Preferência foliar e oviposição de Otocrania sp. (Phasmatodea) em cativeiro

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ARTIGO ORIGINAL

SILVA, Mauricio de Oliveira [1]

SILVA, Mauricio de Oliveira. Preferência foliar e oviposição de Otocrania sp. (Phasmatodea) em cativeiro. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 09, Vol. 05, pp. 128-135. Setembro de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Insetos herbívoros exibem variabilidade nas preferências das plantas alimentares. Este estudo teve como objetivo identificar a preferência foliar, oviposição e eclosão dos ovos da espécie de Phasmatodea Otocrania sp. em cativeiro. Dois casais da espécie foram coletados à mão na vegetação da Caatinga do município de Contendas do Sincorá, na Bahia, e mantidos em caixa de vidro (0,5 m de profundidade, 0,5 m de largura, 0,8 m de altura), cobertos com tecido voil. Durante os primeiros quatro dias em cativeiro, os animais comeram folhas de seu habitat natural. No quinto dia, folhas de quatro espécies vegetais: maçã (Malus domestica ‘Gala’), goiaba (Psidium guajava), amora (Morus nigra) e rosa (Rosa sp.) foram oferecidas como alimento aos insetos. Foi medida a área foliar da espécie antes e após 48 horas de exposição à herbivoria. Após oito dias de experimento, os animais consumiram 13,6% das folhas de Rosa sp., 6,8% de M. gala, 6% de P. guajava e não houve herbivoria em folhas de M. nigra. Espécies de Otocrania em ambiente natural são monófagas como resultado de adaptações fisiológicas para hospedar a química das plantas. No entanto, neste estudo, a espécie apresentou comportamento polífago. Mais estudos são necessários para determinar como o cativeiro afeta o comportamento da espécie de Otocrania, mas o presente resultado mostra que a espécie não se alimenta de plantas com defesas químicas como M. nigra. Ademais, a espécie mostrou-se de fácil manutenção em cativeiro com oviposição e desenvolvimento dos ovos.

Palavras-chave: Herbivoria, Bicho-pau, polífago.

INTRODUÇÃO

O bicho-pau, fasmídeo (Phasmatodea) é um inseto (Hexapoda) que possui um método de camuflagem bem desenvolvido assemelhando-se a galhinhos, folhas, gravetos e ramos da vegetação onde vive, pertence a ordem Phasmatodea, cujo nome tem origem na palavra “phasm” que significa fantasma. Os populares bichos-pau possui uma das adaptações mais notáveis do reino animal: a camuflagem.

Esses animais costumam passar horas imóveis sobre um galho, com as pernas frontais esticadas, cobrindo a cabeça e as longas antenas (FARIA, 2010). A visualização em ambiente natural acontece com uma observação mais apurada sobre a folhagem pois sua camuflagem é muito eficiente o que os protegem de aves e outros possíveis predadores.

Assim, quando percebe que algum predador está por perto, simplesmente para de andar e fica balançando o corpo ritmicamente, assemelhando-se a um galho fino soprado pelo vento; São basicamente noturnos, passam o dia imóveis, escondidos sob a vegetação (OLIVEIRA et al., 2013). Algumas espécies além de portar esta característica de camuflagem ainda secretam um líquido fétido para afastar os predadores.

As fêmeas não têm um ovipositor bem desenvolvido de modo que não pode inserir seus ovos no tecido da planta hospedeira. Os ovos assemelham-se à sementes e são descartados isoladamente no chão, às vezes de grandes alturas (MEYER, 2009), há relatos de que a queda de ovos em quantidade lembra o barulho das gotas de chuva.

Os fasmídeos estão presentes por toda a América do Sul, mas sabe-se pouco a respeito de suas espécies (OLIVEIRA et al., 2013). Em poucas espécies tropicais os adultos têm asas bem desenvolvidas, sendo a maioria braquípteros (asas reduzidas) ou secundariamente sem asas. São mais abundantes nos trópicos, onde algumas espécies podem medir 30 cm (12 polegadas) de comprimento (MEYER, 2009).

