O encontro da moda com a arte: Momentos da história da moda em que a arte foi inspiradora

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ARTIGO ORIGINAL

BÖGER, Márcia Raquel [1]

BÖGER, Márcia Raquel. O encontro da moda com a arte: Momentos da história da moda em que a arte foi inspiradora. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 05, pp. 138-151. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

A moda se alimenta de inspiração e pode caminhar pelos campos da arte, surge do desejo de se tornar semelhante ao próximo e da consequência de criar uma identidade diferente, construiu sua história a parir dos desejos da sociedade e do indivíduo. Por sua vez, a arte é fruto das produções humanas que possuem ou não utilidades, sendo esta construtora cultural das civilizações, ou seja, apresenta por meio de objetos a história do homem e de sua sociedade independente da época em que se encontra. O propósito deste trabalho é destacar alguns momentos da história da moda em que a arte se mostrou influente ou inspiradora. Por meio de pesquisas bibliográficas e eletrônicas apresentam-se conceitos sobre Moda e sobre Arte, além de localizar os momentos em que essas áreas se combinam. Sendo assim, conclui-se que a moda é uma forma de manifestação artística, e ambas são fenômenos sociais e possuem características em comum e, de acordo com a história, podem caminhar juntas.

Palavras-chave: História, moda, arte, inspiração.

1. INTRODUÇÃO

As duas vertentes pesquisadas neste trabalho de pós-graduação são arte e moda. Ambas são formas de linguagem e se comunicam de formas específicas, não possuem uma data característica de nascimento, ou seja, não são fatos históricos e sim um conjunto de acontecimentos e comportamentos que envolvem a história da sociedade. A arte está presente na sociedade desde a antiguidade, em objetos, gravuras, e outras diferentes formas de manifestações. Já a moda surge apenas no período renascentista como uma evolução da indumentária.

Esta pesquisa pretende mostrar fatos que comprovem que arte e moda têm muito em comum e que podem caminhar juntas. As duas áreas da pesquisa representam manifestações da sociedade, pois é a sociedade que faz, transforma, recria, modifica. Os diferentes modos de comportamento, a cultura, os acontecimentos sociais é que produzem arte e moda. A Primeira e Segunda Guerra Mundial mudaram o modo de vestir das mulheres, os anos 1960 refletem movimentos de liberdade, os expressionistas queriam sentimentos na arte enquanto o dadaísmo queria escandalizar.

As pesquisas realizadas para o desenvolvimento deste trabalho são qualitativas e foram realizadas por meio bibliográfico e eletrônico, além de textos, usou-se referencial iconográfico. Iniciou-se uma pesquisa sobre os fatos que envolvem o acontecimento e surgimento da moda e conceitos que ajudam a interpretar o conceito da arte. Buscou-se então fatos da história da moda que mostrassem a interação entre essas duas vertentes, logo, as pesquisas se voltaram para a história da arte novamente, com a função de explicar o que e quais foram as influências.

O objetivo geral deste é destacar alguns momentos da história da moda em que a arte se mostrou influente ou inspiradora. Para tanto, se faz necessário o cumprimento de algumas etapas, assim, segue a relação dos objetivos específicos que devem ser desenvolvidos durante a pesquisa:

      1. Discorrer sobre o contexto da moda;
      2. Descrever conceitos artísticos;
      3. Exemplificar a interação da arte na moda;
      4. Delinear a influências artísticas que envolvem o objetivo anterior.

O trabalho está organização em três momentos: a primeira parte aborda a história da moda, sendo possível conhecer os aspectos acerca do seu surgimento e como foi se desenrolando ao longo dos anos; a segunda parte discorre sobre a história da arte e alguns particularidades; enquanto que na terceira parte apresenta-se os exemplos da moda que são influenciados pela arte, aqui, a arte aparece para explicar o que realmente foi ou causou inspiração para os exemplos citados.

2. INTERAÇÃO ENTRE A ARTE E A MODA

A necessidade e a magia fizeram o homem cobrir o corpo, surgindo assim o uso das roupas. Conforme percebiam as dificuldades, descobriam e aperfeiçoavam as técnicas de sobrevivência. Segundo Laver (1989) o motivo pelo qual as primeiras civilizações começaram a usar roupas foi o pudor, além da exibição e crença na proteção mágica. Logo, os povos da era glacial, na Europa, viram a necessidade de vestir-se para se proteger do clima. Ao descobrirem como trabalhar a pele e deixá-la maleável, inventaram a agulha (feita com marfim de mamute, ossos de rena e presas de leão-marinho) e deram forma as roupas. Os povos que viviam em regiões mais quentes começaram a utilizar fibras animais, como a lã, iniciando o processo da feltragem, e fibras vegetais, como o aproveitamento de cascas de árvores (amoreira ou a figueira) para uma espécie de tecido que se enrolava ao corpo.

