Ética existencial nas relações de trabalho: intervenção com grupos de servidores de hospital público

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ARTIGO ORIGINAL

COSTA, Rodrigo César [1], SCARAFIZ, André Henrique [2]

COSTA, Rodrigo César. SCARAFIZ, André Henrique.Ética existencial nas relações de trabalho: intervenção com grupos de servidores de hospital público. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 02, pp. 78-89 Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

No estágio curricular de Psicologia realizado em 2010, num hospital público de Maringá, foram feitas entrevistas com os chefes do local. O tema mais destacado foi sobre a ética nas relações de trabalho. Fundamentando no existencialismo sartreano, falar de moral e ética é falar do binômio liberdade/responsabilidade. Com esse objetivo de criar um espaço de reflexão, foi criada uma dinâmica que instigasse nos participantes a vivência direcionada à temática em questão. Materiais de uso dos profissionais, bem como uma escada foram utilizados para representarem a identidade do profissional. Um dos fenômenos que mais sobressaiu, foi o incômodo dos funcionários ao se perceberem em lugar superior aos demais. Podemos compreender, a partir deste fenômeno que, a falta de consciência reflexiva sobre como vivenciam o lugar de poder, é ratificadora do reconhecimento do olhar do outro que se encontra em cargos considerados de status social dentro do ambiente hospitalar.

Palavras-Chave: Psicologia do trabalho, sociabilidade, ética, existencialismo.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como objetivo apresentar uma técnica grupal, criada pelos autores deste artigo, para abordar a ética nas relações de trabalho, fundamentada nos conceitos do existencialismo sartreano. Tal intervenção justificou-se a partir do estágio curricular em Psicologia do Trabalho, do 5º ano, realizado em 2010, num hospital público de Maringá.

No primeiro semestre, os acadêmicos do grupo de estágio realizaram entrevistas semi-dirigidas com responsáveis de cada setor, para conhecer o fluxo do hospital e construir um fluxograma para ser apresentado no curso de Ambientação de futuros funcionários e estagiários do hospital. Para além do objetivo inicial do fluxograma, verificou-se ainda, através do levantamento das entrevistas, que grande parte dos entrevistados citaram a questão da falta de ética nas relações de trabalho e do não reconhecimento de alguns setores por parte de instâncias superiores do hospital.

Concomitantemente a esse levantamento, houve a possibilidade da participação dos estagiários em oficinas de Acolhimento com Classificação de Risco realizadas pelo hospital, sendo uma das etapas do Programa Humaniza SUS. Aproveitando as demandas levantadas, orientadora e grupo de estágio elaboraram uma técnica grupal objetivando trabalhar os temas do reconhecimento e da ética nas relações de trabalho, de acordo com os fundamentos do existencialismo sartreano, que serão apresentados a seguir. Todo o processo de criação, aplicação, vivência e análise das mesmas também serão apresentados, de maneira sucinta, no decorrer deste resumo.

1. BREVE CONTEXTUALIZAÇÃO DO EXISTENCIALISMO SARTREANO

Fundamentando-nos no existencialismo sartreano, para falar de moral e ética é necessário pontuar alguns conceitos. Sartre (1978), em sua obra O existencialismo é o humanismo, nos coloca os princípios do existencialismo, demonstrando o quanto o ser humano depende de crenças e normas para conduzir sua vida frente às angústias do desamparo. Este autor alega que muitos temem o existencialismo porque esta filosofia coloca o homem frente às escolhas e a responsabilidade por estas.

Sartre (1978) também critica aqueles que crêem que a essência precede a existência, demonstrando que esta afirmativa é inválida, questionável. Para alguns filósofos, o homem possui uma natureza própria, inata, como se fosse algo já adquirido, ou seja, a essência do homem precede sua história de vida, sua existência. Este mesmo autor alude que o homem se constitui ao passar do tempo, pelas suas escolhas, não sendo um ser acabado, o que o torna totalmente responsável pela sua existência. Este é um dos princípios básicos do existencialismo.

