Identidade e pluralidade: uma sacerdotisa afro-brasileira, negra e mulher

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencia-da-religiao/identidade-e-pluralidade
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ARTIGO ORIGINAL

SOUSA, Vânia Maria Carvalho [1]

SOUSA, Vânia Maria Carvalho. Identidade e pluralidade: uma sacerdotisa afro-brasileira, negra e mulher. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 12, Vol. 04, pp. 85-108 Dezembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

O artigo a seguir tem como base compreender os aspectos importantes da sacerdotisa mãe Beth, que atualmente coordena o terreiro de Candomblé Angola em Belém do Pará, o “Rudembo Gunzo de Bamburucema”, pois ao fazer uma descrição sobre sua identidade deve-se considerar que a mesma está sempre em movimento. Alguns aspectos significativos no decorrer da história serão analisados, entre eles, a questão da identidade negra, política e afro-religiosa. Desta forma, proponho lançar um olhar sobre os fenômenos que giram em torno das discussões acerca do candomblé angola, visualizando os aspectos mais importantes que são os elementos fundante para a sacerdotisa e de seus seguidores, sobretudo darei ênfase para a representação feminina neste universo plural e cheio de fenômenos religiosos que a identifica como mulher negra, nascida dentro da religião, reafirmando sua religiosidade expressa através das práticas ritualísticas.

Palavras-chave: Candomblé Angola, sacerdotisa, identidade, religião.

INTRODUÇÃO

Quando me reporto a identidade e a pluralidade no candomblé angola, lanço um olhar sobre o estudo de Stuart Hall (2005) que elabora um conceito interessante sobre o processo identitário na pós-modernidade. Segundo ele, existe não apenas uma identidade, mas múltiplas variações que se estende na sociedade e no mundo religioso. O autor elenca três concepções diferentes desta manifestação de identidade: sujeito no iluminismo, sujeito sociológico e sujeito pós-moderno. É importante lembrar que essas definições já foram vistas no primeiro capítulo deste trabalho.

O autor traz elementos significativos acerca do sujeito, dotado de valores e percepções diante da sociedade. Enquanto ser em movimento e transformação, o indivíduo pode adquirir valores diante das transformações sociais que a sociedade contemporânea está sujeita. É neste sentido, que Hall (2005) apresenta essas diferenciações do sujeito, sobretudo do ponto de vista cultural, social e religioso.

Ainda sobre a questão da identidade vejo o quanto é perceptível nos espaços religiosos. No candomblé angola, por exemplo, religião que ora pesquiso, verifico que os adeptos quando se apresentam assumem uma identidade africana, trazendo traços significativos de sua ancestralidade. Trazem em suas histórias, traços de uma cultura africana que muito contribuiu com a cultura brasileira, seja na culinária, nas vestimentas, como também na questão da religiosidade popular.

Dentro desse contexto, é importante fazer memória das variações de identidades que acontecem nos diversos espaços e momentos ritualísticos, seja na cultura, na dança, nos rituais públicos, entre outros do candomblé angola.

Analisando os rituais que acontecem no interior do terreiro Rudembo Gunzo de Bamburucema, é interessante notar que os filhos de santo agem de forma diferenciada, bem como a sacerdotisa mãe Beth que coordena o terreiro. Cada um assume uma função no espaço sagrado, como ogãs, ekedis, sacerdotisa, etc. Em suas funções, os filhos de santo desenvolvem suas atividades de acordo com as orientações da religião.

Observando o contexto e a história de vida de mãe Beth, sua identidade se expressa das mais variadas formas, sobretudo no uso de suas funções sacerdotais, nas iniciações de seus filhos de santo e pela vivência religiosa no candomblé angola, que lhe assegura transitar em vários espaços sagrados, não somente em sua religião, mas em outros espaços afro-brasileiros.

No universo social, surgem novos conceitos de identidade, segundo Hall (2005) ao longo do tempo o conceito de identidade estabiliza o mundo social. Entretanto, uma nova configuração surge a partir da fragmentação do indivíduo moderno. É interessante observar que existe uma identidade cultural, que surge a partir do pertencimento a questão étnica, raciais, religiosas e sobretudo, nas relações sociais de uma determinada comunidade ou população.

Nossas estruturas enquanto sujeitos históricos, passa por muitas mudanças, entre elas, pode-se elencar as passagens culturais de gênero, etnia, raça e nacionalidade, que de certa forma está intrinsicamente ligado a questão da identidade, seja no âmbito social, cultural ou religioso. Essa fragmentação difere do passado, pois tínhamos uma cultura sólida. Entretanto, as mudanças que se tem, muda as identidades pessoais, abalando a ideia que se tem sobre os sujeitos integrados.

A mudança representa um processo de transformação, isso será observado neste período da pós-modernidade. A questão cultural num mundo pós-moderno gera essa transformação em nossas concepções e ideias acerca da identidade. Hall (2005) descreve as concepções de identidades destacando algumas conjecturas sobre o sujeito enquanto pessoa humana, que inicialmente é um indivíduo dotado de razão, consciência e ação, ou seja, é uma ideia individualista. Outra noção interessante é o pensamento acerca do indivíduo que está em constante relação. Isso significa que, a identidade do sujeito é formada na interação entre o eu na sociedade.

Enquanto sujeito percebe-se que as mudanças que acontecem têm influência na sociedade. O mundo cultural em certo sentido, vai mudando as concepções na humanidade, seja através da interação ou pelo diálogo com outras culturas. Neste aspecto Hall (2005) assegura que o sujeito assume diversas identidades em momentos diferentes, não existe uma identidade plena, completa, pois pensar assim, segundo o autor, é uma fantasia.

Nossa identidade vai sendo construída ao longo da história a partir do nascimento. Entretanto, há de ressaltar que historicamente nossa identidade sofrem influências culturais, sociais e religiosas. Esse pluralismo identitário cria uma nova visão de ver o indivíduo em sua totalidade, sobretudo quando analiso a experiência de vida da sacerdotisa Beth Pantoja, onde faço uma análise no primeiro capítulo deste trabalho dissertativo.

O discurso acerca deste processo plural de identidades, se expressa de múltiplas formas. No primeiro momento, a sacerdotisa nasce em um ambiente puramente completo de variações identitárias. Sua origem é de uma comunidade de tradição quilombola. Neste particular, observo que a religiosa nasce, cresce e se desenvolve nesse meio repleto de tradições influenciada pelos seus antepassados e que interfere diretamente em sua formação religiosa.

A religião neste aspecto, integra práticas diversificadas em relação a figura da sacerdotisa, dos ritos praticados por ela e da composição dos fenômenos da mística ritualística no contexto plural religioso, na sociedade contemporânea. A essas interferências na vida da sacerdotisa, observo que mãe Beth Pantoja faz gradativamente essa construção de sua identidade, assegurando valores importantíssimos de transmissão de conhecimentos e práticas religiosas. Neste particular, convém ressaltar que a figura de mãe Beth Pantoja neste contexto plural, pode ser visto a partir de sua subjetividade, enquanto mulher negra, feminina, e afrorreligiosa.

