QUESTÕES EMOCIONAIS QUE INTERFEREM NO APRENDIZADO À DISTÂNCIA.

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CONTEÚDO

PERONE, Adriana Guaitoli de Camargo [1]

PERONE, Adriana Guaitoli de Camargo. QUESTÕES EMOCIONAIS QUE INTERFEREM NO APRENDIZADO À DISTÂNCIA. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 10, pp. 132-149 , Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo apresenta as questões emocionais e as relações afetivas entre professores e alunos que estão se formando atualmente na Educação de modalidade à distância. A EAD é um desafio permanente aos profissionais educadores e instituições de ensino, pois o convívio pedagógico é estabelecido à distância, ou seja, em espaços físicos diferentes. Há muitos aspectos e singularidades a se considerar nesta relativamente nova situação, incluindo o impacto desta na formação do aluno e na sua autonomia como profissional.

Palavras – chave: Relação professor x aluno, EAD, Questões emocionais na EAD, Socialização virtual, Autonomia profissional.

INTRODUÇÃO

A expressão relação professor x aluno tão comum e tão utilizada em textos sobre pedagogia e educação sugere antes de tudo “convívio”.

Professores e alunos há séculos convivem e se relacionam diariamente na busca pela educação de qualidade. Este convívio diário é sabido e aceito por toda a sociedade como um elemento fundamental para o sucesso do desempenho escolar. Professores e alunos aprendendo a conviver, trocar ideias, realizar tarefas, cumprir protocolos e compromissos que as funções de ensinar e aprender exigem.

Mas e quando este convívio é à distância? Quais as particularidades desta relação que contribuem ou não para o sucesso do desempenho escolar?

Estas questões são o ponto de partida para este estudo sobre o impacto desta modalidade na postura do aluno e na sua formação como profissional.

Gray (2013), psicólogo e professor de pesquisa do Boston College, em seu livro Free to Learn destaca que cada vez mais universitários buscam aconselhamento nos campus das universidades, pois não estão psicologicamente preparados para enfrentar esta nova fase da vida, onde tem que lidar com a distância dos pais e com a responsabilidade por seus estudos. A fragilidade emocional dos alunos tornou-se um obstáculo ao desempenho acadêmico.

Pensando neste cenário de fragilidade emocional das novas gerações, aliado ao grande crescimento da EAD nas últimas décadas, busca-se neste estudo analisar como está sendo construída esta relação entre os professores e os alunos e como estes estão lidando com este aparente distanciamento da figura do professor.

Sabemos que as novas mídias virtuais possibilitam que as formas de interação entre o corpo docente e o discente sejam infinitas apesar das barreiras geográficas.

Atualmente é possível utilizar ferramentas virtuais como mensagens, imagens, fóruns de discussão, vídeos, vídeo conferências, chats, redes sociais, blogs, e-mails, etc. Mas será que elas são suficientes para unir professores e alunos que estão separados não só no espaço como no tempo? Separados no espaço pois cada um está em seu ambiente, que pode ser sua casa, seu quarto, seu sofá, seu escritório, uma Lan House, e separados no tempo pois cada um irá acessar o ambiente virtual no horário que melhor lhe convier, e por quanto tempo lhe convier.

Enquanto candidatos e alunos sentem-se inseguros em encarar esta jornada aparentemente solitária de estudos, as instituições buscam estratégias para trazê-los cada vez mais para dentro da plataforma digital, de forma que eles realmente sintam-se parte da instituição, criando ambientes virtuais dinâmicos, onde haja principalmente troca de informações e ideias, onde todos os envolvidos possam de alguma forma se relacionar, dar opiniões, mostrar seus trabalhos, comparar seu desempenho com os dos demais estudantes, e ir criando os parâmetros para a sua própria atuação.

Este trabalho será desenvolvido com a análise de dados obtidos em pesquisas recentes de órgãos públicos e particulares, como o Censo EAD 2014 realizado pela ABED, a PBM15, a SEMESP (2015) e a UNIVERSIA (2013).