2.1 SOBRE MODA

Diversos povos foram surgindo e se destacando por suas conquistas territoriais, características culturais e indumentárias. A miscigenação entre as civilizações, foi transformando a maneira tradicional de se vestir, como exemplo, os romanos que “tomaram emprestado dos etruscos uma peça que viria a se tornar característica de sua civilização: a toga.” (LAVER, 1989, p.36).

Além de caracterizar as diferentes civilizações, o ato de se vestir e se adornar tornou-se uma forma de distinção entre as pessoas. Essa afirmação pode ser percebida, por meio de estudos, em diferentes povos, como aconteceu com os egípcios, que se localizavam na região quente do vale do rio Nilo, e tinham como traje típico o chanti. Segundo Laver (1989, p. 18) “[o chanti] Para os reis e dignitários era pregueado e engomado, algumas vezes, bordado”, enquanto (1989. p.16), “as pessoas das classes mais baixas e os escravos dos palácios andavam quase, ou completamente, nus.”

O propósito de se vestir foi se transformando em uma forma de comunicação, pois desde o início da indumentária as pessoas queriam transmitir ideias, seja elas de força, de poder ou de riqueza. Esse foi o impulso necessário para o nascimento da moda, ou seja, quando as diferenças das roupas não são mais entre civilização, mas sim da própria sociedade que busca mudanças, surge a moda. A indumentária passou a ser definida pelo conceito de moda apenas no período do Renascimento também conhecido como idade da luz. De acordo com Treptow (2013, p. 20) “Até o final da Idade Média, podemos constatar que existia indumentária, roupa, mas não moda”. E, para complementar, Lipovtsky (1989, p. 23) afirma que

Só a partir do final da Idade Média é possível reconhecer a ordem própria da moda, a moda como sistema, com suas extravagâncias. A renovação das formas se torna um valor mundano, a fantasia exibe seus artifícios e seus exageros na alta sociedade, a inconstância em matéria de formas e ornamentações já não é exceção, mas regra permanente: a moda nasceu.

O fenômeno moda se inicia quando a classe burguesa começa sua ascensão e se comparam a nobreza. A distinção entre os antigos e os novos nobres começara a ser feita através das roupas, onde a classe ascendente se espelhava a classe dominante. Treptow (2013, p. 20) descreve que “começavam a surgir detalhes de vestimenta, que eram copiados muitas vezes pela influência do usuário”. A partir disso, a autora, declara que a moda se caracteriza quando a roupa “passa a variar em estilos conforme vogas da época” (TREPTOW, 2013, p. 21).

Sendo assim, a moda resultou da preocupação com a imagem que as pessoas da época possuíam diante da sociedade, e hoje, a situação não se tornou diferente. Nas palavras de Fogg (2013, p. 13) “As pessoas continuam sendo julgadas pela aparência – seu status, sexualidade e gosto estão sujeitos ao olho discernido”. E além de caracterizar a sociedade por aparência, a moda atinge a sociedade de forma econômica, como destaca Blackman (2012, p. 6):

A moda é frequentemente considerada superficial, resultado de seu inerente caráter efêmero. Deveria ser reconhecida como uma indústria global que movimenta trilhões e emprega centenas de milhares de pessoas para satisfazer a necessidade de auto expressão da era pós-moderna e a crescente demanda dos consumidores por novidades.

A moda é uma consequência social, não reflete apenas um indivíduo, “é um reflexo das forças sociais, políticas, econômicas e artísticas de um determinado período” (FRINGS, 2012, p. 4).

Sendo assim, “Para que a moda aconteça, é preciso que existam seguidores, ou seja, ninguém “faz” moda sozinho. […] É preciso que exista um consenso, pessoas que acreditem, concordem e consumam esta ou aquela ideia para que ela vire moda” (TREPTOW, 2013, p. 22). Complementando, segundo Liger (2012, p.24), “A moda está sujeita a fatores que vão influenciar e determinar o uso ou abolição de determinada matéria-prima ou tecnologia; esses fatores estão relacionados aos aspectos sociais, religiosos, econômicos e geográficos”.