IDENTIDADE POLÍTICA

Em seus relatos mãe Beth tenta resgatar a história de vida de seus antepassados e diz o quanto foi difícil viver o processo de escravidão no Brasil. Segundo ela, os negros eram maltratados e não podiam expressar sua religiosidade. Foi difícil para os negros expressar sua cultura, a identidade religiosa no século passado, pois o catolicismo enquanto religião oficial, proibia qualquer forma religiosa que fosse contrário ao que estava sendo pregado pela Igreja Católica.

Apesar dos inúmeros conflitos gerados em torno das religiões afro, os negros sempre tiveram resistência, e com suas lutas de enfrentamentos, eles conseguem trazer presente toda dimensão do sagrado e dos cultos afro-brasileiros. É o que aconteceu no terreiro de mãe Beth. No início de sua fundação a angoleira relata as perseguições sofridas por parte da sociedade civil e também por policiais.

Essas e outros tipos de perseguições sofridas pelos adeptos das religiões afro-brasileiras confirmam a dominação de outras religiões sobre os afrodescendentes. Manter viva na memória e presente sua ancestralidade, são políticas que perdura até hoje, numa sociedade marcada por preconceitos e resistências. No caminho de discussão sobre a figura dos afrorreligiosos, Hall (2005) nos ajuda a pensar sobre a identidade no âmbito que os religiosos afro descendentes se fazem presente:

A identidade muda de acordo com a forma como o sujeito é interpretado ou representado, a identificação não é automática, mas pode ser ganhada ou perdida. (HALL, 2005, p. 21).

A este discurso, o autor apresenta como a identidade é envolvida no processo de representações. As relações desses sujeitos de forma diferenciadas, tem um valor importante para quem faz parte da comunidade religiosa. Isto é perceptível nas festas pública e privadas no terreiro, ou por projetos de inclusão no bairro onde reside. Posso citar o ICBAN, que foi fundado em 2003, com a finalidade de capacitar pessoas para ter uma renda própria, saindo da linha da pobreza e da violência extrema na zona urbana. (BARBOSA, 2005, p. 177).

A esta configuração percebe-se que há uma identidade diferenciada, pois os sujeitos que procuram a casa de mãe Beth não é apenas quem é do candomblé angola, mas pessoas que vão em busca de políticas afirmativas e que deem condições de uma vida melhor. A este trabalho, o Instituto Bamburucema de cultura africana, oferece a comunidade oficinas de manicure, entre outros, para contribuir na formação desses agentes e como forma de ajudar na renda familiar.

Mãe Beth Pantoja é uma militante política que transita não somente no universo sagrado, mas também busca políticas públicas através de associação, numa relação de saber e poder. Desta forma, cria-se uma identidade de fora para dentro do coletivo, pelos projetos sociais que são implementados por ela. Mametu Beth Pantoja já participou de vários congressos, seminários nacionais sobre a cultura e tradição afrorreligiosa. Sua participação em alguns congressos foi de visibilizar o candomblé angola e toda a experiência religiosa que carrega ao longo de sua inserção na religião.

Falar de candomblé para mãe Beth é trazer presente sua identidade angoleira, como nos apresenta Hall (2005), com suas representações, quer seja nas festas ritualísticas, quer seja nas políticas públicas que são implementadas junto a comunidade. Convém lembrar que as atividades realizadas no terreiro é uma forma de legitimar o espaço religioso. Esta prática é recorrente no terreiro ora pesquisado, através de trabalhos oferecidos a comunidade, como doações de cestas básicas, palestras sobre violência, cineclube, entre outros. A sacerdotisa consegue envolver a comunidade.

A identidade do ponto de vista político se revela em suas raízes de origem. Sempre que é interrogada, mãe Beth apresenta sua família de santo, que é de Salvador da Bahia. Posso dizer que esse jogo político é cheio de representações, nas relações de espaço, tempo e linhagem familiar. O papel identitário assumido por esses religiosos afrodescendentes se expressa de diversas formas, seja nos rituais, na participação em associações e movimentos, em busca de direitos reconhecidos, sobretudo no combate a intolerância religiosa.

Sobre as políticas de inclusão temos a contribuição de Daniela Cordovil, que apresenta algumas associações afrorreligiosas em Belém. São políticas implementadas pelos terreiros a fim de contribuir com a comunidade local. Nesses terreiros, “sempre funcionam como espaço de distribuição e redistribuição de bens e serviços” (CORDOVIL, 2014, p. 91). A construção desses espaços representa para as lideranças religiosas uma possibilidade do diálogo com a sociedade civil, e com poderes governamentais, debatendo junto com os órgãos competentes formas de geração de renda, saindo de uma prática assistencialista.

Os serviços prestados a comunidade têm uma dimensão humanizadora. Pois os bens e serviços distribuídos pelos terreiros tem por finalidade ajudar, contribuir, voltado para economia, marcada por uma dádiva (MAUSS, 2003), onde dar, receber e retribuir ganham uma dimensão de relações entre seres humanos e as divindades.

Ainda sobre a função e as atividades desenvolvidas no terreiro, mãe Beth apresenta as seguintes:

Em casa faço algumas atividades, rodas de conversa, cine-bamburucema, que é um cinema na comunidade, em cima daquele filme a gente faz aquele debate, com teólogos, antropólos das universidades e com a comunidade. Geralmente tem o dia das mulheres, ou dias das mães agente faz um café, roda de conversas, já fiz oficinas de cantos, de música, de percursão, de falar sobre a lei maria da penha para interagir com a comunidade. Participo do conselho de segurança ambiental, conselho de igualdade racial e também fui conselheira dos idosos, dos negros, eu faço parte das Fulanas: mulheres negras e vários movimentos. (Entrevista realizada em 20/02/2018)

Sua atuação se expressa de diversas formas, sobretudo na apresentação de filmes no combate ao racismo. Neste particular, a comunidade participa, interage e contribui para a inclusão da cultura afrorreligiosa.

IDENTIDADE NEGRA

Ao falar de sua própria identidade mãe Beth Pantoja confirma a essência de sua tradição e inserção no candomblé angola. Ao se reportar sobre sua história de vida ela fala com bastante propriedade sobre o que é ser negro na sociedade contemporânea. Apresenta em alguns momentos sua trajetória na religião e o quanto foi difícil ser aceita na comunidade, pois em alguns momentos foi taxada de “pretinha e macumbeira”.

Quanto a identificação da angoleira Beth Pantoja, em outro momento, ela se define como mulher negra, pertencente a “cultura afro-brasileira” (Entrevista realizada em 29/08/2016). Neste aspecto, pude observar o quanto mãe Beth zela pela cultura e religiosidade afro, que vem desde sua origem familiar. Essa identidade negra é construída a partir da linhagem que retoma a escravidão e a nação a que pertence, congo angola, situada ao centro da África.