Em nossa sociedade atual, o tempo é valioso, não pode ser desperdiçado, assim a EAD consolida-se como uma excelente alternativa para aqueles que buscam seu aprimoramento pessoal e profissional e não podem deslocar-se diariamente até uma universidade devido a obstáculos como distância, trânsito, filhos, falta de tempo, incompatibilidade de horários, dificuldades financeiras, etc.

Os motivos que levam o indivíduo a realizar um curso à distância são diversos e pessoais, porém no decorrer deste trabalho, esperamos apresentar que mais que uma alternativa, a EAD precisa ser encarada como uma escolha. A escolha do aluno em ter nas mãos a responsabilidade pela sua própria formação. O tempo que o aluno reservará aos estudos é uma escolha dele, assim como a seriedade, a honestidade, e a dedicação a esta viagem que se inicia em um click.

O CONCEITO DE “SOCIALIZAÇÃO VIRTUAL”

Socialização foi a maneira como o sociólogo francês Emile Durkheim (1858 – 1917) chamou o ato de socializar, ou seja, de tornar o indivíduo um ser social que possa conviver em sociedade. É o processo de integração dos indivíduos em um grupo.

Neste contexto, socialização significa aprendizagem ou educação que começa na primeira infância e só termina com a morte da pessoa.

Este processo implica na adaptação a determinados padrões culturais existentes na sociedade. Trata-se de se adaptar ao conjunto de formalidades utilizadas entre si pelos cidadãos.

Segundo o sociólogo pernambucano Gilberto Freire (1900-1987), socialização “É a condição do indivíduo (biológico) desenvolvido, dentro da organização social e da cultura, em pessoa ou homem social, pela aquisição de status ou situação, desenvolvidos como membro de um grupo ou de vários grupos.”

Partindo deste conceito, e refletindo sobre o que vem ocorrendo na sociedade como um todo, onde os contatos pessoais estão sendo rapidamente substituídos por telefonemas e mensagens via aplicativos de celulares, percebemos que também o processo de socialização está sendo transformado.

É público e notório que cada vez mais cedo as crianças estão tendo acesso ao mundo virtual através de computadores, tablets e celulares, assistindo vídeos, utilizando jogos e até aplicativos próprios desenvolvidos especialmente para sua faixa etária.

Sendo assim, transforma-se também o processo de socialização, que agora deve incluir a entrada da criança no mundo virtual, aprendendo não só a manusear os equipamentos como interagir com eles.

Há apenas 3 décadas, o principal e para muitas o único contato das crianças com a tecnologia era o botão de liga/desliga dos aparelhos de TV que já foram criticados e chamados pejorativamente de “babás eletrônicas”. Isso porque o aparelho de TV supostamente deixaria as crianças mais “calmas” assistindo passivamente seus programas por horas e horas, sem possibilidade de interação.

Faz parte das minhas memórias de infância o aparelho de TV, que ficava na estante da sala, em local de destaque, onde nós podíamos assistir principalmente desenhos, telenovelas e tele jornais. Para mudar de canal, entre as poucas opções que tínhamos das quais lembro apenas das emissoras Globo, TVS, Record e Manchete, utilizávamos um botão seletor, que ao girar fazia um barulho de impacto, e tínhamos que usar certa força. Quando contamos isso para as gerações mais novas, a reação quase sempre é de riso, achando que isso é “coisa de velho”.

Sem o intuito de evocar saudosismo algum, podemos pensar que as novas tecnologias avançando a passos largos, nos fazem esquecer nossa própria história e seguir sem olhar para trás. Quem hoje em dia guarda fotos impressas em papel? Certamente alguém ainda o faz, por hobbie talvez, ou por gosto pessoal, mas sem dúvida o custo financeiro para imprimir as fotos e fazer os álbuns é bem maior do que guardá-las às centenas em pen drives, ou CDs, na memória do computador ou do celular.

