A importância das Tecnologias Leves de Saúde, Acolhimento e Escuta Qualificada pelo Enfermeiro na abordagem aos familiares de possíveis doadores de órgãos em Morte Encefálica

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A importância das Tecnologias Leves de Saúde, Acolhimento e Escuta Qualificada pelo Enfermeiro na abordagem aos familiares de possíveis doadores de órgãos em Morte Encefálica
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ARTIGO DE REVISÃO

CANDIDO, Andresa Barbosa [1]

CANDIDO, Andresa Barbosa. A importância das Tecnologias Leves de Saúde, Acolhimento e Escuta Qualificada pelo Enfermeiro na abordagem aos familiares de possíveis doadores de órgãos em Morte Encefálica. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 12, Vol. 04, pp. 138-154 Dezembro de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este estudo analisa os principais fatores de recusa dos familiares a captação de órgãos de pacientes em Morte Encefálica. Desta forma, este instrumento visa fornecer aos profissionais enfermeiros, inseridos nas equipes de captação, conhecimento a respeito das principais causas que levam os familiares a não aceitação, bem como explorar um pouco mais sobre o Processo de Captação de órgãos, de forma que esta informação possa se multiplicar. As causas de recusa variam de estressores que são vivenciados pelos familiares, barreiras religiosas, dúvidas quanto a qualidade da assistência prestada e principalmente o desconhecimento do quadro de Morte Encefálica. O Enfermeiro além do papel assistencial, nesse momento, deverá atuar como Educador, esclarecendo a família quanto ao quadro do paciente e se mostrando acessível. O número de trabalhos produzidos por Enfermeiros sobre essa temática ainda é pequeno, uma vez que este profissional está inserido em praticamente todas as etapas do processo, desde o recebimento do paciente até a sua manutenção hemodinâmica após constatação da Morte Encefálica. A metodologia utilizada foi a pesquisa bibliográfica, descritiva e qualitativa feita a partir do levantamento de referências bibliográficas. Os principais resultados mostram que desde de 2001, com a promulgação da Lei 10.211, a família passa a ser a principal responsável por consentir a doação, e alguns fatores relacionados ao não consentimento, emergem do desconhecimento da vontade do paciente, do medo da manipulação do corpo, e de aspectos religiosos.

Palavras-chave: Acolhimento, Doação de Órgãos, Educação, Enfermeiro, Família, Humanização.

INTRODUÇÃO

Ao falar em doação de órgãos, devem ser respeitados fatores culturais, sociais, religiosos e ao mesmo tempo dispor de empatia e solidariedade, tendo em mente que a doação será uma possibilidade de sobrevida a outrem (FILHO e BURD, 2004).

A captação de órgãos, inicia-se com a realização de exames clínicos e complementares e com o diagnóstico final de morte encefálica, que pela Resolução CFM, Nº 1480/97 (de 8 de agosto de 1997), é conceituada como “a parada total e irreversível das funções encefálicas” (CFM, 1997).

De acordo com ABTO (Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos), no período de 2008 a 2015, houve um crescimento de notificações de potenciais doadores, porém com pequeno número de doações efetivas, tendo como dificuldades a recusa familiar, parada cardíaca, contraindicação médica e outros fatores não esclarecidos (ABTO,2015).

Para que a busca por pacientes nestas condições seja eficaz, é essencial que os profissionais de saúde conheçam o conceito de morte encefálica e sejam capacitados para a constatação adequada do quadro, realizando assim uma criteriosa busca ativa. Isto representa, além da redução da angústia dos familiares, a possibilidade de aumentar a doação humanitária de órgãos e tecidos para indivíduos que aguardam nas intermináveis listas por um novo órgão (MORATO, 2009).

No Brasil, para a efetivação da captação de órgãos, é necessário consentimento da família, conforme descrito no artigo 4 da Lei Nº 10.211 (de 23 de março de 2001), que relata a necessidade da autorização do cônjuge ou parente, maior de idade, com um documento subscrito por duas testemunhas (BRASIL, 2001).

