IURD: breve análise do crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus nas décadas de 1980 e 1990

0
202
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
ARTIGO EM PDF

ARTIGO ORIGINAL

PEREIRA, Harrison Novaes Silva [1], ARAÚJO, Ayala de Sousa [2]

PEREIRA, Harrison Novaes Silva. ARAÚJO, Ayala de Sousa. IURD: breve análise do crescimento da Igreja Universal do Reino de Deus nas décadas de 1980 e 1990. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 12, pp. 05-20. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O presente artigo tem o objetivo de abordar a Igreja Universal do Reino de Deus, a partir da compreensão de sua estrutura administrativa e o poder de mídia que ela dispõe como parte fundamental no sucesso do seu crescimento. Consequentemente a consolidação do neopentecostalismo como seguimento religioso de maior influência do Brasil atual. Procura mostrar a flutuação no mercado de fiéis não apenas como conveniência, mas fruto de um agressivo modelo administrativo, onde o poder do marketing desconstrói princípios, reorganiza fundamentos, e ergue impérios religiosos.

Palavras-chave: Igreja Universal do Reino de Deus, religião, fé.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo tem por finalidade apresentar um estudo sobre a Igreja Universal do Reino de Deus – IURD nas últimas décadas do século XX, no sentido de compreender seu impetuoso crescimento, bem como o uso das mídias, seja ela escrita ou áudio visual, e o impacto destas no desenvolvimento da igreja. As práticas litúrgicas, que a diferencia de outras igrejas de correntes pentecostais e neopentecostais, mas que ao mesmo tempo tem sido o esteio do seu sucesso.

O objetivo principal é mostrar que o crescimento da igreja está alicerçado no arrojado modelo de administração dos seus líderes, criando o que se pode chamar de igreja-empresa.

Para isso, foram utilizados como fontes de pesquisa os estudos de Prandi, Mariano, Pedro Oro entre outros, através de um levantamento bibliográfico do ponto de vista dos diversos autores, estabelecendo o ponto de partida para o alcance dos resultados desta pesquisa.

2. CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA DA IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS

A IURD foi criada em 1977 pelo então funcionário público Edir Macedo Bezerra. De origem humilde, Edir morou em várias cidades devido ao trabalho do pai, até fixar residência no Rio de Janeiro, onde trabalhou na Loterj por alguns anos. Neste período, depois de passar pelo catolicismo, e até mesmo candomblé, tem seu primeiro contato com o protestantismo quando frequentou a igreja Nova Vida[3], onde recebeu grande parte dos ensinamentos e práticas usadas em sua igreja nos anos seguintes. Após alguns meses frequentando a referida igreja, Edir resolve sair e fundar uma comunidade denominada “A Cruzada do Caminho Eterno”, que ainda se chamaria “A casa da Benção” antes de ser definitivamente batizada de IURD[4]. Segundo ele, a igreja Nova Vida não oferecia os elementos necessários para uma vida regenerada: “teoricamente eu estava firme. Mas na prática, o meu coração era o mesmo; não havia mudado nada” (TAVOLARO, 2007, p. 81). No início Edir se reunia num coreto de praça no jardim Méier[5], apenas ele, uma caixa amplificada com microfone e um teclado; todos os sábados sobre algumas ripas de madeira ele pregava para um pequeno grupo de curiosos que aos poucos, pela eloquência e carisma do pregador passaram a voltar semanalmente para ouvir suas palavras.

A cada semana o público aumentava, ninguém podia imaginar que estava surgindo ali o maior fenômeno neopentecostal[6] do século XX, a igreja Universal do Reino de Deus. Durante a semana Edir subia favelas, distribuía folhetos, convidava as pessoas para sua reunião semanal, atraia seguidores, realizava batismos, onde houvesse fieis em potencial lá ele estaria. As reuniões cada vez mais concorridas obrigaram o pastor a alugar um galpão onde funcionava uma antiga funerária, mas para tal empreitada era preciso um fiador. Por isso, de acordo com Tavolaro (2007, p.112),

[…] para alugar a antiga funerária foi necessário um fiador, o valor era puxado. Edir recorreu a mãe, que prontamente aceitou ajudar. Dona Eugenia, conhecida por Geninha, colocou como garantia seu único apartamento, situado no bairro carioca de Fátima.

