A Alta Incidência de Lesões na Articulação do Ombro em Atletas de Jiu-Jitsu

0
715
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
A Alta Incidência de Lesões na Articulação do Ombro em Atletas de Jiu-Jitsu
3 (60%) 2 vote[s]
ARTIGO EM PDF

SILVA, Corina Natalina Costa, SANTOS, Marcos Antonio Martins dos, GARRIDO, Wallace Costa, LIMA, Jacqueline Maria Maranhão Pinto

SILVA, Corina Natalina Costa; et.al. A Alta Incidência de Lesões na Articulação do Ombro em Atletas de Jiu-Jitsu. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 05, Vol. 05, pp. 432-450, Maio de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

O objetivo desse estudo é identificar a produção científica acerca das lesões na articulação gleno-umeral partir dos movimentos ou golpes que o Jiu-Jitsu utiliza na sua execução, no período de 2000 a 2015. Trata-se de um estudo descritivo e exploratório de natureza bibliográfica, com abordagem quantitativa. Analisou-se 11 artigos, uma vez que essa literatura acerca do jiu-jitsu é bastante escassa. A maioria dos autores teve seus objetivos focados em lesões articulares no ombro e joelhos em atletas de jiu-jitsu. Assim, foi notável que nos últimos anos não houve produção científica expressiva sobre o assunto em questão, no entanto há grande necessidade de estudos como esse para preencher as lacunas existentes e esclarecer a população sobre a necessidade de executar a atividade física com profissionais habilitados, a fim de evitar tais lesões.

1. Introdução

Historicamente o Jiu-jitsu surgiu por volta de 2500 anos atrás, sendo praticado por monges budistas que habitavam uma região situada entre a Índia e a China, naquela época os monges que possuíam biótipo físico em sua maioria fraco, desenvolveram técnicas de defesa que lhes permitissem desviar de ataques provenientes de armas brancas utilizadas pelos seus agressores e por muitas vezes conseguiam por defesa própria, ficar em melhor situação que seus oponentes.(GURGEL,2003). Existem artefatos como uma pequena escultura achada na Babilônia, datada do 3º milênio a.C., os quais demonstravam duas pessoas praticando jiu-jitsu.

Segundo Assis e Gomes, jiu-jitsu é praticado em pé e no chão, onde os atletas usam um tipo de vestimenta chamada de Kimono. A luta dar-se em um tatame.

O jiu-jitsu é uma arte marcial que há séculos ganha adeptos no mundo inteiro, e não foi diferente no Brasil, que chegou na época da Segunda Guerra Mundial, introduzida pelo conde japonês MaedaKoma, que se estabeleceu em Belém do Pará, acolhido pela família Gracie.

Franzino por natureza, aos 15 anos, Gracie encontrou no jiu-jítsu um meio de realização pessoal. Aos 19, se transferiu para o Rio de Janeiro com a família e adotou a profissão de lutador e professor dessa arte marcial. Viajou para Belo Horizonte e depois para São Paulo, ministrando aulas evencendo adversários bem mais fortes fisicamente. Em 1925, voltou ao Rio e abriu a primeira Academia Gracie de Jiu-jítsu. Convidou seus irmãos Oswaldo Gastão para assessorá-lo e assumiu a criação dos menores George, 14anos, e Hélio, com 12 anos.

Desde então, Carlos passou a transmitir seus conhecimentos aos irmãos, adequando e aperfeiçoando a técnica à compleição física franzina característica de sua família. Também lhes transmitiu sua filosofia de vida e conceitos de alimentação natural, sendo um pioneiro na criação de uma dieta especial para atletas, a Dieta Gracie, transformando assim, o jiu-jítsu em.

sinônimo de saúde. De posse de uma eficiente técnica de defesa pessoal, Carlos Gracie viu na modalidade um meio para se tornar um homem mais tolerante, respeitoso e autoconfiante. Imbuído de provar a superioridade de o jiu-jítsu formar uma tradição familiar, Carlos Gracie lançou desafios aos grandes lutadores da época e passou a gerenciar a carreira dos irmãos.

