O empreendedorismo religioso na teologia da prosperidade

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ARTIGO ORIGINAL

RUFINO, Vitor de Carvalho [1]

RUFINO, Vitor de Carvalho. O empreendedorismo religioso na teologia da prosperidade. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 07, pp. 68-86. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Este artigo visa a apresentar a Teologia da Prosperidade enquanto doutrina condutora de igrejas de grande sucesso no Brasil e no mundo. Para isso, é necessário fazer uma análise histórico-analítica da Confissão Positiva e compreender as consequências de sua aplicação na prática. A proposta deste trabalho é analisar o que é pregado por essa doutrina e evidenciar a atratividade e sedução causadas pelas promessas de prosperidade apresentadas pelas denominações religiosas. Além disso, visa a explorar o crescimento acelerado de algumas igrejas que se destacam pelo acúmulo de grande quantidade de ofertas e dízimos e pelo excelente senso de administração e empreendedorismo, que fazem delas grandes potências que crescem a cada dia.

Palavras-chave: Confissão positiva, dinheiro, fé, prosperidade, saúde.

1. INTRODUÇÃO

De origem norte americana, a Teologia da Prosperidade é uma doutrina cristã seguida por milhões de adeptos em todo o mundo. Também conhecida como Confissão Positiva, seu melhor significado se relaciona a trazer à existência aquilo que se proclama verbalmente. Isso significa que a verbalização do crente funciona como que uma ordem para que as coisas se organizem afim de que haja realização dos seus desejos e necessidades.

Em um primeiro momento, será abordado sobre a origem da Teologia da Prosperidade e como ela se desenvolveu e se espalhou pelo mundo. Seu pai é Essek Willian Kenyon, que fez surgir a igreja da prosperidade através de pregações voltadas para a cura divina, para a prosperidade financeira e para o poder da fé.

Kenyon foi um pregador que, desde a adolescência, esteve presente nas igrejas. Seu pensamento foi transmitido através de seus livros, que posteriormente foram lidos por Kenneth Hagin, responsável pela disseminação da doutrina da prosperidade em meios midiáticos.

A utilização massiva de meios eletrônicos, para disseminar seu pensamento, é o grande diferencial da Teologia da Prosperidade e foi o instrumento necessário para que ela atingisse o grande público que hoje a segue.

Após a compreensão da gênese dessa teologia, será necessário abordar seus preceitos, promessas e exigências feitas por tal tipo de vivência religiosa. Sua doutrina prega que o sucesso e o fracasso só dependem da fé individual do cristão, pois o plano de Deus para todos é que sejamos prósperos em tudo. Então, alcançar tal prosperidade depende exclusivamente da fé do cristão. Os enfoques da doutrina são direcionados quase que totalmente a três aspectos específicos. São eles: Saúde, Dinheiro e Diabo. Quando o fiel não fracassa na fé, a prosperidade é permitida em sua vida em aspectos financeiros e de saúde; se acaso a fé do adepto é insuficiente, abre-se espaço para ação do diabo e os planos divinos não são alcançados, podendo recair sobre ele pobreza e/ou doenças.

Nesse sentido, pobreza e doenças só existem na vida de quem não possui fé. Citações bíblicas são amplamente utilizadas para demonstrar que a morte de Cristo na cruz foi responsável por livrar todos os humanos dos males físicos e espirituais. Sendo assim, tendo o Filho de Deus livrado a humanidade de toda patologia, as mazelas físicas surgem com consequência do fracasso na fé.

Após pregar que as doenças possuem raízes unicamente espirituais, os líderes das Igrejas da Teologia da Prosperidade conduzem os fiéis a acreditarem fielmente que qualquer doença pode ser tratada através de intervenções espirituais realizadas em seus templos ou através de objetos devocionais que podem ser adquiridos em suas lojas físicas ou virtuais.

Em um terceiro momento, será tratado sobre o crescimento dessa Teologia e sobre a sua disseminação pelo mundo. A doutrina da prosperidade se instalou em grandes instituições que crescem a cada dia. No Brasil, destacam-se aquelas que se utilizam dos canais de TV para difundir seu pensamento e converter as pessoas em todos os cantos do país.

O tema central desse artigo é tratado no quarto capítulo, em que será abordado sobre o forte marketing aplicado para que as denominações religiosas sejam mais atrativas e para que alcancem e fidelizem o maior número de pessoas. O emprego massivo de grandes produções em meios midiáticos desperta o interesse e a curiosidade das pessoas que, potencialmente, podem frequentar seus cultos e se tornar membros dizimistas fiéis. Isso faz com que as denominações religiosas que se utilizam da Teologia da Prosperidade cresçam em grandes proporções em todo o mundo.

As Igrejas da Teologia da Prosperidade se encontram em, praticamente, todas as cidades do Brasil. Suas pregações e doutrinas são extremamente atrativas, tendo em vista que a sociedade contemporânea é exageradamente voltada à busca por respostas aceleradas ou imediatas. Seus ideais abandonam o tradicionalismo cristão – que prega que o sofrimento engrandece o homem, para que seja exaltado na vida após a morte – e se volta para o sucesso terreno. Textos bíblicos isolados são utilizados para confirmar que o pedido do fiel é honrado, imediatamente, por Deus. Tal tipo de pregação faz com que as igrejas se encham cada vez mais. Consequentemente, suas ofertas e dízimos somam grandes valores que são administrados como em grandes empresas lucrativas.