Assim, D. Geninha, sua mãe, se dispôs a ajudá-lo, oferecendo como garantia seu único apartamento; fiadora e entusiasta do filho ela foi um dos primeiros membros da IURD. Nesse local foram realizados os primeiros cultos, e ali definitivamente surgiria a IURD.

Daí em diante a igreja não parou mais de crescer. Meses depois mudou para um prédio maior, ainda na mesma rua, que em seguida foi adquirido e reformado tornando-se o primeiro templo da IURD. E, “além do coreto nas noites de sábado, passaram, então, a ser realizadas em um antigo cinema em frente: o Bruni Méier. Depois, num local maior: o cine Ridan, no bairro da Piedade, também na Zona Norte do Rio”. (TAVOLARO, 2007, p 84).

Com uma visão apurada como poucos para negócios, Edir descobriu cedo que o segredo do crescimento estava na publicidade, não tardou a alugar um espaço na rádio Metropolitana. Todo o dia durante quinze minutos Edir divulgava a IURD, e convidava as pessoas a participarem das reuniões. Como afirma Tavolaro, “já em 1977, quando fundou a IURD, Edir Macedo tinha a convicção que o crescimento da instituição dependia de um veículo de comunicação em massa” (2007, p.143).

2.1 CASAMENTO IGREJA – MÍDIA

Nascida da ideia de se fazer algo novo e diferente a IURD constrói seus próprios caminhos, evita os já percorridos pelas outras igrejas pentecostais, e logo percebe que o crescimento acintoso só seria possível mediante o uso de meios de comunicação em massa.

[…] desde aquela época, o bispo dizia que iria espalhar sua igreja pelo mundo. Ele falava em ter rádio, televisão, um grupo de comunicação forte. Ele falava para meu pai: “Seu Albino, eu vou ter um canal de tevê”. Meu pai não acreditava e ria. E a igreja continuava crescendo, cada vez mais forte. (TAVOLARO, 2007, p. 92)

Para isso foi alugado um horário na rádio Metropolitana. Durante 15 minutos por dia era apresentado o despertar da fé, com mensagens evangélicas e testemunhos de fiéis agraciados. Os horários eram ampliados a cada mês, atingindo outras rádios como a rádio Record, a rádio Ipanema e a FM 105. Com o aluguel do horário no rádio, foi dada a largada para o espantoso crescimento da IURD; e não tardou, a igreja adquiriu a sua própria estação, a rádio Copacabana, hoje com conteúdo exclusivamente evangélico. O próximo passo era entrar na mídia televisiva, o que foi alcançado na TV Tupi, durante as madrugadas; primeiro apenas para o Rio, depois para São Paulo.

Eram novos tempos. Com a popularização da TV o rádio perdia seu lugar de destaque, as famílias cada vez mais assistiam TV. Nas madrugadas da TV Tupi, a IURD começa a marcar seu território no mundo televisivo. No fim dos anos 1980, a IURD se prepara para a ação mais audaciosa da sua vida, a compra da rede Record de televisão, negócio que foi firmado sob denúncias de evasão de divisas, sonegação fiscal, entre outros. A IURD, com a compra do seu próprio canal de TV, finca suas bases como a mais bem sucedida e agressiva das igrejas neopentecostais brasileiras. Na madrugada (horário alugado pela rede Record a IURD) são transmitidos programas religiosos, onde pessoas dão testemunho de como suas vidas mudaram depois de frequentarem a IURD. São comuns também as práticas de exorcismo em rede nacional.