Enfrentando adversários 20, 30 quilos mais pesados, os Gracie logo adquiriram fama e notoriedade nacional. Atraídos pelo novo mercado que se abriu em torno do jiu-jítsu, muitos japoneses vieram para o Rio, porém, nenhum deles formou uma escola tão sólida quanto à da Academia Gracie, pois o jiu-jítsu que praticavam privilegiava as quedas e o dos Gracie, o aprimoramento da luta no chão e os golpes de finalização. Ao modificar as regras internacionais do jiu-jítsu japonês nas lutas que ele e os irmãos realizavam, Carlos Gracie iniciou o primeiro caso de mudança de nacionalidade de uma luta, ou esporte, na história esportiva mundial. Anos depois, a arte marcial japonesa passou a ser denominada de jiu-jítsu brasileiro, sendo exportada para o mundo todo, inclusive para o Japão.

Essa modalidade esportiva utiliza arremessos (quedas), imobilizações, desequilíbrios, estrangulamentos e chaves aplicadas às articulações do corpo, onde sobrecarrega principalmente o ombro. Poucos estudos foram feitos sobre lesões no Jiu-Jitsu. Pinto et al. relatam que de 41 lutadores 93% já sofreram algum tipo de lesão articular. Baffa e Barros realizaram uma pesquisa com 36 atletas de Jiu-Jitsu e verificaram que a articulação mais acometida foi o ombro e joelho.

Para Ide, (2004), O Jiu-Jitsu desportivo abrange seis técnicas permitidas em competições: projeções, imobilizações, chaves, torções e estrangulamentos. Todas são fundamentadas em princípios biomecânicos e podem causar traumas sérios aos adversários.

1.1 Projeções

São utilizadas para desequilibrar e derrubar o adversário. Segundo França (2001), projeções podem ocasionar fraturas no processo odontóide.

Pinçamentos (chave de bíceps e chave de panturrilha)

São ataques que pressionam estruturas musculares e centros nervosos dos adversários. Provocam muita dor no atleta, fazendo com que este recue dos ataques. O pinça mento pode ocasionar estiramento de primeiro a terceiro grau.

Chaves

São ataques a estruturas articulares que visam imobilizações e extensões. As mais conhecidas chamam-se “Armlock” e “Leglock”.

O “ArmLock”diminui a amplitude de movimento e leva a dor.

Torções

Constituem ataques as estruturas articulares, mas que visam submetê-las a amplitudes de movimento além das suportadas pelas mesmas. As principais são as que atacam as articulações do ombro (“americanas” e “omoplatas”).

Estrangulamentos

Interrompem o fluxo de ar para os pulmões e/ou sanguíneo para o cérebro. Por definição, estrangulamento é a asfixia mecânica na qual ocorre uma constrição do pescoço, causando embaraço à livre entrada de ar no aparelho respiratório feito por meio de um laço acionado pela força muscular da própria vítima, ou de um estranho, (FRANÇA, 2001).

No caso do Jiu-jitsu desportivo o laço pode ser feito com auxílio do Quimono (roupa apropriada para a prática), (FRANÇA, 2001)

Possíveis lesões:

  • Morte – pelo impedimento da penetração do ar nas vias aéreas; por morte circulatória devido à compressão dos grandes vasos do pescoço que conduzem para o cérebro; por morte nervosa do mecanismo reflexo (inibição vagal);
  • Equimoses de pequenas dimensões na face, nas conjuntivas, pescoço e face anterior do tórax; Infiltração hemorrágica em tela subcutânea e musculatura subjacente ao sulco;
  • Rupturas musculares; Fraturas e luxações das vértebras cervicais. Sendo assim, essas podem ser denominadas lesões típicas, ou seja, são aquelas decorrentes da aplicação correta dos golpes e técnicas da modalidade esportiva (MENESES, 1983).

1.2 Lesões

A lesão é uma ocorrência da vida cotidiana. Enquanto alguns indivíduos sofrem lesão de maior gravidade mais frequentemente do que outros, ninguém é poupado de dor de transtorno e da incapacidade causados por uma lesão. Qualquer lesão é acompanhada por custos físicos, emocionais e econômicos inevitáveis, assim como por perda de tempo e da função normal (WHITING e ZERNICKE, 2001)

É importante destacar um tipo de lesão recorrente das lutas livres e também do judô, que é denominada de hematoma auricular, que não está associada a nenhuma técnica específica e sim pelo constante contato corporal que caracteriza as modalidades. Wojtys (apud SAFRAN, 2002) afirma que quase 40% dos lutadores comunicam ter algum tipo de deformidade auricular permanente. Nesse caso de traumatismo auricular, o sangue acumula-se entre o pericôndrio e a cartilagem. Nova cartilagem se forma a partir do firme envoltório pericondrial, levando à deformidade da aurícula (a chamada “orelha de couve flor”).