Desse modo, muitas igrejas da Teologia da Prosperidade têm crescido em proporções astronômicas e seu empreendedorismo serve de exemplo para qualquer instituição. Seja qual for o ramo da empresa, seus proprietários podem observar os investimentos feitos por algumas igrejas e tomá-las como exemplo de rentabilidade. Além disso, a ousadia e o marketing utilizado pelas igrejas também servem de modelo para que as empresas apresentem seus produtos de modo mais agressivo e alcancem sucesso tal qual o de tais igrejas.

2. HISTÓRIA DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

Para iniciar este estudo, é importante compreender a gênese da Teologia da Prosperidade. A partir daí, pode ser feita uma análise criteriosa de como se desenvolve e se dissemina esse movimento religioso, que está presente em inúmeras igrejas cristãs em várias partes do mundo. O termo Teologia da Prosperidade não é comumente utilizado nas referências bibliográficas. Contudo, neste trabalho, o assunto será tratado utilizando essa nomenclatura, pois possui maior compreensão do leitor brasileiro.

A expressão mais difundida nas bibliografias é “Confissão Positiva”.

É um título alternativo da fórmula da fé ou doutrina da prosperidade […] sob a liderança e inspiração de Willian Kenyon. A expressão “confissão positiva” pode ser legitimamente interpretada de várias maneiras. O mais significativo é que a expressão “confissão positiva” se refere literalmente a trazer à existência o que declaramos verbalmente uma vez que a fé é uma confissão. (ROMEIRO, 1993, p. 6)

Para os fiéis de tais igrejas, quando o crente fala, é como se ele ordenasse às coisas para que se regulem conforme seu desejo ou necessidade. Sendo assim, está na fé do cristão todos os resultados a serem alcançados em sua vida. De acordo com Campos (1997), para a Teologia da Prosperidade, todo e qualquer sofrimento cristão ocorre por falta de fé. Ou seja, se o fiel é um grande possuidor de fé, ele tem garantia de plena realização financeira, espiritual e emocional, além de ser possuidor de saúde. Pobreza e doença são resultados visíveis do fracasso do cristão em pecado ou que não é um grande possuidor de fé (CAMPOS, 1997).

Com pregações baseadas em cura divina, prosperidade financeira e poder da fé, a Teologia da Prosperidade surge na década de 1940 nos Estados Unidos da América. Seu fundador foi Essek Willian Kenyon, mas foi amplamente divulgada e disseminada por Kenneth Hagin, pregador de grande influência, que alcançou milhares de pessoas com seus sermões.

A figura mais famosa da Teologia da Prosperidade, considerado pelos seus adeptos, é Keneth Hagin, mas algumas pesquisas cuidadosas feitas por diversos estudiosos, como D. R. Mc Connell, chegam à conclusão de que o verdadeiro pai da confissão positiva é Essek Willian Kenyon. (LIMA JUNIOR, 2015, p. 4)

É preciso entender mais a fundo a história de Kenyon e Hagin, para se compreender a gênese da Confissão Positiva ou Teologia da Prosperidade.

2.1 PIONEIROS

O pai da Teologia da Prosperidade, Essek Willian Kenyon, nasceu em 24 de abril de 1867 em Nova York, nos Estados Unidos da América. “Aos dezenove anos de idade, pregou seu primeiro sermão numa igreja Metodista. Em 1892, mudou-se para Boston, onde frequentou […] a Faculdade Emerson de Oratória” (LIMA JUNIOR, 2015, p. 4). Tal faculdade tinha como fundador Charles Emerson. Este foi de grande influência na vida do iniciador da Teologia da Prosperidade.

Após uma incessante busca por ministérios e modos de viver a sua fé, Kenyon fundou a Igreja Batista Nova Aliança, em 1931, na cidade de Seattle, no estado norte americano de Washington. A grande novidade implantada por Willian Kenyon foi a utilização de meios eletrônicos para a evangelização. Apresentou um programa de rádio na cidade de seu ministério e conseguia alcançar diversos fiéis com suas palavras.

Devido a seu alcance social, Kenyon pôde deixar vários escritos que, após sua morte, em 1948, foram publicados e fizeram com que suas ideias continuassem a alcançar aqueles que o seguiam. Dentre seus leitores, destaca-se aquele que foi o responsável por desenvolver e ampliar o seu modo ministerial de fé a tantos outros, com amplitude de alcance incomparável à do próprio Kenyon. Este foi Kenneth Hagin, visto como o massificador dos ideais de Kenyon.

Kenneth Hagin nasceu em McKinney em 20 de agosto de 1917. Portador de um problema cardíaco, ele nasceu prematuro e, desde o primeiro momento de vida, enfrentou problemas que conturbaram toda a sua infância. Além da saúde prejudicada, como conta Lima Junior (2015), Hagin foi abandonado por seu pai quando tinha seis anos de idade. Isso, unido a outras adversidades trazidas pela doença, fez com que ele tivesse sérios pensamentos suicidas.

Em 1937, devido o batismo no Espírito Santo, Hagin tornou-se ministro da Assembleia de Deus americana. Contudo depois da Segunda Guerra Mundial participou de ministério independente e participou da cicatrização do reavivalismo pentecostal, e passou a usar um estilo menos legalista, sendo praticamente forçado a sair da Assembleia de Deus. (GOUVEIA, 2012, p. 21).

