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Feira do Patrimônio BR: Experiências e Narrativas Apoiadas na Educação Patrimonial para Musealização de um Território em Prol de seu Desenvolvimento [1]

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Feira do Patrimônio BR: Experiências e Narrativas Apoiadas na Educação Patrimonial para Musealização de um Território em Prol de seu Desenvolvimento [1]
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NASCIMENTO, Helder José Souza do [2]

MORAES, Francisco dos Santos [3]

PUTRICK, Simone Cristina [4]

DENDASCK, Carla Viana [5]

NASCIMENTO, Helder José Souza do; et.al. Feira do Patrimônio BR: Experiências e Narrativas Apoiadas na Educação Patrimonial para Musealização de um Território em Prol de seu Desenvolvimento. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 08. Ano 02, Vol. 02. pp 37-52, Novembro de 2017. ISSN:2448-0959

Resumo

O presente trabalho busca apresentar reflexões sobre as potencialidades da Feira do Patrimônio BR, realizada na cidade de Parnaíba, Estado do Piauí, região Meio Norte do Brasil. No âmbito desse espaço busca-se levar em consideração a importância da contextualização e práticas de Educação Patrimonial e sua contribuição para uma educação dos sentidos. Mas os estudos também giram em torno de pensar a musealização do patrimônio cultural como um processo estratégico para o desenvolvimento da cidade e região notavelmente marcada pelas presenças de um Delta, único nas Américas a desaguar em mar aberto, mangues, rios, festas, saberes e formas de expressão que constituem marcos de identidade e memória para os povos do Delta.

Palavras-Chave: Patrimônio, Educação Patrimonial, Museu.

Introdução

Em primeiro estágio para introduzir o assunto, será pertinente situar o cenário em que nasce a Feira do Patrimônio BR e o contexto no qual se insere o evento, concebido como uma ferramenta estratégica para o desenvolvimento de um território e seus habitantes, apoiado nas bases da sociomuseologia ou ‘nova museologia’[6], se é que assim podemos chamar. Parnaíba, cidade piauiense com sítio Histórico Tombado como Patrimônio Nacional Brasileiro, desde 2008, integra um território que carrega em sua essência manifestações culturais singulares e que é indissociadamente rico em patrimônio material e imaterial, refletido no bumba-meu-boi, nas fazendas de gado, nos casarões coloniais e na estrada de ferro, na tradição popular das procissões religiosas e na marujada, rendas de bilro e bordados, artesanato do barro vermelho e da carnaúba – árvore da vida, na pesca artesanal, rios, lagoas, mangues, praias e no único Delta a desaguar em mar aberto, das Américas.  Nos fala Manoel de Barros[7], em um de seus poemas, “que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica nem com balanças nem com barômetros, etc. Que a importância de uma coisa há que ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós”. Mas, no entanto, tamanha expressão e riqueza ora elencada de forma amiúde, da cidade e território apresentados, jamais possível de medida e tradução que não a do sentir presencial que afete a experiência real, ainda não foi suficiente, por si só, para a educação dos sentidos da comunidade em prol da preservação de seus bens culturais, muitos ameaçados ou mesmo já substituídos por uma lacuna jamais preenchida.

É diante desse cenário que nasce no ano de 2016, sob a batuta do Programa de Pós-graduação em Artes, Patrimônio e Museologia[8] da Universidade Federal do Piauí – UFPI, Campus Parnaíba, a Feira do Patrimônio BR. Iniciativa de natureza cultural, educativa e social, que tomara como referência eventos similares aos que já ocorrem com sucesso, há alguns anos, em países como Portugal, Espanha, Itália, Alemanha e, mais recentemente, em países da África. A proposta, fundamentada na Museologia Social foi pensada junto a atores locais como uma forma de fortalecer a dimensão do patrimônio inspirando novas possibilidades e conquistas para o desenvolvimento local através de um processo educativo e cultural de identificação de práticas cotidianas, costumes, crenças e experiências históricas, no intuito de preservá-las e ao mesmo tempo dinamizá-las com conexões entre espaços/práticas e o tempo presente, estimulando a descoberta de novos usos, carreada pela ideia de que o patrimônio não está separado da vida cotidiana.