A recusa familiar ocupa o 2º lugar das notificações da não efetivação da doação de órgãos, geralmente associada a falta de conhecimento sobre o que é morte encefálica, preocupações com o funeral relativas a como ficará o “corpo” do seu ente querido, além de costumes, culturas e aspectos religiosos (GUETTI; MARQUES, 2008).

Conforme a Resolução COFEN 292 de 2004, “ao enfermeiro incumbe planejar, executar, coordenar, supervisionar e avaliar os procedimentos de enfermagem prestados aos doadores de órgãos e tecidos” (COFEN,2004).

O enfermeiro (a), atua de forma decisória e humanística, na busca de um consenso entre familiares com informações pertinentes e concernentes, a efetivação ou não do processo de captação de órgãos do potencial doador (RESENDE et al, 2011).

A equipe de saúde, e em especial o enfermeiro da Organização de Procura de Órgãos (OPO), deve saber que a satisfação da assistência prestada durante a internação, o esclarecimento de dúvidas que surgem quanto à Morte Encefálica e a liberação do corpo são fatores imprescindíveis, devendo oferecer suporte e esclarecimentos para diminuir a dor e o sofrimento da família do doador (CINQUE et al 2013).

Frente aos diferentes tipos de família, o enfermeiro que irá atuar junto a do potencial doador de órgãos, deve ser capacitado técnico-cientificamente e dispor de sabedoria, visto que cada uma delas tem suas particularidades (MARTINS;2012).

É importante ressaltar que durante todo o processo da captação de órgãos, o enfermeiro vivenciará diversas situações conflituosas, tanto com os familiares como com a equipe de saúde. Desta forma, a bioética exerce um papel fundamental, dando a este profissional, alternativas para solucionar os conflitos de forma segura e objetiva (LIMA et al, 2009).

2. METODOLOGIA

Para a realização do estudo, utilizou-se uma pesquisa bibliográfica, descritiva e qualitativa. A pesquisa bibliográfica é entendida como o planejamento de qualquer trabalho de pesquisa e envolve os procedimentos metodológicos de identificação, localização e obtenção de documentos pertinentes e concernentes ao estudo de um tema delimitado, levantando-se a bibliografia básica (MACEDO, 1995).

Fachin (2001) descreve a importância da pesquisa bibliográfica ao afirmar que “[…] é a base para as demais pesquisas e pode-se dizer que é um constante na vida de quem se propõe a estudar”.

A pesquisa qualitativa difere-se em princípio da quantitativa, à medida que não emprega um instrumental estatístico como base na análise de um problema, não pretendendo medir ou numerar categorias (RICHARDSON, 1989).

Esse tipo de pesquisa procura compreender de forma única o que estuda, ou seja, o objetivo do pesquisador está voltado propositadamente para o fenômeno a ser estudado, com o intuito de conhecer e não explicar ou generalizar (POLIT et al 1995).

Já a pesquisa descritiva, observa, registra, analisa e correlaciona fatos ou fenômenos (variáveis) sem manipulá-los, desta forma, estuda fatos e fenômenos do mundo físico e especialmente, do mundo humano, sem a interferência do pesquisador (RAMPAZZO, 2005).

Triviños (1997), afirma que este tipo de pesquisa exige do investigador uma série de informações sobre o que deseja pesquisar. Este tipo de estudo pretende descrever os fatos e fenômenos de determinada realidade.

Foi realizada uma busca na BVS (Biblioteca Virtual de Saúde), por artigos publicados a partir de 2007, nas bases de dados BDEFNF, LILACS e MEDLINE no período de fevereiro a maio de 2016 tendo como descritores: Morte Encefálica, Doação e Família.

Iniciando a pesquisa, foi realizada a busca de forma individual dos descritores, conforme descrito na Tabela 1.

