RELATO DE CASO
COSTA, Diogo Furtado da [1], GUIMARÃES, Vitória Ingridi Arruda [2], DAMASCENO, Vinícius Barros [3], TRIGO, João Filipe Dias [4], HOFFMANN, Lorena Kurscheidt [5]
COSTA, Diogo Furtado da et al. Logística reversa na Empresa de tratamento de água e saneamento básico: Estudo de caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 11, Vol. 02, pp. 146-159. Novembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/administracao/tratamento-de-agua-e-saneamento, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/administracao/tratamento-de-agua-e-saneamento
RESUMO
Este artigo explora a aplicação da logística reversa em uma empresa de saneamento básico, com o objetivo de analisar práticas sustentáveis para a gestão de resíduos e componentes utilizados no tratamento de água e esgoto. A pesquisa foi realizada por meio de um estudo de caso em uma empresa de grande porte no município de Porto Velho, capital do estado de Rondônia. O estudo envolveu entrevistas e coleta de dados sobre os processos de recuperação e reciclagem de materiais. Os resultados mostram que a empresa possui iniciativas para reutilização de componentes e reciclagem de resíduos sólidos, mas enfrenta desafios como a falta de infraestrutura e políticas públicas insuficientes. Conclui-se que a implementação eficaz da logística reversa no setor de saneamento depende de uma abordagem integrada e do desenvolvimento de novas tecnologias e incentivos econômicos.
Palavras-chave: Logística Reversa, Saneamento Básico, Gestão de Resíduos, Sustentabilidade, Gestão Ambiental.
1. INTRODUÇÃO
Em uma sociedade cuja interferência da ação humana ocorre de forma acelerada, se faz necessário criar ações que reduzam os impactos ambientais e sociais descontrolados, da produção e do consumo. Surge no século XXI, um conceito em oposição ao modelo da economia atual que, apesar de também prezar pelo retorno econômico, possui um olhar preocupado com as causas sociais e ambientais: a Economia Circular (EC) (Sauvé; Bernard; Sloan, 2016).
A EC é baseada na produção e no consumo fundamentalmente diferente do modelo de Economia Linear (EL), que é usado pela sociedade até os dias de hoje. A EL é conceituada em um processo de extração, produção, consumo e descarte, com limitada ou nenhuma atenção na poluição produzida em cada etapa e a ausência dos recursos (Sauvé; Bernard; Sloan, 2016). De acordo com Azevedo (2015), a EC consiste na ruptura da economia linear convencional, e a adesão a um modelo onde todos os tipos de materiais são desenvolvidos para circular de forma eficiente e serem realocados na produção, sem perda da sua qualidade. Embora muito recente, a EC é bastante discutida e empregada na Europa. A metodologia preconiza que os descartes devem deixar de ser direcionados para aterros sanitários ou para tratamentos de resíduos, e que se tornem matéria-prima de outro processo. Assim, o fluxo de materiais será contínuo em um ciclo industrial fechado (Abramovay, 2014).
Nesta temática, o presente trabalho tem como objetivo geral descrever como a empresa Maria Fossa, do segmento água e saneamento básico, organiza seus processos industriais frente à LR. Durante o período de tempo presente no projeto elaborado, a partir do departamento administrativo, área de orçamento e planejamento, foram observadas adversidades na instalação e implementação de um sistema eficaz para logística reversa. Existem também barreiras como cumprimento com a legislação, estruturação operacional e conhecimento das diretrizes demandadas pela economia circular em alguns setores da organização, o que acarretará problemas futuros quanto a biosfera, a cultura organizacional (operacional) e a necessidade de continuar os serviços prestados pela organização, pois deverá estar em vigor com as leis estabelecidas. Assim, visamos analisar os motivos e soluções acerca da implementação de um sistema que viabilize o retorno da produção consumida, a fim de superar os desafios encontrados.
2. JUSTIFICATIVA
O crescimento populacional, somado à intensa industrialização e ao aumento do consumo de bens e serviços, tem provocado várias transformações no meio ambiente, devido à necessidade de consumo de recursos naturais e geração de resíduos durante a manufatura e o pós-consumo, independente da aplicabilidade e funcionalidade da logística reversa. Consequentemente, a destinação correta dos resíduos e rejeitos tem sido foco de preocupação de pesquisadores das mais diversas áreas da ciência, especialmente aqueles ligados às áreas de planejamento urbano e regional, além de se tornar um dos grandes desafios para os gestores dos 5.570 municípios brasileiros ao longo das últimas décadas.