Figura 1 - Estudantes, Feira do Patrimônio BR (2017). Foto Cássia Moura
Figura 1 – Estudantes, Feira do Patrimônio BR (2017). Foto Cássia Moura

Este estudo apresenta reflexões museológicas contemporâneas, por acreditar na implantação de um novo padrão de musealização, emergente principalmente desde a Mesa de Santiago do Chile (1972), Declaração esta que questiona o modelo clássico — Museu de Observação, Museu Banco de Dados —, e adota uma nova forma — Museu aberto e Interativo —, que supõe a participação da comunidade no processo de reconhecimento, gestão e proteção do patrimônio.  É exatamente este último modelo que a Feira do Patrimônio BR albergada pelo Mestrado em Artes, Patrimônio e Museologia, propõe para a cidade de Parnaíba e o território habitado pelas populações deltaicas, por acreditar que um museu a céu aberto como o da paisagem que ora apresentamos não pode ficar cerrado apenas em quatro paredes. Uma vez que, mais que um edifício com coleções para serem apreciadas por visitantes, somos detentores de um território rico em patrimônio cultural e natural, que deve estar in loco a serviço do desenvolvimento da própria comunidade e para além dela. Ao longo do estudo abordaremos a análise conceitual de algumas palavras, termos e expressões inerentes ao enfoque interdisciplinar que permita a reflexão de qual o papel e o lugar da educação patrimonial nesse processo? E como objetos da própria investigação possamos encontrar subsídios para responder: Que educação é essa que precisamos? Que patrimônio é esse que temos? 

Para isso, tomaremos por base as experiências e narrativas observadas e absorvidas ao longo do percurso de idealização, produção e execução da Feira do Patrimônio, de forma particular a análise do discurso da Conferência apresentada em evento paralelo, no Congresso Internacional Artes, Patrimônio e Museologia, Parnaíba-PI, 2017, pela Coordenadora de Educação Patrimonial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, Sônia Rampim Florêncio, num movimento de descortinar horizontes sobre boas práticas com foco na “Educação Patrimonial e participação social: inventários participativos”, ratificando os ideais propostos ao caso de Parnaíba e da APA de seu Delta.     Acreditamos também que para além do estudo sobre os conceitos museológicos possamos divulgar este estado de revolução e quebra de paradigmas na forma de pensar o patrimônio local, introduzido com a chegada do Mestrado em Artes, Patrimônio e Museologia na cidade de Parnaíba, em 2015, para que se possa difundir o conceito de museu a serviço das necessidades de desenvolvimento da comunidade, inaugurando uma nova era da democracia e da cidadania cultural.

O lugar e o evento: Uma correlação necessária

Sob a Luz do sol do equador e banhada pelo Oceano Atlântico a cidade de Parnaíba está localizada na região norte do Estado do Piauí, tida como porta de entrada do Delta do Parnaíba, título popularmente atribuído por integrar a Área de Proteção Ambiental(APA) – criada pelo Decreto Presidencial em 28 de agosto de 1996, com uma área de cobertura de 2.750km² –, e possuir a melhor infraestrutura dentre os municípios que integram essa formação geográfica de encontro do rio com o mar, única nas Américas, unidade biodiversa composta por manguezais, praias, restingas, dunas fixas e móveis, planícies flúvio-marinhas e lacustres, caatinga e áreas de carnaubal. Além da zona costeira da cidade de Parnaíba o Delta também está localizado nas cidades de Cajueiro da Praia, Luis Correia e Ilha Grande, no Piauí; Araioses, Água Doce, Tutóia e Paulino Neves, no Maranhão; Chaval e Barroquinha, no Ceará.