Tabela 1:

Descritores BDENF LILACS MEDLINE
1. Morte Encefálica 25 103 22
2. Doação 58 280 46
3. Família 1848 8660 1028

Diante dos resultados obtidos, foi realizado um cruzamento inicial, utilizando os descritores em dupla, conforme descrito na Tabela 2:

Tabela 2:

Descritores BDENF LILACS MEDLINE
Morte Encefálica + Doação 17 37 04
Morte Encefálica + Família 07 18 02
Doação + Família 12 34 04

Com um quantitativo ainda grande de artigos encontrados, foi realizado um novo refinamento, desta vez utilizando os descritores em trio. Os resultados obtidos estão demonstrados na Tabela 3:

Tabela 3:

Descritores BDENF LILACS MEDLINE
ME + Doação + Família 07 13 01

 

Dos 21 artigos obtidos, relacionados a atuação do enfermeiro frente a família de um potencial doador de órgãos, foi realizada uma leitura dos resumos e selecionados 10 que atenderam o objetivo do estudo e que estão descritos na Tabela 4.

Tabela 4:

Ano Autor Título Base
  1. 2007
Tatiana H. Rech; Rodrigues Filho

Edison Moraes

Entrevista familiar e consentimento LILACS
  1. 2008
Edvaldo L. Moraes

Maria Cristina K.B. Massarollo

A recusa familiar para doação de órgãos e tecidos para transplante BDENF/

LILACS

  1. 2009
Valdir M. Cinque

Estela Regina F. Bianchi

A tomada de decisão das famílias para a doação de órgãos BDENF
  1. 2009
Edvaldo L. Moraes

Maria Cristina K.B Massarollo

Recusa da doação de órgãos e tecidos para transplantes relatados por familiares de potenciais doadores LILACS
  1. 2009
Cátia M.D. Agnolo;

Leda M. Belentani; Robsmeire C.M;

Zurita Jorseli A.H Coimbra;

Sonia S. Marcon

A experiência da família frente à abordagem para doação de órgãos na morte encefálica BDENF
  1. 2010
Valdir M. Cinque

Estela R.F. Bianchi

Estressores vivenciados pelos familiares no processo de doação de órgãos e tecidos para transplante LILACS
  1. 2011
Juliana D.R Pessalacia; Vanessa F. Cortes

Alba Ottoni

Bioética e doação de órgãos no Brasil: aspectos éticos na abordagem à família do potencial doador LILACS
  1. 2013
Miguir T.V Donoso; Vanessa A.M.S

Gonçalves; Selme S. Mattos

A família do paciente frente à doação de órgãos:

Uma revisão integrativa da literatura

LILACS
  1. 2013
João L.E. Pessoa. Janine Shirmer

Bartira A. Rosa

Avaliação das causas de recusa familiar a doação de órgãos e tecidos LILACS
  1. 2013
Elza N. Rosário; Luciene G. Pinho

Gleidson B. Oselame; Eduardo B. Neves

Recusa familiar diante de um potencial doador de órgãos LILACS

3 –ABORDAGEM DA FAMÍLIA

Após a constatação da Morte Encefálica do paciente, tem início o processo de captação de órgãos. Novos exames são realizados para verificar a potencialidade da doação, e caso seja positiva, imediatamente são instaurados os cuidados com a manutenção do corpo e a entrevista familiar (RESENDE; CABRAL, 2011).

Por se tratar de um processo complexo, onde as decisões devem ser tomadas rapidamente, a Captação de Órgãos na maioria das vezes é tida como dramática pelos familiares do potencial doador, pois perante a dor da morte, faz-se necessário que os mesmos liberem a retirada dos órgãos (FERREIRA et al, 2013).

A autorização familiar para a captação de órgãos, está descrita na Lei n° 10.211, de 23 de março de 2001, e se trata de um momento especial, onde será passado a família o caso do paciente e seu diagnóstico de Morte Encefálica. Nesse momento o profissional deve dispor de atenção e empatia, para que assim possam ser esclarecidas todas as dúvidas dos familiares (BRASIL, 2001).

O momento da entrevista familiar para obtenção do consentimento da doação de órgãos, é um dos mais importantes no processo. Sendo assim, vários fatores devem ser levados em consideração, como: “Quando falar? ”, “Com quem falar? ”, “Aonde falar? ’, “Como falar? ”, “Quem deve falar? ” (SILVA et al, 2009).

A entrevista familiar, pode ser definida como: “Uma reunião entre os familiares do potencial doador e um ou mais profissionais da equipe de captação, ou outro profissional treinado, a fim de obter o consentimento à doação” (SANTOS; MASSAROLLO, 2011).