Além disso, o mesmo autor afirma que o fato de a existência preceder nossa essência nos condena a liberdade; fazemos nossas escolhas e nada temos para se agarrar, amparar e assim fugir de nossas responsabilidades; não existe o conceito de certo e errado, bom e mau, podemos escolher eleger o mundo da maneira que quisermos, mas somos responsáveis por nós e pelos outros pelas conseqüências destas escolhas. O fato de não existir um Deus, aquele que legitima o que é bom, que nos coloca valores, regras universais, deixa o homem livre, sem desculpas e justificativas para fugir das conseqüências de seus atos. Por isso, tendo a responsabilidade de sozinho se realizar e se construir, o homem se depara com a angústia, o desespero e o desamparo.

No entanto, faz-se necessário pontuar que o homem sartreano é compreendido como um homem em situação, pois existe um mundo e outras pessoas também livres, que oferecem resistência à sua liberdade, com isso, a liberdade também ganha um status de ser situada no mundo, e é pelo mundo oferecer resistências ao homem que este pode exercer sua liberdade para transcender o que já está posto e assim, mudá-lo, construindo uma nova história.

Deparando-se com outras consciências livres, respeitar o outro é reconhecê-lo por esta mesma condição ontológica. O outro sendo também livre, pode realizar escolhas diferentes das minhas, logo é um Ser diferente de mim, o que atribui o sentido da alteridade, conforme coloca Sartre (1997) de que o outro é a consciência que eu não sou . Dessa maneira, ao reconhecer o outro enquanto aquele que não sou, entende-se que o outro me vê e não somente eu o vejo. Ser olhado pelo outro é ser visto por um Ser diferente de mim, e com isso se reconhece que o outro é essa consciência de mim colocada no mundo, que me subjetiva enquanto um Ser. Reconhecer a humanidade do outro, é reconhecer esta diferença, um reconhecimento pautado no respeito pelo outro, não devendo imperar sobre ele algum tipo de controle.

O reconhecimento da alteridade e a ética então, só existem em função da relação com o outro. Sem elas, “Eu” e o “Outro” seríamos a mesma coisa. Nesse sentido diz Hegel (citado por Perdigão, 1995, p.142) que “nada somos sem o Outro. Se eu nunca me soubesse pelo Outro, jamais me sentiria objetivado, melhor, jamais me saberia situado em determinado espaço, entre as coisas do mundo, existindo concretamente, como corpo físico”. Dessa forma, para que eu me reconheça, o Outro é condição sine qua non, pois sem o olhar dele não tenho conhecimento de mim mesmo, ou seja, o outro é quem me situa como corpo propriamente dito. Nesse sentido, ser visto é saber que existo.

O existencialismo sartreano coloca uma diferença entre consciência e conhecimento. Conhecer o outro e a mim não implica, necessariamente, ter consciência de como conheço ambos. Nessa leitura, segundo Freitas (2009), o ser humano possui inúmeras possibilidades de significar o mundo e manifestar-se nele. Por isso, a consciência humana sempre visará um futuro, buscando atingir um fim que estará relacionado ao projeto que o homem possui. Desse modo, além de ser intencional, a consciência humana também é atemporal, uma vez que não é linearidade entre passado, presente e futuro. A consciência dará sentido ao tempo de acordo com o que o homem buscará na realização de seu projeto e de suas escolhas.

Saber o modo como significamos o mundo e fazemos nossas escolhas, de acordo com a autora, é ter uma consciência reflexiva sobre nossos projetos, sobretudo para que seja possível transcendermos ideologias e construirmos novas relações. Freitas (2009) afirma que, no entanto, supostas verdades podem ser corroboradas quando essa consciência é irreflexiva, captando somente o objeto no mundo, e não refletindo sobre o sentido desta escolha. Por isso, ter conhecimento é diferente de ter consciência, pois o primeiro só ocorre a partir do momento em que a consciência capta o objeto, o conhece por posicionar este objeto no mundo, mas não é posicional de si (consciência).