[…] a transação era ousada. Entrou para a história como o maior negócio no setor de comunicações do país até então. As cifras assustaram especialistas do mercado. Não era comum uma empresa de rádio e televisão ser vendida por aquele valor no Brasil. No total, Edir Macedo assumiu uma dívida de 45 milhões de dólares ao adquirir a Record. Da quantia acertada, 14 milhões deveriam ser depositados logo no início. O restante, 31 milhões, seria pago à família Machado de Carvalho e a Silvio Santos ao longo de dois anos (TAVOLARO, 2007, P. 124).

O casamento entre a IURD e a mídia não para por ai, a igreja se expandiu para a mídia escrita, adquirindo a folha universal, e também para a internet, onde possui um dos mais concorridos site evangélicos do país o www.Arcauniversal.com.br, além de um canal na rede de computadores, o www.iurdtv.com. Anualmente são gastas quantias inacreditáveis de dinheiro com marketing e propaganda. Para Mariano toda esta logística precede uma lógica de disputa de fiéis em matéria de oferta de serviços, sendo concorrentes no mercado de soluções “mágicas” para os diversos problemas de cunho material e espiritual (MARIANO, 1995).

A IURD sempre levou vantagem nesse aspecto. Sua visão futurista levou a ganhar posição de destaque na mídia, adquirindo jornais, rádios e um canal de TV. Com o apoio da mídia a IURD penetra em vários segmentos da sociedade, inclusive no campo político, elegendo deputados e um senador. Com todo esse aparato é possível também organizar megaeventos denominados de gospel, onde milhares de pessoas enchem estádios para receberem curas divinas, libertação e fazerem suas doações.

[…] Usam-se trios elétricos, técnicas publicitárias de marketing, filmes em vídeo, vídeo-games, bonés, adesivos e camisetas com motivos cristãos, ritmos e estilos musicais da moda, shows de rock evangélico em templos e estádios de futebol. Gerenciam-se igrejas com métodos modernos de administração. Criam-se empresas que orbitam em torno de atividades religiosas, como produtoras, gravadoras, agências de turismo, editoras, livrarias. Transformam-se garagens, teatros, cinemas, casas de show, fábricas e supermercados em templos (MARIANO,1999, p.103).

Mariano acredita que a IURD inovou, reabrindo o mercado da salvação onde é possível comprar curas, prosperidade e um lugar no céu, tudo isso baseado num perfeito sistema de marketing:

[…] Observa-se que os autores referem-se à Igreja Universal como empresa (holding, supermercado), cujas atividades mercantilistas e de marketing geram lucro, resultam em exploração e proporcionam enriquecimento dos responsáveis pela gestão dos serviços e comercialização dos produtos ditos religiosos. Todos, indistintamente, destacam os objetivos econômicos da igreja. O que não surpreende nem pode ser visto a priori como desqualificador, primeiro, porque tal constatação corresponde aos fatos, segundo, porque o léxico que associa organizações religiosas ao mercado ou ao mundo dos negócios não constitui novidade na investigação sociológica do campo religioso (MARIANO, 1999, p.111).

O casamento perfeito entre marketing e espetáculo atrai pessoas em busca de respostas ou de compensações espirituais. As igrejas ficam abarrotadas de fiéis, que estimulados, coagidos ou persuadidos participam das campanhas, onde se ofertam grandes somas de dinheiro, como é o caso da fogueira santa[7]; construindo um império eclesiástico, com a vantagem de gozar de algumas regalias que os empresários de outros segmentos não possuem, como demonstra Pierucci (1996) apud MARIANO (1999, P. 09)

