vemos aqui, o ritual de caça, que acontece para pacificar e agradecer o animal (Campbell, 2000). Em muitas culturas, o Touro é um animal que simboliza força, masculinidade e resistência. Voltando ao Épico, Enkidu se excede. É dito que ele arrancou a coxa direita do touro e jogou contra a deusa (que se sentiu humilhada, em público). Ishtar convocou as moças do Eana (templo) para orarem e fazerem um velório do Touro, representado pela coxa direita. Segundo Brandão (2015, p 115), o texto a seguir se perdeu e não se sabe o que teria ocorrido, supõe-se que deveria se tratar da morte de Enkidu. Ishtar que foi desprezada publicamente desejava por retaliação. Nos dias seguintes, Enkidu viu por meio de um sonho, o seu fim: “Anu, Enlil, Ea e o glorioso Shamash se reuniram em um conselho para decidir sobre a vida dos dois amigos” (Anônimo, 2019, p 132). Na antiguidade, o canal de entre os deuses e os homens, se dava por meio de sonhos, sendo muito comum entre as sociedades do Oriente Antigo.
Os sonhos apresentam-se com inúmeras funções para os humanos ao longo da história: forma de conhecimento, meio de previsão do futuro, veículo de comunicação com os deuses, espaço de teofania, campo de simbolização e analogia, via de acesso para o inconsciente, etc. (MENESES, 2000). Na antiguidade clássica os sonhos eram vistos como manifestações de seres sobre-humanos, como deuses ou demônios, que tinham por finalidade prever o futuro (Carnin, Carvalho e Oliveira, 2014, p 176).
A morte de Humbaba. A morte do Touro Celestial e a humilhação sofrida por Ishtar denotava era uma ofensa grave e uma afronta aos deuses. Vemos que os dois personagens desafiavam a ordem cósmica. Assim, deveria haver uma compensação pelos danos causados aos deuses. Com isso, os deuses deveriam se reunir, em conselho para decidir o que fazer com: Gilgamesh e Enkidu. Então é necessário dizer três coisas, sobre as divindades mesopotâmicas: 1º – os deuses tinham características humanas, podendo ser: mentirosos, irados, ciumentos, e eram imortais; 2º legitimação referente à lei do talião – qualquer dano causado pelo réu deveria ser compensado pela vítima (a base das leis mesopotâmicas, como: o Código de Hamurabi); 3º no mito, os deuses se reúnem em conselho para tomar decisão conjunta. Foi decidido que Enkidu deveria morrer, sendo tomado por uma doença e 12 dias depois, faleceu.
FIGURA 1 – Representação artística do Épico de Gilgamesh à 1ª imagem à esquerda, o Mito de Adapa ao centro e a 3ª imagem à direita o Enuma Elish encontrado na Biblioteca real de Nínive, de Assurbanipal

1.3.5.1 NUMEROLOGIA DO ÉPICO
Ao longo do texto, há uma repetição de vários números. Mas vamos ater apenas ao número sete, que aparece com frequência. Quando Enkidu comeu pão, bebeu leite e vinho sete vezes (Anônimo, 2019). Quando Gilgamesh e Enkidu atravessarem as sete montanhas (Bouzon, 1996-1997), para chegar até a Floresta de Cedros, na morada do guardião, Humbaba que tinha sete características (dadas por Enlil, que após sua morte, as devolveu a natureza). Gilgamesh e Enkidu na luta contra Humbaba, este lançou seu brilho sete vezes. No que se refere ao evento do Touro Celestial, o deus, Anu advertiu Isthar, se caso o Touro fosse a Uruk “haveria sete anos de seca”. E o luto de Gilgamesh pela morte de seu amigo, durou sete dias e sete noites. E na parte final do Épico, quando Gilgamesh consegue encontrar Utanapistin, dormiu por sete dias.