Para conhecermos como escolhemos conhecer o mundo, há a necessidade de posicionar nosso próprio conhecimento sobre algo, no mundo. Com este movimento é que há a possibilidade da consciência ser reflexiva de si. No ato de reflexão, o que será posicionado no mundo será a própria maneira como escolheu conhecer o objeto, sua intencionalidade, seu projeto com esta ou aquela maneira de conhecer, criando assim a consciência reflexiva. Somente a partir deste conhecimento de si e do assumir como seu a responsabilidade pela liberdade em intencionar o mundo dessa maneira é que tornar-se possível qualquer mudança consciente, logo responsável. Ainda que, o ser humano não intencione a reflexão, não o isenta de sua responsabilidade sobre o mundo.

Segundo Freitas (2009), o existencialismo sartreano apregoa que há uma relação dialética entre homem/mundo (interiorização do exterior e a exteriorização do interior), o que delega ao homem o estatuto de um Ser dialético. Sendo o ser humano responsável pelas escolhas que faz para si, bem como pelas escolhas que faz do mundo, “não basta conhecer o mundo, mas tem que se ter a capacidade de alterá-lo” (Freitas, 2009, p. 162). Através da relação dialética há a condição de transcender o que já foi construído historicamente pelo homem, construindo assim uma nova história, por isso, o homem sartreano também é concebido como um Ser histórico.

Outra questão levantada por esta autora (2009) remete à diferença entre social e sociabilidade. Esta última seria as relações (práxis) entre os homens, cujo resultado seria uma tese, ou seja, algo estanque, prático-inerte e histórico e assim considerado social. Regras, valores, leis, teorias, conceitos, modismos, normas, enfim, o social abarcaria as verdades objetivas, entendidas por muitos como aquelas que devem determinar nossa existência no mundo. Na concepção sartreana, isso é um paradoxo, haja vista que o social seria uma das próprias condições da liberdade. Como falamos anteriormente, se a liberdade só existe em função de resistências, conceber o social como algo determinante é uma maneira livre de escolher como se condicionar.

Como exemplo, podemos trazer o conceito de grupo. Este é uma forma de estrutura social, mas muitos compreendem o grupo como uma entidade, um Ser maciço, que não mais contém em si as individualidades, como se estas fossem diluídas nesse, desvanecidas no social. No entanto, Sartre (citado por Perdigão, 1995) discorda que para se pensar o social percam-se as individualidades.

Ao falar sobre a dialética dos grupos, Sartre (2002) coloca que no mundo existem algumas experiências que nos fazem sentir em comum com os outros. Para este autor existem três experiências do nós, com as quais sentimo-nos nessa comunhão: o nós-sujeito, o nós-objeto e o ser-com.

Para vivenciarmos a experiência do nós, é mister haver uma identificação entre as pessoas por estarem na mesma situação. No nós-sujeito posso vivenciar um destino comum com outros, aceitando-me como indiferenciado ao realizar um projeto que foi imposto por outros e/ou quando eu e um outro observamos fora de nós um objeto comum ou alguma experiência externa a nós.

Já o nós-objeto surge a partir do momento em que eu e outro (ou outros) somos vistos de fora por um terceiro, que não nos distingue. Perdigão (1995, p. 208) afirma que “toda situação humana envolvendo mais de uma pessoa é vivida como ´nós` de maneira objetiva desde que aparece um terceiro excluído e nos apreende como integrados em um todo”.

Já a experiência do ser-com, segundo o autor (1995), seria a vivência de uma experiência em particular, independente dos outros estarem ou não conscientes de nós, sentimo-nos com os outros, compartilhando. Refere-se a uma experiência psicológica, relacionada ao meu ser, pois mesmo estando juntos as consciências permanecem isoladas e, esse recurso transmite nosso desejo e uma unidade real, mesmo que esta nunca se realize.