A entrevista deve ser utilizada como um instrumento de educação a família, acerca do processo de doação e do quadro do paciente, bem como, uma forma de dar apoio emocional. Por isso, o profissional que a realiza, deve conhecer, saber e acreditar no processo de doação (FONSECA et al 2015).

A abordagem a família do potencial doador, deve ser realizada em ambiente acolhedor, calmo, tranquilo, afastado do leito do paciente e com acomodações adequadas a todos que queiram participar (SILVA; GUIMARÃES, NOGUEIRA, 2009).

Sousa e Barreto (1999), ressaltam a importância de abordar a família somente após ter a certeza de que ela já foi notificada da morte. E que o profissional atuante nesse momento, conheça bem as circunstâncias da morte, como questão de respeito e aproximação com os familiares.

A entrevista pode ser realizada por profissionais como assistente social, enfermeiro, psicólogo ou médico, desde que esteja capacitado e não façam parte da equipe que assistiu o paciente durante sua internação (FONSECA et al, 2015).

Nesse momento, diversos fatores devem ser levados em consideração, dentre eles a cultura e religiosidade, para que dessa forma possa ser realizada uma abordagem assertiva, favorecendo a tomada de decisão por parte da família (FERRAZZO et al, 2011).

O luto também deve ser observado em durante todo o processo de doação. A forma como a família vivenciará esse momento, dará ao profissional a percepção de como atuar perante ela e oferecer a doação sem feri-la (SANTOS; MASSAROLLO, 2011).

Para que a retirada de órgãos e tecidos possa ser realizada, deverá ser assinado o Termo de Consentimento Informado. Este pode ser assinado pelo cônjuge ou parente maior de idade do potencial doador, sendo respeitada a linha sucessória reta ou colateral até o segundo grau, com a presença de duas testemunhas (FERREIRA et al, 2013).

Muitas vezes, a decisão para a retirada de órgãos é difícil, uma vez que os familiares podem ter opiniões divergentes sobre o tema, e até mesmo desconheçam a opção do potencial doador, enquanto estava vivo (FONSECA ET AL, 2015).

Caso a família recuse a doação, o processo é encerrado. Porém, caso a família autorize, a CNCDO (Central de Captação e Distribuição de Órgãos), notifica a OPO (Organização de Procura de Órgãos), esta por sua vez seleciona os receptores e determina a equipe responsável pela retirada e transplante do órgão (MORAES, 2007).

4. A ATUAÇÃO DO ENFERMEIRO NO PROCESSO DE CAPTAÇÃO

Para que possa ocorrer a captação de órgãos, é necessária a atuação de uma equipe multidisciplinar, dentre os diversos profissionais, está inserida também o enfermeiro (SANTOS; et al 2011).

A atuação do enfermeiro na captação de órgãos, está descrita na Resolução Cofen 292/2004, cabendo a ele aplicar a Sistematização da Assistência de Enfermagem em todo processo de doação, notificar as Centrais de Captação quanto à existência de um potencial doador em Morte Encefálica, bem como realizar entrevista com os familiares (COFEN, 2004).

Além do papel assistencialista, o enfermeiro que atua na área de transplantes, deve direcionar suas ações também para a educação em saúde, segurança do paciente, eficácia dos cuidados e melhoria dos sistemas para realização de transplantes (MENDES et al, 2012).

Cabe ao enfermeiro realizar a avaliação clínica do potencial doador e manter sua estabilidade hemodinâmica, atentando para o grau de complexidade, evitando que se perca a oportunidade de efetivação da doação (DEAMO, 2014).

Para isso, este profissional deve estar sempre se atualizando e aprimorando seus conhecimentos, buscando maneiras de melhorar a assistência prestada ao potencial doador e sua família, promovendo educação e suporte a comunidade sobre o assunto (CICOLO et al, 2010).

Ele deve ser capaz de identificar o mais rápido as alterações decorrentes da Morte Encefálica, para que junto com a equipe possa instaurar as medidas terapêuticas mais adequadas ao caso (GUETTI; MARQUES, 2008).