[…] depois de considerar que as organizações religiosas gozam de amplos privilégios fiscais e legais, de baixa regulação estatal e de frisar que elas vêm ampliando e diversificando enormemente seu poder econômico e suas atividades empresariais. Estendendo ilimitadamente a definição das fronteiras das instituições, atividades e funções religiosas, até como forma de estender ainda mais seus privilégios, que, além de serem cada vez mais anacrônicos, injustificáveis e contestáveis, incomodam outros grupos empresariais, cujos negócios não contam com tais regalias fiscais nem com a capacidade de autofinanciamento e investimento oriunda das renováveis montanhas de dízimos e ofertas. PIERUCCI (1996)

2.2 TEOLOGIA DA PROSPERIDADE

O final da década de 1980 é marcado por dois fatos curiosos: o primeiro é a agigantada expansão da IURD; o segundo, a crise econômica que vive o Brasil (recessão, falências, desvalorização da moeda, inflação descontrolada). Esse momento político-econômico brasileiro favorece a Universal, que usa como jargão a frase: “Pare de sofrer”. Numa sociedade onde a crise bate à porta todos os dias, onde a moeda cada dia vale menos, tal jargão foi favorável aos ensinamentos da IURD, pregando que as pessoas devem ser livres para prosperarem financeiramente, gozar de saúde e felicidade.

O apelo por uma vida material diferenciada não é exclusividade da IURD, conhecida como Teologia da Prosperidade, é uma das bases das igrejas neopentecostais; notando-se uma aproximação com os ensinamentos Calvinistas.

[…]Vivendo numa sociedade de mercadores, Calvino criou uma doutrina que alicerçava espiritualmente o capitalismo, estimulando o lucro e o trabalho, o que favorecia a burguesia. […] Calvino pode ser considerado o teólogo do capitalismo, pois acreditava que a miséria era fonte de todos os pecados, apoiando em contrapartida os negócios comerciais (VICENTINO, 2002, p.205).

Para a IURD, o homem foi feito pelo Criador não só para receber e desfrutar da vida eterna, mas é vontade de Deus que seus filhos gozem de fartura e felicidade também durante sua passagem no mundo. Entre os vários elementos que distingue as religiões pentecostais, está a ênfase na guerra espiritual, ou seja, o embate contra o mal; o fiel deve todos os dias declarar guerra contra as forças da maldade, através de orações e frases de efeito eles “ordenam” que os demônios não haja em suas vidas e em seus negócios, e na teologia da prosperidade, que apregoa que os fiéis têm o direito de usufruir as boas coisas da vida ainda nessa existência terrena (SIEPIERSKI, 2003,P.03).

A teologia da prosperidade parte do princípio de que Deus conhece o coração do homem, e se este tem o coração disposto a contribuir, a ajudar pessoas, será abençoado por Deus. Apregoa que Deus ama o trabalho, e recompensa os seus filhos que se dedicam a desempenhar atividades produtivas, podendo assim contribuir com a igreja. Além da prática do dízimo, comum ao protestantismo, os defensores da teologia da prosperidade defendem a ideia de que o coração do homem é medido pelas ofertas dadas por ele; sendo assim, quanto mais ele oferta, mais será abençoado por Deus.

Para a IURD o homem deve afastar-se das tentações humanas, viver uma vida sem vícios, longe das drogas e da prostituição. Também como as demais igrejas evangélicas, prezam pelo casamento e por uma conduta moral em sociedade. Acredita em curas divinas, nos dons do Espírito como a glossologia[8], defendem a ética do trabalho, o enriquecimento, e a guerra espiritual. Diferenciam-se de outras igrejas pentecostais devido sua flexibilidade nos costumes, é uma organização que permite a prática de esportes como o futebol, o uso de maquiagens, etc. Para a IURD, a vida do homem gira em torno de uma luta diária entre o bem e o mal, e o mal pode e deve ser vencido através da guerra espiritual e do exorcismo.