Em outras mitologias mesopotâmicas, como: A Descida de Ishtar, ao Mundo dos Mortos, a deusa teve de atravessar sete portais até chegar ao Palácio de Ganzer no Kurnugu, a morada dos mortos, governado por sua irmã Ereshkigal (Brandão, 2019). Em outro mito mesopotâmico, Adapa, um dos sete sábios e sacerdote de Ea, estava em seu barco, pescando até que o Vento Sul passou e virou seu barco, jogando-o nas águas do rio Eufrates. Assim, amaldiçoou o Vento Sul e por sete dias o vento deixou de soprar na região (McCall, 1994). Segundo o Enuma Elish o mito da Criação Mesopotâmica, o mundo foi criado por sete etapas, não em dias, mais sim, estágios.
A explicação mais lógica que podemos dizer sobre a simbologia do número sete, foi estabelecida pelos sumérios, que observaram o céu e estudaram os movimentos dos astros e a partir disso criaram um calendário baseando-se em ciclos repetitivos lunares, divididos nas quatro fases: Nova, Crescente, Minguante e Cheia. Cada fase tem a duração de uma semana ou sete dias. Por conta disso, originou-se a sacralidade, pois ao final de cada semana era considerado dia sagrado, sugerido por Fábio Sabino (Sabino, DVD, s/d). E o final da última fase lunar, coincide com o término do mês. É por isso, que os meses mesopotâmicos, não têm menos de 28 dias. O ano sumério foi dividido em 12 meses de 30 dias, num total de 354 dias, ao invés de 365 dias. Concluímos então, que todo simbolismo do número sete esteja relacionado às fases lunares, que mais tarde os hebreus absorveram esse costume devido ao contato com os babilônicos no evento do “Cativeiro da Babilônia”.
1.3.5.2 O LUTO E A BUSCA DA IMORTALIDADE
A morte de Enkidu, fez com que Gilgamesh ficasse de luto por sete dias e sete noites. E seu cadáver estava se decompondo, assim Gilgamesh disse: “quero gritar para que todos ouçam! O amigo que me era tão caro tornou-se pó; Enkidu, o meu amigo, tornou-se como argila” (Mella, s/d, p. 61), isso é referência à criação/decomposição do homem, citada na Bíblia: “porquanto és pó e em pó te tornarás” (Gn 2: 19).
Os povos da Mesopotâmia acreditavam, que quando uma pessoa morria, iria para o local chamado de: Kurnugu ou Irkalla. De acordo com o texto: Descida de Isthar ao mundo inferior (Kurnugu: A Terra sem Retorno – Ana Kurnugê Qaqqari la Târi), traduzido para o português, por Jacyntho Brandão faz a descrição deste lugar:
A casa trevosa, sede do Irkalla. A Casa onde Ingressa não sai. A trilha aonde quem vai não volta. A casa onde quem ingressa é privado de luz, em que seu sustento é o pó, seu manjar é o barro. Luz não podem ver, na escuridão habitam (Brandão, 2019, p 27).
Já no Mito, Enkidu comenta com Gilgamesh, sobre a geografia do Kurnugu, que é um local diferente do mundo dos vivos: “a casa dos moradores privados de luz, em que o pó é seu sustento e barro seu manjar” (Anônimo, 2019, p 136). Este trecho também aparece na Bíblia Hebraica, no Livro de Jó, sugerindo que o mundo dos mortos é escuro similar aos textos mais antigos, vindos da Mesopotâmia:
Antes que eu vá para o lugar do qual não há retorno, para a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é escuridão (ACF, 1995 – Jó 10:21-22).
A citação acima sugere que teria havido trocas culturais entre os povos semitas, da Mesopotâmia com a região de Canaã. Tantos mesopotâmicos, como os hebreus tinha a noção de que o mundo dos mortos era terrível, tanto que no Épico, Gilgamesh lembrou que um mortal, que se tornou imortal, seu nome: Utanapistin, o Longínquo (em referência a idade e o local que vivia). E partiu em busca da imortalidade (mais uma vez, Gilgamesh estava desafiando a ordem divina).
