A homossexualidade e o cristianismo conservador: a face cristã da intolerância religiosa espelhada na Bíblia

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A homossexualidade e o cristianismo conservador: a face cristã da intolerância religiosa espelhada na Bíblia
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ARTIGO ORIGINAL

ROCHA, Arlindo Nascimento [1]

ROCHA, Arlindo Nascimento. A homossexualidade e o cristianismo conservador: a face cristã da intolerância religiosa espelhada na Bíblia. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 07, Vol. 06, pp. 68-92. Julho de 2019. ISSN: 2448-0959

É que o amor e o afeto independem de sexo, cor ou raça, sendo preciso que se enfrente o problema, deixando de fazer vistas grossas a uma realidade que bate á porta da hodiernidade, e, mesmo que a situação não se enquadre nos moldes da relação estável padronizada, não se abdica de atribuir à união homossexual os mesmos efeitos dela.[2]

RESUMO

Este artigo tem como objetivo principal analisar a partir da Bíblia, trechos que, ‘supostamente’ justificam atos de intolerância de cristãos ‘conservadores’ em relação aos homossexuais que, muitas vezes manifestam-se através do ódio, do desprezo e da perseguição. O artigo será dividido dois momentos – primeiro: investigar alguns autores que refletem sobre o tema enfatizando historicamente os problemas enfrentados pelos homossexuais; segundo: analisar algumas passagens bíblicas, ‘condenatórias’ da homossexualidade. Assim, visamos corroborar a tese de que, o Cristianismo que prega o amor acima de tudo, vê na homossexualidade, motivos de exclusão e intolerância, sendo muitas vezes visto como abominação, e, por isso, moralmente condenável. Como recurso metodológico, usaremos a revisão bibliográfica objetivando obter informações sistematizadas, a partir de estudos críticos de vários autores, e, os resultados serão apresentados em um texto sucinto, visando não esgotar o assunto, mas lançar luzes sobre um tema absolutamente polêmico.

Palavras-chave: Bíblia, cristianismo, homossexuais, intolerância, abominação.

INTRODUÇÃO

Durante muitos séculos, o Cristianismo desempenhou um papel fundamental no desenvolvimento e aprimoramento ético e moral dos indivíduos, orientando assim, suas relações e comportamentos estabelecidos na sociedade tendo como suporte principal a Bíblia, documento essencial para aqueles que desejam compreender o contexto histórico das origens da fé cristã. Mesmo não tendo sido educado numa família cristã, acaba-se sendo influenciado pelas pessoas que aderiram aos valores e ensinamentos cristãos, pois, atualmente, mesmo vivendo em sociedades secularizadas, esses valores estão muito arraigados no inconsciente coletivo. Por isso, muitas vezes de forma intencional ou não, os homossexuais são vítimas de interpretações leiterias da Bíblia, e por isso, moralmente e fisicamente agredidas e até assassinados.

Entretanto, nos últimos anos o mundo entrou numa era de grandes transformações de forma contínua, acelerada e muitas vezes descontrolada. É inegável que essas transformações tenham ajudado na conquista dos direitos humanos e civis, e, especialmente o reconhecimento dos direitos dos homossexuais em relação ao casamento, paternidade ou guarda de filhos. Mas, apesar dessas conquistas ainda são visíveis traços contraditórios que emergem destas conquistas, atrelados principalmente a não aceitação dos mesmos na família, nas igrejas e na sociedade em geral.[3] Acredita-se que isso acontece porque o Cristianismo, em suas múltiplas faces – católicos, protestantes, evangélicos e neopentecostais, só para citar alguns exemplos, vêm na homossexualidade, segundo os cristãos conservadores uma transgressão da lei divina ou um crime contra a natureza, sendo classificado no Velho Testamento como uma ‘abominação’ e um grande pecado diante de Deus.

No século passado era difícil imaginar as mudanças sociais e as conquistas dos direitos civis atuais e a aceitação de relações homoafetivas, principalmente pelos segmentes mais tradicionais do Cristianismo. Mesmo nas décadas de 70 e 80 do século passado, a intolerância e o preconceito eram infinitamente maiores do que atualmente. Mesmo assim, ainda existe, e pior, muitas vezes velado, pois, na maior parte das vezes são pessoas ligadas à religião cristã ou a pessoas da família. Essas mudanças e conquistas vêm acontecendo porque um número crescente de homens e mulheres vêm trabalhando ao longo dos anos, com a intenção de melhor garantir os direitos e as liberdades civis dos homossexuais. Com a incorporação dos mais jovens militantes e com o início da unificação das lutas por alguns direitos básicos, os homossexuais obtiveram algumas conquistas. Mas, ainda que tenham obtido essas conquistas iniciais, o caminho a percorrer está longe de ser suave. Os movimentos liderados pelos homossexuais deparam-se com muitos obstáculos, principalmente no que tange a aceitação, pois, segundo David Zimerman, “a plena aceitação da homossexualidade ainda continua sendo uma temática bastante polêmica e contraditória. No entanto, existem evidências de que esteja acontecendo uma progressiva aceitação dos especialistas e da sociedade” (ZIMERMAN, 2007, p. 124). Ainda segundo ele, dois fatores concorrem para isso:

Um é o fato de que na moderna ‘classificação das doenças mentais’ (DSM-IV), a homossexualidade não consta como sendo uma doença propriamente dita (o que não impede que determinadas situações homossexuais  sejam bastante doentes), mas sim, como uma livre opção de escolha dos parceiros, homossexual ou heterossexual, a que toda pessoa tem direito. O segundo fator se deve a que a comunidade gay de quase todo o mundo, mercê de lideranças dignas e respeitadas, soube se fazer reconhecer, ocupar lugar de responsabilidade no contexto social, como nas campanhas de prevenção contra a AIDS (ZIMERMAN, 2007, p. 124).

Assim, fazendo uma retrospectiva em pouco mais de um século de luta, o movimento homossexual conquistou direitos que, antes ninguém imaginaria.[4] Não resta dúvida que a homofobia continua existindo, porém, ela é incomparavelmente menos virulenta do que foi há alguns anos. Muitos estudiosos são da opinião que o problema da homossexualidade é fundamentalmente a libertação dos mitos, dos dogmas e das formas de descriminação e intolerância religiosa. É visível ainda que, muitas pessoas ainda vivem atreladas a um passado longínquo e presas a determinados valores e dogmas que não são aceites por grande parte da sociedade contemporânea, tendo em conta as diversas transformações sociais, políticas e religiosas que vivemos atualmente.

Mas, Segundo Vincent J. Genovesi Sj, antes de tentar desmascarar os mitos que cercam a homossexualidade, podemos em primeiro lugar perguntar como os mitos e os equívocos alcançaram tanta proeminência. Para ele, “talvez uma versão mais profunda dessa pergunta tenha sido apresentada por James Harrison, ministro e psicólogo clínico que exerce sua profissão em Nova York” (GENOVESI, 2008, p. 244). Segundo Harrison, “considerando que, uma de cada vinte pessoas que nos rodeia é homossexual, por que será que sabemos tão pouco a respeito da homossexualidade e dos homossexuais, e, que uma parte tão grande do que pensamos que sabemos é falsa”? (HARRISON, 1977, p. 137 apud GENOVESI, 2008). A razão para a nossa ignorância e nossos juízes falsos diz Harrison, é a intolerância da sociedade. Essa intolerância muitas vezes encontra-se legitimado através de passagens isoladas da Bíblia, os quais são interpretados de forma literal pelos diversos segmentos do Cristianismo ‘conservador’[5] mostrando assim claramente, segundo eles, que Deus é contra a homossexualidade, pois, esse foi um dos motivos que Ele destruiu Sodoma e Gomorra, como descrito no (Gn 19).

Harrison explica ainda que, devido principalmente à discriminação e ao ridículo aos quais sabem que seriam submetidos, muitos homossexuais procuram negar ou ocultar sua orientação sexual. Se desejarem viver em paz e sem riscos para seus direitos civis, os homossexuais muitas vezes sentem-se obrigados a uma espécie de existência invisível, mas, é em grande parte por causa da invisibilidade que surgem e perduram as caracterizações convencionais dos homossexuais. Porém, atualmente, para muita gente, a ideia de estigmatizar alguém por causa de sua sexualidade parece ridícula e teria parecido estranha para o povo da Grécia Antiga, por volta do ano 500, a. C. Na então sociedade onde até mesmo os deuses, (Zeus, Dionísio e Afrodite), favoreciam casos amorosos com ambos os sexos, os meros mortais se mostravam igualmente liberadas da moderna convenção sexual.