Segundo Kisner e Colby (1992), a lesão músculo esquelética pode ser classificada levando-se em consideração as lesões de tecidos moles em:

1) Distensão – alongamento excessivo, excesso de exercício de uso do tecido mole; tende a ser menos grave que uma entorse. Ocorre devido a trauma leve ou traumas não usuais repetidos de grau mínimo. Esse termo é frequentemente usado como referência especifica a algum grau de comprometimento de unidade musculo tendinea.

2) Entorse – sobrecarga grave, estiramento ou laceração de tecidos moles como a capsula articular, ligamento, tendão ou músculo. Esse termo é frequentemente usado em referência especifica a lesão de um ligamento, e recebe a graduação de entorse de primeiro grau (leve), segundo grau (moderado), ou terceiro grau (grave).

3) Ruptura ou laceração entre músculos e tendão – se ruptura ou laceração é parcial, ocorre dor na região da fissura quando o músculo é alongado ou quando se contrai contra resistência. Se a ruptura ou laceração é completa. Músculo não traciona o local lesado, de modo que alongamento ou contração do músculo não causa dor.

4) Lesões tendíneas – tenossinovite é uma inflamação da bainha sinovial que cobre um tendão, normalmente há crepitação ao movimento. Tendinite é a formação de cicatriz ou deposição de cálcio em um tendão.

5) Sinovite – inflamação da membrana sinovial; um excesso de líquido sinovial normal dentro de uma articulação, geralmente devido a trauma ou doença.

6) Hemartrose – sangramento dentro de uma articulação, geralmente devido a trauma grave.

7) Contusão – golpe direto, resultando em uma ruptura capilar, sangramento. Edema e resposta inflamatória.

8) Bursite – inflamação de uma bolsa (bursa).

9) Gânglio – um balonamento da parede de uma cápsula articular ou bainha tendínea.

10) Subluxação – deslocamento incompleto ou parcial que geralmente envolve trauma secundário ao tecido mole vizinho.

11) Luxação – deslocamento de uma parte, geralmente as partes ósseas dentro de uma articulação, levando a lesão de tecido mole, inflamação, dor e espasmo muscular.

12) Síndromes por uso excessivo – sobrecarga repetida e/ou desgaste por fricção em músculo ou tendão.

Gianoni (2011) disse que “lesão é o dano sofrido pelos tecidos do corpo em resposta a um traumatismo físico”. “A grande parte das lesões que ocorrem nas extremidades superiores, vem de esportes que envolvem oscilações bruscas tais como, chaves de articulações, quedas, socos mal desferidos entre outros”. Temos o ombro com a articulação mais lesionada (EINISMAN at al., 2011). No jiu-jitsu as chaves de articulações de ombros (Americana, Omoplata), causam um grande dano ao atleta.

A prática dessa arte é encontrada em academias num formato voltado para competições, onde os alunos são graduados em faixas, na seguinte ordem: faixa branca, amarela, laranja, verde, azul, roxa, marrom e preta. Há graduações entre as faixas, normalmente quatro, dessa forma se passam por quatro estágios antes de mudar a faixa. A Federação Brasileira de Jiu-Jitsu que organizou os critérios de troca de faixas, e para não haver divergências criou um estatuto, dividido em capítulos, especificando os itens que o atleta deve cumprir.

Os praticantes se limitam a um treino físico, voltado para o aquecimento e condicionamento, seguido de uma parte técnica, onde são executados os movimentos da luta, como raspagens, chaves e torções, finalizando com a luta entre os alunos.

O jiu-jitsu, apesar de ser uma arte marcial relativamente antiga, com quase um século de atividade no Brasil e mostrar-se um esporte em grande expansão nas últimas décadas, ainda não possui na literatura científica informações suficientes sobre as lesões que acometem seus praticantes. Essa arte acomete lesões em ombros, joelhos, cotovelos e coluna vertebral, sendo que o ombro é a articulação mais acometida.

O ombro em particular está propenso a lesões por manter um precário equilíbrio entre movimento, estabilidade, sobrecarga e impacto, os quais podem estar envolvidos na causa de incapacidade em certos atletas (SOARES, SUZINÉA, 2003).

Para Ejnisman, et al., (2001), a dor é o principal sintoma manifestado pelos atletas. A localização da dor nos atletas deve ser minuciosamente avaliada. Os atletas muitas vezes apresentam clínica de dor ântero-lateralsugestiva de síndrome do impacto, mas esta pode ser secundária à instabilidade glenoumeral. O ombro dolorosa afeta não só o atleta de alto nível como também amadores.