Gilgamesh durante o percurso, não dormia e nem descansava, estando focado na missão de ir até Utanapistin. Vagou pelo mundo, atravessou a Grande Montanha (Mashu) guardada por: homens-escorpião – que indicaram uma passagem por dentro da montanha, uma caverna de 12 léguas de distância até chegar ao Jardim dos Deuses, guardado por Siduri-Sabitu, e lá encontrou o deus-sol, Shamash. Para falar a verdade, o autor do Épico, mostra sua devoção a este deus, estando presente desde o nascimento. Na aventura da Floresta de Cedros. A ele foi oferecido o coração do Touro Celestial. Com a morte de Enkidu, Gilgamesh encomendou uma estátua e ofereceu ao deus-sol. Na assembleia dos deuses, que resolveu o destino de Enkidu, Shamash foi chamado de “glorioso”, e finalmente, é visto por Gilgamesh no Jardim dos deuses. No texto, Gilgamesh encontrou diversos personagens que falavam elementos comuns, como: cansaço, abatimento, e realizar tão longa jornada, que demonstra sua humanidade, deixando de ser alguém de status semidivino, para uma pessoa comum, veja o quadro 7:
QUADRO 7 – AS FALAS REPETITIVAS

No tocante a busca da imortalidade, o texto cita a existência de um barqueiro, chamado Ur-Shanabi que fazia a travessia pelo Grande Oceano, até onde morava Utanapistin, o Longínquo. Gilgamesh conseguiu convencer o barqueiro, para levá-lo até seu destino, e quando o herói o encontra e pede a ele, a imortalidade. Aqui ocorre, uma última tarefa. Para ter a imortalidade, Gilgamesh deveria ficar acordado por seis dias e sete noites (Anônimo, 2019), mas ele não aguentou e dormiu. Com o objetivo de provar que Gilgamesh havia dormido por esse tempo, Utanapistin pediu a sua esposa, para assar um pão para cada dia de sono. E Gilgamesh falha e não obtém a imortalidade. Porém, a esposa de Utanapistin, ficou com muita pena do herói sugerindo que:
Existia uma “planta/fruto” que era responsável pela “eterna juventude”. Mas, essa “planta/fruto” estava no fundo do mar (MELLA, s/d, p. 64). Então, Gilgamesh amarrou duas pedras em seus pés e se jogou no mar profundo e conseguiu pegar a tal “planta/fruto” (Farah, 2023, p 58).
Com esta planta/fruto Gilgamesh poderia ser “Shibu issahir amelu” que significa: “o velho homem torna-se jovem [novamente]” (Budge, 2004, p 84). Mas, a jornada de Gilgamesh de obter a imortalidade ia de encontro com as normas divinas, que negava a humanidade a eternidade. No livro: “O Poder do Mito” Campbell alegava que a imortalidade é tediosa e monótona, pois negaria a dualidade da existência: bom-mal, verdadeiro-falso, homem-mulher, sim-não, eu-ele e assim por diante (Campbell, 2000). Sabendo disso, o próprio Utanapistin não queria que Gilgamesh se tornasse imortal, dizendo para sua esposa que “todos os homens são impostores” (Anônimo, 2019, p 165), isso se assemelha com a ideia da Queda do Jardim do Éden. No que diz respeito à Gilgamesh em obter a planta/fruto, foi por um breve período de tempo. No retorno para sua cidade, Uruk, o herói resolveu banhar-se numa lagoa próxima e uma serpente fagueira a planta/fruto e a come. Assim, Gilgamesh perde a planta/fruto e chora e se lamenta. Campbell (2000) sugere que:
O poder da vida leva a serpente a se desfazer de sua pele, exatamente como a lua se desfaz da própria sombra. A serpente se desfaz da pele para renascer, assim, como a lua se desfaz da sombra para renascer (Campbell, 2000, p 47).
O texto finaliza dizendo, que: “o destino decretado por Enlil da Montanha, o pai dos deuses foi cumprido”, ou seja, não haveria nenhuma chance de Gilgamesh conseguir aquilo que desejava. Mas, pela lei da compensação, foi lhe dado o trono para reinar, entre os homens.
2. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao analisar os textos a respeito de Gilgamesh, nos deparamos com diversos elementos comuns entre o Gênesis, o próprio Épico e mitos relacionados ao herói. Por mais que nossa pesquisa fosse bibliográfica, tal análise foi notada, visto no Quadro 8:
QUADRO 8 – ELEMENTOS COMUNS VISTO NO GÊNESIS E NOS MITOS MESOPOTÂMICOS:

Nosso objetivo com esta pesquisa seria de demonstrar que havia influência de ideias, entre a região de Canaã e a Mesopotâmia, que de algum modo influenciou os autores do Gênesis em descrever suas estórias mitológicas, daí vemos uma estrutura textual similar, no que tange o mundo dos mortos, a existência de frutos e jardins dos deuses. Acredito que fomos felizes em descrever a abordagem do Monomito inserido no Épico de Gilgamesh, que foi escrito por volta do 3º milênio a. C, sendo, portanto, o texto mais antigo, que qualquer relato bíblico.
Podemos concluir que as análises sobre o Épico obedeceu as premissas da Jornada do Herói proposta por Campbell. Ele, o personagem que vivia em sua zona de conforto, parte para uma aventura e que depois de um tempo, retorna ao ponto de partida – retorna para sua comunidade, mas sua personalidade não é mais a mesma. O Épico alimentou gerações, servindo de propaganda para a realeza de Ur-III manter seu Status Quo, afirmando que os reis eram descendentes de Gilgamesh. O herói serve a um propósito estatal, sendo conveniente para as elites, se perpetuarem no poder. Gilgamesh conseguiu sua imortalidade, não do jeito que queria, mas sendo expressa na escrita cuneiforme, que foi traduzida para outras línguas ao redor do mundo.
REFERÊNCIAS
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APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ
- Monomito é um termo criado por Joseph Campbell sendo uma junção de duas palavras gregas: mono = um e mythós = estória folclórica.
- É um termo em latim, criado por Mircea Eliade, que significa: centro do mundo.
- https://www.mitografias.com.br/2016/07/a-arvore-huluppu/ – o Dr. Samuel Kramer, em 1938 publicou um artigo tratando deste assunto na Sociedade de Estudos Assírios, pela Universidade de Chicago.
- Jacyntho Brandão foi o tradutor do livro de Sîn-lēqi-unninni, Epopeia de Gilgamesh, Autêntica, 2017.
- A Lista foi escrita em língua suméria, entre o período acadiano (2334 a. C) e o período paleobabilônico (1750 a. C), e que enumera os reis das cidades mais importantes da Mesopotâmia.
- Documentário do History Channel: Coatlicue: Confronto dos Deuses – América Latina https://www.youtube.com/watch?v=glA0hmuxpXI&t=538s.
- Graças ao Electronic Text Corpus of Sumerian Literature (ETCSL) da Universidade de Oxford, traduziu 400 textos literários sumérios – https://etcsl.orinst.ox.ac.uk/ entre eles, “Um poema em Louvor de Šhulgi”.
- Brandão (2015) usa o termo lullu amēlu, similar ao sinônimo de awīlu que significa: homem-livre.
[1] Professor de História do Ensino Fundamental II e Ensino Médio em Nova Viçosa-BA. Pós-graduado “Latu Sensu” em Arqueologia, Cultura e Sociedade pela Faculdade Líbano. Pós-graduado “Latu Sensu” em Antropologia pela Faculdade Líbano. Pós-graduado “Latu Sensu” em História da América pela Faculdade Metropolitana. Pós-graduado “Latu Sensu” em História Antiga, Medieval e Moderna pela Faculdade Metropolitana. Pós-graduado “Latu Sensu” em Educação em História e Geografia pelo Centro Universitário Barão de Mauá. Pós-graduado “Latu Sensu” em Educação em História pela Faculdade Luso-Capixaba. Pós-graduado “Latu Sensu” em Educação em Sociologia, pela FINOM (Faculdade Noroeste de Minas). Graduação concluída, em História pela UNI-BH – Centro Universitário de Belo Horizonte. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4776-0472. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/8155506395125519.
Material recebido: 23 de setembro de 2024.
Material aprovado pelos pares: 07 de janeiro de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 16 de setembro de 2025.