Apesar de inicialmente resistir ao processo de ser iniciada no candomblé angola, Beth Pantoja tem consciência que a religião é algo primordial em sua vida. Este caminho percorrido teve sua objetividade alcançado desde o contato direto com seu pai de santo, Raimundo Walter da Silva (Tatá Torodê), que acompanha mãe Beth e a leva a nascer simbolicamente como membro da nação angola.

Ao me referir sobre a questão da identidade negra no Pará, sobretudo para compreender a figura de mãe Beth, neste contexto cultural e religioso, trago presente as contribuições de Reginaldo Prandi, que faz uma discussão sobre as religiões e o sincretismo como identidade brasileira.

No que diz respeito à religião especificamente, os cultos trazidos pelos africanos deram origem a uma variedade de manifestações que aqui encontraram conformação específica, através de uma multiplicidade sincrética resultante do contato das religiões dos negros com o catolicismo do branco, mediado ou propiciado pelas ralações sociais assimétricas existentes entre eles, também com as religiões indígenas e bem mais tarde, mas não menos significativamente, com o espiritismo kardecista. (PRANDI, 1996, p.55).

A essas realidades são incorporadas manifestações sagradas com as diversas tradições existentes, somando-se com elementos ligados ao catolicismo, práticas xamânicas, juntamente com as religiões afro-brasileiras. Nota-se ao longo da história que os cultos afro-brasileiros de origem africana, não ganhou espaço em solo brasileiro, desta forma, os negros foram obrigados a adquirir em seus ritos manifestações específicas do catolicismo e de outras práticas religiosas que aqui existiam, sobretudo, elementos ligados também a cultura indígena.

O hibridismo ligado à ancestralidade, do ponto de vista religioso e cultural, nos aponta uma identidade marcada por uma composição de valores e símbolos sagrados. Ainda no início da chegada dos negros africanos, eles incorporaram uma religião diferente da sua. Deixaram de cultuar seus deuses, para ritualizar os santos católicos.

A essas conjecturas, apresentadas por Prandi (1996), entre outros autores, desenvolveu-se uma discussão sobre o passado dos negros africanos que chegaram no novo mundo, sobrevivendo em um contexto religioso, pois haviam de cultuar não apenas suas divindades, mas símbolos sagrados do catolicismo.

Nos discursos dos afrorreligiosos, sobretudo da angoleira Beth Pantoja, ser mulher negra, nunca foi tarefa fácil. O preconceito girava sempre em torno da cor da pele. Neste contexto, ela resume seu ser identitário da seguinte forma:

Antigamente era tudo ruim pra mim, porque eu classificava como menina, uma muleca lá do interior dos quilombos. Cheguei a Belém poucas crianças queriam fazer amizade comigo, as crianças ficavam sempre de lado. Pra mim a pior coisa era ser negra, porque eu era pretinha, cabelo pixaim, cabeça seca, e negra, baixinha, eu me enchia de defeitos. Mas hoje eu tenho o maior orgulho de ser negra. (Entrevista realizada em 20/02/2018)

É interessante notar que mesmo sendo discriminada por parte de outras crianças que faziam parte de sua turma, Beth Pantoja sempre lutou pela sua ancestralidade, não obstante, sua marca está presente em cada função que assume dentro e fora da comunidade. É óbvio que no primeiro momento não foi fácil se aceitar como mulher negra, pelo fato de tantas vezes ser discriminada na sociedade. Ainda falando de ser mulher negra no candomblé e sua atuação no mundo afrorreligioso ela diz o seguinte:

Já atuei e continuo atuando, com muitas dificuldades, por conta da condição financeira. Que é que a gente tem, nosso corpo, que é uma expressão cultural e religiosa, no turbante, com minhas roupas, com meus fios de conta no pescoço, sempre que eu posso estou me idenficando nesse tempo. Sempre quando eu vou pra algum lugar sempre levo no pescoço, levo minha identidade. Em relação a minha função na casa no rudembo, sempre eu tô fazendo, sou palestrante, já dei muitas palestras, na Universidade Federal do Pará, na UEPa, na UFRA, na faculdade particular, onde me chamarem, sobre a consciência negra, sobre a lei 10.639 . (Entrevista realizada em 20/02/2018)

A identificação através dos adereços sobre o corpo representa uma marca para os afro-brasileiros. Neste discurso a angoleira apresenta elementos identitários de sua ancestralidade. Tive a oportunidade de conhecer seu espaço sagrado e tudo o que a identifica enquanto mulher negra pertencente a tradição africana. Sua identificação com a cultura afro-brasileira é perceptível em tudo o que faz, desde os ritos de iniciações até suas atividades de políticas afirmativas em benefício da comunidade onde reside.

Ser angoleira segundo ela, é trabalhar com o tempo, “cada nação tem sua especificidade, eu acho a minha nação maravilhosa, dentro do contexto dos afrorreligiosos” (Entrevista realizada em 12/09/2017).

IDENTIDADE AFRO-RELIGIOSA

A sacerdotisa Beth Pantoja, nasceu ritualmente da nação angola. Porém, ser brasileira se contrapõe em ser mulher angoleira, mesmo vivendo em uma sociedade laico e plural. Nasceu enquanto sujeito civil, mas ritualmente nasce para este mundo religioso do angola. Em outro momento, a sacerdotisa se reporta sobre sua iniciação como sujeito que nasce do útero espiritual.

Sobre o envolvimento de mãe Beth no angola, é interessante lembrar que, sua iniciação é também algo que fala sobre sua identidade religiosa e cultural. A este aspecto, ela diz que é de “angola da família de Tumba Juçara de Salvador da mãe Branco de Colodina, uma mãe de santo famoso em Salvador super reconhecida também tem casa aberta no Rio de Janeiro” (BARBOSA, 2005, p.175). Sobre sua identidade, mãe Beth se define da seguinte forma:

Eu tenho as marcas no corpo, sou uma mulher preta do quilombo, e eu tenho no corpo as cores. Isso me identifica como mulher de terreiro. Mas, o que me identifica é que tudo o que eu faço, faço com amor, com prazer, porque eu vejo o resultado do meu trabalho. Eu faço muitas curas. Mas, não necessariamente a pessoa é iniciada. Nem sempre. A gente joga. Se você tem problema de saúde, a gente sabe. Tudo o que eu faço tenho que olhar com meus búzios. (Entrevista realizada em 30/01/2018)

O que Beth Pantoja trás presente é a história de seus ancestrais, desde o quilombo de Guajará Mirim onde nasceu, até chegar na cidade de Belém. Carregando no corpo as marcas de um sistema de escravidão, que durou por muito tempo no Brasil. Ser negra é reconhecer sua história de vida, com sua tradição cultural e religiosa. As curas e iniciações que realiza em seu terreiro, confirmam ainda mais sua identidade candomblecista angoleira.

Sobre os filhos de santo de mãe Beth, algo nos chama atenção sobre a identificação e iniciação no candomblé angola. Segundo mãe Beth, a maioria de seus filhos-de-santo tem entre 20 a 30 anos. “Tem muitos negros, mas sempre tem aqueles que se acham brancos, mas a maioria não negros e eu faço questão de explicar pra eles o que é ser negro” (Entrevista realizada em 30/01/2018).