Para o Bispo Macedo, o diferencial da IURD está no fato de mudar a realidade das pessoas que, cansadas de suas vidas sofridas, buscam conforto espiritual e material nos templos da igreja. “Ele acredita que os cariocas e os africanos em geral são mais receptivos aos sermões, talvez pelo sofrimento” (TAVOLARO, 2007.p.128). A igreja universal, a exemplo do seu criador, tem como uma de suas doutrinas básicas mudar a maneira de como os fieis veem o mundo – é o que chamam de fé inteligente ou fé racional; para eles não é preciso sentir vibrações do além, mas colocar em prática o que está escrito em seu livro sagrado, a Bíblia. O uso de uma fé racional, inteligente, vai impulsionar a vida do fiel para uma melhora constante e progressiva. Está tudo na bíblia: o crente tem que requerer de Deus as bênçãos que lhes foram prometidas (TAVOLARO, 2007).

[…] A fé inteligente busca a razão da fé. Você não deve aceitar as mazelas da vida como uma punição de Deus, um carma, um castigo ou simplesmente porque não merece. A fé não é emoção, mas uma prática de comunhão com Deus. Não tem a ver com tradição religiosa, eu não sou estúpido de acreditar em um Deus que não funciona (TAVOLARO, 2007, p.132).

Por isso mesmo é tão comum nos cultos da Universal o uso de jargões como, “tome uma atitude de fé”, ou “dê passos de fé”. A fé é o segredo dos que alcançam as graças do criador:

[…] quando fazemos um pedido a Deus ele não nos atende por causa do nosso choro, de nossas necessidades ou de nossas dores. Muita gente até acha que pode chamar a atenção de Deus ao praticar caridade ou ser bondosa. A única moeda de troca com Deus é a nossa fé. Quem crê recebe, quem não crê não recebe (TAVOLARO, 2007 p.133).

Trazer o Deus para perto do fiel, e não necessariamente o fiel para a igreja; a desmistificação de um Deus todo poderoso, que castiga, que pune transformando-o em alguém que acolhe, auxilia e resolve problemas; a mudança nos padrões doutrinários, na liturgia do culto, no comportamento dos pastores em relação aos membros, e até mesmo na maneira ver Deus; esses fatos diferenciam a IURD das mais tradicionais igrejas protestantes e a aproxima dos fiéis, principalmente os menos favorecidos economicamente.

Para Macedo,

[…] os pastores leem a bíblia e a relacionam com diferentes momentos da vida cotidiana, envolvendo problemas e anseios da população: desemprego, dificuldades financeiras, problemas amorosos, alcoolismo, drogas, prostituição, entre outros (MACEDO, 2007, p.132).

Mariano também afirma que a quebra na rigidez do protestantismo tradicional, adaptou o pentecostalismo às realidades sociais modernas, o tornando mais acessível e diminuindo a sua rejeição:

[…] para sobreviver e crescer no Brasil de hoje, radicalmente avesso às regras e imposições reguladoras da intimidade e do tempo de lazer e reconhecidamente liberal no plano do comportamento privado, várias igrejas pentecostais abriram mão de preceitos, valores, tradições, tabus e verdades anacrônicos, disfuncionais e impopulares. Estratégia que sinaliza a crescente limitação de seu poder de impor normas severas de conduta, de exigir o indesejado, de requerer o sacrifício (MARIANO, 1999, p. 106).

A proximidade com os fiéis e a ideia de um Deus Todo-Poderoso que se importa com o homem, que está pronto a ir a seu auxílio, a crença que para o fiel, não existe apenas uma vida no paraíso, mas também uma vida na terra cheia de “vitórias”, conquistas e sem as mazelas do cotidiano. Tais considerações apresentam algumas das justificativas para seu crescimento.

2.3 A IGREJA EMPRESA

O crescimento acentuado da IURD é justificado por diversas formas, dentre elas o rígido sistema de liderança utilizado: treinando e preparando membros, obreiros e pastores, um sistema eficaz que transforma cada indivíduo em um divulgador. ”Eles são muito agressivos para buscar e manter seus adeptos”, explica o presidente do Instituto Brasileiro em Marketing Católico, Antônio Kater Filho. Segundo Kater Filho (2002), o evangélico catequiza como um promotor de vendas da Avon, ”eles fazem panfletagem, têm um ótimo boca a boca e preparam os pastores com técnicas de persuasão”.