Conclui-se que a moda está associada a individualização e de certa forma a semelhança entre os indivíduos, pois, enquanto um se torna diferente o outro indivíduo busca uma referência,

A moda surge no momento histórico em que o homem passa a valorizar-se pela diferenciação dos demais através da aparência, o que podemos traduzir em individualização. Todavia, essa diferenciação de uns, visa uma identificação com outros, pois a moda se dá através da cópia do estilo daqueles que se admira (TREPTOW, 2013, p. 21).

Complementando, segundo Liger (2012, p.21) “No atual contexto de globalidade, estar na moda é antes de tudo SER. Ser parte integrante de um grupo com o qual nos identificamos por gostos similares, mas que não nos iguala, porque mantemos o desejo veemente de sermos diferentes e nos destacarmos. Queremos SER”.

2.1.1 A MODA NO SÉCULO XX

O século XX foi muito importante para o desenvolvimento da moda. Foi o momento em que as mudanças se tornaram mais eletrizantes e com ritmo considerável. “Esse período testemunhou o rápido desenvolvimento da produção e da disseminação da moda e a maior transformação em seu consumo: passou de couture (alta costura) destinada à elite no início do século à quase universalidade atual, disponível para todos em qualquer loja […]” (BLACKMAN, 2012, p. 6).

Este século observou acontecimentos consideráveis como duas Guerras Mundiais, ocupação de novos lugares pelas mulheres (práticas esportivas, direito ao voto, inserção no mercado de trabalho), movimentos jovens nos anos 50, 60 e 70, a ruptura da produção artesanal para produção em massa de produtos como roupas, surgimento de novos estilistas, e também a influência de personalidades da música e do cinema.

A figura exibida na sequência objetiva apresentar as cores, formas e conceitos da moda durante o século XX.

FIGURA 01: História Da Moda Do Século XX

FONTE: Adaptado pela autora (2015).

2.2 SOBRE ARTE

A arte não tem data definida de surgimento, a conhecida história da arte é construída através de pesquisas de historiadores que constroem a cultura de antigas civilizações através de achados e acontecimentos. No entanto, Proença (2012) assinala que a arte surge na Pré-História, no período Paleolítico há cerca de 12 mil anos atrás. Para a autora, a história cultural da humanidade é inicialmente construída por meio de objetos e imagens que foram encontradas em sítios arqueológicos, já que não existiam registros de escritos. A religião também foi fator contribuinte para a cultura dos povos, como exemplo no Antigo Egito por meio das práticas rituais e a crença no Universo para questões políticas, sociais e de organização. A arte ganha diferentes formas de linguagens na segunda metade do século XX.

A arte é um registro das produções humanas há muito tempo, segundo a autora, o ser humana transforma o ambiente em que vive criando objetos para uso em geral e também objetos aos quais fazem pensar o porquê de terem sido feitos, assim sendo “o ser humano, seja de que época for, cria objetos não apenas para se servir deles, mas também para expressar seus sentimentos diante da vida” (PROENÇA, 2012, p. 06). Em outras palavras e de maneira simplificada, é possível definir a arte como “um produto da criatividade humana, que, utilizando conhecimentos e técnicas e um estilo ou jeito pessoal, transmite uma experiência de vida ou uma visão de mundo, despertando emoção em quem a usufrui” (FEIST, 1996, p. 9 apud SOARES, 2011, p. 12).

As manifestações artísticas representam um valioso registro de acontecimentos e momentos sociais. Na verdade,

Conhecer a história da arte é entrar em contato com um dos aspectos mais significativos da produção humana em todos os tempos. É também experimentar o encantamento e as emoções despertadas pelas obras dos grandes artistas. […] É também fonte de referência essencial para o entendimento do processo histórico e um meio agradável de construir uma visão mais ampla do processo cultural (PROENÇA, 2012, p. 3).

Em se tratando das manifestações artísticas e, nos dizeres de Soares (2011, p.11), “os saberes de cada sujeito direcionam a criação da obra de arte, podendo assumir formas variadas como a pintura, a música, a escultura, o cinema, o teatro, a dança, a arquitetura entre outras”.