Neste particular, Beth Pantoja recorre aos seus ensinamentos, tentando mostrar qual o valor de ser negro na sociedade contemporânea. O fato de ter a pele “clara” não significa a perda de sua africanidade, mas, de aprender junto a comunidade a tradição, a cultura e a religiosidade, nessa construção de saberes.

Outra composição interessante é que os filhos de santo em grande parte, não tem formação acadêmica, alguns conseguem chegar ao ensino médio e um número pequeno já ingressaram na universidade. Este é um quadro e perfil de nossos jovens que procuram o terreiro de mãe Beth Pantoja para serem iniciados.

Para as iniciações no terreiro Rudembo Gunzo de Bamburucema, muitos têm dificuldades para fazer o processo iniciático, pois a maioria são de baixa renda. Segundo mãe Beth, ela favorece os meios necessários para que aconteça o processo de iniciação.

Mas eu não deixo de fazer, se eu tiver eu tiro sem pena do meu bolso, e faço com que meus filhos tenham essa irmandade. De um ajudar o outro, tu não pode, vamos fazer. Se uma pessoa tá necessitada. Vários vieram com problemas de saúde, desempregados, não estavam na universidade, uma série de problemas. Então não tem condições vamos fazer. Cada um dá um pato, um picote, um pombo, dois frangos, outro dá uma roupa, e assim a gente vai fazendo. (Entrevista realizada em 30/01/2018)

Neste particular, a irmandade é algo que cria laços de partilha e unidade entre os candomblecistas. Na casa de mãe Beth, a entre ajuda são formas que une a comunidade. Neste sentido, ajudar o outro é legitimar o sagrado, gerando comunhão, partilha, relações fraternas e acima de tudo a irmandade, tão bem explorado e vivenciado por Beth Pantoja.

O que me chamou atenção nas experiências vividas pela sacerdotisa é o fato que, nenhuma pessoa fica sem fazer a iniciação por falta de recursos financeiros, como ela mesmo partilha, “eu nunca deixo de fazer por conta do dinheiro” (Entrevista realizada em 30/01/2018). É imprescindível na iniciação, sobretudo quando se deseja a cura. Ela relata que em sua casa já chegou pessoas muito doentes, e que não era para medicina, mas algo estritamente ligado a cura espiritual. A este aspecto, a angoleira faz um tratamento espiritual e depois de consultar os búzios encaminha para a medicina ou começa a fazer a iniciação desse sujeito.

É importante lembrar que mãe Beth trabalha muito com o processo de cura, pois a maioria desses males que chegam até ela são de pessoas que precisam serem iniciadas. Por isso, o fator financeiro não é o mais importante, pois a sacerdotisa com ajuda da comunidade prepara o novo membro para fazer parte da religião.

É interessante notar que a estruturação no candomblé, se constitui mediante a relação do sacerdote com seus filhos de santo, neste particular, Ivete previtalli deixa claro que, “apenas a presença de um pai um de uma mãe-de-santo (não dos dois ao mesmo tempo) e de seus filhos, é suficiente para fundar uma família de santo” (PREVITALLI, 2008, p. 83). A autora vai mais além em sua abordagem, assegurando que essa relação ultrapassa o espaço do terreiro, quando há envolvimento nas relações sociais dos terreiros, sobretudo pelo parentesco entre os membros.

Neste sentido, a figura da mãe-de-santo é de grande importância, pois no imaginário social, a sacerdotisa é vista pelo conhecimento das tradições, pelo lugar que ela ocupa no terreiro, pelos poderes que lhes são conferidos e por tudo que a mesma representa na vida de sua comunidade.

Nessas discussões de variações identitárias, trago presente uma contribuição importante de Daniela Cordovil, a autora em suas abordagens sobre as religiões de matriz africana no Pará, com um olhar em contextos históricos diferenciados, mostra como esses sujeitos estão representados, seja nas irmandades religiosas, na umbanda, como também no candomblé angola das mais variada nações. Sobre essa diferenciação a autora diz o seguinte:

Por conta dessa diferenciação, o campo político e a militância passam a ser um espaço onde as lideranças do candomblé transitam em busca de legitimidade e reconhecimento para suas casas e a liturgia ali praticada. Nesse contexto surgem novas identidades político-religiosas e a política é utilizada para apoiar tradições e linhagens recém-criadas. (CORDOVIL, 2014, p. 36).

Esta nova configuração aos cultos afro-brasileiros em busca de firmar sua legitimidade, está presente na maioria dos afrorreligiosos que hoje se identificam como praticantes do candomblé. Pois os mesmos possuem suas raízes em outras matrizes como tambor de mina, pajelança e a umbanda.

Foi o que aconteceu com mãe Beth Pantoja, que antes de ser do candomblé angola passou pela umbanda. Quando criança frequentou com sua mãe vários terreiros de umbanda no quilombo onde residia e ao chegar em Belém do Pará. Segundo ela, não se sentia bem quando acompanhava sua mãe nesses terreiros, parecia que algo estava faltando em sua vida. Por isso, sua inserção no candomblé angola se deu um pouco mais tarde, tempo suficiente de descobrir e encontrar sua verdadeira religião.

A este aspecto, Daniela Cordovil afirma que,

Segundo eles mesmos, buscaram o candomblé para obter o que chamam de maior conhecimento no santo, e assim ascender nos degraus da hierarquia religiosa da cidade. Por ser a matriz mais recente e de menor tradição em Belém, esses candomblecistas encontraram mais dificuldades para estabelecer o ritual, que não é praticado da mesma forma que em Salvador, pois acaba incorporando elementos litúrgicos de outras tradições religiosas das quais é oriundo o pai ou mãe de santo. (CORDOVIL, 2014, p. 36)

Depois de transitar em alguns terreiros de umbanda Beth Pantoja encontrou no candomblé angola, elementos para se sentir feliz, e dessa forma abrir seu próprio espaço religioso. Porém, percebo que em algumas práticas ritualísticas alguns elementos são incorporados de outras tradições, sobretudo na dança, musicalidade, entre outros. Isso se dá pelas dificuldades citadas pela própria autora.

A identidade religiosa dos candomblecistas angoleiros é perceptível nos rituais, nas indumentárias, na musicalidade, entre outras dimensões do sagrado. Arno Vogel, Silva Mello e Pessoa de Barros, ao abordarem sobre a identidade na cultura afro-brasileira, nos ajudam a pensar essa dimensão sociológica.

Finalmente, cabe lembrar que os próprios santos se distinguem e identificam por meio de suas preferências em matéria de consumo; pelas peculiaridades do gosto de cada um deles. Uma divindade privilegia certas cores e texturas, nas suas vestimentas; certos sabores e aromas, nas suas comidas; determinados paladares, em suas bebidas; determinadas essências, nos seus “defumadores”; certos metais, nos seus adereços e emblemas; certas pedrarias, nas suas joias. (VOGEL, MELLO, BARROS, 2012, p. 8).