Hagin fundou seu próprio ministério em 1963 e, seguindo os passos de Kenyon, iniciou um ministério na rádio. Indo além, conseguiu chegar a apresentar um programa de televisão. Devido à amplitude do alcance de Hagin, é natural que se confunda o pai da Teologia da Prosperidade, dando tais créditos a Kenneth Hagin.

O ministério de Kenneth Hagin teve alcance até antes inimaginável. O centro de treinamento Rhema, nos Estados Unidos, formou mais de 23 mil pastores. Seu programa de rádio (Faith saminar of the air) é transmitido por mais de 250 estações na América do Norte. Mais de 150 livros produzidos, tanto por Hagin, quanto por Kenneth Hagin Jr. (seu filho), com mais de 65 milhões de cópias desses livros, estão em circulação pelo globo, dentre outros (LIMA JUNIOR, 2015, p.6).

A partir da disseminação do pensamento de Kenyon, amplamente divulgado por Hagin, a Teologia da Prosperidade pôde ganhar estrutura e se implantar de modo promissor em várias partes do planeta.

3. ENFOQUES DA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

A Teologia da Prosperidade se direciona quase que totalmente a três aspectos. São eles: Saúde, Dinheiro e Diabo (SDD). Para seus adeptos, o sucesso ou fracasso só depende da fé individual do cristão. Segundo Soares (1985, p. 141), o “plano de Deus para o homem é fazê-lo feliz, abençoado, saudável e próspero em tudo”. Ou seja, quando o fiel alcança êxito, ele está, na verdade, permitindo que a vontade de Deus se realize em sua vida. Aqueles que não possuem tal triunfo podem justificar seu fracasso na falta de fé. É importante analisar mais detalhadamente cada ponto dessa tríade SDD para compreender melhor a Teologia da Prosperidade.

3.1 SAÚDE COMO RECOMPENSA DIVINA

A Bíblia, principal livro sagrado da fé cristã, traz, em seus diversos textos, mensagens que se voltam para a saúde e para a doença. Nesses versículos, a saúde é colocada como recompensa pela fé. Desse modo, a Teologia da Prosperidade consegue embasamento para dizer que a saúde é garantida àquele que crê em Deus.

O texto bíblico encontrado em Isaías, como alega Lima Junior (2015, p. 9) serve “como base para afirmar que a salvação da alma e saúde física estão totalmente garantidas na morte de Cristo na cruz”.

Em verdade, ele tomou sobre si nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos; e nós o reputávamos como um castigado, ferido por Deus e humilhado. Mas ele foi castigado por nossos crimes, e esmagado por nossas iniquidades; o castigo que nos salva pesou sobre ele; fomos curados graças a suas chagas (Is 53, 4-5).

Esse pensamento se baseia na seguinte lógica: se o próprio Cristo levou consigo as nossas doenças, sobre nenhum dos que possuem fé recairá qualquer tipo de enfermidade. Por isso, toda e qualquer deficiência física, mental ou qualquer outro padecimento sempre terá causas espirituais. Sendo assim, é também de modo místico que todas as enfermidades podem ser curadas. Isso justifica a celebração de diversos cultos que prometem cura e libertação.

Além do que se lê no livro de Isaías, em outros textos da “Sagrada Escritura” encontram-se afirmações voltadas à saúde. Em Deuteronômio 34,7, diz que “Moisés tinha cento e vinte anos no momento de sua morte: sua vista não se tinha enfraquecido, e o seu vigor não se tinha abalado”. Tal versículo vem ao encontro do modo de crer praticado pelos adeptos da Teologia da Prosperidade, pois uma longa vida saudável é promessa divina. Em Tiago 5,15, pode-se ler que “a oração da fé salvará o enfermo e o Senhor o restabelecerá. Seus pecados serão perdoados”. Nesse versículo, é possível se deduzir que as doenças, além de se ligarem à falta de fé, estão intimamente relacionadas ao pecado. Bastando, assim, um arrependimento sincero para que as doenças sejam afastadas na medida em que o fiel recebe o perdão pelos pecados.

Tal tipo de crença, se pregada sem cautela, pode ser extremamente perigosa para o adepto da Teologia da Prosperidade, pois pode haver nessas igrejas um forte abandono de cuidados médicos. Se toda enfermidade tem fundamento espiritual, leva o fiel a acreditar que não é necessário buscar cura física.

Segundo Lima Júnior (2015), um dos motivos que gera grande controvérsia e críticas à Teologia da Prosperidade é a negação dos sintomas da doença. Ela faz o enfermo rejeitar todos os recursos da medicina por acreditar que só pode haver cura pela fé. Ou seja, a medicina é ineficaz e não deve ser procurada pelos adeptos da Teologia da Prosperidade.

3.2 O DIABO COMO RESPONSÁVEL POR TODO O MAL

O combate espiritual é algo extremamente presente nas igrejas evangélicas que pregam a Teologia da Prosperidade. Acredita-se que, se todo o mal possui fundamento espiritual, é enfrentando a satanás, enquanto causador desse mal, que o fiel conseguirá êxito espiritual e bênçãos em sua vida.

O Diabo passou a ter seu lugar garantido no culto, seja no início, durante ou no final da liturgia. Geralmente, ele é apresentado como causador do fracasso, da doença, da miséria dos vícios, do adultério e das brigas entre casais. Resumindo, tudo passou a ser “culpa do diabo”. (LIMA JUNIOR, 2015, p. 11).