Como sociedade parece bem óbvio que não há e não haverá retorno. A evolução da tecnologia nos levará cada vez mais a novas e diferentes formas de ação e interação. Mas como seres humanos, pensantes, é sempre bom refletir sobre como fazemos as coisas hoje, como fazíamos as mesmas coisas ontem e como poderemos fazê-las amanhã.

Pedagogia e tecnologia (entendidas como processos sociais) sempre andaram de mãos dadas: o processo de socialização das novas gerações inclui necessária e logicamente a preparação dos jovens indivíduos para o uso dos meios técnicos disponíveis na sociedade, seja o arado seja o computador. O que diferencia uma sociedade de outra e diferentes momentos históricos são as finalidades, as formas e as instituições sociais envolvidas nessa preparação, que a sociologia chama “processo de socializaçã. (Belloni, 2001)

Chegamos assim a um conceito de socialização mais amplo, que chamaremos aqui de socialização virtual, que inclui e adapta o indivíduo desde a infância na família, na escola, na igreja, na rede social, no grupo do aplicativo de mensagens instantâneas e por consequência no mundo concreto e no mundo virtual.

Como já foi dito, todas as mídias, as novas como as “velhas”, fazem parte do universo de socialização das crianças, participando, de modo ativo e inédito na história da humanidade, da socialização das novas gerações, este processo tão complexo que transforma a criança em ser social, capaz de viver de modo competente, isto é, “sociável”, em sociedade. Novos “textos” surgem na paisagem audiovisual que os jovens contemplam e aprendem, sozinhos ou com outros jovens, a ler e a interpretar. Imagens coloridas fixas e em movimento, sons ambientes, música, linguagem oral e escrita, teatro, todas estas formas de expressão – “linguagens” – estão mixadas numa mesma mensagem, construindo significados, carregando representações, difundindo símbolos. (BELLONI, 2002)

Considerando que para Durkheim, um dos pais da Sociologia, a principal função do professor é formar cidadãos capazes de contribuir para a harmonia social, podemos dizer que hoje a principal função do professor de ensino à distância é formar profissionais capazes de contribuir para o desenvolvimento e evolução das novas formas de aprendizagem e interação social disponíveis no mundo virtual globalizado.

EM BUSCA DA AUTONOMIA

Hoje, fala-se bastante em novos paradigmas educacionais, novas metodologias didáticas, novas práticas pedagógicas, graças à percepção da importância decisiva da educação para o desenvolvimento do país. Nesse contexto, a educação a distância é cada vez mais mencionada pelos veículos de comunicação e aparece com mais destaque nos projetos de instituições de ensino formal, de órgãos oficiais, de educação empresarial e de outros setores interessados na educação e em sua renovação.

Isso é muito bom, na medida em que coloca a EAD na pauta do dia do debate educacional e chama a atenção para a modalidade, que passou por momentos de falta de credibilidade, mas que hoje se encontra em franca expansão. Preconceitos e resistências existem e só podem ser superados por meio de um amplo e franco debate. (NETO, IESDE)

De acordo com a pesquisa sobre o ensino superior e a EAD realizada em 2015 pelo Sindicato das Mantenedoras de Ensino Superior (SEMESP) as matrículas em cursos EAD no Brasil aumentaram de 837.431 em 2009 para 1.153.640 em 2013.

A pesquisa revelou que desde o ano 2000 são oferecidos cursos nesta modalidade.

Apesar de já terem se passado 15 anos que as universidades aderiram ao sistema, ainda existem preconceitos e resistências quanto à qualidade do ensino.

A crença de que o ensino à distância é de pior qualidade está baseada principalmente no fato de não haver contato humano e de que assim as dúvidas podem demorar a serem respondidas.

Em contrapartida, como pontos positivos da EAD podemos destacar que o aluno fica mais focado em seus estudos, a flexibilidade de tempo facilita e muito o acesso, desenvolve a proatividade dos alunos e as avaliações e resultados são imediatos.