Assim, nosso objetivo com esse artigo é analisar em primeiro lugar alguns autores que refletem sobre esse tema enfatizando historicamente os problemas enfrentados pelos homossexuais ao longo dos tempos, mas, principalmente, na sociedade contemporânea. Em segundo lugar, analisar criticamente algumas passagens bíblicas que, de acordo com as interpretações dos crentes e fiéis, Deus condena a homossexualidade, e por isso, o Cristianismo mesmo pregando o ‘amor acima de tudo’, posiciona-se contrariamente a qualquer tipo de relação homoafetiva, e, finalmente apresentar-se-á a posição crítica, que visará corroborar ou não, a tese de que o cristianismo que tem como imperativo o ‘amor a Deus e ao próximo’, vê na homossexualidade, motivos de exclusão e intolerância.

A FACE CRISTÃ DA INTOLERÂNCIA RELIGIOSA: BREVE ANÁLISE HISTÓRICA

A questão homossexual afeta o Cristianismo como religião monoteísta (culto a um único Deus), desde os primórdios da sua criação. Os cristãos sempre acreditaram que, Deus criou o homem e a mulher (Adão e Eva), como está escrito na Bíblia: “Deus criou o homem e a mulher à sua imagem, à imagem de Deus ele o criou, o homem e a mulher ele os criou” (Gn 1: 27). Então, acredita-se que, o homem e a mulher foram criados biologicamente distintos, apesar da mulher ter sido criada literalmente a partir da mesma carne e do mesmo sangue que o homem, pois, como descrita no (Gn 2: 23), logo após a retirada da costela do homem, Iahweh modelou uma mulher e a trouxe ao homem. Então, ele exclamou: “Esta sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada de mulher, porque foi tirada do homem!” (Gn 1: 24).[6]

Os cristãos postulam que, a partir da criação formou-se assim a unidade heterossexual que determinou a primeira forma de ‘família tradicional’ como é considerada atualmente, principalmente pelos mais conservadores. Assim, partindo desse princípio da unidade heterossexual, qualquer união que fuja a esse padrão, como no caso da união homoafetiva, é contra os desígnios de Deus. Portanto, o relacionamento conjugal para os cristãos só é possível entre o homem e a mulher, e, consequentemente qualquer relacionamento que não seja heterossexual, não tem valor a luz da palavra de Deus.

Entretanto, uma visão diferente é apresentada por John Boswell, em seu clássico Christianity, social tolerante and homosexuality (Cristianismo, tolerância social e homossexualidade). Boswell defende que “o primeiro milénio do Cristianismo foi muito mais tolerante à homossexualidade do que vulgarmente se imagina: padres, reis e nobres, até santos, foram publicamente reconhecidos como amantes do mesmo sexo”.[7] Nela, o autor faz uma análise histórica interessante, alegando que atitudes religiosas intolerantes em relação à homossexualidade, são apenas uma invenção recente e que a atitude prevalecente, mesmo entre o Cristianismo primitivo, era de tolerância, seguindo as atitudes romanas da época. Como exemplo de tolerância segundo Da Silva (2007, p. 85), no “Império Romano, foi promulgada uma lei, conhecida como Lex Scatina, destinada a regulamentar o comportamento sexual”. De acordo com essa lei, os romanos não podiam amar os meninos livres […], contudo, podiam ter relacionamentos sexuais com os meninos escravos. (Ibid.).[8] O objetivo dessa lei era proteger apenas os garotos livres, mas, segundo a autora, na prática não impediu tal costume (Ibid.). Analisando essa lei sob a lupa da sociedade atual, ela é legalmente e moralmente condenável, pois, as crianças e os adolescentes devem ser protegidos (as) contra todo e qualquer tipo de abuso sexual, sendo os infratores julgados e condenados por tais práticas. Mas, o que não se pode ignorar é que, ao longo da história da humanidade, todas as sociedades têm exibido formas de amor homossexual. A partir disso, podemos então inferir corroborando a tese de Spencer (1996, p. 371), de que o que chamamos hoje de homossexualidade é um aspecto permanente da natureza sexual do homo sapiens.

A narrativa presente no Gênesis, segundo a interpretação dos cristãos, Deus não queria que Adão e Eva vivessem sozinhos, por isso, Ele os abençoou e lhes disse “Sede fecundos, multiplicai-vos enchei a terra”[…] (Gn 1: 28). A partir daí e fazendo uma interpretação literal dessa passagem, os cristãos acreditam fielmente que, estaria selado o pressuposto básico, ou seja, o modelo da família aprovado com o selo divino. Mas, o que não está explicado e que ainda causa inúmeros questionamentos é como que a partir de um único casal seria possível multiplicar e encher a terra, sem que pelo menos fosse violado um dos princípios condenados na Bíblia, ou seja, o incesto. Penna, é de opinião que, são inquestionáveis algumas contradições facilmente detectáveis, mas, “de qualquer modo, há quem sustente que a Bíblia é um texto absolutamente irretocável. Tudo quanto nela se registra devemos confiram como marcado pela infalibilidade, mesmo quando propondo afirmações desqualificáveis” […] (PENNA, 1999, p. 102). Essa, segundo Penna, “é a tese dos ‘fundamentalistas’.” (Ibid.).

Seguindo a mesma narrativa, observa-se que passados milênios após a criação, os problemas que assolam a família atual estão relacionados intimamente com os papeis femininos e masculinos, ou seja, emancipação feminina, uniões homoafetivas, liberdade sexual, etc. Aos olhos dos cristãos, esses fatos conduziram necessariamente ao que comumente é conhecido como a ‘crise da família tradicional’. Com a revolução sexual dos anos 60 até agora, segundo Pondé (2011), foram inúmeras as transformações que aconteceram no seio da família, da igreja e da sociedade em geral. Mas, o tema homossexualidade, possivelmente é um dos temas mais problemáticos para os segmentos cristãos mais conservadores.

Assim, rejeitados por suas comunidades de fé ao revelarem sua orientação sexual, boa parte dos homossexuais são afastados não formalmente, mas pela intolerância, ódio, desprezo e indiferença. Muitos até tentam ofuscar seus sentimentos, fazendo de tudo para deixar de sentir atração física por pessoas do mesmo sexo, o que geralmente gera tormentos pelo peso da culpa que acham que carregam. Nesse aspecto as relações entre os cristãos e os homossexuais não é de todo pacífico, uma vez que lhes causa muito sofrimento. Eles são tratados como seres pecadores fazendo com que cada vez mais evitem revelar sua identidade sexual à família, à igreja que frequentam e a sociedade onde se encontram inseridos, como forma de autoproteção. Porém, atualmente as coisas são bem diferentes do que foi há um século.

Ao investigar sobre a origem etimológica da palavra homossexual, encontrou-se na obra de Oiced Mocam, Religiões: tudo o que você precisa saber antes de morrer, lançado em 2015, no capítulo cujo título é A homossexualidadea hipocrisia das religiões, uma passagem que afirma que, a palavra homossexual foi criada em 1869, reunindo duas raízes linguísticas: homo (do grego, significando ‘igual’) e sexus (do latim, significando ‘sexo’), assim, literalmente pode-se inferir que o termo significa “sexo entre iguais”. Ainda segundo o autor supracitado, o poeta e escritor Goethe, afirmou que, a homossexualidade é tão antiga quanto à humanidade. Certamente, cada tempo com sua experiência singular, mas com o mesmo direcionar de desejo: o sexo igual (MOCAM, 2015, p, 56). Mas, apesar da antiguidade dos atos homossexuais, em nenhuma parte da Bíblia encontra-se referência explicita à palavra homossexual como tal, se não forem puras interpretações, pois, como se viu essa expressão surgiu recentemente, mais concretamente no séc. XIX. Mesmo os que admitem que a Bíblia condena a homossexualidade não confirmam que as Escrituras cogitam um relacionamento homossexual como entendemos atualmente.