Para se ter noção da importância dessa área no contexto global, conceitue-se APA como um tipo de unidade de conservação definida pela Lei Federal nº 6.902 de 27 de abril de 1981, instrumento pelo qual o poder executivo estabeleceu que quando houver relevante interesse público poderá declarar área do território nacional como de interesse para a proteção ambiental a fim de assegurar o bem estar das populações humanas e conservar ou melhorar as condições ecológicas locais.

Entre os pontos que compartilham em comum os municípios do Delta, está a vocação comercial das Zonas Litorâneas, como porta de entrada e saída para hinterland pré-amazônico como para o hinterland sertanejo. Outro ponto comum é a tradição da pesca artesanal, resultante de condições favorecidas pelo ecossistema. E, finalmente, a vocação turística e ecológica determinada pelo rico potencial de toda a faixa litorânea que compõe o Delta do Parnaíba (Plano de Gestão e Diagnóstico Geo-ambiental e Sócio Econômico da APA do Delta do Parnaíba, p.42)[9]

Em função da paisagem, a produção e geração de renda em muito se vinculam as características do meio, ao extrativismo e exploração turística. Parnaíba destaca-se nesse contexto por possuir população quase que eminentemente urbana que contribui para a atividade comercial, a exportação de recursos vegetais, em especial a cera de carnaúba, óleo de babaçu, gordura de coco, folha de jaborandi, castanha de caju, acerola, algodão e couro. A cidade constitui-se também na atualidade como um pólo educacional estratégico da Educação Básica, Ensino Superior e Pós-graduação Lato e Stricto Sensu. É a segunda maior e mais rica do Estado do Piauí, com PIB ficando apenas atrás da capital, Teresina (IBGE 2014).

A denominação do município “Parnaíba” ocorreu em virtude da nomenclatura do rio, – nascido na Chapada das Mangabeiras, extremo sul do Maranhão –, que por sua importância é o denominador de todo o Delta. Testemunha do processo de colonização do Brasil, serpenteada pelo Rio Igaraçu e ancorada num dos seus principais cartões postais, o “Porto das Barcas”, Parnaíba, ergue-se desde meados da segunda metade do século XVIII dentro de uma pluralidade arquitetônica com influências portuguesas, inglesas até o art déco dos conceitos emblemáticos de seu casario. Em seu traçado urbano guarda memórias de três séculos conservando ainda grande parte de seu patrimônio material. Elevada a categoria de cidade em 1844, teve importantes ciclos econômicos com o charque, o couro e a carnaúba. É diante da relevância facilmente perceptível na leitura desse contexto que, em 2008, Parnaíba torna-se legalmente protegida por Tombamento Federal proposto pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, passando ao título de Patrimônio Nacional.

Nesse diapasão, mesmo com mais de vinte anos de legalização da APA do Delta e quase dez anos de tombamento federal, ainda não há uma postura reflexiva diante do conceito “Parnaíba – Cidade Patrimônio”. É latente a ausência dessa identidade por parcela da população que se sirva da autoestima que esses títulos deveriam gerar. Tal problemática denota a ausência de ações que criem laços de cooperação técnica entre agentes públicos, privados e a comunidade residente; e de que não há de forma homogênea a percepção da urgência da proteção do rico e complexo patrimônio cultural.

Em meio a essas inquietações oriundas de atores de várias matrizes, membros dessa comunidade de interessados na melhoria da qualidade de vida e condição humana dos autóctones que também são patrimônio e elo deste com a vida concreta, acreditamos em um instrumento de sistematizações das experiências históricas que integrem conhecimentos parcelados em estruturas dinâmicas, fruto de um processo dialético e participativo, sem monólogos de certeza, mas sim de um diálogo criador e emancipatório; daí propomos  a “Feira do Patrimônio BR”, calcada em princípios e estratégias da Educação Patrimonial.