O grupo como unidade nasce da relação da atividade prática de seus membros em um único movimento dirigido a um fim comum. O grupo como práxis se dá dessa maneira, pois é através dos terceiros mediadores que autoriza que a práxis individual se converta em práxis comum. No grupo ocorre a identidade da ação, visto que cada membro se reconhece na ação comum de todos, e é somente através desta que cada um desfruta o mesmo projeto dos demais.

O grupo baseia seu modelo no organismo do indivíduo tentando imitar esta unidade biológica através de sua ação, passando a idéia de um superorganismo vivo, mais poderoso que o organismo individual. Porém, para Sartre (2002), o grupo não pode se organizar como um Ser objetivo e concreto, visto que jamais consegue alcançar esse status devido a sua constituição que “só se pode explicar pela incessante atividade de uma multiplicidade de práxis unidas para fins comuns pela constelação de membros unificadores-unificados e pela tensão imanência-transcendência” (Perdigão, 1995, p. 219).

O drama do grupo é mesmo que o do indivíduo, que é buscar sempre esse estado de Ser concreto, procurando a segurança de um superorganismo. O grupo não quer ser o que é na realidade: uma práxis em contínuo desenvolvimento. Pois, para Sartre (2002), a práxis comum está sempre inacabada, uma totalização-em-curso que só torna-se finita se deixar de existir; ou seja, se morrer.

Diante de todos esses conceitos, a questão da ética perpassa por todas as esferas, e sobre isso, podemos entender ética para Sartre, de acordo com Bueno (2007), a partir da consideração do homem que Faz (atua no mundo), É (como vivifica sua auto-imagem) e Tem (projetos concretizados). Dessa forma, não há uma moral que possa nos dizer seguramente o que decidir, uma escolha sempre implica na não escolha de outra coisa e, portanto, resta ao indivíduo apenas assumir as conseqüências de sua escolha.

Todavia, e como falamos anteriormente, o homem livre para escolher está historicamente situado em um contexto específico, e ainda, não está sozinho nesse mundo, então, conforme Bueno (2007), exatamente pela existência do outro é que o homem está livre, ou seja, quando o outro surge diante do Para-si, como resistência, surgem diversos tipos de relações, uma vez que o outro é quem nos faz ter consciência de quem nós somos.

Por existir o outro é que se pode pensar em uma ética e uma moral, dessa forma, este conceito está intimamente ligado às relações sociais e, para Bueno (2007), o pensamento sartreano considera o homem na sua liberdade, porém “a conduta ética do homem sartreano não é por causa do outro, mas sim uma conseqüência da liberdade e da responsabilidade do indivíduo” (p. 99). Ainda de acordo com o autor (2007), é a partir da inserção do homem no mundo que ele vai eleger valores para sua vida, isso culminará com o fato de que o homem é livre para escolher, é uma escolha situacional e minha liberdade implicará na liberdade dos outros.

Bueno (2007) considera que cada ação do homem no mundo irá permitir atribuir um valor para cada uma dessas ações e escolhas. É através da relação com o homem e deste com o mundo, que surgem os valores éticos, porém, para o pensamento sartreano, não existe uma lei que diga o que devemos ou não realizar, ou como devemos proceder, ou que devemos respeitar o outro. Assim, será o próprio homem que também escolherá o que pode determinar sua vida. Vemos aqui então, que o próprio condicionamento é uma escolha livre do homem, produto desta escolha, não existindo (o condicionamento), como uma força natural, emanada do social.

No mundo do trabalho também podemos visualizar a questão da ética e da limitação dada pelo outro, sobretudo pelas construções das divisões sociais do trabalho, reconhecidas e ratificadas pelos indivíduos. A redução dos espaços no mercado de trabalho e posições prestigiadas são construções que corroboram o cerceamento das possibilidades do homem, exercendo uma resistência a liberdade deste.