A imputação de culpa do mal no diabo é, ao mesmo tempo, esperançosa e consoladora. Traz consolo porque tira do fiel a culpa pelos seus próprios atos e as coloca em um ser místico. Assim, quando o sujeito comete atos ilícitos, vergonhosos criminosos ou de qualquer natureza que traga consequências negativas para a sua vida, este se sente consolado ao “entender” que o responsável por tais embaraços foi o diabo e não o próprio sujeito. Além de consolador, provoca uma sensação de esperança, pois o fiel acredita que se puder, de algum modo, vencer o diabo, nenhum malefício recairá sobre sua vida.

A batalha contra o diabo e a crença de que se pode vencê-lo são tão fortes nas igrejas da Teologia da Prosperidade que fizeram surgir várias modalidades de culto, como “cura e libertação” e “sessão de descarrego” dentre outras. Em tais celebrações, o diabo chega a ser “entrevistado” pelos pastores[2] e sempre alega que vêm trazendo malefícios financeiros, afetivos e à saúde dos fiéis. Com efeito, cabe ao pastor utilizar de autoridade para ordenar que o ser espiritual deixe aquele crente em paz, e sobre a sua vida surjam todos os benefícios, incluindo os financeiros. Estes precisam ser tratados com certa abrangência neste trabalho.

3.3 O PAPEL DO DINHEIRO NA TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

Na Teologia da Prosperidade, como o próprio nome indica, o dinheiro possui um fundamental papel para o fiel. De todas as bênçãos que o adepto almeja, as de cunho financeiro possuem grande destaque, pois apresentam resultados imediatos na vida daqueles que as possuem. Realização de sonhos materiais, viagens, condições financeiras para cuidar bem da saúde, possuir um bom carro e uma boa casa – dentre inúmeras outras vantagens – é o que a maioria das pessoas quer para a sua vida. No entanto, muitos passam longos anos sob trabalho árduo sem alcançar seu objetivo. Estes são vistos pelos líderes das igrejas que pregam a prosperidade como fracassados na fé.

Assim como para a saúde e para o diabo, os pastores utilizam versículos bíblicos que estabelecem a prosperidade como algo dado por Deus para aquele que a mereça.

Nós vemos vários versículos em Isaias e em outros livros da Bíblia, Deus dizendo que é dom dele que nós comamos, que nós bebamos, que nós tenhamos o melhor. […] Deus é pai e um pai que tem prazer. Ele tem prazer em nos dar o melhor. Então, por isso, nós somos muito enfáticos quando falamos isso para as pessoas em nossas reuniões. (ANDRADE, 2009)

Sendo a prosperidade um dom derramado com prazer, ao fiel é garantido o êxito financeiro. Isso é pregado, enfaticamente, em todas as igrejas da Teologia da Prosperidade, e é tal promessa o que tem atraído adeptos, pois, se a glória financeira é derramada pelo divino, os empreendimentos do adepto possuem garantia de sucesso, já que é Deus quem intervém e garante o resultado. Tal modo de pensar subverte as pregações do próprio Cristo, que adverte:

Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças correm, onde os ladrões furam e roubam. Ajuntais para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem ferrugem, e os ladrões não furam e roubam. (Mt 6, 19-20).

Tal afirmação de Cristo nesse versículo do Evangelho – e em muitos outros – demonstra que o “prêmio” do fiel por uma vida voltada à vontade de Deus será entregue somente na vida pós-terrena. Não obstante, esse tipo de pregação não tem poder de atração suficiente para convencer o sujeito contemporâneo – imediatista e ansioso – a seguir uma religião. Por isso, a Teologia da Prosperidade se utiliza de versículos que fazem acreditar que os benefícios divinos são rápidos e garantem sucesso imediato. Isso atrai pessoas em todo o mundo.

4. O EMPREENDEDORISMO RELIGIOSO

Empreendedorismo, segundo a definição do dicionário Houaiss (2010, p. 289), é a “disposição ou capacidade de idealizar, coordenar e realizar projetos, serviços e negócios […]”. Tal termo pode ser utilizado para qualquer projeto realizado, mas é mais usualmente voltado para negócios lucrativos e empresas.

Uma boa administração empresarial é aquela que emprega recursos, logística e divulgação para atrair clientes, vender o seu produto/serviço e alcançar o lucro. Caso a empresa não consiga apresentar produtos atrativos suficientemente para seus consumidores, ela não gera receita e, automaticamente, fracassa.

No âmbito religioso, as igrejas podem ser comparadas a esses empreendimentos. As pregações, aconselhamento e diversos serviços são comparáveis aos produtos oferecidos por uma corporação e o fiel é equiparado ao cliente dessa organização. O pagamento em troca de produto, respeitadas as proporções comparativas, pode ser assemelhado ao dízimo e às ofertas dadas pelos adeptos. Quando a igreja recebe grandes quantias de dinheiro, ela gera lucros, que podem ser utilizados do modo que melhor convir aos seus representantes.

Para que gere lucro, a denominação religiosa precisa atrair adeptos, caso contrário, ela não consegue se sustentar e, como qualquer empreendimento, falha. Por isso, é importante que os líderes sejam carismáticos, receptivos e, principalmente, possuam mensagens atrativas. Dentre todos os métodos de pregações, destaca-se a Teologia da Prosperidade.