A partir da reflexão desses autores, busco compreender, o espaço e o papel representativo desses sujeitos religiosos, identificando o processo de diferenciação existente no interior dos terreiros, de modo particular no Rudembo Gunzo de Bamburucema, que ora está sendo pesquisado. Convém lembrar que na casa de mãe Beth existe também a bandeira branca, que segundo ela, marca significativamente seu espaço sagrado.

Os elementos apresentados até agora mostram uma hibridização latente nos terreiros afro-brasileiros. A essa mistura, somam-se experiências religiosas riquíssimas de pais e mães, e filhos de santo. As práticas religiosas que são realizadas nos terreiros tem essa dimensão de sacralizar o que é próprio de cada terreiro e isso os identifica enquanto “povo do santo”, como por exemplo, as músicas que são entoadas no terreiro, a forma de se paramentar, o estilo particular de dançar ou de preparar a comida das divindades, entre outros.

A presença desses símbolos sagrados, bem como a hierarquia do terreiro, me chamou bastante atenção no Rudembo Gunzo de Bamburucema. No primeiro momento que entrei na casa de mãe Beth para continuar a pesquisa, observei o quanto a sacerdotisa é extremamente acessível, acolhedora e humana, no sentido de relatar sua bonita experiência no candomblé angola.

Nesse contexto, Beth Pantoja em outro momento diz que sua religião é completa e que não precisa pedir mais nada a nenhuma expressão religiosa, “não há necessidade de nos escondermos atrás dos santos católicos, naquele tempo havia essa necessidade” (Entrevista realizada em 29/08/2016). Neste particular, a angoleira apresenta sua verdadeira identidade religiosa, reconhecendo em seu jeito simples de ser, e em tudo o que realiza em seu terreiro, a essência de sua religião.

Como sabemos o catolicismo era a única religião no Brasil colônia que era permitida. A partir dessa imposição da Igreja Católica, os negros eram coagidos a participarem dos ritos religiosos da mesma, tais como: celebrações, procissões, festas de santos voltados ao catolicismo, ficando a mercê de seus costumes religiosos, advindos da África. É evidente que por muito tempo os negros “foram arrancados de um contexto cultural estável e simplesmente jogados em um novo contexto”.[2]Isso contribuiu para que o negro fosse visto de forma negativa, tendo sua cultura não valorizada.

Partindo do pressuposto – da importância de conhecer a História da África – faz-se necessário adentrar um pouco mais sobre o desenvolvimento das religiões afro-brasileiras, como elas foram se expandindo pelo Brasil. Segundo alguns pesquisadores, as religiões afro-brasileiras, chegaram ao Brasil a partir da vinda dos negros, e numa tentativa de manter viva sua cultura e sua crença eles mantiveram uma religião muito próxima da Igreja Católica. É importante notar, que o Brasil apresenta um quadro significativo de manifestações religiosas trazidas da África, que no decorrer da História foram se expandindo por todo Brasil. Na Bahia encontra-se um número elevado de negros, assim também como no Maranhão e no Pará.

A religiosidade dos negros africanos foi se constituindo a partir da necessidade de manter viva a cultura africana. Seus costumes, suas danças e seus ritos aos orixás foi uma forma de afirmação dos elementos da identidade negra. Enquanto religião de matriz africana, o candomblé se desenvolveu dentro desses moldes, marcado por conflitos ideológicos, cultural e religioso. Não obstante, a construção da identidade negra em território brasileiro, dá-se pelas divindades, mas precisamente com as forças da natureza. Os orixás ou nkisis estão diretamente ligados a identidade da pessoa, passando a ser centro das religiões de matriz africana.

Na fala de mãe Beth Pantoja, o culto desenvolvido em sua casa é um momento sagrado, como ela mesmo relata, cultuar os nkisis é manter vivo na história a memória de tantos negros que foram mortos e torturados no Brasil, um passado sangrento de muita luta e resistência. Convém lembrar que muitos documentos foram perdidos no tempo, porém, a oralidade tenta manter viva a história dos nossos ancestrais.

O candomblé angola tem suas especificidades, para mãe Beth Pantoja, o angola difere um pouco do ketu. Segundo ela, os angoleiros cultuam a natureza, os nkisis, o próprio vulcão. “Nós recebemos essas energias com esses nomes. A minha nkisi é o vendo, tem várias representações” (Entrevista realizada em 29/08/2016).

A singularidade prescrita por mãe Beth marca significativamente seu espaço sagrado. A sua religião apresenta aspecto peculiar com as manifestações do sagrado, através dos ritos e celebrações públicas que acontecem no terreiro.

Quando me reporto as religiões de matriz africana e a presença dos afrodescendentes, trago à baila os discursos de Ricardo Franklin (2000) que trata em sua obra: “Afrodescendente: Identidade em construção”. O autor em sua abordagem, afirma que a identidade afro-brasileira é um processo que estará sempre em construção.

Tanto o indivíduo quanto suas concepções de realidade são constituídos nas relações interpessoais. Essas inter-relações são medidas por crenças, padrões, práticas e normas de toda uma sociedade e esta, por sua vez, em parte, é constituída por esse mesmo indivíduo dela participante, em um processo contínuo e dinâmico de mútua construção, cuja direção não é casual, mas determinada pelo somatório das ações políticas de todos os indivíduos que a constituem. (FERREIRA, 2000, p. 44)

Analisando de perto o texto, as palavras de Ricardo Franklin nos ajudam a compreender o papel do indivíduo enquanto sujeito na sociedade. O mesmo dotado de valores essenciais o faz interagir no meio onde ele existe. Neste contexto, o autor de forma elucidativa apresenta o indivíduo numa sociedade relacional, capaz de atitudes dialogais, construindo sua própria história, desta forma, pode-se dizer que a identidade está sempre em construção.

O conceito de identidade expressa pelo autor é bem interessante porque nos faz transportar para diversos espaços, contextos sociais e religiosos. Ele diz que “falar de identidade é falar de atores sociais voltados a construção de uma trama dramática, podendo esta configurar-se em uma peça trash ou em um belo drama” (FERREIRA, 2000, p. 46).

Importante ressaltar que a construção identitária de um determinado grupo dá-se no percurso da história de vida. É o que posso observar nas manifestações religiosas do candomblé angola. A esse aspecto, convém lembrar que dentro da religião existem práticas que ao longo do tempo sofreram transformações, esses processos são evidenciados a partir de novas construções de realidade por parte dos sujeitos envolvidos, como por exemplo, a militância da sacerdotisa em movimentos contra a intolerância religiosa, associações beneficentes, participação em movimentos religiosos tendo a presença de outras religiões de matriz africana. Assim, verifica-se uma relação da identidade com o indivíduo, reconhecendo que o ser humano está sujeito a grandes transformações de vida, seja no aspecto social, político, ideológico e religioso.

Essas concepções elencada por Ferreira (2000), é interessante para ser analisada a partir da constituição de um grupo. Posso dizer que para mim é importante porque ajuda-me a adentrar nos aspectos mais relevantes do candomblé angola, analisando seus costumes, suas danças, suas comidas votivas, bem como os rituais que acontecem nas festas que são realizadas no terreiro. Um aspecto interessante, que comecei a observar, relaciona-se a algumas mudanças que aconteceram na casa de mãe Beth Pantoja. Segundo ela, essas mudanças acontecem pela interferência externa, ou seja, o candomblé traz esse traço da umbanda, como também da pajelança.