1.3 Articulações do ombro

O ombro é um conjunto funcional que permite unir o membro superior ao tórax. O ombro é uma articulação proximal do membro superior, sendo o mais móvel de todas as articulações do corpo humano (KAPANDJI,1990). Apesar da sobrecarga imposta ao ombro, anatomicamente, a cavidade glenoidea é rasa e tem uma superfície articular menor do que a cabeça do úmero. Assim, a forma das superfícies articulares não favorece a estabilidade que dependem, essencialmente, de ligamentos e músculos (DANGELO e FATTINE, 2004).

O ombro é a estrutura com maior mobilidade do corpo humano, capaz de realizar movimentos de mais de 180°. Essa grande liberdade de movimentos só é possível graças a junção das articulações do ombro, no total o complexo do ombro é formado por 5 articulações, 3 sinoviais, (esterno clavicular, acromioclavicular e glenoumeral) 2 funcionais (escapulotorácica e subacrômial) (KAPANDJI, 2000).

A cintura escapular tem apenas uma ligação óssea com o esqueleto axial. Aclavícula articula-se com o esterno pela pequena articulação esternoclavicular. A articulação glenoumeral é do tipo triaxial incongruente, bola e soquete com uma cápsula articular frouxa. É suportada pelos tendões do manguito rotador e pelos ligamentos glenoumerais e coracoumerais (KISNER, 2005).

ARTICULAÇÃO ESTERNOCLAVICULAR

A articulação esterno clavicular permite o movimento entre clavícula e o eixo axial. Possui um disco cartilaginoso entre suas faces que a permite se mover melhor. Esta articulação é formada pelos ligamentos esterno clavicular posterior e anterior, costoclavicular e o interclavicular, que tem como funções suportar o peso das extremidades superiores, limitar movimentos claviculares e prevenir luxações na articulação (KISNER; COLBY 2004).

ARTICULAÇÃO ACROMIOCLAVICULAR

A articulação acromioclavicular permite a movimentação entre clavícula e escapula, no momento em que mexemos o braço para frente e para o lado (movimentos de flexão e abdução do ombro). Esta articulação é formada pelos ligamentos acromioclavicular, coracoclavicular, coracoacromial e o transverso superior (LECH et al., 2005).

ARTICULAÇÃO GLENOUMERAL

Considerada a principal articulação do ombro. A articulação glenoumeral tem amplos graus de movimento, como, adução e abdução, no plano frontal, flexão e extensão no plano horizontal (ANDREWS; HARRELSON; WILK, 2000), e é constituída pela cabeça do úmero e pela fossa glenoide da escapula. Composta pela capsula articular, pelos ligamentos coracoumeral, glenoumerais, (que são o superior, médio e o inferior), e o ligamento transverso do úmero.

ARTICULAÇÃO ESCAPULOTORÁCICAE SUBACRÔMIAL

Essas articulações são consideradas funcionais, pois permitem a grande movimentação do ombro. A articulação escapulo torácica permite que a escapula participe de muitos movimentos do nosso ombro, podendo realizar movimentos de adução, abdução, rotação superior e inferior (SMITH; WEISS; LEHMKUHL, 1997).

A articulação subacromial é formada pelo arco coracocromial e úmero, sua função é impedir que o úmero e desloque para cima.

MANGUITO ROTADOR

O manguito rotador é a unidade funcional mais importante do complexo do ombro. Tem como função a estabilização dinâmica do ombro, e auxilia tanto nos movimentos de abdução quanto nos de adução. Ele é formado a partir de 4 músculos, o supra- espinhal, infra- espinhal, sub- escapular e o redondo menor (LEE et al., 2000).

Essa unidade funcional do ombro é muito exigida pelos atletas de artes marciais, pois cada golpe, ou técnica que envolva os membros superiores irá conter os movimentos de adução e abdução. O manguito rotador muitas vezes acaba sendo sobrecarregado levando ao desgaste do ombro, gerando uma lesão.

Eles se originam na escápula e se inserem na tuberosidade do úmero, sendo responsáveis pela movimentação e estabilidade da articulação glenoumeral (EJNISMANN;MONTEIRO; UYEDA, 2008).