Em seu livro Em busca do amor: moralidade católica e sexualidade, Genovesi (2008, p. 247) elenca algumas das definições usadas por diversos autores para descrever o que significa ser homossexual.

Primeiro: os homossexuais “são aqueles indivíduos que de maneira mais ou menos crônica sentem persistente desejo e receptividade sexuais em relação à pessoas do mesmo sexo e que procuram a satisfação desse desejo principalmente com pessoas do mesmo sexo” (RUBIN, 1965, p. 1); segundo: o homossexual é alguém “que na vida adulta, é motivada por uma atração erótica preferencial definida para pessoas do mesmo sexo e que habitualmente (mas não necessariamente) mantém evidentes relações homossexuais com eles” (MARMON, 1965, p. 4); terceiro: o homossexual é um adulto, “cuja orientação afetiva e genital principal volta-se primeiramente para o mesmo sexo” (NELSON, 1979, p. 201); quarto e último, os homossexuais, são “os que sentem à vontade e se afirmam quando tem intimidade com outras pessoas do mesmo sexo, enquanto, com o sexo oposto, sentem-se fracos, ressentidos, amedrontados ou apenas indiferentes e menos a vontade quando a intimidade genital é possível ou ocorre” (KKTAFT, 1981, p. 371).

Em todas essas definições não é visível nenhum tipo nenhum tipo de condenação à luz das interpretações de passagens isoladas da Bíblia. Apesar do apelo sexual com pessoas do mesmo sexo, os homossexuais são pessoas que fazem parte da nossa rede de amigos, colegas de trabalho, familiares próximos ou distantes, em fim, são nossos iguais, e como tal, devem ser tratados com respeito, pois, tudo começa com o respeito. Mas a grande questão é: será que condenar pessoas por suas preferências sexuais tendo como base a Bíblia é fazer justiça de Deus?

Retomando o que foi dito por Mocam, o vocábulo ganharia outros derivados: ‘homossexualismo’, considerado um termo pejorativo, por isso, utilizado por pessoas com uma visão negativa da homossexualidade, pois, o sufixo ismo remete à doença; a ‘homossexualidade’, que pode ser definida como condição ou qualidade do homossexual que foi introduzida, segundo Vidal (2002), a partir do séc. XIX por um médico de nacionalidade húngaro. Assim, “apesar da sua conotação clínica inicial, ele passou a ser uma realidade humana total de pessoas cuja pulsão sexual orienta para indivíduos do mesmo sexo” (VIDAL, 2002, p. 117); e, recentemente ‘homoafetividade’, que é entendida como uma relação afetiva entre duas pessoas do mesmo sexo que desejam o reconhecimento legal de seus direitos.

No Brasil, o casamento homoafetivo foi reconhecido como entidade familiar pelo Supremo Tribunal Federal em 05 de maio de 2011.[9] Então, a partir dessa data, em tese, desapareceram os empecilhos legais para a união homoafetiva de duas pessoas visando obter os mesmos direitos civis que os casais heterossexuais, garantindo assim, o princípio da dignidade humana e da igualdade reconhecida judicialmente entre pessoas do mesmo sexo. Porém, há muito tempo sabe-se segundo Fonseca (2016) que, a união entre pessoas do mesmo sexo não é novidade na história da civilização. Em todos os tempos e civilizações essa união ocorreu de forma explícita ou implícita. Mas, na tradição ocidental cristã, dificilmente se podia encontrar menção a qualquer texto normativo que reconhecesse essa relação. Portanto, para os cristãos o casamento válido e aprovado por Deus e pela Sagrada Escritura é o casamento entre o homem e a mulher. Então, é nessa parte é que se dá a cisão entre o direito legal e o conteúdo bíblico.

Ao analisar a relação entre os cristãos e os homossexuais, pode-se prever que atos de intolerância estão muito longe de ter um fim, pelo menos no Brasil e que há ainda um longo caminho a percorrer, tendo em conta que durante séculos a sociedade brasileira foi orientada pela religião assim como pelos costumes, a tratar os homossexuais como diferentes. Assim, segundo Genovesi, mesmo, à luz da intolerância e descriminação, diversas observações são oportunas. Para começar,

ter experiências homossexuais isoladas ou periódicas não quer dizer que alguém é homossexual. Os adolescentes, em especial, podem sentir atração sexual por pessoas do mesmo sexo, mas muitas vezes essas experiências em si são apenas reflexos de curiosidade sexual e manifestação sexual de uma das fases do desenvolvimento psicossexual. Como tal, não indicam que esses adolescentes são ou virão a ser homossexuais para o resto da vida. Ao mesmo tempo, há quem jamais tenha contato sexual ou genital explícito com pessoas do mesmo sexo e é, contudo, verdadeiramente homossexual, visto que sua atração erótica predominante volta-se para as pessoas do mesmo sexo e é só com elas que consegue encontrar a realização afetiva (GENOVESI, 2008, p. 248).

Então, torna-se necessário reconhecer a diferença existente entre a orientação homossexual de alguém e a atividade genital resultante da atração física que esse alguém sente por pessoas do mesmo sexo, uma vez que, nem toda a atividade homogenital reflete uma verdadeira orientação homossexual.[10] Por isso, torna-se importante reconhecer a existência do fenômeno da pseudo-homossexualidade[11]. De acordo com Bob Hofman,

A verdadeira homossexualidade é inata. Da mesma forma que uma pessoa nasce grega, chinesa, preta, escandinava, surda, cega, retardada, paralítica, ou o quer que seja, nasce-se para ser hetero ou homossexual. É atualmente conhecido que a orientação sexual de uma criança é determinada numa idade muito nova. […] Com dezessete meses. Então obviamente a homossexualidade inata está além das causas da programação (HOFFMAN, 1991, p. 62).

Reafirma-se que, a homossexualidade está em todas as culturas, em todas as épocas e lugares, embora numericamente, pode-se considerar que, os homossexuais sempre foram a minoria entre os heteros. Estudiosos, afirmam que ela é tão antiga, como a própria humanidade como já foi citado, porém, na Antiguidade ninguém saía ostentando sua orientação sexual em público. Investigações recentes mostram que, por milhares de anos, o amor entre iguais era tão comum que não existia nem o conceito de homossexualidade. Na mitologia grega, romana ou entre os deuses hindus e babilônicos, a homossexualidade existia. Assim como se imagina que a homossexualidade tenha inspirado os jovens guerreiros da Grécia a atos de bravura em defesa da liberdade. De acordo com Rodrigues Lima,

entre a maioria dos povos da Antiguidade no tocante a homossexualidade, tinha um vínculo muito forte com a religião, por exemplo, muitos deuses se apresentavam como bissexuais, homossexuais ou não tinha sexo definido. O deus Hindu Ganesha, era um mito que nasceu de uma relação sexual entre duas divindades femininas. E se referindo à mitologia grega, Herácles, obteve a ajuda de sua amante Eromenos para concluir seu trabalho oitavo (RODRIGUES, 2008 apud ILÁRIOS, 2016, p. 54).

No período clássico a homossexualidade floresceu a partir do século VI a. C., período que coincide com a passagem para uma vida mais tranquila e confortável. Entretanto, Em Atenas, nos séculos V e IV a.C.,

o contato sexual entre homens possuía uma particularidade: apesar de ocorrer com frequência, em hipótese alguma os envolvidos poderiam denotar alguma feminilidade, recusar sua masculinidade, travestir-se ou comportar-se como uma mulher, diferentemente de alguns grupos homossexuais contemporâneos, que se vestem caracteristicamente de forma afeminada, transformam seu corpo com o uso de hormônios femininos e até mudam de sexo por meio de intervenções cirúrgicas. Um cidadão ateniense, ao se comportar como uma mulher, estaria se sujeitando a uma posição aquém daquela a qual pertencia, rejeitando sua cidadania e seus direitos (SOUSA, 2008, p. 22).