O Brasil destaca-se no fator em que a coleta, o tratamento e a destinação final adequada dos resíduos sólidos (RS) ainda são pouco adotados, estabelecendo uma complexa tarefa, que deve atender às exigências da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) e da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Como resultado, tem-se um aumento na geração de resíduos sólidos industriais e urbanos, tanto em quantidade como em diversidade, principalmente nas grandes metrópoles (Gouveia, 2012). Dessa forma, faz se necessário “o equacionamento eficiente do retorno de produtos de pós-venda e de pós-consumo por meio da logística reversa” (Leite, 2017, p. 346).
Para Junior; Sampaio; Fernandes (2016, p. 8), a responsabilidade ambiental “deve transcender os objetivos circunscritos ao interesse do âmbito interno da empresa para uma perspectiva de sustentabilidade”, tendo em vista que “pode se tornar um elemento de diferenciação mercadológica de alta relevância atual” (Leite, 2017, p. 319). Por essa razão, torna-se indispensável que as organizações se mantenham atualizadas em relação ao ESG, buscando alinhar seus negócios com princípios ambientais. Conforme afirma Alves (2024, p. 68) acerca dos consumidores, eles estão “cada vez mais conscientes do impacto dos produtos no planeta, fazendo escolhas de compra com base em fatores de sustentabilidade, incluindo as embalagens”. Ou seja, a pluralidade torna o ambiente empresarial com maior competitividade, exigindo adaptação e inovação.
Deste modo, o emprego da LR é crucial por representar uma alternativa viável para a problemática ambiental, social e econômica. O acúmulo de resíduos nos grandes centros urbanos, é considerado uma oportunidade econômica para as empresas, mediante a possível redução de custos operacionais, aumento dos lucros, visibilidade social e diferencial competitivo. Logo, o uso da metodologia LR é um tema de relevância para diversos setores públicos e privados, porém ainda não são explorados em grande proporção, por não possuir a mesma importância econômica que as redes de distribuição diretas convencionais.
3. REVISÃO TEÓRICA
Segundo Pereira et al. (2012), o surgimento de iniciativas e atividades para o desenvolvimento sustentável evidencia a preocupação com a crescente degradação do meio ambiente. A partir da introdução da Governança Ambiental, Social e Corporativa (ESG), Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e Conferência das Partes (COP30), percebese a criação de estratégias de mitigação que “promovam um novo ciclo de expansão, com equidade social e sustentabilidade ambiental” (Haddad, 2015, p. 247).
As práticas de economia circular nas empresas, estão diretamente relacionadas ao desenvolvimento sustentável da sociedade, considerando que “pode gerar benefícios além do econômico e ambiental, ao ser um conceito que permite melhores níveis de qualidade de vida para os indivíduos”, afirma Jugend; Bezerra; Souza (2022, p.19). Mas para que isso ocorra, se faz necessário que
“as pessoas e os governos se engajem e caminhem na mesma direção, por meio da promoção de políticas públicas, investimentos em pesquisas e conscientização da necessidade de mudança comportamental em relação ao consumo de bens duráveis e não duráveis, levando a processos que propiciem a mudança da economia linear para a economia circular” (Garcia, 2024, p. 46).
Nessa perspectiva, a logística reversa tem como finalidade principal reduzir a poluição do meio ambiente e os desperdícios de materiais, bem como a reutilização e reciclagem de produtos, de acordo com Shibao; Moori; Santos (2010), através de incentivos realizados pelas empresas. Ou seja, a vida de um produto não se encerra com a sua entrega ao cliente: quando se tornam ultrapassados, danificados ou estragados, são levados para seus pontos de origem para conserto ou descarte adequado (Crivellaro; Sousa, 2011). Entretanto, para que a implementação desse modelo seja eficaz e atinja os objetivos estabelecidos, “a mudança de cultura, bem como a interação com as demais esferas da sociedade é crucial para que o desafio seja superado” (Pereira et al., 2012, p. 149).
A gestão do descarte de materiais originados de produções, normalmente, esbarra em obstáculos (legais, sanitários, econômicos etc.) e dificuldades gerais inerentes a processos que não agregam valor na cadeia de suprimentos (Pires, 2011), como por exemplo local de desenvolvimento do projeto, de modo que considerem e respeitem as características locais culturais, sociais, ambientais e econômicas. De acordo com Junior (2018), no que se refere ao segmento de saneamento, “é comum a prática de implantação de sistema de abastecimento de água sem a implantação de rede coletora e sistema de tratamento de efluentes”. Porém o aumento da “escassez e a poluição dos recursos hídricos têm consequências sociais, econômicas e ambientais” (Junior, 2018, p. 145), tendo em vista a proliferação de doenças, o desequilíbrio do ecossistema e o atraso no desenvolvimento socioeconômico.