Assim, destacamos que o aluno que opta pela EAD é um aluno bem diferente do aluno presencial. Como ele não vai todos os dias até a universidade, suas necessidades quando surgem são mais urgentes, suas cobranças são assertivas e até emergenciais.

Sua postura é mais dinâmica e mais ativa, pois não pode esperar que os professores o encoragem, tem que ir em busca de seus próprios interesses.

Esta autonomia tão necessária como característica dos alunos de EAD, há muito já era falada e discutida na outra ponta da educação. Na educação infantil, autores e professores são praticamente unânimes em eleger a autonomia como característica almejada nas crianças. Vários são os autores que valorizam esta característica e buscam estratégias para desenvolvê-la nos educandos desta fase. Amarrar seus próprios sapatos, arrumar sua mochila, comer sozinho, fazer sua higiene pessoal, etc. são habilidades valorizadas.

Como exemplo desta busca pela autonomia, lembramos do famoso sistema Montessori, criado para que a criança se sinta no comando de seu próprio desenvolvimento.

Neste sentido, a EAD necessita consolidar sua atuação como preparadora de uma nova geração de estudantes, mais autônoma, mais proativa, e responsável por seus próprios resultados.

Cabe ressaltar que o simples uso da tecnologia como ferramenta de educação não trará a autonomia necessária aos estudantes.

A verdadeira autonomia, como estudantes e cidadãos, só será alcançada através de um trabalho contínuo das universidades e do corpo docente, baseado em projetos políticos pedagógicos com a participação de toda a sociedade.

Se constatamos que existe uma população que transita no ciberespaço – tendo acesso à informação e ao conhecimento em uma dimensão planetária –, outra camada tem limitadas oportunidades de acesso, constituindo uma legião de brasileiros sem formação educacional e qualificação profissional, desprovidos de informações fundamentais para o exercício da cidadania.

No momento em que as Tecnologias de Comunicação e Informação constituem parte das políticas públicas federais e estaduais, e que inúmeros municípios buscam a universidade como parceira para responder às exigências legais, é da maior importância que a comunidade universitária e todos os outros segmentos da sociedade possam gerar um projeto de inclusão digital que venha a se tornar um sólido instrumento de socialização e construção de conhecimentos, de democratização dos bens culturais e científicos, em uma perspectiva de construção de uma cidadania ativa. (MACIEL, 2001)

O que podemos afirmar já e com toda certeza é que a EAD é sim um grande passo na direção da democratização do conhecimento.

O uso inovador da tecnologia aplicado à educação, e mais especificamente, à educação a distância deve estar apoiado em uma filosofia de aprendizagem que proporcione aos estudantes a oportunidade de interagir, de desenvolver projetos compartilhados, de reconhecer e respeitar diferentes culturas e de construir o conhecimento. (Fonte: MEC, 2007)

Atualmente, as razões pelas quais os alunos procuram a EAD são as mais diversas que vão desde a redução de custos até a flexibilidade do tempo.

Porém, este cenário está mudando rapidamente para que os alunos façam esta escolha não por simples conveniência, mas por acreditarem e serem capazes de dirigirem seus próprios estudos.

A NOVA RELAÇÃO PROFESSOR X ALUNO

Uma pesquisa realizada em 2013 pela Universia, rede de universidades de língua hispânica e portuguesa, em parceria com o site Trabalhando.com, entrevistou 10.586 pessoas de 9 países (incluindo o Brasil). A pesquisa revelou que 60% dos entrevistados consideram que a ead tem menos credibilidade que a presencial. O principal motivo apontado é a falta de vínculo pessoal entre professores e alunos. Mas apesar disso, 47% dos entrevistados afirmaram que o nível educacional da ead é o mesmo que no presencial. 37% afirmaram ainda que o vínculo pessoal professor – aluno é vital.

Mas ainda que a maioria considere que o professor é parte importante e insubstituível do processo educacional, todos nós em algum momento já ouvimos falar em conversas informais entre leigos que a profissão de professor estaria com os dias contados diante da possibilidade da aprendizagem virtual.