Do ponto de vista antropológico, cada cultura inventou formas diferentes de satisfazer a sexualidade, como as transmite e regula sua normativa. Então, entre as culturas, vários fatores favoreceram a homossexualidade, como resposta às condições de vida. Na obra Homossexualidade: ciência e consciência, cuja terceira edição é de 1998, os autores elencam alguns aspetos como se lidou com a homossexualidade para resolver problemas sociais emergentes. Assim, entre as várias culturas destacam-se:

a cultura chukchee da Sibéria resolve com a homossexualidade o problema social do excesso de solteiros devido aos altos preços que deviam pagar pelas esposas […] Os Koniag encontram na homossexualidade a solução para a necessidade de ter magos, de poder conjugar espíritos e seres superiores em benefício do grupo. Dos karaki, pode-se afirmar que com a homossexualidade marcam claramente a hierarquia entre os recém-iniciados e o resto dos não casados, ao mesmo tempo que é uma forma de desafogo da sexualidade para os que não tem esposa. […] os crow e outros povos têm relações homossexuais como solução para o problema do desafogo sexual que, fundamentalmente, se centra nos jovens não casados (VIDAL, et al., p. 40, 41).

Entre as culturas que refutam a homossexualidade, a caraterística de pressão sexual deve-se dar normalmente em níveis pré-matrimoniais. Então, as culturas que optam pela repressão sexual o fazem em função da clareza da estrutura social. Não há problemas de filhos ilegítimos, mães solteiras, incesto. Com a repressão da homossexualidade, os papeis dos homens são separados dos femininos, vai-se da diversidade dos corpos à diversidade de funções entre homens e mulheres e se aclara a instituição do matrimónio, o nexo entre o sexual e o procriativo, a delimitação das relações entre homens (VIDAL, et al, p. 42).

Segundo Tom Ambrose, em sua obra Heróis e exílios: ícones gays através da história, (2011) a poetisa Safo (c. 630-570 a.C.), não via incongruência ao combinar seu papel social como esposa com suas ligações com pessoas do mesmo sexo. Ainda segundo ele, o biógrafo grego Plutarco (46-119, a.C), sabiamente escreveu na época que, “nenhuma pessoa sensata pode imaginar que os sexos deferiam em matéria de amor, como o fazem quanto ao vestuário. O amante inteligente de beleza se atrairá pela beleza seja qual for o gênero em que ela se encontre” (AMBROSE, 2011, p. 4). Ainda segundo ele, com a ascensão do poderio romano, as atitudes em relação à homossexualidade mudaram, e o sistema mestre-pupilo do amor grego perdeu o beneplácito. No entanto, a homossexualidade continuou livre de qualquer controlo social ou legal.

Ainda segundo esse autor, séculos depois, o historiador inglês Edward Gibbon (1737-1794), ao escrever sobre o século XVIII, afirmou que, dos 12 primeiros imperadores romanos, apenas Claudius (10 a.C-54 d.C) era exclusivamente heterossexual, tendo sido até criticado por seu próprio historiador, Suetônio (69, a.C-122 d.C), por ser muito restrito em seus gostos sexuais. Porém, contrariando o que foi dito por John Boswell, citado anteriormente no que tange a tolerância social perante os homossexuais, Ambrose afirma que,

depois que o imperador Constantino (morto em 337 d.C) se converteu ao Cristianismo em 313 d. C., a tolerância e até mesmo o desinteresse, em relação a homossexualidade na Antiguidade foi banida pela ascensão do Cristianismo.[12] A fundamentação da Igreja para atacar a homossexualidade parece ter sido o único verso do Livro Levíctio no Antigo Testamento, que parecia ordenar a perseguição dos sodomitas. Na realidade a Igreja recentemente vitoriosa procurava dominar e controlar todos os aspetos da vida humana, inclusivo no âmbito sexual. (AMBROSE, 2011, p. 6).

Retomando a narrativa que descreve a homossexualidade na Antiguidade, constata-se que nessa época o sexo não tinha como objetivo único a procriação, mas, tudo começou a mudar com o advento das religiões monoteístas no ocidente. O Judaísmo, primeira religião monoteísta, já pregava que as relações sexuais tinham como o único fim a máxima exigida por Deus, explícita no (Gn 1: 28) anteriormente citado. Até o início do século IV, essa ideia, ficou restrita à comunidade judaica e aos poucos cristãos que existiam. Entretanto, não há como negar que,

Judaísmo e sodomia desde sua origem e ao longo dos últimos quatro mil anos, estiverem sempre juntos. No mais das vezes o judaísmo condenando os homossexuais. Intimamente ligados, porém, quando as vivências biográficas de judeus gays e lésbicas judias. Ambos sofrendo os horrores da intolerância, os filhos de Sodoma e de Abraão executados nas mesmas fogueiras da Inquisição e dos campos de concentração (GORENSTEIN et al, 2005, p.25).

Segundo Carroll, uma das críticas dos cristãos aos judeus é que o Deus do Velho Testamento era o Deus da Lei sem coração, da vingança, da punição, enquanto que o Deus do Novo Testamento é o Deus do amor, da misericórdia e do perdão (CARROL, 2002, p. 132).

Assim, com o advento do Cristianismo, religião com pretensões universalistas que surgiu a partir da mensagem e dos ensinamentos de Jesus, tais como apresentados no Novo Testamento, cuja mensagem principal, era o amor acima de tudo, houve um deslocamento conceitual e teológico. Portanto, se a vingança e a punição divina era a marca registrada do Velho Testamento, então, o Novo Testamento tendo como fundamento o perdão e o amor, mostram os caminhos a serem percorridos pelo bom cristão que, acima de tudo, estão impregnados de amor incondicional. Em tese, usando a máxima do “amor acima de tudo”, deveria ser possível ser mais tolerante com o outro, pois, na Bíblia é possível identificar exemplos de amor entre pessoas do mesmo sexo, ainda que não referindo ao sexo explícito como nos casos de Davi e Jonatas, Rute e Noemi, Daniel e eunuco-chefe de Nabucodonossor.

Se na Bíblia existem passagens que quando interpretados literalmente, condenam as práticas homossexuais, o mesmo não se pode dizer em relação a Cristo, pois, segundo vários intérpretes da Bíblia, ele nunca falou nenhuma palavra contra os homossexuais, o que de certa forma pode contrariar o argumento usado pelos cristãos de que a Bíblia condena a homossexualidade. Então, como pode os cristãos odiar tanto os homossexuais se o próprio Cristo, a pedra angular do Cristianismo nada disse que pudesse condená-los? Uma das possíveis respostas está na intolerância, muitas vezes subsidiada por interpretações literais de passagens isoladas da Bíblia Sagrada, pois, como se sabe, essa forma interpretativa pode levar ao fundamentalismo religioso, portanto, a atitudes de intolerância, tendo em conta que, nem sempre as palavras e as mensagens significam o que elas dizem. Armstrong (2007, p. 10), corrobora essa ideia ao afirma que, “desde os primórdios, a Bíblia não teve uma única mensagem”, portanto, para melhor descodificar e entender a mensagem bíblica, ela deve ser sempre contextualizada ao momento histórico, filosófico, político e religioso de cada época.

Por isso, no próximo item do nosso artigo, iremos refletir criticamente sobre algumas passagens Bíblicas no que tange as relações entre os homossexuais e os cristãos, pois, estes muitas vezes, fazem uma análise desprovida de diretrizes suficientemente elaboradas dos conceitos e das passagens apresentadas na Bíblia, e, uma parte significativa chega a beirar a legitimação de suas interpretações através do senso comum que não requer estudos exegéticos críticos e detalhados.

INTERPRETAÇÕES DIVERGENTES DA BÍBLIA: O SUSTENTÁCULO DA INTOLERÂNCIA CRISTÃ FACE A HOMOSSEXUALIDADE

A Bíblia até então considerado o texto sagrado por excelência para o Cristianismo, é também tido como um guia moral, não só para os cristãos, mas, para a humanidade, pois, nele encontram-se, segundo os líderes religiosos cristãos, o verdadeiro e perfeito padrão de comportamento e moralidade, norteada pelo perdão, pela caridade, tolerância, e, acima de tudo, pelo amor à Deus e ao próximo, como está escrito no primeiro e segundo mandamentos (Mt 1: 37) “Amarás ao Senhor, teu Deus de todo o coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento”, e, (Mt 1:38) “Amarás o teu próximo como amarás a ti mesmo”. A esses dois mandamentos, adicionam-se mais oito, formando assim o ‘Decálogo’ que sintetizam as prescrições do Antigo Testamento, e, por isso, os cristãos são obrigados a cumprí-los. Por isso, segundo Ferry (2007, p. 97), “pode-se dizer que o Cristianismo é a primeira moral universalista”, por isso, ele é essencial para a vida do cristão porque proporciona segundo Armstrong (2007), o único acesso a Jesus.