Os tendões do manguito rotador unem-se com os ligamentos e o lábio glenoidal nos locais de inserção de modo que, quando os músculos se contraem, eles proporcionam estabilidade dinâmica tensionada às estruturas de contenção estática. A resposta coordenada dos músculos do manguito e a tensão dos ligamentos proporcionam graus variáveis de suporte dependendo da posição e da mobilidade do úmero (KISNER, p. 320, 2005). Pelo fato dos movimentos da articulação do ombro apresentar-se  amplos, sendo capaz de mover-se tridimensionalmente, e suas luxações são mais frequentes do que todas as outras articulações do corpo (COOPER, 1832 apud DONEUX,1997).

A maioria das lesões atléticas do ombro representa o resultado de uma atividade repetitiva realizada acima da cabeça e que pode ser classificada como micro traumática ou resultante de um mecanismo de uso excessivo. No caso do jiu-jitsu as luxações traumáticas são as mais comuns.

As luxações costuma ocorrer depois de um movimento de rotação muito brusco (chave de ombro americana). Esse movimento de rotação é tão intenso que irá gerar a ruptura do lábio Inferior glenóide, gerando um trauma articular, que irá criar um ponto de fragilidade, e é ai que teremos a perda da continuidade articular. (GARCIA,2004).

O primeiro episódio de uma luxação de ombro pode ser encontrado no papiro de Edwin Smith (3000-2500 a. C.), o livro mais antigo da humanidade. Segundo Lech et al. (2005) a instabilidade pode variar em graus (subluxação, luxação e microinstabilidade), direção (anterior, inferior, posterior e multidirecional) etiologia (traumática e traumática) e volição (voluntária e involuntária). Em torno de 80% dos casos de luxação traumática primária evoluem para recidivas. A luxação redicivante ocorre após traumatismos menores. Quanto mais intensos são os episódios de luxação, mais frequente será a recidiva, devido ao aumento progressivo da lesão, que acontece com as sucessivas luxações (LECH, 2009).

E se uma luxação dessas ocorre com um atleta menor de 20 anos, as chances de que outra luxação como essa volte a acontecer são de 90%. Podendo piorar ainda mais, pois se essa segunda luxação ocorrer as chances de uma terceira luxação traumática acontecer (independente da idade) são de quase 100% (GARCIA 2004).

Nos dois quadros apresentados os atletas lesionados terão de ficar sem praticar a modalidade até uma recuperação, ou em casos mais graves enfrentar uma cirurgia para tentar diminuir os dados dessa lesão. Em sua grande maioria as lesões em atletas de artes marciais ocorrem pelo excesso de treino, por uma mentalidade de não se render ou uso de força excessiva do adversário, por treinamentos de técnica, torneios ou por falta de um profissional que trabalhe seriamente com esse atleta.

Todos esses quadros de lesões (principalmente nos ombros, que são as mais comuns) podem ser evitados se um trabalho de prevenção for feito com esses atletas (Wilket al., 2000).

2. Metodologia

2.1 Tipos de estudo

Trata-se de estudo exploratório de natureza bibliográfica, com abordagem quantitativa, no qual se realizou um levantamento da produção científica sobre a temática em questão.

2.2 Períodos de Estudo

O estudo foi realizado no período de outubro de 2015 a maio de 2016. Realizou- se uma revisão da literatura de artigos publicados em revistas indexadas e disponíveis em bases de dados eletrônicos entre o período de 2000 a 2015, devido à preferência por estudos mais recentes, apesar de ser bastante escasso.

2.3 População e amostra

Foi realizada primeiramente a leitura de identificação do material bibliográfico, após a identificação, uma leitura exploratória, que consiste em uma leitura rápida para identificar se as informações interessam de fato para o estudo. Posteriormente prosseguiu-se com a leitura seletiva, que determina o material realmente relevante para a pesquisa, seguida pela leitura crítica que busca responder os objetivos da pesquisa, e finalmente a leitura interpretativa onde se relacionam as ideias expressas na obra com a problemática para qual se busca resposta.

A identificação do material bibliográfico foi realizada nas bases de dados LILACS (Literatura Latino-Americana e do Caribe em Ciências da Saúde) e SCELO (ScientificElectronic Library Online). Nessa etapa foram identificados 11(onze) estudos, a partir da busca isolada ou cruzamento de palavras-chaves como: jiu-jitsu; lesões articulares; educação física. Sendo considerados nessa busca inicial o título e o resumo dos trabalhos, bem como o idioma em português, para uma seleção ampla de prováveis trabalhos de interesse.