Os profissionais de enfermagem são o elo entre a família e a instituição hospitalar, já que passam mais tempo junto ao leito do paciente, e muitas das vezes a família se sente mais à vontade para solicitar informações e esclarecer dúvidas. (ASSIS, 2008).

Além do domínio técnico – cientifico, o enfermeiro deve dispor de qualidades como empatia, sensibilidade para entender o sentimento do outro e facilidade para se adaptar a situações desconhecidas, pois cada processo de doação ocorre de uma maneira única, de acordo com a recepção da notícia e tomada de decisão pela família. (MARTINS, 2012).

O enfermeiro atuante na Central de Captação de Órgãos, atua a frente de todo o processo de captação, que vai desde a identificação de um potencial doador até a divulgação do trabalho. Dessa forma, seu trabalho é considerado de extrema importância (MAGALHÃES et al, 2007).

Segundo Avelar, Corrêa e Sanches (1998), as atribuições do enfermeiro vão além da parte técnica, incluindo também a parte burocrática do processo:

“ Também cabe ao enfermeiro a avaliação do andamento desse processo e o fornecimento aos familiares de informações sobre a morte encefálica, mais o agendamento do horário da cirurgia para a retirada do órgão, o fornecimento de dados as equipes de transplantes a equipe de enfermagem do centro cirúrgico sobre quais órgãos serão captados, além de orientação da equipe de enfermagem que cuida do potencial doador sobre o preparo pré-operatório necessário. O enfermeiro também deve verificar o prontuário, o preenchimento correto dos impressos (protocolo de morte encefálica, ficha de identificação do doador e a autorização familiar) ”.

O enfermeiro, seja ele assistencial ou coordenador do programa de transplante, tem um papel determine no sucesso do processo de doação, sendo componente indispensável da equipe de transplantes (SOUZA et al, 2014).

Sendo assim, o enfermeiro tem um trabalho de suma importância atuando em todo o processo da captação, desde a existência de um potencial doador, até um trabalho de educação continuada a população, com enfoque na abordagem a família, de forma ética respeitando a maneira individual de cada ser humano ao lidar com o luto. (ROQUE et al; 2007).

5. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS

Foram identificadas três categorias que foram relacionadas as principais causas de recusa familiar para captação de órgãos e que serão discutidas a seguir.

5.1 PRINCIPAIS ESTRESSORES VIVENCIADOS PELOS FAMILIARES NO PROCESSO DE CAPTAÇÃO

Não é uma decisão fácil para os familiares que acabam de receber a notícia da morte encefálica de um ente querido, uma vez que ao observarem a presença de movimentos respiratórios, batimentos cardíacos e pele aquecida, acreditam na reversão do quadro tal como um milagre. Para ela, o processo de doação de órgãos é muito mais complexo e prolongado, tendo início no momento da internação do familiar e durando até o momento do sepultamento do corpo.

80% dos artigos selecionados tratam dos estressores vivenciado pelos familiares durante a internação, diagnóstico da morte encefálica e abordagem para consentimento da doação de órgãos. A definição de estressor, é toda situação interna ou externa que resulta em alterações emocionais, fisiológicas e comportamentais no indivíduo, neste caso, a família de um potencial doador de órgãos. Ressaltando a importância da família de conhecer a vontade de seu ente querido falecido, quanto a doação de órgãos e durante a leitura dos artigos, observou-se que esse é um dos grandes fatores de influência na tomada de decisão.

O desconhecimento é um dos grandes geradores de conflitos no meio familiar durante a tomada de decisão para a captação ou não dos órgãos. Uma vez que, cada um vivencia o momento da perda de forma individual e subjetiva, o processo de doação pode ser visto como uma forma de alivio do sofrimento do ente querido e a possibilidade de ele continuar vivendo no corpo de outra pessoa, ou então, como uma forma de “assassinato”, já que observam o corpo funcionando, mesmo que com a ajuda de aparelhos.

Quando houver divergências de opiniões quanto a doação entre os familiares, a tendência é que esta não seja autorizada pelo familiar responsável pelo consentimento, para que não cause desconforto no meio intrafamiliar.