Feira do Patrimônio BR: Perspectivas e reflexões sobre o processo participativo

Enquanto docentes e discentes do Mestrado Profissional em Artes, Patrimônio e Museologia da Universidade Federal do Piauí – UFPI, Campus Parnaíba, nos lançamos a uma cruzada necessária em debater o papel das instituições e ações museais na cidade de Parnaíba durante a realização do evento Semana Nacional de Museus, que é uma temporada cultural coordenada pelo Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, que acontece todo ano em comemoração ao Dia Internacional dos Museus (18 de maio). A cada ano, o Icom (Conselho Internacional de Museus) lança um tema diferente para a celebração dessa data, que é também o mote norteador das atividades da Semana de Museus.

Com a Feira do Patrimônio BR, proposta pioneira no Piauí e no Brasil, realizada durante a Semana de Museus, em Parnaíba, esperamos promover o patrimônio cultural, ambiental e criar uma cultura de consumo de bens culturais em uma perspectiva que valorize os aspectos econômicos e sociais, fatores de cultura, educação, turismo, geradores de receitas e fomentadores de emprego e renda. A Feira do Patrimônio tem se materializado em um conjunto de ações de natureza educativa, que nos possibilita dialogarmos com uma parcela maior da sociedade, agentes públicos e privados, empresas, escritórios de arquitetura/design, operadores turísticos, projetos de base territorial, empresas de conservação e restauro e de reabilitação urbana, demais universidades e centros de formação especializada, artistas, artesãos, todos os que se interessam pelas matérias relacionadas aos patrimônios, museus, turismo, empreendedorismos e desenvolvimento.

O formato ‘feira livre’ foi pensado para retirar essa discussão do universo estritamente acadêmico e estabelecer uma conexão mais íntima com os cidadãos que integram a paisagem cultural desse território, numa tentativa de desmistificar as complexidades de entendimento sobre as recentes ações do mundo dos patrimônios e museus. Esse trabalho de saída para além dos muros da academia permite colocar num mesmo patamar e espaço, sociólogos, pescadores, professores de carreira, bordadeiras, doutores e semi-alfabetizados, compreendendo cada um como senhor de seu ofício e membro ativo da comunidade. São essas múltiplas vozes com as quais trabalharemos, uma vez que a educação patrimonial não desconsidera ou desqualifica nenhum dos atores interessados nos bens culturais de suas localidades, método expresso por Carlos Rodrigues Brandão no artigo “A pesquisa participante: um momento da educação popular”. Assim:

Na maior parte dos casos, a pesquisa participante é um momento de trabalhos de educação popular realizado junto com e a serviço de comunidades, grupos e movimentos sociais, em geral, populares. É do constante diálogo não doutrinário de parte a parte que um consenso sempre dinâmico e modificável, deve ir sendo também construído. Uma verdadeira pesquisa participante cria solidariamente, mas nunca impõe partidariamente conhecimentos e valores (BRANDÃO, Ver. Ed. Popular, Uberlândia, v. 6, p – 55, jan./dez. 2007)

Por entre “comes e bebes”, músicas, exposições, oficinas vivas das artes associadas à paisagem cultural do Meio Norte, realizaremos um conjunto de conferências, palestras, mesas temáticas, rodas de conversas, comunicações coordenadas sobre os museus e sua função social, em um espaço que pretende ser encantador, lúdico, colorido e diverso, característica das feiras livres desde a idade medieval.

Figura 2 - Artesã, Trançados da Ilha, Parnaíba. Foto Cássia Moura.
Figura 2 – Artesã, Trançados da Ilha, Parnaíba. Foto Cássia Moura.

Sabemos que a Feira do Patrimônio é apenas uma das intervenções educativas possíveis de produzir um acúmulo de formação e informação capaz de promover essa autorreflexão na comunidade sobre a importância de seus bens culturais, no entanto, acreditamos que tal instrumento seja estratégico para acolher a heterogeneidade dos públicos que naturalmente se achegará a esse processo de educação.