Freitas (2009) observa que, embora exista essa concepção de ser humano livre, esta não é harmônica com a realidade do mundo do trabalho. Isto porque as classes hegemônicas tendem a temer que a liberdade do outro exerça resistência aos seus projetos de se manter no poder. Desse modo, “a tentativa de objetivar o Outro é uma maneira de se tentar aniquilar a liberdade alheia, porém, como esta última é condição ontológica do ser humano, ela não é extirpada” (Freitas, 2009, p. 163).

Freitas (2009) também pontua que os valores capitalistas tendem a ser reconhecidos como balizadores dos valores do mundo e do próprio homem. No projeto capitalista, a hegemonia do lucro é colocada acima do valor do trabalho, e por isso, instituiu o ter para preencher as faltas do ser humano. No entanto, as coisas em si não possuem onipotência para totalizar o homem, que buscará sempre demais objetos para satisfazer-se e fugir de seu vazio.

Embora o vazio seja considerado por Sartre (1997) como condição ontológica humana, a ética capitalista impõe que o foco do projeto do homem seja dado antes ao objeto, e não a sua humanidade. Dessa forma, conforme Freitas (2009), vêm-se criando pela ética capitalista, indivíduos intolerantes diante da angústia e da responsabilidade por suas escolhas. O Ter ao sobrepor-se ao Ser, mostra a dinâmica do indivíduo que opta por valorizar primeiramente os produtos e status, como se fossem necessários agregá-los a sua imagem para que este obtenha o seu devido valor, assim mantém-se a lógica do capital que corrobora a idéia preconcebida de homem, e sobre como ele deve agir para ser conforme o instituído.

Contra esse movimento capitalista, a ética existencialista traz em seu âmago o conceito de que a liberdade surge do nada, e que nenhuma idéia precede o indivíduo. É esse nada que traz tantos problemas para lidar com a liberdade do outro, pois ele pode ser tudo aquilo que não sou.

Instituições públicas ou privadas abarcam esse conflito e o trabalhador pode sentir-se desamparado ou com possibilidades restritas diante do projeto opressor da instituição. E por esse motivo, Freitas (2009) propôs que a Fenomenologia-existencial, através do psicólogo, possa ajudar o trabalhador, dentro de suas possibilidades, a ter consciência reflexiva de seu projeto, transcendendo dificuldades e responsabilizando-se por suas escolhas.

Comungando com esta proposta é que propusemos a técnica que passamos a relatar a seguir.

2. TRABALHANDO A TÉCNICA DA ESCADA COM OS SERVIDORES

A criação desta técnica e sua temática justificam-se considerando a demanda observada através das entrevistas realizadas no hospital quanto ao reconhecimento e a questão ética, e de que a Fenomenologia-existencial, assim como disse Freitas (2009), pode auxiliar o trabalhador a ter consciência reflexiva de seu projeto e realizar escolhas possíveis, e bem como afirmou Sartre (1978), a ética só acontece na relação e, por esse motivo, orientadora e estagiários puderam vislumbrar na dinâmica uma forma de facilitar a vivência pelo grupo das questões propostas.

Em relação à escolha do material, pode-se notar que o uso da escada foi propício para simbolizar a ascensão profissional, bem como a utilização de objetos do cotidiano dos servidores. Visto que, assim como propõe Freitas (2009), o homem instituiu valores as coisas externas a si, como preponderantes a própria práxis (vivências) com seu trabalho e a própria condição humana, os objetos hospitalares que acabam por definir e distinguir os trabalhadores em seus cargos e níveis sociais foram utilizados com o intuito de observar se teriam mais valor que o afeto e o reconhecimento do humano pelos companheiros de trabalho. Além disso, tinham por objetivo incitar as pessoas para a tomada de consciência de que sempre estamos em relação com o outro e que nossa percepção sobre nós mesmos depende desse olhar do outro, que nos define. Muitas vezes sentimo-nos no vazio por conta dessa valorização ser direcionada somente àquilo que é material, do que é posicionado no mundo, externo a nós e tentamos nos preencher com isso, ao invés de percebermos o outro que está ao nosso lado e que nos auxilia em nossas conquistas.