Em resumo, ela esteve ou está presente no cotidiano das pessoas “Muitos objetos que hoje vemos nos museus ontem faziam parte do cotidiano de um grupo humano. Muitas construções hoje tombadas como patrimônio histórico foram antes moradias” (PROENÇA, 2012, p. 8).

Na atualidade e na visão de Soares (2011, p. 16), a arte “nos surpreende em espaços inusitados, nos convidando a vivenciar a experiência estética”, ou seja, não existe mais um limite ao acesso artístico.

FIGURA 02 – Epopeia Paulista [2]

FONTE: Disponível em:<http://arteforadomuseu.com.br/mural/epopeia-paulista/>. Acesso em: 10 out. 2015.

2.3 EXEMPLOS DE INTERCÂMBIO ENTRE ARTE E MODA

Profissionais da área da moda podem usar as obras de arte para inspirar seus trabalhos. De acordo com Buckley e McAssey (2013, p. 61) “Elementos como composição, tema, cor e textura dessas pinturas, gravuras, esculturas e desenhos são fontes de inspiração”. Sendo assim, Garcia (2010, p.91), afirma que Elsa Schiaparelli foi a primeira a promover a integração entre esses dois mundos, além disso, descreve que

Todo estilista já foi influenciado pelas artes, e elas, já foram influenciadas pela moda. Há uma interseção intensa entre ambos. Paul Poiret, famoso estilista do início do século XX, é tido como o pioneiro a advogar a favor da ligação entre estilista e artista. Ele disse: “Sempre gostei de pintores. Para mim, parece que estamos na mesma área e que são meus colegas.”

Nos tópicos apresentados a seguir, aparecem alguns exemplos de acontecimentos da moda que fizeram uso de elementos artísticos e a descrição do que são ou foram essas referências de arte.

2.3.1 EXEMPLO: ILUSTRAÇÃO DE MODA

A arte contribui com a moda há um tempo como forma de divulgação ou apresentação de produtos, ou seja, “Antes do advento da fotografia, os estilos de vestir eram documentados por meio de impressões artísticas, como desenhos e pinturas” (BUCKLEY; MCASSEY, 2013, p. 61). Hoje, mesmo com a fotografia, a ilustração de moda ainda atua como meio de representação e divulgação de roupas, tendências, tecidos, entre outros.

A ilustração de moda foi reconhecida como forma de arte pela primeira vez em 1908, quando o coutier francês Paul Poiret (1879-1944) convidou o jovem gravurista Paul Iribe para ilustrar seus modelos de vanguarda para uma pequena publicação promocional chamada Les Robes de Paul Poiret (Os vestidos de Paul Poiret […]). (FOGG, 2013, p.208).

FIGURA 03 – LES ROBES DE PAUL POIRET, 1908.

FONTE: FOGG, Marnie. Tudo sobre moda. Rio de Janeiro (RJ): Sextante, 2013.

O início da ilustração de moda, nos dizeres de Morris (2007), acontece na metade do século XVII com Wenceslaus Hollar. No século XVIII, ideais de moda começaram a circular em jornais e revistas, enquanto no século XIX o aperfeiçoamento das técnicas de impressão impulsiona a presença da ilustração na imprensa. Continuando, Morris (2007, p. 82) afirma que “Na virada do século XX, os ilustradores de moda foram influenciados por movimentos artísticos como o art nouveau, o art déco e o surrealismo, que foram fundamentais para determinar novos estilos de ilustração.”

Em resumo, a Art Nouveau é um movimento inspirado na natureza e em suas formas orgânicas. Callan (2007, p. 26) descreve que essa forma de arte decorativa surgiu na Europa no final do século XIX e que o movimento se expressou “principalmente na arquitetura, na decoração de interiores e no desenho de mobiliário, abrangeu também jóias e tecidos. Caracteriza-se por linhas graciosas, um tanto exageradas, com traços alongados terminando em arabescos e motivos de flores e de folhas”.

Conforme Santana (2015) o termo Art Déco resulta da língua francesa e da expressão arts décoratifs que define a escola de natureza internacional que vai de 1925 até 1939, até presente nas áreas da decoração, arquitetura, design interior, desenho industrial, moda, artes plásticas e gráficas, cinema. Ganhou forma e maior significado em Paris nos anos de 1925 a partir da Exposição Internacional de Artes Decorativas e Industriais Modernas. Suas principais raízes estão no movimento Art Nouveau. As principais características da Art Déco são linhas retas ou esféricas, figuras geométricas e desenho de natureza abstrata, geralmente apresenta imagens de animais e de esboços femininos. O desenho apresenta uma estética mais minimalista, simples e pura.