Nos dois mandamentos acima citados, o que mais chama atenção é o ‘amor incondicional’ não só a Deus, mas, principalmente ao próximo. Assim, esse princípio deveria ser o imperativo supremo norteadora das nossas relações interpessoais independentemente da origem, da raça, da cor, da orientação sexual, etc., pois, “amar ao próximo como a si mesmo” é efetivamente uma forma de priorizar o outro, através do amor cristão. Mas, quando se trata dos homossexuais, é visível por parte dos cristãos que, esse mandamento não é interpretado literalmente, assim como outras passagens bíblicas tidas como condenatórias da homossexualidade, o que por si só, demonstra que nem sempre as interpretações literais são as mais adequadas.

Porém, os cristãos conservadores propõem que a Bíblia, ‘reveladora da palavra de Deus’, seja interpretada literalmente, ou seja, ao pé da letra como a linha mestra que orienta a moralidade cristã. Esta posição, segundo vários intérpretes é falha por várias razões, pois, dependendo de quem, da época, do contexto e dos objetivos religiosos, multiplicam-se as interpretações, não havendo objetividade na sua exegese. A própria Bíblia está cheia de exemplos de intolerância religiosa. O Apóstolo Paulo, por exemplo, que se converteu ao Cristianismo, após várias investidas contra a liberdade de cultos dos cristãos no primeiro século, foi humilde ao reconhecer o seu grande erro: “Porque eu sou o menos dos apóstolos, que não sou digno de ser chamado de apóstolo, pois que persegui a Igreja de Deus” (1 Co 15, 9). Assim, segundo Armstrong, qualquer interpretação que dissemine ódio ou desdém é ilegítima, e por essa razão, “a Bíblia atualmente corre o risco de se tornar letra morta ou irrelevante, pois, tem sido distorcida por afirmações de infalibilidade literal […]” (ARMSTRONG, 2007, p. 225).

A partir daí pode-se inferir que os cristãos que aplicam a interpretação literal da Bíblia em sua vida e na dos outros estão, na verdade violando os ensinamentos de Cristo, pois, sua principal mensagem era de amor, fraternidade, tolerância, por isso, segundo Ferry (2007), Cristo sai do círculo dos conformistas, ou seja, daqueles que pensam na interpretação e aplicação estrita dos versículos e apela à consciência dos crentes, questionando se realmente eles tinham consciência e certeza do que estavam fazendo. Essa questão é tão atual que pode ser repetida sempre que se depare com qualquer ato de intolerância, sobretudo, em relação aos seguidores de Cristo quando destilam seu ódio venenoso perante os homossexuais.

A religião judaico-cristã sempre teve o entendimento que a homossexualidade era contrária à natureza humana, como expresso em (Rm, 1: 26, 27), “Por isso Deus os entregou às paixões aviltantes: […] os homens, deixando a relação natural com a mulher, arderam uns com os outros, praticando torpezas homens com homens e recebendo em si mesmos a paga da sua aberração”. Nessa passagem, segundo (BRAKEMEIER, 2008), o apóstolo Paulo acusa os heterossexuais de terem culposamente abandonado à ordem natural do sexo e ter preferido a perversão homossexual. Atualmente não tem sido diferente, pois, essa passagem tem sido usada pelos cristãos conservadores como um dos principais argumentos contra a homossexualidade, pois, acreditam e defendem que “não é natural”, pois, muitos afirmam que ‘Deus criou Adão e Eva, não Adão e Ivo’. A justificativa geralmente apresentada é que, o relacionamento ‘natural’ entre o homem e a mulher está estabelecido na ordem regular da natureza, porém, os pagãos (homossexuais) são culpados pela violação desta mesma natureza ao preferirem contrariar a ordem natural estabelecido por Deus, desde a criação.

Entretanto, explorando a Bíblia a fundo, observa-se que, não existe nenhum tipo de condenação ou proibição da homossexualidade a semelhança dos dias atuais, onde a homofobia, conceito que entrou no vocabulário atual a partir da década de 1970, tendo sido usado segundo (SILVA, et al, 2017 ), pela primeira vez, por K. T. Smith nos EUA, em 1971, mas, a primeira definição só seria apresentado por G. Weinberg em 1972, segundo o qual, a homofobia seria, “o receio de estar com um homossexual em um espaço fechado” […]. Atualmente essa expressão, significa segundo Guimarães (2012, p. 1), “qualquer forma de descriminação e preconceito contra homossexuais, seja partindo de uma pessoa, grupo ou instituição, seja partindo de um homossexual e até de si mesmo”, mas, segundo da Silva (2007, p. 87) foi “a condenação do famoso escritor Oscar Wild na Inglaterra no final do século XIX, marcou a institucionalização da homofobia”.

Segundo Daniel J. Harrington, em sua obra Jesus e a ética da virtude: construindo pontes entre os estudos do novo testamento “as duas proibições explicitas ao comportamento homossexual presentes no Antigo Testamento constam do Código de Santidade do Levítico. Ambos surgem entre ‘abominações’ tais como relações sexuais entre parentes próximos, sacrifício infantil e bestialidade” (HARRINGTON, et al. 2006, p. 241). Assim, para os cristãos, o (Lv 18, 22) decreta literalmente: “Não te deitarás com um homem como se deita com uma mulher. É abominação”; o (Lv 20, 13), também proíbe a atividade homossexual: “o homem que se deita com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometem uma abominação, deverão morrer, e o seu sangue cairá sobre eles” (Ibid.). Apesar da condenação explicita à morte citado no último versículo, segundo Harrington, não há, contudo, nenhuma prova Bíblica de que alguém tenha de fato sido condenado à morte pela prática de homossexualidade.

A palavra ‘abominação’ que aparece nos dois versículos acima citados tem sido uma ‘arma’ poderosa usada pelos cristãos, quando se trata de condenar os atos homossexuais, pois, em todo caso, para alguns cristãos, eles são considerados ‘impuros’, mas, segundo Daniel Helminiak, ‘abominável’ é apenas um sinónimo de ‘impuro’, pois, uma abominação é uma violação das regras da pureza que governa a sociedade. Por isso o (Lv 20: 25), Deus prometeu separar os puros dos impuros “farei distinção entre animal puro e impuro, entre a ave pura e a impura. Não vos torneis vós mesmos imundos como animais, aves e com tudo o que rasteja sobre a terra, pois, eu vos fiz pô-los à parte, como impuros”. Por muito tempo essa separação, presente entre os cristãos que se auto-intitulam como ‘puros’ e os homossexuais considerados por eles como ‘impuros’ esteve claramente delimitado, pois, sob esse estigma religioso, os homossexuais sempre foram tratados com intolerância, violando assim, o princípio da liberdade e dignidade humana. Atualmente essa distinção entre ‘puros’ e ‘impuros’ é uma questão problemática como sempre foi, pois, a homossexualidade está presente em todas as instituições sociais inclusive nas igrejas que, muitas vezes tem sido omissas relativamente a atos homossexuais e até crimes de pedofilia e estupro de vulneráveis praticado pelos seus membros ao longo da história das igrejas.

Retomando o citado Código de Levítico, Daniel Helminiak afirama em sua obra O que realmente a Bíblia diz sobre a homossexualidade,que:

A questão é que o Código Sagrado do Levítico proíbe o ato sexual entre os homens devido a considerações religiosas, e não sexuais. A intenção era a de impedir Israel de participar das práticas dos gentios. O sexo homogenital era proibido porque estava associado à atividade pagã, à idolatria e à identidade gentia (HELMINIAK, 1998, p. 50).