2.4 Instrumentos da pesquisa

Foi utilizado um formulário como instrumento de coleta de dados (APÊNDICE A), que permitiu compreender os objetivos propostos. O formulário é composto por questões referentes aos estudos analisados, quanto ao título, autor principal, ano de publicação, objetivo, palavras-chaves ou descritores, periódico indexado, tipo de pesquisa, ênfase do estudo e conclusões alcançadas.

2.5 Coletas de dados

Os dados foram obtidos a partir da leitura minuciosa e simultânea transcrição dos dados de cada texto selecionado para o formulário (APÊNDICE A).

2.6 Análises de Dados

A síntese dos dados subsidiou a construção do perfil das produções. Os dados analisados foram apurados, agrupados e organizados em quadros e tabelas nos programas Word 2010 e Excel 2010.

Para a análise do enfoque dos estudos, empregou-se a técnica da análise do tipo temática. Segundo Severino (2002), a análise temática se faz ao obter-se os elementos de expressão usados pelo autor, conhecendo todas as referências e alusões utilizadas por ele, a partir daí o leitor, numa segunda abordagem passará à etapa de captação da mensagem global incluída em uma unidade. Essa análise visa compreender o conteúdo da mensagem, ouvindo o autor, sem interferir nele.

3. Resultados e discussão

A partir da análise da produção científica sobre as lesões na articulação dos ombros presente em atletas de jiu-jitsu foi possível constatar a escassez de estudos e pesquisas nos últimos quinze anos sobre o tema. Em relação ao ano de publicação os resultados estão apresentados na Tabela 1, destacam-se somente duas publicações no ano 2012, as demais publicações no total, sete foram nos anos de 2009 a 2010 e 2013 com uma publicação.

Tabela 1 – Características dos artigos científicos quanto ao ano de publicação, São Luís- MA, 2015.

CARACTERÍSTICAS N Revista
Ano de publicação
2000 01
2001 01
2004 01
2009
2010
01
01
2012
2013
02
01
2014 02
2015
TOTAL 10

Fonte: Scielo, 2012.

Quanto aos objetivos dos estudos analisados, o Quadro 1 mostra que a maioria composta por cinco deles, enfatizava as lesões adquiridas no treinamento do jiu-jitsu.

Isso é compreensível, visto que não há dúvidas de que o jiu-jitsu é uma atividade de grande impacto articular no ombro pelas técnicas de projeção e torções. Clebis e Natali 2001, explicam que o nível de uma lesão é determinado pela duração e intensidade do exercício, ocorrendo desta forma que as atividades de resistência ou de explosão produzem vários níveis de resposta celular e de lesão muscular.

Quadro 1 – Caracterização dos artigos científicos quanto aos seus objetivos, São Luís- MA, 2016.

AUTOR PRINCIPAL OBJETIVO
1 JUNIOR, 2009 Definir a incidência de lesões musculoesqueléticas em praticantes de jiu-jitsu das academias de Belém do Pará.
2 EJNISMAN, et al. 2001 Analisar as queixas dos atletas de jiu-jitsu nas lesões de ombro
3 SILVA, et al. 2014 Analisar o papel dos exercícios resistidos para prevenção de lesões de ombro em atletas e praticantes de artes marciais.
4 MACHADO, et al. 2012 Analisar prevalência, localização anatômica, situação de origem e ocorrência, afastamento e severidade das lesões em atletas de Jiu-Jitsu

 

5 FAYAN, DIOGENES (2000) Analisar a história do jiu-jitsu?
6 CARPEGGIANE, JOÃO (2004) Verificar a frequência, a localização anatômica, a severidade e o ambiente de ocorrência das lesões que acometem praticantes de jiu-jitsu
7 SOUZA, EDMAR e MENDES SELMA ( 2014 ) Verificar as lesões mais frequentes no jiu-jitsu no treinamento de alto rendimento do jiu-jitsu.
8 CARVALHO, JAMES; GRECCO, LEANDRO; OLIVEIRA ADRIANO Prevalência de lesões em praticantes de jiu-jitsu: comparação entre o nível iniciante e avançado
9 OLIVEIRA, E; OLIVEIRA, R.; SILVA, K. Analisar a prevalência e incidência de lesões em atletas participantes do campeonato, Catalão Open de Jiu-Jitsu que aconteceu em 29 de agosto de 2010, na cidade de Catalão- GO.
10 SANTOS,E; ROCHA, L. Documentar através de um questionário semiestruturado a prevalência de atletas de Kung Fu que possuem a luxação recidivante de ombro que treinam na academia San Kuan na cidade de Feira de Santana-BA.

Fonte: Scielo, 2016.