Assim, Mendonça et al. (2017) explica que os fatores motivadores para a implementação da LR, são os fatores econômicos (rentabilidade do procedimento), governamentais (legislações), responsabilidade corporativa, tecnológicos, logísticos e os sociais. Dessa forma, “é possível conceitualizar que a aplicação bem-feita de práticas de economia circular pode melhorar aspectos sociais da sociedade” (Jugend; Bezerra; Souza, 2022, p. 13), uma vez que reduz a degradação do meio ambiente e gera novos produtos, consequentemente resulta em melhores condições de vida a sociedade. Além de que “ter um negócio sustentável e ser sustentável, entretanto, é uma nova exigência do mercado”, conforme afirma Pereira et al. (2012, p. 148).
4. METODOLOGIA
Foi utilizado o modelo indutivo, a fim de observar amostras de desempenho do setor, facilitando a elaboração de possíveis soluções e melhorias. Para Yin (2010), o estudo de caso compreende a avaliação de eventos contemporâneos, sendo o seu emprego mais indicado em situações reais onde os comportamentos relevantes possam ser verificados, sem a manipulação de dados, de forma exploratória e descritiva.
Este trabalho, caracteriza-se como aplicado, visto que, o conhecimento gerado pode ser direcionado à solução do problema em estudo (Roesch, 2010). Além disso, o estudo pode ser classificado como descritivo, quanto aos objetivos, uma vez que busca descrever o fenômeno em seu contexto (Gil, 2009). Referente à abordagem e análise do problema, trata-se de um estudo qualitativo.
Com base na proposta de Gil (2009) e Vergara (2004) o estudo pode ser caracterizado:
a) Quanto aos fins, como explicativo e descritivo, uma vez que busca identificar os aspectos que contribuem a geração de resíduos, assim como descrever o fluxo de logística reversa adotado;
b) Quanto aos meios, trata-se de uma revisão bibliográfica, documental e estudo de caso, orientados a prática industrial com vistas à LR, sendo os dados obtidos a partir de narrativas e observação não participante, construídas a partir de duas entrevistas semiestruturadas, realizadas com representantes da empresa estudada.
Com base em um método comparativo/descritivo, teve como finalidade principal analisar a implementação de uma logística reversa na empresa, considerando o desempenho das atividades e identificação de oportunidades, partindo de uma revisão bibliográfica composta por autores da área. O estudo terá caráter essencialmente qualitativo, com ênfase na observação e estudo documental, ao mesmo tempo que será necessário o cruzamento dos levantamentos com toda a pesquisa bibliográfica feita anteriormente.
Como objeto empírico, a empresa Maria Fossa foi selecionada por atuar na área de tratamento de água e saneamento básico, um ramo estratégico para a sustentabilidade ambiental, o qual possui potencial para ser incluído em um sistema de logística reversa. A escolha se fundamenta também, a partir da disponibilidade de acesso a dados operacionais e na abertura demonstrada para colaborar com a pesquisa. Dessa forma, foi representado um caso relevante e oportuno para a análise da implementação de práticas de logística reversa, contribuindo tanto para o aprimoramento de seus processos internos, quanto para o cumprimento de diretrizes legais e ambientais mais amplas.
5. APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS RESULTADOS
A análise dos dados coletados na empresa Maria Fossa revela um cenário de avanços pontuais, mas também de desafios relevantes quanto à implementação efetiva da Logística Reversa (LR). Observa-se que a empresa possui iniciativas relevantes voltadas à reutilização de componentes (70%) e à reciclagem de resíduos sólidos (60%). No entanto, há lacunas significativas em áreas estruturais e estratégicas que comprometem a eficiência sistêmica do processo, como a ausência de infraestrutura adequada de triagem (40%), deficiência nas parcerias com recicladoras (50%) e falta de integração efetiva à cadeia produtiva (25%).
Gráfico 1 – Análise comparativa

A partir do gráfico 1 entre um modelo ideal e a prática atual da empresa, evidencia-se a distância entre o que é preconizado pela literatura e a realidade da organização. Autores como Leite (2017) e Shibao, Moori e Santos (2010) destacam que a logística reversa não se restringe a processos operacionais isolados, mas deve ser concebida como uma estratégia integrada, envolvendo monitoramento, indicadores de desempenho e articulação com políticas públicas — aspectos que, na Maria Fossa, encontram-se ainda em estágio embrionário (com pontuações entre 25% e 35%).