Na primeira pesquisa que realizei em Belém, na casa de candomblé ketu, do pai de santo Hyder Lisboa, descobri que haviam mudanças em seu terreiro. Em uma de suas entrevistas ele assegurou que em sua casa várias mudanças estavam acontecendo, segundo ele, os filhos de santo hoje, são bem mais exigentes do que antigamente. Uma mudança que me chamou atenção foi no processo de iniciação, que dentre todos os adereços e preparações, o iniciado não aceita mais ser raspado com cartilagem de peixe, substituindo por uma gilete. O mesmo na hora da escolha da indumentária, exige os melhores tecidos. No terreiro de mãe Beth algumas mudanças nesse sentido também acontecem. A sacerdotisa revela que seus filhos iniciados exigem certos privilégios, seja da roupa, e até mesmo no processo iniciático.

Por essas motivações inerentes ao espaço sagrado, convém aplicar o pensamento de Ferreira, que faz uma construção plausível sobre a identidade dos afrodescendentes. Neste processo de construção historiográfica, cultural e identitária dos afro-brasileiros, uma ideia que se tem é que os negros, somando-se a ele também os brancos, são categorizados de maneira muito reducionista, baseando-se apenas na cor da pele. Por sua vez, tanto os negros quanto os brancos devem serem vistos não pela composição da melanina, que os fazem serem reconhecidos pela cor da pele, mas pela composição cultural de pertencimento a um grupo, cujos sujeitos compartilham da mesma origem racial. A história da escravidão no Brasil transformou o Brasil numa nação negra: “Em vários países, como no Brasil, constatamos uma expressiva presença demográfica de afro-descendentes. A porcentagem de origem africana no Brasil gira em torno de 44,3%”.[3]

O Brasil, como já foi mencionado acima, comporta um grande contingente populacional de origem africana, constituindo-se em uma das maiores sociedades étnicas do mundo. Entretanto, as pessoas de origem africana foram vítimas de preconceito por parte das camadas economicamente mais elevada da sociedade, como afirma Ricardo Franklin:

O Brasil cultivou, com sucesso uma imagem de si mesmo como a primeira ‘democracia racial’ do mundo, sendo a convivência entre brancos e negros descrita como harmoniosa e igualitária. Essa concepção, tornada discurso oficial, é, na verdade, um mito, hoje questionada pelos brasileiros (FRANKLIN, 2000, p. 39)[4]

Conforme esta afirmativa criou-se um “mito” sobre a igualdade racial, haja vista que negros e brancos teriam os mesmos direitos. Isso não aconteceu, a concepção sobre “democracia racial” ainda circula na mentalidade de outrem. Percebe-se que o que existe, são apenas comentários sem tanta consistência sobre a verdadeira realidade do negro. Eles não tinham os mesmos direitos que os brancos, eram relegados, ou seja, postos em segundo plano.

Segundo pesquisadores, essa concepção já está sendo questionada. Deve-se fazer memória a partir da História da África, sobre o contexto vivenciado pelos negros, para que haja uma compreensão maior sobre igualdade racial. É importante notar a contribuição africana nas Américas, que aconteceu não somente na Religião, mas na agricultura, na dança, e no domínio do trabalho, como afirma Vicente Salles: […] “Os negros foram destinados, sobretudo para os canaviais e as lavouras de arroz e algodão”. [5] Em todas as áreas do Brasil eles construíram a nossa economia e desenvolvimento, por outro lado, foram sumariamente excluídos da divisão dessa riqueza, não sendo diferente em nosso Estado.

Pode-se notar que desde a chegada dos negros africanos no Brasil, houve um importante crescimento econômico, uma vez que os negros eram obrigados a trabalhos forçados. Eles foram construindo nossa economia através da lavoura de arroz, algodão e no cultivo de cana-de-açúcar, atividades econômicas dos europeus.

Os negros ao chegarem no Brasil eram enviados para as fazendas, para trabalhar nos engenhos. Eram escolhidos pelos donos de terras para a mão-de-obra escrava. Muitos tentavam fugir, porém nem sempre nessas fugas havia sucesso.

Segundo Volney Berkenbrock, o desenvolvimento cultural dos africanos, ocorreu de “forma variada”:

[…] existiam duas grandes categorias de escravos: os escravos do campo e os da cidade. Escravos da agricultura, da extração de ouro e escravos domésticos eram ainda subgrupos dos escravos do campo.

[…)]entre os escravos da cidade, haviam diversos grupos: os trabalhadores manuais, os escravos domésticos, os especializados e os chamados “negros de ganho”. (BERKENBROCK, 1997, p. 80-81) [6]

Como podemos observar, tanto na cidade quanto no campo haviam escravos subjugados ao trabalho forçado, como: plantação de algodão, arroz, e cana-de-açúcar. Foi um período difícil na vida dos negros, mas, apesar do trabalho pesado, continuaram a contribuir no desenvolvimento econômico da sociedade brasileira.

A contribuição do negro marca profundamente a cultura brasileira, segundo Volney Berkenbrock (1997, p. 80-81): “A influência dos descendentes dos negros marca o País das mais diversas formas, seja através da riqueza de sua música, arte ou culinária, como também pelo pensamento e comportamento”.[7]

Ao longo do tempo, o negro vem contribuindo de forma significativa para a ampliação da diversidade cultural existente no Brasil. Entretanto, essa contribuição não é aceita pela sociedade discriminadora, que não ver de forma “positiva” a imagem dos afro-descendentes, ou seja, não aceita como construtora de uma civilização, como afirma Ricardo Franklin: “o africano tem sido considerado até como construtor de cultura, mesmo vista como folclórica, porém dificilmente como construtor de civilização”. [8] O que o Brasil representa hoje do ponto de vista econômico, devem em grande parte ao trabalho desenvolvido pelos africanos. Enriquecendo nosso País das mais variadas formas, tiveram uma representação significativa para o crescimento econômico, social e religioso.

Percebe-se que ao longo do tempo, desde os seus primórdios, que as religiões afro-brasileiras, vêm sofrendo algumas mudanças, seja na dança, na indumentária, ou nos ritos iniciáticos dos filhos-de-santo. Com o advento de muitas religiões de origem não africanas, como o pentencostalismo, entre outras, interferiu-se no meio social, cultural e religioso das religiões afro-brasileiras, principalmente com o catolicismo:

Desde o início as religiões afro-brasileiras se formaram em sincretismo com o catolicismo, e em grau menor com religiões indígenas. O culto católico aos santos, numa dimensão popular politeísta, ajustou com uma luva ao culto dos panteões africanos.[9]

Mas, houve também mudanças no candomblé, pois no início de sua origem, o Candomblé mantinha sua originalidade. Hoje com o avanço tecnológico os iniciados preferem usar instrumentos que sejam na nossa realidade contemporânea, como trocar cartilagem de animal por gilete para raspar o filho-de-santo. Outro fator importante são os seguidores da religião, no qual estão presentes não apenas pessoas de origem africana, mas de outros seguimentos, como afirma Volney Berkenbrock:

Até vinte ou trinta anos atrás, o candomblé era religião de negros e mulatos, confinado sobretudo na Bahia e em Pernambuco […]. No rastro da umbanda, a partir dos anos 1960, o candomblé passou a se oferecer como religião também para seguimentos da população de origem não-africana (BERKENBROCK, 1997, p.14).[10]

A partir da sua presença no continente americano, o negro tenta incorporar sua religiosidade. Porém, houve muitas perseguições.