Educação Patrimonial: uma trajetória

Ao assumirmos a Feira do Patrimônio BR como um instrumento potencializador para o entendimento do papel fundamental e pedagógico da identificação, registro e salvaguarda do patrimônio no processo de musealização de um território deveremos compreender de que patrimônio estamos falando. Como referência relevante na conceituação desse patrimônio, a Constituição Brasileira de 1988, refere que

Art. 216. Constituem patrimônio cultural brasileiro os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, nos quais se incluem:

I – as formas de expressão;

II – os modos de criar, fazer e viver;

III – as criações científicas, artísticas e tecnológicas;

IV – as obras, objetos, documentos, edificações e demais espaços destinados às manifestações artístico-culturais;

V – os conjuntos urbanos e sítios de valor histórico, paisagístico, artístico, arqueológico, paleontológico, ecológico e científico. (Constituição Federal de 1988)

Nessa transcrição da Constituição, podemos definir que o patrimônio é antes de tudo o próprio homem, o que o cerca e toda a sua produção, oriunda dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira, o que torna o conceito mais amplo, possibilitando ao indivíduo fazer uma leitura de mundo, compreender o universo sócio cultural em que está inserido e ter uma consciência ativa para construção do seu presente e futuro, relação indissociável ao processo do ensino/aprendizagem. Daí se encontra a relação indispensável entre museu e a educação.

É a formação de cidadãos conscientes de sua identidade e memória que pode fazer com que um ecomuseu[10], como os que se pretende no território do Delta, contribua para a valorização das referências culturais, sentidos e práticas da vida social (festas, saberes, lugares e formas de expressão, etc).

“A educação patrimonial se constitui de todos os processos educativos formais e não-formais que têm como foco o patrimônio cultural apropriado socialmente como recurso para a compreensão sócio-histórica das referências culturais em todas as suas manifestações”.

“Os processos educativos devem primar pela construção coletiva e democrática do conhecimento, por meio do diálogo permanente entre os agentes culturais e pela participação efetiva das comunidades detentoras e produtoras das referências culturais, onde convivem diversas noções de Patrimônio”.

IPHAN. Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2014., P. 19

Esse tema de educação patrimonial, não é tão recente no Brasil, já na década de trinta ações nesse sentido permeiam as atividades do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN, órgão responsável pela formação da ideia de patrimônio no Brasil, tendo a educação como uma de suas frentes de atuação, apesar de ainda não receber esse nome. É “a partir do 1º Seminário realizado em 1983, no Museu Imperial, em Petrópolis, RJ, inspirando-se no trabalho pedagógico desenvolvido na Inglaterra sob a designação de Heritage Education”, como narra o Guia básico de educação patrimonial (HORTA et al., 1999), que a expressão passou a compor nosso vocabulário, mas tem ao longo do tempo sofrido transformações, assim como o próprio conceito de patrimônio dentro do órgão de proteção. Sônia Rampin FLORÊNCIO (2014)[11], destaca que já no anteprojeto de criação do SPHAN (atual IPHAN), Mário de Andrade demonstra o interesse na promoção de ações educativas pelo órgão, período que vai de 1937-1970: identificado pelo espirito do “conhecer para preservar”; já o período de 1970-1983:  é caracterizado pelas premissas de participação, desenvolvimento, quando a partir das ideias de Aloísio Magalhães, presidente do IPHAN na época, cria-se o Projeto Interação, que propõe maior relação no trabalho educacional com a dinâmica do cotidiano cultural; somente no período de 1983-2004: é que cria-se o conceito de “Educação Patrimonial” como metodologia, mais precisamente em 1999 quando publica-se o Guia Básico de Educação Patrimonial, que pretende instaurar uma metodologia de trabalho baseada na “alfabetização cultural”.