As pesquisas internacionais são lideradas pela Nova Zelândia e Austrália com ênfase para as inúmeras espécies desses países. A Nova Zelândia registra 23 espécies (BUCKLEY et al., 2009). No Brasil a ordem Phasmatodea ainda é pouco estudada, uma vez que, são encontradas diversas dificuldades na identificação dos espécimes, tais como:

“(i) descrições resumidas (ii) acentuado dimorfismo sexual; (iii) variação intraespecífica, como tamanho, coloração e textura do corpo; (iv) espécies descritas a partir de um único espécime (macho, fêmea ou ninfa); (v) uso apenas de características morfológicas externas, não sendo relatado nada sobre as estruturas internas e a morfologia dos ovos; (vi) poucos trabalhos sistemáticos, juntamente com baixo número de coletas, envolvendo a ordem, e consequente falta de material depositado em museus, o que ocasiona a impossibilidade de trabalhos comparativos”. (CONLE E HENNEMANN, 2011)

As principais famílias de Phasmatodea são Phasmatidae (Walkingsticks) que imitam ramos e gravetos e Timemidae (Insetos Folha) que imitam folhas e folhagens. Phasmatodea é um grupo herbívoro, alimenta-se de folhas e brotos de algumas árvores, como goiabeiras e pitangueiras (FARIA, 2010), durante o dia permanecem imóveis ou movimentam-se muito pouco, algumas espécies alimentam-se durante o dia porém de maneira lenta que não chame a atenção de predadores, sendo que a maioria são mais ativas no período da noite quando procuram por alimento.

Os fasmídeos apresentam dimorfismo sexual sendo o macho menor que a fêmea, como acontece na espécie observada neste trabalho, no ato do acasalamento fica sobre a fêmea. Em algumas espécies os machos são extremamente raros e ocorre reprodução agâmica por partenogênese que prevalece o nascimento de fêmeas (COSTA LIMA, 1938). Os ovos de Phasmatodea muitas vezes se assemelham à sementes e podem permanecer dormentes por mais de um ano antes da eclosão (MEYER, 2009).

O presente trabalho tem por objetivo observar a preferência foliar e a oviposição da espécie Otocrania sp. (Figuras 1, 2 e 3) a fim de conhecer um pouco mais sobre seus hábitos alimentares e reprodução em cativeiro e justifica-se por gerar informações sobre o comportamento e biologia desta espécie.

Figura 1. Otocrania sp. fêmea em ambiente natural.

Fonte: Mauricio de Oliveira, 2014.

Figura 3. Otocrania sp. fêmea montada para coleção entomológica.

Fonte: Mauricio de Oliveira, 2014.

Figura 2. Otocrania sp. macho montado para coleção entomológica.

Fonte: Mauricio de Oliveira, 2014.

METODOLOGIA

Para o estudo foram coletados, em uma área de Caatinga do sudoeste baiano no município de Contendas do Sincorá, quatro espécimes de Phasmatodea , sendo 02 (dois) machos e 02 (duas) fêmeas. No momento da coleta os casais estavam em cópula. Os animais foram levados para o laboratório e aprisionados em caixa plástica medindo 45 cm (largura), 30 cm (profundidade) e 20 cm (altura), coberta com tecido voil a fim de facilitar a visualização do comportamento dos indivíduos e a circulação de ar no local. Durante 4 dias os animais foram alimentados com folhas de seu habitat natural. No oitavo dia após captura, foram ofertadas como alimento e para fim de identificação da preferência foliar as folhas das seguintes espécies: maçã (Malus domestica ‘Gala’), goiaba (Psidium guajava), amora (Morus nigra) e rosa (Rosa sp.) simultaneamente com troca de folhas em cinco vezes entre 48 horas, para as espécies de maçã, rosa e goiaba foram ofertadas 10 folhas por evento, já para a espécie de amora apenas 3 folhas. As folhas foram desenhadas em papel milimetrado antes e pós herbivoria para demonstração de área consumida.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

No 2º dia após o início do experimento de preferência alimentar os machos morreram, provavelmente porque não se alimentaram das folhas disponíveis ou devido a um provável estresse desenvolvido pela mudança de habitat. O longo período de cativeiro provoca alterações funcionais, que podem tornar os animais enfraquecidos e sem habilidades físicas e psicológicas necessárias à sobrevivência (ORSINI et al., 2006). Quanto a preferência foliar, foi ofertada uma área total de 6453,77 cm² de goiaba (Psidium guajava) onde 402,08 cm² foi consumido, as folhas de maçã (Malus domestica) foram ofertadas 20935,8 cm² e destas herbivorada 199 cm², das folhas de rosa (Rosa sp.) foram ofertadas 1387 cm² e consumida 189² cm, por fim as folhas de amora (Morus nigra) tiveram uma área total de 5158 cm² porém não houve herbivoria. Da área total ofertada de cada espécie de planta, os espécimes consumiram 13,6% das folhas de Rosa sp, 6,8% das folhas de Malus domestica, 6% das folhas de Psidium guajava (Tabelas 1 e 2)

Fonte: Dados da pesquisa, 2014.
Fonte: Dados da pesquisa, 2014.