4.1 TEOLOGIA DA PROSPERIDADE COMO MODO DE CONQUISTAR FIÉIS

A globalização e o avanço das tecnologias têm trazido uma grande quantidade de informações em velocidade jamais conhecida na história do mundo. No mesmo nível de aceleração, está a necessidade de realização dos desejos, que muitas vezes podem ser conquistados com um clicar de mouse ou coisa parecida. Tal modo de viver da sociedade atual faz com que ela seja chamada por muitos de “sociedade imediatista”.

No âmbito da fé, a situação é parecida. As pessoas buscam a religião para realizar seus desejos e vontades. Elas esperam que a celebração seja voltada para uma eficaz e rápida solução de problemas; qualquer coisa diferente disso é vista como monótona e ineficaz. Por isso, pregações com promessas de soluções rápidas atraem adeptos em grande número para as igrejas da Teologia da Prosperidade. Isso faz das denominações religiosas negócios muito lucrativos. Tal situação se potencializa quando se leva em consideração a ignorância e o desinteresse das pessoas em pesquisar a fundo sobre o que lhes é pregado. Ou seja, tudo o que o pastor diz é visto como verdade única e absoluta, fazendo com que os fiéis sejam facilmente manipulados por aqueles que possuem o poder de persuasão.

Para atrair adeptos, as igrejas veiculam anúncios que, de modo extremamente agressivo, voltam-se ao sofrimento do povo. Os anúncios abaixo servem de exemplo para melhor compreensão:

Desemprego, caminhos fechados, dificuldades financeiras, depressão, vontade de se suicidar, solidão, casamento destruído, desunião na família, vicio (cocaína, crack, álcool, etc.), doenças incuráveis (câncer, AIDS, etc.), dores constantes (de cabeça, coluna, pernas), insônia, desejos homossexuais, perturbações espirituais (você vê vultos, ouve vozes, tem pesadelos, foi vítima de bruxaria, macumba, inveja ou olho grande), má sorte no amor, desânimo total, obesidade, etc. Sim, nós temos a solução para você! (ULTIMATO apud ALVES, 2013, p. 4).

Na Igreja […] não perca a sexta-feira da libertação de todos os males. Venha e veja com os seus olhos o que Deus faz. Você, desenganado pela medicina, doente, enfermo, que sofre com dor de cabeça crônica, dores no corpo. Você que é cego, surdo, desempregado, endividado. Receba a vitória, receba a prosperidade, receba a restauração na sua família. O pastor […] estará 24 horas de jejum pela sua vida. (STUDIOS UNIVERSAL, 2016).

Tal publicidade mostra, nitidamente, que os suplícios do povo são explorados para encher as igrejas, onde, estrategicamente, são apresentadas promessas de cura, libertação e de melhora financeira. Textos bíblicos isolados (alguns deles já foram apresentados neste artigo) são utilizados para mostrar ao fiel que basta frequentar e contribuir com a igreja para que experimentem grandes mudanças. Isso além de atrair adeptos imediatistas para os cultos, faz com eles se fidelizem em tais denominações religiosas.

4.2 IGREJAS BRASILEIRAS DE DESTAQUE EM TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

Para se compreender as igrejas brasileiras que utilizam da Teologia da Prosperidade em seus cultos, é necessário estudar o surgimento do neopentecostalismo no Brasil. Ele se deriva do pentecostalismo que, segundo definição do dicionário, é um “movimento religioso desenvolvido fora do protestantismo tradicional, que teve início em princípios do séc. XX nos E.U.A. e que valoriza a união com o Espírito Santo” (HOUAISS, 2010, p. 590).

O termo pentecostes se origina na festa judaica que ocorria cinquenta dias após a páscoa. Nessa comemoração era celebrado o recebimento da Torá, livro sagrado que, para os judeus, é a revelação divina dada a Moisés no Monte Sinai. Quando se trata de cristianismo, o termo pentecostes assume um novo significado devido ao que é narrado no livro de Atos dos Apóstolos.

Quando chegou o dia de Pentecostes, todos eles estavam reunidos no mesmo lugar. De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito lhes concedia que falassem. (At 2, 1-4).

Tal narração bíblica faz com que os cristãos celebrem o Pentecostes como o derramamento do Espírito Santo sobre a terra. Sendo assim, as igrejas que se denominam pentecostais tendem a direcionar os seus cultos a clamores pela efusão contínua do mesmo Espírito.

A primeira onda do pentecostalismo é marcada pelo surgimento da Congregação Cristã no Brasil, no ano de 1910, na cidade de São Paulo; bem como pela Assembleia de Deus, em 1911, em Belém/PA. Esse primeiro momento do pentecostalismo pode ser caracterizado por uma ruptura com as formas históricas do protestantismo. (PAIVA, 2017, p. 2).

O pentecostalismo rompe com o protestantismo tradicional porque orienta as pregações para um cunho muito mais sentimentalista e emotivo do que as igrejas tradicionais. Além disso, os fiéis participantes acreditam possuir Glossolalia, que, segundo Telles (2013), é a suposta capacidade de falar em línguas desconhecidas quando em transe religioso (como no milagre do dia de pentecostes). Tal fato provocou muito preconceito nos religiosos tradicionais.

Em um segundo momento, que engloba os anos 50 e 60, as igrejas pentecostais iniciaram todo um movimento que, segundo Paiva (2017), se utilizavam de super eventos com grandes produções para atrair os fiéis e pregar cura divina. As responsáveis por tal movimento foram a Igreja Quadrangular, a Brasil para Cristo e a Deus é Amor.