E dentre estes marcos importantes que revelam a trajetória da educação patrimonial no IPHAN, tem-se a Carta de Nova Olinda (2009), I Fórum Nacional do Patrimônio Cultural (2009), Documento do II Encontro Nacional de Educação Patrimonial (2011), publicação “Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos” (2014); “Educação patrimonial: inventários participativos” (2016); e mais recente, a Portaria 137 de abril de 2016, que em seu Art. 3º estabelece importantes diretrizes da Educação Patrimonial:

I – Incentivar a participação social na formulação, implementação e execução das ações educativas, de modo a estimular o protagonismo dos diferentes grupos sociais;

II – Integrar as práticas educativas ao cotidiano, associando os bens culturais aos espaços de vida das pessoas;

III – valorizar o território como espaço educativo, passível de leituras e interpretações por meio de múltiplas estratégias educacionais;

IV – Favorecer as relações de afetividade e estima inerentes à valorização e preservação do patrimônio cultural;

V – Considerar que as práticas educativas e as políticas de preservação estão inseridas num campo de conflito e negociação entre diferentes segmentos, setores e grupos sociais;

VI – Considerar a intersetorialidade das ações educativas, de modo a promover articulações das políticas de preservação e valorização do patrimônio cultural com as de cultura, turismo, meio ambiente, educação, saúde, desenvolvimento urbano e outras áreas correlatas;

VII – incentivar a associação das políticas de patrimônio cultural às ações de sustentabilidade local, regional e nacional;

VIII – considerar patrimônio cultural como tema transversal e interdisciplinar.

Essas diretrizes norteadoras estão relacionadas com uma série de premissas conceituais que ajudam a problematizar a construção de nosso conhecimento sobre a educação que devemos considerar para uma ação realmente transformadora, contrariando o que Paulo Freire chama de educação “bancária”[12], meramente instrutivista, que toma a comunidade como uma consumidora de informação ao invés de aceita-la com suas diferenças, subjetividades, pluralidades, em que as pessoas são agentes de desenvolvimento.

Dentro de uma perspectiva sócio-construtivista, é necessário pensar uma Educação Patrimonial de mediação para a apropriação do conhecimento, que olha a comunidade como produtora do saber, considerando suas vivências e reconhecendo a existência do saber local associado à memória do lugar e das pessoas que são detentoras do “bem”. Um processo de mão dupla como exprime Freire, “Ninguém educa ninguém, como tampouco ninguém se educa a si mesmo; os homens se educam em comunhão, mediatizados pelo mundo”.

Figura 3 - Mediação Cultural, Feira do Patrimônio BR. Foto Cássia Moura.
Figura 3 – Mediação Cultural, Feira do Patrimônio BR. Foto Cássia Moura.

É preciso quebrarmos os paradigmas conceituais ampliando o conceito de que “Patrimônio é tudo aquilo que criamos, valorizamos e queremos preservar: são os monumentos e obras de arte, e também as festas, músicas e danças, os folguedos e as comidas, os saberes, fazeres e falares. Tudo enfim que produzimos com as mãos, as ideias e a fantasia (FONSECA, 2005, p. 21)”, tudo o que exprime os diferentes contextos culturais em que se vive, todos os contextos educativos. Para assim, diminuirmos o abismo que separa cultura erudita da cultura popular, como se está ultima estivesse numa hierarquia inferiorizada a primeira.

Seguindo a ideia de Aloísio Magalhães, de que “A comunidade é a melhor guardiã do seu patrimônio”, devemos considerar a participação efetiva das comunidades no reconhecimento do patrimônio e na elaboração e implementação de ações educativas. Ou seja, há que haver legitimação de todo o processo por quem vivencia o patrimônio e não apenas por um grupo de intelectuais. Assim, é importante pensar que todos os marcos legais e diretrizes criadas ao logo do tempo com foco na educação patrimonial não podem adotar movimento verticalizado, de cima pra baixo, como uma regulamentação emanada do poder do estado, mas sim servir como uma orientação que auxilie no caminhar das ações.

A todo instante as diretrizes ora apresentadas nos ratificam a ideia de que o patrimônio como recurso do desenvolvimento local, não pode ser visto fora dos ritmos da sociedade uma vez que os bens culturais encontram-se plenamente inseridos nos espaços de vida, em meio a todos os conflitos e tensões modernas. É patente que esse entendimento do patrimônio cultural como um campo de conflito também sirva para estimular a solidariedade em aceitarmos o diferente. E nesse aspecto a educação patrimonial também cumpre seu papel de mediadora.