Pode-se concluir segundo Helminiak que, a questão no Levítico era religiosa e não ético ou moral. Isso equivale a dizer que o sexo em si ser certo ou errado, nunca foi cogitado. Tratava-se apenas da manutenção de uma forte identidade judaica. Já no Novo Testamento, segundo Hutchinson (2013) grande parte do ataque exegético concentra-se em São Paulo, uma vez que, ele discute principalmente em Romanos e Coríntios, através dos seguintes versículos: (Rm 1: 18) “manifesta-se, com efeito, a ira de Deus do alto do céu, contra toda a impiedade e injustiça dos homens que mantem a verdade prisioneira da injustiça”; (Rm 1: 23) “Trocaram a glória de Deus incorruptível por imagens do homem corruptível […]; (Rm 1: 24) “Por isso, Deus os entregou segundo o desejo de seus corações à impureza em que eles mesmos desonraram seus corpos”, (Rm, 1: 26, 27) citado anteriormente; e, (1 Cr 6: 10) “Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.

Acredita-se, que a grande questão que leva a intolerância religiosa face aos homossexuais, usando como suporte a Bíblia reside na matriz exegética usada, pois, o modo que se interpreta os textos é fundamental. Uma das críticas apontadas por Helminiak (1998, p. 24) na exegética bíblica, é que algumas palavras e passagens podem ter um determinado significado para nós atualmente e, na época das pessoas que as escreveram, seu significado ter sido totalmente diferente. Por outro lado, é preciso entender que, naquela época, as pessoas não tinham a concepção de homossexualidade como temos atualmente, pois, tratava-se de uma sociedade patriarcal, em que o sexo, geralmente não estava vinculado com amor e muito menos com afeto. Portanto, o sexo era meio de procriação e de prazer, mas também de dominação, pois, após as batalhas, os vitoriosos, obrigavam os derrotados a prática de sexo, assim como os donos de escravos (as) que, para exercerem sua dominação praticavam sexo forçado com seus (as) escravos (as).

Em sua obra Christianity and morals (Cristianismo e moral), cuja primeira publicação foi em 1939, Westermarck, reconhece a existência da uma legislação romana condenatória da homossexualidade, anterior a difusão do Cristianismo, embora segundo tal autor, essa legislação raramente tenha sido aplicada. Tudo parece indicar que esta lei era letra morta e, era aplicado unicamente em casos de violação de menores livres como foi referido anteriormente por Da Silva (2007). Os juristas romanos estendiam o marco dessa lei, condenando os atos homossexuais com menores de 17 anos, em um desejo de protegê-los contra os abusos dos adultos. Este será o substrato da legislação romana sobre a qual se articulará a legislação promulgada pelos Imperadores cristãos depois que o Cristianismo se converte em religião do estado.

As leis dos Imperadores Constâncio e Constante (342) não apenas condena a pederastia, mas também aos homossexuais passivos que se ofereceram à maneira de uma mulher. A lei de Valentiniano II, Teodósio e Arcádio (390) castigam com a pena de serem queimados vivos os que se dedicam à prostituição homossexual e os que procuram homens ou rapazes com fins de prostituição (VIDAL, et al, p. 97).

Essa atitude dos Imperadores cristãos reflete fundamentalmente o pensamento dos primeiros escritores cristãos. O tema da homossexualidade não é obsessivo, mas é claramente condenado com base no episódio de Sodoma e em seu caráter antinatural[13]. Esse episódio é descrita por (GORENSTEIN, et al., 2005, p.25), ao afirmar que, “a destruição de Sodoma, o principal emblema da homossexualidade na cultura ocidental”[…] porém, segundo C. Ann Shepherd autor de The bible and homossexuality (A Bíblia e a homossexualidade), as cidades de Sodoma e Gomorra não foram destruídos porque os homens se deitavam com outros homens, mas por uma série infindável de pecados, como estupros e violação homossexual […] (ALMEIDA, 2001, p. 72). Entretanto, para Constantino (2008, p. 41), o teólogo Derrick S. Bailey publica um desafio contra a proibição bíblica da homossexualidade, intitulado Homossexuality and wester chistian tradition (Homossexualidade e tradição cristã), onde ele defende a tese de que Sodoma e Gomorra não foram destruídas por práticas homossexuais, mas por falta de hospitalidade.

Segundo Helminiak (1998, p. 46), até Jesus entendia que o pecado dessas cidades como o da falta de hospitalidade. Outras passagens da Bíblia afirmam a mesma coisa de maneira bastante clara. Ainda assim, os cristãos continuam a citar essa passagem para condenar os homossexuais. Ainda segundo ele, há uma triste ironia acerca da desse acontecimento compreendida à luz de seu próprio contexto histórico atual. As pessoas atacam os homossexuais por não se encaixarem na sociedade, são deserdados por suas famílias, separados de seus filhos, despedidos de seus empregos, despejados de imóveis e bairros, insultados por personalidades públicas, espancados e assassinados. Então, fica a questão: aqueles que perseguem e oprimem os homossexuais devido ao suposto pecado de Sodoma, podem ser eles próprios os verdadeiros sodomitas, tal como a Bíblia os entende? (Ibid.).

Como foi referido anteriormente, Westermarck reconhece a existência de uma legislação romana condenatória da homossexualidade, anterior a difusão do cristianismo, porém, (VIDAL, et al, 1985, p. 95), coloca a seguinte questão: “até onde o Cristianismo é responsável por essa atitude de rechaço da homossexualidade que, segundo Ford e Beach, é característica da cultura ocidental, na qual influíram de forma decisiva as diferentes igrejas cristãs”? Segundo ele “lançaram-se acusações muito fortes contra o Cristianismo, considerando-o como um fator decisivo na total desaprovação da homossexualidade que se percebe nos países de cultura cristã”. (Ibid.). Entretanto, para muitos intérpretes da Bíblia, Jesus propriamente dito, nada disse sobre a homossexualidade, e a condenação dos homossexuais parece incompatível com o Evangélio de amor. Então, o fato de Jesus não ter proferido nenhuma palavra contra a homossexualidade demonstra que esse assunto não era uma das suas principais preocupações, pois, sua maior preocupação era com as pessoas independentemente de qualquer julgamento a priori. Tendo em conta esse cenário, Armstrong (2007, p. 225) lança um desafio aos cristãos ortodoxos enfatizando que, em vez de citar a Bíblia com o objetivo de condenar os homossexuais, deveriam lembrar da fé de Agostinho que sempre procurava a mais caridosa interpretação de um texto.

Atualmente, perguntas como essas são muito recorrentes: a homossexualidade deve-se a causas genéticas ou a socialização? Como toda a sexualidade, é um dom de Deus? Qual tem sido a postura das Igrejas? Para as duas primeiras questões existem muitas posições contraditórias e muitos estudos ainda sem respostas definitivas. Mas, em relação à terceira, os fatos não deixam dúvidas. A história das Igrejas cristãs é posta em xeque quando chega a ponto da violência física e psicológica contra os homossexuais. Isso nos leva a levantar uma nova questão: se a homossexualidade é um pecado, ser homofóbico não é pecaminoso também? Em sua obra sexual behavior in the human female, (Comportamento sexual na mulher humana) Alfred Charles Kinsey afirma que:

o fanatismo e obscurantismo religiosos foram os principais responsáveis pelo antagonismo contra a homossexualidade, que foi um traço da atitude do ocidente. A descriminação existente contra a homossexualidade é resídua da barbárie e da beatice eclesiásticas. Alega-se em geral que a igreja medieval constante e desapiedamente, com um zelo furioso, os que condescendiam com atos homossexuais (KINSEY, 1953, p. 484 apud, VIDA, et al., 1985, p. 96).

Ao investigar outras fontes do pensamento religioso cristão há condenações de homossexualidade em Tertuliano, nas constituições apostólicas, em São João Crisóstomo, em São Basílio, em Santo Agostinho encontramos as primeiras referências aos perigos da homossexualidade na vida monástica e em São Tomás de Aquino, uma das figuras mais representativa da escolástica medieval que teve como fontes principais a filosofia de Aristóteles e a teologia de Santo Agostinho como fontes principais depois das Sagradas Escrituras. Neste aspecto, e, segundo (VIDAL, et al., p, 101), a postura de São Tomás de Aquino tem uma grande relevância na moral cristã, já que fixará o marco dentro da qual fica classificado o pecado da homossexualidade. Parte de sua conhecida distinção entre pecados secundum naturum (segundo a natureza) e contra naturun (contra a natureza). A homossexualidade fica incluída dentro dos pecados contra naturum, junto com a masturbação, entretanto, a gravidade do pecado da homossexualidade é superada unicamente pelo contato sexual com animais.