Se por um lado as pessoas acreditam que a relação professor -aluno é vital, por outro há os que acreditam que a profissão está em decadência. Felizmente, este é um equívoco que já foi há muito superado nas discussões entre os especialistas da área.

Portanto, apesar da controvérsia, o que está claro para todos, profissionais da área ou não, é que novas condutas são e serão exigidas cada vez mais dos professores que enfrentam o desafio da EAD.

A Pesquisa Brasileira de Mídia (PBM 15) divulgada em 19/12/14 pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República mostrou que cerca de 48% dos brasileiros usam a internet regularmente. Entre os usuários com ensino superior, 72% acessam a internet diariamente. Este cenário demonstra ainda que quanto maior o grau de instrução do indivíduo, maior é o tempo de conexão com a rede.

Internautas conectados por meio de redes sociais

Facebook 83%
Whatsapp 58%
Youtube 17%
Instagram 12%
Google+ 8%
Twitter 5%
Skype 4%
Linkedin 1%
Outros 1%
Não utiliza 6%

Fonte: Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República

Para lidar com esta nova geração de estudantes autônomos, proativos e conectados, é necessária uma mudança na postura dos professores que os estão acompanhando nesta jornada.

Não há lugar para o improviso, para a aula sem planejamento, sem foco ou sem meta. As aulas devem ser rigorosamente elaboradas de maneira que o plano de curso seja objetivo e realmente produtivo.

Antes de mais nada o professor deve ter conhecimento e desenvoltura no uso das tecnologias de informação. Ele não necessita ser um especialista em tecnologia, mas necessita sim ser um usuário pleno das tecnologias para ser capaz de propor formas de interação do seu conteúdo pelas mídias. Obviamente ele não irá criar todo o material didático isoladamente, a criação é resultado de um processo coletivo que envolve diversos profissionais como autores, revisores, webdesigners, técnicos em informática, tutores, etc.

Em qualquer situação, ressalta-se que o domínio do conteúdo é imprescindível, tanto para o tutor presencial quanto para o tutor a distância e permanece como condição essencial para o exercício das funções. Esta condição fundamental deve estar aliada à necessidade de dinamismo, visão crítica e global, capacidade para estimular a busca de conhecimento e habilidade com as novas tecnologias de comunicação e informação. Em função disto, é indispensável que as instituições desenvolvam planos de capacitação de seu corpo de tutores. (Fonte: MEC, 2007)

Do professor espera-se que seja capaz de acompanhar os alunos na jornada, auxiliando-os no que for necessário, direcionando, dando dicas, ideias, e porque não dizer corrigindo-os quando for o caso.

O professor deverá estar atento às produções dos alunos, seus resultados, fazendo intervenções precisas e pontuais. Não se pode somente deixar que o aluno trabalhe isoladamente na busca pelo saber, mas o professor precisa sim participar ativamente de todo o processo, instigando, motivando, provocando debates e intensificando participações.

O professor deverá estar verdadeiramente aberto ao diálogo durante todo o curso. Argumentações e negociações devem ser sempre bem vindas e bem vistas, para que o aluno a distância sinta-se parte do grupo, tenha sua colaboração valorizada e motivada.

Até agora, neste estudo a relação de ensino e aprendizagem está focada em um aluno considerado ideal, que é autônomo e proativo. Porém, citando novamente o psicólogo americano Peter Gray, sabemos que nem todos os alunos que estão entrando nas universidades, sejam presenciais ou virtuais, demonstram tais características. Aí nos deparamos com um obstáculo: a falta de maturidade emocional de grande parte dos estudantes.

Infelizmente, em nossa experiência acadêmica, nós ainda encontramos um tipo de estudante imaturo, dependente e que demonstra pouca capacidade de discernimento entre as notícias e informações que circulam na internet.