Os exemplares de Otocrania sp. mostraram maior preferência pela folhas de Rosa sp. e Malus domestica, do que pelas folhas de Psidium guajava, o que não era esperado, já que em outros trabalhos com a ordem Phasmatodea, as ninfas de Phibalosoma phyllinum mostraram preferência pela folha de goiaba (Psidium guajava), mesmo oferecendo folhas de outras espécies, as ninfas alimentadas com estas folhas obtiveram maior desenvolvimento corpóreo e maior índice de sobrevivência (VARGAS, 2009). O gênero Otocrania possui espécies diversificadas geralmente monófagas como resultado de adaptações fisiológicas para hospedar a química das plantas. No entanto, neste estudo, as espécies apresentaram comportamento polífago, como apresentado por Silva et al. (2015).

Sobre o desenvolvimento, postura e eclosão dos ovos (Figura 4). Os machos morreram no 6º dia após a retirada do habitat natural, no 12º dias pós-coleta começou a oviposição das fêmeas somando 108 ovos, contados 7 dias de postura. Os ovos foram mantidos na caixa e as fêmeas morreram após duas semanas pós-oviposição. Após 180 dias os ovos começaram a eclodir, nascendo 26 espécimes, ou seja, dos 100% dos ovos 24,07 % desenvolveram-se em cativeiro. Pela análise de oviposição e eclosão dos ovos observou-se que Otocrania sp. é uma espécie que pode ser mantida em cativeiro para fins científicos. Após o experimento os filhotes foram devolvidos a caatinga.

 

Figura 4. Ovos em formato semelhante a sementes, vistos sobre escala de centímetros.

Fonte: Mauricio de Oliveira, 2015.

CONCLUSÃO

Mais estudos são necessários para determinar como o cativeiro afeta o comportamento da espécie Otocrania sp., mas os presentes resultados mostram que a espécie não se alimenta de plantas químicas como M. nigra e que ocorre a eclosão dos ovos. Pela análise de herbivoria observa-se que Otocrania sp. é uma espécie polífaga em situação de estresse ambiental e que em grandes populações, que não é muito comum, podem causar danos a plantações de rosa, maçã e goiaba.

REFERÊNCIAS

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COSTA LIMA, A. M. Insetos do Brasil, 1º tomo, cap. XI. Escola Nacional de Agronomia.

Disponível em: <http://www.acervodigital.ufrrj.br/insetos/insetos_do_brasil/conteudo/tomo_01/11_phasmida.pdf> acesso em: 15 fev.2015.

FARIA, R. É um bicho ou é um pau?, Ponto ciência. 2010, disponível em: <http://www.pontociencia.org.br/experimentosinterna.php?experimento=473&E+UM+BICHO+OU+E+UM+PAU> acesso em 18 fev. 2015.

FERREIRA, R. B. AUAD, A. M. G. SALVIO, M.M. AMARAL, R.L. SOUZA,L.S. BRAGA ,A.L.F. OLIVEIR, S.A. Aspectos biológicos de Phibalosoma philinum (gray, 1835) (Phasmatodea: Phasmatidae) alimentados com folhas de goiabeira e eucalipto. Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, Caxambu – MG: 2007.

MEYER, J.R. Phasmatodea/Walkingsticks / Stick Insects / Leaf Insects / Phasmids, General Entomology, 2009. Disponível em: <http://www.cals.ncsu.edu/course/ent425/library/compendium/phasmatodea.html> acesso em 15 fev. 2015.

OLIVEIRA, A. P. C.; DUARTE, M. A. & OLIVEIRA, C. P., Preferência alimentar do bicho-pau. Revistas Científicas Eletrônicas. Disponível em: <http://fait.revista.inf.br/imagens_arquivos/arquivos_destaque/zFcUgjp96P9Qn5A_2014-4-16-15-18-43.pdf> acesso em 14 fev. 2015.

ORSINI, H, BONDAN, E. F. Fisiopatologia do estresse em animais selvagens em cativeiro e suas implicações no comportamento e bem-estar animal – revisão da literatura. Rev Inst Ciênc Saúde. 2006; 24(1):7-13.

SILVA, M. O.; OLIVEIRA, Q. B. ; SOUSA, R. S. ; NASCIMENTO, P. H. S. ; CORREA, M. M. . Otocrania sp. (Phasmatodea) leaf preference in captivity. Anais V Simpósio [Internacional] de Entomologia, 2015, Viçosa. Proceeding of the 5th Internacional Symposium of Entomology. Viçosa: UFV, 2015.

VARGAS, N. C. V. Desenvolvimento ninfal e morfologia do trato digestivo e reprodutor de fêmeas de Phibalosoma phyllinum (Phasmidae). Dissertação de Mestrado. Universidade Federal de Viçosa. 2009.

[1] Mestrando em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, Graduado em Ciências Ambientais pela Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB.

Enviado: Maio, 2018.

Aprovado: Setembro, 2019.

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