Apesar da intransigência e perseguição do branco ao candomblé, perseguição violenta até poucos anos, o negro pôde por muito tempo ter seus próprios deuses, sendo assim africano, e ser católico, sendo assim brasileiro.[11]

É interessante observar que as religiões afro-brasileiras sempre sofreram discriminação, e que sua cultura nunca foi vista como algo positivo para a sociedade discriminadora. Porém, a cultura africana, é riquíssima em apresentar aspectos significativos para a sociedade brasileira.

Penso que é interessante fazer uma ressalva sobre a subjetividades dos grupos envolvidos. Por muito tempo, perdurou na mentalidade brasileira uma historiografia sobre os negros de uma cultura discriminatória, baseando-se em atitudes contrárias a quaisquer manifestações vindas dos negros que aqui chegaram e se desenvolveram ao longo da história. Neste contexto, gostaria de trazer presente uma pesquisa fruto de minha primeira experiência em campo, quando visitei um terreiro de candomblé ketu. O babalorixá se expressou da seguinte forma:

A população não aceitava o candomblé, e nos agredia com pedradas e esculhambações, além da população a polícia também não media esforços para prender as pessoas que estavam ligadas a qualquer religião afro brasileira, principalmente por essas pessoas serem negras e residirem em bairros pobres, onde se localizava os terreiros de cultuação aos orixás.[12]

Embora o candomblé tenha sido de severa repressão, desde o seu surgimento no Estado do Pará, as comunidades religiosas afro-brasileiras tiveram líderes inteligentes e bem preparados para defendê-las, seja por meio de negociação ou mesmo pela insistência e clandestinidade. E, hoje essas religiões contribuem de forma significativa para compreensão da pluralidade religiosa existente em nosso Brasil.

Ainda trazendo presente sobre a identidade dos cultos afro-brasileiros, na fala de alguns informantes, como do babalorixá Hyder Lisboa, ele dá a seguinte definição:

O português quando veio para o Brasil trouxe suas crenças. O kardecismo veio para o Brasil um pouco modificado, e os caboclos do Brasil começou a se incorporar naquelas pessoas, e o que fizera? Criaram a umbanda nas primeiras décadas de 1900. O candomblé do Rio de Janeiro é diferente da Bahia, São Paulo é diferente da Bahia, porque o candomblé da mina é estritamente negro, é afro. O culto espiritual afro no Pará modificou, perdeu a identidade, porque eles não se conformaram de ver o povo do candomblé, com suas certas posturas, e eles assimilaram. (Entrevista realizada em 28/09/2006)

Neste particular, o sacerdote apresenta seu pensamento quanto a formação da identidade dos cultos afro-brasileiros. Esta composição é vista e observada por vários ritos, costumes de diferentes grupos. Como ele mesmo nos apresenta.

Em outro momento o pai-de-santo diz que as mudanças são inevitáveis, neste contexto de assimilação e crescimento tecnológico, que de certa forma influencia na vida da comunidade religiosa, foi o que aconteceu em sua casa.

Houve mudanças, surgiram dissidências, alas, eu sou um pouco acomodado, até porque eu não tenho paciência para debate, eu não tenho tempo. Eu vivo da religião, eu tenho outras funções. Quando eu trouxe o candomblé para o Pará, eu trouxe 4 pessoas para ensinar tocar o candomblé no Pará. A 30 anos a cantiga era uma, hoje eu vejo cantarem diferente. NO geral, na minha casa nunca houve mudanças, a única mudança é no roncó, porque antigamente era chão batido, sem luz, hoje tem lajota e lâmpada, antigamente quando agente fazia santo era no cocô do boi, amassado pelo filho-de-santo para forrar o roncó, ali era a esteira, então recolhia encima daquilo. Os anos foram passando e as pessoas se queixavam de micoses, para não passar pelo fundamento. É como a navalha. Hoje se raspa santo com a navalha, a um tempo atrás era com a cartilagem do animal. (Entrevista realizada em 28/09/2006)

A essas mudanças, eu diria que aconteceram ou acontecem por diversos fatores, que interferem direta ou indiretamente na vida dos seguidores da religião. Foi o que aconteceu na casa de Hyder Lisboa e no momento, na casa de mãe Beth Pantoja.

Ao longo de minha pesquisa fiz algumas observações interessante. Entre elas posso citar as manifestações religiosas que acontecem no terreiro, que marca profundamente o candomblé angola. Através da dança, das vestimentas, do preparo da alimentação aos nkisis, entre outros.

Sobre o papel fundante de ser religiosa e pertencer a uma religião afro, mãe Beth Pantoja, se revela da seguinte forma:

E também de ser da religião afro, foi uma coisa que eu contestei muito, apanhei muito, adoeci muito. Quando eu apanhei muito, tá bom, entrego minha matéria. E acabei me vestindo por dentro e por fora da espiritualidade. Aí eu fui saber quanto era bom, quantos benefícios tinha pra mim dentro dessa religião, de me aceitar como negra. Era o preconceito que não me deixava aceitar, eu me achava feio o meu cabelo, não gostava da minha cor da pele, me achava cheia de defeito devido o preconceito. Hoje em dia eu sou muito feliz. (Entrevista realizada em 20/02/2018)

A natureza e o reconhecimento no pertencimento de ser do candomblé angola, fez com que a sacerdotisa se aceitasse como mulher negra e candomblecista, pois como se sabe, houve muita resistência por parte de mãe Beth em assumir seu ser religioso, sobretudo no início de sua formação religiosa. Hoje, a angoleira se sente feliz por pertencer ao candomblé angola.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho que ora desenvolvi busca compreender os espaços sagrados das religiões de matriz africana, mas especificamente o terreiro RUDEMBO GUNZO DE BAMBURUCEMA, que vem da tradição candomblé angola. Meu interesse nesta temática é descobri valores e elementos até então desconhecidos e pouco explorado no terreiro. A partir desse desconhecido procurei elucidar como a religião surgiu e se desenvolveu ao longo da história.

A figura da sacerdotisa Elizabeth Pantoja tem uma grande importância na vida dos candomblecistas angoleiros. Mãe Beth apresenta uma singularidade interessante do ponto de vista religioso, político e cultural. Uma de suas grandes marcas é reconhecer-se como mulher negra, com um arcabouço cultural e religioso expresso em sua própria fala. Sua identificação se dá ao longo de sua trajetória desde os primeiros passos no terreiro de umbanda até sua inserção no candomblé angola. É interessante notar que mãe Beth nunca negou sua ancestralidade, muito pelo contrário, sempre procurou viver sua religião da melhor forma possível, mesmo não tendo aceitação na abertura de seu terreiro por parte da comunidade local.