O atendimento dado ao paciente e a família desde a sua entrada no hospital juntamente com a assistência prestada durante o período de internação, também são causas de estresse constantemente citadas, quando a família entende que seu ente querido teve todas as suas necessidades supridas e mesmo com a irreversibilidade de seu quadro, recebeu um atendimento humanizado e digno, esta se tornará mais flexível ao consentimento para a doação de órgãos. Enquanto, aquelas que não se sentem atendidas da mesma forma tendem a dificultar o processo de doação, como forma de indignação e por ainda estarem trabalhando suas frustações relacionadas a assistência de saúde recebida por seu familiar.

A falta de informação quanto ao quadro do paciente internado, geram descontentamento e o responsável pelo consentimento não autoriza a doação como forma de repúdio ao atendimento recebido, uma vez que a família deve ser mantida informada quando ao agravamento do quadro do paciente, bem como da suspeita da Morte Encefálica e essa falta de informação gera inúmeras dúvidas quanto ao diagnóstico do paciente, sendo esse, um outro estressor a ser vivenciado pelos familiares.

A falta de informações quanto ao processo de doação de órgãos em conjunto com a ausência de informações relacionadas ao quadro do paciente, muitas das vezes deixam um questionamento quanto ao comércio ilegal de órgãos. Visto que essa era uma prática comum até a promulgação da Constituição Federal em 1988.

Sob o ponto de vista dos familiares, a insistência da equipe no momento da abordagem para doação gera grande desconfiança quanto ao processo, levando-os a pensar que seu ente querido teve a morte antecipada, para que seus órgãos pudessem ser comercializados.

A não aceitação da manipulação do corpo é um dos estressores vivenciados pelos familiares, por acreditar que o corpo é um templo sagrado de Deus e deve permanecer intocável. Não observando a doação como um ato cirúrgico, e sim uma forma de mutilação ao corpo do falecido.

A demora para liberação do corpo é definida como uma situação angustiante e de intenso sofrimento, levando os familiares a se sentirem impotentes diante de tanta espera. Em alguns casos, o estresse da situação pode ser intensificado pelos familiares, ao questionarem ao responsável legal pelo consentimento quanto a demora do processo.

5.2 PRINCIPAIS CAUSAS DE RECUSA FAMILIAR PARA A CAPTAÇÃO DE ÓRGÃOS

Enquanto os estressores estão diretamente ligados aos sentimentos vivenciados, as causas estão ligadas a informação ou falta delas, e estão presentes em 80% doas artigos selecionados.

Como primeira causa de recusa, o desconhecimento dos familiares quanto a vontade do falecido sobre a doação de seus órgãos, é citado como um fator gerador de inúmeras dúvidas nos familiares, podendo por vezes causar desentendimentos e gerar um estressor, ressaltando a importância da abordagem o assunto no âmbito familiar.

Em alguns casos, mesmo com o desejo da família, a doação não é autorizada visando respeitar a vontade próprio falecido, que em vida relatou aos seus familiares sua opção por não ser doador.

O desconhecimento dos familiares quanto a Morte Encefálica, tem grande influência no momento da decisão para doação, uma vez que o indivíduo frente a observação de seu familiar com uma aparência externa de vivo, corpo aquecido, batimentos cardíacos, movimentos respiratórios e cor saudável, terá dúvidas quanto a sua morte, afinal, para a maioria das pessoas a morte está associada a parada cardiorrespiratória, corpo frio e imóvel.

Essa falta de conhecimento pode levar a família a acreditar também na reversão do quadro, tal qual um milagre, uma vez que sob seu ponto de vista o indivíduo continua “vivo” mesmo que com a ajuda de aparelhos. E o consentimento para doação dos órgãos nesse momento, seria interpretado pelos familiares como uma forma de decretar a morte do paciente ou até mesmo um assassinato.

A crença religiosa tem grande peso no momento da decisão da doação. Perante a opção para a doação, os familiares veem na fé como uma forma de reverter o quadro, e acreditam que caso autorizem a doação, a equipe médica antecipará a morte desse paciente.