2.1 DESCREVENDO A DINÂNICA DA ESCADA

Para a técnica, utilizamos materiais de uso comum a um determinado cargo, como por exemplo o de enfermeiro(a), tais como um jaleco, um aferidor de pressão, uma caneta, um prontuário, uma máscara e uma touca, e uma escada contendo o nome de cada um destes instrumentos em seus degraus, a fim de representarem, respectivamente, a identidade do profissional e sua ascensão.

Os passos para a execução da dinâmica foram os seguintes: (1º) pediu-se a um voluntário que saísse da sala, acompanhado por um dos estagiários, a fim de garantir que não escutasse as instruções dadas aos demais que permaneceram nessa; (2º) na sala, arrumou-se a escada, contendo em cada degrau o nome escrito de um acessório que precisava ser pego para obter a ascensão profissional. Esses acessórios foram distribuídos entre os integrantes do grupo para que posteriormente os entregassem ao voluntário em hora oportuna; (3º) o grupo foi informado que o voluntário, ao retornar à sala, seria instruído que, para subir o próximo degrau, deveria solicitar o acessório cujo nome estava escrito no respectivo degrau; (4º) ao solicitar o acessório, o participante do grupo que o detinha, deveria entregar-lhe, dizendo ao voluntário, qualidades ou coisas boas que reconhecia neste. Este mesmo processo se sucedeu até o voluntário chegar ao topo da escada; (5º) ao chegar no topo, foi perguntado ao voluntário sobre suas vivências naquela condição e a cada degrau galgado; (6º) após sua colocação, solicitou-se que descesse da escada e que, a cada degrau, retirasse cada acessório que conquistou; (7º) chegando ao chão, pedimos para que o voluntário falasse o que quisesse para as pessoas que o forneceram os acessórios; (8º) por fim, abriu-se a discussão para todos os participantes do grupo, direcionando-as para a temática da ética relacional.

3. VIVÊNCIAS, RESULTADOS E ANÁLISE COMPREENSIVA

Tivemos a oportunidade de aplicar esta dinâmica com cinco grupos que participavam das oficinas de Acolhimento com Classificação de Risco, coordenadas por profissionais do hospital. Ao longo dessas experiências, o grupo pôde vivenciar sentimentos distintos, uma vez que a cada dinâmica, diferentes trabalhadores participavam, o que enriqueceu ainda mais os conteúdos verificados para uma posterior análise. Porém, alguns fenômenos comuns, que serão explicitados posteriormente, puderam ser observados em todas as práticas.

A primeira realização da técnica causou grande angústia em nós, estagiários. Além da ansiedade em ser a primeira tentativa de colocá-la em prática, a trabalhadora que representou a ascensão profissional na escada, não se colocou como voluntária, mas aceitou por indicação e pressão dos demais colegas. Observamos nesta dinâmica, um triplo movimento onde não houve a intenção de todos assumirem a responsabilidade por suas escolhas. Dos participantes em apontar alguém, a fim de se omitirem da exposição e por quaisquer outros motivos não expostos ou percebidos; da servidora indicada, por aceitar em participar, mesmo não querendo, e de nossa parte, quando ao perceber a dinâmica grupal, não ter interferido de maneira direta, realizando a redução fenomenológica e expondo o projeto real do grupo. Não interferindo, fomos também coniventes com o jogo proposto pelo grupo. Diante tal situação, cujos projetos eram de omissão de uns e de não frustração do outro por parte da servidora, ficou claro que não havia a intenção do envolvimento com a técnica, o que não possibilitou o envolvimento também dos participantes com a discussão sobre a ética, uma vez que, com esta, poderiam ser deflagradas suas escolhas, respaldadas no não assumir a responsabilidade sobre as mesmas.