Confesso que pesquisar esses elementos foi muito importante, pois desmistificou muitas teorias que havia do senso comum, hoje observo e asseguro que fazer parte desta religião é deixar-se conduzir por tudo o que há de belo, em cada expressão do sagrado. Durante minhas idas a campo, sempre ouvi de algumas pessoas que nesses lugares só existem “macumbeiros” e que querem fazer o mal para as pessoas. Essa ideia, entre outras que ouvi, são por falta de informações e conhecimentos acerca do universo religioso dos afro-brasileiros. Descobri que o desconhecido é cheio de mistérios, mas também de grandes revelações do sagrado. É o que pude destacar no corpo deste trabalho, fazendo inferências ao lugar pesquisado, como por exemplo o terreiro e tudo o que faz parte dele.

Com o surgimento das diversas formas de religiosidade no Brasil, e com a persistência de grupos religiosos, consegue-se uma maior expressividade das religiões afro-brasileiras na sociedade. Porém, essas manifestações dos espaços sagrados, das festas e celebrações, sofreram repressões ao longo da história. Entretanto, com a continuidade dos cultos aos deuses sagrados, como representação de afirmação dessas religiões, mostra-se sua importância não somente aos seus adeptos, mas também para a comunidade local, que até então sofriam preconceitos. Essa visão preconceituosa por algumas pessoas, leva os seguidores dessas religiões a quebrar tabus e paradigmas, através de sua presença significativa com seus cultos e manifestações religiosas.

Essas religiões conseguiram a duras penalidades apresentar o que elas têm de divino, do ponto de vista religioso. O sagrado são representações de valores, de culturas que devem ser vistas e apreciadas por todos. Estas religiões são importantes atualmente e desde sempre, porque traz para sociedade a história de nossos antepassados, de povos que foram arrancados de sua pátria para construir uma nova história. Essa contribuição dá-se pela expressão cultural e religiosa.

A experiência de crenças transmitidas por gerações passadas pelas religiões de matriz africana, mostra uma diversidade cultural e religiosa. A questão da religiosidade é importantíssima para os seguidores dessas religiões. O desencadeamento parte também do culto ora realizado pelo culto aos nkisis, que é uma parte importante e ponto de apoio das religiões afro-brasileiras. O processo de políticas afirmativas para a inclusão dessas tradições religiosas não foi fácil, visto que, esse processo demorou algum tempo para ser aceito na sociedade brasileira. Esses religiosos advindos de diversas tradições tiveram que lutar para conseguir se auto-afirmar em suas práticas religiosas. Alguns líderes foram proibidos de qualquer manifestação em seus terreiros. A comunidade local fazia denúncias recorrentes aos atos religiosos, coibindo de se manifestarem em suas casas.

Com essa amálgama de expressões religiosas, os negros tiveram que se desenvolver em sua grande maioria, em pequenos espaços ou em suas próprias casas, de forma muito tímida, pois as repressões foram as mais diversas no interior dessas religiões. Entretanto, graças a insistência de alguns religiosos esses paradigmas foram minimizados, aumentando consideravelmente o número de seguidores.

Esta inclusão começa a tomar espaço nas novas discussões que foram surgindo, com a contribuição de historiadores, sociólogos e antropólogos que também passaram por esta experiência de iniciação nos cultos afro-brasileiros, como Pierre Verger que teve sua iniciação no Candomblé Ketu. Seus relatos mostram a riqueza que há nesta religião, partindo de suas experiências e de seus escritos sobre as religiões afro-brasileiras. Em sua obra “lendas africana dos Orixás”, o autor relata as características de cada orixá[13], desde os mais conhecidos até os que são pouco estudado dentro da religião.

O papel traçado por essas religiões são importante pra visibilizar suas crenças e ritos, mostrando que toda e qualquer forma de expressão do sagrado devem ser respeitados. Partindo deste pressuposto, a liderança religiosa neste sentido, representa uma figura significativa, orientando seus membros a práticas concernentes a religião. Mostrando a função que cada um ocupa nos terreiros, desde a hierarquização quanto as funções menores, como tocar, cantar e cuidar da casa.

Diante dessas considerações, importa olhar a temática a partir de um viés cultural, identitário e religioso, fazendo-se importante nas políticas de inclusão dos afrorreligiosos, reconhecendo seus valores e direitos garantidos em relação as suas manifestações religiosas.

REFERÊNCIAS

  1. BERKENBROCK, Volney J. A experiência dos Orixás: um estudo sobre a experiência religiosa no candomblé. Petrópolis: Vozes, 1997.
  2. CORDOVIL, Daniela (Org). Religiões afro: introdução, associação e políticas públicas. São Paulo: Fonte Editorial, 2014.
  3. CORDOVIL, Daniela. Religião, gênero e poder: estudos Amazônicos. São Paulo: Fonte Editorial, 2015.
  4. FERREIRA, Ricardo; FRANKLIN, F. Afro-descendente: Identidade em construção. São Paulo: EDUC; Rio de Janeiro: Pallas, 2000.
  5. HALL, Stuart. A identidade cultura na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A. 2005.
  6. MAUSS, Marcel; HUBERT, Henri. Sobre o sacrifício. COSAC NAIFY. 2005.
  7. MAUSS, Marcel. Sociologia e antropologia. V. II. E.P.U/EDUSP: São Paulo, 2003.
  8. PRANDI, Reginaldo. Herdeiras do Axé. São Paulo: Hucitec, 1996.
  9. PREVITALLI, Ivete Miranda. Candomblé: agora é Angola. São Paulo: Annablume; Petrobrás, 2008.
  10. SALLES, Vicente. O negro na formação da sociedade paraense. Belém: Paka-Tatu, 2004.
  11. VERGER, Pierre. Orixás. São Paulo: Ed. Corrupio, 1981.

12. VOGEL, Arno; MELLO, Marco Antonio da Silva; BARROS, José Flávio Pessoa de. A galinha – D´angola: Iniciação e identidade na cultura afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas, 2012.

    1. VOLNEY, Berkenbrock, 1997; p. 81
    2. FERREIRA, Franklin Ricardo. P.39
    3. Idem, p. 39
    4. SALLES, Vicente. 2004, p.34
    5. Volney Berkenbrock, 1997; p.80-81
    6. Idem. P. 32
    7. FERREIRA, Franklin Ricardo. pp. 52-53
    8. VOLNEY, Berkenbrock, p. 14
    9. Idem, p. 14
    10. PRANDI. 1996. p.61
    11. Entrevista realizada em 28/09/2006
    12. O mesmo que nkisi na tradição ketu.

[1] Mestra em Ciências da Religião, Graduada em História, pós-graduada em Estudos Bíblicos.

Enviado: Novembro, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

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