As barreiras religiosas e culturais são citadas também como causas para a não doação. No caso do Brasil, nenhuma religião se coloca contra a doação. E muitas vezes, as decisões são tomadas com base na interpretação que o indivíduo faz sobre livros doutrinários. Porém, se os líderes religiosos se colocam favoráveis a doação, seus seguidores terão uma motivação maior para aceitar a doação. A religião é utilizada por muitos familiares, como uma forma de escape, e tem grande peso no momento da decisão pela doação de órgãos. Ressalta ainda que, as crenças culturais têm mais influência que as religiosas.

O conhecimento da sociedade acerca do processo de doação de órgãos e transplante é bastante pequeno, daí o baixo índice de doação de órgãos no Brasil, dessa forma deve-se investir em ações educacionais, que venha a desmistificar o processo, que por muitos é visto como uma forma de contrabandear os órgãos.

Para elaboração dessas campanhas, devem ser levados em conta os níveis socioeconômicos e culturais, também citados como causas de recusa familiar. Utilizado uma linguagem de fácil compreensão, respeitando individualidades e costumes, bem como o descrito no Princípio Doutrinário do SUS denominado EQUIDADE.

A etnia também é citada como um fator importante no processo, uma vez que minorias raciais tem taxas de consentimento de doação mais baixas quando comparadas as famílias brancas, já que esses indivíduos conversam muito menos sobre a doação de órgãos e tem menos credibilidade no sistema.

4.3 PRÁTICAS DE ABORDAGEM A FAMÍLIA DE UM POTENCIAL DOADOR

A entrevista familiar é um dos momentos mais delicados de todo processo, devendo ser realizada por profissionais treinados e que não atuaram junto ao paciente durante seu período de internação hospitalar.

Ressaltando a importância do acolhimento aos familiares em um ambiente calmo e que os acomode bem, longe de corredores e UTI’s. Antes de iniciar a entrevista, o profissional que irá propor a doação, deve certificar-se de que todos entendem a morte de seu familiar. Feito isso, ele pode pedir para que a família fale sobre o familiar falecido, o que ele pensava sobre a doação de órgãos e qual era sua decisão quanto a isso. Neste momento, o entrevistador deve dar a família tempo para que expresse suas opiniões, respeitando sempre suas individualidades e demonstrar sua disponibilidade para responder aos questionamentos.

A abordagem familiar ser realizada de forma ética, sensível, esclarecedora, com uma linguagem de fácil compreensão e sem pressa, sempre oferecendo conforto perante a perda, mas ao mesmo tempo demonstrando a família a possibilidade de transformar este sofrimento em um momento de esperança a outras pessoas.

Deve se informar a família de todos os momentos do processo, e que mesmo que a doação seja consentida, poderá ser revogada a qualquer momento. É de grande importância esclarecer questões como a mutilação e desfiguração do corpo para retirada dos órgãos, o funeral e a ausência de custos para a família.

Ao fim da entrevista, o profissional deve informar a família que a resposta não precisa ser imediata, que podem se reunir e discutir o assunto. Esta é uma forma de minimizar um dos principais estressores relacionados a recusa, o do desentendimento entre os familiares.

Mesmo quando for contrária a doação, a família deve receber apoio emocional da equipe, afinal, o respeito e a postura ética diante do sofrimento da família são deveres do profissional de saúde.

O sucesso da entrevista familiar, depende de três fatores descritos nas Diretrizes Básicas para a captação e retirada de múltiplos órgãos e tecidos, da ABTO. São eles: predisposição a doação, qualidade do atendimento hospitalar, habilidade e conhecimento do entrevistador.

Os profissionais entrevistadores podem ser médicos, enfermeiros, psicólogos e assistentes sociais, desde que sejam capacitados. O momento da abordagem é muito mais que apenas a assinatura de um termo de consentimento, é a oportunidade de conscientizar e apresentar aos familiares a doação de órgãos, esclarecer suas dúvidas e dar-lhes apoio emocional.