Apesar do termo “educação” estar sempre muito ligado ao contexto escolar, a educação patrimonial da qual estamos falando é uma educação que vai para além dos muros da escola,  compreendendo o espaço educativo como o próprio território. O que de toda sorte não foge aos atuais ditames da própria educação formal, senão vejamos o que a Lei de Diretrizes e Bases, a LDB – 9.394/96, que prevê em seu art. 1º: “A educação abrange os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da sociedade civil e nas manifestações culturais” (BRASIL, 1996).

De par com isso os processos pelos quais se dão a preservação e a valorização do patrimônio cultural através da educação devem adotar princípios transversais, multi, poli, transdisciplinar, onde não se podem desprezar as várias interfaces simbólicas e sociais. A Educação Patrimonial que queremos tem que ser vista como o meio e não como um fim.

Figura 4 - Oficina “Rendilhando Memórias”, Feira do Patrimônio BR. Foto Cássia Moura.
Figura 4 – Oficina “Rendilhando Memórias”, Feira do Patrimônio BR. Foto Cássia Moura.

Tendo em vista que muitas experiências já foram sacrificadas na fogueira da história, necessário se faz o desenvolvimento de um processo educativo que respeite essas diretrizes básicas, que respeite toda a expressão desse rico patrimônio dos povos do Delta. Assim a Feira do Patrimônio BR será também uma forma de resistência e de luta.

Estes estudos também se propõe a viabilizar, instrumentos de análise sobre importantes ferramentas para o campo da Museologia, quais sejam, “a forma de comunicar” e “dar a conhecer” ao público sobre a existência de estratégia relacionada à proteção, salvaguarda e promoção do rico patrimônio cultural da cidade de Parnaíba-PI, região meio norte do Brasil.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Estas breves reflexões, ainda preliminares frente a um trabalho em desenvolvimento, visa trazer à tona a importância dos eventos regionais (municipais) que visam perpetuar não apenas o conhecimento, mas o reconhecimento do individuo quanto ao seu espaço, trazendo-lhe assim, a possibilidade de construção de pertencimento, e, consequentemente o interesse na criação de ações ligadas ao desenvolvimento local. Desta forma, usar a Feira do Patrimônio BR como objeto de estudo, permite não apenas a reflexão deste evento, como também, a abertura de portas para que este evento possa ser usado como exemplificação.

REFERÊNCIAS

BIONDO, Fernanda. Os desafios da Educação no Campo Patrimônio Cultural: Casas do Patrimônio e Redes de Ações Educativas. Mestrado Profissional em Preservação do Patrimônio Cultural. IPHAN. 2016.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues (Org.). Pesquisa participante. São Paulo: Brasiliense, 2001.

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.

FERNÁNDEZ, Luis Alonso. Introduccióna a la nueva museologia. Alianza Editorial. Madrid, 1999.

FREIRE, Paulo, Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1977.

GOMES, L. F. Cinema nacional: caminhos percorridos. São Paulo: Ed.USP, 2007.

IPHAN. Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2014., P. 19.

LDB – Leis de Diretrizes e Bases. Lei nº 9.394. 1996. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/tvescola/leis/lein 9394.pdf> Acesso em junho de 2016

MAGALHÃES, Aloísio. Bens culturais: instrumentos para um desenvolvimento harmonioso. Brasília CNRC. s/d.

NASCIMENTO, Francisco de Assis Sousa; NASCIMENTO, Helder José Souza do. Plano Municipal de Cultura de Parnaíba – 2015/2025. Superintendência Municipal de Cultura / Secretaria da Gestão. Parnaíba: Piauí. 2015.

PLANO DE GESTÃO E DIAGNÓSTICO GEO-AMBIENTAL E SÓCIO ECONÔMICO DA APA DO DELTA DO PARNAÍBA. Ministério do Meio Ambiente – ICMBio, p.42.