Essa constatação corrobora o que afirma Mendonça et al. (2017), ao explicitar que os principais fatores para o sucesso da LR incluem não apenas incentivos econômicos e tecnológicos, mas também o cumprimento regulatório e a responsabilidade social e corporativa. A empresa estudada demonstra esforços iniciais, porém ainda carece de um sistema de monitoramento e de indicadores de desempenho ambiental, dificultando a avaliação contínua dos impactos e o redirecionamento estratégico das ações.
Outro ponto crítico é a baixa conformidade com políticas públicas e diretrizes legais da PNRS, o que reflete um descompasso com a necessidade urgente de alinhamento ao modelo da economia circular, conforme defendem Azevedo (2015) e Garcia (2024). Tal desalinhamento compromete não apenas a sustentabilidade ambiental, mas também a competitividade mercadológica da empresa, num contexto em que consumidores e investidores valorizam crescentemente práticas sustentáveis e alinhadas ao ESG.
Dessa forma, os resultados indicam que a efetividade das práticas adotadas pela Maria Fossa ainda é limitada por fatores estruturais, operacionais e culturais. A empresa carece de uma abordagem mais integrada e de investimentos em tecnologia e capacitação interna, conforme propõem Jugend, Bezerra e Souza (2022), para que a logística reversa deixe de ser uma ação pontual e se transforme em um diferencial estratégico sustentável.
A implementação parcial observada resulta em impactos ambientais mitigados apenas em parte, e deixa de explorar todo o potencial da LR em termos de retorno financeiro, valorização da imagem institucional e responsabilidade socioambiental. Em síntese, a empresa apresenta disposição para a transformação, mas necessita de um plano estruturado, alinhado às boas práticas descritas na literatura, para consolidar um modelo de gestão ambiental verdadeiramente eficaz e circular.
6. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente estudo objetivou descrever como uma empresa do segmento de esgoto organiza seus processos industriais, frente à logística reversa. Para isso, fez se necessário a apresentação de conceitos basilares relativos a LR; o estabelecimento do nível de interação entre a prática empresarial e a LR; bem como a identificação de aspectos motivadores e benefícios percebidos no caso estudado.
Também foi possível observar que, a adoção da LR pode contribuir para redução de riscos ambientais e custos operacionais, a economia de recursos, aumento da satisfação de partes interessadas, estabelecimento dos processos de fabricação e descarte da maneira correta, criação de novos produtos, ampliação do portfólio empresarial e do marketshare, assim como a melhoria da imagem organizacional.
Portanto, pode-se concluir que ao implantar a metodologia da logística reversa, a empresa obteve maior eficiência produtiva, grande alavancagem financeira e ampliação da sua competitividade estratégica. Os resultados alcançados neste estudo, comprovam que diante do desafio de produzir e preservar, a LR pode viabilizar soluções além da prática ambiental, gerando oportunidade também para evidenciar novos modelos de negócios.
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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Bacharel em Administração – São Lucas. ORCID: https://orcid.org/0009-0005-5363-4722.
[2] Técnico em Recursos Humanos (concluída) IFRO – Campus Porto Velho Zona Norte. Bacharelado em Administração (em andamento) – Centro Universitário São Lucas. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-9391-8203.
[3] Graduação em Gestão de Recursos Humanos (concluída) – Universidade Paulista (UNIP). Bacharelado em Administração (em andamento) – Centro Universitário São Lucas. ORCID: https://orcid.org/0009-0000-4206-4078.
[4] Técnico em Gestão de Recursos Humanos (concluído) – Centro Universitário São Lucas. Bacharelado em Administração (em andamento) – Centro Universitário São Lucas. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-8368-5054.
[5] Bacharelado em Administração (em andamento). ORCID: https://orcid.org/0009-0005-4794-3633.
Contribuição dos autores:
Diogo Furtado da Costa: Planejamento.
Vitória Ingridi Arruda Guimarães: Concepção.
Vinícius Barros Damasceno: Análise.
João Filipe Dias Trigo: Interpretação.
Lorena Kurscheidt Hoffmann: Redação do Trabalho.
INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL
Conflito de interesse:
Não há conflito de interesse.
Agradecimentos e Financiamento:
Não há financiamento.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 30 de janeiro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 23 de junho de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 13 de novembro de 2025.