Recentemente, Jimmy Wales, cofundador da enciclopédia virtual Wikipédia, esteve no Brasil e declarou em entrevista para a BBC que ela já é usada de forma substancial por estudantes. “Sempre que falo com alunos universitários eles brincam: Nunca teríamos nosso diploma sem vocês”. Porém ele ressalta que deve ser uma parte importante da educação, já que tanta gente hoje se informa pela internet, nos assegurar que os jovens e crianças estão recebendo instruções para fazer isso da maneira correta.

Segundo Wales, as pessoas vão usar a Wikipédia quando saírem da escola de qualquer maneira, então é importante que sejam treinadas para isso.

Portanto, caberá também aos professores de EAD a tarefa de alertar seus alunos sobre a busca de fontes fidedignas, sobre a importância da pesquisa de temas e assuntos em sites confiáveis antes de formarem suas próprias opiniões, ou seja, orientar o caminho na busca por informações verdadeiras na análise desta nova realidade.

No passado, professores, livros e enciclopédias eram os detentores incontestáveis do saber. Cabia aos alunos ouvir e aprender. Hoje, diante do advento da internet, e de tantas e tantas possibilidades de comunicação, não podemos mais admitir alunos submissos que aceitem passivamente as informações sem a necessária reflexão.

Como exemplo desta nova situação de falsas informações divulgadas na rede, podemos citar o ocorrido no ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio de 2015, onde um trecho da obra “O Segundo Sexo” de Simone de Beauvoir (1908-1986) foi citado e causou grande polêmica. Como consequência, o verbete sobre a filósofa foi editado mais de trinta vezes na enciclopédia colaborativa. Alguns internautas tentaram “vandalizar” a página da Wikipédia, incluindo boatos duvidosos sobre Beauvoir.

Cabe aos usuários, analisarem as informações divulgadas e checarem o máximo possível sua veracidade. Esta é uma nova postura, que faz parte do novo perfil esperado principalmente de estudantes que se formam através da EAD.

Mas não só a área da educação está mudando radicalmente, e nem só os professores e estudantes tem que se adaptar aos novos tempos.

Na área da medicina, por exemplo, vemos frequentemente os médicos relatando que seus pacientes pesquisam seus sintomas antecipadamente no Google e discutem seu diagnóstico durante as consultas. Muitos esperam do médico apenas a “confirmação” de suas enfermidades. Estamos diante de um caminho sem volta, da chamada sociedade da informação, onde cada um vale o que sabe e o tempo não pode ser desperdiçado.

Como nos diz a música de Cazuza, O tempo não para (1988):

“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não para”

A QUESTÃO DA EVASÃO NOS CURSOS DE EAD

Este tema não poderia ser mais relevante quando tratamos de questões emocionais que interferem no aprendizado. É de longa data que os pedagogos, psicólogos e educadores preocupam-se com o lado afetivo na sala de aula.

Parece óbvio ressaltar que alunos bem adaptados ao ambiente escolar aprendem com mais facilidade. Porém, quando se trata de EAD nem sempre esta questão está sendo levada em consideração.

Em pesquisa realizada por ALMEIDA, em 2008 na UnB, sobre os motivos da evasão do Curso de Especialização em Esporte Escolar, detectou-se que 41% dos alunos desistentes alegaram que o principal motivo foi a falta de apoio e de feedback dos tutores.

Relatam que o tutor não deu feedback das atividades ou das avaliações. Consideraram que os contatos da tutoria foram insuficientes e que tiveram dificuldades para se comunicar com a tutoria, pouca ou nenhuma orientação para as tarefas. Relatos de insatisfação com a atuação da tutoria, muitos nunca tiveram contato com essa modalidade, o que dificultou ainda mais sem essa orientação inicial. Sentiram falta de encontros presenciais para melhor interação com os participantes e para tirar dúvidas. Não tinha a quem recorrer nos núcleos presenciais. A interação por meio dos fóruns de discussão também foi considerada insuficiente ou inexistente, não conseguiram interagir com os colegas e professores, muitas vezes a realização de chats ocorreu em horários incompatíveis com os horários de acesso do aluno. Alguns alunos afirmam ter elevado o custo de ligação interurbana para tirar as dúvidas com a tutoria, o que resultou em acúmulo de dúvidas.” (ALMEIDA, 2008)

No Censo EAD 2014, realizado pela ABED, a evasão foi apontada como principal obstáculo nesta modalidade.