Segundo Proença (2012, p. 268), o surgimento do movimento surrealista aconteceu na França em 1924, e associava “a criação artística ao automatismo psíquico puro. Dessa associação resulta que as obras criadas nada devem à razão, à moral ou a própria preocupação estética. […] a obra de arte não é o resultado de manifestações racionais e lógicas do consciente”. Assim, as obras são relacionadas a sonhos, alucinações, ao absurdo ou contraditório. O Surrealismo é apresentado por Callan (2007, p. 298) como um “movimento artístico e literário que, entre as duas guerras mundiais, reagiu contra a racionalização e o formalismo das tendências dominantes, concentrando-se na reconstrução de um mundo fantástico”. A autora afirma que para a moda o surrealismo representa roupas estranhas ou sugestivas, e surge no final da década de 1920 predominando nos anos 1930.

FIGURA 04 – ART NOUVEAU: Alphonse Mucha, 1897; ART DÉCO: EDUARDO GARCÍA BENITO, DÉCADA DE 1920; e SURREALISMO: salvador dalí, abril 1944.

FONTE: Adaptado pela autora (2015).

2.3.2 EXEMPLO: ATRIZES DE CINEMA NOS ANOS 20 E 30

Sobre o surgimento do cinema, Bernardet (1981, apud PROENÇA 2012) descreve que o primeiro dia de uma exibição pública aconteceu em Paris, na tela do Grand Café, em 28 de dezembro de 1895, sendo Lumière um dos inventores do cinema. Os filmes eram curtinhos, preto e branco e sem som. Para o autor, o cinema reproduz a realidade, a vida tal como é, não sendo então o cinema uma arte qualquer. Para Proença (grifo nosso, 2012, p. 368,),

O cinema tem […] um lado artístico inegável, pois narra histórias por meio de imagens, muitas vezes de grande beleza e inesquecíveis. E isso tem acontecido desde os primeiros filmes, passando pela fase do cinema mudo [por volta de 1921], da chegada do filme em cores [período de 1942], dos efeitos especiais e dos recursos propiciados pelo computador [exemplo filme Matrix, de 1999].

Em relação a moda, o cinema desperta inspirações de estilo e beleza. Temas e narrativas podem servir de fonte para criadores de moda, assim como as atrizes e atores, ou mesmo personagens, podem influenciar os costumes dos indivíduos. Para esta pesquisa, destacam-se três atrizes que, por volta dos anos 1920-30 foram consideradas referência para a época: Jean Harlow, Marlene Dietrich e Greta Garbo.

A atriz Jean Harlow, segundo Blackman (2012, p. 141) foi “Considerada a blonde bombshell original, Harlow e suas ondas platinadas provocaram uma corrida às farmácias em busca de peróxido, apesar dos danos que o produto poderia causar”. Logo que Jean Harlow apareceu usando um dos vestidos de noite com frente única a moda pegou nos Estados Unidos, esses vestidos foram introduzidos por Madeleine Vionnet na Europa por volta de 1930.

A mesma autora (p. 145) ainda destaca que Marlene Dietrich tornou-se referência de estilo por sua “combinação de elegância europeia com ambiguidade sexual e glamour hollywoodiano. Aparentemente a vontade tanto com cartola e fraque quanto coberta de peles ou usando um vestido cintilante bordado com lantejoulas”, e mais, a atriz introduziu a moda das calças compridas nos Estados Unidos.

Enquanto Greta Garbo, conforme a autora, “tinha um estilo pessoal, descompromissado e autêntico. Sua figura atlética era ideal para as calças compridas e ela raramente usava maquiagem. […] exerceu influência na moda: a chapelaria foi impulsionada por causa de suas aparições na tela usando diferentes tipos de chapéu.” (op. cit., p.146). Uma mulher um tanto diferente para os padrões de Hollywood, já que apresentava esta aparência natural e quase não usava maquiagem.

FIGURA 05 – JEAN HARLOW 1932, MARLENE DIETRICH 1933, E GARBO FINAL DOS ANOS 1920.

FONTE: FOGG, Marnie. Tudo sobre moda. Rio de Janeiro (RJ): Sextante, 2013. Adaptado pela autora.