Somente nos anos 70 é que surge o neopentecostalismo, como que o terceiro grande momento dos movimentos pentecostais.

A terceira onda começa na segunda metade dos anos 70, cresce e se fortalece no decorrer das décadas de 80 e 90. A igreja de: Nova Vida, fundada em 1960, no Rio de Janeiro, pelo missionário canadense Robert McAlister, […] está na origem da Igreja Universal do Reino de Deus (Rio, 1977), Internacional da Graça de Deus (Rio, 1980) e Cristo Vive (Rio, 1986). Estas três, ao lado da Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (São Paulo 1986) e Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo (São Paulo, 1994), constam entre as principais igrejas surgidas no período. (MARIANO, 1999, p. 32).

O Neopentecostalismo se espalha fortemente no Brasil e se destaca pela utilização massiva dos meios de comunicação para se disseminar. Os líderes das igrejas neopentecostais possuem forte capacidade de inovação e buscam fugir do que pode ser visto como repetitivo. Ou seja, vai direto ao encontro dos anseios de muitos e, por isso, cresceram largamente. Em meio a esse movimento neopentecostal, é disseminada a Teologia da Prosperidade.

Dentre tais igrejas, destacam-se, no Brasil, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), liderada por Edir Macedo Bezerra (também conhecido como bispo Macedo), a Igreja Internacional da Graça de Deus, sob liderança de Romildo Ribeiro Soares (conhecido como R.R. Soares) e a Igreja Mundial do Poder de Deus, que tem como líder Valdemiro Santiago de Oliveira (conhecido como Apóstolo Valdemiro).

Para tratar de cada uma dessas igrejas, é necessário destacar a figura de Edir Macedo. Nascido em 18 de fevereiro de 1945, o bispo Macedo se converte ao pentecostalismo em 1996 na igreja Nova Vida. No entanto, Edir Macedo não se sentia plenamente satisfeito com o modo de viver a fé apresentado pela igreja e acaba se desligado no ano de 1975. Segundo Paiva (2017), o bispo Macedo se juntou a um grupo de amigos e fundou o Ministério Cruzada para o Caminho Eterno. Dentre tais amigos, destaca-se Romildo Ribeiro Sores. Devido a inúmeros desentendimentos entre os integrantes do grupo, o ministério é rompido e Edir Macedo se junta a R.R. Soares para fundar a Igreja Universal do Reino de Deus.

Romildo e Edir lideravam juntos a IURD até que, devido a sua desenvoltura para lidar com o público, o bispo Macedo se destacou grandemente diante de seu co-fundador. Tal situação gerou desentendimento entre os dois.

Em fim dos anos 70, os dois chegaram a um impasse. Macedo, então para decidir qual deles permaneceria à frente da igreja, propôs que a disputa se resolvesse por meio de votação de presbitério. Macedo venceu o pleito. Soares, compensado financeiramente, desligou-se da Universal para fundar, em 1980, nos moldes de sua antecessora imediata, a Igreja Internacional da Graça de Deus. (MARIANO apud GONÇALVES, 2013. P. 51).

A partir do desligamento de R.R. Soares da IURD, Edir Macedo assume total liderança sobre a igreja e Romildo Funda a Igreja Internacional da Graça de Deus (IIGD), que possuiu grande importância na disseminação da Teologia da Prosperidade no Brasil, pois publicou os livros de Kenneth Hagin e espalhou o seu pensamento em nosso país.

Fundada no Rio de Janeiro, em 09 de junho de 1980, a IIGD utiliza os moldes da IURD e se destaca por seus programas de TV (Show da Fé) em que R.R. Soares faz suas pregações catequéticas, convertendo muitos para a sua igreja. “Hoje, a IIGD está presente em todo o Brasil e em países como Estados Unidos, Portugal, Índia, África do Sul e Japão, levando a Palavra de Deus e pregando a salvação” (INSTITUCIONAL).

A terceira igreja de grande destaque dentre as que se utilizam da Teologia da Prosperidade no Brasil é a Igreja Mundial do Poder de Deus (IMPD). Fundada por Valdemiro Santiago de Oliveira, a IMPD, como a IIGD surge após o desligamento do seu iniciador da Igreja Universal do Reino de Deus. Valdemiro Santiago atuou por dezoito anos como pastor da IURD até que problemas com a liderança resultaram em seu desligamento em 1998.

Segundo Ricardo Mariano (2011), as crenças e práticas da Mundial são uma cópia da IURD. O apóstolo Valdemiro, após fundar a IMPD convidou diversos pastores da IURD para compor a seu presbitério, isso trouxe todo o modo de pregação da Universal para dentro da Mundial. Tal migração de igrejas se extinguiu em 2010 devido à rivalidade entre tais igrejas e ao medo de que se infiltrassem pastores da IURD objetivando buscar informações e desmoralizar a IMPD.

A Igreja Mundial do Poder de Deus se destaca pela promessa de cura divina. Seus programas de TV atingiram grande audiência e conversão devido a transmissão ao vivo de milagres como paralíticos se levantando de suas cadeiras de rodas e outros similares.

Cada uma dessas igrejas, dentre tantas outras, se correlacionam a um tipo de pensamento, coincidente em todas elas, o de que para se alcançar todas as graças é necessário fazer um contrato de fidelidade com Deus.