As palavras-chave que predominaram de forma semelhante nos artigos foram “jiu-jitsu” e “lesões no ombro”, seguidas por “atleta”.  (QUADRO 2).

Quadro 2 – Características dos artigos científicos quanto às palavras-chave, São Luís- MA, 2016.

CARACTERÍSTICAS N
Palavras-chave
Lesões no ombro 05
Jiu-jitsu 05
Atletas 03
Alto rendimento 01
Ombro 01

Fonte: Scielo, 2016.

De acordo com a Tabela 2, dentre os periódicos encontrados, a maioria dos artigos foram trabalhos de conclusão de curso. Sendo que a maioria foi feita através de pesquisa de campo.

Tabela 2 – Características dos artigos científicos quanto ao periódico e ao tipo de estudo abordado, São Luís- MA, 2016.

CARACTERÍSTICAS N
Periódico indexado
Revista Brasileira de Ortopedia 01
Revista Cientifica da América Latina e Caribe 01
Vita et Sanitas 01
Tipo de estudo
Revisão de Literatura 03
Pesquisa de Campo 07
TOTAL 10

Fonte: Scielo, 2016.

No quadro 3 podemos observar as conclusões alcançadas em cada trabalho pesquisado.

Quadro 3 – Caracterização dos artigos segundo as conclusões alcançadas, São Luís- MA, 2016.

AUTOR PRINCIPAL CONCLUSÃO
1 JUNIOR, 2009 O ombro é uma das articulações mais acometidas nos atletas de jiu-jitsu
2 EJNISMAN, et al. 2001 A dor é o principal sintoma do atleta.
3 SILVA, et al. 2014 Concluímos que o exercício resistido visando a prevenção de lesões é fundamental para os atletas das artes marciais. Não só porque vai possibilitar esse atleta a melhorar sua performance, mas principalmente por que esse método pode evitar um grande quadro de lesões.
4 MACHADO, et al. 2012 Neste estudo, pôde-se verificar que 94,34% dos atletas foram acometidos por lesões praticando Jiu-Jitsu.
5 FAYAN, DIOGENES (2000) A prática do vale tudo não corresponde e muito menos representa o que é o jiu-jitsu, pois o mesmo transcende o aspecto puramente físico para encontrar sua principal razão de ser na busca da harmonia interior da pessoa com o meio em que vive.
6 CARPEGGIANE, JOÃO (2004) A maior parte dos atletas que praticam jiu-jitsu apresenta lesão que os afasta por período maior ou igual a uma semana da prática de esportes
7 SOUZA, EDMAR e MENDES SELMA ( 2014 ) Os resultados e pesquisas apontam para um grande número de lesões, principalmente as articulares.
8 CARVALHO, JAMES; GRECCO, LEANDRO; OLIVEIRA ADRIANO Devido ao número crescente de praticantes e da incidência de lesões, acreditamos que os resultados obtidos neste estudo poderão contribuir amplamente com trabalhos preventivos, oferecendo esclarecimento sobre as possíveis alterações e lesões ocasionadas pelo esporte.

Neste estudo, pode-se constatar que os praticantes de nível avançado apresentam preponderância no total de lesões no jiu-jítsu, se comparados aos iniciantes, na região do complexo articular de ombro e joelho. Em relação ao mecanismo de trauma, em ambos os grupos, as projeções são as maiores causadoras de lesão. Apesar do alto apontamento de lesões, principalmente em praticantes avançados, a ausência de tratamento se mostrou predominante neste grupo de praticantes. E quando se optava pelo tratamento, ambos os grupos elegeram o repouso como forma de tratamento.

Tais achados podem justificar as recidivas de lesões de praticantes de jiu-jítsu e os dados podem ser usados para reforçar a inclusão da fisioterapia em academias de artes marciais, atuando em caráter preventivo e reabilitador. Entretanto, sugerimos outros estudos com poder amostral maior para enfatizar os achados deste trabalho.

9 OLIVEIRA, E; OLIVEIRA, R.; SILVA, K. Em relação à incidência de lesões, os resultados demonstraram que o segmento anatômico mais acometido foi o joelho e a lesão mais comum foi a luxação, sendo o golpe recebido no momento da lesão uma chave de articulação, onde o adversário era mais pesado e mais graduado na maioria das situações.