PINHEIRO, Áurea da Paz; MOURA, Cássia. Conjunto Histórico e Paisagístico de Parnaíba – Cadernos do Patrimônio Cultural do Piauí; v.2 – Teresina: Superintendência do Iphan no Piauí, 2010.

VARINE, Huges de. As raízes do futuro: o patrimônio a serviço do desenvolvimento local. Trad.: Maria de Lourdes Pereira Horta. 1ª Reimpressão – Porto Alegre. Medianiz, 2013.

VYGOTSKY, L. S. A Formação Social da Mente. 6º Edição.- São Paulo: Martins Fontes, 1998.

[1] Trabalho apresentado para avaliação da disciplina Patrimônio, Sociedade e Educação Museal do Programa de Pós-Graduação, Mestrado em Artes, Patrimônio e Museologia – UFPI, 2017.

[2] Mestrando do Programa de Pós-graduação Mestrado Profissional em Artes, Patrimônio e Museologia – UFPI.

[3] Mestrando do Programa de Pós-graduação Mestrado Profissional em Artes, Patrimônio e Museologia – UFPI.

[4] Turismóloga, Doutoranda em Geografia , professora da Universidade Federal do Piaui.

[5] Doutora em psicanálise pelo Seminário internacional de Teologia, Mestranda em Ciências da Religião pela Universidade Prebiteriana Mackenzie.

[6] Pode-se dizer da ideia de participação da comunidade na definição e gestão das práticas museológicas; da adoção da Museologia como fator de desenvolvimento e não apenas preocupada com coleções.

[7] Manoel Wenceslau Leite de Barros (Cuiabá, 19 de dezembro de 1916 — Campo Grande, 13 de novembro de 2014) foi um poeta brasileiro do século XX, pertencente, cronologicamente à Geração de 45, mas formalmente ao pós-Modernismo brasileiro, se situando mais próximo das vanguardas europeias do início do século e da Poesia Pau-Brasil e da Antropofagia de Oswald de Andrade. Com 13 anos, ele se mudou para Campo Grande (MS), onde viveu pelo resto da sua vida. Recebeu vários prêmios literários, entre eles, dois Prêmios Jabutis e foi membro da Academia Sul-Mato-Grossense de Letras. É o mais aclamado poeta brasileiro da contemporaneidade nos meios literários. Enquanto ainda escrevia, Carlos Drummond de Andrade recusou o epíteto de maior poeta vivo do Brasil em favor de Manoel de Barros. Sua obra mais conhecida é o “Livro sobre Nada” de 1996.

[8] Disponível em < http://www.sigaa.ufpi.br/sigaa/public/programa/portal.jsf?lc=pt_BR&id=793 >.

[9] Disponível para dowload no site oficial do Ministério do Meio Ambiente ICMBio – APA Delta do Parnaíba – Plano de Manejo:< http://www.icmbio.gov.br/portal/unidadesdeconservacao/biomas-brasileiros/marinho/unidades-de-conservacao-marinho/2246-apa-delta-do-parnaiba >.

[10] O termo ecomuseu está, na literatura especializada ligado a Hugues de Varine e a George Henri Rivière, em 1972 e 1980, respectivamente. Na declaração de Québec em 1984, estão colocados os princípios da Nova Museologia, oque inclui os museus comunitários; dentre eles o ecomuseu, que obrigatoriamente deve constituir-se com a integração entre patrimônio, comunidade participativa, meio ambiente e território. Considerações da museóloga Áurea da Paz Pinheiro no artigo MUSEUS COMUNITÁRIOS, MUSEUS SANS MURS: um projeto participativo de promoção da sustentabilidade, da cidadania e dos saberes locais.

[11] IPHAN. Educação Patrimonial: histórico, conceitos e processos. Brasília: Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2014., P. 19.

[12] FREIRE, Paulo, Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 1977.

Como publicar Artigo Científico

Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

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