4.3 RELAÇÃO CONTRATUAL COM DEUS

As igrejas da Teologia da Prosperidade se utilizam de textos como “Pedi e se vos dará. Buscai e achareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca acha. A quem bate, abrir-se-á” (Mt 7, 7-8) para estabelecer uma relação direta entre pedido da graça e sua recepção. Não obstante, tal vínculo entre pedir e receber é pregado por eles como uma relação contratual com Deus. O adepto precisa seguir uma série de regras para que as graças sejam alcançadas. Além da doutrina cristã, que geralmente prega que o fiel deve praticar o bem, as igrejas da prosperidade colocam o dízimo e as ofertas como fatores de essencial importância para a obtenção da graça.

Essa Teologia marca a busca por felicidade, saúde e dinheiro, a partir da relação contratual estabelecida com Deus. Realizando uma inversão de valores, a Teologia da Prosperidade rompe com a ideia de que o sofrimento glorifica o homem e sua recompensa é além do mundo, para exigir o “Paraíso” na Terra. (GALLO, 2011, p. 1)

Nas igrejas da Teologia da Prosperidade, é pregado que o “paraíso” deve ser vivido na terra; ou seja, durante a vida do fiel, ele já tem todo o direito de gozar das alegrias que se acreditava, tradicionalmente, que viriam na vida pós-morte. Por isso, todas as bênçãos, incluindo o devido destaque às financeiras, podem ser alcançadas por todos. Para isso, é pregado que o adepto precisa abrir mão de parte do seu dinheiro e, entregando-o à igreja, oferecer a Deus, e este o honrará com muito mais.

Tal situação, Segundo Paiva (2017), pode ser confirmada nas celebrações voltadas ao sucesso financeiro. Nessas, as pregações sobre a mortificação e cruz – ouvidas costumeiramente pelo cristão tradicional – são abandonadas e substituídas pela vitória e intervenção divina imediata. O adepto é conduzido a fazer um contrato de fidelidade financeira com Deus; isso significa que ele precisa ser fiel ao dízimo e às ofertas para que as graças divinas sejam entregues como retribuição à sua lealdade. No momento da oferta, os participantes são convocados a doar o dinheiro em envelopes apropriados, enquanto os que ainda não são dizimistas são convidados a se aproximarem do altar e firmarem uma oração de compromisso da fidelidade com Deus. A partir de então, o fiel estaria pactuado a Deus e todas as graças viriam como que uma troca de favores, em que o adepto entrega seu dinheiro e Deus o honra financeiramente.

Testemunhos são utilizados para provar aos outros participantes dos cultos que os favores divinos são consequência real de sua doação. Ainda segundo Paiva (2017), o testemunho é dado por fiéis que sobem ao altar e, além disso, tais provas de sucesso são encontradas em vídeos exibidos com pessoas bem vestidas, em grandes mansões e com carros luxuosos. Ao final da mensagem, o narrador diz que o participante também é capaz de obter tudo o que aqueles conquistaram, convidando para o congresso de sucesso.

Além dessa estratégia de conquista da lealdade ao dízimo, as igrejas da prosperidade se utilizam de diversos elementos devocionais. Água benta, meias, fronhas de travesseiro e outros amuletos ungidos são vendidos por muitas igrejas da prosperidade (CONTROVÉRSIAS, 2017) sob a justificativa de que elas levarão o fiel a mudanças imediatas em sua vida.

Todas essas formas de se receber ofertas e dízimos fazem das igrejas, ainda na comparação com empreendimentos, negócios extremamente promissores.

4.4 IGREJAS DA PROSPERIDADE COMO EMPREENDIMENTOS DE SUCESSO

Várias igrejas representantes da Teologia da Prosperidade no Brasil possuem força e poder de ampliação acelerados, superando, com largueza, muitos empreendimentos privados. Crescem em número de adeptos, em quantidade de templos e, muitas vezes, os investimentos dos seus líderes extrapolam os de fé, pois se voltam para as empresas privadas de alto poder lucrativo.

A Igreja Mundial do Poder de Deus pode ser utilizada como exemplo claro de empreendedorismo religioso de sucesso. Fundada em 1998, por Valdemiro Santiago de Oliveira, hoje conta com cerca de seis mil templos espalhados pelo Brasil e outros países do mundo. Com a utilização dos meios de comunicação, essa igreja pôde chegar aos lares das famílias brasileiras, atraindo adeptos em todos os cantos do país.

Em 2006, […] impulsionada pelo forte crescimento, a Igreja Mundial do Poder de Deus se instala no Brás, no Templo dos Milagres, com 18 mil metros quadrados. (INSTITUCIONAL).

Inaugurada em 2011, a Cidade Mundial dos Sonhos de Deus é um dos sonhos realizados do Apóstolo Valdemiro Santiago, de um templo que fosse como uma verdadeira cidade. Com capacidade para cento e cinquenta mil pessoas, em um espaço de duzentos e quarenta mil metros, é considerada um dos cinco maiores templos do mundo. (INSTITUCIONAL).

A Igreja Mundial do Poder de Deus inaugurou, em 2006, seu próprio canal de TV. Chamado Rede Mundial, ela possui, tanto na TV a cabo como na TV aberta, transmissão em 24 horas por dia de pregações que convertem pessoas a todo o tempo para a sua igreja. Isso faz com que ela seja um dos empreendimentos religiosos de maior sucesso em nosso país.