Outro elemento do cinema que possui ligação direta com a moda é o figurinista que “Concebe peças de roupas novas por meio de pesquisa histórica. […] Assessora produções de comerciais, eventos, teatro, TV e cinema, criando vestimentas de diferentes épocas” (FEGHALI; DWYER, 2010. p. 116). Um nome de destaque foi Adrian que segundo Callan (2007, p. 14) “Criou figurinos para shows da Broadway até 1925, quando foi para Hollywood fazer roupas para Rodolfo Valentino”. E mais, entre 1926 a 1928, tornou-se figurinista-chefe na Metro-Goldwyan-Mayer, onde criou modelos para Greta Garbo, e a outras atrizes famosas. Depois de muitos trabalhos como figurinista, encerrou a carreira no cinema em 1942 quando abriu sua loja em Beverly Hills, no entanto ainda fez algumas roupas para alguns filmes.

2.3.3 EXEMPLO: VESTIDO LAGOSTA DE ELSA SCHIAPARELLI

Sobre o trabalho da estilista Elsa Schiaparelli (1890-1973) Callan (2007, p. 285) comenta que “Nada agradava mais a Elsa do que divertir, fosse sendo espirituosa, fosse chocando. Suas roupas eram elegantes, sofisticadas e, muitas vezes, extremamente excêntricas, atraindo grande clientela”. E para complementar, a autora ressalta que as criações da estilista foram bastante influenciadas pelos movimentos de arte cubista e surrealista. E que ela soube fundir arte e moda, oferecendo novas opções de vestir para as mulheres.

O destaque neste exemplo é o “vestido-lagosta” criado, segundo Garcia (2010), em 1937 e inspirado na obra de Salvador Dalí, sendo a estampa do tecido feita pelo próprio artista. O vestido branco com uma faixa vermelha apresentava, na frente da peça, a estampa da lagosta com mais de meio metro e também na cor vermelha. Dalí inventou o “telefone lagosta” em 1936, um telefone (de verdade) em que o fone era uma concha de uma lagosta. O motivo da criação da obra foi não receber um telefone assado ao pedir uma lagosta grelhada.

FIGURA 06 – VESTIDO-LAGOSTA DE ELSA SCHIAPARELLI, 1937, E TELEFONE LAGOSTA DE SALVADOR DALÍ, 1936.

FONTE: Adaptado pela autora (2015).

O artista plástico Salvador Dalí (1904-89), como descrito por Callan (2007), nasceu na Espanha e depois de passar pelo movimento cubista, tornou-se surrealista em 1929. No ponto de vista de Proença (2012, p. 269), ele “procurou desenvolver em sua pintura a atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas. Segundo ele, ao pintar, é preciso desacreditar da realidade tal como percebemos”, e complementa afirmando que o artista considerava o desenho um fator valioso para a pintura. Ele foi um dos artistas mais importantes do movimento surrealista.

2.3.4 EXEMPLO: VESTIDO MONDRIAN

Este exemplo apresenta a mistura da obra de arte com a alta costura. O equilíbrio das obras assimétricas e brilhantes do artista Piet Mondrian é usado como inspiração pelo estilista Yves Saint Laurent. Garcia (2010, p.93) descreve que “O vestido tornou-se um fenômeno na década de 1960, e a coleção continua sendo uma das maiores interseções entre arte e moda. […] A atitude e abordagem de Yves Saint Laurent em relação à arte e à moda se tornaram um padrão a que estilistas sempre recorrem como fonte de inspiração.”

No dizer de Proença, (2012, p. 262) o pintor holandês Piet Mondian, “buscava o que existe de constante nos seres, apesar de eles parecerem diferentes. Os seres da realidade interessam om artista como um conjunto de linhas retas – verticais, horizontais e diagonais – e curvas”. Mais tarde, por volta dos anos 1920 e 1930, o artista prende-se apenas ao uso de linhas horizontais e verticais, contraste e cores brilhante.

Continuando, Proença (2012, p. 262) afirma que o artista foi um dos representantes do movimento Abstracionismo Geométrico onde “as formas e cores devem ser organizadas de maneira que a composição resultante seja apenas a expressão de uma concepção geométrica”.