Com relação aos obstáculos enfrentados em 2014, 116 instituições afirmam que o maior obstáculo foi a evasão dos estudantes. A resistência dos educadores à modalidade EAD, combinada aos desafios organizacionais de uma instituição presencial que passa a oferecer essa modalidade de ensino, aparecem em segundo lugar – sendo consideradas obstáculos para 80 instituições. Em terceiro lugar aparecem os custos de produção dos cursos, apontados por 77 instituições como obstáculo. (Fonte: Censo EAD 2014 – ABED)

A principal causa da evasão indicada pela maioria das instituições foi a falta de tempo dos alunos para estudo e participação nos cursos. Em seguida foi apontada a falta de adaptação à metodologia.

Pressupondo que ao ingressarem no curso de modalidade à distância, a grande maioria dos alunos já tivessem um conhecimento prévio sobre o tempo de duração do curso, sobre a disposição mínima que deveria ter para dedicar-se ao aprendizado, esta causa indicada como principal motivo da evasão torna-se no mínimo preocupante.

Se o aluno, ao matricular-se no curso EAD, já está informado de seu tempo de duração e de sua metodologia, não teria porque desistir antes de completar a jornada.

Lembrando que justamente a flexibilidade de tempo é uma das maiores vantagens de quem escolhe a formação à distância, como pode a falta de tempo também ser fator impeditivo para a continuidade do curso? Fica a dúvida se esta justificativa reflete realmente uma dificuldade dos alunos, ou uma “saída pela direita” quando surge a pergunta do motivo pelo qual o indivíduo abandonou o curso.

Esta realidade nos faz refletir novamente não só sobre a maturidade emocional dos alunos, mas também sobre a importância que as instituições estão dando para o estabelecimento de vínculo com e entre seus estudantes.

Percebemos claramente através destes resultados que as questões afetivas e emocionais na relação dos professores com os alunos na modalidade EAD são de fundamental importância para diminuir a insatisfação dos estudantes e consequentemente a evasão.

Infelizmente, ainda hoje nos deparamos com grandes universidades e instituições de ensino que investem muito em propagandas, em inovações tecnológicas, em ferramentas, mas esquecem do fator humano que o processo educacional exige. Não se trata de pegar na mão do aluno para ajudá-lo nos estudos de forma maternalista, mas sim de trabalhar no vínculo entre os alunos e a instituição, promovendo eventos, debates, e ações pedagógicas para que o aluno perceba que realmente faz parte de um grupo, e que não é só apenas mais um número do ambiente virtual. Quando o aluno envia uma mensagem para o professor/tutor, ele espera uma resposta direta, pessoal e rápida, independente do grau de complexidade de sua indagação. Se os professores demoram um, dois, três ou mais dias para responder ao aluno, dá margem para que ele comece a se questionar se está fazendo a escolha certa.

CONCLUSÃO

Concluímos que os alunos de hoje são nativos digitais, utilizam a tecnologia desde sempre, e estão preparados para usufruir dos novos tempos da educação à distância.

Para não cairmos no reducionismo de apenas passar e receber instruções, assim como na escola presencial, necessitamos sempre do auxílio de professores bem preparados para mediar a aprendizagem no ambiente virtual de forma realmente eficiente e significativa.

Atuando como facilitador, fornecendo informações, esclarecendo dúvidas, promovendo discussões e debates, buscando diversas estratégias pedagógicas a “figura” do professor é essencial neste processo. Mas não mais a figura de um professor inacessível, que o aluno só via nas vídeo aulas, ao contrário, um profissional capacitado, presente e comprometido com a educação.