Analisando tudo o que foi dito, pode-se concluir que, é difícil chegar a conclusões definitivas acerca da visão histórica e religiosa sob o espectro da cristandade, relativamente a homossexualidade. Pois, se tal prática era visto como um fenômeno normal pelos pagãos, também estava inserido no âmbito religioso crescente. Por isso, acredita-se que com a ascensão do Cristianismo, a perseguição e a condenação do paganismo a homossexualidade passou a ser vista como perversão, doença, ou seja, uma abominação reprovada pelas igrejas, e, desde então os homossexuais passaram a conviver com a intolerância preconceituosa da sociedade que ainda guarda vestígios dessa época. Entretanto, como se pode constatar, a intolerância e a perseguição dos homossexuais, não foi uma atitude exclusiva do Cristianismo e dos religiosos cristãos. Outras religiões também tiveram e continuam tendo a mesma postura de intolerância, de perseguição aos homossexuais que, apesar das conquistas recentes, continuam sendo vítimas de muitos preconceitos e intolerância.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ao investigar as ideias sobre a origem e a natureza da homossexualidade, partindo do que já foi produzido e publicado principalmente no Brasil, é fácil imaginar como foram construídas as ideias e crenças preconceituosas e intolerantes contra os homossexuais. Tudo o que se pode relacionar a homossexualidade, com ou sem razão, ainda é altamente rejeitado e perseguido em algumas sociedades e religiões, mas, principalmente pelas religiões monoteístas como é o caso do Cristianismo em sua vertente mais conservadora. Portanto, os cristãos que leem a Bíblia de forma literal e acrítica, segundo Almeida (2001) podem colecionar uma série de citações condenatórias à homossexualidade. Mas, a tendência atual é que esses argumentos, paulatinamente vão caindo por terra um a um, pois, as interpretações literais carecem de suporte epistemológico para que possam prevalecer a enxurrada de críticas de que são alvos.

Como foi visto ao longo do artigo, a postura da tradição cristã face a homossexualidade é um pouco ambígua, pois, alguns autores defendem que, no início, o Cristianismo era bastante tolerante a atos homossexuais, por outro lado, outros autores afirmam que, desde os primórdios as atitudes do Cristianismo foram de perseguição, condenação e intolerância, pois, segundo Endsjo (2014) com base em alguns versículos da Bíblia a cristandade construiu uma tradição de repressão ao sexo entre pessoas do mesmo gênero, particularmente os homens. Teria sido isso o que Cristo pregava e desejava para todos os homens em sua posteridade? Acredita-se que não, tendo em conta o que, segunda Almeida (2001) os ensinamentos de Jesus visavam atender ao comportamento da época, esteve sempre do lado das minorias e nunca julgou ninguém. Alguns cristãos também são de opinião que Cristo não veio para condenar, mas sim, para salvar a todos como expresso em (Tm 1, 15) “Fiel a esta palavra e digna de toda a aceitação: Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou o primeiro”. Entretanto, em seu nome muitos cristãos catalogaram os pecados, estabelecendo punições, proibições e várias formas de descriminação e intolerância.

Para os cristãos conservadores não há dúvida alguma de que a Bíblia condena a homossexualidade, pois, segundo eles, está tudo escrito ‘preto no branco’. Essa tese, segundo Helminiak (1998), é o que muitos cristãos afirmam, e reforçam sua opinião com citações da Bíblia. Fato é que, muitos cristãos condenam a homossexualidade com poucos indícios além de uma percepção do que eles pensam que a Bíblia diz. Várias são as passagens que os cristãos apontam como sendo condenatórias da homossexualidade, dentre elas, o Código de Levítico, o episódio de Sodoma e Gomorra, a Epístola de São Paulo aos Romanos e ainda algumas passagens isoladas da Bíblia.

Em todo o caso, segundo defende Helminiak, citar esses e outros versículos como resposta a questão ética de hoje, que indaga se a homossexualidade é certa ou errada, significa interpretar a Bíblia de forma errônea, pois, como foi referido ao longo do artigo a mensagem Bíblica não é única, e, na verdade a Bíblia pode representar, segundo Armstrong (2007, p. 221) “uma testemunha do perigo das ortodoxias furiosas e, em nossos próprios dias, nem todas essas ortodoxias são religiosas”. Ela justifica essa passagem mostrando que há uma forma de ‘fundamentalismo secular’ tão fanática e intolerante quanto qualquer fundamentalismo Bíblico.

Os cristãos conservadores como foi enfatizado várias vezes, ainda consideram os atos homossexuais como sendo antinaturais, ou seja, abominações, mas, essa atitude preconceituosa do discurso religioso cristão, deve ser silenciada, pois, a ética e o amor devem vir antes dela como um imperativo que nos obriga a pensar e a cuidar dos outros tendo como exemplo a figura de Cristo que não julgou, não excluiu e nem condenou ninguém. Nesse aspecto, a intolerância religiosa por parte dos cristãos em considerar os atos homossexuais como moralmente condenáveis está em adotar interpretações literais da Bíblia. Isso fica claro através de uma passagem, onde Armstrong (2007, p. 220) afirma que “é inquestionavelmente verdadeiro que, ao longo da história, as pessoas usaram a Bíblia para justificar atos atrozes, por isso, ela deve ser vista em seu contexto histórico”.

Apesar dos atos atrozes cometidos em nome de Deus e da Bíblia, é inequívoco que as práticas homossexuais estão em todas as sociedades, pois como defendeu Spencer (1996), é um aspecto permanente da natureza sexual do homo sapiens. Mas, o fato de um homem ser homossexual como defende Pondé (2011, p. 79), “não seria um doente porque deseja o órgão sexual igual ao seu, mas apenas diferente. O fato do ato sexual ser estéril não o torna anormal, já que o homem como espécie é um ser com cultura e técnica e por isso mesmo, pode reproduzir por vias artificiais”.

Viu-se também que, a prática do amor entre pessoas do mesmo gênero é muito mais antiga que a própria Bíblia. Há documentos Egípcios 500 anos antes de Abraão que revelam práticas homossexuais não somente entre homens, mas também entre os Deuses Horus e Seth. No antigo Oriente, por exemplo, a homossexualidade foi muito praticada. Entre os Hititas, povo vizinho e inimigos de Israel, havia uma lei autorizando o casamento entre homens (1400 a.C.), na Grécia Antiga, um homem podia ser abertamente homossexual e, assim mesmo, ser um homem de prestígio. Sócrates (469-399 a.C.), segundo Nascimento (2009, p. 44), uma das figuras mais representativas da filosofia grega “acreditava que o amor e o sexo entre dois homens inspiravam a criatividade e o conhecimento”, no Império Romano, era considerado uma prática social aceita sem grandes reservas embora não fosse uma unanimidade, pois, segundo Almeida (2001, p. 69) “na época do Império Romano havia pouca descriminação e preconceito às práticas sexuais entre iguais”.

Mas, com o advento do Cristianismo e a expansão de suas ideias e valores todas as práticas que não fossem heterossexuais, ou seja, entre o homem e a mulher, unidade heterossexual criada e abençoada por Deus desde os primórdios eram considerados pecados ou abominações como foi referido várias vezes ao longo do artigo. Entretanto, se se quiser localizar com mais precisão, pode-se ver, segundo Almeida (2001), que a mais contundente justificativa está no Velho Testamento, ou seja, no Código de Levítico, mas, ele acredita que, os argumentos religiosos são facilmente refutáveis, exatamente por ser insustentáveis nos dias atuais. Já no Novo Testamento, encontra-se a condenação da homossexualidade somente nas cartas de Paulo, como sendo uma inversão da vontade de Deus e em várias outras passagens. O pensamento bíblico intolerante também contou com a aprovação de muitos teólogos e filósofos como Santo Agostinho, mas, principalmente São Tomas de Aquino que reforçou a ideia de que a homossexualidade era um pecado contra a natureza.