A arte de Mondrian buscava o equilíbrio e organização, era feita por um conjunto de linhas, quadros e cores específicas, esses elementos podem ser explicados como:

Teorizando que as linhas retas não existem [ausentes na natureza], ele decidiu usá-las exclusivamente para criar uma arte de ordem e harmonia – qualidades obviamente ausentes no mundo revirado pela guerra. […] as linhas verticais representavam vitalidade e as horizontais tranquilidade. O ponto de cruzamento de duas linhas era o ponto de “equilíbrio dinâmico”. […] o pintor se restringiu às linhas negras formando retângulos. Ele usava apenas as cores primárias – vermelho, azul e amarelo – e três não-cores: branco, preto e cinza. Calculando cuidadosamente a colocação desses elementos, Mondrian fazia um contraponto de ritmos para conseguir um “equilíbrio de opostos desiguais, mas equivalentes (STRICKLAND, 2002, p. 145)

FIGURA 07 – VESTIDO MONDRIAN DE YVES SAINT LAURENT, 1965, E PINTURA DE PIET MONDRIAN, 1921.

FONTE: Adaptado pela autora (2015).

O encontro com a moda acontece em 1965, e no dizer de Fogg (2013, p. 361) “Yves Saint Laurent prestou uma homenagem direta ao rigor composicional das pinturas neoplasticistas de Piet Mondrian da década de 1930”. Ainda segundo ela, no vestido shift (reto e sem mangas) para o dia, feito em lã, e no comprimento do joelho, o estilista expressa o minimalismo, as cores primárias e a geometria do pintor.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para a moda, tudo pode tornar-se inspiração assim como na arte, então nada mais justo uma se apropriar da outra para produzir trabalhos incríveis. O objetivo geral desta pesquisa foi destacar alguns momentos da história da moda em que a arte mostrou-se influente ou inspiradora, e com os estudos realizados foram encontrados diversos exemplos que as duas áreas se encontram. Foram apresentados quatro exemplos que caminham entre a arte cinematográfica, ilustração e criação. Os exemplos apresentados foram escolhidos por estarem situados no período do século XX, que foi muito importante para mudanças de paradigmas tanto da arte quanto para a moda. A sociedade nesta época sofre grandes transformações e as mudanças começam a ganhar velocidade considerável. Além disso, esta época é muito utilizada como referência par as criações do mundo contemporâneo.

Não existe limites para criar arte, veja o exemplo do surrealismo com a ilusão e os sonhos sendo apresentados, ou o exemplo de Mondrian apresentando a ambiente apenas com linhas que julgava nem existirem na natureza! A moda não fica longe, criar um vestido com uma estampa gigante de lagosta é algo estanho para décadas conservadoras, hoje a lagosta foi substituída por abacaxis de diferentes tamanhos!

Além de inspiração, outros aspectos fazem as duas vertentes serem semelhantes: a comunicação e o desejo de propagar opinião, e principalmente o fato de serem acontecimentos construídos pelo indivíduo formando um fenômeno social. A história da sociedade é construída pelas produções e culturas humanas, a arte e moda (antes do renascimento, indumentária) são produtos da humanidade.

Uma consequência da sociedade hoje pode ser definida, em geral, como: o indivíduo constrói a arte, e esta representa o momento e a história da sociedade, já a moda reflete a sociedade, o indivíduo faz o uso e com isso ele constrói sua própria história. O artista sempre vai criar, a sociedade se chocar, o consumidor rejeitar, porém, existe a esperança de que alguém vai se apaixonar.

REFERÊNCIAS

BLACKMAN, Cally. 100 anos de moda: a história da indumentária e do estilo no século XX, dos grandes nomes da alta-costura ao prét-à-porter. São Paulo (SP): Publifolha, 2012.

BUCKLEY, Clare; MCASSEY, Jacqueline. Styling de moda: s.f. criação de um estilo, moda ou imagem. Porto Alegre: Bookman, 2013.

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LIPOVETSKY, Gilles. O império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo (SP): Companhia das Letras, 1989.

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SOARES, Rosana. Saberes, herança e manifestações culturais brasileiras. Indaial: Uniasselvi, 2011.

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TREPTOW, Doris. Inventando moda: planejamento de coleção. 5. ed. São Paulo (SP): D. Treptow, 2013.

2. Maria Bonomi, 2004. Painel de concreto com 73 metros de comprimento e 3 metros de largura, localizado na passagem subterrânea ligando a estação da luz ao metrô.

[1] Pós – Graduação em Arte e Educação, Graduação Bacharel em Design com habilitação em Moda. Profissional de Design de Moda.

Enviado: Maio, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

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