Com a nossa pouca experiência com a dinâmica, haja vista ser a sua primeira aplicação, também nos colocamos omissos quanto a pontuar, mais uma vez, a escolha pelo não envolvimento, observada por nós de acordo com as ações dos participantes. Outro agravante, foi o curto espaço de tempo disponibilizado para dinâmica. Já nas demais experiências, fomos adquirindo maior habilidade em executar a técnica, aproximando-nos mais dos participantes e articulando melhor as discussões com o tema proposto.

Observamos que nas dinâmicas também existiu uma tendência a valorizar a pessoa de acordo com os instrumentos de trabalho agregados ao voluntário e este, por sua vez, quanto mais incorporava os objetos e a profissão, mais sentia-se distanciado dos outros e do seu lado humano, não reconhecendo que foi através das outras pessoas, ao lhe darem os instrumentos, que pôde ascender.

Outro fenômeno observado durante as experiências vivenciadas referiu-se à dificuldade dos participantes dizerem palavras de carinho na entrega dos instrumentos. Foi atribuído mais valor aos instrumentos do que aos elogios, ou seja, ao invés de elogiarem o voluntário, o cumprimentavam verbalmente, parabenizando-o pela ascensão, ou somente entregavam o objeto, sem nada colocarem. Podemos supor também, que o olhar do outro sendo cúmplice de um reconhecimento, inclusive expresso pelo afeto, pode causar vergonha a quem diz, uma vez que o reconhecimento, o carinho, o afeto podem estar associados a menos-valia, a rebaixamento na auto-estima, como se ao fazerem isso, se sentissem mais inferiorizados, em um lugar do não-poder.

O que a dinâmica favoreceu foi o emergir do fenômeno da dificuldade das pessoas ali presentes em se mostrarem e reconhecerem o outro enquanto subjetividade. O receio do que os outros pensariam sobre suas colocações, ocasionou comportamentos que expressava o interesse em controlar a liberdade dos outros para que não pensassem o que não deveriam. Assim, tendiam a objetivar o outro, relacionando-se com o status da profissão em primeiro plano, de maneira impessoal, sendo poucos dos que entregaram o objeto, aqueles que expressaram subjetivamente um afeto construtivo.

Dessa maneira, o voluntário era reconhecido pelo objeto que lhe era entregue, e não por uma palavra carinhosa que expressasse um reconhecimento pessoal. Em todas as vezes que a dinâmica foi realizada, o voluntário também reconhecia o outro que lhe entregava fazendo uma relação entre a pessoa e o objeto, e não através de uma relação direta sem a intermediação do objeto, ou, como ocorreu em alguns casos, nem se lembrava quem era o outro que lhe entregara o objeto. Neste sentido, surgiu-nos a questão do quanto o embate direto entre os olhares, mesmo com a possibilidade de uma qualidade boa, realmente é ameaçador e para isso há a necessidade de ser mediado por coisas externas as pessoas. Por exemplo, nos relacionamos com o outro pela função que ela ocupa, cuja percepção, imaginação ou emoção sobre ela, enfim, a maneira de apreendê-la e significá-la, dá-se pelo status já instituído, ficando a pessoa como pano de fundo.

Destarte, um ponto relevante a ser comentado, refere-se à vivência dos voluntários ao subiram a escada. Observamos que estes se sentiram incomodados com a posição superior que ocupavam frente aos demais, mesmo que simbólica. Vemos aí uma contradição vivida, uma vez que, mesmo podendo desejar o poder, nem todos conseguem vivenciá-los de maneira confortável.Como se este lugar não fosse identificado por ele, como sendo dele.