Desde a sua fundação em 1977 a IURD preparou terreno para o seu avanço: a compra de meios de comunicação, o discurso voltado para uma vida feliz e sem problemas causou e vem causando um alvoroço no mercado religioso brasileiro. A maior prova da eficácia de suas ações são os dados que mostram o grande crescimento da IURD. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, no ano de 2000 o número de evangélicos era de 26,1 milhões de fiéis, em junho/2012 este número bateu a marca de 42,3 milhões, um crescimento de 61% em 10 anos. Ainda de acordo com o IBGE, entre 2000 e 2010, 16,1 milhões de pessoas se converteram as religiões evangélicas. Um crescimento de 61%. No mesmo período, a população brasileira aumentou 12,3% o que significa que os evangélicos se multiplicaram a uma taxa cinco vezes maior que a população do País.

É possível inferir que a eficácia da IURD no que se diz respeito à evangelização e ao crescimento, se tornou e vem se tornando possível graças a seu perfil de igreja-empresa. As estratégias e planos de ações são traçados levando-se em conta o local onde serão instaladas as instituições religiosas e o perfil do fiel que se quer alcançar. Na IURD as decisões são centralizadas e existe um controle exercido por meio de um complexo sistema de hierarquia onde os bispos supervisionam e controlam regiões, estados, países e continentes. Os pastores são poucos escolarizados e comumente emergem do meio dos fiéis. Jesus Hortal (1994) apoud Mariano (1999.p.06), afirma que “os pastores têm participação nos lucros da igreja e possuem várias ferramentas para bem desempenhar seus trabalhos, como os recursos de rádio, TV e imprensa escrita”.

[…]a Universal leva imensa vantagem sobre as demais, já que, com exceção da Deus é Amor, nenhuma outra grande denominação evangélica dispõe de poder eclesiástico e administrativo tão centralizado, absoluto e despótico. Vantagem em razão do fato de que a centralização administrativa dos recursos e esforços de toda a denominação faculta à liderança eclesiástica a realização estratégica de grandes investimentos na aquisição e construção de imóveis, na compra de emissoras de rádio e TV, na criação de editoras, jornais, revistas, no sustento de grande número de pastores e missionários, na abertura de templos, no estabelecimento de novas frentes de evangelização etc.( MARIANO,1999.P. 06).

Tal centralização aliada a um forte apelo da mídia e um bem elaborado sistema de marketing fez da IURD a maior igreja neopentecostal do Brasil. De acordo com o IBGE o número de fiéis da Universal chega a 2 milhões, números que são contestados pelos líderes da igreja, segundo eles esse número beira os 8 milhões de fiéis. Segundo, Tavolaro (2007, p. 243),

[…] a quantidade exata de fiéis é imprecisa. A estatística oficial do IBGE calcula de 2 milhões, mas, de acordo com a liderança da igreja, não computa com precisão os brasileiros moradores de áreas carentes, como favelas e morros, onde se encontra uma das forças da universal, o que pode fazer esse número saltar para 8 milhões de fieis.

Para Jesus Hortal a explosão da universal se dá, entre outros motivos, em virtude da fetichização do dinheiro, a mercantilização do sagrado que é gerado a partir de uma leitura e interpretação distorcida da bíblia. (MARIANO, 1999). Para Oro (1992 apud Mariano 1995) a teologia da prosperidade, o uso da mídia e a promessa de enriquecimento fácil atraem os fiéis e transforma a igreja numa empresa, onde se presta serviço e se vende produtos religiosos. Nesse sentido, diz ainda Mariano, citando Oro que,

[…] Ari Oro (1990) ressalta o “significado econômico” do uso da mídia eletrônica pela Igreja Universal enquanto instrumento de arrecadação é sustentáculo da estratégia expansionista. Posteriormente, analisando o neopentecostalismo, Oro (1992) afirma que a liderança neopentecostal seguia, na gestão da organização eclesiástica, um “modelo empresarial”, baseado na divisão social do trabalho religioso e administrativo, no uso da mídia, na prestação de serviços religiosos mediante pagamento e na adoção de mecanismos diversos para obtenção de recursos (ORO 1992) apud (MARIANO, 1995, p.96).