Para resolver esta questão de proximidade entre professores e alunos, as universidades dispõem de professores autores ou também chamados de conteudistas, e professores tutores, responsáveis por este contato diário com os alunos, mais atuantes, resolvendo todos os tipos de questões e adversidades que possam surgir.

Assim, espera-se que em instituições de ensino que prezam pela qualidade, a atuação do professor tutor seja bem parecida com a do professor presencial, pois ele deverá estar disponível para a interação durante todo o curso, porém com um tipo de intervenção mais adequada à nova proposta pedagógica.

Ainda caberá aos estudantes tomarem para si a responsabilidade de seus estudos e irem em busca de meios e ferramentas para alcançarem seus objetivos, mas apoiados por um sistema de ensino sólido.

Por fim, concluímos que com dedicação e regularidade de estudos é possível obter formação de qualidade, oferecida por instituições de ensino sérias e competentes, sob a orientação de bons professores, sem sair do conforto do seu lar.

Chegará o dia em que o volume da instrução recebida por correspondência será maior do que o transmitido nas aulas de nossas academias e escolas; em que o número dos estudantes por correspondência ultrapassará o dos presenciais. (HARPER W., 1886)

REFERÊNCIAS

  • ABED. CENSO EAD. 2014. Relatório analítico da aprendizagem a distância no Brasil. Disponível em: www.abed.org.br
  • ALMEIDA, O.C.S. Evasão em cursos a distância: análise dos motivos de desistência. 2008. UnB.
  • BELLONI, M. L. Educação à distância. Campinas: Autores associados, 1999.
  • CARVALHO, Ana Beatriz . Os Múltiplos Papéis do Professor em Educação a Distância: Uma Abordagem Centrada na Aprendizagem. In: 18° Encontro de Pesquisa Educacional do Norte e Nordeste – EPENN. Maceió, 2007.
  • COSTA, R. Escolas devem treinar crianças para usar Wikipédia, diz fundador do site. Disponível em: http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/07/150622_jimmy_wales_ru.shtml
  • FERRARI, M. Émile Durkheim, o criador da sociologia da educação. Disponível em http:// revistaescola.abril.com.br/ formacao/ criador-sociologia- educação – 423124.shtml
  • GRAY, P. Free to Learn. Basic Books, 2013.
  • http://f5.folha.uol.com.br/voceviu/2015/10/1698601-apos-enem-verbete-de-simone-de-beauvoir-na-wikipedia-e-editado-mais-de-30-vezes.shtml
  • http://www.metodomontessori.com.br/
  • http://www.omb.org.br
  • JUNIOR, C.P.S. MASSENSINI, A.R. Não existe professor na modalidade EaD. Um mito a ser quebrado. Goiânia – GO – Abril 2011. Disponível em: http://www.abed.org.br/congresso2011/cd/268. Pdf
  • MACIEL, I.M. Inclusão digital: experiências e desafios com tecnologias de informação e comunicação. TEIAS: Rio de Janeiro, ano 2, nº 3, jan/jun 2001.
  • MEC. Referenciais de qualidade para educação superior a distância. 2007. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/seed/arquivos/pdf/legislacao/refead1.pdf
  • NETO, A.S. Educação à distância: um panorama. Acervo do IESDE BRASIL S.A., mais informações www.iesde.com.br
  • Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República. Pesquisa. Cerca de 48% dos brasileiros usam internet regularmente. 2014. Disponível em: http://www.brasil.gov.br/governo/2014/12/cerca-de-48-dos-brasileiros-usam-internet-regularmente
  • SEMESP. Pesquisa. 2015. O Ensino Superior e a EAD. Disponível em: http://abed.org.br/arquivos/Pesquisa_Semesp_D2L-1.pdf
  • UNIVERSIA. Pesquisa. 2013. Educação à distância tem menos credibilidade. Disponível em: http://noticias.universia.com.br/vida-universitaria/noticia/2013/05/10/1022681/educaco-a-distancia-tem-menos-credibilidade-veja-pesquisa.html

[1] Psicóloga

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