Entretanto, acredita-se que, a questão da homossexualidade do ponto de vista antropológico transborda os limites de todas as religiões que tenham como ideal a defesa intransigente da unidade heterossexual perene. Assim, o método antropológico não visa qualificar como sendo verdadeira ou falsa a pretensão religiosa, mas, apenas lançar luzes sob um tema do ponto de vista ético e moral bastante complexo. Então, a intenção ao trazer essa reflexão não foi a de julgar e condenar o que a Bíblia diz, mesmo que se reconheça que algumas interpretações não sejam as mais corretas e que alguns conceitos carecem de apuração semântica para que possam ser melhor entendidas em diversos contextos históricos, e, por outro lado, a intenção não foi e nunca será a de julgar como certo ou errado a questão da homossexualidade, como foi demonstrado, mas, sim realçar questões pertinentes através do diálogo que se estabeleceu entre vários autores/interpretes da Bíblia e a própria Bíblia citada várias vezes em primeira instância.

Dito isto, acredita-se que a tese referida inicialmente foi corroborada, levando em conta as várias opiniões dos autores, os quais tivemos como suporte bibliográfico, e, pessoalmente, acredito que, os ensinamentos de Cristo e a mensagem Bíblica foram em muitos aspetos adulterados e mal interpretados em sucessivas épocas e contextos históricos, por isso, é preciso usar o bom senso principalmente quando está em jogo os direitos individuais de cada ser humano em particular.

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2. MATOS, 2004, p. 76, [Apelação Cível no 70001388982, 7ª CC TJR, rel. des. Giorgis, Porto Alegre, 14 de março de 2001].

3. Em sua obra Heróis e Exílios: ícones gays através dos tempos, Tom Ambrose aborda fundamentalmente o destino e as realizações de alguns indivíduos altamente talentosos, homens e mulheres que se viram exilados por causa da sua homossexualidade. Entre eles, o artista renascentista italiano Benvenuto Cellini (1500-1571), a rainha Cristina da Suécia (1629-1689); o poeta romântico Inglês Lord Byron (1788-1824); o dramaturgo irlandês Oscar Wild (1854-1900); e o novelista americano James Baldwin (1924-1987). Alguns foram mandados para o exilio; outros escolheram fugir, para escapar a condenação e ao assédio da sociedade em que viviam. (AMBROSE, 2011, p. 1).

4. No Brasil, a fundação do primeiro grupo reconhecido na bibliografia como tendo uma proposta de politização da questão da homossexualidade, o Somos de São Paulo, ocorreu em 1978. Segundo Facchini, esse grupo adquiriu grande notoriedade e visibilidade do ponto de vista histórico, não só por ter sido o primeiro grupo brasileiro, por ter tido uma atuação importante ou por ter se construído enquanto uma experiência marcante na vida de centenas de pessoas que passaram por suas atividades, pois, o fato de que MacRae (1990) e Trevisan (1986) terem publicado materiais bastante detalhado sobre esse grupo, documentado suas atividades e seu ideário e os conflitos entre seus participantes, contribui para que o estilo de militância do Somos se tornasse um modelo, tanto para outras organizações como para os pesquisadores do tema (FACCHINI, 2005, p. 93,94).

5. De acordo com Smith (2006, p. 20), “Os cristãos conservadores, em geral rotulados de fundamentalistas, tendem a um literalismo bíblico que é impraticável porque ignoram os contextos que dão significado às palavras – contextos diferentes – significados diferentes e correm o risco constante de enveredar por programas políticos desastrosos.” Martins et al., (2015, p. 39) também concorda e reforça essa ideia ao afirmar que “frequentemente os cristãos conservadores são taxados de rigorosos, opressores fanáticos religiosos, fundamentalistas e retrógrados, somente porque são incansáveis sentinelas dos seus filhos, suas famílias e interesse da Palavra Bíblica. Eles ainda são criticados até por zelarem pela relação estritamente entre um homem e uma mulher, cumprindo apenas a palavra de Deus.”

6. Todas as citações bíblicas foram retiradas de A Bíblia de Jerusalém de 1973, e, a partir daqui qualquer citação, mesmo que abreviada, referem-se a essa fonte.

7. In: Revista USP 2001. – Edições 49-51, p. 48.

8. Nossa intenção ao introduzir essa citação, não é justificar a ‘homossexualidade’, fazendo apologia a prática da ‘pedofilia’, que no Império Romano, ao que tudo indica, era uma prática ‘normal’. Entretanto, e, como se sabe, atualmente é um crime como descrito no (ECA) – Estatuto da Criança e do Adolescente – (Art. 241, A,B,C,D e E). Vide: Estatuto da Criança e do Adolescente: lei no 8. 069, de 13/07/1990 – Niterói: Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2015.

9. De acordo com a presidente da Comissão de Direito Homoafetivo da OAB/RJ, Raquel Pereira de Castro Araújo, a provado o casamento gay no Brasil, ocorreu “em 5 de maio de 2011 o Supremo Tribunal Federal reconheceu a família homoafetiva, conferindo aos casais homossexuais o direito à união estável. Esta decisão foi proferida no julgamento da ADI 4277-DF e ADPF 132-RJ. Antes, a união estável era um direito apenas do homem e da mulher, em razão do que dispunha o artigo 1.723 do Código Civil. O STF afastou a expressão “homem e mulher” da lei e permitiu a interpretação extensiva aos casais de mesmo sexo. OABRJ, Digital. Aprovado o casamento gay no Brasil (17/05/2013– 16h35). Disponível em: http://www.oabrj.org.br/artigo/3623-aprovado-o-casamento-gay-no-brasil—raquel-castro. Acesso em 20/04/2018.

10. Segundo Genovesi, “quanto a diferença entre a orientação sexual de alguém e sua atividade genital, devemos mencionar primeiro que, embora os atos sexuais específicos geralmente se originam de escolhas e decisões conscientes, isso não é verdade a respeito da orientação sexual. Não escolhemos nossa orientação sexual ninguém decide simplesmente ser homossexual ou heterossexual. Os homossexuais não escolhem conscientemente sentir atração física ou sexual por pessoas do mesmo sexo, do mesmo modo que os heterossexuais não escolhem conscientemente sentir atração erótica para pessoas do sexo oposto” (GENOVESI, 2008, p. 248).

11. O termo é usado para indicar o fato de, quando privados de contato sexual com pessoas de sexo oposto, alguns indivíduos com orientação sexual básica heterossexual são levados a procurar alívio sexual por meio de contato com pessoas do mesmo sexo. […] A atividade com pessoas do mesmo sexo também ocorrem em adolescentes que passam a maior parte do tempo com companheiros do mesmo sexo. […] o interesse sexual por pessoas do mesmo sexo, é apenas temporário ou transitório. E assim, reflete uma forma de pseudo-homossexualidade (GENOVESI, 2008, p. 252).

12. O primeiro registro de um castigo corporal aplicado a um homossexual, datado de 390, no reinado de Teodósio, o Grande. Mais tarde, em 533, foi promulgado o primeiro texto de lei, proibindo, ser reservas, a homossexualidade, pelo imperador cristão Justiniano. O imperador vinculou ao adultério todas as relações homossexuais, pela qual se previa a pena de morte. Durante os períodos de 538 a 544, outras leis obrigavam os homossexuais a arrependerem-se de seus pecados e fazer penitência (FAGUNDES, 2012, P. 60).

13. De acordo com Richard Van Richards, “se voltarmos a Antiguidade remota, nos depararemos com a lenda da destruição de Sodoma e Gomorra […] O que se transmitiu às gerações futuras é que os habitantes de Sodoma e Gomorra viviam em constantes orgias, bebedeiras, prostituição e adultério” […] (RICHARDS, 2011. p. 73). Mas, existem outros intérpretes da Bíblia que declaram que a destruição dessas cidades nada teve a ver com esses fatos, mas sim, ela falta de hospitalidade de seus habitantes.

[1] Doutorando Em Ciência Da Religião Pela PUC-SP; Pós-Graduado Em Administração, Supervisão E Orientação Pedagógica E Educacional Pela UCP/IPETEC; Licenciado Em Filosofia Para A Docência Pela UNI-CV.

Enviado: Maio, 2018.

Aprovado: Julho, 2019.

Mestre em Ciência da Religião na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – SP; Pós Graduado (lato senso) em Administração, Supervisão e Orientação Pedagógica e Educacional na Universidade Católica de Petrópolis – RJ; Licenciado em Filosofia para docência na Universidade Pública de Cabo Verde; Curso de Formação de Professores do Ensino Básico Integrado pelo Instituto Pedagógico do Mindelo – Cabo Verde.

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