A transformação da igreja universal numa mega empresa vai além da negociação de produtos referentes à vida espiritual. Aqui se vende de tudo: camisetas, CDs, DVDs, óleos e rosas místicas capazes de libertar da embriaguez e de muitos outros males, viagens para Israel e muito mais. “Gerenciam-se igrejas com métodos modernos de administração. Criam-se empresas que orbitam em torno de atividades religiosas, como produtoras, gravadoras, agências de turismo, editoras, livrarias.” (MARIANO,1999, p.15).

“A Igreja Universal é hoje uma força que se retroalimenta. Quanto mais cresce, menos para de crescer” (TAVOLARO, 2007, p. 195). O autor descreve o ciclo de crescimento da IURD com perfeição. Seu modelo arrojado, com um comando forte e centralizado, faz uso da sua força na mídia para atrair fiéis, esses estimulados pelos apelos de prosperidade financeira fazem contribuições que serão injetadas nos meios de comunicação para atrair mais fiéis que farão mais doações e assim sucessivamente. Tudo isso com a vantagem de não pagar impostos.

A capacidade de produzir uma religião solidificada através do marketing deixa a IURD numa situação confortável em relação a outras religiões no que se diz respeito ao crescimento. Conforme afirma Siepierski (2003, p.128),

[…] o crescimento se dava de forma desigual, sendo muito mais acentuado em um grupo de novas igrejas, que veio a ser chamado de neopentecostal, e do qual a Universal do Reino de Deus é o exemplo de maior repercussão. Essas novas igrejas apresentam características não encontradas nas suas predecessoras. Entre os vários elementos que as distinguem estão a ênfase na guerra espiritual, ou seja, o embate com o mal, e na teologia da prosperidade, que apregoa que os fiéis têm o direito de usufruir as boas coisas da vida ainda nessa existência terrena.

Essa conjuntura acelera o mercado consumidor, transformando pessoas em números e fiéis em consumidores. A liturgia da IURD é também diferencial na caça por fiéis. Seus pastores são dotados de um discurso fácil, compreensível, onde revelam um Deus zeloso e cuidadoso, que está interessado no dia-a-dia do fiel, disposto a recompensá-lo e a resolver seus problemas. Desmistificar a figura do criador e trazê-lo para perto dos homens é uma tarefa que a IURD tem realizado com muito êxito. O protestantismo tradicional prega a figura de um Deus todo poderoso, dotado de poderes fantásticos, mas que ao mesmo tempo vai castigar os que não fizerem sua vontade. Para a IURD, apesar de ter super poderes, esse Deus é amoroso e perdoador, disposto a estar perto do homem.

Para Vieira Filho,

[…] no pentecostalismo, podemos observar, portanto, o retorno da atuação divina no cotidiano dos homens. O Deus inalcançável dos protestantes históricos é substituído por outro que, através do espírito santo e em nome de Jesus Cristo, não se furta a agir quando requisitado por seus filhos. Como será possível ver no caso especifico da IURD, essa atuação de forças divinas, na medida que é em grande parte fruto da manipulação ritual parece trazer de volta, aos espaços de culto, uma dimensão mágica que se pretendia abolida no protestantismo histórico (VIEIRA FILHO, 2006, p. 85).