Os atletas de jiu-jitsu de nível iniciante sofreram um maior número de lesões na fase de treinamento e os atletas de nível avançado sofreram maior número de lesões na fase de competição, e essas lesões tiveram em nosso estudo, total relação no que diz respeito ao tempo de prática e graduação do atleta, onde encontrou-se maior prevalência e incidência de lesões entre os atletas mais graduados e com maior tempo de prática. Por meio desse levantamento abrem-se novos leques, para que surjam novas pesquisas que abordem a prevenção e tratamento das lesões mais comuns para esse tipo de esporte,

visando à melhora do rendimento desses atletas, fazendo com que os mesmos tenham uma longa e saudável vida atlética.

 

10 SANTOS, E; ROCHA L. Conclui-se, assim, que não houve prevalência de luxação de ombro entre os atletas de Kung Fu neste estudo. Atribui-se esse resultado, pelo fato da maioria dos alunos realizarem alongamentos antes do treino e também, por praticarem outro

tipo de atividade física, onde exercem um treino específico para fortalecimento de ombro.

Como a literatura mostra maior instabilidade de ombro em lutadores, sugereseque novas pesquisas sejam realizadas, a fim de detalhar de forma mais efetiva os benefícios da fisioterapia na instabilidade articular do ombro em atletas de Kung Fu.

Fonte: Scielo, 2016.

Conclusão

Por meio desse estudo, foi possível conhecer a produção científica existente no período de 2000 a 2015, sobre as Lesões no ombro em atletas de jiu-jitsu, ressaltando as principais temáticas abordadas pelos autores nos artigos. Assim, é notável que a produção científica sobre o assunto é extremamente escassa.

Observou-se através dos estudos como é grande o número de lesões nas mais variadas articulações, principalmente no ombro, o que faz concluir o quão é importante um acompanhamento de um bom profissional de Educação Física, a fim de realizar alongamentos e fortalecimento muscular, para diminuir o número de lesões e até mesmo preveni-las.

Por essa razão, percebe-se a necessidade de surgirem novos estudos não só que esclareçam as lesões esportivas, mas também que abordem medidas que previnam e minimizem esses riscos, considerando que qualquer atividade física poderá lesionar ou um atleta ou uma simples pessoa amadora.

Referências

BARBOSA, L; MUNIZ, W; VELLOSO, G. Lesões osteoarticulares e a prática desportiva em atletas jovens. Univ.Ci.Saúde, Brasília, jan/jun. 2004 v.2, p. 137-145.

CARPEGGIANE, J. Lesões no Jiu-jitsu: estudoem 78 atletas. 2004. Universidade Federal de Santa Catarina.

CARVALHO, JAMES; GRECCO, LEANDRO; OLIVEIRA ADRIANO. Prevalência de lesões em praticantes de jiu-jitsu: comparação entre nível iniciante e avançado.Science in Health. mai – ago 2013

EJNISMAN, B. et al. Lesões musculo-esquelética no ombro do atleta: mecanismo de lesão, diagnóstico e retorno à prática esportiva. Revista Brasileira de Ortopedia, São Paulo, v. 36, n. 10, out. 2001. Acesso em novembro de 2015 e 2016

FAYAN, D. Jiu-jitsu: umresgate histórico, 2000. Universidade Federal de Campinas, UNICAMP

JUNIOR, A.S. Incidência e fatores de risco de lesões musculo-esqueléticas em praticantes de jiu-jitsu. 2009. Setor de Ciência da Saúde, Universidade da Amazonia – UNAMA. Acessado em 07/06/2016.

MACHADO, A. MACHADO, G. MACHADO, T. A prevalencia de lesões no jiu-jitsu de acordocom relatos dos atletas participantes de campeonatos mundiaisem 2006. Revista ScientiaSaude, v.11, 2012.

OLIVEIRA, E; OLIVEIRA, R; SILVA K. Prevalência e incidência de lesões em atletas participantes do campeonato open de Jiu-Jitsu da cidade de Catalão-Go realizado em agosto de 2010. Revista Eletrônica Saúde CESUC. n.1, 2010

SANTOS, E; ROCHA, L.A prevalência da luxação recidivante de ombro em atletas de kung fu.2012. Faculdade Adventista de Fisioterapia

SILVA, P. et al. Treinamento resistido para a prevenção de lesões de ombro em atletas de atletas em artes marciais. 2014. Setor de Ciência da Saúde, Universidade Vale do Paraiba, São Paulo.

SOUZA, Edmar. MENDES, Catia. Lesõesmaisfrequentes no jiu-jitsu com o treinamento de alto rendimento.Revista Vita et Sanitas, Goias. N.8, jan.- dez. 2014

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here