E diante tal vivência, bem como reportando-se a teoria de Sartre (citado por Perdigão, 1995) sobre a ilusão do nós, pode-se dizer que este participante enquanto estava no topo da escada, viu-se sozinho, uma vez que daquele lugar não vivenciou a experiência de nós, por não poder identificar-se com os demais e com mais ninguém que ali se encontrava. Sozinho, poderia sentir-se objetivado pelos demais, que, por sua vez, poderiam estar vivenciando o nós sujeito, tornando-se um grupo em confronto com a individualidade do voluntário. Enquanto que em um status social menor, semelhante aos dos demais presentes na sala, o voluntário poderia sentir-se um ser-com, compartilhando uma experiência psicológica relacionada ao seu ser, mesmo estando com sua consciência isolada.

Enquanto grupo como um todo, em um mesmo nível hierárquico, sentimos a vivência comum do nós-sujeito, diante algumas das críticas realizadas por eles, sobre as relações de trabalho. O sentimento de pertencerem a um grupo, a um superorganismo, fez sentirem-se como mais poderosos que um organismo individual, além de em maior segurança.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Considerando que a ética pode ser definida pelo respeito ao outro como alteridade, foi possível constatar com a discussão da dinâmica, que, além dos servidores não se sentirem reconhecidos por aqueles que possuem uma posição de maior status, também não se sentem confortáveis quando o status lhe é atribuído sem que se identifiquem na posição. No entanto, a maneira de transcenderem a ameaça do olhar do outro que se encontra no poder, dá-se somente pela vivência do nós, ao proporcionar-lhes a sensação de um superorganismo que, junto com outros, não se sentem sozinhos.

Contudo, a escolha ilusória de transcenderem o perigo, ao sentirem-se pertencentes a um grupo, que pode suscitar-lhes uma vivência de poder e com isso, imaginarem o perigo diluído, contrária a uma situação em que se encontram sozinhos, somente os ilude sobre a resolução do problema da falta de reconhecimento e ética relacional, uma vez que, também os participantes repousam seus valores no que institui o capitalismo na sua divisão social do trabalho. Melhor explicando, não têm consciência reflexiva de que os valores que atacam são os mesmos que balizam suas ações no mundo, as quais detêm um poder mantenedor da situação ao invés de transformador.

Apesar de este fenômeno ser clarificado a eles, também temos os nossos limites frente ao outro, o que significa que a reflexão por parte dos participantes se dará diante a intencionalidade deles perceberem como também significam as relações de trabalho e agem diante essas, escolhendo sair ou não do lugar de vítima que se colocam, para assumirem-se também como construtores deste tipo de relação em que o ser humano não é reconhecido, respeitado e dignificado pela sua própria humanidade.

REFERÊNCIAS

Bueno, I. J. (2007). Liberdade e Ética em Jean-Paul Sartre. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Pontifícia Universidade Católica, Rio Grande do Sul.

Freitas, S. M. P. (2009). O psicólogo do trabalho no mundo das práxis capitalista: reflexões fenomenológico-existenciais. Revista da Abordagem Gestáltica. XV(2): 157-168, jul-dez.

Perdigão, P. (1995). O Outro. In: Existência e liberdade: uma introdução à filosofia de Sartre. Porto Alegre: L&PM. p.136-155.

Sartre, J. P. (1946). O existencialismo é um humanismo. Trad. Vergílio Ferreira. São Paulo: Abril Cultural, 1978.

________. (1997). O Ser e o Nada: ensaio de Ontologia Fenomenológica. 2 ed., Ed. Vozes: Petrópolis, Rio de Janeiro.

________. (2002). Crítica da Razão Dialética. Rio de Janeiro: DP&A.

[1] Doutorando, mestre, especialista e graduado em psicologia.

[2] Mestre e graduado em Psicologia pela UEM.

Enviado: Fevereiro, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

 

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