A materialização dos problemas e o oferecimento de soluções práticas geram um mercado consumidor de produtos religiosos, divulgados na mídia e que encontra um grande filão nas camadas menos abastadas da população. A Igreja Universal vive da exploração da doença, sofrimento, miséria e precárias condições de vida dos fiéis (MARIANO,1995) e a solução para tais problemas são “oferecidos” nos balcões religiosos em particular a IURD.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A partir do estudo realizado, fica evidente que o crescimento da IURD está diretamente ligado a sua política arrojada de administração, transformando a fé em um mega negócio que vai muito além das contribuições dos fiéis, passando pelo mercado de salvação, fonográfico, construtoras e todo tipo de suvenir gospel.

Percebe-se que o poder midiático da igreja é parte fundamental no processo de atrair fiéis fazendo funcionar toda a engrenagem. É notório, que nada faria tanto sucesso sem a capacidade de adaptação da IURD, que no decorrer da sua história realizou uma metamorfose readaptando antigos ensinamentos protestantes, desmitificando regras de comportamento antes consideradas essenciais pelo protestantismo, a IURD torna a religião praticável, agradável, sendo inclusive um bom negócio, também para o fiel, com a promessa de enriquecimento e felicidade espiritual e material.

REFERÊNCIAS

CENSO 2010, número de católicos cai e aumenta número de protestantes, espíritas e sem religião. IBGE, 2012. Disponível em: http://censo2010.ibge.gov.br/noticias-censo?view=noticia&id=1&idnoticia=2170&t=censo-2010-numero-catolicos-cai-aumenta-evangelicos-espiritas-sem-religiao

CENSO demográfico 2010. IBGE, 2012. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/presidencia/noticias/imprensa/ppts/00000009352506122012255229285110.pdf

MACEDO, Emiliano Unzer. Pentecostalismo e religiosidade brasileira. 262f. (Doutorado em História). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007.

MARIANO, Ricardo. Neopentecostais. São Paulo. Ed. Loyola, 1995.

MARIANO, Ricardo. O futuro não será protestante. Ciências Sociales y Religión/Ciências Sociais e Religião, Porto Alegre, ano 1, n. 1, p. 89-114, set. 1999.

NÚMERO de evangélicos aumenta 61% em 10 anos, aponta IBGE. G1, 2012. Disponível em : http://g1.globo.com/brasil/noticia/2012/06/numero-de-evangelicos-aumenta-61-em-10-anos-aponta-ibge.html

SIEPIERSKI, Carlos Tadeu. Fé, marketing e espetáculo. A dimensão organizacional da Igreja Renascer em Cristo. Civitas, Porto Alegre, v. 3, nº 1, jun. 2003.

TAVOLARO, Douglas; LEMOS, Crhistina. O Bispo.Ed: Larousse do Brasil, 2007.

VICENTINO, Claudio. História geral. Ed atual: São Paulo Scipione, 2002.

VIEIRA FILHO, Antônio Gracias. Domingo na igreja, sexta feira no terreiro. As disputas simbólicas entre a IURD e a Umbanda. 2006. 225f. Tese (Pós graduação em antropologia social). Faculdade de filosofia, letras e ciências humanas. Universidade de São Paulo. São Paulo, 2006.

3. De origem canadense, uma das primeiras igrejas pentecostais instaladas no Rio de Janeiro.

4. Igreja Universal do Reino de Deus.

5. Bairro carioca.

6. Corrente do protestantismo surgida nos EUA nos anos 1970, tem suas bases na teologia da prosperidade e na crença dos dons espirituais.

7. Campanha realizada no mês de dezembro pela IURD onde os fieis são orientados a doarem tudo o que tem, desafiando Deus a suprir suas necessidades.

8. Doutrina pentecostal pela qual os fieis recebem de Deus o dom de falar línguas estranhas.

[1] Especialista em História da Cultura Afro, especialista em História do Brasil, Graduado em História.

[2] Mestre em Educação, Especialista em Educação e relações Etnicorraciais, Especialista em Pedagogia, Graduada em Pedagogia.

Enviado: Agosto, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here