No momento da abordagem, deve-se ter uma atenção especial com a família, que passa por um momento de fragilidade e conflito desencadeado pelo luto. E assim, para atuar frente a abordagem a essa família, ressalta-se a importância da capacitação e treinamento dos profissionais atuantes como entrevistadores. Perante o luto da família e a necessidade de uma resposta, este profissional deve se mostrar acessível ao esclarecimento de dúvidas e respeitoso as crenças e opiniões, e entender a posição que o falecido exercia no âmbito familiar.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Conclui-se que os principais motivos de recusa familiar a doação de órgãos, estão ligados as questões emocionais, culturais e religiosas, nível de informação e abordagem inadequada.

A família é a única detentora da autorização para captação de órgãos, e durante este processo é exposta a diversos estressores. A falta de conhecimento quanto a vontade de seu familiar, a satisfação com a assistência prestada durante o período de internação, o desconhecimento do processo de doação associado ao medo do comércio de órgãos, o medo da manipulação e a situação do corpo para o sepultamento terão grande influência no momento da tomada de decisão.

A crença religiosa associada ao pouco conhecimento do quadro de morte encefálica, é uma das grandes dificuldades encontradas durante a abordagem. É nesse momento, que o enfermeiro deve fazer da entrevista um momento educacional, esclarecendo a família que com a interrupção do funcionamento cerebral, os outros órgãos vão parando consecutivamente e a partir daí o corpo será mantido por aparelhos, para manter a viabilidade dos órgãos.

O enfermeiro responsável pela abordagem familiar, deve ser empático, despido de preconceitos, atencioso e buscar constante atualização de seus conhecimentos, afim de se tornar um multiplicador de informações, tanto no seu âmbito profissional como perante a população.

O profissional deve ter uma postura ética e oferecer a doação como uma possibilidade de vida ao próximo e não como uma obrigação. Deve ter sensibilidade e conhecimento para identificar o melhor momento de abordagem a família, que vivencia seu processo de luto.

Durante a entrevista, deve utilizar de uma linguagem compatível ao nível de conhecimento da família, respeitar suas crenças, dar oportunidade para que esta exponha seus sentimentos e conhecimento sobre a morte encefálica, dispondo de uma escuta sensível, para identificar a melhor forma de abordá-la.

Sendo assim, como estratégias para aumentar o índice de consentimento de doação de órgãos, citamos: a sensibilização dos profissionais de saúde sobre a necessidade do acolhimento humanizado aos familiares, de forma a mantê-la informada quanto a evolução do quadro do paciente; a educação continuada dos profissionais responsáveis pela abordagem, para que estes venham a atuar como educadores; a ampliação da divulgação sobre o processo de doação por meio das mídias, como forma de informar a população; estimular a discussão sobre o tema da doação de órgãos no âmbito familiar.

Com isso, acreditamos que através da multiplicação de conhecimento para sociedade, teremos indivíduos mais conscientes e capacitados para cobrar do Poder Público a ampliação de Programas de Saúde, que incluam atividades educativas direcionadas a Captação e Doação de Órgãos.

REFERÊNCIAS

ABTO. Registro Brasileiro de Transplantes; Dimensionamento dos Transplantes no Brasil e em casa estado; Ano XXI Nº4, São Paulo. 2015.

ASSIS, D. Saúde disponibiliza enfermeiros para atuar com exclusividade na doação de órgãos para transplantes. Secretaria Municipal de saúde. Campinas. 2008.

AVELAR, MCQ. Et al. O Enfermeiro no processo de Captação de Órgãos. Jornal Brasileiro de Transplantes. São Paulo. 1998

BRASIL. Ministério da Saúde. Lei n° 10.211. Brasília .2001.

CFM – Resolução Nº1480. Diário Oficial da União. Seção 1. Brasília. 1997.

CICOLO, EA. Et al. Doação e Transplante de Órgãos: produção científica da enfermagem brasileira. Revista Brasileira de Enfermagem. Vol. 63. N° 02. Brasília. 2010.

CINQUE, VM. Et al. Reflexões sobre a enfermagem e a política de transplantes de órgãos. Revista Coren; Bahia, 2013.

COFEN. Resolução 292/2004. Rio de Janeiro 7 de junho de 2004.

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[1] Bacharel em Enfermagem pela Universidade Estácio de Sá.

Enviado: Agosto, 2018

Aprovado: Dezembro, 2018

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