Outra igreja que pode ser utilizada como modelo claro de empreendimento de êxito é a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD). Seu fundador, Edir Macedo Bezerra, é um grande exemplo de glória e hoje é um dos maiores empreendedores do Brasil.

Sobre o império que é a IURD, tratou TAVOLARO (2007), dizendo que as informações contidas em seu livro sofrem desatualização acelerada, tendo em vista o rápido crescimento da Igreja:

a Igreja Universal é hoje uma força que se retroalimenta. Quanto mais cresce, menos para de crescer. Os números aumentam a cada instante. Não é exagero. Fomos obrigados a atualizar diversas vezes o tamanho da estrutura comandada pelo bispo Macedo. Até o fechamento deste livro, eram 4.748 templos e 9.660 pastores apenas no Brasil. A igreja já tinha se instalado em 172 países de quatro continentes. No momento em que este texto estiver sendo lido, esses dados certamente já estarão desatualizados. (TAVOLARO, 2007, p. 244).

Como dito anteriormente, os investimentos do bispo Macedo não se resumem em templos de fé, mas vão desde construtoras até grandes meios de comunicação:

Um grande volume de negócios também gira em torno da igreja no Brasil. Construtoras, seguradoras, empresa de táxi aéreo, agências de turismo, mídia, consultorias. As empresas que orbitam em torno da Universal geram 22 mil empregos diretos e mais de 60 mil indiretos só no Brasil. O balanço não inclui pastores e bispos, que recebem a chamada “ajuda de custo” por obra voluntária. A igreja responde mensalmente por 8.806 imóveis alugados, entre residências para pregadores e prédios usados para templos – o que a transforma em uma das maiores locatárias do país. (TAVOLARO, 2007, p. 246).

Além de tais empreendimentos, é de amplo conhecimento e de merecido destaque a compra da Rede Record de Televisão, um dos canais de maior audiência em nosso país. O bispo Macedo efetuou tal investimento em novembro de 1989 e, a partir de então, com a utilização massiva desse meio de comunicação para divulgar e ampliar a sua igreja, a IURD se espalhou e continua se desenvolvendo em proporções astronômicas.

5. CONCLUSÃO

Vimos que, de origem norte-americana, a Teologia da Prosperidade rapidamente se espalhou e conquistou adeptos em muitas partes do mundo. Seu crescimento acelerado não para e, a cada dia, novas denominações religiosas são iniciadas e se utilizam da doutrina da prosperidade.

Tal nível de crescimento se justifica no modo de vivência de fé, que pouco exige mudanças de vida (comparado ao cristianismo tradicional) e se volta à conquista de prosperidade para o adepto. Tais pregações são extremamente atrativas, pois seduzem o fiel a acreditar que em suas celebrações estão todas as respostas físicas e espirituais que resultarão em frutos, garantindo riqueza material e saúde física e mental. Não obstante, qualquer olhar mais racional e reflexivo consegue notar que a doutrina da prosperidade é, em alguns aspectos, contraditória e perigosa.

Quando se trata de saúde, a Teologia da Prosperidade se utiliza de textos bíblicos para pregar que, tendo Cristo carregado todas as nossas dores, estamos livres da doença e que toda e qualquer patologia se justifica em causas espirituais, sendo, então, de modo espiritual que toda enfermidade deve ser tratada. Esse pensamento oferece demasiado risco para o adepto, pois pode levar a um abandono de cuidados médicos e entrega total à oração para que haja cura pela fé.

Além dos riscos apresentados para a saúde do fiel, destaca-se a possibilidade de sérios problemas financeiros decorrentes do excesso de doações que podem ser feitas pelo frequentador de tais igrejas. Estas pregam que deve haver um contrato de fidelidade com Deus e que as bênçãos recairão sobre o cristão na medida em que ele for ousado o suficiente para abrir mão de parte do seu dinheiro e o entregar à igreja como oferta à obra divina. Tal proposta é apresentada de maneira tão deslumbrante (com testemunhos e promessas) que o fiel pode chegar ao ponto de doar mais do que pode, contraindo sérios endividamentos.

Tal modo de pensar, tanto voltado para a saúde quanto voltado para prosperidade financeira, contradiz os ensinamentos cristãos que podem ser lidos em diversos versículos bíblicos (Mt 16,24; Mt 19,21;2Cor 4,17; Tg 1,2-3 etc) que pregam que os sofrimentos na terra produzem glória na vida eterna.

Seus pontos positivos estão no fato de que os cultos encorajam o adepto a buscar melhoras financeiras e a usar de ousadia em seus empreendimentos, podendo, de fato, gerar vitórias nas finanças do adepto. Isso não se relaciona, racionalmente, à quantidade de dízimo e ofertas feitas pelo fiel, mas ao encorajamento que ele acaba recebendo nos cultos.

REFERÊNCIAS

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2. Tais entrevistas ao diabo são amplamente divulgadas pelos meios de comunicações como TV e internet, e algumas delas podem ser facilmente localizadas. Endereços eletrônicos de tais situações estão disponíveis nas referências bibliográficas deste artigo.

[1] Pós-graduado em Ciência da Religião pela Faculdade Martins, Licenciado em Filosofia através de complementação pedagógica para não licenciados R2 pela Faculdade Mozarteum de São Paulo e Bacharel em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Enviado: Dezembro, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

 

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